Amnésia e Narradores de Javé: a memória em dois tempos

Marcelino Rodrigues da Silva

Universidade Vale do Rio Verde (UninCor)
Brasil


 

   
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Resumo: O trabalho é uma reflexão sobre o tema da memória a partir de dois filmes. Na leitura de Amnésia (Christopher Nolan, EUA, 2000), evidenciarei as diferenças entre acontecimento e narração, expressas pela estrutura narrativa do filme, e as interferências do presente na rememoração do passado. Na análise de Narradores de Javé (Eliane Caffé, Brasil, 2003), discutirei os aspectos sociais da memória, que se configura no filme como um terreno marcado por conflitos e negociações. Articulando as duas obras, por fim, colocarei em foco questões como a necessidade de narrar para viver, as relações entre discurso memorialístico e identidade e a importância do esquecimento como mecanismo de funcionamento da memória.
Palabras clave: Memória, Memento, Ch. Nolan, Narradores de Javé, Eliane Caffé

 

Em uma acepção ampla, que engloba o processo mental, a atividade discursiva e a prática social de resgate incessante do passado - a questão da memória é sem dúvida um tema eminentemente contemporâneo. Para evidenciar essa pertinência, basta lembrar algumas circunstâncias do mundo de hoje, em que os problemas relativos à memória estão claramente presentes. No universo das comunicações, por exemplo., as novas mídias e tecnologias midiáticas recriam constantemente as formas de perceber, acumular e interpretar as informações sobre o passado. No mundo político, novos e antigos movimentos de afirmação étnica, religiosa, de gênero e de caráter nacionalista aparecem ou retornam com grande força, invariavelmente valendo-se do apelo a uma determinada interpretação de sua trajetória no tempo. E no próprio campo acadêmico, disciplinas como a história, a análise do discurso, os estudos culturais e a literatura comparada se entregam a um intenso debate sobre as diferentes práticas discursivas de recuperação e interpretação do passado, assumindo como pressuposto o caráter sempre vicário, lacunar e ideológico da linguagem.

Em função dessa contemporaneidade, resolvi estabelecer como objetivo deste trabalho discutir a questão da memória a partir de duas obras cinematográficas relativamente recentes. Essas obras são os longa-metragens Narradores de Javé, um divertido filme brasileiro dirigido por Eliane Caffé e lançado em 2003, e Amnésia, uma produção americana em tom de suspense, dirigida por Christopher Nolan e lançada no ano de 2000.

Narradores de Javé conta a história de um povoado perdido no interior brasileiro, que se vê às voltas com a construção de uma usina hidrelétrica em sua região, o que levará à inundação de todo o vale de Javé, ameaçando a própria existência da comunidade. Em face desse perigo, os moradores do povoado resolvem em assembléia realizar um esforço “científico” de recuperação e escrita de suas “grandes histórias” do passado, na esperança de mostrar que o vilarejo era um patrimônio histórico a ser preservado e assim evitar seu desaparecimento. Para isso, decidem convocar Antônio Biá (interpretado por José Dumont), antigo carteiro e único a dominar as letras no povoado, e que havia sido banido para os arredores do vilarejo por falsificar e enviar cartas meledicentes sobre os outros moradores, no intuito de manter a agência dos correios em atividade e preservar seu emprego. A maior parte do filme é ocupada pelas peripécias de Antônio Biá, coletando com os membros mais destacados da comunidade as tais “grandes histórias do povo javético” e se preparando para fixá-las pela escrita num caderno grande e imponente. A tarefa, no entanto, não chega a se concretizar, pois o escriba se perde em função das inúmeras discordâncias entre as narrativas que coletava com os moradores e das suas próprias tendências para a preguiça e o delírio criativo. Ao final da narrativa, as esperanças da comunidade se frustram e o vilarejo é inundado, mas seus antigos moradores seguem juntos para se estabelecerem em outro território. Triste diante imagem das casas que submergiam, Antônio Biá resolve retomar sua empreitada e começa, efetivamente, a registrar em seu caderno a história do povo de Javé, que segue em seu encalço, discutindo interminavelmente sobre qual “verdade” deveria ser fixada pela escrita.

O filme Amnésia possui um enredo e uma estrutura narrativa extremamente engenhosos, que se entregam com dificuldades para o espectador. É a história de Lenny (interpretado por Guy Pearce), um homem que não consegue reter informações novas sobre o passado recente, acreditando porém que se lembra com precisão de sua vida antes do violento assalto que provocou seu problema de memória e a morte de sua esposa. Desde então, sua vida gira em torno do objetivo de encontrar e matar o suposto assassino, que é perseguido com a ajuda de uma série de artifícios que possibilitam ao protagonista lidar com o esquecimento, se orientar na investigação e se prevenir contra os engodos dos outros personagens da trama. Fotos de polaróide, anotações, recortes de documentos, tatuagens e hábitos como não falar ao telefone e olhar nos olhos do interlocutor são alguns desses artifícios que constituem o arsenal do investigador amnésico. Dois planos narrativos se alternam, ao ritmo dos esquecimentos do protagonista, diferenciando-se pelo tratamento da imagem, em cores no plano principal e em preto-e-brando no secundário. No começo do filme, o espectador é conduzido a uma sensação de estranhamento, que dura até o momento em que ele percebe que o plano principal segue uma cronologia invertida, com as cortes das cenas marcando recuos até o ponto em que a cena anterior começava. Na busca pelo suposto assassino, Lenny interage com diversos personagens, destacando-se um detetive com ares malandros que se chama Teddy e que, na cena inicial do plano narrativo principal, é morto pelo protagonista. No final do filme, os dois planos narrativos convergem - passagem que é indicada por uma cena que começa em preto-e-branco e ganha cores em um determinado instante - e acontece o momento do reconhecimento, em que Teddy revela a Lenny a chave de seu enigma: o verdadeiro responsável pela morte de sua esposa havia sido o próprio Lenny, que logo a seguir opta pelo auto-engodo e prepara para si mesmo uma pista falsa, que o levará a acreditar que o assassino era Teddy. Se confiar nas palavras de Teddy (possibilidade que pode ser questionada, diante das inúmeras suspeitas que são lançadas sobre ele ao longo da narrativa), o espectador é levado a concluir que mesmo as lembranças mais antigas de Lenny haviam sido alteradas, deslocadas e manipuladas, com a finalidade de esconder do protagonista o fato de era ele o assassino de sua esposa.

Do ponto de vista assumido neste trabalho, a primeira observação que se impõe na análise desses dois filmes é o fato de que, cada um à sua maneira, ambos tematizam o caráter ambíguo e paradoxal da memória e, no limite, de toda atividade de conservação e resgate do passado. Nas duas obras, a lembrança das experiências individuais e coletivas é uma necessidade vital que confere uma identidade às personagens, possibilitando a sua própria sobrevivência e situando-as no mundo em que vivem. Mas, ao mesmo tempo, o esforço da memória parece ser também uma busca inevitavelmente condenada ao fracasso, pois o passado aparece nos dois filmes como uma miragem, que escapa ao olhar das personagens e é inventada por elas a partir de uma perspectiva presente.

Os moradores do vale do Javé precisam lembrar e escrever suas histórias para que a comunidade e suas tradições não desapareçam, tragadas pelo avanço implacável da modernidade. E, mesmo que essa escrita não tenha se concretizado, no fim das contas parece ter sido justamente o esforço coletivo que por ela foi empreendido o responsável pela não dissipação dos laços entre os membros da comunidade, que seguem juntos para se estabelecerem em outro território. Já no filme de Christopher Nolan, o investigador amnésico faz de suas técnicas de memorização artificial a verdadeira sustentação de sua existência, permitindo-lhe manter em foco o objetivo de vingar a morte da esposa, que parece ser sua única razão de viver.

Como contraponto a esse conjunto de relações entre os sujeitos e suas memórias, os dois filmes mostram de modo enfático os limites e as armadilhas da empreitada memorialística. Em Amnésia, a própria estrutura narrativa sublinha, pela cronologia fragmentada e invertida, as diferenças entre o narrado e o vivido. Ao longo do filme, a obsessão do protagonista por suas técnicas mneumônicas revela uma permanente desconfiança, glosada por uma fala em que ele declara explicitamente sua convicção de que, mesmo nas pessoas supostamente normais, a memória é traiçoeira e tende sempre à infidelidade. E finalmente, o desfecho da narrativa surpreende, revelando como mentira deliberada todas as convicções de Lenny sobre seu passado.

Em Narradores de Javé, as suspeitas em relação ao resgate do passado são evidenciadas de diversas maneiras. O próprio tom jocoso da narrativa e da representação das personagens já coloca em xeque, como ingenuidade, sua pretensão de transformar o vilarejo em patrimônio histórico através da escrita das “grandes histórias do povo javético”. È muito significativa, também, a escolha de um escriba sabidamente mentiroso para realizar a tarefa, e todas as atitudes e falas da personagem contribuem para dar ênfase a sua tendência a acrescentar ao seu trabalho fortes doses de imaginação ficcional. Destacam-se, desse ponto de vista, as cenas em que Antônio Biá explica os motivos de sua preferência pelo lápis (em detrimento da caneta, que corre solta no papel e não permite arrependimentos) e defende o embelezamento das histórias contadas pelos moradores do vilarejo, mesmo que isso signifique uma completa transformação dos fatos supostamente ocorridos. Ainda mais relevante, como demonstração da impossibilidade de uma recuperação fiel do passado, é o fato de que as mesmas histórias, especialmente o episódio da chegada dos primeiros moradores do vilarejo sob a liderança de Indalécio (ou Indalêo), são contadas de modo completamente diferente pelos membros da comunidade. As diversas versões do episódio variam e ganham novas cores, sempre ao sabor dos desejos, interesses e perspectivas daqueles que as narram.

Desse modo, nos dois filmes, o passado só pode existir como uma invenção do presente. As forças e variáveis que interferem no modo como o presente molda o passado, no entanto, se configuram de modo diverso em cada um deles. A principal diferença, talvez, seja o fato de que enquanto Amnésia fala de uma memória individual, submetida às interferências das necessidades psicológicas, traumas e recalcamentos do protagonista, Narradores de Javé trata sobretudo de uma memória coletiva, marcada pelos conflitos entre as diferentes posições enunciativas e perspectivas interpretativas dos narradores, dependendo portanto de uma operação de negociação que parece nunca chegar ao fim.

Exatamente por colocarem o problema da memória de modo diferente, enfatizando-se num deles o plano individual e no outro o aspecto coletivo, os dois filmes resolvem de modo diverso as tensões entre o passado e o presente, entre o vivido e o imaginado. Mas, de certa maneira, o que um enfatiza também pode estendido ao outro e vice-versa. Como se a memória individual e a memória coletiva funcionassem de modo semelhante e interligado, tornando-se portanto partes de um mesmo problema. Essa, aliás, é uma idéia bastante explorada nos estudos contemporâneos sobre a memória, encontrando fundamento teórico nas formulações clássicas de Maurice Halbwachs, para quem mesmo as memórias mais estritamente individuais estão ancoradas na coletividade e nas relações de pertencimento entre o indivíduo e os diferentes grupos sociais dos quais ele participa em sua vida.

Em Narradores de Javé, o que se acentua é o caráter conflituoso, subjetivo e parcial da empreitada memorialística, representado pelas intermináveis arengas entre os moradores do vilarejo em torno da história de Indalécio. Ao mesmo tempo em que embargam o processo de escrita de Antônio Biá, são esses conflitos que impulsionam o exercício da memória e permitem ao grupo continuar existindo. Já em Amnésia, a idéia de que o presente molda o passado é acompanhada por uma constatação que choca o espectador no final da narrativa. A memória deixa de ser um acúmulo de lembranças sobre o passado, necessário para que o sujeito viva e se situe no mundo, para se tornar o contrário disso: uma mentira que o sujeito conta sobre seu passado, justamente para esconder de si mesmo aquilo que “realmente” é. Revela-se, então, o próprio esquecimento como mecanismo fundamental no funcionamento da memória e de todo discurso sobre o passado.

Assim, uma narrativa acaba por iluminar a outra e ambas podem ser vistas pela perspectiva daquilo que se enfatiza na outra. De um ponto de vista, digamos, “javético”, podemos perceber que também a memória individual funciona de uma forma dramática, marcada pelo conflito entre diferentes posições enunciativas e perspectivas interpretativas. Pois, embora recalcada, a lembrança do fato de que o protagonista foi o responsável pela morte de sua esposa parece insistir em vir à tona, incidindo de forma deslocada em sua obsessão pelas técnicas mneumônicas e na interminável busca que dá sentido a sua existência. E, de um ponto de vista “amnésico”, a idéia de que qualquer imagem do passado é, pelo menos em parte, uma mentira e um resultado do esquecimento, dá outra dimensão ao seu papel nos jogos discursivos que dão forma às identidades grupais. A memória coletiva pode, então, ser vista como resultado de uma disputa de caráter eminentemente político, por meio da qual os diferentes grupos sociais definem os seus contornos simbólicos e recriam permanentemente os laços sociais que os unem, articulando relações de poder e mascarando os conflitos que inevitavelmente marcam suas trajetórias ao longo do tempo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989, p.3-15.

Filmes:

AMNÉSIA. Direção de Christopher Nolan, EUA, 2000 (113 min.).

NARRADORES DE JAVÉ. Direção de Eliane Caffé, Brasil, 2004 (100 min.).

 

© Marcelino Rodrigues da Silva 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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