Máscaras do corpo e máscaras da linguagem

Geysa Silva

UNINCOR
Universidade Vale do Rio Verde


 

   
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Resumen: Este trabajo consiste en mostrar la confluencia entre Yo el Supremo y El fiscal, de Roa Bastos. Los discursos de las novelas evidencian las máscaras del autor, del narrador y de personnajes que ofrecen al lector representaciones de sus subjetividades.
Palabras clave: Roa Bastos, Literatura Comparada, Teoria Literaria

 

Augusto Roa Bastos, escritor paraguaio, traz para a literatura o problema das relações de poder. Desde Filho do homem (1965), suas obras discutem a ambição e o autoritarismo, a subserviência e a reação aos regimes que impõem a censura e o terror. Preocupado com a política e com a situação social dos ibero-americanos, Roa Bastos faz de seu discurso um libelo em favor dos que não têm voz, ou dos que falam, mas não são ouvidos e vêem as palavras perderem a capacidade de ecoar. Esse interesse leva o autor a fazer da História o tema de suas tramas e convida o leitor a examinar as interfaces entre saberes diversos. Em suas obras, a existência aparece de tal forma que Ficção e História se mesclam, intencionalmente ou não, comprovando que a vida é muito mais complexa do que podem afirmar corretas biografias e a verdade, algo que se move no horizonte do provável.

Nessas condições, serão examinados os romances Eu o Supremo e El fiscal, em que a Ficção dialoga com a História, enquanto narradores e personagens se mascaram, duplicam-se e fraudam-se a si mesmos, num jogo provocante, porque sempre renovado, ao transfigurar o real, que é mediatizado pela linguagem, linguagem essa concretizadora da representação. A representação já indicia um jogo de máscaras que será realizado no transcorrer do texto.

Embora afastados no tempo, Eu o Supremo (1974) e El fiscal (1993) apresentam dois períodos da história paraguaia em que o país está sob o domínio de governos tirânicos, que ocultam o conhecimento da verdade: o primeiro exibe a ditadura de José Gaspar Francia (século XIX), que antecedeu Solano López e que também não mantinha relações amigáveis com o Brasil. Aliás, sempre que se refere a nosso país, Roa Bastos o faz de maneira irônica, criticando os intuitos expansionistas do governo imperial; o segundo, a ditadura de Alfredo Stroessner (século XX), que só terminou bem depois que as outras ditaduras ibero-americanas. Vale acrescentar que Stroessner asilou-se no Brasil, fato esse também assinalado por Roa Bastos.

As narrativas colocam o problema da simulação, quer pela aparência da letra, quer pela aparência física. O narrador usa a idéia provocadora de que as respostas aos mistérios desse mundo (em geral) e aos enigmas do homem (em particular) são extraídas do artifício e da máscara, tecidos pela trama desse artifício maior que é a linguagem. Contudo, a mesma palavra, que constrói a máscara, enuncia a transparência. Transparência que se pode perceber na aparência de loucura (ou loucura verdadeira?), indispensável à própria vida.O discurso remete às palavras de Erasmo de Rotterdam, ao refletir sobre a necessidade de simulação.

(...) que é afinal a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco (...). Para dizer a verdade, tudo nesse mundo não passa de uma sombra e de uma aparência, mas o fato é que esta grande e larga comédia não pode ser representada de outra forma (ERASMO, 1972, p.9).

A simulação é a regra imposta para que as personagens possam cumprir um destino que se desenvolve como nas tragédias gregas, sendo impossível detê-lo. A soberba se apossa dos protagonistas e eles não conseguem desvencilhar-se da moyra que lhes decretou a sorte aziaga. As máscaras duplicam o universo de cada um e permitem que enfrentem seus fracassos com a certeza de que estão construindo algo que os outros não conseguem atingir. Não vivem a morte do sonho, mas o real do pesadelo, que se perpetua até os dias atuais.

O Paraguai é, mesmo hoje, um país empobrecido, onde os índios chegam muitas vezes a atingir a condição de miseráveis e todo o orgulho nacional é vilipendiado, por ser considerado a terra do contrabando e da falsificação. Tanto Francia, com seu esdrúxulo patriotismo, como Stroessner, com seu governo corrupto, perderam-se nas perseguições e torturas, sem conseguir tirar o país do atraso técnico e econômico. É esse fracasso que as narrativas encenam, no palco mimético da literatura.

No caso de Eu o Supremo, tem-se José Gaspar Francia, o ditador solitário, exilado de seu povo, a discutir com o fiel de feitos as artimanhas a que nos pode conduzir o uso da linguagem, essa armadilha endereçada aos que pensam dominá-la. O fio condutor da narrativa é a decifração da letra de um documento apócrifo, onde estão descritas as providências a serem tomadas, quando o ditador morrer.

Eu o Supremo Ditador da República

Ordeno que ao suceder minha morte meu cadáver seja decapitado, a cabeça posta em um mastro por três dias na Praça da República, para onde se convocará o povo ao som incessante dos sinos.

Todos meus servidores civis e militares sofrerão pena de enforcamento. Seus cadáveres serão enterrados em baldios fora da cidade sem cruz nem marca que memore seus nomes. Ao término do dito prazo, mando que meus restos sejam queimados e as cinzas lançadas ao rio...(ROA BASTOS, 1977, p.9).

Cada página de Eu o Supremo torna ilegítima a oposição entre o discurso poético e o discurso histórico, entre o fictício e o factual. Têm-se documentos, testemunhos, lendas e mitos recontados; mas também a reminiscência nostálgica de um tempo complexo, não cronológico, que se liga a lembranças pessoais. A ilusão referencial é desfeita e refeita, pois ora o narrador se fragmenta e fragmenta a narrativa, ora ele se apega aos fatos para produzir efeitos do real. História e Ficção se fundem para abalar os conceitos de realismo e objetividade: “Quando os acontecimentos, o menor fato, não sucede como a gente já viu que sucederá, não é que as coisas - profetas, falharam. A leitura que a gente faz destas profecias é que se equivoca. É preciso reler, corrigir até o último fiapo de erro” (ROA BASTOS, 1977, p. 164).

Ao mascarar-se de Supremo, Francia confunde política e autoritarismo e, dessa maneira, obscurece o sentido da liberdade. Teoricamente, no espaço do autoritarismo inscreve-se o discurso de um eu que reflete sobre si e sobre os outros, porém de forma monológica; no espaço da política ocorre o diálogo com os outros, a ação, e é aí que se insere a liberdade. Em Eu o Supremo, o Ditador tem a pretensão de subordinar todas as esferas da vida às exigências de seus fins políticos, daí seu descaso pelos direitos civis e a ignorância de que o governante age num espaço público, portanto depende de outros para desempenhar suas funções. Ao negar a seus conterrâneos o exercício público da política, Francia degrada o sentido da revolução que ele mesmo fizera e instaura uma ditadura sangrenta e aterrorizante.

Seu discurso defende a independência de um país cujo governo transformara os fins alcançados em meios para novos fins, todavia as palavras simulam um patriotismo que há muito fora substituído simplesmente pela ambição do poder. O primeiro objetivo era um governo infenso à corrupção; uma vez estabelecido esse governo, ele se tornou um meio para o poder centralizador. O problema crucial do Ditador era transformar uma estrutura ineficiente e corrupta num governo que superasse o atraso econômico e as injustiças sociais. Acabar com os privilégios e colocar o Paraguai no caminho do progresso. Entretanto o Supremo debilita a legitimidade de suas bandeiras nacionalistas e as transforma em máscara do autoritarismo, de uma neurótica egolatria. Dessa maneira, o centralismo torna-se personalismo.

Aqui no Paraguai, antes da Ditadura Perpétua, estávamos cheios de escreventes, doutores, homens cultos, não cultivadores, agricultores, homens trabalhadores, como deveria ser e agora é. Aqueles cultos idiotas queriam fundar o Areópago das Letras, Artes e Ciências. Pus-lhes o pé em cima (ROA BASTOS, 1977, p.31).

O Supremo confere ao povo o sentido de espectadores de uma representação e reduz a praça pública a cenário, onde seu poder é teatralizado. Esse foi seu recurso mais arguto, todavia foi também o que mais o afastou do povo, porque não conseguiu dar a seu papel o brilho da emoção, muito ao contrário, em seu discurso transparece a frieza do cálculo. Acrescente-se que a representação tem um limite e não pode existir para e por si mesma. Assim, a conduta do governante se insere numa estratégia de palco, deixa de ser legítima para assumir a teatralização, o que resulta na negatividade da vida autêntica e a máscara passa a ser mais importante que a persona.

Eu sou este Personagem e este Nome. Suprema encarnação da raça. Elegeste-me e entregaste-me por toda a vida o governo e o destino de vossas vidas. Eu sou o Supremo Personagem que protege vosso sono dormido, vosso sonho acordado (não há diferença entre ambos); que procura a travessia do Mar Vermelho em meio às perseguições e encurralamento de nossos inimigos (ROA BASTOS, 1977, p.284).

A auto -suficiência é fantasiada e cria um duplo concebido como perfeito, capaz de auto-satisfazer-se e auto-engendrar-se, aspirando ao infinito. Paradoxalmente, o discurso do Supremo é o discurso do declínio, alegoria da ruína. Para escamotear esse fato e o medo que ele provoca, usa-se o truque, a criação de um simulacro, que permite a transgressão da lei. Com a máscara do Supremo, Francia assume o discurso liminar, confunde ordem e desordem, sonho e realidade e reveste-se com a roupagem saturnina da vida sombria. O medo que sente da traição impede o Supremo de manter a lucidez; então recorre à escrita de seu diário como ponte de ligação com o mundo, (embora muitas vezes essa escrita seja a expressão de um delírio) e como tábua de salvação no naufrágio da esperança.

Unicamente a mão continua escrevendo sem cessar. Animal sem vida própria agitando-se, retorcendo-se sem cessar. Escreve, escreve,impelida pela ânsia convulsa dos convulsionários. Última ratio, último rato escapado do naufrágio.(...) Sobre o tablado só a mão escreve. Mão que sonha que escreve. Sonha que está acordado. Unicamente desperto o dormente pode relatar seu sonho. A mão-rato-náufraga escreve (ROA BASTOS, 1977, p.373).

El fiscal expõe o problema do exílio de forma melancólica, atravessado pela angústia do regresso e pela inquietação provocada com o uso constante de disfarces Em El Fiscal, Roa Bastos exibe o apagamento da identidade primeira, provocado pela condição de exílio. A perda dessa referência leva ao ódio incontrolável e à obsessão pela vingança, que conduzem ao fracasso e à morte. Relacionar os rastros das origens, ligando-os à simulação é o que faz Roa Bastos, ele que foi forçado, durante muito tempo, a viver longe de sua pátria. Faz-se mister, portanto, destacar a importância do ato de escrita como estratégia de duplicação do espaço perdido, articulando-o sintagmaticamente com um novo lugar de onde se fala. Pensar o ausente, com o olhar eidético concentrado em determinada fase da nação, é o imperativo do exilado Roa Bastos, para quem o ato de escrever se metamorfoseia na própria nação.

Escrever, para o escritor paraguaio, é experimentar o exílio; exilar-se das raízes guaranis e adotar a língua espanhola, ou seja, para escrever, o paraguaio é forçado a adotar a língua do colonizador, mascarar-se de europeu, ainda que seja forte sua ascendência indígena. O exílio verbal é tematizado pelo silêncio, como se vê na passagem seguinte:

Prefiero el silencio a las palabras falsas, porque comprendo que no todo puede decirse por infinitas poderosas o pueriles razones. Encontrarás muchos de esos silencios en este largo relato que ahora empieza, mi querida Morena. Leerás en lo escrito lo que no puede decirse de viva voz cuando falta el soplo del espíritu (ROA BASTOS, 1993.p.118).

Esta condenação a que tem de submeter-se todo intelectual paraguaio representa uma situação singular, própria dos povos denominados subalternos, constituindo-se no paradigma das inúmeras formas tomadas pelo exílio. Uma vez que, para o escritor, coloca-se a impossibilidade de comunicar-se com seu povo, esse deslocamento alegoriza a situação dos que foram obrigados a deixar a pátria ou até mesmo dos que deixaram a vida.Cria-se um discurso dialógico, onde as vozes silenciadas do povo têm a possibilidade de se fazer ouvir. A esse respeito, veja-se o que afirma Bakhtin, sobre Dostoiévski:

A interação exarcebada e tensa com a palavra de outro é dada nos seus romances por duplo aspecto. Em primeiro lugar, nos discursos dos personagens aparece um conflito profundo e inacabado com a palavra do outro no plano da vida (“a palavra do outro a meu respeito”), no plano ético (o julgamento do outro, o reconhecimento ou o não reconhecimento pelos outros e, enfim, no plano ideológico (a visão de mundo dos personagens como um diálogo inacabado e ininterminável.) (Bakhtin,1993,p.148).

Apresentado em três discursos, que configuram as três partes do romance, todo o texto é marcado pelo signo da ausência. Inicialmente Félix Moral, o protagonista, narra suas memórias e expõe a obsessão de voltar ao país de origem para executar o tiranicídio.As memórias fazem surgir um Paraguai oprimido em seu cotidiano político, mas dotado de enorme força narrativa; o episódio da Guerra Grande se transforma em motivo da intriga, permitindo o deslizamento do histórico para o imaginado e as lembranças da pátria efetuam o revival de eventos tornados simbólicos, tanto no plano individual como no coletivo.

Essa visão idealizada da terra, que se foi obrigado a deixar, torna-se real e necessária à própria sobrevivência. As lembranças se transformam em recordações (no sentido etimológico do termo). Os eventos deixam de ser apenas episódios passados da vida e são experimentados como algo presente, que perdura em sua extensão emotiva e é o fio condutor capaz de sustentar a própria memória, último receptáculo das histórias singular e nacional.

Confundem-se a potência da palavra e a impotência da personagem, o heroísmo e a transgressão, a salvação pela narrativa e a ruína pela prisão e morte. Perfaz-se a história emblemática do pai tirano e de sua rivalidade com um filho cujos princípios ideológicos postulam as razões justificadoras da liquidação do poder ditatorial. Essa dissociação contrapõe os valores encenados por uma axiologia dual, em que o fato do tempo-heróico (o tempo de Solano López ) é sucedido pelo tempo-opressor (o tempo de Stroessner ), tempo este que obriga ao exílio e ao crime. Habitando a França, Félix Moral traz o Paraguai dentro de si, como um outro espaço, metaforizado na trama que tenta recuperá-lo. Nesses termos, Roa Bastos, ao discutir a situação dos exilados contemporâneos, afirma:

Pero el exilio dejó de ser hace tiempo el mal de un país. Es una plaga universal. La humanidad entera vive en exilio. Desde que ya no existen territorios patrios - y, menos aún, patria utópica que es el lugar donde uno se encuentra bien -, todos somos beduínos nómadas de una cabila extinta. Objetos transnacionales, como el dinero, las guerras o la peste. El exilio, efectivamente, es la peor de las enfermedades que pueden atacar a un ser humano (ROA BASTOS,1993,p.18).

A pior das enfermidades é abrir mão de sua identidade e ser forçado a mascarar-se. O exilado ocupa o não-lugar, estranho em ambiente que, mesmo se for conhecido, não lhe pertence. Esse sentimento de perda das raízes cobre a existência com o manto da tristeza e do medo. Perder a identidade e, paradoxalmente, não desejar que sua identidade seja descoberta, é o drama que atinge muitos dos expatriados. Ao lado da melancolia, instala-se a paranóia.O medo de ser reconhecido obriga ao uso de inúmeros disfarces, pois o inimigo está em toda parte, espreita cada movimento dos exilados para impedir que regressem à pátria e iniciem ações subversivas. Félix Moral rompe com sua corporeidade, ao modificar seu corpo para poder voltar ao Paraguai e matar o ditador.

Sólo he tenido que tomar un nombre falso, despojar al yo de su impossible sinceridad, mudar de aspecto, inventarme nuevas señas particulares:espesa barba tornasolada por canas rubiáceas, una honda hendidura en el arco cigomático, y sobre todo, dominar perfectamente la lengua com el acento y la entonación de provincias. Aprendí a simular a la perfección la renguera del inválido y la parquedad silenciosa del que no quiere papar ni tragarse moscas, habida cuenta de que la renguera siempre inspira compassión y simpatía, dos elementos siempre útiles en la relación com el prójimo prepotente (ROA BASTOS, 1993, p.14.)

A importância do medo está em o protagonista não conseguir a ele subtrair-se. Diante disso surgem os fantasmas e as histórias fantásticas, a mulher sedutora que confunde a mente e desorienta o herói, pois o medo é um sentimento estranho que tira o bom senso e torna a vida insuportável. No jardim de sua casa, Félix Moral tem um encontro noturno com sua aluna, ou será apenas a criação de uma mente desvairada?A força do desatino resiste ao aprisionamento em classificações psiquiátricas e testemunha uma diversidade possível, um delírio singular expresso em forma de linguagem, que faz da alucinação o componente indispensável à narrativa.

Pero en ese mismo momento tuve la sensación de que su peso disminuía rápidamente y que su cuerpo pegajoso y frío se ablandaba como desgonzado en todas sus articulaciones. Se me cayó de los brazos como algo inerte e ingrávido. Me agaché a buscarla. Había desaparecido. Corrí hasta la puerta, pero tenía echada la llave. No habría podido huir por allí (ROA BASTOS, 1993, p. 138).

O protagonista de El Fiscal experimenta uma fragilidade expressa nas cenas de desatino que ocorrem após o suposto ato sexual e ao crime imaginário que atormenta Félix Moral. Há uma tomada de consciência da fragilidade de sua devoção a Jimena, da fragilidade de sua ética particular, da fragilidade diante das forças da morte. A violência combatida no Ditador é por ele mesmo assumida, ao tentar o assassinato da jovem, enquanto o discurso faz um jogo demoníaco entre o acontecimento e a alucinação, colocando nas palavras a máscara que simula a verdade e, simultaneamente, faz com que seja instaurada a dúvida.

—Tienes manchas de sangre!...Qué ha sido , por Dios

—No sé...He matado a alguien...Creo que he matado a alguien...Qué era?Qué fue? No sé...no sé...

Era nada...nada...

—Nada...-sollocé- Era nada...nada...(ROA BASTOS, 1993, p.140).

Preocupados em ser aquilo que não são, Francia e Félix Moral vivenciam a simulação, ao empregar a fala cotidiana como recurso para assegurar a própria sobrevivência: um, tomado pela ânsia do poder, ao ditar suas memórias, garante que seu nome ficará na História e desafia o esquecimento dos compatriotas; outro, ao exercer o magistério, ensinando literatura, garante a sobrevivência econômica, ao mesmo tempo em que se prepara para desafiar a morte, tomado pela ânsia de destruição do poder. Nos dois casos, os narradores apresentam a superposição de disfarces, a máscara como arma na luta contra um inimigo que eles identificam com o ditador, mas que, na verdade, não tem materialidade definida: o poder.

Os relatos se tornam a prova da determinação e também do desespero de quem está consciente da pouca ou nenhuma ressonância de seus gestos, da fugacidade dos efeitos das palavras no seio do povo. O pessimismo do intelectual que descrê de sua atuação é exemplificado no texto abaixo:

As formas desaparecem, as palavras ficam para significar o impossível. Nenhuma história pode ser contada. Nenhuma história que valha a pena ser contada. Mas a verdadeira linguagem não nasceu ainda. Os animais comunicam-se entre si, sem palavras, melhor que nós, ufanos de tê-las inventado com a matéria-prima da quimera. (Roa Bastos, 1977, p.15).

Eu o Supremo e El fiscal trazem para a literatura hispano-americana a tragédia dos que buscam a identidade nesse continente híbrido, dos que procuram preencher suas biografias com as inúmeras divisões político-ideológicas que nos constituem, e com a idéia que os outros fazem de nós, como afirma Stuart Hall:

A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é preenchida a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros (HALL, 2004,P.39).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad.Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

ERASMO.Elogio da loucura. Trad. Paulo M. Oliveira. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

ROA BASTOS, Augusto. Eu o Supremo. Trad.Galeno de Freitas.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

ROA BASTOS, Augusto. El fiscal. Buenos Aires: Sudamericana, 1993..

 

© Geysa Silva 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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