Brasileiros de Montreal

Luís Carlos Lopes


 

   
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Resumen: Este artigo discute o problema da presença dos imigrantes brasileiros em Montreal, sob os pontos de vista históricos, antropológicos e comunicacionais. Procura esclarecer as raízes culturais do Brasil, Canadá e Quebec e seus efeitos na formação do que o texto chama de cultura da imigração. Seu principal ponto de apoio é da análise da presença brasileira, frente ao que se denomina, no Quebec, de acomodações razoáveis. Discute as implicações objetivas e subjetivas do mesmo fenômeno. Deseja fixar o que chamou de parole dos brasileiros que habitam a cidade de Montreal. Explora suas percepções e seus modos de comunicá-las. A importância deste texto relaciona-se à ampla discussão internacional sobre as migrações em um mundo globalizado. Ao discutir os problemas relacionados a imigração brasileira recente para o chamado primeiro mundo, o autor tenta compreendê-la em sua totalidade, a partir da especificidade do caso montrealense.
Palabras clave: cultura; comunicação; parole; globalização

 

Apresentação

O texto que se segue foi escrito a partir da observação direta do problema da imigração para o Quebec e o da permanência dos brasileiros em Montreal. Seu autor viveu um ano (2007) na cidade, na condição de imigrante temporário, pesquisador e de professor universitário [1]. Já conhecia a urbe desde 1987, e lá tinha vivido e estudado por sete meses, entre 1997 e 1998.

Desta última vez, foi possível ter ainda mais contatos com membros da comunidade brasileira local, fazer entrevistas e conhecer aspectos do trabalho do Consulado brasileiro [2]. Nas livrarias e nas bibliotecas, foram encontradas algumas das fontes em que esta pesquisa se baseou. Mas foi o contato direto com os brasileiros, quebequenses e imigrantes de outras nacionalidades, o que lhe permitiu conhecer melhor do objeto de sua pesquisa. A conversação direta mantida com seus compatriotas foi o elemento mais importante para que se chegasse às conclusões aqui apresentadas.

As análises realizadas levaram em conta a experiência humana vivenciada. Ela permitiu que se compreendessem melhor os problemas da condição de imigrante brasileiro em Montreal e as questões políticas relativas à imigração para o Quebec. Quis-se reunir, nesta pesquisa, um mosaico de informações e de argumentos que permitisse ao leitor entender em profundidade o que se passa nesta cidade e com os brasileiros que nela habitam. Na verdade, este texto consiste em um estudo preliminar que deverá se desdobrar numa avaliação mais geral da imigração dos brasileiros para o Canadá e, talvez, para os demais países do denominado primeiro mundo. Por isso, algumas de suas passagens vão além do seu principal foco.

Sua idéia central foi a de capturar a parole dos brasileiros em Montreal, incluindo nisto o ponto de vista específico do seu autor. Seguindo as regras de uma avaliação hermenêutica crítica e de profundidade, buscou-se trabalhar com o contexto histórico-social, os sujeitos envolvidos e seus discursos. Para falar dos brasileiros, foi necessário falar um pouco sobre o Brasil, outro tanto sobre o Canadá, Quebec e Montreal. Espera-se que isto sirva para o leitor se situar na discussão dos significados da presença brasileira na maior cidade francofônica, fora dos domínios territoriais da França.

O autor é cônscio que o problema da diáspora brasileira não se resume ao caso montrealense. Ao contrário, a experiência vivida pelos brasileiros nesta cidade tem suas especificidades, mesmo que tenha elementos comuns aos demais casos. As questões levantadas apontam para o conjunto das migrações massivas e contemporâneas para o exterior. Um dos motivos de se escrever este texto foi o de perceber que os candidatos a emigrar pouco sabem do que realmente vão encontrar em outras realidades. Outro foi o do combate ao pouco conhecimento dos que ficam no Brasil sobre o mesmo assunto. A observação de vários atos de propaganda, discursos existentes em sítios eletrônicos e comunidades virtuais permitiu demonstrar o fácil romantismo e a pouca objetividade, na decisão de deixar o seu país natal. A idéia perseguida foi a de fornecer dados e argumentos mais precisos, para quem deseje se aventurar pelo mundo afora.

O partido deste texto é o dos brasileiros [3]. Ele foi escrito, em português, para eles. Talvez, possa interessar a outros imigrantes. Quem sabe, despertará a curiosidade de pessoas dos países que os recebem. Sabe-se que o problema não tem pátria ou dono. Pertence a toda a humanidade nesta atual fase da modernidade. As migrações internacionais é uma das dimensões menos conhecidas do que se convencionou chamar de globalização.

 

Introdução

A expectativa de se chegar ao paraíso e a busca dele no espaço terrestre é uma constante desde a Idade Média ocidental. Esta aspiração serviu para fundamentar a cultura da expansão ultramarina e se manteve no processo de colonização, tal como explicou Sérgio Buarque de Holanda (1958), no seu clássico historiográfico, Visões do Paraíso. Portugueses e espanhóis viram nas terras e nos povos descobertos algo referente aos seus ideais edênicos de pureza e elevação humana. Nada disto impediu o extermínio programado e a escravidão dos nativos, até porque o ideal edênico foi facilmente transferido pela empresa colonial, com maior potência, para a geografia natural e suas riquezas.

Fundamentaram estas visões as idéias de: um clima perfeito, sem maiores oscilações; uma natureza abundante, “onde se plantando tudo dá”; um local paradisíaco acalentado fora dos domínios terreais dos colonizadores; por fim, os indígenas seriam seres humanos que não conceberiam o sexo como eixo central do ‘pecado original’. Houve consenso quanto aos benefícios do clima e da terra de onde se poderiam extrair riquezas e fazer a produção agrícola. A questão dos nativos permaneceu como um paradoxo durante o período colonial, chegando aos dias de hoje como problema não inteiramente resolvido nas culturas das ex-colônias ibéricas.

Alguns setores da Igreja da Contra-reforma continuaram no caminho da busca e do possível ato de recriação do paraíso por meio da proteção relativa dos indígenas, chocando-se com o poder colonial. Esta posição era relativa, por os entender como carentes da evangelização e do seu agrupamento econômico em torno da hierarquia eclesiástica. A dialética do processo colonial implicou em uma dupla abordagem. De um lado, os nativos foram vistos como empecilhos a serem eliminados ou entes a serem escravizados, ou ainda, submetidos a outros tipos de trabalhos forçados. De outro, em especial os jesuítas, os viram como descendentes diretos do velho paraíso, imaginado por suas cosmogonias. Os esforços político-argumentativos de Bartolomé de las Casas [4] e as ações de resistência dos jesuítas das Missões podem ser compreendidos como fatos da mesma cepa.

A tradição, trazida pelo colonizador ibérico, compele aos brasileiros atuais a continuar a busca do paraíso. Eles prosseguem na senda de origem do processo colonial. A diferença é que hoje, simplesmente, a invertem. O paraíso terrestre, nesta nova visão edênica, poderá estar no exterior ou, em lugares mais desenvolvidos do Brasil. A crença inabalável na existência de um mundo sem males, além do espaço material em que se vive, implica a busca de saídas para as dificuldades encontradas. Tem-se, no país, uma longa experiência de migrações internas. A forte diferença entre cidade e campo, mimetizada na existente entre o centro e a periferia estimularam e estimulam a busca de eldorados no país ou fora deste.

A maior parte da população dos grandes centros tem origem em outras regiões. Alguns vieram de longe atravessando a continentalidade brasileira. Outros saíram de suas pequenas cidades no interior da mesma unidade da imensa federação ou de suas proximidades. Pelo menos, os avós das atuais populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre etc não nasceram nestas megalópoles. O mais comum é o fato de que o habitante das grandes e médias cidades ser alguém que veio de fora ou filho de quem proveio de outros lugares. A mobilidade geográfica e social do país é conhecida. Ser brasileiro é, na maioria dos casos, existir como uma pessoa com laços de parentesco étnico e geo-espaciais múltiplos. Nos versos do poeta, à busca de reagir contra os regionalismos excludentes:

O meu pai era paulista. Meu avô, pernambucano. O meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano... [5]

Em outras palavras, ser brasileiro, mesmo oriundo das elites, significa ter raízes espalhadas pelo longo território do país. O processo de urbanização mais aguda tem apenas meio século, que é também o tempo de existência madura do capitalismo industrial do Brasil. As mudanças ocorridas nestas últimas décadas movimentaram enormemente a população, a realocando do interior em direção aos maiores centros urbanos.

Nas famílias de longa tradição, ricas e pobres, são facilmente encontráveis imigrantes que vieram de outros países. Destes, destacam-se os vindos da Itália, de Portugal e da Espanha, sobretudo entre 1850 e 1930. Neste período, houve notável esforço estatal e privado concebido já na direção de substituir progressivamente a mão-de-obra escrava de origem africana e de se produzir o branqueamento racista almejado pelas elites. Na mesma época, veio gente de toda parte criando influências de caráter universal. Nas décadas subseqüentes, o fluxo imigratório vindo do exterior persistiu, com menor fôlego, mas aportando muitos europeus e asiáticos no território brasileiro. Ainda hoje, o Brasil é receptor de imigrantes, agora vindos, mormente, de outros países da América Latina e de algumas regiões da velha Ásia.

As origens indígenas e africanas, quase sempre negadas, estão estampadas nas faces da população, em vários aspectos da sua produção cultural e das características históricas da ocupação do território brasileiro. De modo recorrente, os brasileiros das classes médias para cima se imaginam como europeus ou seus descendentes. As elites culturais, com honrosas exceções, celebraram um país mítico, uma continuação da Europa, bem longe da verdade bio-histórica da população brasileira. A aceitação social relativa deste descolamento do real é compreensível, como decorrência de uma história eivada pelas formas mais radicais da exploração do homem pelo homem.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no ano de 2000, no último censo nacional realizado, a população brasileira teria chegado aos 170 milhões de habitantes. Destes, 53,7% se autodeclararam como ‘brancos’, 38,5% se entenderam como ‘pardos’, apenas 6,2% se compreenderam como ‘pretos’, 0,4% se disseram ‘amarelos’ e, surpreendentemente, só 0,4% do conjunto da mesma população, se entenderia como ‘indígena’ [6]. Nos moldes desta autocompreensão o Brasil seria um país de ‘brancos’ e ‘pardos’, com minorias de afrodescendentes, ameríndios e orientais. A autodeclaração racial permite a construção livre de identidades, sob forte influência de uma cultura que já foi chamada de ‘democracia racial’, com todos os problemas derivados da busca do consenso social sobre as origens bioculturais dos brasileiros. Todas as culturas humanas constroem representações do real, imaginando como são e porque são deste modo e não de outro. Por outro lado, tais construções são poderosos indicadores da mesma realidade.

A escravidão dos autóctones, encerrada formalmente em fins do século XVIII, implicou a assimilação biossocial dos que sobreviveram ao extermínio e ao cativeiro. O fenótipo dos brasileiros indica as fortes presenças indígena, européia e africana na constituição das características corpóreas da população. A cor da pele, os traços fisionômicos, o porte físico e o tipo de cabelo demonstram a imensa mestiçagem do país. Os brasileiros carregam nos seus genes suas origens, mas sempre houve espaço para a inclusão de imigrantes de outras proveniências. O problema é perceber que suas culturas não necessariamente as compreendem. A negritude e as origens indígenas encontram dificuldades de afirmação nos processos representacionais da nação brasileira. É mais fácil que os brasileiros se imaginem como europeus, mesmo que suas características biossociais revelem algo diverso.

Entretanto, as bases materiais das culturas do país terminam por se impor, especialmente, em traços de comportamento gregário e afetivo especiais, que remetem à velha África, às Américas pré-colombianas e aos povos ibéricos. Diferentemente de outras formações históricas, a brasileira notabiliza-se pelo baixo nível de xenofobia. Raramente, alguém foi ou é julgado e admoestado por aqui por ter origem nacional distinta. A tendência dominante é a da incorporação, da aceitação do outro, principalmente se ele não se assemelha aos que são discriminados no país. Ser estrangeiro no Brasil é um sinal de distinção, de se pertencer a um grupo superior aos nascidos no país. A descendência de estrangeiros, revelada por sobrenomes e características fenotípicas européias e, mesmo, orientais, consiste em inegável vantagem social. Os brasileiros de origem tendem a reverenciar os que vêm de fora, aceitá-los a priori e considerá-los rapidamente como parte da vida social.

Os casos conhecidos de xenofobia foram e são poucos e dificilmente elevados ao nível do ódio radical e da tentativa de destruição do estrangeiro. Ao contrário, sempre foi mais fácil os naturais do país serem discriminados pelos mesmos. Faz-se pilhéria com a dificuldade de alguns imigrantes falar o português, com aspectos de seus hábitos, mas isto não implica, ou implicou no passado, em guetificações ou a impossibilidade de se trabalhar e de viver em comunidade. Há registros de casos pontuais e de grupos com pendores desta natureza. Entretanto, nada disto é comparável ao que se conhece na história de inúmeros países.

A regra étnica geral do Brasil situa os mais brancos no topo e no meio da pirâmide social, no que refere a apropriação da renda nacional. Os mais escuros tendem, com exceções, a estar na base, no modo em que as etnias organizaram-se na constituição da modernidade brasileira. Há evidências inquestionáveis que a cor da pele e outros atributos físicos são elementos cruciais para as possibilidades de mobilidade social. Quanto mais branco, as possibilidades são maiores. A cor escura ou a origem ameríndia claramente definida tornam a ascensão mais difícil, bem como a manutenção de posições alcançadas. Isto vale, mormente, para os afrobrasileiros descendentes dos escravos, mas, também é válido para os mestiços do caldeirão étnico local e os que descendem das populações ameríndias.

No Brasil, muito se conhece das migrações forçadas de fora para dentro do seu território, especialmente, com os quatro séculos de tráfico internacional de escravos africanos. Dentro da colônia, sabe-se o mesmo com o aprisionamento de índios do sertão - as entradas e as bandeiras - para alimentar o mercado interno de escravos, até o século XVIII. No século XIX, o país já independente conheceu a migração massiva alguns milhões de europeus, ocorrida, em larga escala, entre 1850 e 1930, no afã da substituição do trabalho escravo, do povoamento de regiões estratégicas e dos esforços das primeiras tentativas de industrialização.

Na modernidade, o movimento de pessoas pelo território brasileiro passou a ser, sobretudo, interno. As regiões mais pobres, sobretudo a nordeste, alimentaram, com o envio de milhões de seres humanos, vários projetos econômicos no norte e, mais ainda, no sudeste e no centro-oeste. Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra, a vinda de estrangeiros era pouco expressiva quantitativamente, apesar de algumas ondas pontuais de imigração, sobretudo dos vindos da península ibérica. Mais recentemente, o país tem mantido sua tradição de recepção de imigrantes vindos de toda parte do mundo, agora, mormente, da Ásia e dos demais países da América Latina.

Brasileiros abandonando o país, no mesmo tempo, era fato praticamente desconhecido, por efeito do número inexpressivo dos que iam para o exterior para ficar, no pós-guerra. Somente nas últimas duas décadas é que se começou a notar a existência de uma nova diáspora. O principal destino dos brasileiros deste tempo vem sendo a ida em massa para a América do Norte e para alguns países europeus. A existência de emigrantes brasileiros espalhados pelo mundo é algo que ainda surpreende os corações e mentes dos seus compatriotas.

Não existem cifras absolutamente confiáveis sobre o exato tamanho dos emigrantes que saíram do Brasil nos últimos vinte anos. Algumas estimativas falam em quatro milhões, outras cortam pela metade este número. Entretanto, os brasileiros são bastante visíveis mundo afora. Mesmo não se sabendo quantos realmente são, pode-se dizer que são muitos, pelo menos, algo próximo de dois por cento da população total. Como o Brasil é um país muito populoso, tal número não representa muito, considerando-se, por exemplo, as diásporas dos países vizinhos, notadamente a do Uruguai e a da Argentina. Todavia, o impacto da ida de brasileiros para outros países é bastante visível socialmente e, hoje, fortemente representando pelas mídias do país. Ir para o estrangeiro passou a ser uma das opções de vida possíveis, principalmente, para os jovens. Isto alimenta os sonhos de bem-aventurança de milhões.

 

A realidade política quebequense e a imigração

A questão da imigração está no centro da agenda política de vários países europeus, dos Estados Unidos e do Canadá. O incrível aumento do volume dos que desejam viver nestes países, e os problemas decorrentes deste fato vêm sendo discutidos em inúmeros espaços reais e simbólicos. Trata-se de tema recorrente das mídias, das campanhas eleitorais e das discussões públicas sobre a ação estatal. No chamado primeiro mundo, fala-se muito sobre os imigrantes e não existem consensos sociais absolutos sobre o problema.

Algumas forças, mais à direita, propõem o controle férreo sobre a entrada e a presença dos mesmos. Outros, mais moderados, desejam políticas de imigração que priorizem as necessidades de cada país, aceitando sistemas de seleção e de direcionamento feitos de acordo com o que se deseja em cada região. Obviamente, é muito difícil disciplinar a vinda dos imigrantes, que fazem de tudo para alcançar seus objetivos.

No caso específico do Canadá, as possibilidades de maior controle existem e são criteriosamente praticadas. Mas, nada disto impediu que se formasse uma forte polêmica sobre o problema. As mídias locais vêm de há muito levantando questões referentes à validade sociopolítica da vinda e permanência de imigrantes e o conflito potencial entre os de descendência local e os que vêm de fora. Foram publicados panfletos de propaganda anti-imigrante [7] e livros acadêmicos [8] mais sérios tentando, de pontos de vista diversos, esclarecer o mesmo problema. Pode-se falar de uma agitação midiática da questão, que alcançou uma ampla repercussão sociopolítica.

Isto ensejou, nos últimos anos, alguns confrontos importantes. Eles se deram, principalmente, no domínio da manifestação da discordância de alguns grupos sociais. Felizmente, não ocorreram muitos casos onde o ódio étnico foi levado ao extremo. Todavia, é possível perceber a existência de uma tensão e de um mal-estar, tanto dos imigrantes, como o sentido pela população natural do Quebec. Isto ganhou maior potência, após os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001. A proximidade de Nova York - 600 km de Montreal - e a forte presença muçulmana no Canadá foram ingredientes significativos para um claro aumento das tensões.

O Canadá é oficialmente um país bilíngüe. Fala-se inglês e francês, além de centenas de outras línguas praticadas pelos autóctones e pelos imigrantes vindos de todo o mundo. A sua população total chega a mais de 31 milhões de habitantes [9], dos quais quase 18 milhões têm o inglês como língua materna e quase sete milhões nasceram no ambiente francofônico. Os demais tiveram, na origem, as centenas de línguas dos lugares de onde vieram. Destes, apenas 219 mil falam português e 345 mil, o espanhol. A imensa maioria dos falantes do francês habita a província conhecida pelo nome de Quebec. Pequenos núcleos francofônicos são encontráveis nas outras regiões do país.

Os significados da mesma parole [10] jamais foram iguais para todos. Para os nativos, isto é, aqueles que se reconhecem como quebequenses pure laine [11], discutir o problema da imigração tem sido mesclado com as questões derivadas da história política local. A afirmação nacional vem parecendo, para alguns, ameaçada pela presença de outros povos e culturas distintas. A inquietação entre os imigrantes não tem sido pequena. Afinal, para eles, discutir as relações estabelecidas com o país e a sociedade de acolhida significa falar do presente e, em especial, do futuro a ser vivido por lá.

O nacionalismo quebequense sofreu vários golpes, nos últimos quarenta anos. O projeto de se tornar um país independente do Canadá foi, mais recentemente, praticamente abandonado pelas forças políticas locais, permanecendo, fundamentalmente, como peça de retórica. Não há, presentemente, a assunção da idéia de que não se deseja mais a independência, mas se está muito longe de se reivindicá-la a plenos pulmões como no passado recente. Fala-se, agora, em soberania, esquecendo, ao contrário da famosa placa de identificação dos automóveis [12], do ideal independentista. Os “negros brancos da América” (Vallières, 1968) se tornaram, espantosamente, mais claros e próximos aos ideais de vida do lado rico da América do Norte. Depois de dois plebiscitos (1980-1995) mal-fadados e das imensas modificações do estatuto da província frente ao conjunto do país, tudo se tornou diferente.

A questão da imigração, por exemplo, vem ocupando um espaço maior do que as velhas reivindicações nacionalistas. Não poucos culpam os imigrantes pelas derrotas plebiscitárias e dizem que eles preferem o Canadá ao Quebec. Entretanto, foram 50,59% dos eleitores quebequenses que escolheram permanecer, pelas mais diversas razões, como parte da confederação canadense. No lugar onde o voto não é obrigatório, 93,5% dos eleitores resolveram comparecer as urnas.

Os imigrantes nacionalizados que também votam não tinham como alterar esta tendência, por mais que, de fato, tenham migrado para o Canadá e não para uma província específica. Certamente, a tendência eleitoral dos mesmos foi dividida, possivelmente, em alguns lugares pendeu para a permanência do status quo. Estes votos foram tangidos pela mesma ameaça velada de desemprego e de esvaziamento econômico, que foram decisivos nos dois pleitos. O governo central e os imensos interesses econômicos e políticos internacionais envolvidos conseguiram o que queriam, isto é, manter a unidade do país.

Uma das conseqüências desta nova situação política foi o esmaecimento da aliança simbólica dos quebequenses com os povos do terceiro mundo. O sentimento de que todos estariam no mesmo barco sofreu duros estremecimentos e as percepções político-sociais do problema vêm se alterando em profundidade. Entretanto, não desapareceram por completo, restando nichos de solidariedade e de cooperação com os povos dos países pobres, e a manutenção de laços de simpatia com os excluídos da face da Terra.

A tradição do Quebec de fornecer asilo e de dar ajuda humanitária permanece intacta, bem como a permissão da livre organização, nos limites da lei, dos que vieram de regiões conflagradas pela guerra, miséria e opressão política. Como em todo o mundo, a queda do socialismo real, simbolizada pelo fim do Muro de Berlim (1989), tornou mais fluida a tendência aos ideais socialistas, presente nos anos de vida política da região. Como por toda parte, o pensamento mais à esquerda refluiu.

Uma outra diferença está no fato de que o projeto ‘nacional’ do Quebec é agora menos universal. Continua-se a lutar por mais direitos para a província, em dubiedade com a questão potencial da formação de um novo país. Isto vem resultando em um ‘nacionalismo provincial ou paroquial’, que busca, de modo ambíguo, raízes culturais próprias e se incomoda com a presença física e simbólica de milhares e milhares de imigrantes. A compatibilização da presença dos imigrantes com os velhos e novos problemas políticos do Quebec é um desafio que vem atordoando os partidos políticos, intelectuais e o governo da província.

 

A tentativa das acomodações razoáveis

O relatório Bouchard-Taylor (2008) que acaba de ser publicado [13], em papel e na Internet, é o resultado do trabalho de uma Comissão, que se debruçou sobre o problema dos conflitos reais e potenciais entre os imigrantes e os quebequenses de origem. Gérard Bouchard, um dos responsáveis desta Comissão, é um intelectual com vários livros sobre a história do Quebec e sobre os problemas relativos às culturas de seus habitantes. É bastante conhecido, circulando entre a universidade, as mídias, os partidos políticos e as autoridades governamentais. Charles Taylor é, igualmente, um pensador importante, não tão conhecido midiaticamente como seu companheiro de empreitada, mas com uma longa atuação no meio universitário e no ambiente político da província.

Encontrar respostas e propostas para o problema vem alimentando o debate político em escala cada vez maior. Nessa situação, as vozes mais ouvidas são a dos quebequenses de origem e com alguma autoridade acreditada. A parole dos imigrantes surge nas entrelinhas das mídias, algumas vezes de modo direto, em outras, intermediada por quem tem interesse em fazer com quem ela tenha influência na discussão. As comunidades de imigrantes mais organizadas têm-se manifestado de modo mais efetivo. Elas aproveitaram o ensejo das ações da Comissão para defender publicamente seus pontos de vista. O mesmo ocorreu com os que se consideram franco-canadenses e habitam o Quebec. [14]

O relatório que os autores citados escreveram é um documento ímpar por reunir dezenas de argumentos, por vezes, conflitantes, e por propor soluções para o convívio interétnico harmônico na província. Este, também chamado de acomodações razoáveis, é o que resume o entendimento local do problema. Segundo este, ter-se-ia de se encontrar uma forma de fazer com que a sociedade local diminuísse suas tensões. Desejar-se-ia que o sistema cultural instalado continuasse a funcionar sem fissuras alarmantes. A missão que lhes foi dada consistiu em levantar problemas e encontrar soluções, a pedido do mais elevado nível do governo da província.

A Comissão foi nomeada pelo primeiro ministro do Quebec, Jean Charest, em ato de fevereiro de 2007. Foi-lhe destinada um orçamento de cinco milhões de dólares e suas atividades foram divididas em 13 pesquisas. Estas foram levadas a cabo por especialistas vindos das universidades quebequenses. Além, de inúmeras reuniões e assembléias, seus dois presidentes viajaram por toda a província ouvindo pessoalmente os pontos de vista de milhares de habitantes, em sessões públicas, altamente midiatizadas. Durante todo o ano de seu funcionamento, o assunto não saiu da agenda da imprensa e não deixou de criar imensa polêmica no universo simbólico local. Não há notícia de nada parecido na história do Quebec. Nem mesmo nos intensos debates dos dois referendos, houve tanta discussão e tanto interesse despertado, desta vez, entre todos os habitantes da província.

Sucessivos debates, enquetes e levantamentos geraram um relatório de 310 páginas. Este documenta a visão quebequense do problema da convivência com os imigrantes oriundos de toda parte do mundo conhecido. O ponto de apoio adotado pelos autores foi o do mal-estar dos que se intitulam canadenses franceses e habitam o Quebec, potencialmente incomodados com a presença de múltiplas culturas em seu país. Este tem sido entendido como uma crise identitária a ser superada.

Os problemas das diversas religiões trazidas de fora, em especial os relativos à muçulmana, tiveram especial destaque. As questões das diferenças de costumes, em especial, em relação à posição social da mulher foram intensamente mencionados. O estranhamento dos quebequenses em relação às culturas vindas com os imigrantes revela, por outro lado, as características do chamado multiculturalismo [15]. Este afunda em contradições quando religiões, costumes sociais e outras crenças coabitam o mesmo espaço social.

Os autores em tela defenderam, em seu relatório, os princípios do que chamaram de interculturalismo e de laicidade aberta, como soluções que fariam funcionar as acomodações razoáveis. No primeiro, a língua - o francês quebequense - seria o cimento que ligaria todas as culturas envolvidas e permitiria a manutenção do núcleo de origem franco-canadense. A cultura do Quebec incluiria as contribuições enriquecedoras das vindas com os imigrantes, sem perder sua identidade primária. O princípio do estado laico seria usado diferentemente do que é praticado em França, mais aberto e tolerante com as diferenças étnico-culturais. Este deveria propor a manutenção dos direitos de se usar alguns símbolos, bem como o de se negociar todos os casos onde houvesse conflitos interpretativos sobre os direitos de cada religião e cada manifestação culturo-étnica se comportar no espaço público da província.

Os autores basearam suas reflexões no que pesquisaram e ouviram, assim como em dados da realidade passada e presente do Quebec. Lembraram, por exemplo, a época que o clero católico detinha praticamente a totalidade do poder simbólico e cultural da província. Refletiram sobre a dupla realidade dos quebequenses, minoria na América do Norte, incluindo no Canadá, e maioria em relação aos que vieram de fora. Sustentaram a idéia de que não se podia inverter a situação vivida no passado, tendo agora como alvo, os imigrantes. Em outras palavras, confrontaram a história do Quebec com sua realidade atual, buscando alternativas de reafirmação da cultura local.

A proposta da Comissão é de se chegar à conciliação e ao desarmamento dos espíritos. A crise, para eles, começada por volta de 1985, foi intensificada entre 2002 e 2006, e agudizada a partir deste último ano. Os autores acreditam que se viveria agora em um período de calmaria, por efeito, dos trabalhos realizados. Pensam, portanto, que a discussão sobre as acomodações razoáveis já teria dado frutos positivos.

O que se sabe é que o relatório, mal foi publicado, foi recebido com inúmeras críticas do espectro político e acadêmico local. Não houve consenso e nem mesmo uma aceitação tácita. O primeiro ministro, que é membro do Partido Liberal, foi até acusado de ter sido por demais leniente com os resultados da Comissão. Logo, a questão continua em aberto e em debate. Obviamente, ainda não houve tempo, de se mensurar os efeitos do que foi dito no já famoso relatório.

Bouchard e Taylor reafirmaram, em passagens de seu texto, o caráter democrático e liberal da província do Quebec atual. Estiveram a serviço do governo, dirigido pelo Partido Liberal, em um espaço político, onde ainda sobrevivem elementos e práticas da antiga visão social-democrática, anterior a avalanche internacional do neoliberalismo. Suas recomendações finais soam como uma espécie de aconselhamento destinado aos cidadãos do Quebec, sobretudo aos que advogam a condição de franco-canadenses. Elas têm o sentido de relativizar o racismo anti-imigrante existente no Quebec, bem como no resto do Canadá, no gigante vizinho e em vários países da Europa ocidental.

O foco principal do documento visa, especificamente, as autoridades governamentais da província, fazendo uma série de sugestões práticas de enfrentamento do que se chama por lá de acomodações razoáveis. Baseiam-se na idéia de integrar os imigrantes, por meio do polêmico afrancesamento, fundamentalmente, lingüístico. Eles não deixaram de mencionar as imensas desigualdades sociais que os afetam e a necessidade de políticas de governo contra os preconceitos raciais e sociais que existem e vem se desenvolvendo na província.

O Quebec ideal, para eles, seria francofônico, laico com tolerância e negociação, com menores desigualdades sociais e de gênero [16], maior integração dos imigrantes e consciente na luta contra preconceitos tais como a islamofobia e o antisemitismo. O tempo dirá sobre o efeito concreto deste impressionante documento. Não se pode ainda compartilhar do seu otimismo, em um mundo conturbado por questões similares. Não há como aquilatar que tipo de influência ele terá nas decisões do núcleo duro do poder local. [17]

Os brasileiros que escolhem o Quebec como ‘país’ de acolhida enfrentam os mesmos problemas dos demais imigrantes, com as especificidades de terem a mesma religião colonial - o catolicismo - que fundamentou a cultura quebequense e a mesma influência da latinidade de base local. Todavia, as diferenças entre a cultura dessa província canadense e as culturas brasileiras são muito grandes, provocando diversas dificuldades adaptativas. O que o Quebec poderia aprender com o Brasil, consiste na fácil integração e a imensa tolerância que os imigrantes encontraram e ainda lá encontram.

É difícil imaginar que as batalhas da integração e do controle dos preconceitos étnicos serão facilmente vencidas. A situação dos imigrantes tem se deteriorado em todo o chamado primeiro mundo. As mídias estão repletas de informações sobre o problema. Alguns países ricos, que, agora, enfrentam problemas econômicos graves, estão restringindo a imigração e aumentando o cerco aos ‘ilegais’, antes aceitos tacitamente, por significarem baixos salários e grandes lucros.

É verdade que o caso do Canadá é específico. Ainda há muito interesse em recebê-los, desde que sejam filtrados pelos critérios de interesse do país e de suas províncias. Não é o mesmo, por exemplo, do que se passa, hoje, na Espanha. Entretanto, há traços mais gerais do problema. Na primeira fase da chamada globalização, houve um forte estímulo das migrações dos países pobres para os ricos. Agora, na segunda, vem-se tendendo a levantar barreiras e a situação dos imigrantes que conseguem furá-las - legais e ilegais - está longe de ser paradisíaca.

Há, em vários países um refluxo e o retorno compulsório ao país natal. Isto ainda não acontece massivamente no Canadá. Mas, se a recessão mundial atingir o país, certamente irá ocorrer, como já é fato nos EUA. O que faltou no relatório Bouchard-Taylor foi uma análise mais universal do problema. As migrações para o Quebec são também para o Canadá, país que faz parte da comunidade internacional, em uma posição de destaque econômico e político. Os mecanismos deste processo se irradiam pelo mundo afora, contaminando países que fornecem imigrantes para o mercado internacional de trabalho e os que os recebem.

Um dos motes do relatório é o de lembrar a situação de opressão que os franco-canadenses sofreram, antes da denominada revolução tranqüila, da década de 1960. Nesta época, eram tangidos como gado. Não era sequer bem visto o fato de que eles usassem na vida social e profissional um idioma - o francês -, isto porque o poder político e econômico do país falava exclusivamente o inglês. Hoje, a situação se inverteu e a fala proficiente do ‘bon français’, isto é o francês do Quebec, é uma das condições apontadas para qualquer possibilidade de integração. Como sempre, a história humana tem idas e vindas.

As questões referentes à presença dos imigrantes têm uma dimensão bem maior do que a tentativa das acomodações razoáveis, proposta como solução no Quebec. A interpenetração e os choques entre culturas distintas, hoje, existem independentemente das migrações internacionais e do que vem ocorrendo no Canadá. As lutas pelo respeito à diversidade cultural e pelos direitos humanos essenciais, ganharam feições planetárias. Nenhuma nação tem o direito à barbárie, justificada como seu rosto cultural. Nenhum país tem o direito de impor ao outro o seu modo de vida e sua lógica cultural. Conseguir um equilíbrio nestas matérias é um desafio a ser tomado como parte dos novos paradigmas éticos da política internacional.

 

A cidade e a imigração

A presença de um contingente de brasileiros na cidade de Montreal, no longínquo e gélido Canadá, consiste em um caso especial que merece um exame criterioso. Este talvez possa lançar luzes sobre o conjunto da atual diáspora brasileira. Parte-se do princípio que a imigração é construída a partir de uma cultura. Esta se estabelece através de atos de fala, de uma ‘parole’ [18] que reúne os valores necessários ao convencimento do novo pertencimento e da nova opção de vida.

Esta cultura seria formatada pelos sujeitos envolvidos no processo. Nela estariam presentes: a propaganda oficial do governo e da região de atração dos imigrantes; o modo que as modernas mídias e seus auditórios entendem o país de destino e o percurso dos imigrantes; a compreensão dos que emigram sobre o que fizeram e em que condições desenvolveram suas ações. Por fim, a situação objetiva dos imigrantes no país adotivo.

A presença mais concreta de brasileiros na maior cidade francófona da América do Norte data da década de 1960. Antes, são conhecidos casos da presença de funcionários brasileiros das empresas canadenses que atuavam no Brasil e do pessoal diplomático. O principal motivo da vinda de brasileiros para se radicar no Canadá e especificamente em Montreal foi a diáspora provocada pela ditadura militar. De sua instalação, em 1964, até o começo de sua crise, no final da década de 1970, dezenas de brasileiros se estabeleceram na mesma cidade. Não existem estatísticas de quantos e nem de quanto tempo lá permaneceram. Entretanto, alguns terminaram por se radicar definitivamente, desenvolvendo famílias bastante integradas ao país do exílio. A longa permanência, de mais de uma década [19], fez com que alguns jamais voltassem ou que os membros destas famílias permanecessem no lugar que os acolheu.

As outras levas de imigrantes que optaram pelo Quebec (Montreal) correspondem aos sucessivos problemas históricos, políticos e econômicos vividos no Brasil das duas últimas décadas. As migrações, que escolheram essa província, cidade e país, o fizeram por motivos distintos dos da primeira geração. Não estavam mais tangidos pela ameaça da tortura, da morte, da prisão ou da impossibilidade de trabalhar. Não buscavam, como os anteriores, um lugar onde pudessem viver sem maiores riscos de perseguição política.

A emigração mais recente de brasileiros para o Canadá relaciona-se com a nova diáspora, bastante vinculada ao que se convencionou chamar de globalização. Nesta nova ordem mundial, muitos procuram realizar o que não conseguem em seus torrões natais. Ir para o chamado Primeiro Mundo significa, entre outras coisas, buscar meios de sobreviver com maior dignidade. No caso específico, isto vem ocorrendo por efeito de uma combinação de fatores.

Estes incluíram razões: econômicas, vinculadas às dificuldades de emprego ou de salários condizentes no Brasil; sociais, relativas a estilos de vida considerados impróprios e de difícil exercício no país natal; afetivas, por considerarem o Canadá e, especialmente, a província do Quebec como um lugar especial, onde se poderiam realizar sonhos, em paz e maior segurança. Esta combinação de razões objetivas e subjetivas ainda é sublinhada pelos imigrantes brasileiros que vivem em Montreal. Nelas estariam gravadas as bases para a constituição de uma cultura da emigração, desenvolvida a partir do Brasil. Ocorreria o mesmo no país de destino, com a formação de uma cultura dos imigrados, dos brasileiros neste novo tipo de exílio.

Montreal é uma cidade com uma história de menos de quatro séculos. De há muito, é o centro da presença da francofonia na América do Norte. Ao mesmo tempo, a presença inglesa está fortemente marcada na maior parte do seu urbanismo e arquitetura. Cresceu e chegou ao século XXI com várias outras ambivalências, tal com a de ser a capital econômica e social da província do Quebec, que tem como capital político-administrativa a cidade com o mesmo nome da província.

Sua geografia urbana se divide, no essencial, em dois, os setores anglofônico e francofônico, nem sempre claramente delimitados. Em ambos, situam-se os enclaves multi-étnicos e os bairros com evidentes mesclas lingüístico-culturais. Os dois idiomas oficiais do país são praticados de acordo com as regiões de moradia e os ambientes de trabalho existentes. É forte o avanço progressivo do uso da língua inglesa, bem como a resistência do francês ao modo local, quebequense, que é uma variação idiomática da língua falada na França.

Trata-se de uma cidade industrial, comercial e financeira, concentrando parte significativa dos negócios do país. Seu centro urbano atual é marcado pelos prédios de arquitetura pós-moderna, que convivem com construções de estilo neoclássico, por vezes, vitoriano. Em todo o espaço urbano, nota-se a presença das influências passadas e presentes das duas ex-metrópoles e, hoje, as vindas do vizinho poderoso, isto é, dos EUA. O modo de vida local é similar ao conhecido em todo o Ocidente. O uso do automóvel é muito presente, convivendo com um excelente sistema público de transporte, que combina o uso do metrô, dos ônibus e dos trens que alcançam alguns dos subúrbios mais distantes.

Como em algumas metrópoles dos Estados Unidos, parte substantiva das classes médias abandonou o centro urbano e foi habitar os subúrbios, a partir da década de 1970. Isto aumentou a geografia física da cidade para além do Rio São Lourenço, na margem do qual ela foi erigida. Várias pontes ligaram a ilha fluvial, onde Montreal está localizada, às regiões onde se instalaram suas projeções suburbanas. O grau de verticalização desta urbe ainda é pequeno. A maioria de seus habitantes mora em apartamentos ou casas de no máximo três pavimentos. Entretanto, faz-se notar a especulação imobiliária com o aparecimento de prédios de moradia mais altos, visando maximizar o uso do espaço geo-urbano.

Nesta cidade, nada existe de similar às favelas cariocas ou aos bairros da periferia paulista. A pobreza urbana é assistida, como em poucos lugares do planeta. Por diversos meios de ajuda oficial, os mais pobres conseguem, com imensas dificuldades, sobreviver no centro e na periferia, mesmo em situações dramáticas de desemprego e de graves enfermidades. A escala social da pobreza local é bem conhecida. São os mais pobres os imigrantes e uma pequena parcela da maioria francofônica que habita a cidade. São estes os que mais sofrem com o desemprego, a questão da moradia e o acesso ao alimento de todo o dia.

Os serviços urbanos municipais funcionam com bastante eficácia. Não há problema de inexistência de esgotos ou de falta de água encanada e tratada. As condições sanitárias são exemplares. O lixo é recolhido com regularidade e os problemas decorrentes do acúmulo da neve, durante o inverno, é objeto de um esforço imenso para impedir que a cidade pare de funcionar. O tráfico urbano de veículos tem os problemas de todas as metrópoles: engarrafamentos, dificuldades para estacionar, índice apreciável de acidentes, poluição atmosférica etc. Nisto, ela parece com qualquer cidade ocidental. Reina o império do automóvel, como por toda parte, por mais que existam esforços, estimulando o uso dos transportes públicos.

Os níveis de criminalidade de Montreal ainda são muito baixos, comparando-se, por exemplo, aos do Rio de Janeiro ou de São Paulo. O caso de uso de armas de fogo em ações criminosas é inexpressivo, bem como os homicídios decorrentes disto, tanto os praticados por delinqüentes, como os atribuídos às forças policiais. Curiosamente, o direito de adquirir armas de uso pessoal é relativamente próximo ao mesmo existente nos EUA. Entretanto, é muito raro alguém portá-las ou dispará-las no espaço público.

Nos últimos dez anos, houve um crescimento substantivo de furtos e de atos vinculados ao tráfico e ao uso de drogas. Mas, a cidade está longe de ser perigosa. Ainda é um lugar onde se pode andar na rua, por quase toda parte, em qualquer hora do dia ou da noite, sem maiores problemas. Os casos de corrupção policial são raros e a polícia ainda tem um comportamento amistoso com a maioria dos cidadãos [20], apesar da existência de casos documentados de racismo explícito praticado pelas autoridades. Imigrantes de outros países, que viviam em regiões conflagradas, sentem-se muito mais seguros nessa cidade.

O sistema de saúde do Quebec é público e de acesso universal. Isto quer dizer que qualquer pessoa que seja residente legal da província tem o direito assegurado a qualquer tipo de tratamento médico gratuitamente, excluindo-se os serviços odontológicos, os exames oftalmológicos para o uso de óculos e as cirurgias estéticas. O mesmo ocorre com a educação pública até o segundo grau. As universidades, quase todas públicas, são pagas por todos, e são muito caras para quem é estrangeiro e ainda não migrou oficialmente para o país. Quem está no país, aceito como imigrante, paga o mesmo que os quebequenses. Há um sistema de empréstimos e bolsas que sustentam a possibilidade dos mais pobres terem acesso ao ensino superior. É bom lembrar que o Canadá é uma confederação com muitas diferenças de província para província. O que é válido em Quebec, não é exatamente o que ocorre, por exemplo, em Ontário.

O Estado do bem-estar ainda é uma realidade no país e, com muita força, no Quebec. Sua crise é evidente e vem se arrastando desde da década de 1990. Vários benefícios sociais foram cortados ou diminuídos e há uma forte pressão interna e externa para que as coisas mudem ainda mais. Nota-se a crise em vários setores. Ela é bem visível nas áreas da saúde e da educação, mas perpassa todo o tecido social local e é objeto da luta político-eleitoral.

Como em todo mundo atual, no Canadá cresce a crença na necessidade de por fim ao ‘Estado Providência’, a ser substituído pelas lógicas de mercado e pelos baixos investimentos nos setores sociais. Todavia, o país está ainda muito longe de ter abandonado o seu keynesianismo tradicional. No Quebec, ele conta com defensores aguerridos, bem como com inimigos radicais. Os imigrantes dependem muito, para sua sobrevivência social, do que ainda está em pé do velho modelo político social-democrático que governou o país por décadas. Tendem a ver nestas características uma forte diferenciação da realidade de onde vieram.

Uma das grandes dificuldades vividas pelos imigrantes de Montreal, vindos dos trópicos, sempre foi a dos rigores climáticos. A cidade conhece invernos glaciais, com muita neve, ventos cortantes, eventuais tempestades geladas e temperaturas que podem chegar, episodicamente, até os menos trinta graus Celsius. Faz muito frio, para os padrões da maior parte dos brasileiros, pelo menos por oito meses ao ano. O clima semipolar que alcança a cidade tudo modifica e exige imensos esforços adaptativos. É verdade, que os equipamentos urbanos modernos, desenvolvidos para aquela realidade, facilitam as coisas. Entretanto, as reclamações não são poucas, como também o estranhamento dos quebequenses com a reação dos imigrantes. Por outro lado, o sonho crescente de consumo dos quebequenses de classe média é passar as férias nos trópicos, em especial, no Caribe e na Flórida. Não poucos vão residir ou passar longos períodos, após a aposentadoria, em locais de clima tropical.

Os brasileiros têm que investir bastante dinheiro em agasalhos e na calefação de seus domicílios. São custos naturais para quem é do país ou provém de lugares igualmente frios. Entretanto, assustam bastante a quem vem de países que não conhecem tais extremos climáticos. Há muita dificuldade em se acostumar com as temperaturas baixas, os dias curtos do inverno e as mudanças comportamentais ensejadas pelo clima. O encerramento em casa parece, para alguns, uma espécie de prisão, difícil de suportar. Não raro, o clima é apontado por vários brasileiros como origem dos inúmeros casos de depressão, atendidos pelos médicos locais.

No breve verão, procura-se aproveitar ao máximo o aumento das temperaturas e as imensas mudanças do comportamento geral da sociedade montrealense. As ruas ficam cheias e coloridas. Inúmeros eventos públicos e ao ar livre aproveitam o brilho e o calor do sol. Os bares ficam repletos por quem pode se refrescar com a cara cerveja local. Nesta época, a cidade fica sendo a mais movimentada do país. Suas ruas, praças e parques repletos de gente fazem esquecer o se passou antes e o que está por vir. A surpreendente mudança tem um efeito muito positivo no estado de espírito local, isto é válido, tanto para os imigrantes como para os quebequenses.

Montreal recebe quase 90% dos que imigram para a província do Quebec. Ela é o destino mais escolhido por aqueles que querem ir viver dentro dos limites da francofonia canadense [21]. Certamente isto ocorre por várias razões, dentre elas o fato desta urbe proporcionar melhores possibilidades de trabalho, do que as demais cidades quebequenses. A sua latinidade deve também explicar o seu poder de atração dos que vem da francofonia e dos demais países que falam línguas neolatinas. O mesmo local, apesar da cultura francofônica dominante, é igualmente, por razões históricas, um espaço da anglofonia. Isto torna a cidade um lugar único no espaço urbano internacional. Processa-se ali, mais do que em qualquer outra região do Canadá, um encontro entre culturas diferentes, no que se refere às línguas usadas, aos costumes de diversas origens e às crenças socialmente compartilhadas.

De acordo com o último recenseamento (2006), a região metropolitana de Montreal (RMM) [22] tinha uma população de 3.588.520 habitantes. Destes, 740.355 eram imigrantes [23]. Outros dados oficiais [24], referentes ao universo populacional específico da mesma cidade, dizem que, em 2006, a população de Montreal era, em números redondos, composta por um milhão e seiscentas mil pessoas. Destes, 490 mil eram imigrantes, vindos de toda parte do mundo conhecido. Portanto, um pouco mais do que um em cada três dos habitantes locais nasceu fora desta cidade e deste país. A língua materna dominante era o francês, com 830 mil falantes, seguida pelo inglês, com 200 mil. Os demais cresceram sob o domínio de mais de cem línguas faladas mundo afora.

Na vida prática da cidade, cerca de 850 mil conhecem os dois idiomas oficiais e 900 mil usam predominantemente o francês no interior de seus domicílios. Conhecer os dois idiomas é um diferencial na obtenção do tão sonhado emprego. A predominância social do francês indica a forte filiação da cidade à francofonia e sua especificidade nas Américas. O uso corriqueiro do inglês, sobretudo no mercado de trabalho, indica como as regras do poder estão estabelecidas. Não raro, os imigrantes terminam por ser trilíngües, como exigência de suas presenças nesta urbe.

O motivo oficial da aceitação de tantos imigrantes no Quebec é o preenchimento de lacunas demográficas locais, em competição com as outras províncias do país [25]. O crescimento vegetativo da população não-imigrante é pequeno, próximo de zero. O espaço geográfico ainda vazio é imenso e o país tem um índice de crescimento econômico razoável, apesar dos efeitos recessivos recentes, devido a forte vinculação com a economia vizinha. A vinda dos imigrantes, sobretudo para Montreal, significa a multiplicação da existência de uma mão-de-obra abundante, dificilmente sindicalizada e propícia a aceitar salários mais baixos. As vagas ocupadas por eles são, como nos EUA, fundamentalmente, a dos empregos que não exigem alto nível de especialização, com exceção dos poucos casos, onde existe, na província, carência de especialistas. Na vida prática, isto resulta em um número muito grande de imigrantes trabalhando de modo precário e com direitos sociais diferentes da população local. Nesta realidade econômico-social, abre-se com força a possibilidade do desenvolvimento de uma cultura do preconceito.

Existem no Canadá, especialmente no Quebec, inúmeras dificuldades para o reconhecimento de diplomas obtidos no exterior. Na maioria dos casos, em que deseja exercer a mesma profissão que tinha no seu país natal precisa-se refazer a formação ou complementá-la. Necessita-se, igualmente, comprovar suas habilitações junto às ordens profissionais locais. Fazer isto é caro [26], complicado e a resistência local, em várias profissões, de aceitar os que vêm de fora não é pequena. Outra opção é a de escolher outra formação, cursando e pagando a universidade, adquirindo os pré-requisitos locais e entrando na disputa por postos com os franco-canadenses. Não raro, o imigrante de nível superior termina por desistir e contentar-se com o exercício de funções de nível médio ou elementar.

Não existem informações ‘raciais’, como as brasileiras, no que se refere aos habitantes de Montreal. As disponíveis referem-se às origens étnico-nacionais dos mesmos. De visu, a maioria esmagadora dos habitantes desta cidade tem o fenótipo de ‘brancos’. Isto é confirmado pela historiografia da cidade e pelas cifras oficiais e atuais sobre a origem dos que vieram de outros países. Naturais e imigrantes vieram, em momentos distintos, do velho continente, do oeste e do leste. O núcleo de origem da cidade veio da França. Os ingleses permitiram a imigração de muitos irlandeses, e de outros do vasto império colonial comandado pela Grã-Bretanha. Depois da Segunda Guerra, a cidade recebeu alguns milhares de judeus, hoje abrigando o maior número conhecido de sobreviventes dos campos de concentração e extermínio [27]. A presença judaica em Montreal já existia desde o início do século XX.

Vieram, a partir do mesmo fenômeno e da mesma geração, os portugueses, italianos, espanhóis, gregos etc. Durante as últimas quatro décadas, chegaram imigrantes da vasta região da francofonia, que inclui o Caribe (Haiti) e alguns dos países do Norte e do Centro da África e da Ásia, antes colônias francesas. É visível a presença, mais recente, de orientais, sobretudo de chineses, indianos, vietnamitas e paquistaneses, como também de europeus do leste, oriundos da diáspora da crise do socialismo real. Ao que se sabe, a vinda de milhares e milhares de latino-americanos prendeu-se às crises políticas, econômicas e sociais vividas na América Ibérica, a partir da década de 1960. Os fluxos de migrantes são muito mais um problema que nasceu na origem nacional de cada grupo.

A pequena presença de afrodescendentes relaciona-se à vinda de pessoas de países com forte presença negra no Caribe (Haiti) e de países africanos com a maioria negra. Considere-se, igualmente, a existência de um pequeno contingente de negros que chegaram lá na época colonial, na condição de escravos. Neste último caso, trata-se de famílias negras genuinamente canadenses, o que, aliás, gostam com razão de lembrar e reafirmar suas origens.

Os descendentes dos ameríndios do Canadá estão presentes em Montreal. Entretanto, suas presenças efetivas contrastam com suas invisibilidades sociais. Estão lá, vivendo os problemas de todos os ameríndios deslocados de suas populações e modos de vida originais. Estão presentes, pelo meio paradoxal de não existirem na contabilidade da cultura quebequense, tal como ela se expressa hegemonicamente na mesma urbe. Os antes senhores da região, agora vagam na sombra de suas histórias de bravos guerreiros e excelentes caçadores e produtores de peles.

O Canadá, país bastante aberto à imigração, a partir da segunda metade do século passado, vem recebendo gente de toda parte do planeta. Junto com os Estados Unidos, o Canadá de hoje é formado por um incrível mosaico de nacionalidades, culturas e religiões. Não se conhecem outros países que congreguem tantos imigrantes de origens tão diversificadas. Ambos, com suas especificidades, têm sido o destino de fuga dos problemas encontrados nos países mais pobres, que vivem desigualdades, guerras e outros problemas, e que não conseguem reter suas populações, por efeito das dificuldades vivenciadas.

A diferença de hoje, para outras épocas recentes, é que a imigração transformou-se em uma questão-chave na política interna e externa destes países. Os governos passaram a direcioná-la com maior cuidado e fazer com que ela atenda, sobretudo, aos interesses nacionais, tanto norte-americanos, como canadenses. A província do Quebec, bem como outras províncias do imenso Canadá, tem interesses próprios e vislumbram a questão da recepção dos que chegam, de modo particular. Por isto, trata da questão de acordo com seus interesses, que podem não coincidir com os do resto do país.

 

Brasileiros em Montreal

Em termos numéricos e étnicos, os brasileiros são um grupamento minoritário, certamente, um dos menores do conjunto dos imigrantes locais. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, em 2007, estavam registrados, aproximadamente, três mil eleitores brasileiros residentes em todo o Canadá. Como esse recrutamento não é obrigatório, e muitos dos brasileiros têm dupla nacionalidade, este número é apenas um indicador secundário. O impressionante é que 1.329 destes declararam morar na cidade de Montreal. [28]

Nos registros dos brasileiros residentes, feitos até 2007 pelo Consulado [29], de adesão não-compulsória, estão listados cerca de dois mil inscritos. Em grande parte dos casos, inscrevem-se neste cadastro os responsáveis pelas famílias e não todos os seus membros. Estimando-se, uma média de mais dois para cada um dos mesmos, chega-se à quantia de seis mil brasileiros residindo em Montreal. Considerando-se a forte presença de solteiros, de casamentos interétnicos, os dados do TSE e a grande quantidade de pessoas, que desta cidade vai para outras regiões do país, pode-se estimar que o grupamento brasileiro atual é algo que oscila entre quatro e cinco mil habitantes. Portanto, algo equivalente a um por cento do conjunto dos imigrantes vindos de todo o mundo. Entretanto, é bom notar que os brasileiros continuam a chegar e a multiplicar suas presenças nessa cidade e no país.

Ao contrário de outras etnias, não existem bairros onde os brasileiros habitam, eles estão espalhados pela urbe, quase sempre nos lugares onde os preços dos aluguéis são mais convidativos. A visibilidade desses imigrantes é relativamente pequena, proporcional ao seu número efetivo e sua baixa taxa de agregação. Alguns poucos estabelecimentos comerciais usam da bandeira, da culinária e da música verde-amarelas para atrair suas clientelas. Não necessariamente todos são pertencentes aos brasileiros. Somente alguns são dirigidos por brasileiros e empregam mão-de-obra vinda de lá.

Em contrapartida, não há tensões fortes e particulares entre os quebequenses e os brasileiros. Não existe um rótulo que os separe dos demais imigrantes. Eles se relacionam razoavelmente bem com os portugueses, os demais latino-americanos e com as etnias com as quais possam vir a ter pontos de identidade e contato. Em relação aos habitantes nativos do Quebec, os brasileiros mantêm a mesma distância que os demais grupamentos de estrangeiros exercitam no dia-a-dia. Como se sabe, no cômputo das verdadeiras regras multiculturais, cada grupo fica em seu lugar e a vida segue o seu curso, sem maiores problemas. Tudo isto, pode parecer bastante estranho para os egressos das culturas abertas e humanistas do Brasil.

Os brasileiros que estão em Montreal vivem uma realidade um pouco diferente dos outros imigrantes que vieram fazer a América, em especial, nos Estados Unidos. Na maioria dos casos, eles vieram para ficar, pelo menos até a aposentadoria [30]. A presença de brasileiros em situação ilegal é inexpressiva. Estima-se, por razões óbvias não existem estatísticas confiáveis, que menos do que 3% não possuem papéis, correndo o risco iminente da deportação. É bastante difícil permanecer no país como ilegal. A entrada por ar, mar ou terra exige visto e, para obtê-lo, é preciso preencher inúmeros pré-requisitos, em especial, sólidas provas de que o candidato tem meios de se sustentar com um padrão de classe média no Brasil. São raros os que chegam como turistas e tentam estabelecer residência.

Entrar, clandestinamente, pelas fronteiras norte-americanas é algo quase impossível. O Canadá está protegido de uma possível invasão massiva de imigrantes ilegais vindos do Terceiro Mundo. Predomina a legalidade, amparada no fato do país permitir a fixação de pessoas que atendam o que as autoridades entendem como o perfil adequado para migrar. Os critérios são basicamente: nível de instrução elevado, pelo menos o terceiro grau; bom estado de saúde, esta aferida por exames criteriosos; inexistência de qualquer tipo de pendência jurídica ou de passado criminal; meios materiais para sustentar o investimento inicial da imigração. Outros critérios, tais como, algum domínio das línguas (inglês e francês), profissões de interesse da política econômica e social do país, dentre outros, ajudam a facilitar o pleito da imigração.

O país estimula a imigração vinda de algumas regiões do mundo. Aceita refugiados políticos de alguns países e vem manifestando suas preferências de origem dos seus imigrantes. O Brasil é, recentemente, um dos lugares escolhidos como celeiro de futuros habitantes do Canadá. O Ministério da Imigração do Quebec, no interesse da província, organiza campanhas de recrutamento no Brasil. Os meios de comunicação do Brasil e programas e vídeos veiculados pela Internet repercutem estas campanhas. Estas visam aumentar o número de brasileiros na mesma província.

Existem alguns meios conhecidos de migrar. O mais tradicional é o do pleito direto do interessado que preenche uma série de formulários, fornece vários documentos, paga várias taxas e tem seu caso examinado. Se aprovado o candidato à imigração fará os exames médicos conclusivos e, passando nos mesmos, receberá alguma ajuda nos primeiros meses de seu estabelecimento no país, sobretudo se tiver mulher e filhos para criar. Na cidade para onde foi, se for um grande centro, poderá fazer cursos de línguas e terá acesso ao sistema de saúde local, sem qualquer ônus. Conseguindo se estabelecer e se radicar por três anos, o imigrante ganhará o direito à nacionalidade canadense, algo muito especial, comparando-se com o caso norte-americano.

Os brasileiros de hoje são atraídos pelos serviços de imigração, através de farta propaganda, realização de reuniões de sensibilização feitas em algumas cidades brasileiras e de promessas de ajuda para os primeiros momentos de instalação. Estes esforços de atrair imigrantes concentram-se no sudeste e no sul do país, sendo possível identificar os padrões étnicos e sociais almejados. Tais esforços, somados aos problemas brasileiros, têm resultado no aumento apreciável do número de pessoas interessadas em viver no Canadá, em especial no Quebec. Entretanto, é em Toronto, em plena região anglofônica, que os brasileiros se concentram, por efeito de maiores possibilidades de emprego.

Os imigrantes brasileiros encontráveis no local hoje têm um traço social hegemônico. A grande maioria é branca ou mestiça clara, veio do sul e do sudeste, cursou ou estava cursando o nível superior e, no seu país natal, pertencia às classes médias. As exigências para chegar ao Canadá reduzem em muito quaisquer possibilidades de pessoas diferentes disto conseguirem ser aceitas. Quando eles são na origem de outras regiões do país, lá pertenciam a grupos sociais mais ricos e já tinham passagens pelo sudeste brasileiro. Quase todos são adultos, com exceção dos filhos menores, e chegaram ao país na faixa entre os 25 e 45 anos de idade.

A principal forma de entrada atual no país e de chegada em Montreal consiste no pedido oficial de imigração. Todavia, existe quem tenha chegado com o visto de estudante e depois, de dentro do país, solicitou a permanência definitiva. Alguns poucos fizeram seu pleito de imigração em outros países, onde residiam provisoriamente. Existem os que vieram como trabalhadores temporários e, no Canadá, pediram para ficar, bem como os que vieram como maridos e esposas de canadenses, tendo suas núpcias como o principal motivo da emigração do Brasil. Um ou outro usou de artifício distinto para ficar. A imigração, apesar de seguir regras de Estado, é uma operação privada e sujeita a acertos individuais. A geração mais antiga chegou ao país como exilada e alguns resolveram permanecer definitivamente.

Na verdade, migrar para o Quebec significa fazer uma dupla solicitação. A primeira para o Canadá e a segunda para a província ou vice-versa. O país é uma confederação. Entretanto, a província francofônica tem uma realidade muito especial, distinta das demais, sendo a única a ter ministério da imigração próprio. Quando o pedido é feito diretamente ao Quebec, o solicitante recebe um aceite local. Este terá que ser validado pelo governo central do país. Esse e outros fatos posicionam a província como um país, dentro do país. Os imigrantes são duplamente canadenses e quebequenses. Sob o ponto de vista legal e nacional, são, até agora [31], apenas canadenses. Definem-se comumente de um modo diverso. Curiosamente, os brasileiros e de outras origens acreditam-se muito mais como montrealenses, do que como quebequenses ou canadenses. O país deles é a cidade onde vivem, que os acolheu.

A maioria dos brasileiros que vivem nesta nova realidade mantém algum tipo de laço com outros membros do mesmo grupamento. Reúnem-se episodicamente e procuram uma forma de se manter vinculados aos elementos cêntricos de suas culturas, tais como o carnaval, variadas expressões musicais, o futebol, a culinária e a especificidade do português falado no Brasil. Refundem tudo isto, a partir do olhar local. Este os faz entender suas raízes de modo distinto do que ocorria no seu país natal. Esse olhar seria a expressão da cultura dos brasileiros imigrados que resultaria numa forma de comunicação, isto é, numa parole bastante específica.

 

A parole dos brasileiros

Não é muito fácil capturar a parole dos brasileiros em Montreal. O grupamento não é muito organizado, seus canais de comunicação são intermitentes e pouco eficientes. Diferentemente de Toronto, os brasileiros de Montreal têm maiores dificuldades de se informar e de intercambiar experiências. Ainda não existe, na cidade, um periódico regular para a comunidade brasileira. Os que existem em português são para a comunidade portuguesa. No momento em que esta pesquisa estava sendo feita, tentava-se organizar uma escola brasileira para os filhos de imigrantes. Antes, houve uma que não conseguiu subsistir. Ao contrário da comunidade portuguesa, a brasileira ainda não obteve maior organicidade e penetração, nas tentativas de alguns de criar e manter instituições que estejam a serviço dos seus membros. Aliás, não raro, os brasileiros usam do aparato montado pelos lusitanos que estão em Montreal há muito tempo, em grande número e que alcançaram uma posição de maior relevo na sociedade local.

O grupamento brasileiro surge de sua relativa invisibilidade, com bastante garbo, nas cerimônias públicas, tais como festivais de música, de artes ou eventos desportivos, onde o Brasil esteja representado. Nesta ocasião, a bandeira verde-amarela chega a ser desfraldada, bem como as camisas amarelas, de nossa seleção de futebol, brilham nas ruas. Nesses eventos públicos, em festas e outras cerimônias privadas, é possível ouvir a batucada e o cantar alegre desses imigrantes. Quando juntos, os brasileiros se destacam pelo colorido de suas vestes e o hábito da terra de falar alto e abraçar ternamente os amigos, sem esquecer dos beijos na face entre as moças e os rapazes.

Em dois dos poucos artigos exploratórios sobre a presença brasileira no Canadá, foram relatados os argumentos apreendidos em entrevistas realizadas, em Toronto e Montreal. Segundo estas, a maior dificuldade dos brasileiros seria a de se adaptar ao clima local (Nunes, 2003; Mac Fadden, 2003) [32]. Eles seriam muito sensíveis ao efeito do frio intenso na maior parte do ano e da pouca luminosidade do inverno. Haveria quem desejasse se aposentar e voltar para o Brasil, considerado país quente e aprazível, ou, ainda, quem sonhasse em passar o inverno canadense em seu país natal. A segurança frente ao crime, a existência do acesso à saúde pública de qualidade e a escola gratuita até o segundo grau foram citados como razões para opção de migrar. Com isto, os brasileiros residentes nesse país, lembram das dificuldades reais e potenciais que antes viveram. Enxergam no país que os adotou algo muito superior, centrado no respeito aos direitos de cidadania, coisa que antes não conheciam.

Nos mesmos artigos, foi capturada a percepção do fato de que os imigrantes brasileiros são, em sua maioria, das classes médias. Suas autoras relataram os dados de formação escolar, predominantemente universitária, da maioria dos entrevistados. Os brasileiros, na maioria dos casos, teriam imensas dificuldades de encontrar trabalho em suas profissões de origem. O mesmo ocorreria em relação ao reconhecimento de seus diplomas obtidos no Brasil. Haveria um consenso em relação a um melhor sucesso dos imigrantes mais pobres e de profissão ou de função mais simples. Estes conseguiriam, no Canadá, obter rendimentos e acesso a serviços, impossíveis para pessoas do mesmo nível no seu país de origem. São citados casos de retornados que voltaram ao Canadá, por não se conformarem com os salários obtidos no Brasil.

Em 2003, ano em que foram feitas estas duas pesquisas, já havia a percepção das dificuldades de relacionamento com os canadenses de origem e foi relatada a existência de casos de xenofobia. O mal-estar relativo à presença massiva dos imigrantes no pais, já era sentido pelos brasileiros que optaram por lá viver. Entretanto, o sentimento geral dos brasileiros era de que haviam chegado a uma espécie de paraíso. Apesar dos problemas, qualquer solução de abandonar o barco era imaginada para mais tarde. Eles entendiam as dificuldades como o preço a pagar pelo que conquistaram. A impressão que se tem destas representações é que elas funcionam invertendo a lógica das coisas. De onde se partiu só viriam notícias ruins. O retorno não seria uma solução, a não ser com a conquista da independência econômica. Para onde se foi, existiriam problemas. Entretanto, as inúmeras vantagens reais e potenciais compensariam os defeitos.

Pode-se interpretar esta situação, afirmando que as representações dos brasileiros baseavam-se no fato objetivo e percebido de que não se havia chegado ao paraíso, mas ele não estaria tão distante. Haveria um problema na cultura dos imigrados. Não seria estranha a eles, a dificuldade real de se integrarem aos mundos da cultura e do trabalho do país anfitrião. Teriam a consciência da difícil aceitação ou mesmo de sua impossibilidade. Todavia, alcançar os direitos de cidadania canadense e as vantagens da vida nos escombros do Welfare State local valeriam todos os percalços e problemas. Com isto, escapariam dos problemas brasileiros. Isto os manteriam em suas posições e seria uma lógica de fuga, de escape das dificuldades históricas do Brasil.

É bom lembrar que obter o passaporte canadense, depois de naturalizados em três anos de permanência no país, significa um passe livre para viajar pelo mundo. Entrar sem qualquer constrangimento importante nos EUA e até postular trabalhar por lá, na possibilidade de se viver o american dream. O sonho de se transformar em canadense, sem deixar a alma brasileira faz parte da parole desses imigrantes. Não há na fala deles a negação da cultura de origem. A maioria deles continua gostando do sol, lamentando a ausência de alguma praia real por perto e sentindo a falta do calor humano de seu país de origem. Continuam, portanto, a ser brasileiros, na condição especial de um novo exílio, pleno em mais sonhos do que em realizações palpáveis.

 

Entrevistados de Montreal

No segundo semestre de 2007, foram gravados 17 depoimentos [33] de brasileiros que moram em Montreal. Procurou-se ter uma amostra significativa de vários tipos sociais e obter deles seus pontos de vista sobre a imigração brasileira local, vistos a partir da experiência de cada um. A todos foi proposto um mesmo roteiro, formado por perguntas a serem respondidas no tom de comentários. Os temas levantados foram sobre: a identidade dos brasileiros que imigraram para Montreal; a visão atual deles sobre o Brasil; o de suas impressões sobre a cidade e a população no local de acolhida; as relações mantidas com os brasileiros que os antecederam, os imigrantes de outras etnias ali encontrados e os franco-canadenses de origem; seus sentimentos pessoais relativo suas vidas na condição de imigrados; seus problemas, dúvidas e reclamações; as diferenças mais significativas existentes no seio do grupamento brasileiro montrealense.

Foram entrevistados imigrantes mais recentes e alguns que já estão no país há bastante tempo. Todos podem ser considerados, na origem, das classes médias, uns mais ricos e outros pertencentes aos setores mais pobres. Quase todos vieram das cidades grandes do eixo Sul-Sudeste e tinham formação de nível superior, completa ou incompleta. Apenas um é negro, exercendo uma profissão liberal, e três são homossexuais assumidos, ligados à comunidade gay local [34]. A maioria é branca para os padrões brasileiros, entre estes são encontráveis morenos e pessoas com traços africanos ou ameríndios. Uma pequena parcela é filha ou neta de imigrantes europeus que vieram para o Brasil.

A amostra indica que, possivelmente, a maioria dos imigrantes brasileiros que vivem em Montreal proveio das classes médias brancas brasileiras. Quase todos tiveram enorme dificuldade para exercer suas profissões de origem. A maioria não conseguiu. Os que conseguiram são casos especiais, onde suas formações de origem foram refeitas ou complementadas nas universidades locais. Outros foram legitimados por virem das universidades e ambientes de trabalho norte-americanos, fatos estes, bem aceitos no mundo quebequense. Notaram-se também os casos de aproveitamento nas especialidades de muita carência no país e de outros onde se precisava de brasileiros para funções específicas. As inúmeras conversas informais mantidas com brasileiros de Montreal confirmam os dados desta amostra.

Uma das realidades encontradas entre os imigrantes entrevistados foi a do casamento interétnico. Dos entrevistados, sete são casados com homens e mulheres quebequenses, uma com um canadense anglofônico e uma casada com um europeu imigrante para o Canadá. Duas imigraram com seus maridos brasileiros e, em Montreal, se divorciaram. Dois casais formados no Brasil continuam casados com as mesmas pessoas, um há muito tempo, o outro é um casal relativamente jovem, com dois filhos, e recém-chegado. A amostra não permite conclusões absolutas sobre a situação do casamento entre os brasileiros. Entretanto, indica a forte presença da solução de se casar com alguém do país. Sabe-se que existem casos, mas não foi entrevistado ninguém que houvesse se casado com um imigrante do terceiro mundo.

Os brasileiros de Montreal são pessoas, em sua maioria, com um nível de instrução formal e real bem desenvolvidos. São cônscios das dificuldades que enfrentam e não parecem ter qualquer arrependimento da decisão que tomaram. Ao que se sabe, os que se arrependem tomam o caminho do aeroporto para sempre, ou para voltar em outra oportunidade. Trata-se de gente bastante empreendedora, disciplinada e capaz de trabalhar e estudar com afinco, no caminho de alcançar os seus objetivos. De modo geral, apresentam como razão para seus atos alguma decepção vivenciada no Brasil. É voz geral a questão da insegurança urbana e da criminalidade. Vários foram vítimas diretas ou indiretas deste problema e saúdam o fato de não mais ter que conviver com o mesmo.

As questões da tolerância e liberdade sexuais são muito ventiladas pelos imigrantes homossexuais, que, em Montreal, sentem-se mais livres, podendo viver sem maior pressão social. Os usuários de drogas leves sentem-se mais protegidos, isto porque nesta cidade a perseguição e incriminação dos que as usam é praticamente inexistente. É comum se ver nas ruas, jovens consumindo a cannabis sem medo da prisão, da corrupção policial e do processo judicial. Por lá, combate-se mais o tráfico e bem menos seus milhares usuários. A possibilidade de viver em uma metrópole, sem o temor gerado pela criminalidade, pela ação policial violenta e por efeito das pressões dos preconceitos sociais, seduz e leva à escolha do mesmo local.

As respostas dadas sobre as razões da opção de migrar se afastam do tradicional desemprego ou da situação de miséria enfrentado pelos imigrantes mais pobres. Trata-se de gente das classes médias que vêem sua vida no Canadá de outra forma. Estão longe de parecer com os valadarenses [35] nos EUA. Estão lá para conseguir o que acham que perderam em seu país natal ou para acompanhar os seus cônjuges. Querem, dentre outras coisas, a cidadania canadense, mantendo a cidadania brasileira. Desejam os diplomas das universidades locais e a prova de que exerceram funções em locais de trabalho do Quebec. Isto, quando conseguem empregos formais, além das ocupações temporárias do subemprego local. Sabem da impossibilidade de enriquecer no país ou fazer uma poupança expressiva para levar para o Brasil.

É possível estudar gratuitamente, nos poucos casos onde se procura o segundo grau profissionalizante oferecido em Montreal. O ensino superior público local é pago, em todos os seus níveis e estabelecimentos. Entretanto, um sistema de empréstimos combinado com bolsas não reembolsáveis, contratados na universidade, garante a possibilidade de se viver modestamente no país, por alguns anos, sem a obrigatoriedade de se ter um trabalho estafante. Conheceram-se pessoas que já viviam há algum tempo, combinando este sistema, com trabalhos precários e ocasionais. Tal prática consiste em um dos expedientes que permite que a imigração se sustente do ponto de vista econômico. Pode-se chegar até ao doutorado, procedendo deste modo.

Ostentar um currículo com registros escolares e profissionais no exterior é um sinal de distinção. Algo que pode ter pouco valor material, mas possui valor simbólico especial. Este poderá ser usado no futuro no Brasil ou em outro país. Na prática, conseguir isto é bastante difícil. Uma parte substancial dos imigrantes vive o subemprego ou o trabalho precário em toda sua vida de trabalho no país anfitrião. De modo geral, apenas uns poucos conseguem atingir posições mais facilmente ocupadas pelos quebequenses. Concorrer com estes, no mesmo mercado, significa participar numa competição bastante desigual.

Contam-se nos dedos os médicos, professores de nível médio e universitário, engenheiros etc que estão, presentemente, trabalhando nos hospitais, escolas, universidades e empresas da cidade. São tão poucos, que são conhecidos e servem de referência aos demais imigrantes. Na burocracia do serviço público local, são, igualmente, pouquíssimos os brasileiros empregados, bem como os de outras origens. Quase sem exceção, leva-se muito tempo para se alcançar postos desta natureza. Do subemprego até ao posto fixo e ao salário palpável há um longo caminho a percorrer, cheio de dificuldades e impossibilidades. Há quem passe uma vida sem completar esta jornada.

Restam aos brasileiros as funções mais simples da economia local, notadamente no setor de serviços e em alguns empreendimentos industriais. O pequeno comércio urbano e as atividades liberais, tais como a do ensino livre do português e as apresentações artísticas, são usadas como estratégias de sobrevivência. Não se sabem quantos brasileiros, atualmente, são remunerados pelos serviços assistenciais do Quebec. Estes permitem a sobrevivência mínima, em situação de desemprego ou a complementam, se necessário, no caso do emprego precário e famílias com filhos.

Os imigrantes brasileiros em Montreal, mesmo quando já nacionalizados e considerados na forma da lei, canadenses, continuam se achando brasileiros. Quando retornam ao Brasil, em visita, continuam se reconhecendo como brasileiros, apesar de já terem o passaporte do país de adoção. Sentem-se assim, também no Canadá. A dupla nacionalidade é mais do que um expediente legal. Trata-se de um sentimento compartilhado de não se afastar por completo do país de origem. Este continua sendo amado e considerado o melhor lugar do mundo.

Os imigrantes costumam a criticar veementemente, não sem razão, aspectos da vida política brasileira, sobretudo a corrupção e a falta de direitos de cidadania. A primeira é hoje vista, acompanhando-se a onda midiática sobre este habitus concreto do país, como uma das razões que justificaria ir embora do Brasil. Os brasileiros tendem a desconhecer que política e corrupção se irmanam, em graus distintos, em todo o mundo conhecido. Tem sido freqüente o noticiário de casos da mesma prática, ocorridos no Quebec. A questão da cidadania versus os anos de instabilidade política e econômica das últimas décadas também é apontada como outra das razões para migrar.

Não são estranhas a vários dos entrevistados, formalmente e informalmente, as dificuldades reais da permanência em Montreal. Eles comentam as adversidades que viveram e que é comum o abandono do Quebec e a ida para a região anglofônica. Não poucos fazem a jornada até mesmo na direção da longínqua Vancouver, no extremo oeste do país. Sabem que é mais fácil conseguir um emprego formal, por exemplo, em Ontário, e que a tolerância étnica teria progredido mais nessas regiões. Entretanto, Montreal ainda atrai muitos brasileiros. A ponte cultural imaginária entre o Brasil e esta cidade parece menor e mais fácil de ser transposta. Os brasileiros são muito marcados por suas subjetividades. Seus sentimentos têm importante papel em suas decisões.

A parole dos brasileiros de Montreal foi imortalizada em uma obra de arte. A peça de teatro intitulada Ma couleur est verte, mon cœur est jaune [36] de Marilda de Carvalho, imigrante há mais de 15 anos, resume na fala e na ação de alguns personagens os problemas enfrentados pelos brasileiros em Montreal. O texto foi encenado algumas vezes e, por felicidade, pôde ser visto em 2007. Os atores, quase todos imigrantes de várias nacionalidades, encarnaram em um teatro fora do circuito comercial, a percepção dos brasileiros. Seus personagens representam as variações tipológicas e geracionais encontráveis no cotidiano urbano da cidade. Sua imensa sensibilidade permite que se vejam seus dramas e comédias, nas situações construídas pela autora. O texto esclarece que a opção pela imigração é um caminho com vários desvãos e que o sentimento dos brasileiros, frente ao que vivem, oscila entre a tristeza e a alegria espontânea da cultura que portam. Demonstra que, como a autora, mesmo vivendo no país há vários anos, eles continuam membros da comunidade verde-amarela.

 

Conclusões

Os brasileiros de Montreal continuam sendo profundamente brasileiros. A força das culturas que portam se manifesta em várias ocasiões. A presença deles nessa cidade consiste em uma prova de suas capacidades imensas de resistência e de adaptação a situações nem sempre favoráveis. Desenvolvem uma solidariedade expressiva entre eles, certamente maior do que teriam no Brasil. Os preconceitos que nutrem, que não são poucos, não os impedem de ter algum contato com seus compatriotas. Quanto mais tempo estão afastados do Brasil, mais tem interesse em se aproximar dos demais membros do mesmo grupamento.

Infelizmente, apesar de alguns esforços heróicos de alguns membros da comunidade, eles ainda são muito desorganizados. Suas situações sócio-econômicas e o pouco tempo que estão no Canadá podem explicar suas dificuldades de agir coletivamente. Outros grupos de imigrantes têm até a representação política informal no país de adoção. O caminho dos brasileiros ainda será longo e difícil. Eles precisam de apoio dos demais imigrantes, dos quebequenses e do Brasil. É erro político abissal abandoná-los à própria sorte. Eles representam parte do Brasil do exterior. São fragmentos de nossa população, história e culturas. Por mais que possam desejar se transformar em membros de outra cultura, a grande maioria continuará com suas marcas de origem. Eles representam o modo brasileiro de ver a vida, a sensibilidade e a força de um país que foi considerado pelos colonizadores como um pedaço do paraíso.

O Canadá é um país que possui várias características admiráveis. Sua fama externa confere com o que se pode ver, lá vivendo. Todavia, tal como o Brasil, não é o paraíso. Por lá existem problemas, alguns bastante sérios. A questão da presença de milhares e milhares de imigrantes é um deles. É ingenuidade pensar que migrar significa a integração automática ao país escolhido e o compartilhamento da mesma vida dos que antes o habitavam. A sociedade canadense tem inúmeras divisões sociais e étnicas. Seu bilingüismo oficial não apagou as diferenças internas. Os imigrantes somam-se às dificuldades locais. São capítulos a mais dos problemas do país. É verdade, que são hoje os que pegam o trabalho pesado e têm o mérito de construir o país com o suor de seus rostos.

Montreal é uma das cidades mais aprazíveis da face da Terra. Esquecendo-se os rigores de seu inverno e os problemas humanos que lá existem, trata-se de um lugar civilizado e com um elevado índice de desenvolvimento sociocultural. Entretanto, não se pode esquecer que os maiores beneficiários disto são os que a habitam há mais tempo, excluindo-se os ameríndios que fazem parte do subproletariado local. Os quebequenses francofônicos e anglofônicos estão nos melhores empregos e nas mais cobiçadas posições sociais. Os segundos costumam estar em uma situação superior aos primeiros. Os imigrantes italianos e portugueses, por exemplo, estão numa situação muito superior aos que chegaram mais recentemente, incluindo os brasileiros. Na estratificação social da cidade, as etnias estão colocadas em posições distintas, por mais que dentro de cada uma também existam distinções.

No futuro, talvez, a experiência dos brasileiros em lidar com diferenças étnicas possa servir a um modelo de sociedade mais inclusiva. Destacando-se o problema do preconceito racial, que o Brasil conhece bem, os imigrantes brasileiros têm o que ensinar em matéria de tolerância a costumes e crenças diversas. Neste sentido, um pouco do paraíso está na terra brasílica. Lamentavelmente, muitos dos seus filhos, por inúmeras razões, são tangidos a abandonar o país e a buscar o paraíso além de seu próprio torrão. Por outro lado, eles aprendem no Canadá que é possível a construção de sociedades com um nível maior de equidade social.

Imaginando-se um mundo globalizado, sem fronteiras e com culturas abertas a interinfluências, não há nada demais em se buscar outras plagas para viver. É um direito humano sair de onde se está, e procurar a felicidade mundo afora. Em teoria, isto funciona bem. Entretanto, sabe-se que na prática as fronteiras estão ainda bem delimitadas e as culturas humanas são nutridas por preconceitos e dificuldades de praticar a alteridade. É neste contexto, que os brasileiros vivem em Montreal.

 

Notas:

[1] O autor exerceu a função de leitor do Brasil, escolhido em seleção pública. Foi vinculado ao Consulado brasileiro local e a uma universidade do Quebec.

[2] Aproveita-se a oportunidade para agradecer ao Sr. Cônsul do Brasil em Montreal, Embaixador Washington Luis Pereira de Sousa, pelo apoio dado a esta pesquisa, bem como aos funcionários do consulado, pelas ajudas prestadas.

[3] Aproveita-se para agradecer as sucessivas ajudas e esclarecimentos dados generosamente por Ismael Cordeiro, imigrante brasileiro há mais de 16 anos, militante cultural e social, bastante conhecido entre os seus compatriotas de Montreal.

[4] Ver as obras clássicas de Las Casas e o livro de Tzvetan Todorov sobre a questão do outro (alteridade), versando sobre as opiniões dos colonizadores espanhóis e dos colonizados indígenas, no início do processo de dominação do México e do Caribe.

[5] Chico Buarque de Holanda. Paratodos.

[6] Ver: http://www.ibge.gov.br; http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL464569-5598,00-OS+NEGROS+SAIRAM+DA+SENZALA+PARA+MORAR+NA+FAVELA+DIZ+MINISTRO.html. Mapa da Distribuição Espacial da População, segundo a Cor ou Raça - Negros e Pardos". IBGE, 2008.

[7] Ver, dentre outros, os livros de Bernard Thompson, Mathieu Bock-Côté etc.

[8] Ver livro de Victor Armony.

[9] Dados do Censo geral do Canadá referente ao ano de 2006.

[10] Parole seria, segundo Philippe Breton, a substância do processo comunicacional, isto é, o conjunto de atos de fala, de gestos, de uso de símbolos etc usados para que uma população se comunique entre si.

[11] Expressão de uso corrente no Quebec, que quer dizer de origem local, isto é, vindos de há muito da França. Os quebequenses são capazes de apontar a genealogia de suas famílias, recuando a até duzentos anos atrás ou mais. Os de ‘lã pura’ seriam os ‘donos’ da terra, do Canadá francês, como alguns gostam de dizer. Os sobrenomes desses habitantes indicam o pertencimento a uma das famílias que veio colonizar o Canadá Com isto, são excluídos os indígenas, os de origem anglofônica e os imigrantes do pós-guerra. São incorporados os frutos de uma pequena tradição de mestiçagem.

[12] Québec - je me souviens. Quebec - eu me lembro. Ver:

[13] Ver: http://www.accommodements.qc.ca/

[14] Existem pequenas comunidades de origem francesa em outras províncias do país.

[15] A expressão multiculturalismo provoca a construção de várias acepções, por vezes, bastante contraditórias.Vem sendo usada em inúmeros países. No Canadá, o multiculturalismo está em lei de 1971, editada em pleno governo de Pierre Trudeau, no contexto da Guerra Fria e da pior crise entre o Quebec e o governo central do Canadá. Na lei, se reconhece a existência de uma sociedade multiétnica, isto é, formada por diversas origens, nacionalidades e culturas. Na prática, o chamado multiculturalismo vem significando concretamente, por toda parte, a existência de sociedades hierárquicas, que convivem com inúmeros recortes, onde cada grupo ocupa o seu lugar, sem interferir - como se tal fosse possível - no funcionamento geral da totalidade social e na prevalência dos grupos com maior poder. A sociedade multicultural encontraria, hipoteticamente, sua harmonia em seu processo de hierarquização. O sistema multicultural, não raro, dificulta a integração dos imigrantes.

[16] A questão da mulher foi intensamente debatida, em contraponto com as culturas imigradas que as desvalorizariam.

[17] Esta análise foi escrita poucos dias após o lançamento oficial do relatório.

[18] No sentido dado por Breton a esta palavra.

[19] A Anistia política aos opositores da ditadura foi aprovada em 1979 e vem sendo implantada desde lá.

[20] Ver balanço de ação da polícia montrealense, em 2007: http://www.spvm.qc.ca/upload/documentations/Bilan_2007_chiffres_Francais.pdf

[21] Ver: http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amnord/quebecdefi.htm

[22] A RMM inclui a cidade e as adjacências de Montreal, algo como a grande São Paulo, ou o grande Rio, isto é, todos os que vivem em função da metrópole.

[23] http://www12.statcan.ca/francais/census06/data/highlights/immigration/Table403.cfm?Lang=F&T=403&GH=8&SC=1&S=0&O=A

[24] Ver publicações convencionais e eletrônicas do Statistique Canadá, http://www.statcan.ca/menu-fr.htm

[25] Ver: http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amnord/quebecdefi.htm

[26] O reconhecimento de um diploma pode custar cinco mil dólares, um punhado de documentos e bastante paciência. Não raro, este reconhecimento não é total e é recomendada a complementação dos estudos nas universidades locais.

[27] Ver a obra de Linteau e a de Armony.

[28] Ver TSE no site: http://www.tse.gov.br/internet/index.html

[29] Ver arquivos do Consulado do Brasil em Montreal.

[30] Obviamente, com exceção dos que estão a estudo, missão oficial do governo brasileiro ou contrato temporário de trabalho.

[31] Há, em curso, um projeto de lei criando uma ‘identidade’ quebequense.

[32] O clima de Toronto é similar ao vivido em Montreal. A presença de brasileiros nesta cidade é bem superior aos quantitativos de Montreal. Os brasileiros de lá tem uma estrutura de convívio mais orgânica e as possibilidades de emprego são melhores.

[33] Aproveita-se para agradecer a todos que se dispuseram a dar entrevistas e para dizer que o texto integral das mesmas será objeto de outra publicação.

[34] Montreal é conhecida pelo seu baixo nível de homofobia e pelo alto nível de organização da comunidade gay. O Canadá aceita, sem maiores problemas, a união civil entre os homossexuais.

[35] A cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais, ficou famosa nas mídias brasileiras, por efeito de ter sido fortemente noticiado o fato do elevado número de seus habitantes que foi tentar a sorte e a vida nos EUA, a partir da década de 1980. Alguns dos quais, chegaram a rumar para o Canadá em outro contexto.

[36] Minha cor é verde, meu coração é amarelo. Marilda de Carvalho era professora universitária de arte dramática no Brasil (UNESP) e no Canadá dirige uma pequena companhia de teatro e usa de vários pequenos trabalhos para sobreviver. A peça, infelizmente, ainda não foi encenada no Brasil.

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© Luís Carlos Lopes 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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