A ”ilha” Machado de Luciana Stegagno-Picchio*

André Cechinel

Doutorando em Literatura
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
andrecechinel@yahoo.com.br


 

   
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Resumo: o presente ensaio se propõe a abordar o modo como a historiadora italiana Luciana Stegagno-Picchio posiciona Machado de Assis em seu livro intitulado História da Literatura Brasileira. Em outras palavras, para a italiana, Machado constitui uma espécie de "ilha" dentro do quadro literário nacional, merecendo, pois, um tratamento isolado, que é por ela empreendido no capítulo chamado "O Século XIX: Machado de Assis". Nesse sentido, se Machado de Assis é lateralizado pelo trabalho historiográfico de Luciana Stegagno-Picchio, a leitura do capítulo sobre o célebre autor pode nos ajudar a compreender o modo como o olhar estrangeiro percebe sua importância dentro da história literária brasileira. Resumidamente, então, este ensaio visa ler a figura de Machado a partir da visão de Luciana Stegagno-Picchio.
Palavras-chave: Luciana Stegagno-Picchio, Machado de Assis, historiografia.

Abstract: this essay intends to discuss the way Italian historian Luciana Stegagno-Picchio places Machado de Assis in her book entitled História da Literatura Brasileira. In other words, for the Italian writer, Machado constitutes some sort of “island” within the Brazilian literary history, deserving, therefore, a particular treatment, which is presented in the chapter called “O Século XIX: Machado de Assis”. In this sense, if Machado is put in a particular position in Luciana Stegagno-Picchio’s historiographic work, the reading of her chapter on the famous writer may help us to better understand how foreign scholars perceive his importance within the history of Brazilian literature. Thus, summing up, this study aims at reading Machado’s character from the perspective of Luciana Stegagno-Picchio.
Keywords: Luciana Stegagno-Picchio, Machado de Assis, historiography.

 

Um problema fundamental se interpõe entre o pesquisador e qualquer proposta de fazer história da literatura, a saber, a questão da periodização literária. Conforme coloca Afrânio Coutinho (1960: 18), muitos historiadores consideram esse um assunto de pouca importância, o que os leva a reduzir sua empresa a uma série de nomes ligados apenas por uma cronologia que, na realidade, se confrontada com a diversidade dos textos que agrupa, é totalmente arbitrária. Para o autor, essa forma de historiar procura apenas proporcionar uma organização cômoda para um conjunto que, de fato, deveria ser considerado em sua diversidade constitutiva, pois é dessa diversidade, dessa singularidade, que extraímos a razão pela qual sua presença torna-se inevitável na historiografia literária de determinada tradição. Para ilustrar o que comenta, Coutinho cita o caso da literatura inglesa do século XIX, que, sob o título de "época vitoriana", "inclui autores literariamente tão díspares como Oscar Wilde e Carlyle, Hopkins e Macauley, Pater e Darwin, Kipling e Ruskin” (1960: 19). Logicamente, a crítica a essa perspectiva estritamente diacrônico-cronológica de periodização literária por vezes não consegue oferecer uma saída que não acabe desviando-se de seu projeto principal, que é o de historiar a literatura.

Cabe explicar: utilizando novamente as palavras de Coutinho, vale lembrar que recorrer a uma filosofia de valores em lugar de um sistema de periodização significa, também, sair da própria história literária para recair exclusivamente em um espaço crítico ensaístico (1960: 19). Ou seja, historiar a literatura está longe de ser o mesmo que agrupar uma série de ensaios críticos sobre uma diversidade de autores, uma vez que antologizar não é, a rigor, historiar. Mais uma vez, como nos diz Coutinho, a história da literatura “exige uma filosofia do desenvolvimento literário, da evolução das formas, ela exige, em uma palavra, uma filosofia da história” (1960: 19). É bem verdade que, mesmo não sendo inteiramente uma linha cronológica consistente, a periodização não pode dela se libertar totalmente, já que, como é dispensável dizer, há sempre um acontecimento histórico datado subjacente ao fazer literário. Eis, então, a linha tênue sobre a qual deve se equilibrar qualquer proposta de historiar uma tradição literária: ao mesmo tempo em que não pode ficar absolutamente presa à estabilidade cronológica, que seguraria os textos em pauta, não cabe recorrer a uma fuga convicta dos eventos que contextualizam, até certo ponto, o fazer literário de um dado período. Como diz Coutinho,

O que se combate não é a cronologia, mas a tirania cronológica. O que se repele é que a divisão periódica seja baseada apenas em datas arbitrárias ou nas dos feitos políticos. Que sentido tem asseverar que um período literário começou em tal data, quando sabemos que não há começos nem fins abruptos em literatura, nem na história, nem na vida? (1960: 20).

A discussão é, com efeito, recorrente entre os teóricos da literatura. No célebre ensaio intitulado “Reflexões a Respeito de um Manual”, Roland Barthes comenta que, não raro, tudo o que nos resta de uma forte tradição literária são “objetos que se repetem, que voltam o tempo todo, a que se poderia quase chamar monemas da língua metaliterária ou da língua da história da literatura” (2004: 44). Esses objetos são, certamente, como o próprio crítico observa, autores, escolas, movimentos, datas, gêneros e séculos. Em outras palavras, com o intuito didático de paralisar e classificar a tradição, a crítica reduz toda a vida passada a quadros que expressariam grosseiramente um objeto que, a bem da verdade, mantém-se vivo justamente por uma mobilidade que lhe é intrínseca. Ao invés de uma gramática cristalizada, na qual os nomes têm seu posto garantido de antemão, Barthes propõe uma espécie de tremular do tempo, um reaquecer e redimensionar textos que se encontram em um passado já distante. Em suma, em oposição a uma entrada burocrática dos textos nos manuais, Barthes fala de fantasmas que devem ser perturbados, peças de museus que precisam ser provocadas. Segue disso o desafio que o anacronismo representa para o crítico: fazer história da literatura é conquistar um tempo passado, torná-lo tempo presente e também tempo futuro. Novamente, a inclusão de um autor em um livro de história da literatura não pode dar-se para cumprir com uma burocracia; qualquer das aparições dos fantasmas do passado deve provocar um abalo temporal. Fazer história da literatura é balançar o império cronológico.

Para os problemas acima postos, Coutinho sugere o sistema periodológico de natureza estilística, que, segundo o autor, embora não pretenda abolir ou escapar da cronologia, não a toma como critério primeiro, principalmente porque a cronologia nada diz sobre o teor estético de um período (1960: 20). Nessa concepção, a cronologia é absolutamente respeitada, mas não tomada como ponto de convergência dos diversos textos situados em um mesmo momento histórico. Ora, esse critério estilístico parece ser o mesmo adotado pela historiadora italiana Luciana Stegagno-Picchio, autora do célebre História da Literatura Brasileira, talvez o livro de historiografia literária brasileira mais importante escrito por um autor estrangeiro. Em poucas palavras, Stegagno-Picchio anuncia já de saída as dificuldades por ela atravessadas em seu projeto. Para a autora, "nas histórias de inspiração sociopolítica [...] costuma-se dar ênfase essencialmente à situação colonial, da qual cada gesto recebe seu peculiar significado e colorido" (2004: 17). São “histórias do por quê”. Nas “histórias estilísticas”, por sua vez, “tende-se sobretudo a isolar um estilo local, suscetível de formar-se no tempo, sempre em relação com os acontecimentos sociopolíticos exteriores, mais descrito porém em suas constantes expressivas do que explicado em seus motivos inspiradores” (2004: 17). São as "histórias do como", que, ao que parece, privilegiam a mobilidade dos textos. Stegagno-Picchio deixa clara sua escolha desde a introdução, isto é, pretende escrever uma história literária do "como".

Segundo a autora, sua história da literatura brasileira ocupa-se de "todo o complexo dos textos literários compostos em língua portuguesa do século XVI aos nossos dias, no Brasil, por escritores nascidos ou amadurecidos dentro de coordenadas culturais brasileiras" (2004: 20). Ora, esse complexo que o livro se propõe a apresentar representaria uma “tradição estilística autônoma”, dentro de uma estrutura até certo ponto auto-suficiente. Seja como for, Stegagno-Picchio nota que, apesar de direcionado inicialmente para um público estrangeiro, sua abordagem pode funcionar como uma interpretação dos fatos literários brasileiros em todos os níveis. Colocado de outra forma, a destinação primeira do livro, isto é, o público italiano, não impede uma apreciação global do trabalho historiográfico por ela realizado. Em suma, essa “história do como”, escrita a partir de um olhar, digamos, estrangeiro, pode trazer elementos novos para a própria historiografia brasileira. Stegagno-Picchio resume de modo bastante direto seu projeto no oitavo item da introdução que abre o volume:

[...] O presente volume, mais que "uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”, quer ser, de um lado, um guia histórico para a inteligência dos fatos literários isolados, e do outro, uma tentativa de balanço, sob o ângulo sincrônico de nossa atual visão estética e de nosso gosto, de um patrimônio literário dentro do qual podemos reconhecer, em cada nível cronológico, as obras que nos são contemporâneas (2004: 23).

Esse equilíbrio entre cronologia e um ponto de vista estilístico pode ser visto já na divisão de capítulos adotada pela historiadora. História da Literatura Brasileira é composto de 17 seções, que, embora guiadas por uma seqüência temporal recorrente nos manuais de literatura, apresenta capítulos que interrompem, de certa maneira, a previsibilidade das classificações mais recorrentes. Em outras palavras, apesar de seguir a famosa ordem “quinhentismo”, “barroco”, “árcade” etc, o livro de Luciana Stegagno-Picchio reserva um espaço para tratar de teatro, música popular, cinema, crítica literária, entre outros. O décimo sétimo capítulo do livro, por exemplo, mostra justamente a força que o teatro brasileiro ganha a partir da década de 40, fato esse que é muitas vezes deixado de lado nas histórias da literatura. Outra aparição que se destaca quando confrontada com os demais manuais é a figura de Machado de Assis, costumeiramente tratado como o escritor brasileiro de maior importância. No livro de Stegagno-Picchio, Machado é investigado em um capítulo particular, intitulado "O Século XIX: Machado de Assis". Nesse capítulo, a primeira das subdivisões chama-se "A 'Ilha' Machado de Assis na Literatura Brasileira”, título esse resultante da leitura que a autora faz do modo como o autor de Dom Casmurro é frequentemente lateralizado pela crítica literária brasileira. Ou seja, a historiadora italiana sabe que Machado constitui uma espécie de ponto chave, ou melhor, uma sorte de “ilha” dentro do quadro literário brasileiro.

Tendo em vista as considerações acima expostas, este ensaio se propõe a investigar o tratamento que Luciana Stegagno-Picchio dá a Machado de Assis em sua história da literatura brasileira. Essa proposta segue de duas motivações principais: 1) apesar de problematizar a abordagem crítica que “arranca” Machado de Assis do grande corpo da literatura nacional, a autora italiana decide dedicar um capítulo para tratar exclusivamente de Machado, fato que, guardadas as devidas proporções, reafirma a tese de que o autor constitui sim uma espécie de ilha; 2) História da Literatura Brasileira é, como dito, o maior livro de historiografia literária brasileira escrito por um autor estrangeiro - cabe, pois, ver quais suas contribuições aos estudos machadianos aqui no Brasil. Em suma, este ensaio deseja verificar, a partir das considerações teóricas antes feitas, o modo como o Machado surge na historiografia literária de uma acadêmica italiana, de um olhar, digamos, “estrangeiro”.

 

Conforme afirmado anteriormente, o capítulo sobre Machado de Assis abre abordando a questão da “ilha” que o autor seria se colocado lado a lado com os demais escritores brasileiros. Para Stegagno-Picchio, isolar o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas do quadro literário nacional trás pelo menos dois problemas fundamentais para quem deseja propor uma história de tradição estilística: 1) até que ponto Machado deve ser realmente tratado separadamente do corpo da literatura nacional; 2) “até que ponto é lícito identificar uma tradição estilística com a temática do folclore de um lado e o impulso para a autonomia lingüística do outro” (2004: 275). Seja como for, a escritora nos mostra que Machado pode funcionar como uma sorte de nó e motivação para um discurso crítico que queira, ao mesmo tempo, "reconhecer o uno no múltiplo" mas também preservar a idéia de brasilidade, "de um bem definido e circunscrito patrimônio de textos" (2004: 275).

O capítulo “O Século XIX: Machado de Assis" está subdividido em nove partes fundamentais: “A 'Ilha' Machado de Assis na Literatura Brasileira”, “A Personagem Machado de Assis”, “O Narrador”, “Os Romances”, “Os Contos”, "Os Modos de Narrar”, “O Outro Machado”, “O Poeta” e, finalmente, “A Fortuna Crítica de Machado”. A primeira seção, como visto, versa sobre o constante modo como Machado, devido a sua importância na historiografia brasileira, é "ilhado" nos manuais de literatura; a segunda parte oferece uma biografia crítica do autor, tratando-o, conforme o próprio título aponta, como um personagem literário; as demais seções, excetuando-se a última, falam um pouco mais da obra de Machado de Assis, atravessando desde seus pontos reconhecidamente mais fortes - o romance e o conto - até a poesia e a crítica literária; a última seção, enfim, fala rapidamente da crítica acerca da obra de Machado, encerrando, pois, esse capítulo “insular". Com o intuito de averiguar as contribuições de Luciana Stegagno-Picchio à comunidade machadiana, este ensaio se voltará agora a alguns pontos particulares do referido capítulo.

Dessa forma, após considerar rapidamente a situação de Machado de Assis frente ao corpo da literatura nacional, Stegagno-Picchio inicia a composição de uma breve biografia machadiana, que repete com afinco as informações mais correntes acerca da vida do autor: “[...] o mesmo posto de respeitável isolamento, de sereno distanciamento que sua obra poética ocupou dentro do contexto literário” (2004: 275). Como se pode ver, essa biografia é sempre equiparada à condição de "ilha" que o legado do autor representa junto ao quadro literário brasileiro, reiterando a própria divisão de capítulos que orienta História da Literatura Brasileira. A questão da cor da pele de Machado, como era de se esperar, não podia ficar de fora. Resumidamente, Stegagno-Picchio ironiza a crítica que atribuiu a ela todos os males dos quais o autor sofria, mas, para tanto, recorre a afirmações no mínimo duvidosas, chegando inclusive a dizer que a discussão não constitui, enfim, um problema:

[...] problema que aparentemente não deveria apresentar nenhum interesse num país de integração racial quase total, programaticamente alheio a todo tipo de racismo e mesmo incapaz de distinções excessivamente sutis no assunto (dizem que na América do Norte basta uma gota de sangue negro para fazer negro um homem, ao passo que no Brasil é suficiente uma gota de sangue branco para torná-lo branco (2004: 276).

Ora, talvez a questão da cor da pele de Machado de Assis realmente não seja assunto de maior interesse para a leitura estrita de seus textos; contudo, justificar a irrelevância do debate a partir de uma pretensa integração racial brasileira é, no mínimo, um equívoco. Ainda assim, admitida sua falta de ânimo pelo tema, a historiadora italiana nos mostra que foram muitos os intelectuais que dele se ocuparam, desde José Veríssimo a Joaquim Nabuco - o último, por exemplo, tentando embranquecer a todo custo o recém finado Machado. A rigor, tal como comenta Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira, Machado de Assis pode ser lido como um personagem de reservas, personagem do "mas", do "talvez", posição essa que "interessa tanto ao sociólogo ao pesquisar os problemas de classe do mulato pobre que venceu a duras penas, como ao psicólogo para quem a gaguez, a epilepsia e a conseqüente timidez do escritor são fatores que marcaram primeiro o rebelde, depois o funcionário e o acadêmico de notória compostura” (2006: 176). Ou seja, teses de cunho sociológico por vezes se sustentam justamente a partir da discussão acerca da cor da pele de Machado, ou melhor, Machado de Assis, como personagem literário, dá margem a teses de diversas áreas.

A biografia machadiana de Stegagno-Picchio - que, curiosamente, toma grande parte do capítulo sobre uma “ilha” literária - segue de modo quase que previsível, ao menos para o público brasileiro. Após o casamento com "a branquíssima Carolina Augusta de Novais", a historiadora italiana nos fala das brechas biográficas que cercam o personagem, como no caso de sua infância, da qual, com efeito, pouco se sabe. Contudo, como não poderia deixar de ser, Stegagno-Picchio trata da doceira mais famosa da literatura brasileira, Maria Inês, madrasta de Machado de Assis e suposta responsável por sua educação, principalmente após a morte de seu pai. Passada a infância, a historiadora atravessa pontos como a amizade de Manuel Antônio de Almeida, sua estréia na literatura, seu engajamento político, sua prática jornalística etc. É, aliás, nesse envolvimento com o jornalismo que Stegagno-Picchio percebe o surgimento da “ilha” Machado de Assis: “a prática cotidiana do jornalismo cria e afina aquele seu estilo individualíssimo pelo qual se constituirá numa autêntica ilha dentro da literatura brasileira” (2004: 277).

A seguir, ultrapassados os traços biográficos mais visíveis do capítulo, a historiadora italiana nos fala de um Machado de Assis que é, sobretudo, um narrador. É nessa subseção que ela introduz rapidamente os dois modos de narrar que marcaram profundamente os escritos de maior destaque do autor: o conto e o romance. Para a autora, apesar de uma diferença estrutural relevante, o conto e o romance em Machado “geneticamente não diferem qualitativamente um do outro, porque em ambos o que importa é sobretudo o desenho dos caracteres, seu revelar-se ao contato da ‘situação’, independentemente do espaço concedido à narrativa” (2004: 280). Segue disso, pode-se acrescentar, o próprio modo como o contista pode se repetidas vezes percebido no romancista e vice-versa. De qualquer forma, Stegagno-Picchio empenha-se, pois, em desenhar rapidamente o que seria essa “situação machadiana”, esse desenho dos caracteres; seu tratamento, entretanto, não consegue ir além das constatações que, a bem da verdade, aparecem obsessivamente em outros manuais de literatura brasileira:

Os dias desenrolam-se em tertúlias de amigos boas-vidas que vagabundeiam entre os cafés e os teatros e conversam sobre mulheres: mocinhas de dezoito anos romanticamente apaixonadas, filhas de coronéis e tabeliães; viuvinhas economicamente dotadas e à espera de uma nova situação matrimonial. Em volta, irmãos parasitas e janotas; carruagens; belas casas povoadas de escravos, de mães viúvas, de tios e de velhas tias cheirando a tabaco (2004: 281).

Até o momento, como se pode ver, a historiadora busca pintar o quadro geral dos interesses machadianos, sem grandes menções a obras em particular e, principalmente, sem grandes vôos teóricos. Os romances são tratados isoladamente na seção que segue, momento em que Luciana Stegagno-Picchio recorre ao famoso corte operado em Machado de Assis: “está fora de discussão, contudo, que exista, entre o primeiro e o segundo Machado, um verdadeiro, tangível salto qualitativo” (2004: 283). Ao tratar, então, dos romances de Machado, a historiadora insiste em uma escalada rumo ao “grande autor” que viria posteriormente, sempre oferecendo ao leitor pequenos resumos do enredo de cada obra. Para o crítico brasileiro acostumado às afirmações mais correntes acerca de Machado, o capítulo de Stegagno-Picchio parece, até então, uma grande miscelânea de teses diversas, oriundas possivelmente de outras abordagens historiográficas brasileiras. De resto, as alusões diretas às obras são poucas, substituídas, como dito, por breves paráfrases dos textos: “Capitu terá olhos de cigana oblíqua, ‘olhos de ressaca’: que arrastam com seu fluido misterioso e enérgico (...)” (2004: 286).

Chegada a vez dos contos, Luciana Stegagno-Picchio opta por enumerar as coletâneas “que ponteiam toda a vida do escritor e preenchem os vazios editoriais que medeiam entre os romances” (2004: 288). No entanto, o leitor pode estranhar a concisão com que a historiadora aborda o gênero no qual ela própria reconhece, até certo ponto, a grande genialidade de Machado de Assis. Em outras palavras, a subseção que apresenta os contos abre com a seguinte afirmação: “talvez mais ainda do que os romances, os contos podem introduzir-nos no laboratório operoso do artesão Machado de Assis” (2004: 287). O descompasso é visível: o espaço oferecido à biografia e aos romances de Machado contrasta vivamente se comparado às poucas linhas dedicadas aos contos, muito embora se afirme que neles podemos encontrar precisamente um laboratório machadiano de rara genialidade. Novamente, em vez de uma entrada mais profunda no texto de Machado - agora contista -, a historiadora italiana nos oferece uma lista de obras, que conta ainda com a enumeração dos contos que, "segundo a opinião corrente", são de maior êxito; os resumos explicativos, freqüentes ao longo do capítulo, continuam presentes.

As subseções finais do “Século XIX: Machado de Assis” introduzem um autor pouco conhecido inclusive no Brasil, “um outro Machado”, como afirma a própria italiana. Logicamente, nos manuais brasileiros esse "outro autor" é em alguns momentos deixado parcialmente de lado para privilegiar justamente o Machado de maior importância, isto é, o Machado dos contos e dos romances. Para a crítica brasileira, de modo geral, o autor de Quincas Borba dificilmente aparece com o peso de sua genialidade no teatro e na poesia, salvo em alguns poemas como, por exemplo, o famoso “Soneto a Carolina”. Na obra historiográfica de Stegagno-Picchio, o Machado de Assis da poesia ganha um espaço equivalente ao do contista, apesar de a autora afirmar que, "quanto ao poeta, também ele é esmagado pelo narrador" (2004: 290). A maior contribuição proporcionada a esse “outro Machado” está no tratamento que a autora dá à obra crítica de Machado de Assis, que, se suplantada pelo autor literário em primeira pessoa, revela, ao menos, “um alto conceito da função” (2004: 289). Nesse momento, o leitor percebe que, a rigor, a historiadora italiana sobrevoa rapidamente cada uma das áreas em que Machado de Assis atuou, possivelmente com a proposta de apresentar o autor brasileiro em suas diferentes investidas literárias. Caberia, pois, perguntar-se o que significa "apresentar" um autor - em resumo, valeria indagar-se sobre o modo como devemos "habitar" uma ilha.

Finalmente, o capítulo encerra com um sucinto quadro da “Fortuna Crítica de Machado”. Dentre os nomes destacados pela autora, estão, é claro, José Veríssimo, Augusto Meyer e Lúcia Miguel Pereira. O leitor conhecedor da bibliografia crítica sobre Machado pode notar a ausência de Roberto Schwarz na lista, nome que consta apenas na bibliografia final do capítulo. A princípio, poderíamos justificar a brecha deixada pela autora considerando o fato de que sua História da Literatura Brasileira foi primeiramente publicada em 1972, cinco anos antes da aparição das importantes teses lançadas no livro Ao Vencedor as Batatas, de Schwarz. No entanto, pode-se igualmente sustentar que, se a segunda edição do livro contou com "um trabalho de revisão total e uma atualização que, embora sem mudar-lhe a primeira estrutura", tornou o volume “mais útil para o público de hoje” (Stegagno-Picchio 2004: 13), o nome de Schwarz deveria sim aparecer na “fortuna crítica de Machado”. A revisão da historiadora contou até mesmo com a inclusão de um capítulo que encerra os fatos literários brasileiros até o ano de 2003. Dessa forma, se Machado de Assis é realmente uma “ilha” no quadro literário nacional, difícil explicar a ausência do crítico que mais habitou essa “ilha” desde a década de 70. Talvez, enfim, possamos justificar tais escolhas pela destinação inicial do livro, a saber, o publico italiano. Ainda assim, caberia, mais uma vez, colocar a questão já antes sugerida: o que significa apresentar uma tradição literária? Como se habita uma “ilha”?

 

Sem pretender resolver as questões acima, pode-se dizer que, dentre as acepções do termo, “apresentar” significa “tornar manifesto”, “presente”, enfim. Nesse sentido, se Machado de Assis constitui uma “ilha” dentro do quadro literário brasileiro, tal como afirma a historiadora Luciana Stegagno-Picchio, apresentar essa “ilha” ao público italiano significa, também, torná-la manifesta, revivê-la, em suma. Historiar a literatura não é passar burocraticamente por um número x de autores, mas sim tornar esse número de autores presente, transportá-los todos aos nossos dias - como nos diz Michel Butor, “a marca de uma profunda novidade é seu poder retroativo” (1974: 176). É na possibilidade de reescrevermos Machado de Assis que encontramos sua força enquanto autor “ilhado”. No limite, tal como nos diz o filósofo, “sonhar ilhas, com angústia ou alegria, pouco importa, é sonhar que se está separando, ou que já se está separado dos continentes, que se está só ou perdido; ou, então, é sonhar que se parte do zero, que se recria, que se recomeça” (Deleuze 2006: 18). Somente reinventando Machado de Assis podemos entendê-lo em sua condição de “ilha” literária.

 

Referências

BARTHES, Roland. 2004. O Rumor da Língua. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes.

BOSI, Alfredo. 2006. História Concisa da Literatura Brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix.

BUTOR, Michel. 1974 Repertório. São Paulo: Perspectiva.

COUTINHO, Afrânio. 1990. Conceito de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro.

DELEUZE, Gilles. 2006. A Ilha Deserta. São Paulo: Iluminuras.

STEGAGNO-PICCHIO, Luciana. 2004. História da Literatura Brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.

 

* Este ensaio foi escrito com o auxílio da bolsa concedida pelo CNPQ.

 

© André Cechinel 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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