Viagem ao fim do mundo:
a fronteira entre jornalismo e literatura em Tchekhov

Gutemberg Medeiros

doutorando (Universidade de São Paulo - USP)
gam8@terra.com.br


 

   
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Resumo: A obra de Antón Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) intitulada Ilha de Sakhalina é completamente única em toda a sua produção. No final de sua vida, o autor orientou o editor de suas obras completas que este trabalho tinha de ser publicado em volume à parte, por não se tratar de literatura como as outras peças. Sakhalina era referência no Império Czarista por ser a pior colônia penal, a infligir terríveis castigos e torturas. Neste trabalho, vamos mostrar como Ilha de Sakhalina apresenta-se como um texto de fronteira entre jornalismo e literatura, segundo a acepção de Iúri Lotman. Como a sua descrição fria e objetiva, quase obsessiva até em mínimos detalhes de gestos e palavras, alcançou o maior intento do autor: mover a opinião pública a enxergar o que realmente acontecia a ponto de mover o Estado Russo, de forma inédita, a acabar com os mais cruéis castigos e procedimentos cotidianos em todo o seu sistema penal.
Palavras-chave: Anton Tchekhov; jornalismo e literatura; Semiótica da Cultura; Iúri Lotman; Ilha de Sakhalina.

Resumen: La obra de Antón Pavlovitch Chékhov (1860-1904) intitulada La Isla de Sajalín es completamente única en toda su producción. En el final de su vida, el autor dijo al editor de sus Obras completas que este trabajo fuese publicado en volumen separado, por no ser de literatura como las otras piezas. Sajalín fue referencia en el Imperio zarista por ser la peor colonia penal e infligir terribles castigos y torturas. En este trabajo, mostramos cómo La Isla de Sajalín se presenta como un texto de frontera entre periodismo y literatura, según Iúri Lotman. Cómo su descripción fría y objetiva, obsesiva hasta los mínimos detalles de gestos y palabras, alcanzó la principal intención del autor: mover la opinión pública a ver lo que realmente acontecía al punto de mover el Estado Ruso, de forma inédita, a acabar con los mas cruentos castigos e procedimientos cotidianos en todo su sistema penal
Palabras clave: Antón Chejov, peridoismo y literatura, Semiótica de la cultura, Yuri Lotman, Isla de Sakhalina

 

Introdução

Uma viagem para o fim do mundo. Assim poderia ser definida a verdadeira odisséia empreendida por Antón Tchekhov para então maior ilha penal do império czarista, em 1890, localizada no extremo leste siberiano. Maior do que a Grécia, a ilha resumia a síntese do pior em castigos e maus tratos possíveis. Chibatadas, penas capitais, péssimas condições prisionais e até tornar a população carcerária abaixo de sua condição legal de cidadãos sob a guarda do Estado para servos dos habitantes livres. Bibliografia dispersa e pouco expressiva sobre essa realidade, aliada a boatos incertos, constavam em São Petersburgo e Moscou. Mas nada de concreto se sabia sobre essa ilha.

Neste trabalho, apresentamos elementos de como ver a produção Ilha de Sakhalina como um texto de fronteira entre jornalismo e literatura, na acepção estudada pelo pensador russo Iúri Lotman. Para o pensador, a fronteira une duas esferas da semiosis, desde a autoconsciência semiótica ­- auto-descrição em um metanível da semiosfera dada. A fronteira é um domínio de processos semióticos acelerados que ocorrem mais na periferia de uma semiosfera ou dado campo semiótico e se dirige às estruturas nucleares para, possivelmente, desalojá-las. Textos que trazem em si informações de outros textos ou universos semióticos, fragmentos diferenciados que concorrem decisivamente para a sua feição composicional e carga comunicativa (LOTMAN, 1996, p. 28).

Ou seja, para efeito de análise, posicionamos como dois campos semióticos o da literatura e o do jornalismo. Semelhantes campos são formados por uma sem número de tipos de textos heterogêneos entre si, com diversas possibilidades de formação e estilos. Aqui, vamos elencar determinados procedimentos relativos ao campo semiótico do jornalismo contemporâneo devidamente presentes em Ilha de Sakhalina. Os procedimentos do universo literário são exclusivamente derivados de cartas dedicadas à estética ou de como escrever objetos literários de Tchekhov, especialmente a jovens escritores. Produção esta que foi reunida, traduzida e interpretada pela pesquisadora e professora do Curso de Russo da Universidade de São Paulo, Sophia Angelides, e publicada após o seu falecimento.

 

Ao inferno sem Virgílio

Ao percorrer esta vasta produção, 400 páginas na edição espanhola direta do russo que utilizamos aqui, pode ficar uma primeira e forte impressão ao leitor: uma estação no inferno que lembra A Divina Comédia de Dante Alighieri. Mas com algumas diferenças capitais. O leitor não é guiado por um Virgílio idealizado da poesia helênica, mas por um ser humano. Pois é narrado na primeira pessoa do singular, mas de forma tão sutil e com tamanha preocupação com a objetividade o tempo todo, que até parece em muitos trechos que estamos, na verdade, no fluxo de uma narrativa na terceira pessoa do singular onisciente e onipresente. Isto porque o narrador cumpre uma de suas premissas fundamentais: narrar acima de tudo com descrições de ambientes e pessoas o mais detalhada e obsessivamente possível, não dar opiniões ou julgamentos antes disso. E, quando o faz, é rapidamente e pontual em suas observações. O próprio Tchekhov, em correspondência após a sua volta, afirmou: “Enquanto vivi em Sacalina eu sentia em minhas entranhas só uma queimação, como se tivesse engolido manteiga rançosa, mas agora, na minha lembrança, Sacalina surge como um verdadeiro inferno” (TCHEKHOV, 2002, p. 319).

A viagem a Sakhalina para descrever e acusar as péssimas e desumanas condições dos presos como exemplar e todo o sistema correcional do império czarista foi um verdadeiro mistério para os seus contemporâneos e mesmo para os seus estudiosos ou biógrafos. Pelo que parece, de repente, Tchekhov comunicou a todos a sua viagem já com os preparativos adiantados. Não poucos tentaram demover o autor do que era considerada uma verdadeira loucura. Em primeiro lugar, ele já trazia vários problemas de saúde, como a tuberculose, em manifestações iniciais. O que já seria uma longa e penosa viagem para alguém saudável para chegar a um lugar de clima glacial com várias limitações, mostrava-se mais inviável ainda a alguém com a saúde comprometida.

Na ida, o itinerário teve início com a partida de Moscou em 21 de abril de 1890, passando pelo rio Kama, Perm, Tiutmen, Tomsk, Irkutsk, rio Amur até Sakhalina. Como não havia a via férrea Transsiberiana, ele viajou de forma entrecortada e sacrificante de carruagem, trem, barco e a cavalo, fora a permanência necessária em vários pontos ao longo do trajeto extenso. Até que, em 5 de julho de 1890, chega à cidade de Nikolaivsk, o extremo mais oriental da Rússia e o ponto do continente mais próximo à ilha de Sakhalina.

Apesar de em muito insondável, um motivo central Tchekhov deixou registrado para esta verdadeira odisséia moderna. “[...] Sacalina é um lugar de sofrimentos intoleráveis que só o ser humano, livre ou forçado, é capaz de suportar. [...] Pelos livros que li e que estou lendo, constata-se que deixamos milhões de pessoas nas prisões, deixamos apodrecer, sem razão, de maneira bárbara; fizemos pessoas algemadas correr no frio dezenas de milhares de verstas, transmitimos sífilis, corrompemos, multiplicamos os criminosos, tudo isso nós imputamos aos carcereiros de nariz vermelho” (TCHEKHOV, 2002, p. 280, grifo do autor).

 

Ver tudo para contar

Neste momento, descrevemos alguns dos elementos presentes em Ilha de Sakhalina como texto de fronteira mais afeitos ao campo semiótico do jornalismo. Interessante observar que o termo “fronteira” cunhado por Iúri Lotman não é excludente, na vertente de estudos conhecida por Semiótica da Cultura. Pois os elementos constitutivos de um campo semiótico não são exclusivos a este. A partir do momento que tangencia com outro campo ou semiosfera, forma essa zona de textos de fronteira onde há acelerada e intensa troca de textos e elementos vários entre os dois campos. Logo, há a interpenetração de campos, onde elementos de um deles penetram no outro para formar outros textos em acelerada semiose. Logo, apontamos aqui elementos do campo semiótico do Jornalismo que podem e certamente penetraram na produção literária de vários autores, e, inclusive, pensamos em Tchekhov.

Desde o nascimento da grande imprensa ocidental tal como a conhecemos, nos anos 30 do século XIX na França, até a sua estabilização industrial e já globalizada como se viu os EUA cerca de 50 anos depois, viveu-se grandes transformações. Entre elas, o jornalismo passa a privilegiar, cada vez mais, a informação em detrimento da opinião. Nos países centrais e termos de capitalismo moderno, essa transição já está estabelecida nos anos 80. Mas na periferia industrial como o Brasil e Rússia, apenas se estabelece na primeira década do século.

Uma das premissas basilares do jornalismo, mesmo anterior a estas mudanças, mas que toma um lugar privilegiado na esfera hegemonicamente informativa é o olhar. Mesmo no século XVI, com os primeiros periódicos ou diários onde se registravam, entre outros materiais, o registro de “colaboradorres ocasionales como, por ejemplo, el súbdito que empreendía una viaje o participaba de una guerra y recebía instrucciones de su señor para relatar cuanto había visto” (PRÜFER, 1964, p. 144, grifo nosso). Pois, já na volta, em carta dirigida ao seu amigo e editor Aleksei Suvórin, faz questão de afirmar: “Eu vi tudo; portanto, a questão agora não é o que eu vi, mas como vi” (TCHEKHOV, 2002, p. 317, grifos do autor). Para, em carta logo depois, corrigir-se em nome da precisão, “vi tudo, menos a pena capital” (TCHEKHOV, 2002, p. 319, grifos do autor).

Por um lado, podemos compreender semelhante obsessão de Tchekhov em destacar ao seu interlocutor o sentido da visão para delimitar claramente de que o que ele vai escrever não é literatura, uma peça do reino da inventividade - mesmo que verossímil ou em diálogo com a realidade. Não custa lembrar que vários críticos contemporâneos tentavam menosprezar seus contos chamando-o de cronista, como aquele que não faz boa literatura, mas preocupa-se apenas com as coisas comezinhas do cotidiano. O olhar, desta forma, instaura uma aura de credibilidade em determinada narrativa. Uma extensão possível do ditado popular “É ver para crer”.

Por outro lado, e provavelmente não menos importante, é saber quem realmente é este interlocutor de Thekhov, tentarmos capturar possibilidades de sentidos nestes enunciados aparentemente banais. Suvórin era o maior barão da imprensa no império russo, o equivalente ao que foi no Brasil Assis Chateaubriand ou Roberto Marinho. Ambos capitães da indústria da informação que sabiam não apenas administrar este tipo de empresa, mas começaram como jornalistas e tinha pleno domínio do meio. Inclusive, escrevendo editoriais em suas mídias até o final da vida e acompanhando de perto todo o material editorial gerado em seus veículos. Ou seja, Tchekhov não falava apenas com um amigo, mas com um experimentado jornalista que sabia o que estava acontecendo na França, Alemanha e EUA e sabia o quanto o “olhar” era valioso para o trabalho jornalístico. Ou seja, provavelmente Tchekhov se preocupava de agregar a credibilidade de uma funcionalidade do periodismo moderno. Pois Tchekhov, durante a faculdade de medicina, começou a publicar contos e quadros do cotidiano em jornais diários de Moscou, tendo até trabalhado com o jornalista e editor Vladimir Korolenko, além de outros trabalhos realizados em jornais desta capital e de outras cidades russas (Cf. DURKIN, 1997, p. 228 e seguintes).

Mas devemos registrar que aparentemente, Tchekhov não tinha em boas vistas o jornalismo como atividade social. Para ir a Sakhalina, ele obteve de Suvórin a carteira de jornalista de um dos seus jornais. Provavelmente, para ter melhor acesso às permissões de ida, translado e percorrer toda a ilha. Aliás, como conseguiu. Ao encontrar-se pessoalmente com o governador da ilha, A. N. Korff, este lhe perguntou se trabalhava para alguma sociedade científica ou jornal e o autor respondeu que não. Pois, naquela altura, contou no próprio livro, “no pensaba publicar nada sobre Sajalín en los periódicos y no deseaba inducir a error al unas personas que, según todas las evidencias, se fiaban totalmente de mí” (CHEJÓV, 2005, p. 59). Para, logo antes, ele lembrar de vários absurdos leu sobre a ilha por pessoas que foram antes dele. “Un periodista escribe que al principio tenía medo de cada arbusto y que, cada vez que se encontraba con un preso en la carretera o en un sendero, palpaba o revólver que guardaba bajo del abrigo, hasta que se tranquilizó y llegó a la conclusión de que ‘los presos, en su conjunto, son un rebaño de borregos cobardes, perezosos, muertos de hambre y serviciales’ (CHEJÓV, 2005, p. 57).

 

Construção do olhar

O que Tchekhov quis dizer com a expressão “a questão agora não é o que eu vi, mas como vi” não é possível dizer. Mas o que se sabe é como ele construiu o seu olhar para emergir em uma realidade pouco conhecida. O que, no jornalismo moderno, chamamos da constituição da pauta. Quando o repórter vai buscar o máximo de informações prévias sobre o tema da matéria - inclusive levantar pontos polêmicos que emergem a partir de fontes diferentes. Calcula-se que Tchekhov leu 65 trabalhos sobre a lha penal e o dobro quando voltou para escrever o livro. Ou seja, ele passou até pelo que chamamos hoje de “pós-pauta”.

Ele praticamente leu todo tipo de produção que lhe caiu às mãos e, para consegui-lo, pediu a colaboração de amigos e conhecidos para localização e envio de textos. Desde relatórios jurídicos, passando por diários de viajantes naturalistas e botânicos, historiadores até textos publicados em jornal - como o que ele alude logo acima. A arregimentação dessa massa de dados não foi à toa. Pois o autor não localizara uma obra específica que pudesse expressar o que era aquele “inferno”, como dissera em carta a Suvórin citada anteriormente. Onde deixa claro que a partir das leituras das mais diversas obras é que teve a noção do que lá acontecia, o que é muito importante, no cruzamento de dados para a formação de um sentido e da construção de um olhar que não ficasse à deriva na aparência fugaz e enganosa.

Um aspecto dos mais importantes é como esse material informativo tem uma presença efetiva em toda a narrativa. Atuando como suporte a tudo o que ele viu e escutou em ato de reportar. Entre outros momentos em que isto se torna patente, no capítulo VII, onde descreve detalhadamente o clima no distrito Aleksandrovski, chegando a publicar uma tabela comparativa com as temperaturas médias com o distrito Cherepovets (este foi outro de grande adensamento populacional na ilha). O verão alcançava alta de 16,3 e 18,5 graus Celsius e o inverno com - 18,9 e - 11 graus, respectivamente. Aliados a outros dados, como o de alta umidade nestas regiões e informar que, a cada ano, há uma média de 189 dias com precipitações em geral: 107 de neve e 82 de chuva. Após a construção de uma série de dados, este médico em postura de repórter levanta a hipótese de que este ambiente justifique o alto índice de alcoolismo existente a ponto dos presos “pierdan para siempre la esperanza en uma vida mejor” (CHEJÓV, 2005, p. 119).

 

Subversão dos papéis sociais

Com esse olhar devidamente construído, Tchekhov empreende a viagem cuja tônica da edição de seu olhar e da construção da narrativa: ele busca exatamente o que é diferente, surpreendente ou que provoque indignação. Esta é uma das grandes matérias-primas do jornalismo moderno, buscar a diferença e descrever o ser humano nesta condição ou ambiências distintas ou estranhas. Ante uma série de possibilidades e que isto ocorre em função do espaço aqui, vamos abordar dois momentos onde há completa adesão à barbárie na maneira como os presos são tratados pelos libertos, na subversão de sua condição de detentos que devem ser recuperados para a sociedade e são tratados como servos - décadas depois da servidão ser abolida na Rússia. Na seqüência, a descrição de castigos corporais que eram comuns e a publicação dentro e fora da Rússia de Ilha de Sakhalina muito contribuiu para abolir, além de outros benefícios, a toda população carcerária do país.

Tchekhov encontra e descreve uma série de possibilidades encontradas na população carcerária. Desde os que vivem em regime semi-aberto aos em fechado. Os primeiros vivem em relativa liberdade: “não levam correntes, têm direito, durante o dia, a sair do cárcere e ir onde querem sem escolta; “no están obligados a llevar uniforme, y se visten como mejor les parece, según el tiempo y el trabajo” (CHEJÓV, 2005, p. 88). Eles vivem dessa forma por ser praticamente impossível fugir desta ilha longe da costa. Os que vivem em regime fechado são os que cometeram delitos mais graves ou os que tentaram a fuga. Nesse sentido, ele lança mão de um recurso normal nas ides jornalísticas, o chamado perfil. Ao descrever em detalhes vários - desde as particularidades físicas até o fato de ter sempre algemas às mãos e casaco cinza de ovelha que serve como roupa e de cama até nos invernos glaciais - um dos personagens mais conhecidos da ilha, a detenta em regime fechado Sofia Büwstein, alcunhada “Mão de ouro”.

Ao invés de simplesmente dizer que vários presos vivem em celas insalubres em péssimas condições, descreve:

En los días de buen tiempo, poco frecuentes, la cárcel se ventila perfectamente: las ventanas y las puertas se abren de par en par y los presos pasan la mayor parte del tiempo en el patio o fuera de la prisión. Pero en el invierno y en los días de tiempo desapacible, es decir, durante diez meses al año, hay que contentarse con las ventanillas y las estufas. La madera de abeto y de alerce, empleada en la construcción de la prisión y en los cimientos, asegura una buena ventilación natural, aunque precaria, ya que, la alta humedad del aire de Sajalín y las abundantes lluvias, [...] hacen que en los poros de la madera se acumule el agua, que en invierno se hiela; la ventilación, entonces, se vuelve deficiente y cada uno de los presos dispone de poco aire. En mi libreta anoté: ‘Pabellón No. 9. Volumen cúbico de aire 187 sazhens (cerca de 399 metros). Contiene 65 presos’. Esas cifras se refieren al verano, cuando sólo la mitad de los presos pasa la noche en la prisión’. (CHEJÓV, 2005, p. 92-93)

Um dos poucos momentos em que o narrador deixa a fria descrição do que viu falar por si, foi quando contatou que todos os funcionários da ilha, até os que não tinha relação com a administração prisional, (como o diretor e os carteiros), “empregavam presos da forma mais descarada para as tarefas domésticas, sem pagar salário algum a esses criados, alimentados às custas do Estado”. Ou seja, denuncia que não mais se está ante um presidiário, mas a um “esclavo que depende de la voluntad de un amo y de su familia, tiene que complacer sus caprichos y participar en reyertas domésticas (CHEJÓV, 2005, p. 99-100).

Porém, um dos capítulos que mais causaram comoção no público leitor russo e do exterior foi o de número XXI, dedicado aos castigos corporais. Neste, há a descrição de parte de uma pena presenciada por Tchekhov e imputada a um preso: das 90 chibatadas prescritas, o autor só conseguiu manter-se na primeira metade da sessão de castigo. Mas a descrição é enriquecida pelo fato do narrador ser também médico, o que lhe aferiu maior objetividade e não menos indignação no intertexto:

El verdugo se sitúa de costado y golpea de forma que el látigo recorra el cuerpo de través. Cada cinco latigazos se desplaza al otro lado y hace una pausa de medio minuto. A Projorov (el supliciado), los cabellos se le han pegado a la frente, el cuello se le ha hinchado. Al cabo de cinco o diez latigazos fel cuerpo, ya lleno de cicatrices por latigazos anteriores, se vuelve azul. La piel se resquebraja a cada golpe. [...] De pronto el cuello sufre un extraño estiramiento, se producen conatos de vómito. [...] Finalmente, se llega a los 90. [...] La espalda está cubierta de cardenales y sangra. Le castañetean los dientes, el rostro está amarillo, húmedo; tiene la mirada extraviada”. (CHEJÓV, 2005, p. 341-342)

 

A vida como ela é

Ao contrário de Tolstói que deixou a sua visão estética em O que é Arte?, Tchekhov não deixou uma obra sistematizada neste sentido. Porém, nas mais variadas vezes em que foi inquirido via carta, quase sempre por jovens escritores, deixou por escrito seus posicionamentos sobre criação literária. Temos organizado e traduzido do russo por Sophia Angelides, toda a correspondência onde Tchekhov estabelece claramente seus princípios de composição. Para ele, o escritor tem que escrever o que ele vê, pois a “literatura artística é denominada artística porque descreve a vida tal como ela é na realidade. [...] por mais horrível que seja, ele [o escritor] é obrigado a combater o seu asco, sujar a sua imaginação com a imundície da vida...” (ANGELIDES, 1995, p.58). Em outro momento, o autor revela uma receita de como escrever um conto de qualidade:

1. ausência de palavrório prolongado de natureza político-sócio-econômica;

2. objetividade total;

3. veracidade nas descrições das personagens e dos objetos;

4. brevidade extrema;

5. ousadia e originalidade - fuja dos chavões;

6. sinceridade. (ANGELIDES, 1995, p.52)

Outro aspecto relevante, para Tchekhov, é que não deve ser feito juízo sobre as personagens. O ideal é o narrador ser uma testemunha imparcial. A observação é um dos elementos essenciais para verificar o talento do escritor em saber distinguir em um diálogo, declarações relevantes das irrelevantes. Ainda buscando a vida como ela é, o autor afirmou: “Para representar ladrões de cavalos em setecentas linhas, eu preciso, o tempo todo, falar e pensar no tom deles e sentir à maneira deles. Do contrário, se eu introduzir a subjetividade, as imagens ficarão borradas, e o conto não será tão compacto como devem ser todos os contos curtos [...]” (ANGELIDES, 1995, 173).

Ou seja, não por acaso, constatam-se elementos aqui expostos que se enquadram no que foi exposto sobre a obra Ilha de Sakalina, o que nos permite localizar essa produção como um texto de fronteira entre os campos semióticos do jornalismo e da literatura. Em toda essa produção, percebe-se desde a extrema economia textual, a busca da objetividade nas descrições pormenorizadas e a atenção a todos os detalhes à sua volta - desde os ambientes e como as pessoas estão nele e se vestem e se expressam.

Não à toa, Tchekhov transitou e muito pelas redações de jornais da Rússia. Iniciou sua carreira de escritor e jornalista no início dos anos 80 do século XIX, publicando pequenos contos como “O Despetador”, “O Espectador” e “Fragmentos” em semanários satíricos e publicou em tradicionais jornais, como A Gazeta de Pertesburgo, Novos Tempos e Pensamento Russo.

Em 1899, Tchekhov escreveu um breve texto autobiográfico, onde de forma pouco diferenciada, descreve suas atividades. Sem nomear o que foi exatamente a produção sobre Sakhalina, indicando apenas que foi um livro sobre “nossa” colônia penal e de trabalhos forçados, ele logo enumera trabalhos vários de escritas como o jornalístico. Ou seja, por esta enumeração sintética, percebe-se que, pelo menos, o livro sobre Sakhalina ficou-lhe, com o passar dos anos, como uma obra de ampla e efetiva carga informativa. O que realmente não há como negar, decisivamente próximo ao universo do jornalismo.

Por último, observamos que da viagem a Sakhalina não ficou apenas o livro que abordamos neste texto. Mas muitos outros.

A primeira coisa que ele fez após seu regresso foi organizar uma colecção de livros para as escolas de Sacalina, as quais, como ele escreveu a alguém, apenas existiam “no papel”. Pois as crianças tudo quanto aprendiam lhes era ensinado pelo ambiente da prisão. (MAGARSHACK, 1960, 273)

 

Referências bibliográficas

ANGELIDES, Sophia. A P. Tchekhov: cartas para uma poética. São Paulo: Edusp, 1995.

CHEJÓV, Antón P. La isla de Sajalín. Traducción de Víctor Gallego Ballestero. Barcelona: Alba Editorial, 2005.

CHEKHOV, Anton. A life in letters. Translated by Rosamund Bartlett and Anthony Philips. London: Penguin Books, 2004.

DURKIN, Andrew R. Chekhov and the journals of his time. In: MARTINSEN, Deborah A. (editor). Literary journals in imperial Russia. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.

GATTO, Etore Lo. La literatura rusa moderna. Traducción de Miguel Mascalino. Buenos Aires: Losada, 1972.

LOTMAN, Iúri. La Semiosfera 1. Madrid: Ediciones Cátedra, 1996.

MAGARSHACK, David. Tchekov. Tradução de José Gaspar Simões. Lisboa: Áster, 1960.

TCHÉKHOV, Anton Pávlovitch. Cartas a Suvórin (1886-1891). Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Edusp, 2002.

TERRAS, Victor. A History of Russian Literature. New Haven: Yale University Press, 1991.

PRÜFER, Guntram. Historia de las comunicaciones. Traducción de Enrique Ortega Masia. Barcelona: Ediciones Zeus, 1964.

 

© Gutemberg Medeiros 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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