Fausto na Espanha: Futebol, identidade e exílio

Marcelino Rodrigues da Silva

Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações (UNINCOR)
Mestrado em Letras - Linguagem, Cultura e Discurso
lino-rodrigues@uol.com.br


 

   
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Resumo: Em meados de 1931, Fausto, um negro truculento que jogava no Vasco, se transferiu para o Barcelona, abandonando a delegação de seu clube no meio de uma excursão pela Europa. A atitude foi motivada pelas humilhações e injustiças a que os jogadores mais pobres eram submetidos pelo regime amadorista e pela ideologia elitista que ainda imperava no futebol brasileiro. O caso recebeu grande atenção do jornal O Globo, dirigido na época por Mário Filho, que mais tarde retomou a história no livro O negro no futebol brasileiro. Ao recolocar o tema pelo ângulo do exílio e da desterritorialização, a análise desse episódio pode ser uma boa oportunidade para deslocar de seus lugares comuns a reflexão sobre a identidade cultural brasileira.
Palabras clave: futebol, identidade, exílio, desterritorialização, fronteira.

 

Meu Fausto, vocês já devem ter desconfiado, não é o alquimista lendário recriado por Goethe. Mas, pelo menos em um aspecto, até que se parece com ele. Se o trágico personagem alemão pode representar os dilemas do homem ocidental diante da modernidade, o meu, um “Fausto de botequim” (como diria Nelson Rodrigues), revela as fissuras do precário e sempre inacabado projeto de modernização da sociedade brasileira. Sua história foi contada por Mário Filho, no livro O negro no futebol brasileiro, e seu capítulo mais interessante pode ser acompanhado em detalhes nos diversos jornais cariocas do ano de 1931, disponíveis no acervo da Biblioteca Nacional. Especialmente no jornal O Globo, que dedicou grande atenção ao episódio e que naquela época tinha justamente Mário Filho no comando de suas páginas esportivas.

Fausto foi um center-half negro, filho de uma lavadeira, que atuava no time de futebol Vasco da Gama, no final dos anos 20 e início dos anos 30. Embora possuísse reconhecidas qualidades técnicas, desempenhando a função de comandante do meio de campo do time, tinha como característica mais marcante o estilo viril e truculento. Segundo Mário Filho, Fausto direcionava essa truculência sobretudo aos jogadores brancos e elegantes que comandavam os grandes clubes cariocas, numa época em que as elites brasileiras ainda viam no futebol um símbolo de distinção social e sintonia com os padrões europeus de cultura e civilidade. É importante mencionar que o Vasco tinha sido justamente o clube que havia começado a romper essa visão, conquistando o campeonato carioca de 1923 com um time formado por jogadores pobres, muitos deles negros e mulatos.

No livro de Mário Filho, Fausto é tomado como um símbolo daquele momento do futebol brasileiro, em que o preconceito racial e o regime amadorista impediam a ascensão dos inúmeros craques que, com a popularização do esporte, surgiam sem parar nos times suburbanos, atraindo a atenção dos grandes clubes. Com sua personalidade tímida e hostil e seu estilo truculento, ele representava, para o cronista, a “revolta do preto” diante das injustiças e humilhações a que os negros eram submetidos, no esporte e fora dele. Como uma espécie de espelho invertido de Fausto, representando uma outra faceta dos dilemas colocados por aquelas circunstâncias, figurava no elenco do Vasco o goleiro Jaguaré. Ele também era pobre e negro, mas tinha um estilo malandro e pernóstico, fazendo malabarismos com a bola e se oferecendo à curiosidade pública pelo exotismo do mundo subterrâneo de onde vinham sambistas, capoeiristas e craques de bola.

Naquela época, o futebol brasileiro vinha passando por uma grave crise, provocada pelo conflito entre os que defendiam a manutenção do regime amador, que colocava empecilhos para a progressiva ascensão dos craques suburbanos e tentava manter no esporte um ambiente refinado e elegante, e os que queriam a implantação do profissionalismo, que de alguma forma atenderia às demandas desses novos personagens. Uma das conseqüências mais comuns desse conflito era a freqüente transferência de jogadores brasileiros para clubes de países europeus e sul-americanos em que o regime profissional já havia sido estabelecido. São bastante lembradas, por exemplo, as contratações de jogadores paulistas de ascendência italiana pelos clubes daquele país, incentivadas por Mussolini, que queria formar uma seleção forte para conquistar a Copa do Mundo de 1934, que seria disputada na própria Itália.

Foi nesse contexto que o Vasco da Gama partiu, em meados de 1931, para uma excursão pela Europa, com Fausto e Jaguaré em sua delegação. Fortes rumores, amplamente difundidos por jornais como O Globo, diziam que eles estavam sendo assediados pelo Barcelona, desde sempre uma potência do futebol europeu. No fim da excursão, os dois craques brasileiros abandonaram a delegação vascaína, efetivando sua decisão de aceitar a proposta do clube espanhol e abraçar a aventura profissional em terras estrangeiras. Num tom melodramático que era típico de seu estilo jornalístico, O Globo noticiou o acontecimento em sua edição do dia 17 de agosto de 1931, reproduzindo as palavras de um diretor do Vasco que esteve presente no momento da separação:

Foi comovente a despedida. Quando Jaguaré e Fausto abraçaram os jogadores que partiam de regresso à pátria, todos, todos, na embaixada choraram. Não exagero. Tanto é verdade que eu chorei. Chorei, também, como os outros. Ninguém, aliás, podia resistir à cena, que era emocionante. Todos se comoveram.

A adaptação de Fausto ao futebol e à vida na Europa foi, naturalmente, um pouco difícil, gerando novos rumores na imprensa brasileira. Algumas semanas mais tarde, O Globo enviou um representante a Barcelona, a fim de verificar a veracidade daqueles rumores e ver como o jogador ia se virando por lá. Aproveitando a oportunidade para jogar mais lenha no debate sobre a adoção do profissionalismo, o jornal publicou, em 29 de setembro de 1931, uma longa reportagem sobre o encontro de seu repórter com Fausto, na Espanha. Na abertura da matéria, o enviado especial do jornal expressa francamente sua opinião de que o amadorismo era uma exploração e narra detalhadamente seu encontro emocionado com o jogador, enfatizando seu estado de abandono afetivo, denunciado pelo quarto desarrumado.

No depoimento do atleta, os sentimentos de solidão, revolta e desejo de ascensão social são destilados em frases rancorosas sobre a condição do jogador brasileiro: “Sim: na minha terra, depois do jogo, é imprescindível ao jogador iniciar uma atividade tremenda para ganhar uns miseráveis mil réis. (...) Nós, que levantamos lá centenas de contos de réis, (...) passamos fome vestidos com o traje da fama.” Abaixo do texto, a foto de uma declaração escrita em letra cursiva pelo próprio Fausto assegurava, em tom heróico e patriótico, que ele não se naturalizaria espanhol para jogar as partidas oficiais do Barcelona: “Desde a Espanha fidalga declaro ao Brasil que, esteja onde estiver, serei sempre digno de minha pátria.”

A passagem de Fausto pela Europa foi, como era de se esperar, curta e mal sucedida, passando pelos Young Boys, de Berna, de onde voltou para o Vasco. Depois desse episódio, Fausto ainda teve um momento de glória, ganhando o título carioca de 1934, mas se entregou à boemia e teve um fim de carreira patético. Viu seu prestígio declinar, abandonou melancolicamente o esporte e morreu tuberculoso, esquecido e na miséria, ainda em 1939. Jaguaré, seu companheiro naquela aventura, teve uma passagem mais marcante pelo futebol europeu, jogando no Olympique de Marselha, onde obteve fama e sucesso, mas também encerrou tristemente sua carreira esportiva e morreu na miséria.

Nos textos sobre a história e as significações do futebol no Brasil, são freqüentes certos lugares comuns, sempre repetidos tanto nas teses e trabalhos acadêmicos quanto nas obras de arte e no discurso do jornalismo esportivo. Na maioria das vezes, o futebol é visto como um terreno de construção da identidade cultural e dos laços afetivos que unem os membros da nação brasileira; um campo dramático onde se construiu uma imagem do Brasil que vigorou com sucesso durante a maior parte do século XX. É o Brasil do samba, do carnaval e do futebol, o Brasil mulato que, conforme as palavras de Gilberto Freyre, “é ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas e em músicas, as técnicas européias ou norte-americanas” (FREYRE, 1967, 431-432). Um Brasil nacional-popular, em que os negros e os pobres foram incorporados e passaram a fazer parte da imagem que a sociedade projeta de si mesma por meio de suas diversas práticas culturais. A história trágica de Fausto, no entanto, talvez se pareça mais com a letra de um rap de MV Bill ou dos Racionais MC´s, e lembrá-la hoje nos ajuda a ver com clareza os limites e inconsistências do projeto de modernização que aqui foi conduzido.

Já de saída, temos que Fausto é um estrangeiro em seu próprio país. A sociedade que se buscava construir e representar por meio do futebol, nas primeiras décadas do século XX, era aquela sociedade fortemente segmentada da Primeira República. Uma sociedade ainda dominada pela aristocracia rural, que bancava surtos modernizantes de escopo extremamente restrito, para proveito exclusivo das elites que habitavam as grandes cidades do país. As mesmas elites que promoveram a reforma urbana no Rio de Janeiro, em 1904, tentando eliminar de seu convívio as camadas populares que habitavam o centro da cidade, e que sustentavam um regime político que negava o voto aos analfabetos, às mulheres e aos praças-de-pré. No futebol, essa imagem da sociedade era sustentada pelas regras impostas aos atletas pelo regime amador, pelo tratamento desigual de jogadores e torcedores na vida esportiva e social dos clubes e por um jornalismo que defendia com unhas e dentes os interesses e as ideologias que as elites projetavam no esporte.

Naquele ambiente, a própria presença de jogadores como Fausto era vista como uma invasão, como um cancro que a boa sociedade deveria extirpar. Mas a qualidade técnica desses atletas acabava fazendo com que os grandes clubes os mantivessem em seus quadros, buscando discipliná-los e submetê-los a diferentes formas de controle social. Desse modo, a truculência e a revolta de Fausto, que descontava em seus adversários os seus rancores sociais e arriscou-se na Espanha para não mais “passar fome vestido nos trajes da fama” em sua própria terra, mostram o quanto a nação possuía suas fronteiras internas, demarcando e segregando as diferenças e resolvendo contra a maioria os seus conflitos e antagonismos.

Por isso, o nosso trágico Fausto escolheu o exílio, ou foi praticamente obrigado a fazê-lo. Suas palavras amarguradas e o estado de abandono em que foi encontrado na Europa evidenciam que também lá Fausto era um estrangeiro, um desterritorializado. É fácil entrever aí as dificuldades de um atleta humilde, com dificuldades para se adaptar a uma outra língua e uma outra cultura, que sente saudades de sua terra, por mais difícil que tenha sido sua vida nela. “Desde a Espanha fidalga”, Fausto queria continuar sendo digno de sua verdadeira pátria, mas precisou se afastar dela para assumir seu sentimento de pertencimento. E, quando voltou ao seu suposto país, ele não encontrou “as aves que aqui gorjeiam”, mas a miséria, a morte e o esquecimento.

É claro que, no livro de Mário Filho e na história oficial, esse episódio se encontra num momento anterior à ascensão dos craques negros e mulatos, que acabaram conquistando a fama, o dinheiro e o reconhecimento por meio da geração que iniciava ali sua trajetória, com Leônidas da Silva e Domingos da Guia, e das seguintes, com Didi, Pelé, Garrincha e tantos outros. Mas as fraturas que ele revela na sociedade brasileira nunca deixaram de existir. O próprio Mário Filho mostra, em seu livro, ter plena consciência disso, interpretando a derrota do Brasil na Copa de 50 como um momento de “recrudescimento do racismo” e afirmando a necessidade simbólica do aparecimento de Pelé, para nos lembrar da possibilidade de que “os pretos, brasileiros e de todo o mundo, pudessem livremente ser pretos”. Nos dias de hoje, as histórias reincidentes de jovens humildes que fracassam no futebol europeu, bem como a nossa convivência cotidiana com territórios conflagrados e combates dignos de uma guerra civil, são outras tantas demonstrações do quanto podemos ser estrangeiros em nossa própria terra, do quanto continuam presentes as fronteiras internas da nação.

E essas fronteiras nem sempre podem ser mapeadas pela simples demarcação dos limites econômicos, sociais e raciais que dividem a sociedade em ricos e pobres, cultos e iletrados, brancos e pretos etc. No episódio que acabei de contar, a figura malandra e exibicionista de Jaguaré se contrapõe à revolta e à truculência de Fausto, revelando outra face daquele universo sociocultural que se constituía nas grandes cidades brasileiras. As fronteiras que faziam de Fausto um estrangeiro em sua própria terra se encontravam também dentro de sua própria raça e de sua própria classe social. Talvez mesmo dentro de si próprio, como sugere sua atitude vacilante diante das oportunidades que lhe ofereciam na Europa. Nos meandros de nosso complexo processo de modernização, as estruturas sociais, as práticas culturais e as ideologias que chegam de fora se transformam e se diversificam, desdobrando-se em diferenças que não podem ser captadas pelas dicotomias mencionadas acima. O outro que nos desafia e intriga pode muitas vezes estar exatamente ao nosso lado.

Concluo esta comunicação, portanto, afirmando que o episódio da ida de Fausto para a Espanha nos mostra que a nossa modernidade periférica e diferencial não é apenas um processo de homogeneização cultural, que nos reduz na chave do atraso à temporalidade instaurada pela modernidade européia e nos incorpora gradativa e inexoravelmente à sua espacialidade global. Na precária e incompleta modernidade brasileira e latino-americana, parecem conviver de modo instável e conflituoso diferentes articulações de espaço e tempo, nas quais podemos simultaneamente nos reconhecer e nos estranhar, sentindo-nos um pouco estrangeiros mesmo quando estamos em nossa própria casa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREYRE, Gilberto. Sociologia. 4ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1967, 2v.

HERSCHMANN, Micael M.; PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O imaginário moderno no Brasil. In: ______. A invenção do Brasil moderno: medicina, educação e engenharia nos anos 20-30 (Orgs.). Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p.9-42.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

MIRANDA, Wander Melo. As fronteiras internas da nação. In: Anais do 5º Congresso da Abralic - Cânones e contextos. 1998. Rio de Janeiro. p.417-423.

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PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro - 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

RODRIGUES FILHO, Mário Leite. O negro no futebol brasileiro. 3ed. Petrópolis: Firmo, 1994.

SILVA, Marcelino Rodrigues da. Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

SOARES, Antonio Jorge. História e invenção de tradições no campo do futebol. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, n.23, p.119-146, 1999.

 

© Marcelino Rodrigues da Silva 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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