Quando o mas é uma palavra que não nos ajuda

João Carlos Cattelan

Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Brasil
cattelan@brturbo.com.br


 

   
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Resumo: Pretende-se, aqui, enfrentar uma dupla frente de observação. Por um lado, este estudo busca refletir sobre o uso do conectivo contrajuntivo, que, em determinadas situações de uso, parece não ter o papel de operador argumentativo por excelência que, em geral, é-lhe atribuído. Entende-se que isto ocorra, quando a tentativa de polêmica e ressalva se faz frente a um princípio cultural cristalizado. Por outro, ele se propõe a efetuar um conjunto de reflexões sobre como a mulher é representada socialmente, tendo já estabelecidos um papel e um ethos, dos quais não pode se apartar, sob pena de ter a sociedade se lançando contra ela. Neste sentido, ao “escolher” ser mãe, professora, amante ou esposa, seu destino está traçado e não há escapatória para como deva se conduzir ad eternum. Para a discussão a ser realizada, utilizar-se-á como dado observacional o intervalo do filme Notes On a Scandal que ocorre entre os 23:00 e os 28:00. Assume-se que este estudo se situa no terreno da Análise de Discurso, embora se deva reconhecer que se faz um uso um tanto quanto amplo e alargado do que se compreende como pertencendo a esta disciplina.
Palavras-chave: Operador contrajuntivo; mulher; cultura; sexualidade.

Resumen: Se pretende, aquí, hacer frente a un doble aspecto de observación. Por un lado, este estudio busca reflexionar sobre el uso del conector adversativo, que, en determinadas situaciones de uso, parece no tener el papel de operador argumentativo por excelencia que, en general, se le atribuye. Se entiende que ello ocurra, cuando la tentativa de polémica y restricción se encuentra frente a un principio cultural cristalizado. Por otro, él se propone realizar un conjunto de reflexiones sobre como la mujer es representada socialmente, tiendo ya establecidos un papel y un ethos, de los cuales no se puede apartar, bajo la pena de tener la sociedad echándose contra ella. En este sentido, al “escoger” ser madre, profesora, amante o esposa, su destino está trazado y no hay como escaparse para como se deba conducir ad eternum. Para la discusión que se va a plantear, se utilizará como dato observacional el intervalo de la película Notes Ond a Scandal que ocurre entre los 23:00 y los 28:00. Se asume que este estudio se sitúa en el terreno del Análisis del Discurso, aunque se deba reconocer que se hace un uso un tanto amplio y extendido de lo que se comprende como perteneciente a esta asignatura.
Palabras clave: Conector adversativo; mujer; cultura; sexualidad.

Abstract: It’s intended here of facing an observation in two ways. On one hand, this study intends to reflect on the use of the adversative connective, which, in some determined situations, seems not having the argumentative operator role that, in general, is attributed for it. It is understood that this occurs when the attempt of controversy and exception face a crystallized cultural principle. On the other hand, it is concerned to make some reflections about how the woman is socially represented, having already established a role and an ethos, which she cannot be against, because the society might punish her. Taking it in consideration, when the woman “chooses” to be mother, teacher, lover or wife, her fate is already traced and she does not have any chance of escaping about how she will conduct it ad eternum. As base of this research, it will be used as observational data the part of the movie Notes On a Scandal that occurs between 23:00 and 28:00. It is assumed that this study is placed in the Speech Analysis field, even though it must be recognize that it is done a wider usage of what is comprehended to be concerned of this discipline.
Keywords: Adversative operator; women; culture; sexuality.

 

Sobre o objeto de estudo

A motivação deste estudo vem de um enunciado metalingüístico e intrigante, proferido por Bárbara no filme Notes On a Scandal: ‘Mas’ não é uma palavra que nos ajude. Ao enunciado de Sheba (Cate Blanchet), Mas é maduro para a idade, como resposta àquele produzido por Bárbara (Judi Dench), O menino tem 15 anos, é que o primeiro ocorre. Abre-se, então, um veio de reflexão sobre a razão da afirmação de Bárbara sobre o adversativo, já que se defende que, dentre os operadores argumentativos, “elementos da gramática de uma língua que têm por função indicar (‘mostrar’) a força argumentativa dos enunciados (sentido) para o qual apontam” (Koch, 1997: 30), o conectivo adversativo ou contrajuntivo goza de um peso maior que os demais em termos de atuação sobre o interlocutor, agindo de modo mais decisivo sobre as possibilidades interpretativas do interlocutor: ele seria, desta ótica, o operador argumentativo por excelência. Porém, no discurso de Bárbara, ele é tido como um termo que não ajuda. As perguntas, então, são: Se ele é o operador argumentativo por excelência, ele realmente não ajuda? Se não é sempre, quando ele não ajuda? Em que casos, ele ajuda e, em que casos, não ajuda? Como se disse, o enunciado é intrigante e é sobre o desafio que lança e sobre as questões que foram indicadas que este estudo busca se constituir. Este estudo não deixa, pois, de ter uma reflexão metalingüística a guiá-lo, embora, em face do objeto que toma como dado demonstrativo, acabe abordando reflexões que extrapolam este objetivo.

A passagem em que o enunciado destacado é produzido ocorre quando Sheba, tendo sido pega em flagrante fazendo sexo com o aluno Steven (Bill Nighy), é obrigada a explicar o crime que estava cometendo. Ela vai a um pub com Bárbara e o diálogo que será analisado acontece entre os 23:00 e os 28:00. Na praça em que se monta o tribunal, constituído, de um lado, pela juíza e advogada de acusação (Bárbara) e, de outro, pela ré e advogada de defesa (Sheba), tendo como jurados os integrantes do filme e o público que manifestará uma posição, revela-se a situação “dramática” de uma mulher, cuja feminilidade e beleza já se encontram recalcadas pela rotina do casamento monótono, uma vida dedicada à maternidade (o cuidado de Ben, uma criança excepcional) e a profissão docente (prolongamento da vida doméstica). No intervalo de cinco minutos, o mas ocorre nove vezes, seguindo, pode-se dizer, mais ou menos, o mesmo princípio estrutural: sem o peso argumentativo que se costuma lhe atribuir. Numa delas, ele aparece no enunciado destacado inicialmente e que provoca esta reflexão.

Para o leitor poder se situar em relação à discussão que se fará, arrolam-se algumas informações sobre o filme e uma síntese do enredo. O filme é estrelado por Cate Blanchet, no papel de Sheba Hart, “a nova e radiante professora de artes”, por Judi Dench, “uma professora que comanda sua sala de aula com mão de ferro, mas leva uma vida terrivelmente solitária fora das paredes da escola”, e por Bill Nighy, o aluno Steven, com quem Sheba se envolve sexual e afetivamente: um menino de quinze anos. Conforme a sinopse, “as atrizes premiadas com o Oscar estão sensacionais em atuações indicadas ao Oscar em 2007 neste suspense de alta classe: uma interpretando uma mulher consumida pelo segredo da sua amiga e a outra, vítima de suas próprias obsessões”. Sheba teme a descoberta do segredo e o opróbrio público que a abateria, pois ela é professora e mãe, desempenhando papéis sobre os quais paira uma auréola de intocabilidade como se quem o executasse fosse assexuado.

Bárbara, “à primeira vista, fica muito feliz por ter encontrado uma alma gêmea, até que descobre que Sheba está tendo um caso com um aluno; seus ciúmes e sua raiva ficam fora de controle”. Na sinopse, diz-se que o filme “possui todos os ingredientes necessários: desejo cobiça, inveja, segredos, mentiras, traição”; como se percebe, todos afetos ligados, de modo geral, à sexualidade. Esta parece ser a grande problemática da humanidade. Talvez nenhum outro aspecto da vida humana ainda seja palco de tantos tabus e preconceitos. Nos recortes analisados, percebe-se que o uso do mas e o fato de que, às vezes, não ajuda estão intrinsecamente ligados a momentos em que os temas do desejo, da cobiça, da inveja, dos segredos, das mentiras e da traição são debatidos. É o que se buscará demonstrar.

Notes On a Scandal é da Fox Searchlight Pictures e da DNA Films e foi produzido em associação com a UK Films Council e a BBC Films. Os responsáveis pela produção são Scott Rudin e Robert Fox. O título do filme, traduzido como Notas Sobre um Escândalo, deve-se ao relacionamento de Bárbara com Sheba ter sido registrado pela primeira num diário que vem a público, diário a que Bárbara se refere, afirmando: “As pessoas sempre confiaram a mim seus segredos, mas a quem confio os meus? A você. Só a você”. Descoberto, ele revela, respectivamente, os casos de pedofilia e de lesbianismo de Sheba e Bárbara. A descoberta do diário, que passa a ser de domínio público, faz com que, mais ao final do filme, os demais episódios envolvendo as duas protagonistas se desencadeiem.

Sheba e Bárbara são professoras e a primeira, ao se sentir íntima e amiga da segunda, revela o seu desprazer: “Sabe, casamento e filhos, digo, é algo maravilhoso, mas não dá sentido a você. Dá uma direção, mas não te ajuda”. Bárbara, que, no decorrer da trama, tem sua paixão pela professora de artes revelada, aproxima-se da família e passa a ser sua confidente. Quando descobre o caso entre Sheba e Steven, encurrala Sheba e a leva a admitir o seu “pecado”. Este lhe pede que guarde segredo. Bárbara, movida pela paixão não correspondida, vê, naquela situação, uma oportunidade. Ao se tornar confidente de Sheba, ao invés de revelar o envolvimento com o aluno, após ter descoberto a traição que julgava que seria contra ela própria, maquina: “E então percebi que minha fúria havia me cegado. Havia uma oportunidade magnífica ali”. Guardando o segredo de Sheba, esta teria “Uma dívida eterna” e Bárbara “teria muito a ganhar”. O ganho viria de ter a outra como refém, de poder chantageá-la e de fazê-la atender aos seus desejos. A “queda” de Sheba se devia, como contava no diário, à “conseqüência de um casamento moribundo”, origem da traição cometida, e de “uma tolice alimentada por memórias gloriosas” (ter filhos, marido e família e viver um amor idealizado que, em tese, Steven lhe proporcionava: estes ideais ruíram sob o peso do casamento maçante).

Bárbara já tinha vivido uma relação com Jennifer Dodd, por quem teria sido traída. Vendo o casamento de Sheba ruir e o caso com Steven (um adolescente calculista: um “diamante”, metáfora da insensibilidade frente à carência e o desejo de felicidade do outro) terminar, enche-se de esperança, crendo ter encontrado quem possa lhe dar o que desejava. Sheba não corresponde e é a própria Bárbara quem a delata à família de Steven, fazendo com que a maquinaria da imprensa e da sociedade se lance sobre quem tinha sido objeto de seus afetos. Mas Bárbara aparece como amparo para a amiga, valendo-se do momento para angariar benefícios. Para não relatar o filme todo, estas são pistas relevantes para que o leitor possa, minimamente, localizar-se em relação às reflexões que se farão à frente.

Quando Bárbara descobre a relação de Sheba com Steven, ela a leva a um bar e faz com que narre os detalhes do caso. O recorte escolhido para análise dura cinco minutos e é desafiador pelo uso do adversativo mas nos enunciados em que aparece, crucialmente, quando é afirmado que o ‘Mas’ não é uma palavra que nos ajude. Se ele é o operador argumentativo por excelência, por que ele não ajuda e quando é que não ajuda? Com isso, após a digressão para falar sobre a trama do filme, retorna-se ao tema, que poderia ser sintetizado na fórmula Quando o uso do ‘mas’ não se aplica. O diálogo que ocorre no intervalo mencionado, embora um pouco longo, é transcrito a seguir, para se ter a situação em que se dá o uso do mas e por que, nela, ele cria os efeitos de sentido que gera e por que obedece ao princípio estrutural e discursivo que se deixa entrever [1].

1) Bárbara vai à casa de Sheba e a faz sair de casa para falar sobre o caso:

— Vamos ao pub, sim? Quando, quando vai contar a eles? (SHEBA)

— Preciso dos detalhes. Tem de me contar tudo. (BÁRBARA)

— Você estava lá, quando o vi pela primeira vez. Acho que você deu uma bronca nele. (SHEBA)

— Foi um pequeno corretivo. (BÁRBARA)

2) Sheba relembra de quando Steven a procurou pela primeira vez:

— Ele dedicou a mim o seu gol. Isso me divertiu. Alguns dias depois, ele veio me ver. (SHEBA)

— Pode dar uma olhada nos meus desenhos? (STEVEN)

— Eu os verei na aula. Faz Artes, não? (SHEBA)

— Não me deixam. Aluno especial. Tenho de fazer leituras extras. (STEVEN)

— Fez isso em casa? São bons. Sabe desenhar. (SHEBA)

3) Sheba intercede pelo aluno junto ao diretor da escola:

— Se favorecermos um aluno, todo o sistema se desmonta. (DIRETOR)

Mas ele tem talento. Descobriu algo em que acredita. (SHEBA)

— São todos talentosos. (DIRETOR)

4) As cenas voltam a ser filmadas no pub:

— Achou seu diamante, como Sue diria. (BÁRBARA)

— Disse que poderia ensiná-lo, depois da aula, se ele quisesse. É nosso trabalho, não é? (SHEBA)

— Dentro de um horário específico. (BÁRBARA)

— Bárbara, ele veio todos os dias por duas semanas. Sim, fiquei lisonjeada, mas foi mais do que isso. Fiquei excitada em descobrir alguém que queria aprender. (SHEBA)

Mas, com certeza, suspeitou de suas intenções? (BÁRBARA)

— Percebi que ele tinha uma certa atração por mim, mas e daí? Era algo inocente. (SHEBA)

5) Steven mostra desenhos a Sheba e ela passa a mão nos seus cabelos:

— Está bem melhor. Acertou mesmo esse detalhe do dedo. (SHEBA)

— Consegui. Faça isso de novo, professora. (STEVEN)

— Não seja bobo. Pode ir embora. (SHEBA)

— O que vai jantar, professora? (STEVEN)

— Vou comprar alguma coisa no caminho. (SHEBA)

— Sua comida é gostosa? (STEVEN)

— Não mesmo. (SHEBA)

— Não é gostosa? (STEVEN)

— Vá para casa, Steven. (SHEBA)

6) Novamente, o diálogo se passa no pub:

— Bem, deveria ter parado por aí. (BÁRBARA)

— Parei. Disse que não iria ensiná-lo mais. Mas ele se recusou a aceitar e continuou voltando. (SHEBA)

— Começou a parecer algo secreto e segredos podem ser sedutores. (SHEBA)

7) Steven aborda Sheba na rua e pinta um quadro falso de sua situação:

— Quer dar uma volta? (STEVEN)

— Absolutamente não. Vou para casa ficar com minha família. E você devia ir também. (SHEBA)

— Professora. Meu pai foi despedido. Está descontando em mim. (STEVEN)

— O pai vinha batendo nele. Não queria contar para a mãe porque ela estava doente. (Comentário de SHEBA para BÁRBARA)

— Sua mãe sabe? (SHEBA)

— Está doente dos rins. Vai levar meses para poderem operar. (STEVEN)

— Ele estava tão vulnerável. (Comentário de SHEBA para BÁRBARA)

— Se ele fizer isso de novo, venha me contar. (SHEBA)

— Obrigado, professora. É linda, professora. Não sabe como é linda. (STEVEN)

8) Parte final do diálogo de Bárbara com Sheba no pub:

— Não haviam me cortejado assim há anos. Sabia que era errado e imoral e completamente ridículo, mas não sei. Deixei que acontecesse. (SHEBA)

— O menino tem 15 anos. (BÁRBARA)

Mas é maduro para a idade. (SHEBA)

— “Mas” não é uma palavra que nos ajude. (BÁRBARA)

— Isso vai parecer meio doentio. Mas eu senti como se tivesse o direito. Fui correta toda minha vida de adulta. Fui uma esposa decente, mãe devota, cuidei do Ben. Essa voz dentro de mim ficava dizendo, “por que não pode ser má?”. “Por que não pode quebrar as regras? Ganhou o direito”. (SHEBA)

 

Análise do objeto de estudo

Para entrar definitivamente na temática deste estudo e abordar a problemática ligada ao mas e ao fato de que, às vezes, ele não ajuda, começa-se a reflexão pela observação do último conectivo adversativo usado num dos enunciados de Sheba:

Recorte 1

— Isso vai parecer meio doentio. Mas eu senti como se tivesse o direito. Fui correta toda minha vida de adulta. Fui uma esposa decente, mãe devota, cuidei do Ben. Essa voz dentro de mim ficava dizendo, “por que não pode ser má?”. “Por que não pode quebrar as regras? Ganhou o direito”.

Para justificar o envolvimento com o aluno de 15 anos, um menino, algo que Sheba admite que parece meio doentio (cabe perguntar doentio por que e para quem), ela se vale de um conjunto argumentos que poderia socorrê-la quanto ao acerto do comportamento. Tais argumentos são: foi uma mãe decente, foi uma mãe devota e cuidou a vida toda de Ben, que, recorde-se, é uma criança excepcional, o que acarreta algumas dificuldades a mais para a vida da mulher. As três atitudes, somadas ao fato de ter sido correta toda a vida de adulta, teriam feito ela sentir que tinha o direito, sentimento que, posto na forma condicional com o se, é admitido como equivocado. Pressupõe-se que, pelo fato de ser mãe, adulta e casada, ela não poderia se envolver com um aluno. O quadro se complica ainda mais porque ele tem apenas 15 anos: a própria Sheba qualifica seu comportamento como doentio. Bárbara, que passa a ser a voz toda a sociedade, confirma a qualificação feita pela outra. Sheba pode ter sido decente, correta, devota e cuidadosa, mas estas atitudes não justificam a ruptura provocada, ou seja, da mulher, espera-se a perenidade, a durabilidade e a persistência das posturas tidas como corretas: elas não podem ser efêmeras e a queda põe a transgressora em estado pecaminoso. Sheba sabe que sua defesa é débil: ela acredita que não tem o direito e que é doentia. Porém, esta percepção da sua situação ocorre por que ela acredita e concorda com ela ou por que foi levada a admiti-la? Assume-se que a resposta mais adequada se encontra na segunda via: ela vê o que foi levada a ver.

Que a sua atitude deva ser classificada como indecente ou incorreta é controverso, dado que, dentro dela, uma voz lhe pergunta por que não poderia quebrar as regras, pois teria conquistado o direito, embora ela, mediada por uma alteridade despótica, admita que estaria sendo má. Percebe-se, pois, a constituição polifônica [2] do discurso de Sheba, que possui, por um lado, a sua voz, cheia de vontade de realização e, de outro, a voz de um superego social que a acusa, fazendo-a achar que está sendo doentia. Em Sheba, duas formações discursivas [3] se chocam: uma que afirma o direito de cada um à satisfação e à felicidade; e outra que afirma que se deve viver de acordo com os ditames de uma axiologia: que isto faça as pessoas felizes não é algo substancialmente significativo. Deve-se cumprir a doxa reinante.

Embora Sheba tenha sido correta na vida de adulta, tenha sido uma esposa decente e mãe devota e tenha cuidado de Ben e isto, para ela, ter-lhe-ia dado o direito de quebrar as regras, estes são enunciados tomados, a priori, como não tendo força suficiente para justificar a atitude que ela teve, pois isto significaria quebrar as regras, ser má e doentia. Que regras estão sendo quebradas que não os ditames de uma visão de mundo? Por que a qualificação de deve ser aplicada ao seu comportamento, se não a partir de uma expectativa de caráter? Por que razão, se ela sente que uma voz lhe diz que ganhou o direito, há um princípio inibitório e controlador que lhe diz que este direito não existe? Se ela sente que, à luz da vida que levou, teria o direito de ser , por que ela não exerce este direito simplesmente? Crucialmente, porque, de acordo com Bourdieu (1999: 70), a sociedade se alicerça num “inconsciente coletivo e individual, traço incorporado de uma história coletiva e de uma história individual que impõe a todos os agentes, homens ou mulheres, seu sistema de pressupostos imperativos”. Frente à força dos ditames sociais, não há escapatória: não há alforria para quem os cumpre de modo exemplar por determinado tempo. Tendo assumido ser mãe, a decência, a devoção e o cuidado dos filhos são obrigações sempiternas. Neste caso, não há mas que se aplique ou ajude.

A reflexão de Sheba se dá no sentido de afirmar que foi devota, correta, decente e cuidadosa; além disso, uma voz lhe diria que teria conquistado o direito e que poderia ser má. Ela poderia, portanto, quebrar as regras, pois, em tese, o argumento introduzido pelo mas, em geral, é o que mais pesa para levar o interlocutor a uma conclusão (vejam-se casos como o acidente foi terrível, mas houve poucas vítimas, em que o enunciado iniciado pelo operador argumentativo não pode ser negado, levando a duvidar que o acidente tenha sido trágico). Nota-se, entretanto, a debilidade do argumento introduzido por Sheba por meio do mas, pois ele reverbera uma tentativa insegura de se justificar e não uma voz firme valorizada.

O argumento introduzido pelo contrajuntivo é mais a denunciação de uma atitude transgressora, do que a certeza de uma ressalva que excede o sentido “verdadeiro” de certos acontecimentos. Pode-se afirmar de modo convicto vi meu amigo, mas não o cumprimentei, porém o mesmo não ocorre com isto vai parecer meio doentio, mas eu senti como se tivesse o direito (a própria conjunção condicional e o modo subjuntivo apontam a insegurança do dito, uma vez que aparecem modalizados sob a forma da dúvida), em que o foco da convicção se aplica sobre a primeira parte do enunciado. Sentir que tinha o direito não ajuda e nem desfaz a impressão de doentia e maldosa, mesmo que, para a defesa do acerto do comportamento, possa-se alegar devoção, decência e cuidado. Contra a transgressão de um papel [4] social e de um ethos [5] esperado não há justificativa. O império social se abate sobre o transgressor e não há enunciado adversativo que ajude. A economia moral de que fala Thompson (1998), cujos princípios se baseiam nos costumes em comum, não é constituída por ditames que podem ser esquecidos em alguns momentos e respeitados em outros. Eles exigem a perenidade, a eternidade e a docilidade dos corpos. Contra eles, o adversativo não se aplica.

Sheba poderia arrolar todos os argumentos que quisesse, mas o seu desenredo seria sancionado negativamente, pois está interditado que uma mulher, mãe e esposa, possa ser infiel, mesmo tendo uma vida enfadonha, um casamento monótono, um cotidiano rotineiro e uma vida sexual e afetiva sem graça. Ela pode ouvir vozes, ter atitudes positivas, ser uma mulher exemplar, mas não poderá fazer algo impertinente: ela deve seguir a trajetória demarcada e predizível. Frise-se: contra as injunções do imaginário [6] social, o mas não se aplica, nem ajuda. Sheba poderia afirmar “fui infiel (e pedófila), mas correta, decente, devota, cuidadosa, ganhei o direito, desejava algo diferente, quis quebrar as regras” e, assim, ao infinito, mas a decisão argumentativa recairia sobre a primeira parte do enunciado; nela, está o pêndulo definitivo da balança e não no argumento aberto pelo adversativo, que, contra valores culturais (morais e ideológicos), não passa de voz recusável e rejeitável: inaudível. É esta a hipótese que se pretende ratificar e sustentar. Quando o conectivo adversativo se aplica a algo concreto e positivo, ele abre brechas em princípios válidos (e se pode, então, apreender algo diferente, que rompe com a estagnação). Quando se aplica (ou não se aplica) a regras prescritivas de uma cultura, ele, como Bárbara afirma, não ajuda. Nestes casos, não há brecha ou ruptura: só sujeição, submissão, rarefação e injunção, levando o transgressor à imediata instauração de culpabilidade, que, como quer Barthes (1997: 10), deriva do “discurso do poder”, sendo este “todo discurso que engendra o erro e, por conseguinte, a culpabilidade daquele que o recebe”: frise-se que se entende que o discurso que engendra o erro e a culpa é resultado do processo de auto-instituição imaginária a que cada sociedade submete a si mesma.

Talvez fique mais evidente o que se pretende demonstrar nos enunciados destacados a seguir, nos quais parece estar mais transparente que, contra princípios culturais, o uso do mas não ajuda e não se aplica: o costume, a norma, a regra e a crença são peremptórios.

Recorte 2

— Ele dedicou a mim o seu gol. Isso me divertiu. Alguns dias depois, ele veio me ver. (SHEBA)

— Pode dar uma olhada nos meus desenhos? (STEVEN)

— Eu os verei na aula. Faz Artes, não? (SHEBA)

— Não me deixam. Aluno especial. Tenho de fazer leituras extras. (STEVEN)

— Fez isso em casa? São bons. Sabe desenhar. (SHEBA)

— Se favorecermos um aluno, todo o sistema se desmonta. (DIRETOR)

Mas ele tem talento. Descobriu algo em que acredita. (SHEBA)

— São todos talentosos. (DIRETOR)

— Achou seu diamante, como Sue diria. (BÁRBARA)

Durante um jogo de futebol, Steven faz um gol e o dedica a Sheba, de onde se pode inferir a meta traçada por ele de conquistá-la. Ao ser apontada deiticamente após o gol, ela não só é a homenageada, mas indicada como o objetivo do aluno: ela é a meta que se encontra no horizonte de Steven. Por ser um aluno especial, ele não pode freqüentar as aulas de artes e procura por Sheba para mostrar que tem talento. Sheba sabe, embora se recuse a explicitar, a razão de o aluno procurá-la. Após verificar os desenhos e percebendo que tem talento, ela procura o diretor da escola para que Steven possa estar em sala, pedido que é recusado, pois, de acordo com ele, se favorecermos um aluno, todo o sistema desmonta, o que revela que o aparelho escolar (uma metáfora da sociedade) se alicerça sobre prescrições que não podem ser mudadas, sob pena de a organização ruir: todos devem se adequar. E, frente à normalização social, não há argumento que justifique a abertura de brechas na armadura, mesmo que seja o mais humano possível: ter talento e descobrir algo em que acredita são as teses de Sheba para defender Steven, mas elas não são aceitas. Mesmo que Steven seja um diamante (algo raro e precioso), talentoso (merecedor de freqüentar as aulas e artes) e tenha descoberto algo em que acredita (podendo dar um sentido à vida), estas constatações não conseguem alterar a ordem da instituição em que se encontra. Se, de acordo com Sheba, ter talento e ter descoberto algo em que se acredita seriam argumentos para alterar um sistema, o seu representante nega que o mas se aplique, porque, como se busca mostrar, contra as paredes e os limites estabelecidos, não há como argumentar. A ordem e o acordo estão montados: cumpra-se.

Recorte 3

— Disse que poderia ensiná-lo, depois da aula, se ele quisesse. É nosso trabalho, não é? (SHEBA)

— Dentro de um horário específico. (BÁRBARA)

— Bárbara, ele veio todos os dias por duas semanas. Sim, fiquei lisonjeada, mas foi mais do que isso. Fiquei excitada em descobrir alguém que queria aprender. (SHEBA)

Mas, com certeza, suspeitou de suas intenções? (BÁRBARA)

— Percebi que ele tinha uma certa atração por mim, mas e daí? Era algo inocente. (SHEBA)

Vendo que o seu trabalho era valorizado pela docente e como tinha traçado a meta de conquistá-la, Steven persiste em vê-la sempre e aguarda o momento adequado para o ataque, que se consuma por meio de um apelo emotivo e de uma chantagem emocional que mexe com Sheba feminina e maternal: Steven está sendo maltratado: como ela se sentiria? Para justificar a não recusa de encontrar Steven, Sheba admite que ficou lisonjeada e isto deveria favorecer a fraqueza da sua resolução. Mas ela confessa, ainda, que a excitação se apoderou dela, o que remete polissemicamente à excitação provocada pelo desejo de aprender do aluno e ao cunho erótico-sensual que tomava conta de ambos (talvez, em qualquer dos dois casos, possa-se falar de aprendizado). O adversativo busca alcançar, neste caso, o acréscimo de um argumento mais forte que o anterior para a defesa da fraqueza de Sheba: um argumento que justificaria a indecisão e a manutenção dos encontros, mas que não surte efeito, pois não elimina a culpa da protagonista. Ela poderia construir uma gradação com argumentos cada vez mais fortes no sentido de justificar a sua in-decisão e, ainda assim, não se poderia considerar justificada.

Para Bárbara, Sheba é uma mulher adulta, mãe, casada e professora (além de ser objeto de desejo da “amiga”), que está cega pela lisonja e excitação, mas que deveria, com certeza, suspeitar das intenções de Steven; ou seja: ela poderia estar frente a uma situação que a tiraria da monotonia devolvendo-lhe o prazer, mas não poderia, já que é uma mulher madura, ser enganada pela “inexperiência” do aluno. Era impossível que não percebesse o que ocorria e ela confirma que percebia que Steven sentia atração. Frente ao uso da lisonja e da excitação de Sheba como argumentos, ainda que postos numa gradação crescente para convencer Bárbara, esta, por meio do mesmo operador argumentativo (respaldando a cosmovisão reinante), desmonta a explicação da outra, afirmando, por meio do modalizador com certeza, que ela, adulta, mãe e professora, deveria perceber o que ocorria e não poderia usar o que sentia para deixar de agir de acordo com previsão “lógica e racional”: a dispensa imediata e peremptória de Steven, ainda que fosse pelo fato de ser aluno, o que, no caso, é agravado por ele ter 15 anos e ser um menino, o que aponta para um caso de pedofilia.

A tese de que o mas, às vezes, resulta numa tentativa baldada de argumentação fica mais evidente no último enunciado do recorte introduzido pelo conectivo adversativo: mas e daí? Era algo inocente. Este parece ser o ponto oportuno para abordar a estrutura polifônica sobre a qual o mas se sustenta, princípio que pode ser visto nos demais casos. Tem-se como certo que o conector contrajuntivo encadeia dois argumentos, A e B, sendo que A aponta para uma conclusão r e B, para uma conclusão contrária. Neste caso, à afirmação ele sentia uma certa atração por mim, que indica a necessidade de a professora se afastar do aluno e menor de idade, contrapõe-se o enunciado mas era algo inocente, que se opõe à obrigação de Sheba atender à exigência. A atração não era inocente (desde que se entenda que atração sexual seja algo pecaminoso, mesmo sob os elementos restritivos aplicados ao caso), sendo a defesa da professora a busca improcedente de uma razão para fazer o que desejava, mas que não devia fazer à luz dos valores do topos argumentativo que a cerca, conceito que Ducrot (1989) define como lugar comum argumentativo. Percebe-se, na articulação dos dois enunciados, a natureza polifônica do conectivo mas, pois o que comanda a articulação adversativa entre as partes A e B é uma voz que fica à sombra ditando concepções. Ela diria, que, entre professores e alunos (principalmente, se estes forem menores de idade), não pode haver intimidade e, como Sheba percebeu que Steven sentia atração por ela, deveria afastá-lo ou se afastar dele, mesmo que pudesse ser algo inocente. O predomínio, como se percebe, está na parte A do enunciado e não na introduzida pelo mas, pois, neste caso, tenta-se criar brechas em ditames culturais, o que se agrava pelo fato de eles pertencerem ao terreno sexual e, então, não há contrajuntivo que resista. Sheba é definitivamente delituosa, por mais operadores mas que contraponha à admissão da percepção de estar se envolvendo numa relação interditada.

Recorte 4

— Está bem melhor. Acertou mesmo esse detalhe do dedo. (SHEBA)

— Consegui. Faça isso de novo, professora. (STEVEN)

— Não seja bobo. Pode ir embora. (SHEBA)

— O que vai jantar, professora? (STEVEN)

— Vou comprar alguma coisa no caminho. (SHEBA)

— Sua comida é gostosa? (STEVEN)

— Não mesmo. (SHEBA)

— Não é gostosa? (STEVEN)

— Vá para casa, Steven. (SHEBA)

— Bem, deveria ter parado por aí. (BÁRBARA)

— Parei. Disse que não iria ensiná-lo mais. Mas ele se recusou a aceitar e continuou voltando. (SHEBA)

— Começou a parecer algo secreto e segredos podem ser sedutores. (SHEBA)

Neste recorte, predominam pistas que indicam o caráter erótico-sensual do diálogo: seja pela referência ao detalhe do dedo, pela pergunta se sua comida é gostosa (termo ambíguo que transita entre formações discursivas distintas), pela interrogação não é gostosa (a referência de Steven é feita diretamente a Sheba) e por termos como secreto, segredos e sedutores, tudo aponta para o fato de que o que acontece entre os protagonistas não se refere a aulas de artes (o termo artes é ambíguo, movendo-se entre terrenos distintos: o da expressão artística e o do fazer algo indevido), mas se relaciona a um envolvimento afetivo e sensual. Sheba, professora de artes e portadora de uma sensibilidade especial para estas indicações, deveria, à luz dos parâmetros sociais, exigir que Steven não continuasse retornando às aulas, mas ele se recusou. De novo, nota-se um argumento débil para a defesa de Sheba, mesmo que venha introduzido pelo operador argumentativo por excelência, incapaz de criar uma exceção ou ressalva frente ao princípio homogeneizador da doxa social reinante. Deve-se reconhecer que lutar contra o que se deseja e que põe em jogo o prazer e o desejo de afeto, de carinho e de amor não é uma tarefa pequena, problema que é agravado pelo fato de que deve ser feita contra a vontade própria e a favor de uma vontade que vem de fora e com que se pode não concordar, principalmente quando se percebe a dor que ela propicia.

À parte A do enunciado disse que não iria ensiná-lo mais, que estabeleceria o acerto da atitude de Sheba, já que estaria agindo conforme as normas sociais, a parte B apresenta dois argumentos de que ela se vale para se justificar frente a Bárbara: Steven teria se recusado a aceitar e teria continuado voltando. A voz social responderia que ela deveria ser firme e ter parado por aí, pois o envolvimento com Steven, dado o quadro da relação, impediria que ela continuasse. Sheba, portanto, busca atribuir a culpa à persistência de Steven e demonstrar o acerto do seu comportamento, mas apenas revela a debilidade da sua decisão e a pouca força de vontade frente à decisão que deveria tomar, dado o imaginário social que a cerca. A defesa de que se vale, portanto, para estabelecer uma relação polêmica com os princípios sociais em que se encontra imersa não a ajudam e eles são usados para puni-la de forma exemplar. A Sheba, que poderia se defender alegando que tentou parar de se encontrar com Steven, que ele se recusou a aceitar e continuou voltando, que segredos podem ser sedutores e que ela teria dito que não iria ensiná-lo mais, o tribunal social responde: cabe a você, adulta, mãe, esposa e professora não se envolver com alunos, muito menos menores, e exigir que esta norma seja cumprida. Neste sentido, não há mas que ajude Sheba ou solucione a situação “delituosa” em que se encontra. A vigilância social se encarregará de fazê-la recobrar o bom senso, fazendo-o por meio da leitura apropriada para uma coletividade. Sheba vive a situação de Steven frente à escola, quando intercede por ele: ela tem talento e descobriu algo em que acredita, mas não pode ser atendida, porque, se favorecermos um aluno, todo o sistema se desmonta: cabe a todos e a Sheba contribuírem para que a instituição social se ratifique e se auto-justifique.

Recorte 5

— Quer dar uma volta? (STEVEN)

— Absolutamente não. Vou para casa ficar com minha família. E você devia ir também. (SHEBA)

— Professora. Meu pai foi despedido. Está descontando em mim. (STEVEN)

— O pai vinha batendo nele. Não queria contar para a mãe porque ela estava doente. (Comentário de SHEBA para BÁRBARA)

— Sua mãe sabe? (SHEBA)

— Está doente dos rins. Vai levar meses para poderem operar. (STEVEN)

— Ele estava tão vulnerável. (Comentário de SHEBA para BÁRBARA)

— Se ele fizer isso de novo, venha me contar. (SHEBA)

— Obrigado, professora. É linda, professora. Não sabe como é linda. (STEVEN)

— Não haviam me cortejado assim há anos. Sabia que era errado e imoral e completamente ridículo, mas não sei. Deixei que acontecesse. (SHEBA)

Num momento em que Sheba parece retomar o controle da situação, recobrando a normalidade, afirmando que absolutamente não dará uma volta com Steven (lembre-se que dar voltas sugere a aceitação de viver o turbilhão que se abate sobre os que rodopiam - basta que se recorde as vertigens que a criança sente, quando gira o corpo e a tontura e a perda de direção que lhe atacam), o que poderia dar a ambos um destino “indesejável’”: a parada que talvez se possa hipotetizar seria aquela desejada por ambos: um local em que poderiam dar vazão ao desejo que sentiam um pelo outro; mais da parte de Sheba, neste caso, já que Steven a estava manipulando e a considerava como um desafio e não um amor a ser vivido. Steven lança mãos de expedientes nada ortodoxos (ou ortodoxos demais) para demover a professora da decisão que parecia disposta a tomar. Por um lado, ele cria um quadro tétrico (e falso) da situação que estaria vivendo, com o pai tendo sido despedido, ele sendo agredido e a mãe estando doente dos rins e correndo risco de vida, pintando um quadro de vulnerabilidade frente a uma mulher que tinha um filho excepcional e estava acostumada a cuidar do filho carente e dependente. Steven, neste momento, assemelha-se a Ben, identificação que faz Sheba alterar o percurso a que se havia proposto. A chantagem emocional (factualmente fantasiada) funciona e Sheba se deixa enredar pela estória de Steven, sem buscar verificá-la, pois talvez não quisesse descobrir, já que desejava realizar o prazer que via à sua frente.

A segunda maquinação de que o aluno se vale se refere a ele, carinhosamente, segurando o rosto da professora entre as mãos, após ela lhe dizer que, se o pai o agredisse de novo, viesse lhe contar, dizer-lhe: É linda, professora. Não sabe como é linda. Sheba afirma que não a haviam cortejado assim há anos. Se as estratégias calculadas de Steven mexem com a Sheba maternal, levando-a a querer proteger o “filho”, elas também mexem com a mulher, enaltecendo-a. Parece não haver estratégias mais eficazes que essas para penetrar na armadura que a mulher constrói para se proteger de ataques como o que Steven prepara. Some-se a vida monótona e a irrealização erótica e se tem a situação inexorável que leva ao desenlace que se dá. Pode-se afirmar que tudo indica que Sheba é a pessoa que menos deveria ser punida, no entanto é sobre ela que a punição se abate, porque deixou que acontecesse, embora soubesse que era imoral e completamente ridículo: imoral e ridículo para quem e por quê? Para uma sociedade em que professores, pais, adultos e esposos não podem se envolver com alunos menores e mais novos. Aliás, é crucial que se perceba que os adjetivos que constituem o discurso de Sheba são provenientes de outras vozes, de um diz-se genérico, que caracteriza a atitude como imoral, que cerca a sexualidade com interditos e tabus que devem ser acatados e distribui as relações amorosas em faixas etárias adequadas. De que forma explicar o desejo de Sheba como imoral e ridículo, a não ser por meio de um discurso do qual ela mesma se vale, para se colocar na situação de pecaminosa: ela, mesmo que Bárbara não aparecesse na trama, seria a juíza, a ré e a algoz: um superego despótico a habita. Neste caso mais do que em outros, a debilidade argumentativa do contrajuntivo se revela e não inocenta Sheba: deixar que acontecesse não tem o poder de defendê-la do crime cometido.

Recorte 6

— O menino tem 15 anos. (BÁRBARA)

Mas é maduro para a idade. (SHEBA)

— “Mas” não é uma palavra que nos ajude. (BÁRBARA)

E, por fim, o fragmento pelo qual se devesse, talvez, ter começado. O argumento de que Bárbara se vale para mostrar a impropriedade do comportamento de Sheba se refere ao fato de que Steven tem 15 anos, donde se infere que ela não poderia se envolver com ele, por ter a idade que tem, o que caracteriza crime de pedofilia (deve-se lembrar que Bárbara busca demover Sheba de manter a relação com o aluno porque ela acredita que, acabando o romance e uma vez que o casamento de Sheba já não existe, ela teria a oportunidade de, valendo-se do apoio prestado, granjear o afeto da outra: um motivo nada nobre - como se vê, Sheba está na cova dos leões): some-se a isto ele ser aluno e Sheba ser casada e mãe. Se, por um lado, em relação a A, o menino tem quinze anos, encadeiam-se conclusões como ele não poderia se envolver com a professora, Sheba deveria tê-lo recusado, ele é menor de idade e não pode ser objeto de desejo do adulto e sexo com menor caracteriza crime de pedofilia, por outro, com B, é maduro para a idade, introduzido pelo mas, Sheba polemiza a outra formação discursiva e busca mostrar as suas limitações, o que é rechaçado de forma contundente e metalingüística, neste caso: ‘mas’ não é uma palavra que nos ajude. Se Steven ser maduro poderia ser uma razão para Sheba aceitá-lo, porque esta característica invalidaria os demais encadeamentos, o fato de o aluno ter quinze anos prepondera como crença e as inferências decorrentes dela se impõem. De uma cultura que concebe a idade cronológica como portadora de determinados traços de caráter e que não percebe, como o filme o revela, o quanto esta visão recalcada nos porões da memória pode estar equivocada, não há saída. Pode-se dizer que, pedófila, mãe, esposa, adulta e professora, Sheba é mais a vítima do que a delituosa. Dadas as razões que a levaram ao julgamento de Bárbara, do marido e da imprensa, a argumentação introduzida pelo adversativo não têm o poder de agir como uma ressalva em sua defesa, pois ela se contrapõe a princípios de crença culturais e não a fatos positivos e objetivos.

 

A título de conclusão

Sheba, dada a deserção a que a vida a submeteu (mãe que não se realiza, porque a filha se preocupa com o namorado que ameaça abandoná-la e com Ben que exige cuidados; mulher frustrada, porque o marido passa seus momentos com os filhos em frente da televisão sem lhe dar atenção; e professora que está frente a uma escola nova, depois de ter deixado de se dedicar ao magistério), está posta frente aos ingredientes necessários para a frustração, a carência e a baixa auto-estima. Steven, oportunista, faz estas falhas renderem a seu favor, pondo a professora numa situação ainda mais grave do que aquela em que se encontrava. Manipulador e dissimulado, ele faz com que as crenças do espectador em relação à infância e à adolescência sofram um abalo. A ingenuidade, a inocência e a singeleza infanto-juvenil sofrem uma crítica contundente e o filme defende que a fragilidade da criança e do jovem é tão só mistificação, sendo eles (às vezes) despóticos e tiranos aproveitadores, um alerta que é feito por Bárbara a Sheba: eis uma inversão de perspectiva, com os adultos passando a serem as vítimas daqueles: uma idéia bastante desagradável.

Além de ser vítima de um adolescente aproveitador e com necessidade de conquistar a professora como forma de autoconfiança, Sheba passa a ser vítima das circunstâncias: o marido de Sheba, acomodado ao cotidiano rotineiro e monótono em que vive, não vê mais a esposa como mulher sedutora e conquistadora, assim como também não se coloca mais neste papel. Sem uma vida afetiva efetiva, Sheba não é (não se sente) mulher e amante: ela é apenas um papel social e um conjunto de atividades a serem realizadas. Que ela esteja realizada ou se sinta feliz não preocupa a quem a cerca, pois cada um está envolto pelos próprios problemas e a faz tábua de salvação, que não tem um porto seguro para si mesma.

Sheba é vítima, ainda, de Bárbara (outra vítima) que, vendo a amiga desabar, dela se aproxima por imaginar que possa vir a ser a alma gêmea que imaginou que Jennifer Dodd poderia ser. Bárbara é a barbárie (dever-se-ia questionar isso) que se lança contra Sheba, por entender que lhe deve gratidão pela ajuda recebida (um sentimento mesquinho e interesseiro), que só acontece, porque vislumbra uma vantagem a ser desfrutada no futuro.

Sheba é vítima, por fim, da sociedade carcerária, tribunalizadora e punitiva de que faz parte, uma sociedade disposta a desencadear processos de punição contra os que ousam se levantar contra os seus ditames, negando visadas enunciativas que possam polemizar regras cristalizadas e sedimentadas. Sempre vigilante e atenta ao que fazem os seus membros, esta sociedade reticulada e tentacular tem olhos voltados para todas as direções e possui ganas e disposição para a punição dos que tentam transgredir as suas injunções. Sheba está presa nestas malhas e a camisa de força que lhe é posta impede que ela possa dar ao corpo e vontade direções e sentidos que não os previstos e predizíveis.

Sheba, a deusa do amor (que deve dar a amor todos, mas não tem amor para si - uma deusa às avessas), talvez possa ser lida como uma metáfora condensadora da vida da mulher. Ela simboliza o amor incondicional e universal, mas que não pode ser amada, pois ser esposa, mãe e professora a põe na condição de um amor unidirecional; ela deve renunciar a si em benefício dos outros e, nas vãs tentativas de romper com a teia que a enovela, pode-se valer apenas de um processo argumentativo contrajuntivo que não possui a força que tem em geral, porque, nestes casos, o ‘mas’ não é uma palavra que nos ajude, já que, se favorecermos um aluno, todo o sistema desmonta, enunciado emblemático do diretor da escola e que revela que esta instituição é uma metonímia da organização social que institui e estatui o lugar e o papel de cada um, não dando espaço para que determinados nós sejam desfeitos e refeitos, principalmente no que diz respeito à sexualidade, que, se não for o maior, é um dos grandes tabus da humanidade e, conforme Freud (1973 e 1999), é a fonte de toda a sorte de castração, sanção e preconceitos.

 

Notas

[1] Optou-se por transcrever o diálogo, respeitando a seqüência dos turnos de fala, embora, às vezes, o encadeamento possa parecer truncado. A divisão que se efetuou na apresentação pode orientar minimamente o leitor e a organização dos recortes para a realização da análise pode dirimir algumas dúvidas que possam existir.

[2] Utilizar-se-á, aqui, a noção de polifonia de Ducrot (1987). Para ele, “as pesquisas sobre a linguagem, há pelo menos dois séculos, consideram como óbvio [...] que cada enunciado possui um, e somente um autor” (p. 161). Para ele, esta crença teria reinado intocada até Bakhtin elaborar a noção de polifonia, afirmando a existência de textos, “para os quais é necessário reconhecer que várias vozes falam simultaneamente, sem que uma delas seja preponderante e julgue as outras” (p. 161). Na esteira do pensador russo, Ducrot (1987) afirma que determinados enunciados, relativamente à fonte de enunciação, apontam para “o objeto próprio de uma concepção polifônica do sentido”, revelando que “o enunciado assinala, em sua enunciação, a superposição de diversas vozes” (p. 172). O autor afirma, ainda, que o que o motiva a desenvolver a sua teoria da polifonia “é a existência, para certos enunciados, de uma pluralidade de responsáveis, dados como distintos e irredutíveis” (p. 182).

[3] Está-se entendendo formação discursiva assim como Foucault (1995) a compreende. Para ele, “no caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhantes sistemas de dispersão e, no caso em que, entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamento, transformações) diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva (p. 43), ou seja, uma formação discursiva se refere ao fato de que um enunciado “não poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa no meio dos outros e relacionado a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar” (p. 31).

[4] Compreende-se papel social como Berger (1986). Para ele, “as pessoas orientam as suas ações umas para as outras (dirigidas pela) trama de significações, expectativas e conduta que resulta dessa orientação mútua” (p. 37). Para o autor, “ao esquema oficial de organização, sobrepõe-se uma rede muito mais sutil, muito menos visível, de grupos humanos, com suas lealdades, preconceitos, antipatias e, principalmente, códigos de comportamento” (p. 45). Para ele, ainda, “com muita freqüência, as pessoas agem segundo essa lógica sem o perceber. Portanto, para descobrir essa dinâmica interna da sociedade, o sociólogo terá muitas vezes de desprezar as respostas que os próprios atores sociais dariam a suas perguntas e procurar as explicações de que eles próprios não se dão conta” (p. 50). Compreende-se que, para que se possa descobrir um papel social, deve-se penetrar nessas “cortinas de fumaça verbais, pelas quais se atinge as fontes não admitidas e muitas vezes desagradáveis da ação” (p. 52).

[5] Entende-se por ethos, com Dascal (2005), que ele se refere à busca de “engendrar no público uma disposição em relação ao orador” (p. 58), o que “se forma, no espírito do auditório, por um processo inferencial de interpretação dos atos do discurso e do comportamento do orador” (p. 66). Acrescente-se, aqui, a afirmação de Maingueneau (2005), para quem, “na perspectiva da análise de discurso, o ethos é parte constitutiva da cena de enunciação, com o mesmo estatuto que o vocabulário ou os modos de difusão que o enunciado implica por seu modo de existência. O discurso pressupõe essa cena de enunciação para poder ser enunciado, e, por seu turno, ele deve validá-la por sua própria enunciação: qualquer discurso, por seu próprio desdobramento, pretende instituir a situação de enunciação que o torna pertinente” (p. 75): o ethos, mais do que instituído, é vivido.

[6] É nesta ótica que este estudo se coloca, pois entende que “as próprias tendências da instituição da sociedade”, de acordo com Castoriadis (1982: 12), só podem ser abaladas, se é que podem, “pela demonstração precisa e detalhada [...] dos limites deste pensamento e das [suas] necessidades internas segundo a sua maneira de ser, que o levaram a ocultar [...] o essencial”: que tudo resulta de um processo de imaginação, entendendo-se que ela é “alguma coisa ‘inventada’, [...] um deslizamento, um deslocamento de sentidos, onde símbolos já disponíveis são investidos de outras significações que não são significações ‘canônicas’ ou ‘normais’” (p. 154). Deve-se, para o autor (p. 14), buscar a elucidação do cotidiano, não porque isto faça “sair de seu modo de ser, como dimensão do fazer social-histórico. Mas [porque isto] pode permitir ser lúcido a respeito de si mesmo”. Para o autor, elucidação “é o trabalho pelo qual os homens tentam pensar o que fazem e saber o que pensam” (p. 14).

 

Referências Bibliográficas

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© João Carlos Cattelan 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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