Pela narrativa constrói-se um leitor?
Estudo do leitor em O mágico de Oz*

Izaura da Silva Cabral** - Flávia Brocchetto Ramos***


 

   
Localice en este documento

 

Resumo: Por que uma obra destinada ao público infantil ou juvenil pode ser considerada literária? A análise de O mágico de Oz realizada neste artigo procura, a partir do estudo da estrutura da narrativa, destacar aspectos que podem acolher a atuação de um leitor iniciante, em diferentes épocas e, desse modo, contribuir para que o texto seja um clássico.

Resumen: ¿Por qué una obra destinada al público infantil o juvenil puede ser considerada literaria? la análisis de O mágico de Oz realizada en este artigo procura, a partir del estudio de la estructura de la narrativa, apuntar aspectos que pueden acoger la actuación de un lector iniciante, en diferentes épocas y, de ese modo, contribuir para que el texto sea un clásico.
Palabras clave: Frank L. Baum, lectura, lectores, lectores infantiles

 

O americano Lyman Frank Baum, em maio de 1900, lança O mágico de Oz. Logo a obra se transforma num dos maiores sucessos editoriais da história, e o clássico da literatura infanto-juvenil continua repercutindo entre os jovens de diversas partes do mundo. Buscaremos analisar aspectos constitutivos dessa narrativa, os quais podem caracterizá-la como um clássico e contribuem para a formação do leitor.

Toda a história é contada numa certa perspectiva. Nessa obra, o narrador é onisciente e assume a terceira pessoa do discurso. Pela sua voz, o leitor pode conhecer o passado e o presente das personagens, além do íntimo de cada uma delas, como no exemplo em que Dorothy, o Leão, o Espantalho, o Homem de Lata e Totó precisam atravessar um campo de papoulas, cujo aroma era tão forte que fazia qualquer pessoa dormir. Por ser onisciente, ele sabe o que ocorre com todas as personagens, as conhece muito bem, porque as vê por completo. Essa postura discursiva traz ao leitor uma riqueza de detalhes sobre a vida das personagens, contribuindo para a verossimilhança do relato e pode gerar uma maior identificação do leitor com as peripécias das personagens.

Nesta obra, o narrador é solidário com o adulto, por isso traz exemplos de como deseja que as crianças se comportem: “- Estou bem, obrigada - respondeu Dorothy educadamente” (2002, p. 25) [1]. Também emite juízos de valor através da adjetivação: “Lembre-se de que a Bruxa é má, terrivelmente má, e deve ser morta” (p.76). Através da adjetivação, o narrador estabelece a comunicação e marca os lugares que a criança ocupa no enredo.

O narrador sabe que há um interlocutor para o texto: “Vocês devem estar lembrados de que não havia estrada e nem mesmo uma vereda que fosse do castelo da Bruxa Malvada até a cidade de Esmeralda” (p. 97, grifos nossos). Ele insere a figura dos leitores através do vocábulo “vocês”, deixando claro que quem lê também faz parte do ato narrativo. No exemplo em que um soldado conduz Dorothy e seus amigos até o portão de saída da cidade de Esmeralda, a menina e seus companheiros são tratados pelo narrador como “nossos amigos”, revelando a aproximação com as personagens: “Este abriu o fecho de seus óculos, guardou-os na caixa grande e abriu gentilmente o portão para os nossos amigos” (p. 82). Ou seja, as personagens passam a ser amigas do narrador e do leitor, já que o narrador cria uma situação de proximidade entre ele e as personagens e também com os possíveis leitores.

O tempo, apesar de apresentar índices de cronologia, como datas específicas, dias, horas, anos, é indeterminado, pois, o “hoje” pode se referir tanto ao passado, como pode referir-se ao presente, proporcionando ao leitor uma contemporaneidade do relato:“Hoje, porém, eles não estavam brincando” (p.10, grifos nossos).

Na narrativa, há o desdobramento temporal do real para o fantasioso, que é fundamentado pelo deslocamento da protagonista no espaço. Nesse ambiente fantasioso, a menina encontra amigos, e todos saem em busca de algo que lhes falta. Mas possuem, desde o início, as qualidades que desejam: não apenas os amigos de Dorothy, mas são corajosos, inteligentes e generosos, como ela própria recebe, assim que chega a Oz, o par de sapatos mágicos que lhe permitirão retornar a Kansas. A trajetória deles pela nação do Mágico assume não apenas um modelo de estrutura de narrativa aventuresca, mas possibilita o desdobramento das virtudes que as personagens previamente têm, mas que não sabem e não as vêem reconhecidas pelo grupo. A busca das personagens, no entanto, mantém-se com motivação para a continuação da ação, que somente se encerra quando o narrador explora os quatro cantos do reino de Oz e os seus diferentes habitantes. À medida que o tempo passa, dá-se a descoberta dessas qualidades interiores. A presença desse desdobramento temporal faz com que o leitor se torne perspicaz e perceba a relação entre eles, construindo, assim, sentidos para a história.

A descrição espacial na narrativa infantis, assim como a temporal, aparece com poucas referências a cenários reais, o que evidencia a fantasia presente no enredo. O mundo mágico e o real convivem harmoniosamente, pois, no universo infantil, não há separação entre ambos. A falta de referências não significa a ausência de espacialidade, pois o desenvolvimento do relato depende das ações praticadas pelas personagens, que se realizam em um cenário. Em razão disso, as características das personagens, os conflitos e a temporalização também indicam a configuração do espaço narrativo.

O narrador descreve o lugar onde vivia a protagonista: “Dorothy vivia num lugar em meio às grandes campinas do Kansas, com o tio Henrique, que era fazendeiro, e com a tia Ema, sua mulher” (p. 9). A residência da família é caracterizada minuciosamente, revelando-nos que, mesmo sendo uma habitação pequena, a sua construção deu-lhes muito trabalho: “A casa deles era pequena, porque os toros de madeira com que foi construída tiveram que ser carregados em carroças, por muitas milhas” (p. 9). Para Chevalier e Gheerbrant (1982, p. 197), a casa significa o interior do ser e, sob esse ângulo, através da sua descrição, o leitor encontra-se com a essência das personagens.

Deste modo, nos sonhos em que aparecem casas como cenário, de acordo com Chevalier e Gheerbrant (1992, p. 197), há diferenças de significado, segundo as peças representadas. O exterior da casa, por exemplo, é a máscara ou a aparência do homem: “A casa fora pintada uma vez, mas o sol queimara a pintura, cobrindo-a de bolhas; as chuvas lavaram-na, e agora a casa estava tão desbotada e cinzenta como tudo o mais” (p. 10, grifos nossos).

O leitor, através das descrições, constrói a imagem de uma casa simples, de um só cômodo, revelando a situação financeira da família: “A casa tinha quatro paredes, assoalho e telhado, que formavam um cômodo. Nesse cômodo havia um fogão enferrujado, um armário para os pratos, uma mesa, três ou quatro cadeiras e as camas. Num canto ficava a cama do tio Henrique e da tia Ema, no outro, a cama de Dorothy” (p. 9). A riqueza de detalhes torna o espaço familiar ao leitor.

O espaço influencia as personagens, moldando comportamentos e aparências: “Quando tia Ema chegou para morar ali, era uma mulher jovem e bonita. O sol e o vento também a transformaram. Eles tiraram o brilho de seus olhos, que ficaram de um cinza suave; tiraram ainda o vermelho de suas faces e lábios, que também ficaram cinzentos” (p. 10). Tio Henrique também fora tocado pelo ambiente, principalmente, sua personalidade: “Também ele era cinza, desde as longas barbas até as botas rústicas. Tinha uma aparência séria e severa, e raramente falava” (p. 10). O cinza, de acordo com Chevalier e Gheerbrant (1982, p. 248), é uma cor de luto aliviado. O tom de certos tempos brumosos sugere amargura, desânimo, enfado. A cor revela que tanto tia Ema quanto tio Henrique foram tomados pelo cansaço, amargura e desânimo, que a terra provocara.

Ainda sobre o espaço, destaca-se a presença dos pontos cardeais, os quais situam o leitor a partir dos deslocamentos da protagonista no mundo fantástico. Segundo Chevalier e Gheerbrant (1982, p. 731), no texto literário, podem representar as quatro direções do espaço, Norte, Sul, Leste e Oeste. Os eixos cruzados significam a esfera total do espaço cósmico e, simbolicamente, do destino humano. O espaço é na simbologia o quadro no qual o mundo saído do caos se organiza, o lugar onde se desenvolvem todas as energias. Para o pensamento analógico, a oposição cria um vínculo: o Sul é o oposto ao Norte, mas o Sul leva ao Norte.

A presença dos pontos cardeais pode representar o destino da menina naquele espaço desconhecido. Em um determinado momento ela acorda, mas foi levada pelo ciclone para um lugar muito diferente do familiar e, nesse lugar, tenta encontrar uma forma de voltar para casa. Para que alcance esse objetivo, é necessário que percorra os pontos cardeais, encontrando o lado bom (Norte e Sul) e o lado mau da existência humana (Leste/Oeste).

No início do conflito em Oz, a protagonista destrói a Bruxa Malvada do Leste. Daí a menina parte para a Cidade de Esmeralda e vai para o Oeste, tentar derrotar a Bruxa Malvada. Regressa novamente para a cidade do mágico. Finalmente, vai para o Sul, encontrar a Bruxa Boa, Glinda. A menina volta várias vezes à Cidade de Esmeralda, porque pensa que o Mágico vai ajudá-la a resolver seu problema. A partir de sua chegada no Sul, a menina renasce, após uma longa caminhada (que pode significar a vida), e depois de várias experiências, percebe o que antes não via. Esse aspecto mostra que, muitas vezes, busca-se ajuda externa, porém convém olhar para si mesmo e talvez descobrir-se com capacidade para mudar as situações. Esse fato pode ser constatado quando a Bruxa Glinda diz a Dorotthy, que ela tinha poderes mágicos, pois usava os sapatos prateados da Bruxa que havia vencido: “ Se você soubesse de seus poderes mágicos, poderia ter voltado para o Kansas no mesmo dia em chegou a esta terra.” (p. 142).

Outro aspecto relativo à presença constante dos pontos cardeais, refere-se ao fato de que eles parecem estar associados às quatro cores a que Chevalier e Gheerbrant (1982, p. 249) chamam de “os quatro tons absolutos”, as quatro tonalidades fundamentais: amarelo, verde, azul e vermelho. Para esses estudiosos, as quatro cores correspondem aos pontos cardeais.

A cor, nessa narrativa, pode ser uma indicação de valor. O narrador oferece ao leitor dois mundos representados pelas cores. De um lado, oferece o mundo real de Dorothy, que era totalmente cinza, e esta cor representa o limite, que pode ser relacionado a todos os limites impostos àquela criança: falta dos pais, viver com tios que não conseguem entendê-la, enquanto que seu mundo de aventuras é apresentado em cores vívidas, simbolizando um mundo em que é possível encontrar a vitalidade e a alegria e desfrutar a amizade e o companheirismo, que podem auxiliar na superação dos obstáculos. A criança leitora, que se envolve profundamente nesse tipo de visualização mental, vivencia, juntamente com a protagonista, as aventuras. Além disso, é necessário enfatizar que o sentido das cores é cultural.

A diversidade de espaços sugere busca, transformação, procura do que se perdeu, ou do que se deseja. Dessa forma, a protagonista e seus amigos viajam por espaços simbólicos, que, de alguma maneira, contribuem ou servem de impedimento para que eles alcancem seus objetivos. Elementos do espaço real contribuem para a verossimilhança do enredo.

Quanto à atuação das personagens vemos que o universo do infante é privilegiado, especialmente, pela protagonista Dorothy, que é uma menina órfã, criada pelos tios Henrique e Ema: “Dorothy era uma menina inocente e pacífica, que fora carregada para milhas e milhas de distância de sua casa; e em toda sua vida nunca matara nenhum ser vivo” (p. 15). Através da atuação da protagonista, a criança vê seus conflitos representados. Esse aspecto revela adaptação da narrativa ao público mirim, diminuindo a distância entre o adulto que produz a obra e a criança que a lê, pois essa história apresenta personagens que motivam a identificação do possível leitor, a partir do momento em que ele pode se enxergar no enredo.

Personagens como o Homem de Lata e o Espantalho podem ter suas aventuras deduzidas de suas características. Essa lógica pode tanto ser no âmbito do fantástico quanto do real. Um Homem de Lata deverá agir, mover-se, contrair relações, obedecendo apenas a natureza da matéria de que é feito, e a análise dessa matéria poderá dar ao leitor, antecipadamente, o perfil da personagem. Ou seja, a lata enferruja, e um Homem de Lata não poderia participar de aventuras aquáticas, não poderia chorar, como vemos no exemplo em que Dorothy se despede dele e ele chora, correndo o risco de se enferrujar: “Depois beijou o Homem de Lata, que chorava pondo em risco suas juntas” (p. 142). A ausência de coração implica a ausência de sentimentos. E é essa a transformação que ele almeja; busca, pois, ter um coração, conseqüentemente, ter sentimentos.

Devido à fragilidade da palha que queima facilmente, o Espantalho não pode chegar perto de nada muito quente. Por dentro, possui apenas palhas, seu corpo é macio: “Mas, ao invés de beijar a face pintada do Espantalho, abraçou seu macio corpo empalhado” (p. 142). Então, a personagem quer realizar o desejo de ser diferente de outros espantalhos: possuir um cérebro e, conseqüentemente, muitas idéias. Só que há um contraste entre o fato de ele não ter cérebro e de ser ele que, geralmente, apresenta idéias que ajudam a solucionar os problemas do grupo.

O leão é visto de modo irônico, pois é medroso, morre de medo de todos os outros animais e das situações assustadoras que encontra ao viajar com a protagonista. Ele acompanha a menina e os outros, a fim de chegar a Oz e pedir ao Mágico a coragem que lhe falta. Através dele, a criança leitora percebe que, até o leão, o mais valente dos animais, tem medo.

Ainda há na narrativa várias personagens auxiliares de Dorothy. Como a protagonista matou a Bruxa Malvada do Leste com a queda da casa, a Bruxa do Norte, em agradecimento, auxilia-a, pondo-lhe um sinal de proteção, que a impedira de sofrer algum mal. Boq, um rico Munchkin, também por estar grato por ela tê-los livrado da Bruxa Malvada, oferece-lhe pouso. Uma cegonha ajuda Dorothy a resgatar o Espantalho que havia caído na água. A Rainha e todos os ratos silvestres ajudam a resgatar o Leão que havia adormecido no campo de papoulas. Também a Bruxa Glinda auxilia a menina em troca do Capuz de Ouro, que amparava a quem o possuísse com a realização de alguns desejos, e que Dorothy estava de posse. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (1982, p. 185), o capuz simboliza a esfera mais elevada, o mundo celeste. Talvez por representar essa esfera mais elevada, o capuz passa a pertencer no final à Bruxa boa, como merecimento por sua bondade. Ou seja, o leitor se depara com uma narrativa em que a bondade é recompensada.

Há seres que auxiliam a menina, mas também os que se opõem aos seus desejos. O Kalidahs são feras monstruosas que impedem que alguém cruze o território deles. A Bruxa Malvada do Oeste quer vencer a menina e assim conseguir também dominar a Terra de Oz. O Rei dos Corvos, o Lobo, as abelhas eram escravos da Bruxa e tinham que derrotar Dorothy e seus amigos. Os macacos alados obedeciam a quem possuísse o capuz de ouro que, neste momento do enredo, estava com a Bruxa Malvada. Os cabeças de martelo eram donos do morro por onde a menina e seus companheiros deveriam passar. Essas personagens funcionam como um empecilho, tentam derrotar a protagonista, e a presença deles contribui para aumentar o sofrimento da protagonista. O possível leitor se identificaria mais com a personagem que muito sofreu, mas que venceu todas as dificuldades enfrentadas. Dessa forma, a literatura já vai capacitando a criança a conviver com problemáticas da vida real.

Dorothy, apesar de sua candura, é ousada, determinada, jamais desiste daquilo que busca. Ela pode desencadear no possível leitor infantil um processo de identificação. Mesmo em um espaço desconhecido, praticamente sozinha, com seu animal de estimação, possui a vontade de voltar para casa, apesar das dificuldades. Segundo Piaget (1975), esta vontade é paralela ao grau de pensamento lógico, pois pensamento e ação afloram em correlação e coerência. Dorothy encarna esta coerência e correlação a que alude Piaget, já que, quando chega à Terra dos Munchkins, levada por um ciclone, não conhece ninguém, é apenas uma criança em meio a estranhos.

Além disso, a presença de diversas vozes na narrativa contribui para classificá-la como uma obra emancipatória. Todos são livres para se expressar, como no exemplo em que o próprio Homem de Lata conta a Dorothy a razão de ele estar enferrujado no meio daquela floresta. O narrador empresta voz ao Homem de Lata, que apresenta um relato em primeira pessoa: “Vou contar-lhe a minha história e você vai saber” (p. 37).

O questionamento aos valores adultocêntricos está presente na obra. Tais aspectos podem ser percebidos através da ausência dos pais da menina e da incapacidade da tia, com quem vive Dorothy, que não compreende a sua alegria infantil. A tia ficou “tão assustada com o riso da criança que tinha vontade de gritar e pôr a mão no coração toda vez que a voz alegre da menina chegava aos seus ouvidos; e ainda hoje ela se espantava de que a menina pudesse encontrar alguma coisa de que achar graça” (p. 10). No entanto, mais do que a negação da figura do adulto, há narrativa exalta a ação da criança e as possibilidades que teria de resolver conflitos.

As personagens, por suas ações e pelas indicações do narrador, criam um universo e sugestões que demandam a interpretação do leitor. Este reconhecerá que elas possuíam de antemão o que buscavam, faltando-lhes apenas autoconfiança que é adquirida após o segundo encontro com o Mágico. Na medida em que a narrativa propicia a identificação entre a criança e a protagonista, esta simbolizando as dificuldades daquela, o enredo confere ao possível leitor criança uma proposta de atuação na resolução de conflitos. Além disso, oferece meios de reflexão sobre sua condição, enquanto ser carente de autoconfiança e a busca de reconhecimento pelo seu grupo (ZILBERMAN, 2003, p. 77).

Quanto ao estilo, os fatos são apresentados com um certo humo. Há brincadeira com a linguagem simbólica que percorre toda a narrativa. Há humor nas ações das personagens, como no caso em que o Espantalho percebe que não é capaz de assustar e ainda é ridicularizado pelos pássaros. Além disso, qualidades dos personagens são apresentadas através do superlativo, exprimindo exagero, próprio da oralidade e que atrai a atenção do público mirim, como no episódio em que a menina reage quando o Espantalho lhe diz com tristeza que não possuía cérebro, por isso não tinha nenhum conhecimento: “-Oh! - fez Dorothy. - Sinto muitíssimo por você” (p.25); também quando Dorothy e seu grupo avistam do outro lado do rio uma bela terra: “Ficaram contentíssimos em ver uma terra tão linda à sua frente” (p. 51); ainda no momento em que uma jovem veio buscar a protagonista em seu quarto para se dirigirem ao trono do grande Oz: “Chegaram primeiro a um grande hall em que havia muitas senhoras e cavalheiros, todos com roupas riquíssimas” (p. 73).

O narrador também brinca com os sons das palavras, desafiando as percepções do leitor. Há um cuidado com a linguagem, pois até a tradução explora os sons de certos vocábulos, a fim de gerar efeitos cômicos. Não apenas o som, mas também a forma dos seres gera humor. Dorothy, depois de chegar à terra dos Munchkins, encontra pessoas esquisitas: “um grupo de pessoas muito esquisitas, as mais esquisitas que vira em sua vida” (p. 15). Eram pequenas como as crianças, mas velhas como os adultos: “Elas não eram grandes como os adultos que conhecia, mas também não eram muito pequenas. Pareciam ser da mesma altura de Dorothy, que era uma menina bem crescida para sua idade, embora fossem, pelo que aparentavam, muito mais velhas” (p. 15). A presença dessas personagens atende ao desejo paradoxal do leitor, ser pequeno e grande ao mesmo tempo, ou seja, poder agir como uma criança, mas também poder exibir em seu comportamento traços tipicamente adultos.

Convém destacar o uso dos diminutivos que proporciona uma relação mais afetuosa entre o leitor e as ações praticadas pelas personagens, como no momento em que Dorothy senta em uma cerca perto da estrada para descansar: “Então ela subiu numa cerquinha de madeira...” (p. 24); a descrição da cabeça do espantalho pelo narrador: “Sua cabeça era um saquinho...” (p. 24); no cuidado que a menina tinha com todos, até mesmo com seres tão pequenos como as formigas: “e quando via formiguinha trabalhando” (p. 45); e quando o mágico impõe como condição para ajudar a protagonista a voltar para casa, a morte da Bruxa Malvada do Leste: “A menininha começou a chorar de desespero” (p. 76).

O uso freqüente do discurso direto contribui para que o leitor perceba o dinamismo das ações na narrativa, na qual as personagens participam ativamente, manifestam seus pontos de vista, conversam entre si. Essa dinâmica do texto propicia ao leitor o diálogo, também encontrado na vida real, no qual crianças e adultos conversam, manifestando-se através da fala.

O primeiro contato de Dorothy com o universo simbólico pode assustá-la, mas logo começa a entendê-lo. Dorothy se surpreende ao encontrar uma bruxa, mas aos poucos a fantasia não é mais novidade: “ Meu Deus! - gritou Dorothy. - Você é uma bruxa de verdade?” (p. 16).

Mesmo encontrando-se em um universo fantástico, a protagonista tem como referenciais o real: “Os homens, pensava Dorothy, eram da mesma idade do tio Henrique, pois dois deles tinham barba. Mas a mulher era sem dúvida muito mais velha” (p. 15). Dessa forma, ela reconhece, nesse lugar estranho, objetos, cenas, atitudes familiares, como quando vê um espantalho piscar: “Quando Dorothy estava olhando atentamente a estranha face do espantalho, surpreendeu-se ao ver um dos olhos piscar devagarzinho para ela. A princípio pensou ter se enganado, pois os espantalhos do Kansas nunca piscavam...” (p. 24). Assim, como a personagem tinha como referência o seu “mundo real”, a criança leitora também o tem, então precisa reconhecer no texto literário elementos familiares e, assim, como a personagem começa a entender o fantástico a partir da sua realidade, o possível leitor também pode agir dessa maneira.

A menina quer entender, porque na sua terra não existem mais bruxas, já que ali ela está encontrando umas que aparentam ser de verdade:

—Não sei onde fica o Kansas. Nunca ouvi falar nesse lugar antes. Mas me diga uma coisa. É uma terra civilizada? Sim, claro - respondeu Dorothy. Então é por isso. Acho que não existem mais bruxas em terras civilizadas. Nem mágicos, nem feiticeiros, nem magos. Mas, sabe, a Terra de Oz nunca foi civilizada, porque estamos separados do resto do mundo. Por isso ainda temos mágicos e bruxas entre nós (p. 18).

Deste modo, a fantasia propicia a vivência da liberdade. Tal liberdade diz respeito à destituição do mau e o desmascaramento do charlatão. Fica clara a equivalência entre harmonia no nível interpessoal (adultos e crianças) e intrapessoal (busca e aceitação de uma identidade) (ZILBERMAN, 2003, p. 82). Ou seja, através da fantasia, as personagens se tornam livres para se comunicar com seres inanimados, que passam a ter vida, destroem bruxas e seres malvados, contam com a ajuda de bruxas boas e podem ajudar os outros, trazendo um mundo onde a amizade e o companheirismo são encontrados. Portanto, eles trazem para o leitor o exemplo de que no mundo da fantasia o improvável é viável, já que na vida real, muitas vezes, a sociedade limita a existência da criança, seus pontos de vista, sua necessidade de sonhar e de se emocionar. Nesta obra, a seriedade em relação ao modo como a infância é apresentada resulta em um texto de indiscutível valor e que perdura. A linguagem conotativa e o jogo simbólico são responsáveis pela literariedade.

 

REFERENCIAS

BAUM, L. Frank. O mágico de Oz. Tradução de Luciano Machado. São Paulo: Ática, 2002.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Tradução Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.

 

NOTAS:

[1] Todas as citações dessa obra são da edição citada. Assim, usaremos apenas a página a partir desse momento.

 

* Síntese de um tópico da Dissertação de Mestrado O leitor em processo de autonomia: contribuições de narrativas clássicas infanto-juvenis, defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras-Leitura e Cognição - UNISC.

** Mestre em Letras pela UNISC, Professora do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves (IEEEA/RS) - iza-cabral@hotmail.com

*** Prof. Dr. Flávia Brocchetto Ramos - UNISC/UCS.

 

© Izaura da Silva Cabral y Flávia Brocchetto Ramos 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero40/magooz.html