História, mitos e representações em Electra, de Sófocles

Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel

Universidade Federal do Ceará (UFC)
Brasil
samarkandra@gmail.com


 

   
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Resumo: Com base nas definições aristotélicas, acerca da tragédia apresentadas na Arte Poética, analisaremos a tragédia sofocliana Electra e também discutiremos as várias representações femininas, inclusive as atitudes e sentimentos da personagem Electra, irmã de Orestes. Mostraremos como o sofrimento pela morte do pai, assassinado pela esposa adúltera e seu amante, e a conseqüente sede de vingança, evidenciada na falta de clemência para com os assassinos, levam esta heroína sofocliana às últimas conseqüências.
Palavras-chave: Electra, Sofocles, mito, paixões humanas.

Abstract: Based on the aristotelian, definitions related to tragedy set forth in his Ars poetica, we will analyze the sophoclean tragedy Electra and will also discuss the many female representations, including the posture and feelings of the character Electra, Orestes’ sister. We will show how the suffering due to her father’s death, killed by the adulteress wife and her lover, and therefore the hunger for revenge, displayed in the lack of clemency for the murders, take this sophoclean heroine to the last consequences.
Keywords: Electra, Sofocles, myths, human passions.

 

O silêncio dá graça as mulheres.
(Sófocles, Ájax, vv.405-408).

 

1. Introdução

O teatro foi, sem dúvida, um dos aspectos mais expressivos da cultura grega antiga. De Surgido no século VII a.C., de acor com Snell,

[...] compunha-se, na origem, dança e conto coral em honra a Dionísio que os cantores executavam usando máscaras animalescas e assim assumindo a forma primitiva do divino: desse modo, mundo mítico e realidade terrena tornavam-se uma só coisa enquanto durasse a dança (SNELL, 2005: 99).

Porém, no período que vai do século V a.C. ao século IV a.C., a tragédia e a comédia secularizam-se perdendo o elo com os rituais religiosos que as originaram.

Veio então o esplendor do teatro grego, o chamado Século de Ouro, época em que, ao congregar autores e intelectuais, a cultura grega atingiu seu apogeu. Atenas foi o centro dessas manifestações.

Aristóteles, em sua Arte Poética, afirmou que a tragédia, cujos grandes representantes foram Ésquilo, Eurípides e Sófocles, substituiu a epopéia, herdando-lhe os temas nobres. Já a comédia, que teve como grande nome Aristófanes, foi marcada pela sátira e o tom de galhofa, havia herdado da poesia jâmbica seus temas vulgares.

Neste estudo, nos ateremos à tragédia Electra, de Sófocles. Esta será analisada com base nas definições aristotélicas acerca do gênero, apresentadas na Arte Poética. Porém, as várias representações femininas contidas na peça, inclusive a personagem que dá nome à peça, ganharão destaque. Mostraremos como o sofrimento pela morte do pai, assassinado pela esposa adúltera e seu amante, e a conseqüente sede de vingança, evidenciada na falta de clemência para com os assassinos, a leva às últimas conseqüências.

 

2. Sófocles: o criador de “figuras nitidamente delineadas”

Sófocles nasceu em Atenas, em 496 a.C. e teve sua primeira peça representada em 466 a.C., em que competiu com Ésquilo, já consagrado, e saiu vencedor. Durante 60 anos compôs tragédias e dramas satíricos num total aproximado de 123, das quais restaram sete: Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona, Filoctetes, As Traquinias, Ájax e Electra.

Além de exercer uma carreira brilhante como tragediógrafo, o autor de Electra dedicou-se também ao atletismo, à música, à política, ao militarismo e, por último, à religião, onde contribuiu com a implantação do culto de Asclépio, na Ática, mais precisamente em Colono, onde veio a falecer em 406 a.C.

As heroínas das tragédias sofoclianas não são aristocratas nem camponesas, com um cotidiano típico do século V a.C.. Na verdade, suas “figuras nitidamente delineadas” (PEREIRA, 1993: 413) habitaram a Sociedade Heróica, repleta de seres míticos. Foram rainhas e princesas como Antígona, Ifigênia, Hécuba, Jocasta e Electra.

Sófocles concentrou suas obras na ação de um personagem e, como observou Pereira, diferente de Ésquilo, caracterizado por apresentar em suas peças “situações trágicas”, Sófocles focou “na preferência de caracteres” (PEREIRA, 1993: 413). Assim, destacando o caráter dos personagens, sempre se preocupou em descobrir uma solução mais profunda para os problemas que as peças anteriores não resolviam por completo.

 

3. Electra: mitos e representações

De acordo com Grimal, “Electra é o nome de diversas figuras lendárias. (...) Mas de todas as Electras da lenda, a mais célebre é sem dúvida a filha de Agamêmnon e de Clitemnestra” (GRIMAL, 1993: 133). Foi ela que serviu de tema para sua Electra.

Segundo algumas versões do mito, após o assassinato do pai, Agamêmnon, por Egisto e Clitemnestra, Electra escapou por pouco, e passou a ser tratada como escrava. Salvando o irmão Orestes, Electra o confiou, em segredo, ao preceptor, que o levou para longe. Egisto a teria casado com um camponês que não morava em Micenas, a fim de evitar que ela desse à luz um herdeiro do trono.

Certo dia, indo ao túmulo do pai, reencontrou o irmão. Desde então, passaram a tramar as mortes de Egisto e Clitemnestra, desempenhando Electra um papel ativo neste duplo homicídio.

Electra cuidou de Orestes que, após o assassinato dos assassinos do seu pai, foi perseguido pelas fúrias ou erínias, as “deusas vingadoras, a serviço dos deuses dos Ínferos, que puniam todas as injustiças, não só nos Ínferos mas também no mundo superior” (SCHWAB, 1996: 328).

Na introdução à edição de Electra, utilizada neste estudo, Kury observa:

[...] os dramaturgos gregos confinaram-se quase absolutamente a um círculo de certo modo restrito de histórias míticas; uns após outros, todos recorreram a Homero e aos poetas do ciclo épico; Ésquilo, Sófocles e Eurípides, para não mencionar seus inúmeros rivais esquecidos, trabalharam e retrabalharam os mesmos temas (SÓFOCLES, 1965).

O mito de Electra serve como exemplo para afirmação de Kury. Electra participou de vários episódios do mito de Orestes, na trilogia Oréstia, de Ésquilo, formada pelas tragédias Agamêmnon, Eumenides e Coéforas (esta última narrou os seus sofrimentos). Protagonizou duas tragédias: Electra, de Eurípides e Electra, de Sófocles, no entanto, apesar das peças citadas se basearem no mesmo mito, diferem pelas peculiaridades de estilo de cada autor.

 

4. Electra, de Sófocles: análise

Segundo Aristóteles, no capítulo VI da Arte Poética, a tragédia:

[...] é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas, segundo as partes; ação apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores, e que, suscitando a compaixão e o terror, tem por efeito obter a purgação dessas emoções (ARISTÓTELES, 1985: 248).

Na tragédia Electra, encontramos os elementos apresentados pelo estagirita. Representada pela primeira vez, por volta de 413 a.C., seus antecedentes estão na lenda da Guerra de Tróia, Idade Heróica da Grécia, cerca de 1200 a.C., de onde Agamêmnon, após a vitória, regressou a Micenas, capital de seu reino e foi assassinado brutalmente pela sua esposa Clitemnestra e o seu amante Egisto. Assim, a viúva Clitemnestra casou-se, em segundas núpcias, com Egisto, seu cúmplice e usurpador do trono de Agamêmnon.

A justificativa para o assassinato apresentada pela adúltera, foi o sacrifício cruel de Ifigênia, realizado por Agamêmnon, em honra à deusa Ártemis, para obtenção da vitória em Tróia.

Agamêmnon e Clitemnestra tiveram quatro filhas: Ifigênia, Ifiânassa, Crisôtemis, Electra e o filho Orestes. Este foi salvo por Electra, na ocasião do crime, e enviado ao rei da Fócida, por um antigo criado de Agamêmnon, Preceptor.

Durante onze anos, Electra permaneceu em Micenas com as irmãs e os assassinos de seu pai, à espera do regresso do irmão que vingaria a morte de Agamêmnon e suas humilhações.

O cenário da peça representa Micenas, mais precisamente o palácio real do Átrida, na Acrópole. Supõe-se que de lá se veja toda a planície de Argos e os templos de Apolo e Hera.

Principia com o retorno de Orestes a Micenas, onde ele faz correr o boato de sua própria morte. Electra mostra-se tão desesperada que Orestes, comovido, se dá a conhecer. Logo, em seguida, vai ter com sua mãe e, auxiliado por Electra, a fere mortalmente. Egisto, que estava ausente do palácio, nada sabia. Ao chegar, aparece desejoso de ver os despojos mortais de Orestes, mas descobre o corpo e vê que não é do seu possível algoz, mas o cadáver da esposa. Egisto é levado ao lugar onde Agamêmnon foi morto e ali também é assassinado por Orestes, que é apresentado como o vingador de seu pai.

A temática principal da tragédia é a vingança e todo o enredo da peça gira em torno da possível concretização desta. É ela que moldou o caráter de Electra que, apesar do sofrimento e das humilhações, nunca perdeu seu orgulho, nem hesitou em cumprir seu intento: aguardar a volta de Orestes para que ele matasse os assassinos de Agamêmnon. Nos antecedentes da tragédia, já podemos perceber a intenção de Electra ao salvar Orestes da morte e enviá-lo ao rei da Fócida. Tendo como base a lenda da guerra de Tróia, estima-se que Orestes tinha uns 10 anos de idade quando foi salvo pela irmã, retornando a Micenas já homem feito. Se analisarmos o tempo em que Electra espera, humilhada, o regresso do irmão, poderemos entender o rancor que ela tem pelos algozes de seu pai. Durante esse tempo, Electra passa por desonras, sendo tratada como uma serva do palácio e não vivendo no luxo que é direito de uma princesa miceniana. Percebemos a amargura e o descontentamento da personagem, quando esta lamenta o flagelo que se tornou sua vida:

Electra: (...) como qualquer estranha sem direitos
sou serva no palácio de meu pai,
vestida nesta roupa degradante,
de pé, em frente à mesa sem convivas (SÓFOCLES, 1965, vv. 175-178).

Todo esse sofrimento por que passa a personagem acentua o ódio dantes já cravado em seu coração, em decorrência do assassinato do pai. Essa sede de vingança é o que diferencia Electra da irmã.

As diferenças de caráter entre as duas acentuam-se na representação do figurino da peça, em que as roupas de Crisôtemis esbanjam elegância, contrastando com os pobres vestidos de Electra.

Sua irmã Crisôtemis desfruta assim das regalias do palácio. Não guarda o luto devido à morte do pai, seja por medo de represálias de Egisto, seja por prudência, não querendo perder o conforto e o luxo que desfruta.

Outro ponto relevante do caráter da protagonista é o orgulho, que a leva ao sofrimento, pois ao contrário da irmã que, embora sofra com a morte do pai, prefere não se rebelar contra os detentores do poder (Egisto e Clitemnestra), Electra não teme em revelar seu desprezo ao casal de assassinos:

Crisôtemis: Por que vieste novamente, irmã, gritar
e lamentar-te assim às portas do palácio?
(...)
Não aprendeste, decorrido tanto tempo,
que o ódio apenas nutre inúteis esperanças?
Sabes que também sofro com nossa desdita;
mostrar-lhes-ia, se pudesse, meu intento,
mas na desgraça é preferível ser prudente
e não premeditar quiméricas vinganças (SÓFOCLES, 1965, vv. 298-305).

Electra: Disseste agora mesmo irmã, que se pudesses
demonstrarias o teu ódio pelos dois;
a mim, porém, que tudo faço por teu pai,
para vingá-lo, não me dás apoio algum
e tentas impedir até a minha ação! (SÓFOCLES, 1965, vv. 318-322).

Assim, a triste situação em que se encontra Electra, também aflige Crisôtemis. Esta última se furta a obedecer a ordem divina que Electra anseia em cumprir: vingar o pai morto.

Se seguirmos o diálogo entre as duas irmãs, encontraremos uma advertência de Crisôtemis a Electra, temendo que ela seja mandada para uma caverna escura. Porém, nem estas ameaças intimidam essa heroína sofocliana, pelo contrário, instigam mais o desprezo pelos seus carrascos:

Electra: (...) Não me fazem medo!

Crisôtemis: Para sofreres mais ainda? Já não pensas?

Electra: Para ficar distante dessa gente toda! (SÓFOCLES, 1965, vv. 366-369).

Nesta passagem, atestamos em Electra o que Aristóteles afirma acerca do herói trágico: ele deve possuir um caráter elevado, mas também características de descomedimento. Essa também é uma característica comum na obra sofocliana, a representação de heroínas fortes, que não aceitam o papel de ‘ser decorativo’, “afrontando una coyuntura dada por la ausencia de varón, los excesos en el ejercicio del poder y la necesidad de restitución, sin que la estructura masculina de la Grecia clásica se vea afectada” (ATEHORTÚA, 2000).

Tudo o que lhe dava esperança era a volta de Orestes, que executaria seu plano de vingança e isso não era segredo para seus algozes, pois era do conhecimento de Clitemnestra que a volta do filho exilado significaria sua morte:

Electra: Orestes, que de tuas mãos salvei a custo,
vive distante a inglória vida de exilado.
Acusas-me freqüentemente de o ter salvo
para punir mais tarde teu terrível crime;
assim faria, se pudesse, tem certeza! (SÓFOCLES, 1965, vv. 569-573).

Atehortúa, acerca da representação das relações afetivas estabelecidas personagens femininas e masculinas sofoclianas, observa que:

[...] también obedecen a una mentalidad heroica y conservadora para la época. Son relaciones mediadas por la philía y no por el eros, por los acuerdos y por las que se desprenden cuando una mujer era botín de guerra. Es en este aspecto, con relación a la mujer, donde la obra de Sófocles se evidencia tradicional y cercana al elemento mítico (ATEHORTÚA, 2000).

No caso de Clitemnestra, esta é fiel e leal a Egisto e por ele sente eros. Já pelos filhos, mesmo os perversos, garante não odiá-los e por eles sentir philia. Para ela, seu crime foi justo, pois, Agamêmnon foi um pai tirânico por matar Ifigênia: “teria esse pai cruel, sem coração, perdido/ toda a ternura pelos filhos de meu ventre?” (SÓFOCLES, 1965, vv. 507-508) afirma a esposa adúltera à filha perversa.

Mas Electra, memória viva do pai, não vê justiça na atitude da mãe, pois crê que ela o matou porque foi “induzida pelo companheiro pérfido” (SÓFOCLES, 1965, vv. 526). E completa, bem ao estilo sofocliano, carregado de ironia:

Electra: Aponta-me aos micênios como desleal,
como atrevida, até despudorada, ou mais,
pois se sou bem dotada dessas qualidades,
herdei-as de ti; não desmereço teu sangue! (SÓFOCLES, 1965, vv. 574-577).

Poderíamos pensar por que Electra, mesmo sendo uma heroína forte e decidida, não executa com as próprias mãos sua vingança. O fato de ser mulher a impediria disso.

Aristóteles, na Política, acerca da natureza da alma, constata a inferioridade da mulher e a justifica, mencionando sua não plenitude da parte racional da alma, o logos:

Isto nos leva imediatamente de volta à natureza da alma: nesta, há por natureza uma parte que comanda e uma parte que é comandada, às quais atribuímos qualidades diferentes, ou seja, a qualidade do racional e a do irracional. (...) o mesmo princípio se aplica aos outros casos de comandante e comandado. Logo, há por natureza várias classes de comandantes e comandados, pois de maneiras diferentes o homem livre comanda o escravo, o macho comanda a fêmea e o homem comanda a criança. Todos possuem as diferentes partes da alma, mas possuem-nas diferentemente, pois o escravo não possui de forma alguma a faculdade de deliberar, enquanto a mulher a possui, mas sem autoridade plena, e a criança a tem, posto que ainda em formação. (...) Devemos então dizer que todas aquelas pessoas tem suas qualidades próprias, como o poeta (Sófocles, Ájax, vv.405-408) disse das mulheres: 'O silêncio dá graça as mulheres', embora isto em nada se aplique ao homem" (ARISTÓTELES, 1997: 32-33).

Assim, conclui Torres: “calar a mulher significava portanto, efetivamente, o mesmo que excluí-la inteiramente da cidadania.” (TORRES, s/d). E era esse o objetivo dos assassinos do Átrida com relação a Electra.

Mas o caráter sofredor e sedento por vingança de Electra a torna também manipuladora e, sem hesitar, leva o irmão a cometer o tão esperado matricídio:

Clitemnestra: Meu filho! Meu filho! Matas quem te deu a vida?

Electra: Tu não tivestes piedade ou compaixão
nem dele, nem de nosso pai que assassinaste! (SÓFOCLES, 1965, vv. 1393-1395).

Neste ponto da tragédia, o caráter sofredor e vingativo de Electra dá lugar à frieza e à crueldade que a leva a incitar Orestes a cometer o crime:

Clitemnestra: Estou ferida!...

Electra: Fere mais, Orestes! Fere!

Clitemnestra: Ai! É a morte!...

Electra: Assim pereça o teu Egisto! (SÓFOCLES, 1965, vv. 1399-1400)

A partir daí, Electra se fortalece e passa a ser parte fundamental na cilada para Egisto, levando-o à morte pelas mãos de Orestes, negando-lhe até mesmo as últimas palavras:

Egisto: Estou perdido! Vencido!... Mas poderia
dizer uma simples palavra? (SÓFOCLES, 1965, vv. 1466-1467).

Electra: Pelos deuses!
Não lhe permitas, meu irmão, dizer mais nada,
Nem defender-se!
(...)
Deves matá-lo já! Atira seu cadáver
distante de meus olhos, bem longe, aos abutres,
coveiros dos malvados dessa qualidade!
Assim há de pagar os males que me fez! (SÓFOCLES, 1965, vv. 1468-1475).

Mas o tirano é levado para fora do palácio dos Atridas, “el espacio de poder regido por el representante de los dioses en la tierra” (ATEHORTÚA, 2000), e é executado no mesmo lugar onde foi morto Agamêmnon.

Snell, analisando as personagens sofoclianas, observa que estas “são mais solitárias que as de Ésquilo. Édipo, Antígona, Ájax são vistos como “homens ação”. Também agem segundo idéias pessoais precisas, mas, nesse caso, em contraste consciente com o mundo que os circunda. E assim a ação conduz à ruína”. (SNELL, 2005: 113). Mas Electra termina antes da possível punição dada pelas erínias aos irmãos.

A heroína sofocliana encerra sua participação na peça com este diálogo, seguindo então os últimos momentos de Egisto. Estava consumada a vingança tão desejada por Electra e, por fim, aclamada pelo Coro de mulheres:

Côro: Bravos filhos de Agamêmnon!
Quantos males suportastes
por amor a liberdade!
Ei-la enfim recuperada
Graças à vossa bravura! (SÓFOCLES, 1965, vv. 1496-1500)

Aristóteles, no capítulo IV da Arte Poética, define mímesis como simples imitação da natureza, afirmou que a arte dramática, sobretudo a tragédia, é uma imitação "dos caracteres, das paixões e das ações humanas" e por esse motivo alcança uma identificação com o público para, enfim, proporcionar prazer ao espectador.

Apesar de não ter sido a executora dos assassinatos do casal de adúlteros é ela que planeja e leva o irmão a cumprir o seu intento, encerrando com um acontecimento catastrófico a peça. Sófocles nos apresenta as desventuras e descomedimentos desta personagem e nos leva, apesar de suas terríveis e arriscadas ações, a nos sensibilizar com sua dor e causa.

Para o estagirita, o côro, na tragédia clássica é um personagem da peça, um ator, pois tinha a missão de cantar partes significativas do drama. Sua função também é agir como um espectador ideal que se responsabiliza pelo equilíbrio das emoções e pela moderação dos discursos. Assim, fornece conselhos, exprime opiniões, como no caso do côro de mulheres idosas, em Electra, que ao corroborar a brutal atitude dos filhos de Agamêmnon, legitima sua vingança, instigando o espectador a tomar partido dos irmãos.

 

5. Considerações finais

Jaime Bruna, ao caracterizar Sófocles, afirmou que ele “foi um homem de seu tempo” (BRUNA, s/d: 11), pois, vivendo no século de Péricles, cuja afluência de intelectuais acarretou uma “revisão profunda das tradições básicas do pensamento ateniense, de certo modo engrandecia os homens e apequenava os deuses” (ibidem), ele soube encontrar um ‘meio-termo’, ou seja, “sem aderir às novidades nem acompanhar a reação” (ibidem), submeteu a tradição a exame e procurou conciliar razão e fé e esta, ou se justificava ou desaparecia.

Assim atestou Electra, onde encontramos uma filha que é memória viva do pai. Nesta tragédia impera uma determinação-tensão que precisa ser cumprida. Essa, por sua vez, é dotada de uma carga de excepcionalidade; pois a tensão gerada no assassinato e morte na tragédia é que, de certa maneira, mantém vivo aquele que morre. Com a morte dos assassinos de Agamêmnon, Electra não só os extermina, como quebra toda conjunção prévia existente e, principalmente, reaviva seu amado pai.

Apesar de toda submissão da mulher na Grécia Clássica, a representação desta, permeada pela mentalidade masculina e excludente da sociedade ateniense do século V, é-nos incontestável a grandeza da personagem Electra, criada por Sófocles. É brilhante a maneira como a sociedade e os costumes do século de ouro são projetados numa época remota (a época heróica) para serem convenientemente representados.

 

Referências Bibliográficas

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Ediouro, 1985.

ARISTÓTELES. Política. Brasília, UnB, 1997.

ATEHORTÚA, Arbey. La figura femenina en la tragedia de Sófocles. Revista de Ciencias Humanas. Colômbia, nº 24. Dez de 2000. Disponível em:
http://www.utp.edu.co/~chumanas/revistas/revistas/rev24/atehortua.htm. Acesso em 27 de abril de 2008.

ÉSQUILO et al. Teatro grego. [seleção, introdução, notas e tradução direta do grego por Jaime Bruna]. São Paulo: Cultrix, s/d.

GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. [tradução de Victor Jabouille]. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica. Vol I. 7ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1993.

SCHWAB, Gustav. As mais belas histórias da Antiguidade Clássica: os mitos da Grécia e de Roma. Vol I. 4ª ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra S.A., 1996.

SNELL, Bruno. A cultura grega e as origens do pensamento europeu. [tradução Pérola de Carvalho]. São Paulo: Perspectiva, 2005.

SÓFOCLES. Electra. [tradução de Mario da Gama Kury]. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S.A., 1965.

TÔRRES, Moisés Romanazzi. Considerações sobre a condição da mulher na Grécia Clássica (sécs. V e IV a.C.). Revista Mirabilia: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval. São Luís, nº 1. Disponível em: http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num1/mulher.html. Acesso em: 25 de abril de 08.

 

Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel. Mestre em Letras - Universidade Federal do Ceará (UFC). Coordenadora do NECLIS - Núcleo de Estudos em Literatura e Sociedade, núcleo que integra o grupo de pesquisa de Teoria e Prática em Literatura e Lingüística, na Universidade Vale do Acaraú (UVA), financiado pelo FECOP.

 

© Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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