Afrânio Coutinho: À luz de uma teoria estética da história da literatura

Prof. Dr. Flávio Leal

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia
IFBahia - Brasil
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Resumen: Professor Dr. Afrânio Coutinho defendia, copiosamente, a habilitação e formação específicas para o crítico literário, o estudioso de literatura: “Formação tão ampla e complicada só pode ser adquirida no lugar adequado que são as universidades e faculdades de letras” (Jornal de letras, agosto de 1957). Sempre visando a privilegiar o literário e o estético, em suas análises e posições acadêmicas, Professor Afrânio Coutinho define o espaço que deve ser ocupado e demar­cado pelo “homem de letras”, tomado como um “especialista” do saber, ao contrário dos perfis dos antecessores “publicistas”, que utilizaram a imprensa nacional como espaço de difusão e debates sobre manifestações literárias. Conforme afirma Afrânio, a universidade pública, com carreiras e cursos acadêmicos bem estruturados, deveria ser o ambiente adequado para a formação complexa e atividade do crítico e historiador literários, que desenvolveriam estudos avançados sobre a literatura, assumida como disciplina científica autôno­ma, no âmbito das universalidades das Ciências Humanas, subsidiada por métodos de análises e fronteiras teóricas, estabelecidos entre as diversas áreas de conhecimento. Esta afirmação e defesa legitimam, como espaço da formação e do debate literários, a universidade brasileira, à qual Afrânio Coutinho dedicou a sua vida.
Palabras clave: Afrânio Coutinho, “homem de letras”, Ciências Humanas, universidade

 

A Luciana, que me ensina o amor e a alegria, a cada segundo.

 

Na tradição da historiografia literária brasileira, no ano de 1955 [1], houve um grande marco historiográfico com a publicação d’ A Literatura no Brasil. Construída como uma obra coletiva, “em cooperação” com vários estudiosos e com a assistência de Eugênio Gomes e Barreto Filho, o projeto foi planejado, organizado e dirigido pelo Professor Afrânio Coutinho [2], fundador das letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, responsável pelo arcabouço teórico-metodológico presente e pelas concepções de Literatura e de historiografia literária adotadas, “à luz de uma teoria estética da história da literatura”. Tais preceitos foram abordados, nas introduções críticas d’A Literatura no Brasil, como proposição para a configuração de uma “teoria estética da literatura e da história da literatura”, nos tomos desta historiografia literária, que se transformou em uma referência, na tradição dos estudos literários brasileiros e nos cursos para a formação de leitores, professores e pesquisadores de Letras.

Professor Dr. Afrânio Coutinho, estudioso e mentor de A literatura no Brasil, defendia, copiosamente, a habilitação e formação específicas para o crítico literário, o estudioso de literatura: “Formação tão ampla e complicada só pode ser adquirida no lugar adequado que são as universidades e faculdades de letras” (Jornal de letras, agosto de 1957). Sempre visando a privilegiar o literário e o estético, em suas análises e posições acadêmicas, Professor Afrânio Coutinho, crítico de cepa universitária, define o espaço que deve ser ocupado e demar­cado pelo “homem de letras”, tomado como um “especialista” do saber, ao contrário dos perfis dos antecessores “publicistas”, que utilizaram a imprensa nacional como espaço de difusão e debates sobre manifestações literárias. Conforme afirma Afrânio, a universidade pública, com carreiras e cursos acadêmicos bem estruturados, deveria ser o ambiente adequado para a formação complexa e atividade do crítico e historiador literários, que desenvolveriam estudos avançados sobre a literatura, assumida como disciplina científica autôno­ma, no âmbito das universalidades das Ciências Humanas, subsidiada por métodos de análises e fronteiras teóricas, estabelecidos entre as diversas áreas de conhecimento. Esta afirmação e defesa legitimam, como espaço da formação e do debate literários, a universidade brasileira, à qual Afrânio Coutinho dedicou a sua vida.

A biografia, bibliografia e formação acadêmicas do médico baiano [3], que se tornou professor, gestor educacional, ensaísta, crítico e historiador literário renomados, são bastante extensas e impressionantes. Afrânio Coutinho nasceu na capital baiana, em 15 de março de 1911, e faleceu no dia 05 de agosto de 2000, no Rio de Janeiro, cumprindo uma vida muito ativa e rica, nos estudos literários e na universidade brasileira. Fez o curso secundarista, no Ginásio N. S. da Vitória dos Irmãos Maristas, e os preparatórios no Colégio da Bahia, tradicionais ambientes educacionais baianos. Obteve a formação em Medicina, no ano de 1931, porém não continou a carreira médica, entregando-se ao ensino de Literatura e História no curso secundário, na Bahia. Ainda, foi bibliotecário da Faculdade de Medicina e Professor da Faculdade de Filosofia da Bahia.

Em 1942, transferiu-se para os Estados Unidos da América, quando foi convidado para assumir o cargo de redator-secretário da revista Seleções do Reader’s Digest, em Nova York, exercendo esta função por cinco anos. Durante esse período naquele país, freqüentou diversos cursos na Universidade de Columbia e em outras instituições universitárias norte-americanas, conhecendo e aperfeiçoando-se em crítica e história literária com professores europeus e americanos bastante renomados, naquele momento. Regressando ao Brasil, em 1947, fixou-se no Rio de Janeiro, quando foi nomeado catedrático interino do reconhecido Colégio Pedro II, na cadeira de ensino de Literatura. Em 1951, efetivou-se na cadeira por concurso, com tese debatida sobre os “Aspectos da literatura barroca”. Também, naquele mesmo ano, fundou, na Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette, a cadeira de Teoria e Técnica Literária.

Em 1948, no “Suplemento Literário” do Diário de Notícias, Afrânio Coutinho inaugurou a secção intitulada “Correntes Cruzadas”, que existiu até o ano de 1961, debatendo posições, problemas e assuntos de crítica e teoria literárias. Colaborou, ativamente, na imprensa nacional e em várias revistas literárias do Brasil e do exterior. Afrânio dirigiu ainda a Revista Coletânea (1951-1960) e divulgou bastante os critérios de análise estético-literária, formulados pelo New Criticism norte-americano.

Em 1952, Afrânio Coutinho foi encarregado pelo Professor Leonídio Ribeiro, então diretor do Instituto Larragoiti, no Rio de Janeiro, de organizar, planejar e dirigir a publicação historiográfica, intitulada A literatura no Brasil, com a assistência de Eugênio Gomes e Barreto Filho e com a colaboração de um conjunto amplo de especialistas [4] reconhecidos, provenientes de várias universidades e estados brasileiros. A obra foi publicada, inicialmente, em 04 (quatro) volumes [5] pelo Editorial Sul Americana S.A., entre os anos de 1955 e 1959, sendo ampliada para 06 (seis) volumes, posteriormente, na edição de 1968 - 1971, e ainda foi revista e atualizada, enfim, no ano de 1986, com a co-direção do Professor Dr. Eduardo de Faria Coutinho, filho de Afrânio Coutinho, e também professor titular e estudioso da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

Em 1958, Afrânio Coutinho prestou concurso para livre docente da cadeira de Literatura Brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, conquistando o título de Doutor em Letras Clássicas e Vernáculas. No ano de 1963, após a aposentadoria de Alceu Amoroso Lima, o Doutor foi nomeado professor catedrático interino de Literatura Brasileira. Dois anos mais tarde, em 1965, após prestar concurso, foi nomeado catedrático efetivo naquele espaço reconhecido. Quando designado para dividir o ensino de Letras da Faculdade de Filosofia, criou a Faculdade de Letras da UFRJ, que instalou e organizou. Em 1968, foi nomeado Diretor da Faculdade de Letras - UFRJ, permanecendo no cargo até se aposentar, no ano de 1980. Coutinho foi responsável pela criação da Biblioteca da Faculdade de Letras, reconhecida como uma dentre as maiores no Brasil. Ainda, elaborou, lecionou e dirigiu diversos cursos de pós-graduação na área de Letras, numa configuração muito bem elaborada e reconhecida pela comunidade acadêmica, como cursos excelentes e de alto nível. Aposentado, o professor e autor Afrânio Coutinho continuou pesquisando e escrevendo ativamente, como se pode notar em sua vasta bibliografia.

Na Academia Brasileira de Letras, Afrânio Coutinho foi eleito, em 17 de abril de 1962, o quarto ocupante da Cadeira N°. 33 da ABL, na sucessão de Luís Edmundo, sendo recebido, em 20 de julho de 1962, pelo Acadêmico Imortal Levi Carneiro. Afrânio Coutinho recebeu, posteriormente, naquela instituição tomada como espaço de reconhecimento social, o outro acadêmico Eduardo Portella.

Prof. Dr. Afrânio Coutinho (1911 - 2000)

Nas décadas de 1960 e 1970, Afrânio Coutinho realizou diversas viagens para o exterior, como professor visitante em grandes universidades dos Estados Unidos, da Alemanha e da França, também com o intuito de ampliar os estudos literários brasileiros, nas universidades estrangeiras visitadas, promovendo a leitura e difusão dos estudos críticos e historiográficos sobre a Literatura Brasileira.

Durante os seus anos de pesquisa, magistério e atividade literária, Afrânio Coutinho construiu uma amplíssima biblioteca particular, com cerca de 100.000 volumes, permitindo o acesso à população do Rio de Janeiro, em 1979, a partir da criação da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), sediada em sua antiga residência, no Bairro de Ipanema, na Rua Redfern N°. 41, sendo um espaço destinado: à promoção de estudos na área da literatura, a ministrar cursos, a debates e conferências, e a receber escritores nacionais e estrangeiros reconhecidos. Afrânio Coutinho encontrou-se à frente da direção da OLAC até o ano de 1992, quando esta casa encerrou suas atividades. Em 1995, todo o acervo da OLAC, composto por mais de 100.000 volumes, foi incorporado à Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e encontra-se disponível para o público universitário e em geral. Ainda, inaugurado no dia 15 de março de 2005, localizado no hall da Biblioteca José de Alencar - Bloco D do prédio da Faculdade de Letras da UFRJ, o Centro de Estudos Afrânio Coutinho - CEAC [6] proporciona aos estudantes e aos pesquisadores um ambiente de investigação sobre literatura e cultura, cujo acervo para estudos, pesquisas, projetos avançados está disponível. Coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo de Faria Coutinho, filho de Afrânio Coutinho e professor titular daquela Universidade, o CEAC torna-se uma iniciativa de reconhecimento e recordação da biografia acadêmica de Afrânio Coutinho, promovendo os estudos literários. Assim, como parte de uma instituição universitária pública, o CEAC torna-se um espaço privilegiado para estudos, debates e pesquisas avançadas, nos estudos literários, implantação conseqüente da biografia e atuação do Professor Dr. Afrânio Coutinho.

A extensa atividade literária, cultural, crítica e educacional do Professor Dr. Afrânio Coutinho proporcionou-lhe: a Medalha Anchieta da Secretaria da Educação do Rio de Janeiro (1954); o Prêmio Paula Brito (1956); o Prêmio Nacional do Livro (Ensaio), por sua obra A tradição afortunada; o Prêmio Golfinho de Ouro (1980). Ainda, o Professor Dr. Afrânio Coutinho foi membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, da Academia de Letras da Bahia, da Sociedade de Estética dos Estados Unidos, da União Brasileira de Editores e das Academias Brasileiras de Letras e de Educação. Foi homenageado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia e Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Afrânio Coutinho, reconhecido educador e estudioso, na “Introdução Geral” da história literária A Literatura no Brasil, apresenta os fundamentos metodológicos, que embasam a configuração da historiografia literária construída, coletivamente, em “cooperação”, demonstrando o intuito de revisar a história literária brasileira, a fim de expor uma inovadora análise e abordagem estética sobre a literatura produzida no Brasil. As introduções de Afrânio Coutinho para a obra A literatura no Brasil expõem um excelente e amplo material para análise e reflexão, nos estudos literários. Os dois primeiros prefácios são bastante extensos e detalhados, ao contrário do prefácio da 3ª edição, que apenas contém três parágrafos curtos e breves. O prefácio da primeira edição é organizado e dividido em 06 (seis) secções, sendo: a questão da história da literatura; a periodização; as soluções brasileiras; definição e caracteres da literatura brasileira; as influências estrangeiras e, enfim, o conceito e plano da obra. Cada secção deste prefácio ou estudo é, cuidadosamente, elaborada em sua argumentação para demonstrar ao leitor a importância, a necessidade e a conveniência da “crítica estética”, que deve ser a configuração da crítica e da história da literatura “modernas”, de acordo com o Professor Afrânio Coutinho.

Afrânio Coutinho toma a Literatura, nestes textos introdutórios, a partir de sua argumentação apresentada, em duas distintas linhas e concepções de literatura: 01 - Literatura, como conseqüência de fatores histórico-sociais e culturais, que a condicionam e determinam-na, em foco estão os fatores extratextuais / extrínsecos e secundários; 02 - Como manifestação de natureza estéti­ca, independente de fatores contextuais extrínsecos existentes, em evidência, estão os aspectos intrínsecos e estéticos. Esta primeira concepção de Literatura exposta diz respeito a uma historiografia literária, que demonstra o objeti­vo de observar a literatura, tendo em vista os fatores externos histórico-culturais, que a condicionaram e formaram-na. Por outro lado, a segunda concepção sobre a Literatura ressalta uma perspectiva e modelo historiográfico voltado e preocupado com o processo evolutivo interno do fenômeno literário-artístico, enquanto uma criação imaginária, estética e artística, que possui “um valor em si” imanente, “um produto da imaginação criadora”, “cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer estético”. Segundo Afrânio Coutinho, entendem-se o “conceito estético ou poético” da literatura e a finalidade da crítica estética, na obra organizada, como:

A literatura é uma arte, a arte da palavra, isto é, um produto da imaginação criadora, cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer estético. Tem, portanto, um valor em si, e um objetivo, que não seria de comunicar ou servir de instrumento a outros valores - políticos, religiosos, morais, filosóficos. Dotada de uma composição específica, que elementos intrínsecos lhe fornecem, tem um desenvolvimento autônomo. A crítica é, sobretudo, a análise desses componentes intrínsecos, dessa substância estética, a ser estudada como arte e não como documento social ou cultural, com um mínimo de referência ao ambiente sócio-histórico. [7]

Afrânio Coutinho, idealizador de A Literatura no Brasil, pretende abordar, na configuração de sua história literária, certamente, a segunda concepção, tentando construir uma obra e um discurso sobre a literatura brasileira, que se debrucem sobre “seus elementos intrínsecos ou artísticos” [8]. A fim de expor e delimitar os métodos de análises da obra literária enquanto objeto estético, Afrânio Coutinho demonstra o que são elementos intrínsecos e extrínsecos do “fato literário”, da “natureza estética”, em A Literatura no Brasil:

Com ser de natureza estética, o fato literário é histórico, isto é, acontece num tempo e num espaço determinados. Há nele elementos históricos, que o envolvem como uma capa e o articulam com a civilização - personalidade do autor, língua, raça, meio geográfico e social, momento; e elementos estéticos, que constituem o seu núcleo, imprimindo-lhe ao mesmo tempo características peculiares, que o fazem distinto de todo outro fato da vida: tipo de narrativa, enredo, motivos, ponto de vista, personagem, linha melódica, movimento, temática, prosódia, estilo, ritmo, métrica, etc. (...) Esses últimos elementos formam o ‘intrínseco’, enquanto os primeiros formam o ‘extrínseco’. [9]

Nesta proposição historiográfica, há a preconização de uma “Nova Crítica” anti-romeriana, pois “À História literária não cumpre investigar o ambiente histórico-social em que surgiram as obras” [10]. A crítica e a história literárias estéticas “deveria(m) destacar e valorizar a qualidade estética da obra, deixando em segundo plano os fatores históricos e biográficos tidos por exteriores à criação literária” [11], segundo a apreciação de Alfredo Bosi, ao analisar a proposta da obra de Afrânio. Coutinho põe os aspectos extrínsecos, numa perspectiva secundária, e sai em defesa da hegemonia da literatura, enquanto objeto produzido pelo imaginário e passível de análise científica, sobre a disciplina História: “Se examinarmos as nossas obras [historiografias literárias], no particular, veremos que as domina o espírito histórico e não o espírito literário. São obras de história e não de literatura (...) Nossos historiadores conservando uma ilustre tradição, sempre se mostram com veleidades de fazer história literária, à maneira histórica, e não literária, é claro.”

No arcabouço metodológico de Afrânio Coutinho, percebem-se os apoios teóricos da Teoria da intuição-expressão de Benedetto Croce [12] e do movimento New Criticism norte-americano, corrente que estava em voga na época com o seu close-reeding, conforme ressalta Coutinho “processos de análise exata” [13] da obra literária e, ainda, do formalismo russo, lido e debatido pelo teórico René Wellek, e o conceito formal de literariedade [14]. Afrânio Coutinho ancora-se em uma concepção estética do “monumento literário”, como “um sistema de sinais com um propósito estético específico” (René Wellek), a partir das novas correntes e das recentes orientações de abordagem críticas do texto literário, tomado como objeto autônomo e imanente de criação imaginária, que deveria ser analisado em seus estratos mais profundos pelos métodos da “verdadeira crítica” intrínseca. De acordo com Afrânio Coutinho:

A verdadeira crítica é a intrínseca ou ergocêntrica, para a qual a obra é o centro de interesse, e da obra os seus elementos interiores ou intrínsecos, que lhe emprestam o caráter especificamente estético. Esses métodos partem, aliás, de um conceito da obra de arte literária, que é “um sistema de sinais com um propósito estético específico” (Wellek), ou “um sistema dinâmico e estratificado de normas” (Ingarden).” [15]

Afrânio Coutinho, após estudar nas universidades dos Estados Unidos da América, é tomado como difusor, principalmente, na academia e cenário brasileiros, do New Criticism norte-americano, método analítico que privilegiaria o estético e literário no estudo da obra artística. Como afirma Afrânio Coutinho, na sua Introdução, a concepção estética da crítica determina o reconhecimento da supremacia da obra. Assim, a crítica deveria partir do pressuposto de que o estético existe na obra, recusando-se a percebê-lo tão-somente no autor ou no meio, pondo em segundo plano os métodos extrínsecos de abordagem da literatura, tais como os aspectos “históricos, sociológicos, biográficos, eruditos”, compreendidos e úteis, apenas quando auxiliam no entendimento e nos esclarecimentos sobre o “monumento literário” estético.

Neste viés metodológico, entendendo-se como uma perspectiva acadêmica e teórica, a corrente New Criticism, atribuída a Afrânio Coutinho em seus escritos, refere-se aos nomes e às produções dos críticos norte-americanos: John Crowe Ransom, William K. Wimsatt, Cleanth Brooks, Allen Tate, Richard Palmer Blackmur, Robert Penn Warren e ao do filósofo Monroe Beardsley, os quais escreveram as suas obras mais influentes entre as décadas [16] de 30 e 50 do século XX. Esta denominação, a título de informação, surgiu a partir da obra de John Crowe Ransom (1888-1974), chamada "The new criticism", publicada no ano de 1941. Esta vertente rejeita, completamente, qualquer espécie de crítica “impressionista”, pois o impressionismo preocupa-se com o efeito da obra sobre o sujeito, enquanto a crítica “autêntica” deve preocupar-se com o objeto literário, focada unicamente na obra literária. A obra estética deve ser definida e analisada como estrutura formal, sendo a principal tarefa da crítica literária obter o conhecimento profundo dessa estrutura intrínseca e estética. Ainda, o inglês I. A. Richards e o anglo-americano T. S. Eliot são tidos como os grandes inspiradores de uma atividade crítica rigorosa, cuja ênfase se situava, majoritariamente, na leitura crítica do texto ou na escrita, movimento que se pretendia afastar dos aspectos extratextuais, no estudo do gênero poético. Seria uma crítica Formalista, radicalmente inovadora, em oposição à crítica Marxista existente, na época. Esta corrente analítica pressupunha: uma aproximação intrínseca do objeto literário; aplicação rigorosa de alguns princípios metodológicos e ignorância do contexto; exatidão, precisão e nitidez de descrição crítica; grande objetividade no tratamento da obra literária e uma tendência anti-biográfica e a-histórica.

A atividade crítica do New Criticism é, fortemente, marcada por uma mesma rejeição dos modos críticos e de investigação de tipo biográfico, sociológico e historicista, demonstrando que um traço distintivo da crítica era o rigor analítico voltado ao texto literário. No método de análise estética do New Criticism, o crítico deveria voltar-se a todas as particularidades de um texto literário, processo conhecido como close reading and analysis ou “método de leitura bem próxima ao texto”, expressão exposta [17] na Introdução de A Literatura no Brasil por Afrânio Coutinho.

Como Afrânio Coutinho obteve, em seus anos e viagens ao exterior, acesso a estas idéias e debates teóricos contemporâneos sobre o New Criticism, seus textos tentam privilegiar a análise formal da manifestação estética, por isso tomado como um grande difusor no Brasil dos vieses de análise desta corrente. Sempre coerente com os seus posicionamentos teóricos, Coutinho inflamou alguns críticos, na tradição brasileira, pois o Professor Wilson Martins, por exemplo, em A crítica literária no Brasil, ataca ferozmente a possível contradição no arcabouço estético-literário de Coutinho, como um “vulgarizador de doutrinas alheias”, em sua história da literatura. Portanto, o crítico Wilson Martins vocifera:

(...) doutrinando sem cessar sobre o que a crítica deve ser, Afrânio Coutinho jamais demonstrou, pela prática dos seus princípios, o que ela pode ser. Em teoria, tratava-se de substituir a abordagem historiográfica (ou “historicista”, como ele prefere dizer em terminologia depreciativa) pela análise técnica do texto, mas é coisa que nem ele, nem os seus discípulos realmente fizeram. A obra máxima em que a doutrina deveria ter encontrado comprovação foi... uma história literária, na qual a abordagem “historicista” é inevitável e natural, embora dissimulada, no caso, pelo vocabulário supostamente estético ou “estilístico” (outra palavra prestigiosa, empregada, aliás, a contra-senso e, ao que parece, posteriormente abandonada). [18]

Wilson Martins ressalta as direções inevitáveis da área da disciplina História da Literatura e os pressupostos teórico-metodológicos de Afrânio Coutinho, ressaltando que a “abordagem historicista” encontra-se camuflada de “estilística” ou “estética”, conforme o crítico mordaz. Assim, por outra leitura, objetivando uma “História literária, com ser literária” [19] que seria mais literária do que histórica, “evidenciado que a sua finalidade, o objeto de seu estudo é própria obra literária” [20], A Literatura no Brasil pressupunha uma abordagem em que a manifestação estética tivesse certa autonomia e relevância, perante o movimento histórico contextual. Desta forma, evitar-se-ia um método sociologizante anti-romeriano para adotar uma outra espécie de abordagem, na qual o evento literário fosse adotado como o cerne da historiografia, realmente, literária.

Entretanto, na Historiografia literária de Afrânio Coutinho, torna-se interessante frisar que há dois critérios distintos, sobrevivendo e presidindo sua argumentação: um na perspectiva histórica, pois a história não ocupou um lugar tão secundário no projeto de Afrânio, já que se concentra na investigação dos aspectos nativistas e culturais do Brasil. Ainda, entretanto, há outro prisma artístico e estilístico coexistente, concentrado em uma periodologia literária estética tradicional. Tentando construir uma “História literária da literatura, próxima da estética e da lingüística” [21], a obra de Afrânio Coutinho recusa um modelo historiográfico, que se ampara em conceitos e fatores “extraliterários” políticos e “historicistas”, a fim de estabelecer os diferentes e diversos períodos históricos do processo estilístico da literatura brasileira, elaborando uma histó­ria literária ancorada, em sua trajetória, nos “estilos de época” [22] universais, percebendo os “Estilos individuais”, concatenados em uma evolução interna artística. Como afirma Afrânio Coutinho, “a concepção estilística amplia e violenta as fronteiras dos períodos, favorecendo a interpretação dos gêneros, cuja evolução é acompanhada dentro dos estilos.” [23]

Afrânio Coutinho ressalta nas páginas iniciais de seu primeiro prefácio que “a crítica estética não implica o afastamento ou isolamento de outros conhecimentos necessários à situação da obra literária e à compreensão de suas relações no tempo e no espaço. São conhecimentos secundários, subsidiários, auxiliares, mas que não se podem omitir”[24]. Coutinho nunca pretendeu recusar os aspectos históricos, sociais e temporais na sua obra, porém somente tentou dar-lhes uma percepção e funções secundárias, em relação à autonomia e análise estética da obra literária, pois, segundo o Professor Coutinho, “Por um fato estético-literário é mais adequado um método estético-literário, inspirado em teoria estético-literária.” [25]

Em seus estudos metodológicos introdutórios, Afrânio Coutinho observou que a periodização [26] era um dos problemas fulcrais da historiografia literária brasileira, debatendo que: 01 - Os critérios político e cronológico não ofereciam qualquer orientação para a caracterização literária do período; 02 - Estes critérios provocavam o reconhecimento da dependência e determinação da literatura pelos acontecimentos políticos ou sociais; 03 - A ausência de limites determinados e absolutos entre os períodos; 04 - Os períodos literários são unidades primordiais, não havendo fronteiras nítidas, nem marcos iniciais e términos enrijecidos datados facilmente; 05 - Uma obra literária não poderia ser definida como, exclusivamente, pertencente a um estilo, mas percebida também pela sua maior influência. Afrânio Coutinho persegue em seus escritos uma atualização metodológica, mas, sobretudo, demonstra a concepção de Literatura independente da História, da Política e de outros elementos, que a pudessem manter atrelada, sufocada e subordinada.

Afrânio Coutinho afirma, no prefácio da primeira edição de A literatura no Brasil, que aquela obra “restringe-se às obras de natureza estética ou pertencentes aos gêneros propriamente literários, obras de imaginação, ensaísmo, narrativa, drama, lirismo” [27], pressupondo sempre a soberania da Literatura. Relegando a história política a um lugar secundário, já que “são conhecimentos secundários, subsidiários, auxiliares, mas que não se podem omitir”, o Professor declara que pretende esboçar uma história da literatura baseada na crítica estética e definia:

Este livro - A Literatura no Brasil - representa mais uma tentativa de reação contra o sociologismo, o naturalismo e o positivismo, e contra o historicismo, em nome de valores estéticos, em nome da crítica intrínseca ou estético-literária, ou poética. [28]

Afrânio enfatiza a questão da “suces­são de estilos”, sendo o período literário concebido como “um sistema de normas literárias expressas num estilo” [29]. Realmente, nesta mirada, afirma que “o princípio periodológico, tanto quanto o próprio princípio da história literária, deve decorrer de um conceito geral de literatura” [30]. Desta forma, como a literatura é encarada como fenômeno estético e artístico, “um produto da imaginação criadora”, subjugando os fatores extrínsecos secundários, nesta obra historiográfica, as construções do “princípio periodológico” e da “história literária” devem ser norteadas e configuradas a partir do conceito de literatura estética. Ainda, organizou sua história da literatura reagindo aos métodos “historicistas” dos historiadores anteriores, principalmente Sílvio Romero, na tradição brasileira, pois a concepção dominante até então era “a crença de que é uma simples divisão da história geral” [31], sendo a configuração da história literária “mais histórica do que literária”. Desta maneira, por outro lado, a crítica e a concepção literária estéticas, adotadas por Afrânio Coutinho, possibilitam “À história literária, ou antes, à ciência da literatura, como é a tendência a designar-se esse conjunto de estudos (Literaturwisseschaft), abre-se, deste modo, uma perspectiva ampla e inesgotável campo de trabalho.” [32]

Para Afrânio Coutinho, no processo evolutivo como integração dos estilos artísticos, a evolução das formas estéticas no Brasil materializou-se nos seguintes estilos denominados “Eras”, “termo mais geral, seguindo-lhe ‘época’ e ‘período’” [33]: barroco, neoclassicismo, arcadismo, romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo, simbolismo, modernismo [34] e Tendências Contemporâneas. “O período é, pois, um sistema de normas literárias expressas em um estilo”, e “o seu uso é necessário, e os termos periodológicos têm função científica”, afirma Coutinho, ancorado nas argumentações de René Wellek [35]: “Devemos concebê-los, não como etiquetas lingüísticas arbitrárias, nem como entidades meta-físicas, mas como nomes que designam um sistema de normas que dominam a literatura num momento específico do processo histórico”. A existência de diversos períodos na evolução literária, no discurso historiográfico, permite a compreensão de possíveis interfaces e intersecções, pois, segundo Afrânio Coutinho,

os sistemas de normas que se subs­tituem em dois períodos jamais começam e acabam em momen­tos precisos, porém se continuam em certos aspectos, repelindo-­se em outros; as novas normas substituem as antigas progressiva­mente, imbricando-se, interpenetrando-se, entrecruzando-se, e se superpondo, criando 'zonas fronteiriças', de transição, nas fímbri­as dos períodos. [36]

Assim sendo, o período literário (Era), base da argumentação e construção desta obra, segundo sua perspectiva, é concebido como “unidade tipológica” estética, recusando a concepção clássica de “unidade temporal”, da “abordagem historicista”. Nesta proposição adotada, o “estilo de época” estudado torna-se o marco e a baliza de cada período, como um sistema de nor­mas predominantes em dado momento estilístico literário, em relação aos outros existentes que subsistem. Havendo, segundo Afrânio Coutinho, uma “evolução [que] é interna, e não condicionada por influências extraliterárias de origem social ou política. Tem seu desenvolvimento imanente, e uma história literária ideal retrataria esse desenvolvimento, sem apelar para muletas e sem recorrer à explicação de cunho histórico-social.” [37]

Conforme Coutinho, a periodologia estilística torna a História da Literatura liberta [38] das: Tirania cronológica; Tirania sociológica e Tirania política, sendo “um dos mais importantes capítulos na marcha da história ou ciência da literatura para a sua emancipação da história geral”. [39]

Em contraposição metodológica às historiografias literárias até então existentes e reconhecidas, produzidas no final do século XIX e início do XX por Sílvio Romero e José Veríssimo, principalmente, que foram estruturadas sobre critérios de natureza política e ideológica, tomando a literatura como um mero “documento ou testemunho do fato político” [40] da construção da nacionalidade e como conseqüência dos fatores extratextuais e sociais, o projeto de construção historiográfica de Coutinho pressupunha “um método estético-literário para o estu­do de um fenômeno estético-literário” [41]. Este método deveria ser construído e configurado como um modelo historiográfico estético-literário voltado à sistematização e sucessão das “uni­dades tipológicas”, “estilos de época” e “suces­são de estilos”. Consoante com Coutinho, produzidas pelo imaginário, “As obras de arte são, assim vistas, não como ‘documentos’, mas como ‘monumentos’” [42]. A Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho esboça uma proposta de uma “História literária da literatura”, numa perspectiva que denomina “proces­so evolutivo” literário e artístico, a partir da percepção crítica de uma “forma estética a seus pensamentos e sentimentos”, que conforme o Professor:

A solução está na historiografia literária que seja a descrição do proces­so evolutivo como integração dos estilos artísticos. As hesitações e os erros da periodologia corrigem-se com a adoção de tal sistemática. É a que inspira a concepção e planejamento de A Literatura no Brasil. Suas divisões correspondem aos grandes estilos artísticos que tiveram representação no Brasil, desde os primeiros instantes em que homens aqui pensaram e sentiram, e deram forma estética a seus pensamentos e sentimentos. [43]

Nesta obra coletiva, há uma perspectiva de análise estética e idealista sobre composição de história literária, que a analisa e estuda como uma sucessão de estilos literários estéticos, numa evolução literária, privilegiando em sua configuração o “estético”, em relação à “abordagem historicista” ideológica e contextual “romeriana”. Esta função e método de análise estética estarão presentes na crítica e na historiografia literárias “modernas”, segundo ressalta Coutinho, em seu texto introdutório e metodológico. Afrânio afirma que são secundários ou auxiliares “o(s) conhecimento(s) da história econômica, social, política, da história das idéias, história das outras artes, etnologia, antropologia, filosofia. A literatura está para os outros fenômenos da vida em posição de relação, não de dependência ou submissão (...) tendo o mesmo valor que as demais expressões da atividade humana”. [44]

Com o intuito estético e literário em sua historiografia literária, Afrânio Coutinho tenta desprezar o aspecto “historicista”, “conhecimentos secundários, subsidiários, auxiliares”, subjugando o critério de nacionalidade literária, denominando um aspecto “políti­co”, que erroneamente subordina a abordagem literária em detrimento do enfoque histórico e político, segundo ele, na tradição, porém, de maneira inevitável, a nacionalidade literária da História adentra camuflada, em sua obra, “de um complexo de elementos”.

A nacionalidade não decorre de nenhum fator isolado, mas é uma re­sultante de um complexo de elementos: uma língua, um meio natural (clima, paisagens, flora, fauna), uma história vivida em comum, usos, costumes, leis, aspirações ... Tudo traduzido num 'sentimento íntimo'. [45]

Desta sorte, Afrânio Coutinho inverte o processo de fundação da nacionalidade com o “Homem Novo”, pois, conforme o organizador, a manifestação literária estética, enquanto produção artística e sentimental, gera a nacionalidade desejada, a partir de estilos e períodos literários estéticos universais. Esta estratégia promove e favorece a valorização do literário, em relação ao histórico contextual, e pressupõe a grande ação artística, na formação da nacionalidade, sendo as unidades tipológicas, os “estilos de época”, pilares para a análise e existência da literatura brasileira, como o Barro­co que inicia, pois, “A literatura nasceu no Brasil sob o signo do Barroco, pela mão barroca dos jesuítas” [46], como o fundador Anchieta, e os outros períodos literários subseqüentes.

A configuração da obra de Afrânio Coutinho demonstra “o ponto de vista estético na tradição nacionalista da crítica oriunda do Romantismo, refundindo, como História dos Estilos, a antiga periodologia” [47]. De acordo com Benedito Nunes, analisando a obra coletiva de Afrânio, não há problemas referentes à origem literária para Coutinho, pois a literatura nasceu com o país; desenvolveu-se no curso da Colonização Européia, a partir do “homem novo”, que surgiu no momento em que o europeu colonizador aportou, nas terras ignotas de clima tropical e selvagem, completando-se com a miscigenação, num processo de adaptação a um ambiente físico e às circunstâncias históricas diferentes e diversas, sendo a miscigenação lingüística acompanhada pela étnica. A literatura brasileira é tomada como tal, porque “expressa a nova experiência de um homem novo”. O homem europeu nos trópicos sofreu a “obnubilação”, conceito defendido pelo crítico naturalista e escritor cearense Araripe Júnior (1848 - 1911), imortal da Academia Brasileira de Letras, porque foi neste processo de obnubilação: “ofuscado pela luz, cercado pela Natureza, estonteado pelo clima, o europeu esquece a situação passada”, segundo Benedito Nunes. Na terminologia de Araripe Júnior, abraçada por Afrânio Coutinho, o colonizador europeu português, quando começou a expressar-se esteticamente, após o contato com as novas terras, expõe-se, afirma Afrânio Coutinho, como brasileiro, como “um novo homem na América”:

De fato, a formação da consciência literária nacional remonta a muito antes da época da independência política. A literatura assumiu fisionomia diferente desde o instante em que se formou um novo homem na América. [48]

Desta forma, a Literatura no Brasil iniciou-se como manifestação estética “brasileira”, a partir da configuração dos estilos de época, unidades tipológicas, com o primaz Barroco. Esta perspectiva de Afrânio Coutinho ressalta a afirmação do sentimento nacionalista brasileiro, tendo em vista a produção artístico-estética e literária, numa “História dos Estilos”, diferenciando-se e submetendo a afirmação da autonomia política à diretriz literária. De acordo com Afrânio Coutinho, “a marcha do espírito brasileiro” inicia-se, contudo, antes da independência política, em “formas literári­as em busca de uma expressão brasileira”, cumprindo “à crítica e à história literária investigar a autonomia das formas, acompanhando a sua evolução para verificar o momento em que ficção, poema, drama, ensaio, alcançaram, entre nós, se alcançaram na estrutura e na temática, um feitio brasileiro”. Observa Afrânio Coutinho que a “literatura vive essa luta” constante pela “auto-expres­são”:

Assim, os quatro séculos de literatura no Brasil acompanham a marcha do espírito brasileiro, nas suas mutações e na sua luta pela auto-expres­são. A literatura vive essa luta. O processo de diferenciação não resultou de uma atitude consciente ou de compulsão, mas simplesmente da acei­tação da nova vida. E apesar da presença constante, até nossos dias, da nutrição de origem estrangeira, sobretudo portuguesa e francesa, a di­namizar a nossa energia criadora, marcando todos os movimentos lite­rários, e a testemunhar a nossa imaturidade intelectual, há desde cedo um americanismo ou brasilidade rugosa e áspera, uma genuína quali­dade nativista, que se apresenta na literatura, condicionando a forma e a matéria, a estrutura, a temática e a seleção dos assuntos, bem como a atitude, aquele “sentimento íntimo” a que se referia Machado de Assis, e que indica o advento de um homem novo. Em suma, a autonomia da literatura brasileira, definida como corolário da independência política de 1822, é um problema falsamente co­locado. O que releva constatar é o desenvolvimento das formas literári­as em busca de uma expressão brasileira, diferenciando-se da tradição dos gêneros. Em vez de procurar na literatura os reflexos da autonomia política e da formação da consciência nacional, cumpre à crítica e à história literária investigar a autonomia das formas, acompanhando a sua evolução para verificar o momento em que ficção, poema, drama, ensaio, alcançaram, entre nós, se alcançaram na estrutura e na temática, um feitio brasileiro típico, peculiar, distinto, que possa considerar-se uma contribuição nova ao gênero, uma nova tradição. [49]

Sendo a literatura percebida como brasileira, desde o início da colonização européia, em solo de achamento, desta maneira, a tradição historiográfica não necessita mais buscar sempre a interface com a independência política contextual (unidades temporais), a fim de que a literatura seja reconhecida como uma produção nacionalista autônoma e independente. O evento da expansão e chegada do homem europeu, “o homem novo”, gera o princípio da “obnubilação”, pois o ofuscado se expressa esteticamente como um brasileiro, criando literatura brasileira desde daquele momento de descobertas culturais e sentimentais. Nesta ótica, a noção de expressão de nacionalidade e de brasilidade é retirada das obras dos românticos e da historiografia romântica, “A literatura nasceu no Brasil sob o signo do Barroco, pela mão barroca dos jesuítas”, pois, a partir do princípio da “obnubilação”, aspecto fundador da especificidade dos estilos universais, no Brasil, o “sentimento íntimo de nacionalidade” encontra-se nos próprios estilos estéticos, nas formas literárias e artísticas. Analisando e percebendo os estilos de época, Afrânio Coutinho salienta que aspectos como: língua, nature­za, cor local e mestiçagem, encontram-se também presentes na busca de uma ex­pressão formal “brasileira”, desde o momento inicial de contato e do processo de obnubilação.

A Literatura no Brasil, que abraça o critério da obnubilação, antecipa a nacionalidade ao princí­pio da colonização, aos primeiros contatos humanos, no território, como, por exemplo, Anchieta, no fazer literário e estético no Brasil. Conforme Coutinho, a literatura “É 'brasileira', desde o primeiro instante, tal como foi 'brasileiro' o homem que aqui se formou desde que o europeu aqui se implantou” [50]. Desta forma, Afrânio Coutinho adota a abordagem literária, formal e estética da concepção sobre a nacionalidade brasileira. Este sentimento não estaria em marcos específicos ou datas determinadas, no contexto histórico oficial comum, mas presente nos primeiros escritos produzidos no Brasil pelo “homem novo” e maravilhado, “ofuscado pela luz, cercado pela Natureza, estonteado pelo clima, o europeu esquece a situação passada”, em um processo de obnubilação. Desta forma, o critério [51] da nacionalidade é determinado e percebido tão somente no evento estético, que lhe seria inerente à construção formal e estilística.

Afrânio Coutinho absorve, em seus escritos, a concepção de “obnubilação”, proveniente dos textos de Araripe Júnior, que, por sua vez, toma do “psicologismo ancorado numa visão determinista que dava ênfase ao fator ‘meio’ entre os conheci­dos fatores de Taine” [52]. A Literatura no Brasil modifica este conceito e o transforma em acesso ao nacionalismo e ufanismo românticos exacerbados, ao estilo dos membros do IHGB, no século XIX. Na configuração de sua obra, Afrânio Coutinho demonstra um grande ufanismo à moda da geração romântica, dando-lhe relevo na sempre exaltação da “brasilidade”, nos escritos literários analisados:

Desde Gregório de Matos, a literatura que se produziu no Brasil é diferente da portuguesa. E se a mão forte do colonizador não deu tré­guas no afã de sufocar o espírito nativista, fosse no plano político, econômico ou cultural, a tendência nacionalizante e diferenciadora, surgida com o primeiro homem que aqui assentou pé, mudando de mentalida­de, interesses, sentimentos, não cedeu o passo, caminhando firme no desenvolvimento de um país novo, em outra área geográfica e com outra situação histórica. [53]

Nesta posição ufanista e romântica, Coutinho afirma que o europeu, tomado pelo “espírito nativista”, havendo nele constantemente uma “tendência nacionalizante e diferenciadora, surgida com o primeiro homem que aqui assentou pé”, já perseguia “firme no desenvolvimento de um país novo”, expressando-se numa linguagem que demonstra o sentimento nativista e de brasilidade, em unidades tipológicas, estilos literários, em uma linguagem própria.

Esse homem novo, americano, brasileiro, gerado pelo vasto e profun­do processo aqui desenvolvido de miscigenação e aculturação, não podia exprimir-se com a mesma linguagem do europeu, por isso transformou-a, adaptoua, condicionou-a às novas necessidades expressionais, do mesmo modo que se adaptou às novas condições geográficas, culiná­rias, econômicas, às novas relações humanas e animais, do mesmo modo que adaptou seu paladar às novas frutas, criando, em conseqüência, novos sentimentos, atitudes. afetos, ódios, medos, motivos de compor­tamento, de luta, alegria e tristeza. [54]

Esta estratégia de Coutinho, que se aproxima muito daquela do século XIX elaborada pelos românticos do IHGB, aproxima-se das leituras de Francisco Adolfo de Varnhagen, por exemplo, que atribui a fundação do sentimento nacional, por meio de indícios nativistas, ao princípio da colonização, na linguagem e em temáticas que expuseram “a cor local”. A construção do discurso neo-romântico de Afrânio Coutinho, que ratifica diversas vezes que a grandeza da litera­tura brasileira se sobrepõe à portuguesa, (Literariamente, o arcadismo brasileiro é superior ao português que, sem embargo, é o que produz o povo então colonizador, o que prova a insuficiência do fator político em relação à produção literária) [55] é desenvolvido mais tarde, em seu livro: A tradição afortunada, publicado no ano de 1968.

Afrânio Coutinho, em A Literatura no Brasil, não ignorou a questão da formação da literatura brasileira. A discussão está presente em algumas páginas do prefácio à primeira edição da obra de Coutinho, sendo importante observar que as considerações elaboradas por Afrânio sobre as características marcam a evolução da literatura brasileira [56]: predomínio do lirismo; exaltação da natureza; ausência de tradição; alienação do escritor; divórcio com o povo; ausência de consciência técnica; culto da improvisação; literatura e política; imitação e originalidade, metrópole e província. Afrânio Coutinho afirma que os escritores são “alienados”, porque vivem divorciados de uma tradição, separados dos predecessores, da sociedade que o desconhece, ignorante de seus semelhantes aos quais não lhes dá atenção devida. Esses elementos existentes, conforme Coutinho, resultam em: marginalidade, isolamento, esquecimento após a morte, ausência de uma tradição (a posterior metáfora da tocha de Antonio Candido). De acordo com Afrânio Coutinho, a luta entre a tradição importada e uma possível continuidade nova configura-se o grande drama da evolução intelectual nacional, atrapalhando a consolidação de uma tradição, nas letras brasileiras. Como ressalta Coutinho: “Cada escritor, cada geração sente-se obrigada a partir do começo.” [57]

A Literatura no Brasil, enquanto obra educacional voltada ao ensino e à difusão historiográfica da Literatura, apresenta um aspecto importante que deve ser ressaltado: Ao justificar o seu método de abordagem historiográfico literário, observando os aspectos históricos, que de acordo com o Professor são secundários, o elemento de análise primordial é sempre a própria obra literária estética, “como fenômeno autônomo”, pois Coutinho ancora-se em uma concepção estética do “monumento literário”, como “um sistema de sinais com um propósito estético específico” (René Wellek):

Assim, admitindo-se a contribuição histórica, não se perde de vista a norma geral que é literária e crítica, dando ênfase à análise literária, através do estudo das obras propriamente ditas, interpretando-as à luz da tradição literária, pelo significado que elas adquiriram dentre dessa tradição, pela contribuição que lhe trouxeram. Tentando-se adaptar o método genológico ao estilístico, - as duas abordagens mais adequadas ao estudo da literatura, - o fenômeno literário é encarado - insista-se - como fenômeno autônomo, não subordinado, mas equivalente às outras formas de vida com as quais se relaciona. Em suma, o princípio de ordem da obra é estético, e não histórico. [58]

A periodização da “História dos Estilos” construída por Afrânio, base da configuração de A Literatura no Brasil, apresenta alguns problemas-chave porque, quando Coutinho disserta sobre a sucessão de estilos estéticos, que compõem a sua obra, refere-se a uma escala evolutiva linear cujo ápice encontrar-se-ia na consolidação da ‘consciência nacional’ brasileira. Assim sendo, a ‘evolução’ e a ‘nacionalidade’ são algumas noções da argumentação historiográfica, imprimindo um aspecto que, como seus antecessores historiadores, atrela-se à história contextual e à cronologia políticas, repetindo na sua história da literatura aquilo que havia recusado e admoestado nos outros historiadores.

A Literatura no Brasil, publicada entre 1955 - 1959, tenta demonstrar em sua configuração “o ponto de vista estético na tradição nacionalista (…) como História dos Estilos” estéticos e literários, que, enquanto gênero historiográfico literário, inevitavelmente, a contragosto de seu organizador Professor Dr. Afrânio Coutinho, recai sobre os aspectos “historicistas” da Literatura Brasileira, como se observa em sua leitura. Entretanto, esta obra possui um aspecto muito relevante e “sem extremismos”, na tradição da historiografia literária brasileira, gerada no âmago da universidade pública brasileira, porque ela ressalta a importância do Literário, nos estudos literários, já que não se deve olvidar a função pedagógica da História da Literatura: revisão, ensino e difusão do conhecimento, propriamente, literário e humanístico.

O Professor Doutor Afrânio Coutinho da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ afirma, no prefácio da primeira edição de A literatura no Brasil, em 1955, que a obra “representa uma reação”, “em nome da crítica intrínseca ou estético-literária, ou poética” [59], pois esta construção coletiva “restringe-se às obras de natureza estética ou pertencentes aos gêneros propriamente literários, obras de imaginação” [60], pressupondo, permanentemente, a soberania da Literatura, enquanto “monumento literário”, como “um sistema de sinais com um propósito estético específico.”

Demonstrando a consciência do pesquisador e do educador de literatura, situado em seu tempo educacional, no encerramento da “Introdução Geral”, Professor Dr. Afrânio Coutinho afirma que A Literatura no Brasil possui a pretensão de uma nova ordenação do “estudo da obra mesma, à luz de uma teoria estética”, marco da historiografia literária no século XX, “tarefa sempre em andamento, cabendo a cada geração refazê-la e completá-la”. Conforme o Educador e Historiador:

A história da literatura é uma tarefa sempre em andamento, cabendo a cada geração refazê-la e completá-la. (…)

Pretende, assim, A Literatura no Brasil ser uma nova ordenação e hierarquização de valores, uma reavaliação e reinterpretação da literatura brasileira, baseada em conveniente reunião de fatos estabelecidos e sugeridos pela pesquisa e pelo pensamento crítico atuais. De acordo com os moldes recomendados por Wellek, procura fugir ao “excessivo determinismo que reduz a literatura a mero espelho passivo de outras atividades humanas”, concentrando-se, embora sem extremismos, no estudo da obra mesma, à luz de uma teoria estética da literatura e da história da literatura. [61] (A Literatura no Brasil: 1955 - 1959)

 

Notas:

[1] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. (1955-1959).

[2] Obras: Daniel Rops e a ânsia do sentido novo da existência, ensaio (1935); O humanismo, ideal de vida, ensaio (1938); L'Exemple du métissage, in L'Homme de couleur, ensaio (1939); A filosofia de Machado de Assis, crítica (1940); Aspectos da literatura barroca, história literária (1951); O ensino da literatura, discurso de posse na cátedra de Literatura do Colégio Pedro II (1952); Correntes cruzadas, crítica (1953); Da crítica e da nova crítica (1957); Euclides, Capistrano e Araripe, crítica (1959); Introdução à literatura no Brasil, história literária (1959); A crítica (1959); Machado de Assis na literatura brasileira, crítica (1960); Conceito de literatura brasileira, ensaio (1960); No hospital das letras, polêmica (1963); A polêmica Alencar-Nabuco, história literária (1965); Crítica e poética, ensaio (1968); A tradição afortunada, história literária (1968); Crítica & críticos (1969); Caminhos do Pensamento Crítico, ensaios (1972); Notas de teoria literária, didática (1976); Universidade, instituição crítica, ensaio (1977); Evolução da crítica literária brasileira, história literária (1977); O erotismo na literatura: o caso Rubem Fonseca, crítica (1979); Tristão de Athayde, o crítico, crítica (1980); O processo da descolonização literária, história literária (1983); As formas da literatura brasileira, ensaio (1984); Reformulação do currículo de Letras, educação (1984); Impertinências, artigos e ensaios (1990); Do Barroco, ensaios (1994). Ainda, em sua trajetória acadêmica, Professor Afrânio Coutinho publicou inúmeros artigos, prefácios e estudos críticos, no Brasil e no exterior.
        Obras Organizadas: Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (s.d.); Os retirantes, de José do Patrocínio (s.d.); Cabocla, de Ribeiro Couto (1957); A literatura no Brasil, 4 vols. (1955-59), 6 vols. (1968-71 e 1986); Obra completa de Jorge de Lima (1959); Obra completa de Machado de Assis, 3 vols. (1959); Brasil e brasileiros de hoje, biografias (1961); Romances completos de Afrânio Peixoto (1962); Obra completa de Carlos Drummond de Andrade (1964); Estudos literários de Alceu Amoroso Lima (1966); Obra completa de Euclides da Cunha, 2 vols. (1966); Obra poética de Vinicius de Morais (1968); Obra crítica de Araripe Júnior, 5 vols. (1958-1966); Cruz e Sousa (1975); Obras de Raul Pompéia, 10 vols. 1981-1985; Enciclopédia de Literatura Brasileira, 2 vols. (1990). Para a coleção Fortuna Crítica, organizou os volumes Carlos Drummond de Andrade (1977); Graciliano Ramos (1977); Cassiano Ricardo (1979); Manuel Bandeira (1980). Além de colaboração em jornais, desde 1934, escreveu inúmeros artigos para diversas revistas especializadas reconhecidas nacionais e internacionais.

[3] Alguns dados biográficos e bibliográficos foram retirados da Academia Brasileira de Letras - ABL.

[4] Dentre os primeiros escritores de A Literatura no Brasil, estavam: Antonio Candido, José Aderaldo Castello, Câmara Cascudo, Wilson Martins, Matoso Câmara Jr., Segismundo Spina, Cândido Jucá (Filho), Waltensir Dutra, Eugênio Gomes, Antônio Soares Amora, Adônias Filho, Fausto Cunha, Cassiano Ricardo, Armando de Carvalho, Fernando de Azevedo, Josué Montelo, Barreto Filho, Augusto Meier, Xavier Placer, Edgard Cavalheiro, Herman Lima, Hernâni Cidade, Otávio de Faria, Peregrino Júnior, Aderbal Jurema, Heron de Alencar, Carlos Burlamáqui Kopke, Wilson Lousada, Décio de Almeida Prado, et alli.

[5] A primeira edição da obra de 1955, publicada pelo Editorial Sul Americana S.A, traz, em sua contracapa, o seguinte planejamento: Vol. I: Introdução, Barroco, Neoclassicismo, Arcadismo, Romantismo. Vol. II: Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Vol. III: Simbolismo, Modernismo e Tendências Contemporâneas.

[6] http://www.ceac.ufrj.br/

[7] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p. 71.

[8] Ibidem. p. 23.

[9] Ibidem. p. 22.

[10] Ibidem. p. 72-73

[11] BOSI, Alfredo. “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” in: Literatura e resistência. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 27

[12] Nota referencial: “Croce identifica a poesia - e a arte em geral - com a forma da atividade teorética que é a intuição, conhecimento do individual, das coisas singulares, produtora de imagens - em suma, forma de conhecimento oposta ao conhecimento lógico. A intuição é concomitantemente expressão, pois a intuição distingue-se da sensação, do fluxo sensorial, enquanto forma, e esta forma constitui a expressão. Intuir é exprimir. A poesia, como toda a arte, revela-se portanto como intuição-expressão: conhecimento e representação do individual, elaboração alógica, e por conseguinte irrepetível, de determinados conteúdos. A obra poética, conseqüentemente, é una e indivisível, porque “cada expressão é uma expressão única”. AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. p. 219-220.

[13] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p 74.

[14] Afrânio Coutinho: “vulgarizador de doutrinas alheias” In: MARTINS, Wilson. A crítica literária no Brasil, Vol. II; 3ª edição atual. RJ: Francisco Alves, 2002. p. 55-62.

[15] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p. 74.

[16] Algumas obras fundadoras do New Criticism: Ivor Armstrong Richards: Principles of Criticism,1924; William Empson: Seven Types of Ambiguity,1930; Allen Tate, Reactionary Essays on Poetry and Ideas, 1936; Clenth Brooks, Modern Poetry and the Tradition, 1939; John Crowe Ransom, The New Criticism, 1941; Austin Warren, Pure and Impure Poetry, 1943; William K. Wimsatt, The Verbal Icon. Studies in the Meaning of Poetry, 1954.

[17] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p. 74.

[18] MARTINS, Wilson. A crítica literária no Brasil, Vol. II; 3ª ed. atual. RJ: Francisco Alves, 2002. p. 62.

[19] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A.,1955. p. 25

[20] Ibidem. p. 26.

[21] Ibidem. p. 24.

[22] Segundo Afrânio Coutinho: “Estilo individual é o aspecto particular de um artefato verbal que revela a atitude do autor na escolha de sinônimos, vocabulário, ênfase no material vocabular abstrato ou concreto, preferências verbais ou nominais, propensões metafóricas ou metonímicas, tudo isso, porém, não só do ponto de vista do écart do dicionário e da sintaxe, mas, também, do ponto de vista do todo ficcional, cuja organização é servida por essas preferências com todos os pormenores e ramificações artísticas. Estilo de época é a atitude de uma cultura ou civilização que surge com tendências análogas em arte, literatura, música, arquitetura, religião, psicologia, sociologia, formas de polidez, costumes, vestuário, gestos, etc. No que diz respeito à literatura, o estilo de época só pode ser avaliado pelas contribuições da feição de estilo, ambíguas em si mesmas, constituindo uma constelação que aparece em diferentes obras e autores da mesma era e parece informada pelos mesmos princípios perceptíveis nas artes vizinhas”. COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. p. 33.

[23] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. p. 79.

[24] Ibidem. p. 26.

[25] Ibidem. p. 70.

[26] Ibidem. p. 27-36.

[27] Ibidem. p. 77.

[28] Ibidem. p. 71.

[29] Ibidem. p. 31.

[30] Ibidem. p. 30.

[31] Ibidem. p. 28.

[32] Ibidem. p. 21.

[33] Ibidem. p. 29.

[34] O prefácio da terceira edição, em 1986, ocupa meia página, contendo três breves parágrafos, apenas para informar que a Era Modernismo havia chegado ao seu término por volta de 1960 e as novas perspectivas insinuavam um período já denominado de Pós-modernismo;

[35] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. p. 29.

[36] Ibidem. p.30.

[37] Ibidem. p. 72.

[38] Ibidem. p. 42-43.

[39] Ibidem. p. 44.

[40] Ibidem. p. 41.

[41] Ibidem. p. 71.

[42] Ibidem. p. 24.

[43] Ibidem. p. 42.

[44] Ibidem. p. 26-27.

[45] COUTINHO, Afrânio. A tradição afortunada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968. p. 179.

[46] Idem. Introdução à literatura no Brasil. RJ: Livraria São José, 1964. p. 113.

[47] NUNES, Benedito. “Historiografia literária do Brasil”. In: Idem. Crivo de papel. São Paulo, Ática, [s.d.]. p 240.

[48] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. p. 51.

[49] Ibidem. p. 53.

[50] COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Pallas/ MEC, 1976. p. 17.

[51] A discussão sobre nacionalidade será desenvolvida por Afrânio em: COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Pallas/ MEC, 1976. COUTINHO, Afrânio. A tradição afortunada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

[52] WEBER, João Hernesto. A nação e o paraíso: A construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira. Florianópolis, Editora UFSC, 1997. p. 98.

[53] COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Pallas/ MEC, 1976.p 10.

[54] Ibidem. p. 13-14.

[55] Ibidem. p. 16.

[56] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. p. 58-62.

[57] Ibidem. p. 59.

[58] Ibidem. p. 84-85.

[59] Ibidem. p. 71.

[60] Ibidem. p. 77.

[61] Ibidem. p. 85.

 

© Flávio Leal 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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