Consciência e comunicação

Luís Carlos Lopes


 

   
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Resumen: Este artigo explora, por meio do intercruzamento de conhecimentos de origens diferentes, as relações entre a comunicação e a formação da consciência humana. Busca um enfoque transdisciplinar, tratando o mesmo objeto - a consciência - do ponto de vista histórico natural e histórico social. O autor invoca conhecimentos vindos das neurociências, psicanálise, história, filosofia, sociologia e semiótica. O seu foco é o de tentar provar a conexão viva entre o funcionamento das consciências humanas e o conjunto do processo comunicacional. Procura demonstrar o forte impacto atual das novas mídias na formação do comportamento e na constituição das estruturas simbólicas de base do tempo presente. Percorre tempos diversos da história humana, querendo compreender a evolução do conhecimento do problema. Sua abordagem valoriza a importância dos signos e das confluências nem sempre percebidas entre ramos científicos bastante diversos. Sua postura é a de desejar e acreditar na possibilidade do aprimoramento das consciências das mulheres e dos homens contemporâneos.
Palabras clave: Consciencia, comunicación, teoría de la comunicación

 

Introdução

A consciência humana é um todo, biologicamente, indivisível. Baseia-se nas estruturas neurais que permitem sua existência. Sem estas, ela não é possível. Há muito, ainda, o que aprender sobre ela, do ponto de vista do funcionamento do cérebro e de sua interação com o corpo e o meio ambiente circundante. Estão disponíveis inúmeros estudos acadêmicos sobre o funcionamento cerebral. As neurociências avançaram consideravelmente nas últimas décadas. A consciência já não é mais um mistério de difícil interpretação. Sabe-se, hoje, muito mais do que puderam alcançar as obras de Freud e Reich, nas primeiras décadas do século XX. As obras de Damásio, Changeux, Sacks, dentre outros, aportam novo olhar sobre este velho problema. Este vem sendo motivo, desde a antiguidade clássica, de várias proposições, indagações e tentativas de compreensão. Com avanço disto, seria possível entender, em maior profundidade, o devir humano.

Houve, presentemente, uma mudança paradigmática muito significativa. Não é mais possível compreender a consciência sem considerar a fisiologia da atividade cerebral e neural. As interpretações mais antigas a entendiam mais pelos seus efeitos e, por não saber, desprezavam sua materialidade. Há quem insista acriticamente nos velhos paradigmas. Entretanto, os novos conhecimentos aportados pelas neurociências tornaram difícil a tarefa de quem os ignoram. A metafísica da consciência perdeu espaço, restando como uma espécie de nicho das religiosidades contemporâneas. As análises freudianas, bem como as de Reich e de outros, permanecem válidas como críticas das culturas humanas e pelos seus insights sobre os problemas da consciência humana. Entretanto, isoladamente não são capazes de produzir uma compreensão consistente do problema.

A existência destes novos paradigmas não exclui a possibilidade do exame crítico de suas consistências, nem mesmo a comparação e o confronto com os de antiga cepa. Não se pode aceitar que se estabeleça a propriedade privada das idéias ou de campos do saber. O intercruzamento de informações e conceitos é essencial para a difícil tarefa de uma maior proximidade do saber concreto. As visões transdisciplinares são um porto mais seguro para a pesquisa de temas complexos como o da consciência humana.

As antigas interpretações filosóficas do mesmo problema, sobretudo as de Platão e Aristóteles, não estão completamente superadas. Ler os antigos, por vezes, permite que se saiba mais sobre a natureza humana. Todavia, esta leitura não pode partir do pressuposto de que as respostas estão integralmente no passado de que os conhecimentos presentes são inteiramente dispensáveis. Feita esta ressalva, não há porque desprezar um conhecimento que vinha da observação direta, em sociedades bastante diferentes do que hoje se conhece. Nestas, os interesses eram outros, e a mediação entre o conhecimento e a realidade não se pautava nas mesmas injunções do tempo presente.

Existem vários usos da palavra consciência. Diz-se, por exemplo, que alguém é consciente porque está em estado de alerta e pronto para reagir ao ambiente externo. O mesmo termo é usado para definir quem compreende bem a situação que o envolve. A palavra alienado seria o seu antônimo, referindo-se a quem não consegue compreender o que o circunda. A loucura sempre foi entendida como a incapacidade de perceber o real e concreto. Teriam problemas mentais graves, os incapazes de usar a consciência de modo judicioso. Estas e outras definições têm suas aplicações. Neste texto, estuda-se o mesmo problema, visto como uma propriedade humana essencial, que difere estes seres dos demais animais que habitam a face da Terra. Não se confunde consciência com moral, até porque são múltiplas as opções morais disponíveis na vida social.

As fronteiras entre a consciência, o comportamento, a comunicação e a ação humana são tênues e, frequentemente, semânticas. Talvez, sejam modos distintos de se referir à mesma coisa. Quando se fala em consciência se está referindo ao modo como se compreende e se empreende o estar vivo e atuante. Usando a palavra comportamento, a referência correspondente é ao conjunto de normas e regras, traduzidas em atitudes usadas para agir. Falando de comunicação, quer-se dizer que se transmitem sinais (signos) verbais e não-verbais para os outros e para si próprio. A ação ou o agir resumiria tudo isto na práxis usada na cotidianidade, referenciada no passado e no presente.

O homem é o único animal que adquiriu a consciência de si mesmo e pôde, com ela, passar a agir para além de sua programação genética de sobrevivência. O mais provável é que as mudanças na estrutura genética humana e o alcance da possibilidade de se ter consciência tenham sido acidentais e aleatórias. Não existe um plano pré-estabelecido na ordem natural da vida. Algo ocorreu, acidentalmente, permitindo que fosse possível um maior desenvolvimento das capacidades cognitivas da espécie. Neste ponto, do qual cada vez se sabe mais, a história natural começou a se fundir com o devir social. Foram dadas as condições naturais para que o deslocamento da espécie humana das demais do reino animal se tornasse possível.

Como já apontaram vários filósofos e cientistas materialistas, desde o século XIX, o trabalho em todas as suas modalidades foi crucial para moldar o que se chama de consciência. Ao modificar a natureza, o ser humano passou a ser capaz de conseguir representar a si mesmo, aos demais e ao entorno biofísico. O gesto, a fala organizada, o desenho e a construção de armas, utensílios, vestimentas, moradias e outros objetos, a partir dos materiais orgânicos e inorgânicos, demarcaram a presença de uma atividade consciente. Bem mais tarde, a escrita e as artes possibilitaram a ampliação de suas possibilidades de memória, manutenção e difusão do saber acumulado.

Atualmente, as tecnologias da informação e da comunicação permitem ampliar enormemente o alcance dos meios sociobiológicos de se comunicar. Com elas pode-se ir além da escrita e da construção de objetos, como formas de registro e difusão, ampliando, consideravelmente, as possibilidades da consciência. O modo que estes recursos são usados consiste em outro problema. Na modernidade, quase tudo isto se fundiu nas denominadas mídias - meios de comunicação -, sejam técnicas ou humanas. Entretanto, as mais avançadas mídias técnicas, não fazem mais do que ampliar o que as humanas já faziam desde há muito. Somente como ilusão, elas superaram os antigos modos de comunicar desenvolvidos pela espécie, que nascem da consciência individual e coletiva.

Nas pinturas rupestres, evidenciam-se os primórdios desta assunção neurológica e social. O que se chama de consciência consiste na inerente capacidade de representar o mundo, de desenvolver uma subjetividade e comunicá-la de alguma forma. Estas representações consistem nos arquétipos da consciência, na forma mais elementar de seu desenvolvimento. Por isto, é bem provável que sejam anteriores à existência de uma linguagem mais estruturada. Há evidências de que as pinturas em rochedos e cavernas mais antigas são compatíveis à uma tecnologia primária e ao período onde a espécie dedicava-se à caça e à coleta como modos de sobrevivência.

A consciência humana, tal como se conhece atualmente, tem uma estrutura básica estabelecida há pelo menos vinte mil anos. O que nos separa deste passado é a história social. Consultando registros de antigas civilizações é fácil perceber que vários dos antigos problemas humanos, sobretudo, no que se refere às condições e características básicas da espécie, lembram vivamente os dilemas conhecidos e pretensamente atuais.

A capacidade de representar levou a de interpretar, dotando a consciência da propriedade de julgar o que representava, estabelecendo-se normas e conceitos cada vez mais abstratos. O poder de interpretar é uma das peculiaridades da espécie. O seu exercício depende de fatores histórico-sociais e culturais que podem estimulá-lo o reprimi-lo. Ele continua existindo em todos os seres humanos conscientes. Entretanto, o controle social pode determinar que ele seja impedido de funcionar. A livre interpretação sempre foi motivo de vigilância e de constrangimento. Isto porque interpretar subverte a ordem dita como natural e imutável e permite que se vejam os mesmos problemas de outros modos, além do habitual.

Os homens e mulheres de hoje não são mais inteligentes ou mais capazes do que os povos pré-colombianos, as antigas civilizações africanas, os chineses, os hindus, os egípcios, os fenícios, os gregos e os romanos. São bastante semelhantes no que se refere às suas estruturas profundas, fazendo parte da mesma família que habita o planeta Terra há milhares e milhares de anos. Eles têm a mesma estrutura neurológica, a mesma capacidade de trabalho, de aprender e de se comunicar.

A história afeta a consciência, a modificando, como um dos efeitos do trabalho e da ordenação sociocultural. Os resultados neurológicos destas mudanças são muito lentos e de maturação de longuíssimo prazo. Chegou-se a situação atual depois de mais de um milhão de anos de evolução. A história natural segue seu próprio curso e dentro de seu tempo específico. Talvez seja necessário muito tempo para que a espécie humana tenha padrões neurológicos muito diferentes do que hoje se conhecem. O mais provável é que os problemas humanos - são muitos - tenham que se resolver no atual nível de consciência possível de ser alcançado. A utopia de ficção científica de uma espécie de super-homens, com uma inteligência superior, pode ser lida como um subproduto das culturas autoritárias do século XX, que defenderam a eugenia e a idéia da existência de raças superiores e inferiores.

Na atual fase da modernidade, há um embate surdo entre as psicanálises e os aportes das neurociências. Sem sombra de dúvida, as segundas retiram do cenário as certezas apriorísticas das primeiras. O uso dos psicofármacos, por exemplo, vem demonstrando empiricamente que se pode modificar o comportamento de pessoas com problemas psiquiátricos, com ganhos substantivos para os pacientes, de modo muito rápido. É verdadeiro que não há, ainda, uma forma de impedir que as doenças psiquiátricas de origem genética deixem de vitimar os que as possuem. As drogas amenizam sintomas, porém não conseguem ‘curar’ os que sofrem de tais males crônicos.

Entretanto, a ‘cura’ psicanalítica se tornou refém da constatação que muitos dos problemas comportamentais eram bem mais derivados da química cerebral do que da cultura e da experiência vivencial de cada um. Por outro lado, os aportes das psicanálises, principalmente, da sua vertente teórica, como a de Zizek, manteve-se intocada e validável como uma hermenêutica profunda da condição humana. Para psicólogos, psicanalistas e psiquiatras o problema da relação dos seus pacientes com o entorno social continua sendo crucial. Estas afecções são individuais, todavia, seu desenvolvimento e as possibilidades de tratamento são problemas políticos da ordem social onde elas surgem.

Os efeitos do meio ambiente sociocultural sobre a consciência continuam sendo um vetor fundamental para a compreensão da espécie. Todavia, já não é mais possível vê-los sem considerar a existência das estruturas neurais que suportam a compreensão de si mesmo. A hermenêutica da cultura continua sendo uma âncora de entendimento dos problemas humanos. Seu aprofundamento é essencial para a tomada de decisões sobre a realidade circundante. Entretanto, atualmente, uma teoria da comunicação, entendida como teoria do comportamento, do agir, como Habermas postulou, não pode esquecer as bases materiais do que é comunicado. Elas estão fortemente vinculadas às características neurais da espécie.

Nos limites atuais do conhecimento, já se pode avançar para além da velha idéia da tabula rasa, afirmada pelos iluministas do século XVIII. Não é mais possível acreditar que o meio ambiente seja o único formador da consciência humana. Se o ser humano não é um livro em branco, também não é verdadeiro que sua consciência se estabeleça sem qualquer interface com o meio externo. Sua constituição é resultado da interação entre sua natureza biológica e seu pertencimento aos tecidos sociais e culturais. O homem é, ao mesmo tempo, um ser neural e um resultado de sua complexa história de relações com tudo o que o envolve. A história não só preside a vida material, como fundamenta igualmente a construção da consciência.

Os seres humanos, do ponto de vista coletivo e individual, portam culturas e tradições. Todavia, eles são diferentes entre si, na mesma comunidade, podendo desenvolver visões próprias e abordagens específicas, apesar de estarem submetidos à mesma ordem política e sociocultural. As mesmas condições gerais de vida criam padrões de comportamento similares, entretanto, são possíveis imensas variações. Destas, infere-se as diferenças neurais, combinadas com as derivadas da vida social e do entorno político e cultural. Dentro da mesma classe ou grupo social, são possíveis de se encontrar comportamentos distintos que revelam individualidades constituídas por características neurais específicas.

Em situações extremas, isto se mantém. Usando como exemplo a época da escravidão brasileira, nesta, grosso modo, alguns escravos se resignavam frente à violência da situação que lhes era imposta; enquanto outros optavam pela fuga e a rebelião; ainda outros, viam no suicídio uma solução para suas duras vidas. Portanto, exercitavam-se estas e muitas outras opções comportamentais. Elas se baseavam na consciência possível de que a situação de ser escravo possibilitava. Esta refletia o meio ambiente da época e seus efeitos nos homens e mulheres transformados em cativos. As formas que usavam para se comunicar eram fortemente baseadas nas situações vivenciadas.

A comunicação humana é uma prática consciente, no sentido de ser algo que provém diretamente da atividade neural. Todavia, esta mesma atividade projeta para fora e para dentro, aspectos do inconsciente de cada grupamento humano e da subjetividade de cada indivíduo. A espécie se comunica desde tempos imemoriais, a partir de como entende o mundo que a rodeia. Entendê-lo é algo complexo e vai além da presença de uma consciência ativa. A complexidade da organização sociocultural é espelhada pelo modo que a comunicação humana se dá e se desenvolve.

Não se confunde razão com consciência e nem pensamento com comunicação ordinária. Os padrões positivos ou negativos de racionalidade são vinculados ao contexto histórico onde a comunicação é realizada. Nem tudo o que se comunica provém do pensamento, isto porque a atividade cerebral não se restringe a construção complexa destes. Eles são usados para a solução de alguns problemas humanos. Na cotidianidade, nem sempre se pensa para decidir. Por vezes, só é necessário ou imposto apenas o ato de repetir o que é recebido sem maiores reflexões. A relação das audiências com a publicidade, em um exemplo, pouco tem a ver com estruturas de pensamento complexas. Se tivesse, certamente a publicidade, nos moldes que se conhece, não funcionaria.

O pensamento seria uma conquista mais avançada do ato de ser consciente. Consistiria na capacidade de ordenar as informações e os conceitos adquiridos em um novo patamar para além da sua simples repetição. Existe pensamento, em uma visão de origem fenomenológica, quando o processamento mental usa de muitas variáveis e consegue construir interpretações sofisticadas do entorno e das abstrações feitas sobre o real e o concreto. Pensar significaria interpretar, portar e resolver dúvidas, propor soluções, discutir em profundidade os problemas, julgar a partir de dados recolhidos no real, em suma, usar a atividade cerebral em toda a sua potencialidade (MERLEAU-PONTY, 1999).

Não se pode chamar de pensamento estruturas simples de respostas codificadas e usadas trivialmente. As estruturas complexas geradas criariam, igualmente, formas e conteúdos comunicacionais bem mais sofisticados, tais como os que vemos nas ciências e nas artes. Quando se está consumindo alguma das mídias do nosso tempo, não necessariamente se está pensando. Ao contrário, a catarse midiática pode chegar a paralisar e impedir que as audiências desenvolvam reflexões sobre o que vêem ou escutam. Há construções midiáticas feitas exatamente para não dar qualquer chance ao desenvolvimento do raciocínio. As fortemente apoiadas na emoção, no escândalo e no exagero impedem, de modo fragrante, qualquer esforço reflexivo. Este só pode ser feito a partir da crítica contundente destas construções.

Quando se estudam os vestígios arqueológicos de antigas civilizações, buscam-se neles compreender os nexos de suas existências gravados nos objetos que produziram ou nos sinais deixados no espaço físico onde se localizaram. Neles, estão cristalizados os modos usados pelos seus membros para se comunicar entre si, inclusive os relativos à comunicação intrapsíquica. Eles revelam igualmente como era o comportamento, as crenças e práticas dos que os produziram. Consultando os documentos e intervenções nos ambientes das presentes civilizações encontram-se registros dos mesmos problemas.

As consciências dos homens e das mulheres do tempo que corre estão nos cérebros dos vivos. Também é refletida como um espelho turvo e imperfeito em tudo que se produz ou se altera pelo trabalho humano. A dos mortos persiste na memória oral e nos registros deixados pelos que se foram. A interação disto, que inclui redes neurais, objetos, relações sociais e registros de várias espécies, forma a consciência contemporânea que se ampliou e se tornou bem mais complexa do que no passado. Grande parte desta complexidade é diagnosticável pela presença das mídias técnicas como um dos elementos centrais de sua formação, no mundo atual.

A intersubjetividade que caracteriza a espécie humana, isto é, o costume de trocar impressões entre os membros de uma comunidade permanece vivo, porém, alterado pela influência das grandes mídias. O resultado disto é uma subjetividade que é construída pelos próximos, bem como por seres distantes, não raro, imaginários, que povoam o universo midiático. As mentes contemporâneas convivem com representações múltiplas, próximas e longínquas de suas vidas efetivas. A validação das certezas tornou-se bem mais complexa e dependente de inúmeras autoridades reais e simbólicas.

O sentido de existência das comunidades já não é mais o mesmo. Podem ser as tradicionais formadas pelas famílias, amigos de bairro, colegas de estudo, vizinhos, partisans de uma mesma causa política, torcedores de um time de futebol, colegas de trabalho e de estudo, irmãos na fé desposada etc. Hoje, sobretudo via Internet, vem se construindo novos tipos de comunidades, por vezes, absolutamente virtuais, isto é, sem qualquer contato físico entre as partes, ou ainda, mistas, onde o contato virtual é acompanhado pelo encontro real e concreto. O uso das mídias de massa alterou, igualmente, o sentido das comunidades tradicionais.

A virtualização de algumas comunidades cresce no momento que as reais e concretas estão em crise, cada vez mais profunda. Isto tem imensas implicações na formação das consciências, que não navegam mais em território sólido. As suas gaseificações são evidentes. Homens e mulheres atuais precisam aprender a navegar entre o virtual e o concreto e vice-versa. Não raro, eles confundem ambos e perdem a noção das coisas, aumentando os seus níveis de alienação. Esta pode ser política, social, cultural, profissional, afetiva etc. Significa a construção de consciências pouco capazes de intervir na realidade de qual fazem parte. Tendem a ser pessoas cujas atitudes são frequentemente de repetição e de submissão a uma ordem simbólica e material que não compreendem, mas que dirige suas vidas, dominando suas consciências.

A ordem do consumo, na atual fase do capitalismo, transforma as consciências em novas mercadorias simbólicas (BAUMAN, 2008). Ao querer adquirir imperiosamente o que é oferecido pela publicidade e ratificado pelas redes intersubjetivas, as consciências se confundem com as mercadorias que consubstanciam estes desejos. Tornam-se reféns do consumo e simbolizam algo que é externo a elas, mas, profundamente enraizado nas suas essências. O consumismo é mais do que um modismo, consistindo em uma forma de encarar a vida e de fazer funcionar os cérebros como espelhos turvos das atividades comerciais, subsumindo o mundo tal como ele fosse composto exclusivamente por mercadorias. O tipo de consciência resultante é bastante similar às mercadorias estocadas ou expostas, funcionando no sentido inverso de suas potencialidades humanas.

O culto às mídias [1], isto é, a devoção aos seus principais artefatos ganhou especial destaque nesta fase da modernidade. Esta nova religião, por definição incompleta e informal, tem uma forte presença nas consciências contemporâneas. O mundo é validado pelas personas midiáticas, pelas vozes dos telejornais e do rádio, pelos enredos das telenovelas [2] e outros artefatos dramatúrgicos etc. Mas, para tal, é preciso que o tecido social a que se pertence aceite este credo e lhe dê legitimidade. Como nas antigas religiões de massa, é preciso que exista o consenso social hegemônico.

As novas religiões evangélicas, neopentecostais, já foram desenvolvidas nesta etapa de elevado nível de midiatização. Por isso, para elas é fundamental a retroalimentação das mídias técnicas que as tornam mais fortes e mais viáveis, na tentativa de arrebanhar novas consciências. As relações entre a sociedade, as mídias e a consciência individual e coletiva criaram uma nova intermediação. Nas velhas religiões, estas relações se davam de modo mais direto, entre suas estruturas, o tecido social e as ovelhas a serem arrebanhadas. À busca do tempo perdido, estas tentam usar o mesmo esquema de poder comunicativo, antes visto como desnecessário ou mesmo imoral. Ao fazer isto, como se vê no movimento carismático, a velha Igreja Católica aproxima-se do novo padrão materialista pragmático das novas igrejas. A antiga transcendência entre o homem e deus deixa de ser um problema central das consciências humanas voltadas para a adoração de uma divindade central e única.

O velho fanatismo religioso ganhou imenso espaço na atual fase da modernidade. Religiões vêm sido relidas e transformadas em cultos fanáticos, aparentemente fora de tópico na presente realidade. As consciências fortemente tocadas pela religião servem de base para ações políticas radicais de Estados e por grupos e indivíduos que lutam pelo que consideram como seus direitos. O fanatismo está ligado às guerras ou às situações onde se vivem graves problemas sociais, econômicos e culturais. Este tipo de consciência impõe-se como alternativa e também como pretensa saída ou solução. O irracionalismo cresceu bem mais do existia antes do Iluminismo. Em alguns momentos, parece que se volta de modo trágico a crenças radicais do passado, onde, por vezes, não havia ou era difícil pensar de outro jeito.

O fanatismo político do século passado, expresso em doutrinas radicais, tais como o nazismo, fascismo, o estalinismo e o maoísmo, teve uma raiz próxima às das religiões. Todavia, seus enfoques se basearam nas tradições culturais mais profundas e sempre conservadoras, cultivadas nos países onde se desenvolveu. A estratégia adotada foi a da comoção pública, a partir da exacerbação de preconceitos que já existiam nessas sociedades. Estes, organizados sistematicamente, serviram para doutrinar consciências e adestrar pessoas como se fossem cães, prontas para matar, torturar, destruir e dominar quem não obedecesse à nova ordem. A emoção consistiu na pedra de toque usada pelos propagandistas e organizadores nos países onde estas idéias prosperaram em suas diversas variações nacionais e temporais. Ainda hoje, restos desta história se manifestam no presente, principalmente, na suas formas mais líquidas, isto é, mais disfarçadas e escorregadias.

O cientificismo, isto é, a transformação do pensamento científico em religião, já é conhecido de há muito. A ciência pós-Renascimento, marcada pela ordenação de seu método feita por Galileu e outros, sempre foi objeto de fácil transformação em crença, em um processo similar ao das religiões. Muito facilmente, em nome da verdade e contra as religiões tradicionais, levanta-se uma nova, que representaria o ápice do conhecimento humano. A dogmatização sistemática e a excessiva simplificação das idéias científicas, muito popular nos meios de comunicação de massa, foi o objeto também da criação de uma corrente filosófica, o positivismo, ainda na primeira metade do século XIX. A partir daí, vários conhecimentos foram ossificados e transformados nas últimas verdades inquestionáveis. Várias versões e desdobramentos desta corrente de pensamento mantêm até hoje esta mesma tendência, existente, por exemplo, nos modismos universitários ou nas imposições derivadas do mercado editorial. A problemática versão pragmática e neopositivista contemporânea do problema da consciência é claramente exposta em Searle (1997).

O fim necessário da filosofia como matriz do saber e sua substituição pelas especialidades, fez-se perder o todo e confundiu-se facilmente técnica e religião com ciência, no sentido matricial dado a esta por Galileu. No mundo atual, as consciências são atingidas por uma torrente de idéias que se apresentam como científicas, mas que não usam o método, e não procuram, por meio da discussão desarmada, buscar as verdades possíveis. Por outro lado, não é possível recuperar o velho lugar da filosofia, por efeito da impossibilidade histórica, criada pelo enorme crescimento do saber humano, tal como indica Habermas (1989).

Nada impede que, por meio da crítica transdisciplinar, faça-se a reconstituição do saber e a construção de conhecimentos que atravessem a barreira imposta pela disciplinaridade. Nesta operação, se valida o conhecimento, a partir da comparação e do exame das fontes usadas para construí-lo. Não se quer criar uma nova disciplina e sim extrair das existentes o que elas podem fornecer para a elucidação de problemas. Liberta-se o conhecimento das amarras da especialização.

 

Os níveis da consciência e a comunicação

Não há dúvida de que a consciência é um todo. Entretanto, desde a antiguidade clássica, buscou-se dividi-la para melhor compreendê-la. Estas divisões acentuaram e descreveram alguns de seus efeitos visíveis e foram, por vezes, responsáveis por visões compartimentadas do problema. Quando se fala em consciência, está-se referindo ao modo como se compreende e, possivelmente, representa e interpreta o entorno e a si próprio. Uma das dimensões da complexidade da mesma questão é que isto é realizado individualmente e coletivamente. Convivem de modo indissociável a subjetividade e a intersubjetividade. Na consciência individual, atuam elementos do que existe na coletiva. Ao se relacionar com os demais, cada homem e cada mulher constrói sua subjetividade dialogando com os outros e consigo próprio. As trocas intersubjetivas consistem em fatos concretos e fundamentais relativos à condição humana.

A assunção da consciência implica a produção de discurso, de signos, ou de algo que comunique ao outro ou a si mesmo a representação mental ou física que se fez ou se está fazendo. Não há consciência nos seres que não produzam e armazenem signos de modo complexo. A fala, a fabricação artificial da imagem e do som e, mais recentemente, a escrita separam a humanidade do reino animal de onde veio. Estes discursos têm que ser inteligíveis e comunicarem ao outro algo de importância para o produtor e o receptor. Servem para orientar a vida subjetiva e objetiva, construindo a ordem sócio-simbólica de uma comunidade representada e tornada funcional pelos signos de uso corrente e os acumulados como memória coletiva e individual.

Em Platão, a consciência foi compreendida através da forma que seu uso adquire na cotidianidade. E esta se refere, principalmente, à comunicação que os homens estabelecem entre si. O diálogo interior e exterior platônico era, sobretudo, abstrato e filosófico. Isto é, ele acreditava que através do julgamento ético-moral poder-se-ia compreender e validar melhor os conteúdos das trocas comunicacionais. Percebeu, todavia, que a episteme filosófica não chegava a todos e que o mais recorrente era a doxa, isto é, a opinião comum usada como critério de verdade. Nesta, o limite do conhecimento era os dos consensos pré-existentes.

Da doxa, os retóricos tirariam sua força. A retórica [3] seria constituída daquilo que as pessoas já teriam em suas consciências. Seria um exercício de repetição e validação dos consensos sociomorais, com pouca abertura, ou nenhuma, para a compreensão crítica - epistêmica - do entorno e dos problemas postos pela inteligência. O que assustava o célebre filósofo grego, como se pode ver, por exemplo, nos diálogos do Górgias, era a inexistência de ética neste modo de articular a consciência.

A retórica não deve ser confundida com a doxa, mesmo tendo nela sua principal origem. As crenças mágicas e míticas consistem em outros de seus elementos. O conteúdo do discurso retórico apóia-se fortemente na opinião comum, como estratégia de convencimento. A eloqüência de sua forma tem mais a ver com o mundo de certezas apocalípticas do discurso mítico-religioso. Em suma, ser retórico é falar o que já se sabe, envolvendo o discurso em um formato que leve à aceitação do que é dito sem qualquer contestação. O retórico não é exatamente um pregador, profeta ou responsável pela manutenção das crenças, mas parece com estas figuras, por arrogar-se como portador de uma verdade inquestionável.

A consciência do retórico profissional é de natureza especial. Ele precisa ser alguém treinado para mentir, manipular e falar o que se espera, corrigindo possíveis dúvidas ou distorções que sejam frutos da inteligência das audiências. Esta consciência disseminada pelo profissional chega ao tecido social, normalizando as pseudoverdades retóricas. Tudo isto é muito antigo. Estava já estabelecido há 2.500 anos na Grécia. Talvez, seja ainda mais velho do que se pensa. Originou-se da construção de sociedade baseadas na diferença e na propriedade, onde foi necessário que homens domesticassem membros da própria espécie, através da palavra como aliada a inúmeras formas de violência simbólica e concreta.

Não é exagero dizer que a retórica é uma das faces da consciência humana, no que se refere ao modo que funciona a comunicação intersubjetiva de pessoas, grupos e classes. A continuação de seu uso político, desenvolvido pelos estados nacionais e pelas sociedades contemporâneas indica sua longa permanência e incorporação à dita natureza humana. Seus elementos psicológicos, tais como a mentira e a manipulação e suas conseqüências na alienação coletiva e individual, são componentes das consciências atuais, tal como o eram no passado. Podem ser patológicos, manifestando doenças mentais específicas ou, ainda, serem práticas absolutamente acreditadas como normais em sociedades conflagradas pelas diferenças e pela violência da ordem que as organiza.

Platão acreditava, igualmente, que o homem poderia chegar, por meio do diálogo, a uma consciência formatada na ética e na intercompreensão. Para tal, ele deveria ser educado para discutir os problemas sem preconceitos apriorísticos e com o objetivo de aproximar ao máximo da possibilidade de compreender o mundo que o cercava. A consciência epistêmica do filósofo, amplamente demonstrada no Górgias, contrapunha-se aos ideais de manipulação dos sofistas e dos retóricos. Desejava que o discurso do poder não dominasse o pensamento e a comunicação de seu tempo. Este ideal permanece válido, ainda mais, constatando-se a forte sobrevivência atual da retórica como forma de dominação. O pensador percebia que existia a possibilidade de alcançar um modo diverso de articular a comunicação, mesmo que sentisse a forte influência dos retóricos nos mecanismos políticos e sociais da época.

Aristóteles foi além das preocupações de Platão, escrevendo um livro específico sobre a retórica [4], uma espécie de manual que serviu de base ao ensinamento desta arte por séculos. Nele, foram claramente estabelecidas as possibilidades da consciência humana, vistas a partir do que se podia esperar e o que se podia fazer para melhorar a comunicação entre os homens. Os diversos manuais que se seguiram reproduziram o essencial do discurso aristotélico, adaptando-o a cada circunstância e lugar onde foram escritos. A velha retórica atravessou mais de dois milênios, sem maiores problemas. Foi, durante todo este tempo, considerada como disciplina essencial e ensinada em espaços acadêmicos diversos. Conhecer a retórica foi visto, em sua época, como um sinal de distinção intelectual.

O filósofo grego dividiu as possibilidades do discurso, grosso modo da consciência, em três vetores que deveriam se combinar ou se afastar: o logos, o páthos e o ethos. Ele percebeu que o discurso poderia provir da razão, da emoção e do gosto e conter ou não padrões éticos. Achava que a retórica deveria ser ensinada como lógica, isto é, como a construção de discursos logocentrados. Aceitava o páthos como uma imposição divina, sobrenatural e própria dos seres humanos. Entendia o ethos de modo similar. Para o sábio, a ética vinha de uma capacidade natural das pessoas, que teriam determinadas características, ditadas por forças celestiais. Acreditava que através do logos, a comunicação humana se daria com maior qualidade e efetividade. Disto, chegou às suas conclusões sobre a necessidade de se ensinar a construção do discurso.

Esta construção, proposta por Aristóteles, baseava-se na idéia da existência de um pensamento sofisticado, para além da arte da manipulação dos sofistas. Nisto, havia acordo com o seu predecessor, Platão, apesar do maior idealismo deste último. Para o primeiro, é necessário pensar para produzir discursos logocentrados, chegar ao ponto de balanceá-los para evitar que o logos leve a esquecer as determinações do ethos e do páthos. O filósofo realista, do apogeu do mundo grego, produziu um roteiro bastante consistente da arte da fala e da escrita, nos limites do conhecimento de sua época. Sua proposição continua sendo útil para se compreenda melhor os discursos, bem como para se aprender a formular e expor idéias de modo claro e convincente, sem o uso de artifícios impositivos.

A partir do século XVIII, a arte retórica [5] foi seriamente questionada e mesmo abandonada pela alta cultura, acusada de fazer refulgir o formalismo e o discurso impositivo. O uso desta palavra foi marcado pela constatação da articulação da mentira e da arte de manipular. Na baixa cultura, o uso da retórica jamais foi abalado. Na oralidade e no uso mais simplificado da língua escrita, o hábito de usar o discurso de modo manipulatório continuou a ser uma prática da vida política e social. O ensino da retórica foi gradualmente extinto. Entretanto, seu uso social manteve-se vivo, sem interrupção, e sem mais precisar do código acadêmico para existir. Basta consultar seu ininterrupto e farto uso nas mídias, na prática do Direito, na vida política, nas relações interpessoais etc. Na forma de paradoxo, o discurso retórico jamais foi absolutamente estranho ao dito científico.

O ressurgimento atual da retórica, enquanto disciplina do saber, precisa, em função destes fatos, ter muito cuidado com dois de seus principais e antiqüíssimos problemas. O primeiro refere-se às mil e uma formas que o discurso assume, tentando manipular e forjar consciências de acordo com interesse do poder que representa. O segundo é o da necessidade de normas técnicas bem fundadas para se obter um discurso compreensível e inteligível, sem qualquer descompasso ético ou interesse de se evitar que as verdades possíveis sejam conhecidas.

Consciências forjadas pelo uso sistemático da retórica como técnica de persuasão continuam sendo um problema atual, mais importante do que a construção da mente pelo sentimento religioso. Neste mundo, onde predomina a urbes, o materialismo pragmático e a razão instrumental, a consciência retórica ocupar lugar proeminente frente à velha consciência dominada pelas religiões. Obviamente, que a manipulação de origem religiosa tem o seu lugar de destaque. Mas, na atual fase da modernidade, só consegue funcionar articulada aos signos que sustentam às atuais ordens sócio-simbólicas. Nos meios técnicos de comunicação a retórica materialista e pragmática voltada para o consumo e a submissão está muito mais presente do que o sentimento religioso do mundo.

 

Consciência, neurociências, semiótica e modernidade

O conceito de consciência da modernidade foi montado, inicialmente, pelo princípio cartesiano de separar a emoção da razão e da superestimação da importância desta última. O racionalismo ocidental implicou na idéia de que tudo que provinha da emoção era secundário frente à importância da construção racional. Mesmo em autores atuais, que escreveram sobre a consciência, tal como Habermas [6], este princípio ainda se mantém. De certo modo, o fato da psicanálise ter se ocupado das paixões humanas, vistas quase sempre como desvios da razão, facilitou o ato de se inflar a idéia de um homem racional possível, que colocasse a emoção sobre controle estrito da razão.

Freud, ao propor a existência do inconsciente, demonstrou que a mente humana era afetada por forças que não se manifestavam necessariamente de modo conhecido. Elas seriam originadas em pulsões sexuais e emocionais próprias da espécie. O sábio alemão acreditou que atingir o inconsciente, em profundidade, seria o modo de compreender melhor os problemas da consciência. A análise que propôs, baseava-se fundamentalmente na revelação do que haveria se encoberto e pouco decifrado. Pensava que seria capaz de resolver enigmas, melhorar ou curar pacientes afetados com problemas e, ainda, levar a uma maior compreensão da história. [7]

As neurociências, ao dizerem que emoção e razão se equivaleriam no plano neurológico [8], vêm ajudando que se opere uma mudança na direção de uma razão sensível. O que se decidiria, pretensamente, de modo racional estrito estaria, de fato, fortemente baseado em motivos emocionais. De certo modo, os neurologistas confirmam, no seu domínio de conhecimento, o que se sabia com os estudos psicanalíticos e a filosofia de Aristóteles. A emoção tem forte influência na estruturação da consciência humana. Trata-se do seu grito primal, de onde tudo se originou. O que realmente importa é como impedir que ela seja pervertida e prostituída, como se vêem nas mídias do tempo presente.

Os artistas sempre souberam do valor da emoção e do gosto, jamais abandonaram a sensibilidade, mesmo quando foram absolutamente racionais, com exceção dos que traíram suas origens e se adaptaram a retórica do poder. Talvez, por isso, seja possível ver na obra de arte de qualidade, erudita ou popular, antecipações bastante eficientes do conhecimento racional. Nela, é possível encontrar análises que foram muito além da superfície dos fatos e chegaram aos intestinos da realidade. Entretanto, na arte alienada e desprovida de sentido crítico é impossível ver algo parecido, a não ser nos interstícios do pastiche e na reversão analítica da falsificação.

Na mesma senda, o desenvolvimento imenso da genética, especialmente, a montagem do mapa do genoma humano, tem colaborado com a idéia de uma mente criada, em parte, pela herança biológica das linhagens que a originaram. A consciência seria um resultado desta, somada à experiência sócio-histórica individual e coletiva. Com isto, se passaria a ver, em perspectiva, o problema da teoria iluminista da consciência compreendida como um livro em branco, onde a sociedade escreveria a história.

Damásio propôs uma das divisões conhecidas da consciência do ponto de vista neural. Segundo o mesmo autor, a consciência é montada pela rede que se espalha pelo corpo e se interliga ao cérebro. O seu primeiro nível hipotético seria o proto-self representado pela integração desta rede com algum objeto narrado intersubjetivamente de modo não-verbal, imagético e fruto exclusivo do sentimento, da emoção. Ser-se-ia consciente, ainda de modo incompleto e pouco perceptível, de algo que conseguiu impressionar e ativar a sensibilidade de nossa rede neural. O segundo nível seria o do self central, ainda transitório, onde se vivencia e se incorpora à mente, conscientemente, o que foi captado inicialmente pelo proto-self. O terceiro seria o do self autobiográfico composto da incorporação, enquanto memória, das experiências vivenciadas. Estas deixariam traços vivos e presentes nas redes neurais.

Na concepção do funcionamento da consciência humana, desenvolvida pelo mesmo neurocientista, o primeiro nível passaria despercebido, sendo praticamente inconsciente. No segundo e no terceiro a percepção do que estaria ocorrendo já seria existente e fortemente ativa. Para ele, esse processo seria constante e mutante, isto é, os vários níveis do self estariam sempre se modificando e atualizando imagens abstratas provenientes do exterior e do interior do corpo. Haveria uma base fixa, que chamou de memória autobiográfica, e a fluidez constante e infinita do funcionamento da consciência dos seres vivos. Os seres humanos estariam condenados a conviver para sempre com as experiências de suas vidas, mesmo que as entendessem racionalmente e selecionassem o que quisessem se lembrar ou se esquecer.

O self central estaria no comando de todo o processo, podendo haver, por razões patológicas, a perda de contato com o autobiográfico, que não consegue ser ativado sem o primeiro. A perda de conexão possível explicaria porque podemos estar absolutamente conscientes sem lembrar-se de onde se veio e o que se é. Seriam neste mesmo self que se processariam os julgamentos e as ordens decisórias do que se deve fazer. Para tomá-las e executá-las, a rede procuraria informações no autobiográfico e estaria recebendo constantemente estímulos no proto-self. Este sistema teria uma arquitetura aberta em funcionamento no mundo dos vivos.

As hipóteses de Damásio demonstram a forte existência da comunicação intrapsíquica e o fato de que se vê o mundo a partir do se é, como pensava Merleau-Ponty, e não ao contrário. A coleta de informações externas, do meio circundante, realizada pela força do proto-self do neurocientista, indica que é possível interferir fortemente na memória das pessoas, fazendo que compreendam o mundo a partir dos interesses de dominação ou de esclarecimento. Como ele funciona como uma antena que capta tudo, sem filtrar o que recebe, não é difícil compreender as facilidades de convencer através da franca e contínua exposição emocional às informações e conceitos que se quer difundir. Assim como, se podem embotar consciências, é possível contribuir para uma maior limpidez, por meio do estímulo comunicacional vindo de fora dos corpos humanos.

A importância seminal da emoção, destacada pelo mesmo neurocientista, chama a atenção para a importância da mesma no processo de formação da consciência. Ilumina o fato conhecido de uma recepção bastante eficiente por enfatizar gostos, afetos e dores no processo da comunicação. Lembra, indiretamente, que o páthos aristotélico, isto é, a percepção do filósofo de que a comunicação ganha força especial com o seu uso. Demonstra que o abuso do uso dos sentimentos tem grande chance de convencer por tocar em algo muito antigo e essencial na constituição da consciência. Permite compreender que consciências organizadas fundamentalmente pela emoção não têm como resultar em selfs autobiográficos mais racionais. Indica, por dedução, que a emoção precisa ser secundada pela razão e vice-versa, na busca da construção de consciências mais livres e responsáveis.

Acreditando-se nas possibilidades das hipóteses traçadas por Damásio, poder-se-ia dizer seguindo a semiótica de Bakhtin, que as consciências, desde o início de suas formações, resultam da formação de signos captados e trabalhados pela atividade neural humana. Damásio insiste no caráter não-verbal, imagético, do material trabalhado. Bakhtin não nega a importância do não-verbal, mas traça sua teoria a partir da palavra, colocando como é comum entre os lingüistas, a imagem em um plano secundário. Se o lingüista russo está certo, a produção da consciência é um resultado do acúmulo e do tratamento dos signos que são ordenados de modo ideológico. Se o neurocientista está correto, o dito verbal de grande parte destes signos seria de fato imagético.

Na rede neural, imagens, palavras e sons, discursos e sentimentos, em qualquer variação possível, seriam sempre imagéticos. O que a rede trataria e acumularia seriam representações desta natureza dos discursos e seus fragmentos existentes na comunicação humana. Combinando a ambos e outros autores, dir-se-ia que as consciências tornam-se reais por meio da comunicação e são fragilizadas ou prejudicadas de acordo com as características que a comunicação assume e desenvolve na vida sociocultural.

 

Conclusões

Neste novo modo de ver os problemas da consciência humana, a história natural e a história social se fundiriam em um único bloco, organizado a partir de possibilidades biológicas e históricas efetivas. Em termos práticos, por mais justa e correta que seja a vida social desejada, restaria ainda o exame da natureza físico-química da atividade neural, que entraria em contato dialético com a mesma, formando a consciência. Os resultados desta fusão seriam complexos e dependeriam de fatores naturais e artificiais (histórico-sociais). A consciência humana consiste em uma estrutura de longo desenvolvimento biológico, somada às condições contextuais de seu desenvolvimento.

Apesar de serem absolutamente humanas, a consciência retórica, o fanatismo religioso, o fanatismo político e o cientificismo implicam a negação das potencialidades da espécie, levando a sua virtual destruição, objetivando a dominação e o controle. Negá-los e tentar fazê-los desaparecer é uma tentativa de humanizar o homem, fazendo-o se voltar para suas reais potencialidades. Desenvolver a capacidade interpretativa natural é o objetivo de quem deseja seres mais completos e mais capazes de compreenderem e, se necessário, modificarem o que os cerca. Sabe-se que este desenvolvimento é possível e que não é um problema biológico, pelo menos no que se refere às maiorias, isto é, aos que têm uma saúde mental razoável. A busca, desde a antiguidade, da humanização do homem consiste em aprimorar a consciência, compreendendo-a melhor.

Poder-se-ia imaginar uma utopia possível da construção de uma humanidade onde o sentimento não fosse destruído pela razão instrumental e que a consciência refletisse o equilíbrio entre as forças que organizam a mente humana. Nela, a comunicação em todos seus níveis e possibilidades seria o instrumento maior do esclarecimento. Ela teria que ser depurada e afastada das monstruosidades que a consciência retórica e o fanatismo de qualquer matiz podem criar. No rumo de uma consciência mais humana, a argumentação, baseada na livre troca de opiniões, sem imposições, daria o tom da formação das consciências.

Nesta mesma cidade ideal, os signos fluiriam libertos do controle do poder em todas suas instâncias, servindo para esclarecer e não para alienar, porque estariam acompanhados de suas chaves de decifração. Imaginar-se-ia a vida, como a arte o faz, construindo problemas e tecendo o entendimento e a possibilidade de manutenções, rupturas e a compreensão próxima ou igual a uma epistemologia da vida. A palavra e o diálogo substituiriam as diversas formas de violência, inclusive as que usam do verbo para oprimir. Sabe-se que tudo isto é sonho, mas a vida é um sonho, como queria, poeticamente, Calderón de La Barca. A consciência resultante seria algo que daria prazer de ver e conviver.

 

Notas

[1] Ver, Lopes, 1998.

[2] As telenovelas têm enorme influência, junto com os telejornais e outros produtos televisivos, na formação das consciências latino-americanas contemporâneas.

[3] A noção de retórica, aqui usada de acordo com Platão, é a do discurso construído para convencer a qualquer preço, sem compromisso com a demonstração e a objetividade. Neste sentido, retórica é sinônimo de mentira rebuscada, do ato de levar ao outro a imaginar a realidade de modo falso, para que se chegue a conclusões a partir do que se usou para convencer, da manipulação etc. Retórica, principalmente em Aristóteles, consiste em uma técnica de construção do discurso, não necessariamente impositiva e falsa. Ensinar retórica também foi e é ensinar como argumentar melhor, mantendo a ética no seu devido lugar. Hoje, seguindo Philippe Breton, prefere-se usar a noção de teoria da argumentação, afastando-se da velha pecha da retórica milenar. Este último considera que a retórica se opõe ao exercício do convencimento por meio da argumentação criteriosa, interpretativa, aberta a crítica e eticamente responsável.

[4] A Retórica ou Arte Retórica de Aristóteles trata do conjunto das possibilidades humanas de usar a consciência para se comunicar. Por isso, versa sobre a retórica propriamente dita, a argumentação, a moral, a razão, a emoção e suas formulações discursivas. Em sua época, estava-se muito longe da idéia de separar a razão da emoção. A consciência humana era tratada com um conjunto com várias peculiaridades.

[5] Retórica, aqui entendida, como discurso impositivo e mentiroso.

[6] Ver, Consciência Moral e Agir Comunicativo.

[7] Ver, Obras de Freud, em especial as que tratam de suas teorias sobre o ego, o superego, o inconsciente, os sonhos, a crítica da cultura e o mal-estar da civilização.

[8] Ver, Damásio (1996).

 

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© Luís Carlos Lopes 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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