Cantigas de “desamor”:
relacionamentos amorosos conturbados
nas cantigas de Joan Ayras de Santiago

Carlos Eduardo Soares da Cruz [1]
UFRJ - Brasil

eduardodacruz@gmail.com


 

   
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Resumo: O presente trabalho analisa algumas cantigas do poeta medieval Joan Ayras de Santiago, demonstrando a importância da figura feminina nas mesmas e de seu papel no relacionamento amoroso e na relação sexual. Assim, pode-se ver como a análise dessas cantigas podem contribuir para uma melhor compreensão da sociedade da Península Ibérica na Idade Média.
Palavras-chave: Identidade Feminina, Idade Média

Resumen: El presente trabajo analiza algunas cantigas del poeta medieval Joan Ayras de Santiago, demostrando la importancia de la figura femenina en las mismas y de su papel en la relación amorosa y en la relación sexual. Así que, se puede ver como el análisis de esas cantigas puede contribuir para una mejor comprensión de la sociedad de la Península Ibérica en la Edad Media.
Palabras claves: Identidad femenina, Edad Media

Abstract: This work presents an analysis of some poems of the medieval poet Joan Ayras de Santiago, showing the importance of the female´s figure on his poems, its role in love and sexual relationships as well. Therefore,it states that the analysis of this kind of poem can contribute for a better comprehension of the medieval society in the Iberic Peninsula.
Keywords: Female Identity, Middle Ages

 

Aos leitores do século XXI, envoltos em toda a problemática do caos do mundo moderno e sofrendo essa época de crise do capitalismo avançado, pode parecer muito distante a Idade Média. O ideal de progresso, o avanço, a linearidade temporal e a certeza racional advinda da ciência, características propagadas pela Modernidade, não são compatíveis com o mundo medieval que se pode descortinar a partir de sua Literatura. Apesar da crise desses valores modernos e das conseqüências desse modelo de pensamento como a fragmentação do tempo, o esfacelamento do sujeito e a reificação das pessoas e suas relações, transformando tudo e todos em mercadoria, continuam estranhos ao homem contemporâneo a forma de vida e o modelo de pensamento da era medieval. O que se imaginava então era um mundo ordenado por um plano superior. A sociedade, com fortes características teocêntricas, vivia sob a ótica de um Deus onipresente, onipotente e onisciente que estipulava um plano divino ao qual tudo e todos se relacionavam. Assim, na vida do homem medieval a realidade e a metafísica não estavam separadas, mas interligavam-se continuamente.

Como a sociedade era diferente da nossa, os autores viam-na de forma diferente da vista pelos escritores da atualidade, criando então, em sua obra, um mundo com regras diferentes das esperadas pelo leitor do século XXI. Assim, cabe ao crítico, que é antes de tudo um leitor atual de uma obra com vários séculos de idade, tentar fazer uma ponte não apenas entre o texto e o mundo no qual e para o qual ele foi criado, mas também entre esse mundo e o atual. Com isso, espera-se que seja mais fácil ao leitor moderno compreender a riqueza de uma obra escrita em um período histórico muito distinto do seu.

É comum que se espere da lírica uma desvinculação do social, encarando-a apenas como fruto da subjetividade e valorização da forma e da linguagem, que seria a beleza da poesia. Contudo, é possível fazer uma interpretação social da lírica, não para provar ou buscar uma análise da sociedade a partir da obra de arte, mas para aprofundar o entendimento da poesia a partir de sua relação com a sociedade. O crítico deve então estabelecer “como o todo de uma sociedade, tomada como unidade em si mesma contraditória, aparece na obra de arte: mostrar em que a obra de arte lhe obedece e em que a ultrapassa” (ADORNO 2003: 67).

Dessa sociedade chegaram aos dias de hoje alguns textos. Desses, podemos destacar as cantigas trovadorescas da Península Ibérica na Idade Média, que são escritas em galego-português. Elas podem ser divididas em alguns tipos, conforme a “Arte de Trovar”.[2] A grande maioria das cantigas trata do relacionamento amoroso, tanto as de amor quanto as de amigo. Apesar de ambas serem escritas por trovadores masculinos, o eu-lírico pode ser de dois gêneros, dependendo do tipo de cantiga. Nas cantigas de amor, onde o eu-lírico é masculino, encontramos a confissão do sofrimento amoroso pelo amor impossível por uma senhora, geralmente de classe social superior ou casada. A atitude do eu-lírico caracteriza-se pela vassalagem amorosa, de acordo com as regras do amor cortês, com marcante influência provençal. Diferentemente, nas cantigas de amigo as mulheres são acessíveis, geralmente do povo, correspondendo, muitas vezes ao amor de seu amigo. Estas cantigas parecem encaixar-se mais na tradição dos povos ibéricos, com alguma influência árabe. Apesar da entrega amorosa, seu relacionamento é geralmente encoberto metaforicamente para que ela não fique mal falada. Então, é comum encontrar referências simbólicas ao amor carnal com seu amigo em vez de explicitá-lo.

De qualquer forma, mesmo que esse tipo de cantiga com emissor feminino permita a concretização do amor, como todo relacionamento amoroso, tal como acontece até hoje, há crises conjugais, como podemos perceber em várias cantigas de Joan Ayras de Santiago. Nascido provavelmente em Santiago de Compostela, na Galiza, na segunda metade do século XIII, esse poeta parece ter-se dedicado à temática dos problemas conjugais, pois esta predomina em suas cantigas, majoritariamente de amigo. Há desde a dúvida do eu-lírico feminino sobre entregar-se ou não ao amigo, à questão da traição e da dúvida sobre a fidelidade, tanto da mulher quanto do homem. Além disso, podemos ver que, apesar dessa aparente liberação sexual, a sociedade não a aceitava muito bem, pois a mulher que era vista falando com um homem era recriminada e sobre ela suspeitas eram levantadas.

Assim, podemos ver, a partir da análise de algumas cantigas desse trovador, não apenas como se davam os relacionamentos amorosos na Península Ibérica na época medieval e como esses eram vistos pela sociedade, mas também a crítica que se destaca na obra desse autor à figura feminina e seu aparente descomprometimento com o amor cortês de vassalagem que seria praticado pelo homem. Para isso, dividiremos as cantigas a partir de algumas vertentes, sendo elas: a realização do amor a partir da prática sexual; o falar com o amigo; e a infidelidade amorosa. Além disso, veremos uma possível motivação para a predominância do tema da infidelidade amorosa nas cantigas de Joan Ayras a partir de uma cantiga de tenção, uma de mal-dizer e uma de escárnio, todas também do mesmo poeta.

 

Bem ou Mal: a questão da liberdade sexual feminina nas cantigas de amigo

Nas cantigas de amor, este não chega a ser realizado, pois a mulher é normalmente inatingível por diversos motivos, representando as regras sociais aceitas na vida das cortes medievais européias. Entretanto, nas cantigas de amigo, com uma temática mais campestre e popular, as mulheres são mais humanas, não apenas pela maior proximidade entre o amigo e sua senhora, sem os impedimentos sociais, mas pelo próprio lugar da mulher em sua própria vida. Nessas cantigas, apesar do autor ser masculino, aparece uma voz feminina que expressa os sentimentos, questionamentos e desejos da amiga.

Assim, podemos perceber como a mulher nas cantigas de amigo pode ter uma maior liberdade sexual, inclusive impondo seu desejo ao homem, como na cantiga abaixo:

O meu amigo, forçado d'amor,
pois agora comigo quer viver
ua sazon, se o poder fazer,
non dormha ja mentre comigo for
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir

E que ben quer seu tempo passar
u é con sa senhor, non dorme ren;
e meu amigo, pois pera mi ven,
non dormha ja mentre migo morar
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir

E, se lh'aprouguer de dormir alá
u el é, prazer mh á, per bõa fe,
pero dormir tempo perdudo é,
mais per meu grad'aqui non dormirá
ca daquel tempo que migo guarir
atanto perderá quanto dormir

E, depois que s'el de min partir,
tanto dormha quanto quiser dormir [3]

Nessa cantiga, a amiga diz que o amigo quer viver com ela por estar “forçado de amor”. Esse tempo de convívio implica em dormirem juntos, mas ela não quer simplesmente dormir, ao menos não no significado literário desse verbo. Pois, para ela, o tempo que ele passar com “sa senhor”, ela, não dormirá nada, pois ele perderá o tempo que dormir. Assim, o tempo em que eles estiverem juntos, caso ele passe dormindo, será tempo perdido. Ele que durma o quanto quiser depois que não estiver mais com ela.

A mulher está, portanto, mais interessada no que ela pode fazer com o amigo do que na vontade deste em dormir. O que mais eles poderiam fazer em vez de perder tempo dormindo? Seu prazer sexual está em jogo, por isso ela assume o controle do relacionamento e deixa claro que o que o amigo não deve fazer enquanto estiver com ela é dormir.

Apesar dessa aparente liberalidade na questão sexual feminina, a sociedade não é tão permissiva quanto se pode levar a crer pela cantiga acima, tanto que, em algumas cantigas, a mulher se pergunta se deve mesmo “fazer bem” ao amigo, como na cantiga abaixo:

Morredes, se vos non fazer ben,
por min, amig', e non sei que vos i
faça, pero muitas vezes cuid'i
e deste preito vedes que mh aven:
é mi mui grave de vos ben fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer

Ben non vos pode de morte guardar
e sei ben que morreredes por mi
se non ouverdes algun ben de mi;
e quant'eu ei en tod'est'a cuidar:
é mi mui grave de vos ben fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer

Se vos non fezer ben, por mi amor
vos matará, ben sei que será assi,
mais ben vos jur'e digo vos assi,
se Deus mi leix'én fazer o melhor:
é mi mui grave de vos ben fazer
e mui grav'é de vos leixar morrer

E rog'a Deus, que á end'o poder,
que El me leix'end'o melhor fazer [4]

Nessa cantiga o eu-lírico feminino depara-se com dois problemas: fazer bem ao amigo, ou deixá-lo morrer. Afinal, segundo ela mesma diz, fazer bem ao amigo é algo mui grave. Que gravidade poderia ter fazer bem se não fosse algo com conotação sexual? E é na tentativa de fazer com que a amiga ceda aos seus desejos e lhe faça bem que o amado diz que vai morrer se não obtiver o que deseja. Mas essa mulher mantém-se preocupada, pois não quer deixá-lo morrer, e sabe das complicações de fazer o que ele quer. Além disso, ela sabe que não é por lhe fazer bem que evitará que ele morra, como ela diz no primeiro verso da segunda estrofe, mas que não fazer o bem poderá, sim, levá-lo à morte, como no início da terceira estrofe. Logo, ela pede a Deus que lhe indique o que é o melhor, oferecendo a solução à qual não pode chegar sozinha.

Problema parecido ocorre com o eu-lírico da cantiga abaixo:

Queixos'andades, amigo, d'Amor
e de mí, que vos non posso fazer
ben, ca non hei, sen meu dan' én poder;
e por én guise-mi-o Nostro Senhor
que vos faça eu ben en guisa tal
que seja vosso ben e non meu mal.

Queixades-vos que sempre fostes meu
amigu', e vos leixo por mí morrer,
mais dizede-mi como vos valer
possa, sen meu dan', e guisá-lo eu,
que vos faça eu ben en guisa tal
que seja vosso ben e non meu mal.

Sõo guardada como outra molher
non foi, amigo, nen ha de seer,
ca vos non ous'a falar, nen veer,
e por én guise-mi-o Deus, se quiser,
que vos faça eu ben en guisa tal
que seja vosso ben e non meu mal. [5]

Aqui, ela reconhece que o amigo se anda queixando de ela não fazer bem a ele, tal como na cantiga anterior. E ela também reconhece que fazer bem lhe causará dano. Afinal, ela é “guardada como outra molher non foi”, ou seja, ainda é virgem e não se entrega livremente ao amigo, tal como a sociedade estabelece, pois sexo deveria ser algo possível apenas depois do casamento e para reprodução, como mandam os costumes e tradições da Igreja. Por isso, ela não ousa nem falar com o amigo nem vê-lo, para não ficar mal falada. A solução mais uma vez recai em um pedido a Deus, que a ajude a fazer o bem ao amigo de forma que esse bem não seja o mal dela.

Essa postura é a ideal para a sociedade daquela época, na qual a mulher se guarda e não faz o bem para que não lhe cause dano algum, principalmente moral. Contudo, não é exatamente a visão da amiga na cantiga a seguir:

Par Deus, amigo, non sei eu que é,
mais muit'ha ja que vos vejo partir
de trobar por mí e de me servir;
mais ua destas é, per boa fe:
ou é per mí, que vos non faço ben,
ou é sinal de morte que vos ven.

Mui gran temp'ha, e tenho que é mal,
que vos non oí ja cantar fazer,
nen loar mí, nen meu bon parecer;
mais ua destas é, u non i á al:
ou é per mí que vos non faço ben,
ou é sinal de morte que vos ven.

Ja m'eu do tempo acordar non sei
que vos oísse fazer un cantar,
como soiades, por me loar;
mais ua destas é, que vos direi:
ou é per mí que vos non faço ben,
ou é sinal de morte que vos ven.

Se é per mí, que vos non faço ben,
dizede-mi-o, e ja-que farei én. [6]

Nesta, quem reclama não é o amigo, mas a mulher. Ela diz que não sabe o motivo, mas que há muito tempo que ele deixou de trovar por ela e de a servir, como deveria fazer segundo as regras do amor cortês. Além disso, há muito tempo que ela já não o ouve fazer cantigas nem louvar a ela nem à sua beleza, o que a deixa com saudades. Como motivo para esse afastamento ela imagina duas causas, ou é porque ela não faz bem ao amigo, ou porque ele está morrendo. Contudo, diferentemente das duas cantigas anteriores em que a mulher se recusa a fazer bem com medo do dano que isso pode causar a ela, nesta, a mulher pede que o amigo lhe diga o motivo pelo qual ele não a louva mais. Se for por ela não fazer lhe bem, que ele o diga, que ela então lho fará. Ou seja, ela continua guardando-se, como as anteriores, mas prefere fazer o bem ao seu amigo, realizar o amor carnal, a deixar de ser louvada por ele em cantigas.

Essa idéia de fazer o bem como metáfora para o intercurso sexual parece ainda mais clara na cantiga abaixo:

Voss'amigo quer-vos sas dõas dar,
amiga, e quero-vos dizer al:
dizen-mi que lhas queredes filhar
e dized'ora, por Deus, ua ren:
se lhi filhardes sas dõas ou al,
que diredes por lhi non fazer ben?

Vós non seredes tan sen-conhocer,
se lhi filhardes nulha ren do seu,
que lhi non hajades ben a fazer;
e venh'ora preguntar-vos por én:
se lhi filhardes nulha ren do seu,
que diredes por lhi non fazer ben?

El punhará muit'e fará razón
de lhas filhardes, quando vo-las der,
e vós ou lhas filharedes ou non,
e dized'ora qual é vosso sén:
se lhi filhardes quanto vos el der,
que diredes por lhi non fazer ben?

Ou ben filhade quanto vos el der
e fazede ben quanto x'el quiser,
ou non filhedes do seu nulha ren,
non lhi façades nunca nen un ben.[7]

Nesta, uma amiga aparece dando conselhos à outra. Ela diz que o amigo quer oferecer presentes à amiga e que ela quer aceitá-los, então, ela avisa a amiga de que, caso ela aceite essas prendas, não poderá negar de fazer bem ao amigo. Além disso, ela não deve ser assim tão inocente a ponto de não saber que, se aceitar qualquer coisa dele, não terá como dizer que não fará bem a ele. E o amigo, tal como os outros das demais cantigas, esforçar-se-á para convencê-la a aceitar suas prendas, pois sabe que assim ela não terá como dizer que não fará bem a ele. Logo, ela oferece duas opções à amiga: ou ela aceita tudo o que ele oferecer e faz todo o bem que ele quiser, ou não aceita nada e nunca lhe faz nenhum bem. Ora, isso é uma espécie de troca de favores, com o homem pagando de uma forma ou de outra por sexo. Ele a agrada com presentes e ela o recompensa sexualmente, fazendo bem a ele. O interessante é a idéia de que a mulher pode ser comprada de alguma forma pelas prendas do amigo, transformando a relação sexual em uma espécie de mercadoria. Isso representa uma visão bem diferente das anteriores, nas quais o amigo poderia morrer e sofrer por não ter o bem da mulher amada. Nesta última a relação amorosa está bem longe da sentimental, reduzindo-se à carnal e material, numa reificação do amor.

 

A Parte Pelo Todo: falar com o amigo

A sociedade da Idade Média não se sentia abandonada e em crise como a nossa. Naquela época ainda havia a noção de que tudo estava interligado e fazia parte de um mesmo plano. Por isso, falar de parte era como falar do todo. Reconhecer uma parte como verdadeira é aceitar que tudo é verdade. Assim, numa relação entre homem e mulher, algum contato entre eles indicaria um relacionamento amoroso entre os dois, não apenas o que se sabe. Daía problemática presente em algumas cantigas sobre o ver a amada e sobre o falar com a mulher.

Assim, mesmo em cantigas que representam mais claramente a vida popular, podemos perceber a preocupação no fato de os amantes serem vistos juntos conversando, como numa pastorela de Joan Ayras [8].

As pastorelas possuem uma característica interessante, pois costumam não ser totalmente líricas, mas conter em si uma pequena narrativa. Assim, além de um eu-lírico feminino, possuem um tipo de narrador que participa como personagem da cantiga, que se transforma num diálogo, no final.

Nesta cantiga de Joan Ayras, a parte narrada conta a visão de uma pastora que andava afastada dos demais, alçando a voz para cantar enquanto segurava a saia para pegar um pouco de sol quando saía da ribeira. Há também uma forte ligação com a natureza, com as aves ao redor cantando seus amores na alvorada, possivelmente indicando que a pastora, ao cantar, também tratasse de seu amor.

É nessa situação idílica que o narrador se encontra, vendo a pastora, mas evitando falar com ela, até que toma coragem e pede que ela o ouça, prometendo ir-se embora assim que ela queira.

Desta forma, por saber do problema que seria ser vista conversando com um homem, pede que ele saia de perto antes que os outros cheguem e os vejam juntos, pois, caso isso aconteça, dirão que houve muito mais do que aconteceu. Afinal, tal como dito antes, a parte representa o todo. Se virem os dois conversando, verão muito mais do que isso, como se houvesse um relacionamento amoroso entre os dois, com possível realização sexual, já que eles se teriam exibido ao conversarem em público.

Devido a esse tipo de pensamento, a amiga da cantiga abaixo se recusa a falar mais com seu amigo, como podemos ver:

Quand'eu fui un dia vosco falar,
meu amigo, figi o eu por ben
e enfengestes vos de min por en,
mais, se vos eu outra vez ar falar,
logo vós dizede ca fazestes
comigo quando fazer quisestes

Ca, meu amigo, falei eu ua vez
con vosco, por vos de morte guarir,
e foste vos vós de min enfingir,
mais, se vos eu (ar) falar outra vez,
logo vós dizede ca fazestes
comigo quando fazer quisestes

Ca mui ben sei eu que non fazestes
o meio de quanto vós dissestes [9]

Nessa cantiga de amigo, a mulher diz que foi falar com o amigo para o bem dele, para salvá-lo de morrer de amor, tema comum a várias cantigas, tanto de amor quanto de amigo. Entretanto, ele fez o que a sociedade costumava fazer, pois, apesar de ela apenas ter falado com ele, o amigo diz que muito mais aconteceu e que ela teria feito tudo o que ele quis. Ou seja, ela o acusa de mentir e de até chegar a dizer que houve relação sexual entre os dois. E é por ele agir assim que ela não lhe falará mais, pois ela sabe que ele não fez nem metade do que disse que fez.

Ora, a amiga deveria saber que falar quer dizer muito mais do que um simples conversar, tal como a pastora da cantiga anterior sabia. Então, não se deveria surpreender por o amigo contar que houve mais do que apenas falar. Aliás, talvez ela tenha mesmo feito mais do que simplesmente falar com o amigo. Afinal, ela diz que fez isso por bem, e, tal como pudemos ver em outras cantigas, fazer o bem pode ter uma conotação sexual. Além disso, ela termina a cantiga dizendo que sabe que ele não fez nem metade do que disse, em vez de reafirmar que eles apenas conversaram. Ao dizer que ele não fez “o meio de quanto vós dissestes”, ela pode estar assumindo que o falar foi na verdade fazer bem, ou ter intercurso sexual, mas que não foi tão bom quanto o amigo diz que foi, terminando, assim, a cantiga numa espécie de escárnio do amado por ter revelado o que não deveria.

De qualquer maneira, uma das coisas que se pode depreender dessas cantigas é que o homem, no que toca às conquistas amorosas, não se comporta de forma muito diferente hoje de como se comportava na Idade Média. Afinal, o que o amigo da cantiga acima fez foi contar vantagem e dizer que fez sexo com a mulher, tal como muitos homens modernos ainda fazem hoje em dia. E é sabendo disso que a mulher conversa com a amiga na cantiga abaixo:

Que mui de grad'eu faría
prazer ao meu amigo,
amiga, ben vo-lo digo,
mais logu'en aquele día
non leixará el, amiga,
nulh'home a que o non diga.

Faría-lho mui de grado,
porque sei que me deseja,
mais, se guisar u me veja
e lhi fezer seu mandado,
non leixará el, amiga,
nulh'home a que o non diga.

Tan coitado por mí anda
que non ha paz nen mesura,
pero se eu, per ventura,
fezer todo quant'el manda,
non leixará el, amiga,
nulh'home a que o non diga.

Dizedor é de nemiga
e dirá-o log', amiga. [10]

Nesta última cantiga, a amiga diz que daria prazer ao amigo de bom grado, mais uma vez demonstrando que as mulheres retratadas nas cantigas de amigo possuem uma liberação sexual muito maior. Contudo, ela não o faz devido ao comportamento nocivo do homem, que acabará por dizer aos demais o que ela fez, deixando-a mal falada. Então, por mais que ela esteja disposta a fazer o que ele deseja e que o deixa coitado por não o satisfazer, ela não o fará pois não há homem a quem ele não dirá o que aconteceu caso ela ceda e dê prazer a ele. Assim, ele é apresentado no final como inimigo, por dizer o que não deveria.

Dessa forma, como pudemos perceber, o maior problema apresentado nessas cantigas de Joan Ayras de Santiago não é necessariamente a liberação sexual da mulher, pois algumas não se recusam a satisfazer seu prazer e o do seu amigo. A grande questão está na forma como a sociedade encara essa liberdade. Para que a mulher não fique mal falada, ninguém deve saber do que aconteceu e ninguém deve vê-los conversando, para que não associem logo que há muito mais além daquele diálogo.

 

Infidelidade e Confusão: a possibilidade de traição nas cantigas de amigo

Quando se pensa no relacionamento amoroso na Idade Média logo vem à mente o ideal do amor cortês, com temática aristocrática, presente nas cantigas de amor. Contudo, essa idéia de amor impossível e respeitador não é a mesma que aparece nas cantigas de amigo e nem parece ser o mais próximo da realidade. Pelo que podemos ver nas cantigas de Joan Ayras, há na verdade um jogo amoroso com o desenvolvimento de crises de ciúme, mentiras e traições.

Tal como em qualquer relacionamento amoroso, o interesse pode acabar. E é disso que fala a cantiga de amigo abaixo:

O que soía, mia filha, morrer
por vós, dizen que ja non morr'assí
e moir'eu, filha, porque o oí;
mais, se o queredes veer morrer,
dizede que morre por vós alguén
e veredes home morrer por én.

O que morría, mia filha, por vós,
como nunca vi morrer por molher
home no mundo, ja morrer non quer;
mais, se queredes que moira por vós,
dizede que morre por vós alguén
e veredes home morrer por én.

O que morría, mia filha, d'amor
por vós non morre, nen quer i cuidar,
e moir'end'eu, mia filha, con pesar;
mais, se queredes que moira d'amor,
dizede que morre por vós alguén
e veredes home morrer por én.

Ca, se souber que por vós morr'alguén,
morrerá, filha, querendo-vos ben. [11]

Nessa cantiga a mãe resolve dar conselhos à filha por causa de problemas em seu relacionamento amoroso. Ela conversa com a filha, porque aquele que se dizia apaixonado pela menina, que dizia que morria de amores por ela, já não morre mais por ela, ou seja, já não se importa mais com a amiga. A mãe então diz à filha que conte a ele que alguém mais morre por ela, que assim ele terá ciúmes e voltará a interessar-se por ela. A mãe é que morre de preocupação se o homem não quiser mais nada com sua filha, provavelmente porque essa rejeição não será benéfica à imagem da moça. Porém, a solução que ela arranja, que é criar ciúmes no amigo da filha, parece para ela funcionar, pois “se souber que por vós morr’alguén, morrerá, filha, querendo-vos ben”.

Em oposição a isso está a postura da amiga da cantiga abaixo:

Dizen, amigo, que outra senhor
queredes vós, sen meu grado, filhar,
por mi fazerdes con ela pesar,
mais, a la fe, non hei end'eu pavor,
ca ja todas saben que sodes meu
e nen ua no vos querrá por seu.

E fariades-mi vós de coraçón
este pesar, mais non sei hoj'eu quen
me vos filhass', e ja vos non val ren,
ai meu amigo, vedes por que non:
ca ja todas saben que sodes meu
e nen ua non vos querrá por seu.

E quen vos a vós esto conselhou
mui ben sei eu ca vos conselhou mal
e con tod'esso ja vos ren non val,
ai meu amigo, tardi vos nembrou,
ca ja todas saben que sodes meu
e nen ua non vos querrá por seu.

Cofonda Deus a que filhar o meu
amigu', e min, se eu filhar o seu! [12]

Nessa cantiga o amigo é que tentou traí-la ou ao menos causar ciúmes nela, pois dizem que ele está interessado em outra mulher, para causar pesar a ela. Entretanto, ela diz que não teme isso, pois todas já sabem que ele é dela e nenhuma o quererá para si sabendo disso. Diferentemente da mãe da cantiga anterior, que imagina ser um bom conselho a filha tentar causar ciúmes ao amigo, nesta, a amiga diz ao amado que quem o aconselhou não foi bom, porque o conselho veio tarde e não vale mais nada, por todas já saberem que ele pertence a ela. Apesar do que ela diz por toda a cantiga, na fiinda ela não parece estar tão segura assim, pois pede a Deus que castigue quem roubar seu amigo e a ela mesma, se roubar o homem de outra.

Comparando essas duas cantigas, é possível perceber que a mulher tem um poder maior sobre o relacionamento amoroso, ao menos no que tange às cantigas de Joan Ayras. Em uma, a mulher tenta causar ciúmes ao homem, com esse papel invertendo-se na segunda. Contudo, apenas a mulher parece ser bem sucedida, enquanto a tentativa do amigo na segunda cantiga é falhada pela própria atuação da amiga que não se deixa enganar por esse jogo amoroso.

No entanto, essa brincadeira de criar ciúmes no parceiro pode acabar por levar infidelidade ao relacionamento amoroso, causando confusão, que terá que ser apaziguada depois. É sobre a problemática da infidelidade feminina que trata a cantiga a seguir:

Alguén vos diss', amigu', e sei-o eu,
por mi mizcrar convosco, que falei
con outr'homen, mais nunca o cuidei,
e, meu amigo, direi-vo-lo eu:
de mentira non me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

Alguén sabe que mi queredes ben
e pesa-lh'end'e non pod'al fazer
senón que mi quer mentira põer;
e, meu amigu'e meu lum'e meu ben:
de mentira non me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

E ben sei de quen tan gran sabor ha
de mentir e non teme Deus nen al,
que mi assaca tal mentira e al;
e, meu amigo, vedes quant'i ha:
de mentira non me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.

De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais non de quen me mal quer assacar. [13]

Nessa cantiga de amigo, alguém disse ao homem que a mulher falou com outro homem e não podemos esquecer da implicação do falar nessa sociedade. A senhora passa então a tentar se defender, dizendo que tudo não passa de uma mentira criada por alguém invejoso, a quem “peda-lh’end’e non pod’al fazer” e que por isso pretende atrapalhar o relacionamento dos dois.

Entretanto, essa cantiga parece conter mais do que uma simples explicação por parte da mulher. É claro que a amiga não vai confirmar a traição. Ser vista falando com um homem já era suficientemente grave naquela sociedade, mais ainda se o homem em questão não fosse seu namorado, mas um terceiro. De qualquer forma, o poder de persuasão feminino nas cantigas de Joan Ayras é maior do que as tentativas masculinas, como vimos acima no caso do ciúme. Dessa forma, a amiga lança mão de algumas estratégias de convencimento que podem funcionar com um homem ou um leitor inocente, mas que acabam por revelar a uma audiência mais atenta mais do que ela gostaria.

A proposta dela de que tudo não passaria de uma mentira inventada por alguém com inveja do bom relacionamento entre os dois seria na verdade uma forma de dizer que tudo não passou de uma tentativa frustrada de causar ciúmes nele para que eles se separassem. Além disso, na segunda estrofe ela trata o amigo de três formas, numa espécie de gradação: “meu amigu’e meu lum’e meu bem”. Se amigo é o tratamento comum destinado ao homem amado, os dois seguintes parecem dizer que entre os dois há mais do que compromisso de namoro. Chamar de meu bem, ainda comum hoje em dia, pode indicar uma aproximação maior entre os dois, talvez motivada pela realização carnal do amor. Além disso, chama a atenção ela o chamar de “meu lume”. Lume seria como o fogo da paixão que a aquece, não apenas sentimentalmente, mas também pode ser sexualmente, tal como “fogo” indica ainda nos dias de hoje. Assim, se o amigo entender que ela tem por ele mais do que um simples compromisso, mas excitação sexual e que ele pode ter como comprovar isso, por ser o “bem” dela, talvez ele acredite que afinal ela não teria por que falar com outro, pois seu desejo pertence a ele.

Todavia, ela deixa escapar alguns indícios de que pode não estar tão preocupada assim com essa suposta mentira que contaram. Logo na primeira estrofe ela diz “nunca o cuidei”. A que se pode referir o pronome “o” nessa oração? O que ela espera que o amigo entenda é que ela nunca se preocupou, ou nunca quis falar com outro homem. Mas também pode ser que ela nunca se tenha importado com o amigo, ou, mais ainda, que ela não se preocupe com o fato de tentarem atrapalhar o relacionamento dos dois, talvez por confiar demais no seu poder de convencimento. Afinal, no refrão, ela diz que evitará causar pesar ao amigo, que é o que ela está tentando fazer com essa cantiga. Entretanto, o primeiro verso do refrão diz que ela não se pode proteger da mentira. De que mentira? Nesse caso, tanto pode ser uma mentira que tenham dito sobre ela quanto pode ser uma mentira que ela mesma tenha dito para evitar o pesar do amigo.

É interessante observar o início da terceira estrofe. Ali ela diz que “quen tan gran sabor há de mentir”, ou seja, quem tem grande prazer em mentir ou quem sabe mentir muito bem, não teme a Deus nem nada. Se ela estiver incluída em um desses dois casos - gostar de mentir ou saber mentir -, também não temerá nada e por isso poderá mentir à vontade. De qualquer maneira, para que o amigo não pense nessa possibilidade, ela termina dizendo a ele na fiinda que ela sabe evitar mentir, mas não quem lhe quer causar mal. Porém, o fato de ela saber evitar mentir não implica que o evite sempre. Aliás, como ela não sabe evitar que lhe queiram mal, pode muito bem usar do artifício da mentira para tentar se proteger. Afinal, as mulheres parecem bem ardilosas nas cantigas de Joan Ayras. E situação semelhante é a que ocorre na cantiga abaixo:

Meu amigu’ e meu ben e meu amor,
disseron-vos que me viron falar
con outr’ ome, por vos fazer pesar,
e por én rogu’ eu a Nostro Senhor
que confonda quen vo-lo foy dizer
e vós, se o assi fostes creer,
e min,se end’ eu fui merecedor.

Já vos disseron por mi que faley
con outr’ ome, que vos non tiv’ én ren,
e, se o fiz, nunca mi venha ben,
mais rog’ a Deus sempr’ e roga-lo-ey
que confonda quen vo-lo diss’ assi
e vós, se tan gran mentira de mi
crevestes, e min, se o eu cuydey.

Sey que vos disseron, per bõa fé,
que faley con outr’ om’ e non foy al
se non que vo-lo disseron por mal,
mays rog’ a Deus, que no ceo sê [e],
que confonda quen vos atal razón
diss’ e vós, se a crevestes entón,
e que co[n]fonda min, se verdad’ é.

E confonda quen á tan gran sabor
d’ antre min e vós meter desamor,
ca mayor amor no mundo [non] é. [14]

Nesta cantiga, o emissor feminino sabe que contaram ao seu amigo que ela falou com outro homem. Então, ela invoca uma punição divina, não apenas sobre a pessoa que fomentou seu problema conjugal com maledicências, mas também sobre si mesma e ele, se acreditou no que disseram, e ela, se mentiu. Assim, ela se põe como inocente, pois nunca faria mal ao amigo e maior amor do que o deles não há.

A problemática conjugal discutida nessa cantiga é a influência de terceiros no relacionamento amoroso, causando mal. Por isso a emissora confronta o amigo pedindo a intercessão de Deus para que este “confonda”, castigue, quem foi dizer ao amigo que a viu conversando com outro homem. Não apenas isso, mas ameaça com a punição também o amigo e ela, se forem culpados.

O mal causado está no descortinar do segredo. Falar é mostrar, é expor. Assim, ao irem falar com seu amigo estão difamando-a, tornando-a mal falada. Tal como no amor cortês das cantigas de amor, para que a mulher não perca sua honra, seu relacionamento amoroso deve ser mantido em segredo, principalmente se for um relacionamento que signifique a deslealdade ao amigo conhecido. Essa traição apresentada é mais forte do que simplesmente falar com outro homem, pois o falar não é simplesmente dar atenção ou até mesmo insinuar-se, mas é, sobretudo, a entrega amorosa. O falar é a primeira parte de uma série de entregas da mulher ao homem. Numa sociedade onde o símbolo funciona como o todo, ao acusá-la de falar com outro homem, o elemento desestabilizador que diz isso ao amigo está na verdade insinuando que ela se deitou com um amante, concretizando a traição.

Esse terceiro elemento no relacionamento amoroso, intrometendo-se entre ela e o amigo está patente na própria estrutura da cantiga, que, excluindo-se a fiinda, é composta por três cobras (estrofes), com um leve aumento gradual na significação. A própria fiinda leva ao terceiro membro desse problema, pois é composta por três palavras (versos). Além disso, pode-se perceber outra gradação em três níveis nesta cantiga. O tratamento que a emissora dá ao amigo no primeiro verso é gradualmente aumentado, de meu amigo a meu bem e meu amor. Também, a intromissão de terceiros no casal pode ser percebido pelo esquema rítmico desta cantiga. A rima segue a forma ABBACCA. Em cada estrofe há três versos que rimam entre si, sendo um deles colocado entre dois conjuntos de rimas emparelhadas, como se o casal fosse composto por rimas B e C e entre eles alguém se colocasse para separá-los. Assim, com três pessoas envolvidas, não é à toa que a culpa a ser punida por Deus possa recair sobre os três, como o eu-lírico roga no fim das três cobras. Além disso, o terceiro que se intromete ocupa três papéis, um antes, um no meio e um depois. Além daquele que foi contar ao amigo e separa assim o casal, há o homem com quem ela falou, que seria a primeira parte da trama, e, por fim, Deus, invocado aqui para punir os culpados.

Esse pedido a Deus é caracterizado pela dúvida, devido ao grande número de condicionais apresentadas para justificar o castigo divino. Além disso, a cantiga começa justamente pela falta de clareza da situação. Não foi o amigo que a viu com outro homem, mas alguém que disse que a viram, ficando esse alguém oculto. A decisão não é cobrada pela razão, mas pela confiança, pois cabe ao amigo crer na amiga ou no que lhe disseram. Contudo, não é esse o tipo de crença esperada na Idade Média. A súplica a Deus não deveria ser apenas para o castigo, mas principalmente para que se conheça a verdade, solicitando a onisciência divina.

Se a realidade não está para ser revelada, então é possível que a amiga não esteja falando a verdade. Tanto que a gradação existente na cantiga ocorre em dois lugares nas cobras, na forma como a história chega ao amigo e na justificativa para que a emissora seja castigada por Deus. Na primeira cobra há um afastamento maior da realidade. Apenas disseram que a viram falar com outro homem. Na segunda já dizem que ela falou, culminando, na terceira, com dizerem com certeza - “per bõa fé” - que ela falou com outro homem. A causa de seu castigo também vai se intensificando. Se no início seria por não ser merecedora de que falem mal dela, na segunda cobra há a possibilidade de ela se ter preocupado, ou com o fato do amigo ter acreditado, ou por terem contado, ou até mesmo por ela ter falado com outro homem. Na terceira o castigo não viria pela possibilidade de falaram dela ou por sua preocupação, mas por ser verdade.

Caso a mulher não tema o castigo de Deus para quem mente, como parece ser o caso em outra cantiga do mesmo autor, incluir-se como possível alvo da punição divina tem apenas o efeito de mais facilmente convencer seu amigo de que não mente. As formas de convencimento não se esgotam aí. Elas começam já no tratamento que ela dá ao amigo no primeiro verso. Há uma gradação no vocativo, indo do tradicional “amigo”, passando por “meu bem” e terminando em “meu amor”. Este último é o tratamento mais importante, usado mais comumente nas cantigas de amor, onde há um tipo de vassalagem amorosa. Assim, há uma tentativa de vassalagem oposta, colocando a mulher como submissa, como parte de sua estratégia de convencer seu amigo de que ela não o traiu.

Dessas três formas de tratamento, tem destaque a que se coloca no meio, alvo predominante desta cantiga. A primeira palavra é “amigo”, forma usual pela qual as mulheres chamam seu amado nas cantigas. A terceira, “amor”, é uma forma com que o eu-lírico masculino denomina sua amada. Entre a forma normalmente usada pela mulher e a usada pelo homem há o tratamento de “meu ben”, vocativo usado ainda hoje por casais enamorados. Pôde-se ver em outras cantigas de amigo de Joan Ayras vários usos para “bem”, inclusive como símbolo da realização de amor carnal.

Assim, pode-se deduzir que a emissora da cantiga estudada já teve intercurso com seu amigo, e estaria lembrando-o disso antes de começar sua defesa, como forma de comprometimento amoroso. Ou então, por ser o tratamento que está no meio, remetendo àquele que interfere na vida do casal, pode-se depreender que desde o início ela não está realmente mentindo, pois estaria dizendo, implicitamente, que teve relações com um terceiro.

Essa ligação com a palavra “bem” pode ajudar a entender o terceiro verso da segunda estrofe onde a emissora fala “nunca me venha ben”. Além de dizer que, caso não tenha levado o amigo em conta, que ela não merece “bem”, ou seja, não teria boas qualidades, não teria proveito algum nisso, nunca seja feliz, que nada de bom lhe aconteça, e pode vir a ser mal falada em vez de bem falada, pode também significar que ela não terá mais relações sexuais com o amigo se ele acreditar que ela não teve consideração por ele.

Para finalizar, ainda são precisos alguns comentários sobre a fiinda. Lá o eu-lírico pede que Deus confunda quem tem grande sabor em meter desamor entre ela e o amigo. A quem cabe esse castigo? Deve-se levar em conta a ambigüidade da palavra sabor. Uma interpretação seria supor a clamada inocência da emissora e, nesse caso, quem tem sabor apenas tem gosto em criar desamor entre os dois. Em outra interpretação sabor não seria apenas gosto, prazer, em atrapalhar o relacionamento amoroso do casal, mas também quem tem o saber, o conhecimento, do que ela fez, contando ao amigo que ela o traiu. Há ainda o caso de que o fato de meter desamor no casal é dado pelo prazer, o sabor, da relação proibida entre a emissora e o homem com quem ela falou, o amante.

Além disso, mantendo o nível de incerteza que é característico dessa cantiga, não se sabe qual é o maior amor do mundo, pois isso não está especificado na fiinda. Claro que a opção mais óbvia é que o maior amor do mundo é o que há entre o eu-lírico e seu amigo, motivo pelo qual o amigo deve acreditar que ela é inocente. Contudo, tanto pode ser este, que a impediria de trair; como pode ser o amor dela pelo terceiro homem, que seria o amor que entre ela e o amigo meteria desamor; como pode ser o próprio amor de Deus, chamado aqui para punir os culpados, por ser o amor divino o maior do mundo, segundo a ideologia da época.

É interessante também perceber que tipo de punição é essa. Confundir. Além do sentido depreendido da própria cantiga como castigar, há outros que devem ser observados. Confundir pode ser desvirtuar, o que aconteceria a ela caso acreditassem que ela realmente traiu o amigo. Pode também ser desmentir, refutar, contradizer, que é o que ela tenta fazer colocando-se contrária ao que falaram ao amigo. Esse verbo também pode significar fundir junto, misturar, reunir, que, dependendo do alvo da punição, tanto pode ser reunir ela e o amigo quanto ela e um suposto amante. Há ainda a acepção de confundir como tomar um pelo outro, ou fazer recair dúvidas sobre a identidade de alguém. Dessa forma, podem não ter visto ela com outro homem, mas com o próprio amigo e confundiram-se; ou ela encontrou-se com outro homem porque se confundiu e supôs ser o amigo; ou ainda, que para ela é indistinto o amigo ou o amante. Além disso, confundir pode ser retirar a razão, fazer crer no falso, enganar, que é o que ela pode estar tentando fazer com o amigo ao dizer que isso é o que fizeram com ele ao dizerem que a viram falar com outrem. Talvez o pior castigo para alguém na Idade Média seja a confusão, perdendo seu sentido e a razão, ficando assim sem lugar no mundo ordenado divinamente.

Se a punição é confundir, ela veio pelas mãos do poeta, que põe numa só cantiga várias possibilidades de significação. Assim, mantem-se até o final a incerteza da cantiga, que tanto pode indicar a inocência da emissora quanto pode dizer que ela realmente traiu o amigo e quer convencê-lo do contrário, ou, mais ainda, quer confundi-lo contando que realmente há um amante mas sem explicitar, como se não houvesse mais ninguém além deles dois. Afinal, se no símbolo forma e conteúdo são indissociáveis e se no mundo medieval o símbolo não representa o real, mas é o próprio real, tudo nesta cantiga remete à mesma realidade. Se a constante na cantiga é o aspecto tríplice desse relacionamento e a confusão como castigo, a própria cantiga deve servir a este esquema de relacionamento triangular e a confundir. Dessa forma a cantiga cumpre-se a si mesma, confundindo o leitor desavisado se ele acredita na aparente inocência dessa trova por supor uma simplicidade temática e formal na literatura medieva.

Essa tentativa de confundir tanto o leitor quanto o amigo está presente em ainda mais uma cantiga do Joan Ayras, esta mais simples:

Amei-vos sempr', amigo,
e fiz-vos lealdade;
se preguntar quiserdes,
en vossa puridade
saberedes, amigo,
que vos digo verdade;
ou se falar houverdes
con algún maldizente
e vos quiser, amigo,
fazer al entendente,
dizede-lhi que mente,
dizede-lhi que mente. [15]

Nesta, o eu-lírico feminino também diz ter sido sempre fiel. Para confirmar, contudo, não pede a interseção de Deus, mas solicita que o amigo pergunte a quem quiser se ela não está falando a verdade. Entretanto, é possível que nem todo o mundo confirme sua lealdade, mas, nesse caso, isso não provaria, segundo suas palavras, que ela é infiel, mas que esse “maldizente” mente. Não cabe ao amigo, portanto, fazer mais do que acreditar na fidelidade da amada. Ou ele confia nela e continua com ela, ou não confia, pois não há meio seguro de desmenti-la.

O que interessa nessas cantigas não é saber se a amiga traiu ou não o amigo. Sua beleza está na forma ardilosa com que elas são construídas, de modo que não se tenha certeza se houve ou não traição por parte da mulher, podendo o leitor, ou o amigo que a ouve, acreditar ou não em sua inocência.

Assim, podemos ver como as mulheres aparecem como mais fortes e determinadas e liberadas nas cantigas de Joan Ayras de Santiago. Além disso, elas estão sempre preocupadas com sua imagem, mas, talvez, sem deixar de satisfazer o que pretendem, nem que para isso tenham que confundir o amigo.

 

Motivação Pessoal ou Invenção Ficcional?

Após vermos tantas cantigas do mesmo autor tratando da força da mulher no controle do relacionamento e da possibilidade de traição por parte da mesma, fica a dúvida sobre onde teria ele buscado inspiração para esse tema recorrente e qual o recorte da realidade usado por ele. Afinal, em sua produção, além de predominarem as cantigas de amigo, que já dão uma voz mais forte à mulher, essas parecem muito mais altivas e ardilosas do que aquelas presentes em cantigas de outros trovadores.

Para tentarmos buscar uma resposta a esse problema, analisaremos a seguir três outras cantigas. A primeira é uma cantiga de escárnio, a segunda uma que pode ser classificada como sirventês, ambas do próprio Joan Ayras. E, para finalizar, uma tenção entre Joan Vásquiz de Tavaleira e Joan Ayras.

As cantigas de escárnio costumam falar mal de alguém usando palavras bissêmicas, como parece ser o caso da cantiga abaixo:

Don Beeito, home duro,
foi beijar pelo obscuro
a mia senhor.

Come home aventurado,
foi beijar pelo furado
a mia senhor.

Vedes que gran desventura:
beijou pela fendedura
a mia senhor!

Vedes que foi grand'achaco:
foi beijar polo buraco
a mia senhor! [16]

Essa cantiga pretende falar mal de Dom Benedito que teria tentado beijar a mulher, mas acabou beijando-a em outros lugares, com forte conotação sexual. Contudo, não é bem Dom Benedito que é satirizado nessa cantiga, pois ele acaba por conseguir mais do que o intentado. Quem realmente é enxovalhado nessa cantiga é o próprio eu-lírico, que teve sua senhora beijada por outro homem! Se supusermos que o eu-lírico representa de alguma forma a subjetividade do poeta que compõe a cantiga, teremos então nesse outro exemplo de traição feminina uma referência ao próprio poeta, pois dessa vez ele deixa claro que a mulher em questão é a sua senhora.

Algo análogo podemos perceber na cantiga abaixo:

Ai, Justiça, mal fazedes, que non
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joán Airas, ca fez mui sen razón;
mais, se dereito queredes fazer,
ela so el devedes a meter,
ca o manda o Livro de León;

Ca lhi quería gran ben, e des i
nunca lhi chamava senon "senhor";
e, quando lh'el quería mui milhor,
foi-o ela logo matar alí;
mais, Justiça, pois tan gran torto fez,
metede-a ja so ele ua vez,
ca o manda o dereito assí.

E, quando máis Joán Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana ben,
foi-o ela logo matar por én,
tanto que el en seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assí é ja,
metan-na so el, e padecerá
a que o a mui gran torto matou.

E quen nos ambos vir jazer, dirá:
«Beeito seja aquel que o julgou!». [17]

Esta cantiga, que aparentemente seria um serventês político, por reclamar algo à Justiça, é na verdade uma crítica pessoal a uma senhora por quem Joan Ayras enamorou-se. O eu-poético clama à justiça para que cumpra seu papel, punindo a senhora aqui chamada de Mor da Cana por ter matado Joan Ayras. A causa da morte está não apenas na recusa amorosa, o que seria possível em algumas cantigas de amor, mas no poder que a mulher tinha sobre Joan Ayras - “tanto que ele’n seu poder entrou”, sendo oportuno observar que o morto por sua amada é o próprio autor da cantiga. Este se coloca como terceira pessoa em vez de usar sua subjetividade para exprimir sua coita amorosa, como nas cantigas de amor, para fazer mais uma crítica às mulheres. Assim, em vez de se declarar coitado e prestes a morrer de amor por não ser correspondido, cobra justiça contra a mulher que teria poder sobre ele. Ao mesmo tempo ele consegue deixar mais claro que quem sofre essa situação não é o eu-poético, mas o próprio trovador.

Talvez seja apenas mais um artifício poético transformar a si mesmo em personagem da infelicidade amorosa como na cantiga acima ou ridicularizar-se como na cantiga de escárnio apresentada. Mas essa ligação entre a figura de Joan Ayras e a supremacia feminina sobre ele, chegando à infidelidade, aparece com ainda mais força na tenção abaixo:

-Joán Airas, ora vej'eu que ha
Deus mui gran sabor de vos destroír,
pois vós tal cousa fostes comedir:
que, de quantas molheres no mund'ha
de todas vós gran mal fostes dizer,
cativ', e non soubestes entender
o mui gran mal que vos sempr'én verrá.

-Joán Vaásquiz, sempr'eu direi ja
de molheres moito mal, u as vir;
ca, porque eu foi end'ua servir,
sempre mi gran mal quis e querrá ja;
por gran ben que lh'eu sabía querer,
casou-s'ora, por mi pesar fazer,
con quen a nunca amou nen amará.

-Joán Airas, non tenh'eu por razón
d'as molheres todas caeren mal,
por end'ua soo, que a vós fal,
ca Deu-lo sabe que é sen razón;
por end'a vós ua tolher o sén
e dizerdes das outras mal por én,
errades vós, assí Deus mi pardón.

-Joán Vaásquiz, todas taes son
que, pois viren que non amades al
senón elas, logo vos farán tal
qual fez a min ua; e todas son
aleivosas; e quen lhis desto ben
disser, atal prazer veja da ren
que máis amar no seu coraçón.

-Joán Airas, vós perdestes o sén,
ca enas molheres sempr'houvo ben
e haverá ja, mais pera vós non.

-Joán Vaásquiz, non dizedes ren,
ca todos se queixan delas por én
senón vós, que filhastes por én don. [18]

Nessa tenção, Joan Vásquiz diz que o Ayras fala muito mal das mulheres e que isso levará mal a ele próprio. Ao que é respondido que ele sempre falará mal das mulheres, porque servia a uma e esta lhe quis mal, sabendo que ele lhe queria bem. Esta casou com outro homem, que nunca a amou, nem nunca a amará.

A isso, Vásquiz diz que ele não deve julgar todas as mulheres pelo mal que uma lhe fez, pois isso é errado. Mas Ayras não vê dessa forma. Para ele, todas são assim: ao perceberem que o homem não ama ninguém mais do que a elas, desdenharão desse amor como a dele fez, que é o que acontece em várias cantigas de amigo compostas por Joan Ayras de Santiago, como pudemos perceber.

Essa tenção, como composição poética, pode ser baseada em fatos ficcionais. Sobre isso não é possível termos certeza. Todavia, seja o desencanto que as mulheres causaram em Joan Ayras algo real ou ficcional, ficou claro que sua imagem ficou marcada por essa relação de desprezo pelas mulheres, que aparecem sempre como superiores aos homens e capazes de enganá-los em suas cantigas. E isso não é visível apenas pela análise atual de sua obra, mas era factível aos seus contemporâneos, como essa última cantiga demonstra.

De qualquer forma, a expressão da subjetividade de um poeta pode alcançar o universal e por isso manter-se interessante e atual, mesmo após tantos séculos. A atualidade dessas cantigas de Joan Ayras está, sobretudo, na liberação feminina apesar de todas as restrições sociais. Mesmo numa época mais fechada e religiosa como na Idade Média, as mulheres eram capazes de lutar por sua felicidade e exercer algum tipo de poder sobre os homens, ao menos no campo da sedução. Assim, pode-se depreender que naquela sociedade o papel da mulher não era tão apagado quanto possa parecer à primeira vista. Ela sabe como realizar seus desejos e romper com as regras sociais sem sofrer com isso, dominando o amado e jogando com seu amor, mesmo que ocultando suas ações.

 

Notas:

[1] Mestrando em Ciência da Literatura - Literatura Comparada - UFRJ. eduardodacruz@gmail.com

[2] Presente no Cancioneiro da Ajuda.

[3]CBN 1033, CV 623

[4]CBN 1038, CV 628

[5]CBN 1012, CV 611

[6]CBN 1017, CV 607

[7]CBN 1032, CV 622

[8]CBN 967, CV 554

[9]CBN 1026, CV 616

[10]CBN 1036, CV 626

[11]CV 595

[12]CV 594

[13]CBN 1039, CV 629

[14]CBN 980, CV 636

[15]CBN 1045, CV 635

[16]CBN 1464, CV 1074

[17]CBN 1466, CV 1076

[18]CBN 1551

 

Bibliografia

ADORNO, Theodor W. (2003): “Palestra sobre lírica e sociedade”. In: Notas de Literatura I. Trad. Jorge de Almeida. Duas Cidades/Ed. 34: São Paulo.

Cancioneiro da Biblioteca Nacional da Ajuda Ed. de Carolina Michaelis de Vasconcelos. Lisboa, IN/CM, 1990, 2 v.

Cancioneiro da Vaticana

 

© Carlos Eduardo Soares da Cruz 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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