A Importância do mito no valor da arte

Talita Gabriela Robles Esquivel

Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil
esquivel.talita@gmail.com


 

   
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Resumo: O presente artigo visa discorrer sobre a influência da mitologia artística na relevância, no valor, da arte contemporânea, exemplificando a partir da análise de trechos de três textos relativos à artista plástica Fernanda Magalhães. Para tanto, apresenta os conceitos estabelecidos pela Hermenêutica, desenvolvidos pelo Círculo de Eranos, conceitos que envolvem tal influência, tais como símbolo, o mito do herói e o mito do artista, a formação da identidade artística, a importância da atividade simbólica para os indivíduos em geral e para a sociedade, a transcendência que possui e como e quando o resultado desta prática se torna um objeto de valor.
Palavras-chave: Mitologia artística, atividade simbólica, transcendência.

Abstract: The present article seeks to discourse on the influence of the artistic mythology in the relevance, in the value, of the contemporary art, exemplifying starting from the analysis of passages of three relative texts to the plastic artist Fernanda Magalhães. For so much, it presents the established concepts for Hermeneutic, developed by the Circle of Eranos, concepts that involve such influence, such as symbol, the myth of the hero and the artist's myth, the formation of the artistic identity, the importance of the symbolic activity for the individuals in general and for the society, the transcendence that possesses and how and when the result of this practice becomes an object of value.
Keywords: Artistic mythology, symbolic activity, transcendence.

 

Antonio Vargas (2005b) separa e conceitua o valor do objeto artístico (prática de valor) e o valor do fazer artístico (valor da prática) - conceitos que, segundo o autor, geralmente se confundem - para que possa delimitar o mérito dos objetos artísticos.

Vargas define o objeto artístico como aquilo que um coletivo significativo de pessoas defina como tal (2005b: 13), referindo-se a uma citação de Marcel Mauss. Segundo o autor, esta definição não delimita se este significativo se refere de forma qualitativa ou quantitativa. Dessa forma, um pequeno número de pessoas que detenham determinado tipo de poder pode ser significativo, enquanto um enorme número de pessoas também e independente do grupo ao qual pertença, deve aceitar o valor do outro, pois ambos são significativos.

Vargas explica que, como professor, não pode ensinar um aluno a fazer arte. O que pode ensiná-lo é do que a arte é constituída (2005b: 14). Exemplificando, o autor supõe que decidiu se tornar um poeta e que seu conhecimento das formas gramaticais e de seu idioma, irá contribuir e ampliar suas chances, mas não garante que se tornará um bom poeta. Vargas coloca que as linguagens artísticas não são tão praticadas, tão fluentes, como a fala, e se tivesse escolhido ser um bom poeta em outro país, com um idioma distinto do que está habituado, seria mais difícil ainda alcançar seus objetivos. Porém, isso é diferente na criança, em que as linguagens artísticas são fluentes e naturais, potencialidades expressivas que a deixam feliz, assim como ao adulto (VARGAS, 2005b: 15). Dessa forma, as práticas artísticas possibilitam, segundo o autor, um benefício terapêutico que toda a atividade simbólica produz (idem: 16), e este é o valor da prática.

A atividade simbólica envolve o conceito de símbolo da Hermenêutica Simbólica, estudo realizado por um grupo de estudiosos denominado “Círculo de Eranos”, do qual faziam parte Olga Fröbe-Kapteyn, Kudolf Otto, C. G. Jung, Gilbert Durand, Joseph Campbell e Mircea Elíade. Este estudo confronta as visões e teorias impostas pela filosofia patriarcal ocidental (objetiva, racional) com a filosofia excluída (matriarcal, que considera o indivíduo) e propõe que a mediação cultural ocorre no âmbito simbólico, estudo da hermenêutica. Símbolo é aquilo com que o indivíduo se relaciona, que o constitui e do qual não pode se desvencilhar, e se estabelece através do mito, que possui um caráter de transcendência, necessário ao ser humano para se manter em equilíbrio.

A atividade simbólica é explicada como uma prática da imaginação simbólica e, partindo da teoria de G. Durand, Vargas aponta as quatro funções, sempre ligadas ao equilíbrio, que a imaginação exerce. A primeira função é a de restaurador do equilíbrio vital, pois permite a eufemização. Segundo Vargas, imaginação é vida. A eufemização imaginária proporciona que o indivíduo supere, “mate” a morte, pois não a encara como fim da vida (VARGAS, 2005b: 16). Esta função da atividade simbólica, isto é, das práticas artísticas, está ligada a estudos que mostram que há quarenta mil anos, o Homo Sapiens Sapiens começa a produzir arte, a ter uma estrutura de linguagem mais elaborada, a formar sociedades, e estes fatos coincidem com a consciência de sua existência, de sua mortalidade, quando começa a enterrar seus entes com pertences, deixando resquícios de uma crença na imortalidade espiritual [2].

O mito explica a realidade. A explicação da realidade, segundo Vargas, é uma necessidade do homem que, porém, para existir, independe de explicação. A fé, a crença, é o veículo do mito, e as linguagens são a mediação entre o mito e a razão. Essa necessidade de explicação, devido à tomada de consciência, levou à formação do mito, à invenção de linguagens que desenvolveram o pensamento do homem arcaico (VARGAS, 2004: 57). Logo, a razão leva o homem à arte e por ela é transformado. A produção de imagens surge como um processo para explicar e justificar o mundo, a existência (VARGAS, 2006: 13); consegue dar conta de equilibrar a mente humana através da transcendência que carrega, projetando no infinito sua existência finita, e seu elo condutor é o processo de individuação, o problema da origem e o transpasso vital da morte (EDITORIAL, 1994: 5).

O processo de individuação envolve o processo de identidade do sujeito, que Vargas aponta, partindo de um estudo de Hall, que seria mais apropriado colocar como processo de identificação, que é associado à subjetividade e, portanto, a identidade está sempre em formação, sempre “em processo” (VARGAS, 2005c: 76). A mitologia artística é uma forma de concepção (e construção) coletiva da identidade! (VARGAS, 2005c: 77), uma identificação coletiva com as características simbólicas, isto é, a partir do mito, heróicas, dos artistas e seus trabalhos, o que será discorrido no presente artigo.

A segunda função da imaginação simbólica é de equilíbrio psicossocial. Vargas (2005b: 17) explica que, com todas as transformações que ocorrem em cada época, há uma busca, uma dinâmica coletiva de compensação para os excessos do momento histórico anterior, o que proporciona um equilíbrio psíquico e social. Já a terceira função desta teoria de Durand é o equilibrio antropológico da espécie, pois seu estudo mostrou que há um mesmo funcionamento tanto no pensamento “civilizado” como no “não civilizado”, o que, para Vargas, serve como argumento para se evitar o racismo cultural, pois começa a se lidar com as semelhanças e não com as diferenças (2005b: 17). Quando um indivíduo participa de atividades artísticas fica clara esta função, pois neste âmbito não há competição ou discriminação cultural. Nas práticas artísticas há respeito e interesse com a prática do outro, aceitação e valorização da arte do outro e, conseqüentemente, do outro. Desta forma, podemos dizer que, quando as práticas artísticas atingem um grande número de pessoas, a cultura se fortalece, o que une as pessoas, os povos e desenvolve, conseqüentemente, a sociedade, a economia, e outros elementos que fazem parte das comunidades.

A quarta e última função da imaginação simbólica remete a teofania. Esta função aponta de forma mais forte para a visão mítica sobre o artista. A mente projeta, através da imaginação simbólica, um caráter eterno, divino, que transcende à vida efêmera. Estas funções da imaginação simbólica são de equilíbrio e estão diretamente ligadas ao bem-estar do indivíduo e conseqüentemente ao convívio social, que são o que o autor chama de valor da prática. Então, retornando ao exemplo do poeta, Vargas explica que mesmo que tenha profundo conhecimento da língua, isto não assegura que vá realizar uma boa poesia e se o fizer, isto não garante que seja reconhecida como uma “boa obra de arte” (2005b: 19), isto é, não garante que o valor da prática do indivíduo venha a ser considerada pela coletividade como significativa, como uma prática de valor.

Segundo Vargas, a mitologia artística atua quando as características de uma obra são reconhecidas como artísticas, isto é, no momento em que são associadas à figura do herói, que visa a coletividade, o social, e não o indivíduo isolado (2004: 59). Esta prática pensada no bem-estar da coletividade é tida como verdade. Segundo o autor, a obra não representa, não está no lugar da idéia de arte, ela é a própria arte, e isso é o que faz dela um símbolo. Logo, a idéia de arte, que tem raízes mitológicas que possuem um significado singular, sagrado, que revelam o mistério, é interpretada pelo observador como extraído de alguém também singular, especial, escolhido (VARGAS, 2004: 60). Vargas coloca que o nascimento da “obra de arte” na cultura ocidental está associado à função mágica. Há estudos que mostram um redobramento do mito do herói em mito do artista (VARGAS, 2005b: 20), características que podem ser identificadas atualmente tanto em historiografias de artistas como na crítica de suas obras, como veremos no caso de Fernanda Magalhães. O redobramento ocorreu, segundo o autor, em um processo de deslocamento simbólico compensatório da função mágico-religiosa do objeto (o reconhecimento, o caráter mítico divino) para o autor do objeto.

Vargas lembra que o artista, no Renascimento, devido à idéia de criação genial, foi saindo da condição de artesão (...) para tornar-se humanista, embora o registro de comparação do artista com as divindades mitológicas, na cultura ocidental, remonte a própria Grécia antiga (2004: 58). O autor coloca que é no Renascimento que surgem estudos e tratados sobre atividades artísticas, tais como os que foram escritos por Alberti, Filarete e Vasari. Este último teve sua literatura construída sobre a mitologia heróica e foi o criador da biografia artística, o que fez permanecer a visão do artista como gênio.

O mito aparece, segundo Vargas, como um mediador entre o espectador, a obra e o artista e pode ser reconhecido por mitemas, que são características heróicas que a obra carrega, projetadas na imagem do artista. A mitoanálise proposta por Durand (apud EDITORIAL, 1994: 16) consiste em um estudo mitocrítico de analise da figura do artista e os contextos sócio-históricos, observando as redundâncias. Segundo o Editorial da Revista Anthropos, Alain Verjat coloca o mito como a base de qualquer atividade criadora (1994: 16); Luis Garagalza (1994: 17) vê em Hermes a figura que simboliza o símbolo, que se apresenta como o ser que transcende; Nietzsche, segundo A. Ortiz-Osés (1994: 17), projeta em Zaratustra esta figura significante de um presente ausente dividido entre (...) o céu, a ascensão, e a terra, a morte. Assim, a hermenêutica se define como uma filosofia da cultura, uma leitura criativa da figura de Hermes (EDITORIAL, 1994: 17). Para Ortiz-Osés (apud EDITORIAL, 1994: 20), a imagem é o que media a racionalidade e a irracionalidade (...), é uma visão mitológica do mundo, não um duplo da realidade, mas seu conteúdo vivo. Enquanto a filosofia ocidental busca uma fundamentação sólida, patriarcal, o simbolismo afirma uma fundamentação líquida, matriarcal (EDITORIAL, 1994: 21). Esta qualidade da água está ligada a sua função mediadora entre o céu e a terra e englobadora do mundo. Por este viés que a hermenêutica atua, considerando o sujeito, o pensamento aceito e o negado, a cultura, para se chegar à raiz dos nossos valores, o que dá sentido ao valor das coisas, dos acontecimentos e das experiências, isto é, o mito. Com a presentificação da imagem e através do mito, a obra se torna símbolo, assim como seu autor (VARGAS, 2006: 65). Desta forma, a mitologia se faz presente na arte, através de características heróicas do autor, isto é, mitemas, que podem ser encontrados em discursos sobre trabalhos plásticos como no caso da artista plástica londrinense Fernanda Magalhães. Os mitemas não aparecem em ordem cronológica, diacrônica, linear, pois o sentido que auxiliam a construir não é literal, mas metafórico, simbólico, poético (VARGAS, 2004: 62). Segundo Vargas [3] (2006: 73 a 120), podem ser divididos em quatro tipos: mitemas de origem (descendência nobre, indícios de profecia, precocidade, demonstrativos de potência sexual, ideal belo/feio, nascimento difícil, abandono), de aprendizado (demonstrativos de dor, disciplina e obstinação, agonística, domínio das armas, astúcia, inteligência e humor, ritos iniciáticos, superação do mestre, abandono do grupo), de ação (que demonstra a natureza interior/asceta e psicopompo ou exterior e guerreiro, transmutação de materiais, alquimia, sofrimento, solidão, conquistas, lutas e fazedor de mundo, viagens) e de retorno (a volta, entrega ao coletivo, sacrifício, reconhecimento social, morte trágica, renascimento, inveja divina). Os mitemas são as características heróicas dentro da mitologia artística que formam a idéia coletiva da identidade do artista.

A mitologia artística se faz viva em discursos críticos e dos próprios artistas, como é o caso em um texto de divulgação de um curso de fotografia que será ministrado por Fernanda Magalhães:

(...) Fernanda é doutoranda em Artes pela Unicamp e professora da Universidade Estadual de Londrina no curso de Arte Visual e na Especialização em Discurso Fotográfico.

Encontramos constantemente a formação do artista como aspecto relevante, seja quando é autodidata, indicando uma profecia, um domínio nato, divino, seja no caso deste trecho, em que mostra um reconhecimento social da artista que sai do interior e vai com obstinação e disciplina para uma cidade maior, uma universidade conceituada, ter seu aprendizado, se aprimorar e depois retorna a Londrina, trazendo seu conhecimento para sua cidade natal.

Ela tem um currículo em que se destacam inúmeras exposições internacionais realizadas em Portugal, Estados Unidos, Argentina, Chile, Equador e Perú. Desde 2003, participa da exposição itinerante Mapas Abiertos, com curadoria de Alejandro Castellote, a qual traça um panorama dos fotógrafos mais representativos da América Latina na última década do século 20. A série de Fernanda que participa desta exposição, a qual irá rodar o mundo até 2007, já foi vista por espanhóis e mexicanos. Este ano irá aterrissar em Helsinki, na Finlândia, e Santiago de Compostela e Tenerife, na Espanha (disponível em http://photos.uol.com.br/materia.asp?id_materia=2678)

Viagens também aparecem como um importante dado sobre a artista, mostrando que conhece outros lugares do mundo, que tem um reconhecimento de seu trabalho, e retorna ao seu grupo, cidade de origem. O início do segundo texto, de Daniela Labra, que fala sobre o trabalho, a ação da artista, já demonstra sacrifício e entrega ao coletivo:

A fotógrafa paranaense Fernanda Magalhães desenvolve há 10 anos uma pesquisa corajosa e autorreferente intitulada A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia. Neste trabalho ela constrói uma espécie de colagem barroca com fotos de autoria própria, auto-retratos, imagens de mulheres gordas nuas (...). Relatos e confissões, literatura, receitas gordurosas, tudo é pano de fundo e complemento crítico das imagens que a princípio chocam.

A “Representação da Mulher Gorda Nua” demonstra um ideal de beleza que a artista está explorando. Quando Magalhães faz “colagem barroca” demonstra um domínio das armas e a superação do mestre, dos ensinamentos. Os trechos “auto-retratos”, “imagens de mulheres gordas nuas” novamente, “relatos e confissões” indicam sacrifício, idealização de beleza e entrega ao coletivo. Inteligência, astúcia e humor podem ser identificados nas “receitas gordurosas”, e as “imagens que chocam” demonstram sua natureza guerreira e de fazedora de mundo, pois é uma artista que choca o mundo. Também podemos ver o domínio das armas, o domínio técnico, e a capacidade de transmutação de materiais, pois utiliza em sua obra elementos não tradicionais como “relatos”, “literatura”, “receitas”, e esta ultima, por ser “gordurosas”, também remete a figura de guerreira, pois faz uma crítica à nossa alimentação. Em outro trecho do mesmo texto:

O trabalho explodiu em 1993, durante uma temporada na apolínea Rio de Janeiro, onde o excesso de corpos, perfeitos ou não, democraticamente à mostra, fez a artista pensar sobre o padrão físico que nos é imposto. (...) Fernanda proclama o lado erótico do corpo gordo, o direito a se sentir feliz, e denuncia preconceitos gerados pela negação do próprio corpo e a submissão às dietas, à moda, à eterna juventude, à urgência da fama, às doenças oriundas da perfeição física imposta hoje. (...) (disponível em http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.rede/numero/rev-numero3/tresdanilabra)

Novamente aparece o mitema viagens, desta vez ao “Rio de Janeiro” “em 1993”, quando o “trabalho explodiu”, isto é, quando aconteceu e foi visto, reconhecido, demonstrando conquistas. O texto coloca a preocupação e o incomodo da artista com o “padrão físico que nos é imposto”, mostrando sua idealização de beleza. Seu “direito a se sentir feliz” manifesta sua natureza guerreira, fazedora de mundo, sua luta por mostrar e mudar algo não só por ela, mas pelo coletivo, que em sua maioria não se encaixa nos moldes impostos atualmente. A potência sexual da artista também é evidenciada no “lado erótico do corpo gordo”, confirmando seu caráter de guerreira quando lembra aos observadores que a pessoa gorda é um ser humano como outro, com potencial erótico, com potência sexual. O terceiro texto é da própria artista sobre seu trabalho Fotos em Conserva:

São fotografias acondicionadas dentro de vidros de diferentes formatos e tamanhos. Embalagens que continham comidas, bebidas, perfumes e remédios e que se transformam a partir da introdução de fotografias em seu interior. O trabalho se desenvolve sistematicamente a partir do ano de 2000 e de minha viagem a NY. O impulso inicial foi meu impacto com o consumo excessivo de comidas industrializadas na alimentação americana. (...) (disponível em http://fermaga.blogspot.com/2006/10/fotos-em-conserva.html)

O início do texto indica que a artista possui domínio das armas, da técnica e poder de transmutação de materiais, pois transforma objetos do uso cotidiano em trabalhos artísticos. Quando conta que o “trabalho se desenvolve sistematicamente” demonstra que sua ação se fez com disciplina e obstinação e em seguida fala de sua viagem e seu “impacto” com a “alimentação americana”, o que mostra sua interiorização sobre a questão.

As características heróicas de Fernanda Magalhães, redundantes nestes três textos, recaem sobre disciplina e obstinação, ideal de beleza, viagens que realizou, seu caráter de fazedora o mundo, lutadora, sua natureza exterior de guerreira, sua entrega ao coletivo e sacrifício. Estas características heróicas, impregnadas em seus trabalhos, visam o coletivo, portanto são projetadas sobre a figura da artista, que carrega este caráter de transcendência. A mitologia artística encontrada aqui define sua identidade, ou identificação que o coletivo faz sobre a imagem da artista. Estas características engrandecem seu trabalho e a artista, pois transcendem através do mito, da carga simbólica heróica e histórica que carrega e se torna símbolo, presentificação, arte.

Os mitos heróicos, a mitologia artística, possuem o caráter de transcendência, o que faz com que os artistas carreguem, através desta influência, um simbolismo, isto é, se tornem um símbolo. (...) o motivo de existência do herói se encontra na realização de uma ação que beneficiará a coletividade (VARGAS, 2005b: 20). Vargas coloca que (...) a presença de mitos (...) atuam inconscientemente na construção de sentido, influenciando, portanto, a aceitação ou a rejeição da obra (2005a: 151). A construção da identidade artística, segundo o autor, ocorre mediante os processos de identificação do indivíduo com a figura simbólica do herói e o processo de identificação com o que a coletividade em que deseja se inserir reconhece como artísticas, como significativas, e todo este simbolismo invade a obra, pois esta é o meio em que se realiza o processo (VARGAS, 2005b: 21). Segundo o autor, o artista sempre é considerado pelo observador da obra e pelo investigador, pois é símbolo que está incorporado na obra. Uma obra é (...) lida sob influência da mitologia artística que se encontra impregnada em nossa concepção cultural de arte (idem: 22).

Vargas coloca que, para Eliade, é através dos mitos que se iniciam os discursos que construirão as bases dessa tal “realidade” (2004: 56). Eliade (apud VARGAS, 2004: 56) aponta que o mito é uma narrativa de uma história sagrada, da criação, explica como algo ocorreu em sua forma plena e seus personagens são Entes Sobrenaturais, que são conhecidos por suas realizações nos primórdios, assim, os mitos descrevem as (...) irrupções do sagrado (ou do ‘sobrenatural’) no Mundo, o que fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje e também é o motivo do homem ser mortal, sexuado e cultural. Vargas (2004: 57) explica que (...) o mito segue vivo porque auxilia na construção de um sentido coletivo para as ações humanas individuais. O mito é o que está na base de tudo, entranhado nos indivíduos, veículo do símbolo. Segundo o autor, o mito heróico aparece como uma busca de triunfos de natureza psicológica (...) que concede como prêmio a transcendência do ser (idem). Assim, Vargas ressalta que o mito do artista existe e é necessário porque o artista, não enquanto indivíduo com uma existência histórica determinada, mas enquanto personagem heróico, é símbolo (2005b: 21).

 

Considerações finais

Nota-se, na análise dos textos relativos à Fernanda Magalhães, a importância da vida da artista para o coletivo. A partir das características heróicas, isto é, das atitudes que visam a coletividade, os textos se desenvolvem envolvendo a artista em uma trama transcendente, própria da mitologia artística, que forma a identificação da artista com o coletivo. A mitologia proporciona e justifica a importância de sua figura e sua obra. A retribuição do coletivo por suas atitudes heróicas, por proporcionar esta transcendência necessária ao indivíduo, é seu reconhecimento como herói, como artista, como símbolo. O mito traz o caráter de transcendência pra obra e para o artista, caráter este que projeta um sentido para a vida. A figura de Hermes é um modelo desta procura necessária aos seres humanos para manterem seus equilíbrios individuais e sociais. Este caráter transcendente incorporado à obra de arte faz com que os indivíduos que praticam alguma atividade artística, estejam em contato direto com esta atividade simbólica carregada de transcendência e assim, poderíamos nos atrever a dizer que aqueles que praticam arte não precisam da religião em sua vida para se manter em equilíbrio, pois, com o deslocamento simbólico, como já foi colocado, das imagens religiosas, quando o autor das imagens sagradas também virou sagrado, as práticas artísticas passaram a ser carregadas de simbolismo, pois esta é uma necessidade humana, dar sentido à existência, à morte, se projetar ao infinito, o que ocorre desde os primórdios.

A importância do mito no valor da arte está na carga simbólica que carrega. O mito proporciona um benefício terapêutico e mantém os equilíbrios humanos. Aqueles que praticam atividades artísticas, que seria o que Vargas coloca como o valor da prática, estariam em contato direto com este conteúdo simbólico. Já o reconhecimento como artista vai depender da identidade artística dele criada pelo coletivo, isto é, a identificação do artista com a coletividade e, se realizar uma arte que visa o coletivo, através do mito do herói, ou mito do artista, irá transcender e ser recompensado com o reconhecimento social de seu trabalho.

O herói, ou seja, o artista, segundo Vargas (2005b: 20), é um dos símbolos mais importantes existentes (...). Os mitos heróicos podem, seguramente, serem considerados como o conjunto de narrativas de maior impacto nas diferentes culturas humanas. Através do mito, o conteúdo de um trabalho artístico se revela significativo para a coletividade, ou, colocando de outra forma, a transcendência é o que dá sentido à arte, pois supre a necessidade humana de dar sentido à existência, à vida. Podemos dizer que a arte, como meio para esta transcendência, dá sentido à vida, logo, é vida. A importância do mito no valor da arte é justamente esta, de dar valor à arte.

 

Referências:

EDITORIAL (1994): Anthropos: Revista de Documentación Científica de la Cultura. Espanha: Barcelona: Editorial Anthropos, n. 153.

GARAGALZA, Luis (1994): “Filosofía e historia en la Escuela de Eranos”. Anthropos: Revista de Documentación Científica de la Cultura. Espanha: Barcelona: Editorial Anthropos, n. 153.

VARGAS, Antonio (2006): A Arte do Mito - apostila não publicada, utilizada durante o seminário temático Mito e Imagem de Artista. CEART/UDESC. Florianópolis, SC.

VARGAS, Antonio (2005a): “A influência do mito do herói na aceitação das práticas artísticas”. IV Seminário Interinstitucional dos Projetos Integrados de Pesquisa em Teatro, Blumenau - SC, 2005. ‘A pesquisa teatral e os ‘subalternos’: perspectivas metodológicas. Rio de Janeiro: UNIRIO.

VARGAS, Antonio (1997): “Antropologia simbólica: hermenêutica do mito do artista nas artes plásticas”. As Questões do Sagrado na Arte Contemporânea da América Latina. Porto Alegre - RS: Editora da Universidade/UFRGS.

VARGAS, Antonio (2005c): “Apontamentos para o estudo da identidade artística”. Urdimento: Revista de Estudos Pós-Graduados em Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina. Florianópolis: UDESC/CEART, vol. 1, n. 07.

VARGAS, Antonio (2005b): “Do valor da prática a prática de valor”. Ponto de vista: Revista de educação e processos inclusivos. Florianópolis, SC: UFSC: vol. 6/7.

VARGAS, Antonio (2004): “O papel do mito na aceitação da arte”. ANPAP: Arte em Pesquisa: especificidades. Brasília, DF.: Editora da Pós-graduação em Arte da Universidade de Brasília, vol. 1.

MAGALHÃES, Fernanda: Fotos em conserva. http://fermaga.blogspot.com/2006/10/fotos-em-conserva.html

LABRA, Daniela: Corpo/Escrita na arte: três casos de agora. http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.rede/numero/rev-numero3/tresdanilabra

Redação. Fernanda Magalhães oferece curso. http://photos.uol.com.br/materia.asp?id_materia=2678

Notas:

[1] Mestranda em Artes Visuais na linha de Processos Artísticos Contemporâneos do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Centro de Artes, CEART, da Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC, sob orientação do prof. Dr. Antonio Vargas. E-mail: esquivel.talita@gmail.com

[2] Nota realizada a partir do seminário temático “Mito e Imagem de Artista” do programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, PPGAV, da Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC, ministrada pelo prof. Dr. Antonio Vargas em 2007/2.

[3] Além da referência, também foram utilizadas notas feitas a partir do seminário temático “Mito e Imagem de Artista” para listar os mitemas.

 

© Talita Gabriela Robles Esquivel 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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