Subjetividade e leitura em Clarice Lispector

Lucilene Bender de Sousa*          Lílian Rodrigues da Cruz**

lenebender@yahoo.com.br             liliancruz2@terra.com.br
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)


 

   
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Resumo: No presente artigo enfocamos a subjetividade envolvida na leitura do texto de Clarice Lispector. A escolha da autora se deu pela idiossincrasia de sua escritura; são temas intimistas, que envolvem as questões que permeiam a subjetividade. A literatura aponta o texto de Clarice como intrigante, misterioso, denso e reflexivo, pois não é uma narrativa que conta fatos, tudo está centrado nos dramas existenciais das personagens. A partir destas considerações, interrogamos como a subjetividade de diferentes sujeitos manifesta-se na leitura do texto literário de Clarice Lispector. Para elucidar tal questão, foi aplicada a metodologia de protocolos verbais em cinco sujeitos a partir da leitura da crônica “A morte de uma baleia”. Finalizamos com a discussão do material produzido, onde a subjetividade envolvida na leitura ultrapassa os diversos sujeitos e sentidos, tanto na atividade de escrita quanto na atividade da leitura, pois ambas constituem-se na e pela linguagem, enquanto significação do ser e do mundo.
Palavras-chave: Clarice Lispector; subjetividade; leitura; texto literário.

Resumen: En el presente artículo enfocamos la subjetividad implicada en la lectura del texto de Clarice Lispector. La opción de la autora se dio por la idiosincrasia de su escritura; son temas intimistas, que implican las preguntas que pernean la subjetividad. La literatura apunta el texto de Clarice como intrigante, misterioso, denso y reflexivo, pues no es una narrativa que cuenta hechos, todo esta centrado en los dramas existenciales de los personajes. A partir de estas consideraciones, interrogamos cómo la subjetividad de diversos sujetos manifestase en la lectura del texto literario de Clarice Lispector. Para aclarar tal pregunta, fue aplicado la metodología de protocolos verbales en cinco sujetos a partir de la lectura de la crónica “La muerte de una ballena”. Acabamos con la discusión del material producido, donde la subjetividad implicada en la lectura excede los diversos sujetos y sentidos, tanto en la actividad de escribir cuánto en la actividad de la lectura, pues ambas se constituyen en y por la lengua, en cuanto significación del ser y del mundo.
Palabras clave: Clarice Lispector; subjetividad; lectura; texto literario.

 

Ler, criar e significar

Neste artigo pretendemos enfocar a subjetividade envolvida na leitura do texto literário, mais especificamente de autoria de Clarice Lispector. Para isso, primeiramente apresentamos alguns conceitos importantes que serviram de referência ao trabalho, são eles: leitura, linguagem, texto literário e subjetividade. Posteriormente, discutimos a experiência realizada com cinco sujeitos a partir da leitura de uma crônica de Clarice Lispector.

Sabe-se que a leitura é um processo cognitivo complexo que ocorre através da construção de sentidos. Na construção de sentidos do texto, destacamos quatro elementos fundamentais: autor/contexto/texto/leitor. A interação entre esses elementos possibilita a compreensão da leitura, ou seja, a construção de sentidos coerentes, permitidos pelo texto. Segundo Kleiman (1998: 100)

A leitura se transforma em interação, isto é, numa relação entre sujeitos que, pelo menos temporariamente, têm um objeto em comum e definem um objeto a partir de uma perspectiva semelhante, aquela proposta pelo autor, o que constitui um passo prévio necessário à leitura crítica em que o leitor resignifica a linguagem, constituindo seu próprio objeto, que poderá diferir daquele do autor.

O leitor “reescreve”, ou melhor, resignifica os sentidos do texto, reconstruindo os significados conforme o seu conhecimento prévio. O texto carrega as marcas lingüísticas e a carga de intencionalidade deixada pelo autor, mas, ao mesmo tempo, pode carregar significados não intencionais e ambíguos. Isso gera vazios textuais, espaços vazios de sentido que o leitor preenche com a sua subjetividade (Al-Behy, 2002). Nesta perspectiva, ler é assumir uma relação dialógica entre o leitor e o texto, principalmente quando o leitor se deixa afetar pelo que lê. Iser (1996) é um dos teóricos que aprofunda esta questão; assinala que a leitura ocorre na interação entre obra e leitor, sendo que é a partir do processo da leitura que a obra se constitui como tal.

Jauss (2002) também enfatiza a importância do leitor, formulando a teoria da estética da recepção. Assinala que quando o autor mostra sua arte tem uma intenção que nem sempre chega ser a mesma para o receptor. A relação entre o autor e o receptor pode ser considerada uma forma de comunicação, abrindo espaço para que o espectador passe a ser também um produtor da idéia. O receptor é um co-autor à mediada que confere um significado único para a obra de arte. A partir disto, Iser (1996) pergunta se o livro existe sem leitor, visto que a sua existência pode ser apenas como objeto, porém, sem leitor, o texto é virtualidade. O mundo do texto só passa a existir quando alguém dele se apossa, inscrevendo-o na memória e o transformando em experiência.

Todos os textos possuem vazios textuais e são construídos a partir de jogos de significação, negociações de sentido entre texto e leitor. Entretanto, o texto literário enquanto criação artística abre-se ainda mais para o jogo e, ao contrário do demais textos, não pretende informar uma verdade ou convencer, mas desafia o leitor a também criar a obra.

Por isso, sua principal característica é a polissemia e o trabalho com a emoção/sentimento, ele quer atingir a sensibilidade e não a racionalidade do leitor. Assim, a leitura do texto literário possui suas particularidades, pois

há uma subjetividade muito complexa envolvida na própria estrutura textual. O ato da leitura está repleto de significados que, presentes na superfície do texto, nela não se esgotam, já que entre a palavra escrita e o sujeito que a lê estabelece-se uma experiência, ou seja, o encontro dessas duas instâncias modifica o modo de existência de ambas. A condição para uma recepção estética do texto ficcional depende exatamente do estabelecimento da interação entre texto e leitor (Oliveira y Matzenbacer, 2007).

A arte interessa-se pelos sentimentos, emoções, subjetividade do leitor e o conhecimento que brota a partir da interação leitor-arte/livro. Um conhecimento não-objetivo ou prático, mas interior, de autoconhecimento, de significação da vida. “O conhecimento está na interface entre cultura, mente e sociedade e não em apenas uma delas ou em todas; ele não é pré-existente, mas produzido em situações particulares, quando um conto é narrado, um peixe é nomeado ou uma piada é contada” (Gai, 2005: 101). A autora também salienta a importância da interação para construção dos conhecimentos, que na literatura, emerge principalmente da experiência vivida pelo leitor de forma imaginária a partir do texto. Ao envolver-se com a narrativa, o leitor passa a sentir e viver as experiências dos personagens, ampliando sua experiência de vida e seu conhecimento sobre o mundo.

A partir dessas considerações iniciais, encontramos nos textos de Clarice Lispector uma fonte rica de conhecimento e subjetividade, cujo foco é o autoconhecimento, em que observamos claramente a interação e a busca de significados pelo leitor, bem como pela própria autora.

 

O texto e a leitura de Clarice Lispector

O estilo de escrita de Clarice Lispector é muito peculiar, especialmente pelos temas que desenvolve e pela construção de suas narrativas. Seus temas são intimistas, envolvem a existência, a vida, as questões que permeiam a nossa subjetividade. Dessa forma, o texto de Clarice é intrigante, é misterioso, é denso, reflexivo. Não é uma narrativa que conta fatos, apresenta diálogos entre os personagens, etc. Tudo é centrado na subjetividade de um personagem, seus dramas e sua tentativa de construir-se, de conhecer-se. A escritora usa a técnica do fluxo de consciência, concentrando toda a narrativa em torno da consciência dos personagens (Campedelli y Abdala, 2008). A linguagem e sua capacidade criadora não é utilizada apenas como meio pela escrita, mas também como constituinte da própria criação e das verdades/conhecimentos a serem construídas pelo leitor, pela própria escritora e pelo personagem, nessa relação que se forma a partir da interação da leitura.

Suas narrativas interpelam o leitor e o conduzem para o mundo da reflexão, do questionamento, do saber íntimo, bem como para uma significação para a vida/morte. Nos seus textos, vemos claramente a subjetividade da própria autora manifestada no ato criativo, ela coloca-se de corpo inteiro na escrita e obriga o leitor a participar de sua criação, tornando-o cúmplice do vivido, co-autor, “visando à construção da narrativa e à elaboração de si e do outro por meio da linguagem” (Al-Behy, 2002: 97). Clarice usa armadilhas para envolver o leitor, ela aproxima-se dele, narrando de forma muito pessoal, como se estivesse dialogando com seu melhor amigo. Assim, o leitor é interpelado a participar diretamente do diálogo, envolvendo-se, ainda que não queira, pois a leitura depende desse envolvimento, que não pode ser parcial, mas de corpo inteiro, assim como a autora (Ibid., 2002).

A primeira impressão do leitor ao deparar-se com o texto lispectoriano é o estranhamento, ele busca algum elemento na narrativa que seja similar ao que ele está acostumado a ler, mas não encontra, pois não há início, meio e fim, tudo é reflexão (Campedelli y Abdala, 2008). O leitor permanece confuso, a narrativa desestabiliza-o e apesar disso, começa a sentir-se atraído, seduzido, parece que alguém está pensando e contando seus próprios pensamentos, mas quem é essa pessoa? A narrativa atinge um ritmo angustiante, de perguntas, acusações, desconfianças. O leitor, às vezes assustado, vai acompanhando, mesmo sem saber porque. Aos poucos, mesmo sem querer admitir, percebe-se gostando da história. Segue a leitura, sente como se alguém falasse pessoalmente com ele ou ele falando com seu eu, e a voz do narrador confunde-se com a sua voz interior, e ele também se questiona. E nesse envolvimento com o texto, o leitor significa a história de sua forma, ele a re-escreve a partir da sua subjetividade.

Deparar-se com o texto de Clarice é como tentar decifrar um enigma, uma obra de arte abstrata. O texto não se entrega facilmente, às vezes parece confuso. Entretanto, ao tentar compreendê-lo, o leitor pode ficar fascinado. Também é possível que busque um significado e, muitas vezes, a única coisa que consegue é calar-se. Contudo, aquele enigma o persegue, acompanha-o na volta para casa. O livro está na cabeceira, mas as imagens parecem continuar se insinuando, pedindo sua atenção, seu envolvimento com as cores, os traços, as linhas, as sombras, as palavras. O conhecimento que nasce dessa interação é tão sutil e íntimo que às vezes nem mesmo o leitor percebe. No entanto, a obra sensibilizou, questionou, desconstruiu o mundo do leitor e colocou-o na posição de criador.

 

Experiência de leitura através de protocolos verbais

A medida em que aprofundamos as discussões sobre leitura e subjetividade, nos perguntamos como a subjetividade de diferentes sujeitos manifesta-se na leitura do texto literário de Clarice Lispector. Com propósito de elucidar tal questão, aplicamos a metodologia de protocolos verbais em cinco sujeitos a partir da leitura da crônica “A morte de uma baleia”, retirada do livro “A descoberta do mundo”. A crônica foi escolhida considerando dois fatores: a extensão, pois para aplicar a técnica o texto deve ser curto, e as características do estilo da autora. Abaixo, apresentamos um breve resumo da crônica escolhida.

O narrador inicia contando que duas baleias encalharam no Rio de Janeiro e que esse fato originou especulação e boatos, as pessoas diziam que uma delas estaria agonizando já há oito horas. A partir disso, o narrador expressa seu sentimento diante do que contavam e da reação das pessoas frente ao extraordinário. Por um instante, ele parece dar acesso livre aos pensamentos/lembranças/sentimentos que teve em uma fração de minuto diante do fato, reflete principalmente sobre suas experiências e sofrimentos com a morte: a morte diária através das perdas da vida, a morte da alma e/ou do corpo; o que sentiu quando estava no hospital entre a vida e a morte, em estado de (in)consciência; a brevidade/fragilidade da vida e o poder de Deus. Após esse relance, o narrador volta à razão e segue falando das notícias que se misturam com lendas: as pessoas cortaram a carne da baleia ainda viva para vender. Horrorizado com a animalidade do homem, o narrador sucumbe à morte “a viver desse modo, prefiro a morte” e reconhece sua própria condição animal “sou uma feroz entre os ferozes seres humanos”, revelando seu corpo e sua identidade feminina.

A crônica apesar de curta, quatro páginas, é intensa e apresenta muitas características encontradas nos contos e romances da autora. Nunes (1995) aponta algumas características da obra de Clarice entre as quais destacamos as que podemos encontrar na crônica: a inquietação, o desejo de ser, o predomínio da consciência reflexiva, a violência interiorizada nas relações humanas, a desagregação do eu, a identidade simulada, o impulso ao dizer expressivo, o grotesco e/ou o escatológico, o autoconhecimento, o eu e o mundo, humanidade e animalidade, a violência represada dos sentimentos primários e destrutivos - cólera, ira, raiva, ódio - que subitamente explodem.

A metodologia aplicada, protocolos verbais, consiste em obter relatos verbais de sujeitos sobre como realizam alguma atividade da qual o pesquisador quer investigar o processo. Comumente divide-se as modalidades de protocolos em três categorias: auto-relato, auto-observação e auto-revelação. As seguintes definições são baseados em Cohen (1989), Rottava (2003) e Cavalcanti (1989): a) Auto-relato: são descrições de comportamentos pelo sujeito, que as faz usando seu senso comum, seus conhecimentos. b) Auto-observação: é o exame de um comportamento de língua no momento de sua ocorrência ou enquanto a informação ainda está na memória intermediária do sujeito. c) Auto-revelação: é a verbalização imediata do que se está fazendo durante a realização de alguma atividade, “é uma maneira de o sujeito pensar alto sobre seu comportamento sem a preocupação em editar ou analisar dados” (Rottava, 2003: 74).

Nesta investigação utilizamos a auto-revelação e auto-observação a partir de sujeitos com curso superior completo em áreas variadas: sujeito 1 - Filosofia, sujeito 2 - Ciências Contábeis, sujeito 3 - Direito, sujeito 4 - Letras, sujeito 5 - Química Industrial. A pesquisa foi feita individualmente com cada sujeito que recebeu o texto, sem indicação de livro ou autor. Antes das instruções, esclareceu-se que a leitura deveria ser espontânea e que o objetivo não era avaliá-la. As instruções foram as seguintes: ler o texto silenciosamente e relatar os pensamentos, impressões, sentimentos, lembranças, dificuldades que surgirem durante o processo da leitura, fazer o relato simultâneo à leitura, para isso, interromper a leitura sempre que sentir a necessidade de falar. O relato de cada sujeito foi gravado em audiotape e posteriormente transcrito pela mesma autora.

A auto-observação foi realizada ao final da leitura a partir das seguintes solicitações: a) resuma o texto; b) você leria o texto novamente? Por quê?; c) qual o ritmo e o estilo de escrita?; d) o texto é semelhante aos que você costuma ler? Por quê?; e) você achou a leitura proveitosa? Por quê?; f) você associou o texto a algum fato da sua vida? Essa coleta objetivou verificar alguns pontos importantes para a investigação que às vezes não são alcançados apenas pela auto-revelação, especialmente a compreensão, a recepção do texto, o envolvimento do leitor e sua experiência de leitura.

A subjetividade emerge

Apresentamos, primeiramente, o resumo e a análise dos dados coletados a partir da auto-revelação; posteriormente, a análise dos dados obtidos pela auto-observação.

O sujeito 1 faz associações do texto com músicas (“Surfando carmas e dna” - Engenheiros do Hawaí, “Animais” - Nenhum de Nós) e com histórias da “Liga da Justiça” e “Ex-man”. Manifesta uma certa incomodação ao deparar-se com algumas questões do texto “detesto a idéia de morte e envelhecer”. Relata sua experiência de depressão e euforia, e a noite como seu momento de libertação. Cita o maniqueísmo, questiona o silêncio, constante evolução do ser, a violência vinculada ao medo de morrer, e diz concordar com a idéia de roubar para comer. Manifesta-se pessimista ao resumir o texto “A morte não vale a pena (.) e viver de um jeito as (.) a como se estivesse morto também não”. Fala sobre o sentimento gerado pelo texto de forma muito pessoal e diretamente associada com sua vida “sentimento assim parece que (.) as coisas que eu vivi tudo (.) até hoje já se encaixaram. Faz pensar bastante”. Por fim, destacamos a seguinte frase: “texto transmitiu bem, a gente nasce, vive e morre todo dia”.

O sujeito 2 faz poucos comentários durante a leitura, expande-se mais nas respostas. Identifica-se com a autora ao relatar seu sentimento de horror diante da cena da baleia agonizando. Manifesta um certo descontentamento com o encaminhamento dado pela autora no texto “já começa meio que (.) criar polêmica, aqui, alguma coisa meio que existencial”, e encontra dificuldade de leitura “divagante isso aqui, um pouco intrincado”. Posteriormente, nas respostas, diz que o texto é chato, pesado e pessimista, e que não lhe lembrou muita coisa. Ao relatar “aspectos assim meio sombrios, filosóficos da vida humana né (.) falando assim da morte, da vida, da (.) animalidade das pessoas” demonstra resistência e desconforto ao encontrar-se interpelado por estas questões. Ao resumir o texto, percebe-se que houve a compreensão, mas talvez não o envolvimento.

O sujeito 3 diz identificar-se com o autor “identifiquei com ele também porque eu também não queria olhar isso”. Faz várias associações com fatos da sua vida, notícias, livros. Relaciona o fato da baleia com outros acidentes envolvendo pessoas e traça considerações sobre a curiosidade das pessoas pelo macabro, sinistro, “as pessoas comentam e inventam também, como ele diz aqui né, criam lenda a respeito”. Relaciona as várias mortes citadas pela autora como mortes interiores e perdas, citando inclusive o período da adolescência. Comenta a dicotomia mente e corpo, a partir da morte, “o físico e o mental, que nem sempre andam juntos” e a valorização do corpo. Aponta superficialmente questões religiosas “ele fala isso, que agente tem que procurar Deus dentro de si, né, achei interessante isso aqui”. Por fim, menciona o paralelo homem e animal “ele coloca (.) a o, o ser humano na condição de animal, eu entendi assim, ah (.) que ele diz que é muito ah, difícil até atingir o ser humano ((E)) na integralidade” e aponta a ética que permeia as atitudes humanas.

O sujeito 4 faz relações intertextuais - “O homem e o mar”, “Venha ver o pôr-do-sol”, “Violetas na Janela” -, associa a morte da baleia com questões ecológicas, recorda fatos de sua vida envolvendo a morte e doença, fala de sua experiência religiosa, mostra-se inquieto diante da morte “pra ver se entendia um pouco mais a questão da morte, mas mesmo assim essa questão não ficou clara pra mim”, enfatiza várias vezes essa relação do texto com a religião. Identifica-se com a autora ao relatar seu sentimento pelo pôr-do-sol “acho lindo, acho fantástico”. Por fim, refere-se à ganância, à oração, à busca do ser humano - sua inquietude, à dicotomia material e espiritual, “estamos sempre em busca de algo mais, acredito que possa ser no lado material como também no lado espiritual”.

O sujeito 5 vincula o fato da baleia diretamente a questões ecológicas, associa a situação do coma com seus conhecimentos de ciência “conversar com as outras, isso estimula o (.) o cérebro ou alguma atividade em que acaba resgatando a, a vida”, ao tratar de morte e vida cita a religião “a vida é uma passagem né, nós estamos aqui, vivendo pra (.) ver se agente Ps ah, vai pro céu, ou vai pra inferno”. Comenta a desvalorização da vida tanto dos animais quanto a vida humana, o que associa ao roubo, violência (matar indiscriminadamente) e aos valores “uma questão de valor que, com o tempo, nessa sociedade que agente vive agente tá perdendo”. Aponta a possibilidade de mudança de atitudes a partir da vivência dos relacionamentos e vincula essa mudança à santificação, citada no texto. Enfatiza o valor à vida e o respeito mútuo

A maioria dos sujeitos ao serem solicitados a resumir o texto iniciaram citando o fato das baleias e em seguida as considerações que a autora traça sobre vida e morte, doença, corpo e alma, ser humano. Dois sujeitos (1 e 5) não citaram o fato das baleias, limitando-se às reflexões sobre a vida e a morte. O sujeito 2 destacou a característica circular da narrativa, que inicia e finaliza com a morte das baleias. Além disso, todos responderam que gostariam de reler o texto, principalmente para compreendê-lo melhor, o que indica que encontraram uma certa dificuldade na leitura. Essa hipótese se confirma com as repostas à segunda questão. Quando questionados sobre o estilo e ritmo do texto, todos sujeitos disseram em algum momento da entrevista que o texto era reflexivo, denso, filosófico, em algumas partes difícil em função da complexidade. Nesta questão, destacamos algumas particularidades: sujeito 1 que achou fácil e associou ao estilo poesia em prosa; sujeito 2 ressaltou a impressão de linguagem informal (como uma conversa) e sujeito 4 indicou uma certa confusão entre realidade e ficção.

As respostas sobre leituras prévias revelaram uma grande variedade de experiências. O sujeito 1 disse que o texto é semelhante aos que costuma ler pela questão simbólica, filosófica, faz pensar; sujeito 2 disse que gosta muito de ler, mas que não lê narrativas mais pesadas, e sim jornais e revistas; sujeito 3 disse que lê de tudo; sujeito 4 aponta leitura de contos; sujeito 5 afirmou que suas leituras são diferentes da proposta, pois lê mais livros técnicos de sua área de atuação. A influência de suas experiências como leitores sobre a forma como significaram o texto fica bastante evidente nos dados de auto-revelação. O sujeito 4, por exemplo, associa o texto a vários livros diferentes, demonstrando o quanto seu conhecimento prévio de literatura interfere no modo como significa o texto; já o sujeito 5, parece ler de forma bastante racional, o que se justifica ao relatar que suas leituras são de livros técnicos de Química, sua área de atuação. São essas diferenças de experiências vividas que fazem com que a leitura seja algo tão particular e único para cada sujeito. O texto literário, por ser polissêmico, se abre às leituras, não limitando sua compreensão a uma apenas, mas a quantas o leitor for capaz de fazer.

Todos afirmaram que a leitura foi proveitosa, principalmente porque fez refletir, pensar em questões da vida, valores e atitudes, o que indica que o texto literário, enquanto arte, faz o leitor olhar para si e para sua realidade, perceber-se, autoconhecer-se. Ao afirmarem que o texto faz “parar para pensar” ou “dar-se conta de”, percebemos o quanto os sujeitos valorizam essa atitude, pois a usam para justificar a importância do texto, e também que talvez não tenham o hábito de pensar sobre esses temas. A maioria dos sujeitos disse que associou o texto com sua vida. As associações feitas relacionaram-se a cenas de acidentes ou situações semelhantes a da baleia, a casos de doença, morte, religião, e outras experiências. Isso mostra que o texto conseguiu sensibilizar os leitores e a metodologia adotada revelou de forma clara como a subjetividade de cada um se manifesta no ato da leitura.

 

Considerações finais

Muitas vezes as pesquisas em leitura consideram a subjetividade como fator externo ao processo, no entanto, é interno ao sujeito e é um dos meios pelos quais o leitor constrói os significados do texto. Como a própria Clarice Lispector afirmou “suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato” (Lerner, 1992: 69). A leitura do texto literário não exige apenas inteligência, exige sensibilidade; o leitor de Clarice Lispector não pode ler só com a razão, procurando a lógica, mas ler com a sensibilidade, envolvendo-se, projetando seu próprio corpo, assim como a autora escreve de corpo inteiro.

Podemos dizer que a leitura se torna significativa no momento em que o objeto de leitura e o sujeito-leitor estabelecem relações. Apoiado em Freud, Jauss (2002) afirma que o prazer estético da identificação (com personagens, cenas, questões de ordem existencial, tipo ‘quem sou eu’) possibilita participarmos de experiências alheias sem que soframos na mesma intensidade. Assoun (1996: 127) também analisa o processo da leitura, indagando “de onde partir para pôr em cena o teatro organizado pela leitura, senão do encontro entre um sujeito e aquilo que oferece ao ler (um lectum) - evento que se inscreve no leitor por um certo efeito?” Neste sentido, percebemos efeitos nos sujeitos-leitores a partir dos protocolos verbais, que ativaram memórias, sentimentos e emoções, principalmente em relação à vida/morte. Os sujeitos da investigação relataram a importância do ato de refletir e pensar sobre sua própria existência. As questões de vida/morte interpelam os sujeitos e os efeitos ecoam, produzindo sentidos, revelando a subjetividade ao relatarem, por exemplo, as experiências de dor diante da doença e da morte, os sentimentos de perda, as vivências religiosas, o medo da violência, a insegurança e dúvida, bem como a crise ética de valores.

Na tentativa de interagir com texto, completar os vazios, o sujeito-leitor é levado a realizar esse movimento introspectivo, ensimesmado, de busca de sentido. Nesse diálogo com os sentidos do texto, algumas modificações de significação podem ser geradas no leitor. Como afirma Mannoni (1992), o texto literário coloca em cena a possibilidade da identificação do sujeito com a personagem. O efeito pode advir sob a forma do susto, do riso, da vergonha e até da dor, ou seja, prazeres e desprazeres bastante íntimos perpassam a leitura. O ato da leitura é uma margem fecunda para o sujeito se sentir movimentado, instigado, provocado na intimidade do seu desejo.

A partir do paradigma da psicanálise, o texto literário pode instigar conteúdos recalcados no inconsciente, bem como questões relacionadas ao desejo. A leitura é potente, neste sentido, quando desestabiliza, tumultua, remexe, provoca, enfim, quando cutuca as lembranças secretas e íntimas do leitor. O valor da leitura emerge justamente quando causa estranhamento, dúvida, abrindo possibilidades.

Dessa forma, a “leitura constitui um dispositivo para a transformação do sujeito. O ato de ler poderá produzir a modificação de sentidos cristalizados, apontando para novas configurações de sujeito” (Torossian, 2005: 75). Ou seja, a subjetividade envolvida na leitura ultrapassa os diversos sujeitos e sentidos, tanto na atividade de escrita quanto na atividade da leitura, pois ambas constituem-se na e pela linguagem, enquanto significação do ser e do mundo.

Finalizamos com o poema “Nova Poética”, de Manuel Bandeira, à medida que ele faz alusões aos efeitos do texto poético.

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem en-
                                    [gomada, e na primeira esquina passa um
                                    [caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça
                                    [de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como nódoa no brim:
Sei que a poesia também é orvalho.
Mas este fica para as meninas, as estrelas alfas, as virgens cem
                                    [por cento e as amadas que envelheceram
                                    [sem maldade (Bandeira, 1977: 287).

 

Referências Bibliográficas

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Assoun, Paul-Laurent (1996). Metapsicologia freudiana: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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* Lucilene Bender de Sousa. Professora de inglês, graduada em Letras Português-Inglês e aluna especial do Mestrado em Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)

** Lílian Rodrigues da Cruz- Psicóloga, doutora em Psicologia (PUCRS), docente do departamento de Psicologia e do Mestrado em Letras na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).

 

© Lucilene Bender de Sousa y Lílian Rodrigues da Cruz 2008

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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