Sentidos de memória:
considerações sobre o discurso na obra 1984

Cecília Monteiro Reame*, Jonathan Raphael Bertassi da Silva** y Lucília Maria Sousa Romão***

Universidade de São Paulo (USP)


 

   
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Resumo: Este trabalho discute, à luz da Análise do Discurso, os sentidos de arquivo e memória postos em movimento ao longo da ficção de George Orwell. Interessa-nos analisar as relações de poder, saber e dizer inscritas na obra “1984”, na qual o autor descreve uma sociedade em que a língua e os sentidos são controlados pelo Estado, marcando como os sujeitos passam a lidar com os dizeres, os silêncios eas interdições. Tomando como corpus alguns recortes do literário, teceremos considerações sobre arquivo, memória, língua e processos de produção histórica dos sentidos em que pese a inscrição do político, atentando para a constituição do sujeito como posição discursiva e também da ideologia como mecanismo de naturalização de alguns sentidos e apagamento de outros.
Palavras-chave: Orwell, memória, sentido, discurso, 1984.

Abstract: This work argues, in the light of the Analysis of the Discourse, the directions of archive and memory ranks in movement throughout George Orwell’s fiction. To us, interests to analyze the power, knowing and speaking relations enrolled in “1984”, which describes a society where the language and the directions are controlled for the State, marking how the subjects deal with speech, silence and interdictions. Taking as corpus some clippings of the book, we will weave consideration on archive, memory, language and processes of historical production of the directions where it weighs the registration of the politician, attempting for the constitution of the subject as discursive position and also the ideology as mechanism of naturalization of some directions and deletion of others.

Keywords: Orwell, memory, signification, discourse, 1984.

 

Sujeito, ideologia e a memória: questões centrais para a teoria discursiva

"O que faz mal não é a mentira que passa pela mente,
mas a que nela mergulha e se firma.” (Francis Bacon)

A Análise do Discurso, como seu próprio nome indica, não trata da língua, não trata da gramática, embora ambas lhe interessem. Ela trata do discurso e essa palavra inscreve a idéia de curso, de percurso, de correr por, o efeito de movimento, é a palavra em movimento, prática de linguagem. Com o estudo do discurso, observa-se o homem falando (ORLANDI, 1999) e o como objetos simbólicos produzem sentido, não a partir de um gesto automático de codificações, mas como procedimento que inclui a historicidade da linguagem e(m) seus mecanismos imaginários.

Dessa forma, o fragmentário, o disperso, o incompleto e a opacidade são de domínio da reflexão na análise do discurso e torna-se importante discutirmos a noção de sujeito a partir dos dois esquecimentos, definidos por Pêcheux (1975) como esquecimento número um e número dois. O primeiro diz respeito à ilusão de o sujeito se colocar como a fonte dos sentidos, de pensar que ele é a origem do que diz, como se suas palavras nascessem no momento em que são ditas, quando sabemos que ele apenas retorna e rearticula sentidos já ditos em outros contextos, atualizando o trabalho histórico dos sentidos (ORLANDI, 2005). Trata-se de uma ilusão necessária para que o sujeito enuncie, sendo assim, trata-se da condição de ser sujeito, isto é, do resultado da interpelação da ideologia no dizer dele. Já o esquecimento número dois é da ordem da enunciação e nos faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo, de tal maneira que acreditamos que o que foi dito só poderia ter sido formulado com aquelas palavras e não com outras. Esse processo cria um efeito de clareza, completude e evidência, fazendo o sujeito se esquecer de que, ao falarmos, o faz de uma maneira, apagando outras e, assim, deixando de dizer de outro modo.

Mas, não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como tal, isto é, como estão inscritos na sociedade, e que poderiam ser sociologicamente descritos, que funcionam no discurso, mas suas imagens que resultam de projeções. São essas projeções que permitem passar das situações empíricas - os lugares dos sujeitos- para as posições dos sujeitos no discurso. Essa é a distinção entre lugar e posição (ORLANDI, 2003b, p.40).

O referencial teórico-metodológico da Análise do Discurso funde-se sobre a interpretação dos processos discursivos que estão na base da produção do sentido e do sujeito (PÊCHEUX, 1969), levando em conta a exterioridade do dizer, ou seja, as condições de produção específicas e históricas. Elas não são entendidas como algo fora da linguagem, mas como elementos de constituição da mesma, assim, são marcadas pela reação com o já dito e com a memória discursiva (PÊCHEUX, 1999), deixando que as marcas da heterogeneidade emerjam nos ditos sujeitos. Sobre isso, Ferreira (1998, p. 203) diz o seguinte:

O discurso é um objeto teórico na AD. Isto significa que ele é entendido, em primeiro lugar, como um lugar de reflexão. Pêcheux define-o como “efeito de sentido entre interlocutores”. Mais do que um resultado, o discurso vai definir um processo de significação no qual estão presentes a língua e a história, em usa materialidade, e o sujeito, devidamente interpelados pela ideologia.

Nessa empreitada, os conceitos de sujeito, memória e ideologia são importantes para que novos gestos de leitura e interpretação sejam instalados e construídos. Cabe ressaltar, sucintamente, que o sujeito e o sentido são afetados pela ideologia

o dizer está permanentemente em disputa e se constitui no movimento afetado pela ideologia, como o mecanismo que naturaliza o sentido dominante e o apresenta como única forma de dizer, como representação fiel da realidade (...) (ROMÃO, 2004, p.10).

Esse processo de assujeitamento faz com que a língua produza sentidos, pois a ideologia é a condição necessária para a constituição dos sujeitos e sentidos na relação deles com a língua e a história (PÊCHEUX, 1997), isto é, o mecanismo que torna alguns sentidos evidentes e claros para o sujeito e interdita tantas outras possibilidades de dizer. Desse modo, “A ideologia é um ritual com falhas e a língua não funciona fechada sobre si mesma: abre para o equívoco” (ORLANDI, 2003b, p.20). O sujeito imagina-se fonte do dizer, do mesmo modo que lhe parece normal ocupar a posição social na qual está inserido. A ideologia, então, provoca a ilusão de apagamento de sentidos tidos como indesejáveis para sujeito na posição que ele ocupa, constituindo-se, assim, em um mecanismo imaginário através do qual certos sentidos colocam-se como óbvios para o sujeito conforme a posição social que ele ocupa.

É a ideologia que fornece as evidências pelas quais ‘todo mundo sabe’ o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve etc., evidências que fazem com que uma palavra ou enunciado ‘queira dizer o que realmente dizem’ e que mascaram, assim, sob a ‘transparência da linguagem’, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados. (PÊCHEUX, 1988, p 160).

O que marca e define as diferentes posições dos sujeitos, dos grupos sociais que ocupam territórios antagônicos caracterizando tais embates, é a ideologia mecanismo imprescindível para a noção de discurso, (FERNANDES, 2007). Nesse processo histórico de naturalização, as instituições funcionam no sentido de torná-las ‘evidentes’, legitimas e necessárias; da mesma forma, pelo efeito ideológico, passa-se a considerar como naturais os discursos que delas emanam, bem como os dizeres a elas associados. Entendemos as instituições (a noção de instituição é usualmente recordada como um elemento cristalizado do domínio da estrutura social) como parte do processo de edificação do social, processo esse que apaga para o sujeito seu assujeitamento a formações discursivas, produzindo o efeito de literalidade de sentidos.

As instituições com suas normas e regras são também resultantes de longos processos de linguagem. Ou melhor, ‘as instituições ganham um sentido e uma (aparente) coerência ao serem legitimadas, vale dizer, ao serem pensadas e explicitadas através da linguagem’. (DUARTE JÚNIOR., 1985 p.49).

A ilusão da transparência dos sentidos de uma instituição comparece sempre e de diferentes maneiras, produzindo o efeito de literalidade que segundo Foucault é a “escolha da verdade no interior da qual nos encontramos, mas que renovamos continuamente.” (2005, p.62). Sem dúvida, o lugar de onde se fala constitui o dizer do sujeito, mas esse lugar deve ser compreendido como posição vinculada ao complexo de formações discursivas constitutivas de uma ideologia.

O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, etc., não existe ‘em si mesmo’ (...) mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (PÊCHEUX, 1988, p.190).

Lembramos que o discurso está em permanente processo de repetição e rupturas em função da permanência ou transformação dos rituais enunciativos que as constituem. Podemos perceber que o sujeito resiste à ideologia e essa resistência encontra-se materialmente instalada nos traços do equivoco, como “formas de aparição fugidias de alguma coisa de outra ordem, vitórias ínfimas que, no tempo de um relâmpago, colocam em xeque a ideologia dominante tirando partido de seu desequilíbrio” (PÊCHEUX, 1988, p.42); assim sendo, a memória discursiva é, constituída por faltas e lacunas.

Não podemos negar que, assim como a história, os sentidos também mudam e, a cada mudança de conjuntura social e/ou da posição do sujeito dentro dela, outras reconfigurações e sentidos são arranjadas. Para Mariani (1998), pensar discursivamente a memória é analisar as formas conflituosas de inscrição da historicidade nos processos de significação da linguagem.

Assim a memória é outro postulado importante para nós etambém chamado de interdiscurso, esse conceito foi cunhado por Pêcheux (1975) e definido como a região do dizível, do saber discursivo que torna possível todo o dizer e que sustenta a possibilidade de cada tomada da palavra. Desta forma, as palavras significam pela história e pela língua e, portanto, é o que já foi dito ou apagado sobre elas que sustenta os processos de significação. Aqui a memória discursiva é pensada em relação ao discurso. Segundo Pêcheux (1975), ela é definida como algo que já está posto antes em outra conjuntura sócio-histórica.

(...) A memória tende a absorver o acontecimento, como uma série matemática prolonga-se conjeturando o termo seguinte em vista do começo da série, mas o acontecimento de uma nova série que não estava constituída enquanto tal e que é assim o produto do acontecimento; o acontecimento, no caso, desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior. (PÊCHEUX. 1988, p.52).

Observar o discurso literário, sob essa perspectiva, nos remete a uma relação menos ingênua da linguagem, pois passamos a entender que os processos de identificação do sujeito com a posição a que foi levado a ocupar pela ideologia tem relação com a memória. Conforme Mariani, (1998, p.128): “É o sujeito que ao ocupar uma posição faz a língua entrar em funcionamento e esse funcionamento é afetado pela memória do dizer (o interdiscurso).”

São várias as definições atribuídas à memória nas áreas da informação e da documentação (BELLOTTO, 2002 e LOPEZ, 2002); simples ou complexas, tais definições configuram memória como sendo informações registradas e fiéis a acontecimentos e fatos, a acervos ou arquivos. “Uma visão ainda comum, decorrente do pensamento positivista, corresponde à concepção do documento como prova, uma verdade absoluta, dotado de imparcialidade.” (FERRAREZI e ROMÃO, 2007, p.155).

Consideramos que a sedimentação dos processos de significação faz-se historicamente, produzida pela institucionalização do discurso dominante que, segundo Foucault (2005, p.14) está “em perpétuo deslocamento (...) por todo um sistema de instituições que as impõe e reconduzem; enfim, que não se exercem sem pressão, nem sem ao menos uma parte de violência.”. Dessa institucionalização, dirá Orlandi (1998), decorre a legitimidade e o sentido legitimado que fixa-se, como centro, o sentido oficial ou literal. O controle terminológico, a determinação de normas e siglas normatizadoras, sua desambigüização são mecanismos de controle dos sentidos, para que eles não sejam vulneráveis a interpretações outras que não aquelas previstas e desejadas por determinada comunidade (LUCAS, 2003). Esse processo histórico de naturalização das instituições (sentidos) funciona no sentido de torná-las ‘evidentes’, legitimas e necessárias; da mesma forma, ao longo do tempo, passa-se a considerar como naturais os discursos que delas originam, bem como os sentidos a elas associados.

A memória - o interdiscurso - apresenta-se como espaço de deslocamento e de retomadas, lugar de conflitos e de regularização na rede de sentidos, onde ocorrem “desdobramentos, discussões, polêmicas e contradiscursos” (PÊCHEUX, 1985, p.96). ë sobre ela que a nossa voz se desdobra sem que saibamos claramente isso, ancorando o nosso dizer para que ele produza sentidos. “Trata-se do que foi dito e é dito a respeito de um assunto qualquer, mas que, ao longo do uso já esquecemos como foi dito, por quem e em que circunstância e que fica como um já dito sobre o qual os sentidos se constroem.” (ORLANDI, 1996, p.84). Assim, ao enunciar, o sujeito projeta-se imaginariamente na formação discursiva que o domina na posição que ele ocupa, “incorporando”, desse modo, os sentidos enquanto sistema de evidências e de significações percebidas, aceitas e experimentadas. O que chamamos de “realidade” não é algo dado, mas, sim, algo que resulta da necessária significação com que o homem, ser simbólico, investe suas práticas sociais e linguageiras (MARIANI, 1998).

Para a memória “oficial” se impor e permanecer como sentido dominante, é necessário haver esquecimento(s) de outros sentidos não passíveis de controle. A base do discurso é o processo de produção de significados, ligados aos processos sócio-históricos e, nesses processos de constituição dos sentidos, “nas Histórias e nas histórias, com suas memórias coletivas ou peculiares, a costura dos acontecimentos funciona de modo a eliminar tudo que possa ameaçar a estabilidade/homogeneidade” (MARIANI, 1998). Esta ilusão de homogeneidade está fortemente ligada aos processos ideológicos “que produzem o efeito ‘evidencia’ sustentando-se sobre já-ditos, os sentidos institucionalizados, admitidos por todos como naturais“ (ORLANDI, 1996). Algo que Foucault define como: “Tudo se passa como se tivessem querido apagar até as marcas de sua irrupção nos jogos do pensamento e da língua”. (2005, p.50). A memória social, nesta discussão, é vista como um processo histórico resultante de uma disputa de interpretações para os acontecimentos presentes ou já ocorridos, sendo que, como resultado do processo, ocorre a predominância de uma de tais interpretações e o (aparente) esquecimento das demais. Naturaliza-se, assim, um sentido “comum” à sociedade, ou, em outras palavras, mantém-se imaginariamente o fio de uma lógica narrativa (MARIANI, 1998).

Estamos demonstrando que o discurso contribui na constituição do imaginário social e na formação da memória de um passado, assim como também na construção da memória do futuro, o tratamento dado às informações publicadas e documentos, quase sempre demonstrando “verdades absolutas”, acaba contribuindo para a preservação de uma interpretação dada pela ideologia dominante. Foucault (2005), ao fazer um inventário dos tipos de memória, chama de ‘memória oficial’ aquela memória nacional, bem institucionalizada e ritualizada nos arquivos, bibliotecas, museus e monumentos, assunto este também sustentado por “outros sistemas de exclusão” que se apóia em um suporte institucional, pois “é ao mesmo tempo reforçada e reconduzida por todo um compacto conjunto de práticas como a pedagogia, é claro, como os sistemas dos livros, da edição, das bibliotecas, como as sociedades de sábios outrora, os laboratórios hoje” (FOUCAULT, 2005, p.7). Já a ‘contra memória’, por sua vez, é a dos excluídos, cuja especificidade do lugar de fala foi sistematicamente apagada e, citando Mariani, “muitas vezes os sentidos ‘esquecidos’ funcionam como resíduos dentro do próprio hegemônico” (1998, p.62).

A ilusão de completude está ligada aos processos ideológicos “que produzem o efeito ‘evidência’” sustentando-se sobre já-ditos, sobre os sentidos institucionalizados e admitidos por todos como naturais. Mas se a memória fosse assim tão previsível e homogênea, estaríamos condenados a estar sempre repetindo os mesmos sentidos. Trata-se de um processo que tem sua materialidade na ordem do discurso ao julgar as posições enunciativas e a história, ambas inseparavelmente em movimento. E mais, tal movimento resulta da tensão entre o mesmo e o diferente, tensão que coloca a linguagem em funcionamento no processo de produção de sentidos (MARIANI, 1998). A possibilidade da falha é constitutiva desse processo, afetando, desse modo, os processos de produção, constituição e circulação dos sentidos na relação destes com os sujeitos.

O Lapso e o ato falho (falhas do ritual, bloqueio da ordem ideológica) bem que poderiam ter alguma coisa de muito preciso a ver com esse ponto sempre-já aí, essa origem não-detectável da resistência e da revolta: formas de aparição fugidas de alguma coisa ‘de uma outra ordem’, vitórias íntimas que, no tempo de um relâmpago, colocam em cheque a ideologia dominante tirando partido de seu desequilíbrio. (PÊCHEUX, 1988, p.82).

Para Pêcheux (1988), a resistência, em termos discursivos é a possibilidade de, ao se dizer outras palavras no lugar daquelas prováveis ou previsíveis, deslocar sentidos já esperados. A possibilidade da falha do equívoco, do deslocamento e do furo é constitutiva da base lingüística, afetando os processos discursivos em curso, “efeito em torno dos processos discursivos sobre a língua.” (PÊCHEUX, 1988, p.184). A “regularidade” de usos de expressões, historicamente marcados como óbvias, faz com que os sujeitos sejam levados a pensar (através da ideologia) que o que é dito é imutável.

É esse fato de toda seqüência pertencer necessariamente a uma função discursiva para que seja ‘dotada de sentido’ que se acha recalcado para o (ou pelo?) sujeito e recoberto para este último, pela ilusão de estar na fonte do sentido, sob a forma da retomada pelo sujeito de um sentido universal preexistente. (PÊCHEUX e FUCHS, 1990, p.169).

Assim, podemos inferir que, por mais que haja uma tentativa de apagamento de certos sentidos, eles jamais são ‘apagados’ ou ‘esquecidos’, mas trabalham sem descanso na pulsação do sentido/não sentido do sujeito dividido (GREGOLIN, 2004). Ou seja, não é possível a pagar completamente a produção de sentidos tidos como indesejáveis, visto que eles continuam a significar na tensão dada no contexto sócio-histórico. “Nesse processo não há um continuum e sim rupturas discursivas (sempre ideológicas) que, se não representam ou espelham, refazem as lutas sociais.” (FREITAS, 2004, p.17) . Dessa forma, mesmo o que foi apagado ou silenciado em um dado contexto dá-se a conhecer sob a forma de sentidos deslizados, deslocados, ditos de outro modo, inscritos nas margens de modo cifrado ou metafórico. E é justamente isso que queremos flagrar nas análises que se seguem.

 

Análise de dados: a memória fazendo sentido no literário

No livro que analisaremos, redigido por George Orwell em 1949, o autor relata uma sociedade totalitarista que teve como base de sua criação o socialismo; uma metáfora sobre o poder e as sociedades modernas. Nele é retratada uma sociedade onde o Estado é onipresente, com a capacidade de alterar a história e o idioma, de oprimir e torturar o povo, travando uma guerra sem fim, com o objetivo de manter a sua estrutura inabalada. Descontente com a situação vivida na época e adotando duras criticas ao nazi-facismo crescente na Europa, Orwell traça um paralelo entre ficção e realidade para mostrar como seria a sociedade num futuro a médio prazo governada da maneira socialista, marcada pela influência do fascismo.

O autor narra em terceira pessoa a história de Winston Smith, membro do partido dominante e funcionário do Ministério da Verdade (um órgão que cuida da informação pública do governo), cuja função é dar veracidade ao passado para sustentar mentiras contadas no presente pelo partido dominante, com o intuito de manter a população na ilusão de que sempre a vida havia sido daquela maneira. Isso tem relação com o que falamos anteriormente sobre o sentido dominante e institucionalizado.

O primeiro recorte relaciona-se com o modo como a narrativa discursiviza esse momento de oficialização de uma voz.

Tudo se fundia na névoa. O passado era raspado, esquecida a raspagem, e a mentira tornava-se verdade . (p.48)

Numa de suas abstrações sobre o apagamento dos gestos de interpretação, Winston, no trecho acima, recorda-se da memória silenciada e das suas muitas dúvidas a respeito do que, retomando Foucault (2005), podemos chamar de memória oficial. Como funcionário público da repartição denominada ironicamente como Ministério da Verdade, ele se vê impotente perante a coerção do discurso dominante, sem chances nem para se entregar de todo à ordem dessa formação ideológica, uma vez que o sujeito é interpelado pela ideologia para romper os sentidos cristalizados, dada a coerção dos aparelhos repressores do Estado ilustrados em 1984.

Notamos, assim, que o trecho acima fala da divisão do sujeito, o qual é incapaz de ser dono de seus dizeres mas é necessariamente atravessado por essa ilusão. Na posição-sujeito de “apagador” da memória social, Winston é assombrado pelo “duplipensar”, isto é, pelo lapso de origem obscura pelo qual entende as mentiras que ajuda a propagar em benefício da hegemonia do Partido, mas entende-as como não-dizíveis por causa da formação discursiva que determina o que deve ou não ser dito, relegando “camadas” de memória ao silenciamento para a manutenção do discurso dominante, cujo escopo é o banimento de um passado muitas vezes recente.

Não é de se estranhar, dessa forma, que essa voz repete umas três vezes a primeira frase do recorte acima (“tudo se fundia na névoa”) ao longo da obra. O sujeito dividido tem aí o agravante de ser causador ativo desse apagamento de regiões de sentido “indesejáveis” para o discurso dominante, sendo conduzido pelo efeito (necessariamente ilusório) de evidência a acreditar, paradoxo dos paradoxos, na “mentira” que ele mesmo contou. Esse efeito, todavia, não é sem conseqüências. Considerando que o sujeito não é dono de “sua” memória, atravessada pelo inconsciente com gestos de leitura heterogêneos sobre a história que lhe são estranhos, marcmaos que é lhe impossível estar fora do assujeitamento. Vemos aí porque Winston é assombrado pelos fantasmas dessa “névoa” envolvendo a memória oficial, a qual se funde sem equilíbrio com a falha na produção e circulação de sentidos; tais fantasmas são produtos de interpretações de resistência à ordem dominante que ele apagou em prol da sustentação de um já-dito institucionalizado como natural. A profecia de Guy Debord: “No mundo realmente invertido, a verdade é um momento do falso” (1997, p.16), encontra uma de suas representações mais incisivas aqui. Cabe lembrar que “verdade “ e “mentira” são marcas lingüísticas que fazem falar o modo como a ideologia possibilita um lugar de dizer para o sujeito.

Na formulação “O passado era raspado, esquecida a raspagem, e a mentira tornava-se verdade” temos a memória histórica como uma espécie de palimpsesto - suporte físico de escrita (geralmente pergaminho), no qual os significantes gravados eram literalmente raspados para que a mesma base servisse para novas gravações. Esse ritual, coordenado pelo contexto sócio-histórico e pela ideologia dominante e, por isso mesmo, mutável, é designado para apagar os sentidos não legitimados pelas instituições de controle, produzindo o efeito de evidência e, ao mesmo tempo, tirando dele ameaças à estabilidade dos dizeres ali inscritos.

Podemos notar esse desejo de apagamento de sentidos outros já pelo nome da instituição na qual trabalha o protagonista: Ministério da Verdade, o que faz falar a literalidade dos sentidos como produto da história (ORLANDI, 2003a), uma vez que a verdade não está fora do sujeito e dos aparelhos ideológicos do Estado, mas se materializa na circulação de sentidos repetidos e legitimados por seus órgãos da formação discursiva dominante, qual seja, a do Partido. Tal processo, porém, é esburacado; por isso, é o próprio Winston quem compartilha com o leitor, na aparente quietude de seus pensamentos, o efeito de memória oficial tratada como palimpsesto, inclusive porque ele mesmo, como já vimos, fala da posição-sujeito de operador desse processo. Esse apagamento dos gestos de leitura sobre a história inscreve a contra memória (FOUCAULT, 2005), uma vez que o escopo ideológico da formação discursiva dominante é o esquecimento dos sentidos não desejáveis. Em outras palavras: o efeito da simples lembrança desse processo é uma marca de resistência que o Partido não consegue (e nem teria como) controlar.

Percebes que o passado, a partir de ontem, foi abolido? Se sobrevive em algum lugar, é em alguns objetos sólidos, sem palavras ligadas a ele, como naquele pedaço de vidro. Já não sabemos quase nada sobre a Revolução e os anos anteriores à Revolução. Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todo livro reescrito, todo quadro repintado, toda estátua, rua e edifício rebatizado, toda data alterada. E o processo continua, dia a dia, minuto a minuto. A história parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão. Eu sei, naturalmente, que o passado é falsificado, mas jamais me seria possível prová-lo, mesmo sendo eu o autor da falsificação. Depois de feito o serviço, não sobram provas. A única prova está dentro da minha cabeça, e não sei com certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações. (p.97)

Neste recorte, um perplexo Winston Smith nota o desinteresse de sua amante Júlia pelos lapsos de memória causados pelo Partido e suas instituições sobre o passado recente da guerra com outros Estados. Orwell descreve, por exemplo, um pouco acima desse trecho, como Júlia aprendeu na escola que o avião foi inventado pelo Partido, o que nos leva à tese de Louis Althusser sobre a escola como aparelho ideológico de Estado. Vemos que a tensão entre a memória e a contra memória (FOUCAULT, 2005) dá-se pela materialização dos sentidos: daí a queixa (e, simultaneamente, a esperança) de Winston sobre a presumível, mas inalcançável, existência de “objetos sólidos” probatórios sobre o passado abolido. Olhando mais de perto, todavia, repara-se nessa evocação do tangível algo além da simples necessidade de romper com o silêncio.

De maneira conflituosa, percebemos o sujeito mergulhado no mesmo movimento de sentido de utilitarismo que lhe oprime e que ele parece censurar, mas que a ideologia dominante, da qual ele não consegue se desvencilhar no todo (e nem poderia), o captura para que sua tentativa de resistência se dê pelo mesmo modus operandi do sistema ao qual ele se opõe. Em outras palavras, o sujeito, esquecido em sua ilusão constitutiva, acredita ser dono de seus sentidos e interpretações quando, na verdade, até sua ruptura com o discurso dominante é ditada pelo assujeitamento ao dizer do outro. Por isso, Winston investe suas esperanças na existência de objetos tangíveis que sirvam para sustentar a região de sentidos tida como “legítima” apontada por ele como verdadeira e apagada pelo Partido. Assim, marcadamente, ele cai na armadilha do contexto sócio-histórico do qual sua constituição é indissociável: a ditadura do probatório, do ser A e automaticamente não ser B, do “certo” e do “errado”, promovida a largas doses pelo Partido, é justamente o meio pelo qual Winston tenta refutar o discurso dominante. Não percebe que, ao requerer provas na tentativa de defender o “livre-arbítrio” de se realizar outras leituras possíveis sobre o passado, instala a na necessidade de ver os sentidos como transparentes, bem como faz o Partido do qual ele se julga liberto.

Winston vai reiterar essa discrepância quando se diz autor das falsificações (“Eu sei, naturalmente, que o passado é falsificado, mas jamais me seria possível prová-lo, mesmo sendo eu o autor da falsificação”). Percebemos que ele se julga incapaz de provar a falsificação, ao mesmo tempo tomando sua consciência sobre essa falsificação naturalizada como óbvia. O conflito está, portanto, entre o saber e a insuficiência para provar, o que é, em última análise, a essência do chamado “duplipensar” - palavra que Orwell cunhou para designar o silenciamento dos sentidos não desejados pela formação discursiva dominante em 1984. Tal conflito, no caso desse recorte, estende-se e desliza pelos sentidos dados pela memória oficial, para a qual o “duplipensar” é necessário sob o pretexto de não deixar irromper discursos marginalizados, considerados corruptores da “verdade” autoproclamada pelo Partido.

Sem as provas institucionais, os sentidos legitimados não teriam como exercer sua coerção, apagando outros possíveis. Instalando essa política do silêncio (ORLANDI, 2007) via memória oficial, o discurso dominante controla não apenas os gestos de leitura da memória, mas também os mecanismos através dos quais ela poderia ser questionada (estes, como não poderia deixar de ser, são passíveis de governo por esse mesmo discurso hegemônico). Deste modo, apenas fazer circular sentidos de resistência não é suficiente furar o sistema em vigor, pois é necessário “provar” o apagamento que ele promove, fazendo uso das instituições que são controladas, paradoxalmente, pelo próprio Partido. Concomitantemente, o Partido investe na falsificação de objetos para fazer calar os sentidos que não estiverem apoiados em “provas”, dominando o campo pelo qual se dá a oposição ao seu discurso, perpetuando, assim, suas relações de produção. A frustração de Winston, refletida na última frase deste recorte (“A única prova está dentro da minha cabeça, e não sei com certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações”), é uma materialização dessa oposição num jogo de “cartas marcadas” pelo qual o sujeito enuncia jogando conforme as regras da interpretação ideológica, evocando uma ruptura que anda em círculos.

A Oceania estava em guerra com a Lestásia: a Oceania sempre estivera em guerra com a Lestásia. Grande parte da literatura política dos últimos cinco anos tornara-se completamente obsoleta. Relatórios e reportagens de todo gênero - jornais, livros, panfletos, filmes, faixas sonoras, fotografias - tudo precisava ser retificado com a velocidade do raio. Embora nenhuma ordem específica, sabia-se que os chefes do Departamento tencionavam que, dali a uma semana, não existisse em parte alguma qualquer referência à guerra com a Eurásia, ou à aliança com a Lestásia. O trabalho era estafante, e mais ainda porque o processo não podia ser chamado pelo seu legítimo nome. (p.115)

A primeira formulação da do recorte acima, “A Oceania estava em guerra com a X: a Oceania sempre estivera em guerra com a X”, é repetida várias vezes ao longo de 1984; todavia, isncrevendo sentidos sobre a guerra com a Lestásia, outrora com a Eurásia. Observamos aqui uma sátira repetida ad nauseum via instituições da memória oficial, “retificada” um sem número de vezes pelo Partido, e em todas elas requerendo o status de uma suposta “eternidade” para assegurar a permanência e a naturalização do efeito de guerra. Essa sátira marca a caricatura da imposição dos sentidos legitimados através das instituições portadoras da informação, como os arquivos e as bibliotecas, cujo escopo é veicular (ou impor?) ao sujeito-leitor a realidade e uma história como se fosse única, dado que nesses suportes, sonham os idealistas, passa-se o “conhecimento como ele é”, ou seja, instala-se a noção de um pretenso discurso sem sujeito, tão duramente criticado pela Análise do Discurso (ver, por exemplo, PÊCHEUX, 1990).

Não é de se estranhar o desejo do Partido em alterar não só os suportes do lingüístico (ou do verbal) nessas instituições, como também de filmes, sons e fotografias, supostamente mais “confiáveis” porque trariam em seu bojo menos interferência ideológica. Nessa esteira, observamos a repetição dos sentidos como principal alicerce da formação discursiva do Estado, levando o que não interessa ao ostracismo. Esse processo não ocorre de modo ingênuo, mas vai de encontro ao interesse da classe dominante: “Há, de maneira recorrente, a insistência e a repetição de sentidos dominantes, ideologicamente naturalizados e sintonizados com os interesses de uma classe, a saber, a classe detentora dos meios de produção, da terra, das corporações de mídia e do capital.” (ROMÃO, 2007, p.40).

Também chama nossa atenção o significante mobilizado para designar o novo status da literatura política relegada ao esquecimento: “obsoleta”. Ou seja, a discursividade sobre a memória da guerra contra a Eurásia é tratada como inútil, desprovida de uso para a formação discursiva dominante, a qual dita os sentidos literais por via de controle terminológico. São ecos do positivismo característico das Ciências da Informação, que visa o documento “neutro” sob o pretexto da “garantia de uso” para os consulentes - quando, na verdade, impõe os sentidos oficiais como os verdadeiros, sem levar em conta a ruptura sempre admissível, uma vez que a memória é passível de re-significação no conflito entre velho e novo inerente ao discurso.

Na distopia de 1984, portanto, os dois esquecimentos característicos do sujeito (PÊCHEUX, 1988), através do qual ele esquece ser parte de uma formação discursiva e dos outros sentidos possíveis para o que diz, atinge se apogeu em tom de humor negro. Pra fechar a sátira aí inscrita, temos o retorno do dizer do início, qual seja, “A Oceania estava em guerra com a X: a Oceania sempre estivera em guerra com a X.”. O próprio Winston repete, ao fim da tortura no Ministério do Amor, que a Oceania “sempre estivera em guerra com a Eurásia”.

O constante apagamento da memória capitaneado pelo Partido, considerando as condições de produção de 1984, pode referir-se ao despotismo stalinista que assolou a União Soviética no século XX, visto que os aliados de ontem poderiam tornar-se os inimigos de amanhã conforme o desejo da classe dominante. Nota-se, assim, porque uma das frases de ordem do partido é “quem controla o presente, controla o passado”. Discursivamente, vemos a re-significação do já-dito pela FD dominante, tomando a suposta nova região de sentidos por um efeito oficial, em nome da “coerência” de suas ações coercitivas, de um inimigo que esteve sempre-lá, apagando a heterogeneidade da memória para instalar um maniqueísmo que desvencilha questionamentos dentro dessa FD.

O passado existe concretamente, no espaço? Existe em alguma parte um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda acontece?

— Não.

— Então onde é que existe o passado, se é que existe?

— Nos registros. Está escrito.

— Nos registros. E em que mais?

— Na memória. Na memória dos homens. (p.156)

Já ao desfecho de 1984, o fragmento acima narra parte do conflito entre O’Brien, um agente secreto do Estado, e Winston Smith, o funcionário público rebelde. Nomeadamente, o que salta aos olhos aqui é a contradição entre o sujeito dividido, ansioso por romper com o apagamento histórico e a formação discursiva utilitarista propagada justamente por aqueles de quem ele se diz livre.

Na posição-sujeito de “delegado rebelde do Estado”, Winston confunde-se entre a permanência e a aversão em sua relação com a FD dominante da qual ele se julga alforriado, com marcas de sentidos em seu dizer contraditórias. O’Brien, ao contrário, traz consigo uma suposta monossemia típica dos que estão alinhados à FD majoritária, em tese sem ressalvas sobre o pragmatismo das pseudo-evidências codificadas pelo Partido que defende. Olhando mais de perto, entretanto, notamos que ele também é interpelado pela heterogeneidade e discursiviza também com marcas que trazem em seu bojo linhas de uma outra FD, sobretudo, na formação imaginária (ORLANDI, 2003a) entrevista em suas indagações para Winston, as quais revelam a contradição entre o ideal do “duplipensar” requerido pelo Partido e, simultaneamente, o reconhecimento de um discurso outro.

Comecemos com Winston: um pouco acima desse trecho, Orwell descreve a impotência do protagonista no embate com O’Brien porque não sabia quando responder sim ou não ao inquérito, no objetivo de defender sua postura marginalizada. A obra complementar de Guy Debord (1997), Comentários sobre a sociedade do espetáculo, nos mostra que a profecia de Orwell é condizente com a sua:

O indivíduo que foi marcado pelo pensamento espetacular empobrecido, mais do que por qualquer outro elemento de sua formação, coloca-se de antemão a serviço da ordem estabelecida, embora sua intenção subjetiva possa ser o oposto disso. Nos pontos essenciais, ele obedecerá à linguagem do espetáculo, a única que conhece, aquela que lhe ensinaram a falar. Ele pode querer repudiar essa retórica, mas vai usar a sintaxe dessa linguagem. Eis um dos aspectos mais importantes do sucesso obtido pela dominação espetacular. (op.cit., p.191).

Em outras palavras, o sujeito é impossibilitado de evadir-se do interdiscurso para enunciar, mesmo acreditando-se capaz disso (conforme nos diz o conceito de esquecimento nº 1). A grande armadilha evidenciada nesse recorte de 1984, por conseguinte, é o mecanismo através do qual a formação discursiva majoritária, tida como interpretação “literal” da realidade, impõe sua “sintaxe”, ou sua “linguagem”, para usar os termos de Debord. Por duas vezes, Winston é levado a responder nos moldes dessa FD, para a qual a pedra-de-toque no tocante à críticas sociais vem na materialização de provas e de respostas objetivas. Daí entendemos porque Winston responde “não”, quando indagado sobre a existência de objetos físicos “onde o passado ainda acontece”; mas, contradição das contradições, seu primeiro refúgio para a defesa de seus argumentos vem com referência à legitimidade que confere aos registros (“está escrito”, rebate o protagonista). É assim que a ideologia dominante captura o sujeito em um lugar de dizer, promovendo e cristalizando a ruptura de sentidos dá dados..

Assim, O’Brien não tem sua voz livre das contradições, embora atue a favor da monossemia que importa ao Partido. Através de um jogo de antecipações pelo qual o sujeito “prevê” o que será dito pelo outro, isto é, pela sua formação imaginária, O’Brien conduz o discurso em prol da FD dominante, já que faz as “perguntas certas” e fomenta no interlocutor as dúvidas legitimadas - que, por sua vez, levará às respostas esperadas, ao “já-lá” sobre o que significa ser opositor ao Partido. Assim, O’Brien antecipa o que poderia ser mobilizado pelo outro.

É por isso que O’Brien começa, nesse trecho, questionando Winston sobre a existência de objetos sólidos relativos ao passado apagado. Fazendo isso, o embate não se dá acerca dos gestos de leitura silenciados e do conflito íntimo de Winston, mas é dirigido para o campo da memória oficial (FOUCAULT, 2005), controlada de perto pelo Estado através de suas instituições. Dessa forma, O’Brien “joga em casa”, enquanto Winston, o estranho no ninho, anda em círculos ao tentar refutar o interlocutor utilizando justamente as regras que o mantem prisioneiro da FD dominante.

A contradição reside na antecipação de que o apagamento da história pode ser verdadeiro (“se é que existe”) e ao explicitar a necessidade de provas para o passado em questão (“O passado existe concretamente, no espaço?”), assumindo, por conseqüência, que o passado poderia existir de outro modo que não “no espaço”. Se o passado apagado pelo Partido fosse legítimo, simplesmente não haveria tais dúvidas! Ao delimitar a possibilidade de outras leituras, O’Brien abre espaço para o conflito, traindo a “essência” da FD dominante, a qual presume que essas possibilidades simplesmente não existem (ou não deviam existir). Por isso somos levados à vitória parcial de Winston nesse embate, ao reconhecer a existência do passado no intangível (“Na memória”) e a materialidade do discurso, ou seja, a memória como produto da luta de classes e do sujeito (“Na memória dos homens”), desvencilhando-se, ao menos nesse instante, da armadilha de O’Brien.

 

Considerações finais

Através das reflexões içadas e das análises feitas, entendemos como é possível realizar uma leitura densa de obras literárias levando em conta o discurso e a ideologia, algo especialmente notável num livro rico em alegorias políticas como 1984. A obra-prima de George Orwell faz falar a marca de suas condições de produção, evocando sentidos de resistência no auge do stalinismo ao chamado discurso autoritário (ORLANDI, 2003a), cuja sustentação, no universo de 1984, ocorre especialmente pelo silenciamento dos dizeres de resistência que visam romper com os sentidos cristalizados pela memória oficial institucionalizada pelo Estado.

Percebe-se que a memória não é uma estrutura fechada em si mesma, passível de interpretação “literal” da história, uma vez que tanto o Partido quanto a oposição (representada pelo protagonista Winston Smith) fazem dela um verdadeiro palimpsesto, re-interpretando os gestos de leitura sobre o já-dito em diversos pontos da narrativa. A diferença, contudo, reside no poder exercido pelo Partido por meio de seus aparelhos ideológicos que sustentam a formação discursiva dominante, calando os sentidos não-legitimados com o “duplipensar”. Esse conflito entre a região de sentidos cristalizada e os dizeres emergentes, no entanto, se dá de forma heterogênea, uma vez que o sujeito não é estanque nem monofônico, tal como sua formação discursiva.

Com essa leitura, enfim, observamos como a Análise do Discurso é um referencial teórico apropriado para estimular leituras menos ingênuas das obras literárias, pois leva em conta suas condições de produção, a ideologia que interpela o sujeito e dá voz aos sentidos marginalizados no discurso, para além de um efeito de literalidade do que o autor “quis dizer” com o livro, abrindo possibilidades de leituras polifônicas sem privilegiar o discurso oficial institucionalizado, muito embora interesse à AD pontuar essa interpretação majoritária e evidenciar seu efeito de coerção sobre os demais gestos de leitura possíveis (mas silenciados).

 

Referências bibliográficas

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* Aluna do Curso de Ciências da Informação e da Documentação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), bolsista Iniciação Científica Pró-Reitoria de Graduação - USP.

** Aluno do Curso de Ciências da Informação e da Documentação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), bolsista Iniciação Científica FAPESP (06/60566-4).

*** Profa. Dra. do Curso de Ciências da Informação e da Documentação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

 

© Cecília Monteiro Reame, Jonathan Raphael Bertassi da Silva y Lucília Maria Sousa Romão 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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