Configurações da Identidade e da Alteridade
em Ópera dos Mortos, de Autran Dourado

Ana Paula Cantarelli

Universidade Federal de Santa Maria
anapaula_cantarelli@yahoo.com


 

   
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Resumo: Em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais - Brasil, vive a família Honório Cota, descendente da classe aristocrata desse Estado. Isolada em um sobrado, vivência um conflito não só com os moradores da cidade, mas também com sua própria identidade. É nesse cenário que se desenvolve o romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado, objeto de estudo deste trabalho. Neste texto, procurou-se estabelecer, a partir de alguns pontos observados por Michael Ignatiff, e apresentados por Kathrin Woodward, como a identidade e a alteridade se estabelecem no contexto da referida obra literária.
Palavras-chave: pertencimento; identidade; alteridade; tradição

Resumen: En una pequeña ciudad del interior de Minas Gerais - Brasil, vive la familia Honório Cota, descendiente de la clase aristócrata de esto local. Aislada en una casa, vivencia un conflicto no sólo con los moradores de la ciudad, pero también con su propia identidad. Es en esto escenario que se desarrolla la novela Ópera dos mortos, de Autran Dourado, objeto de estudio de esto trabajo. En el texto, se intentó establecer, desde algunos puntos observados por Michael Ignatiff, y presentados por Kathrin Woodward, cómo la identidad y la alteridad se establecen en el contexto de la referida obra literaria.
Palabras clave: pertenecimiento; identidad; alteridad; tradición

Abstract: In a little town in the countryside of Minas Gerais - Brazil, lives the Honório Cota family, descendant of the aristocracy of this state. Isolated in a two stories house, lives a conflict not only with the inhabitants of the city, but also with its own identity. In this background takes place the novel Ópera dos Mortos, by Autran Dourado, corpus of this work. In this text, it was searched the establishment, starting from some points observed by Michael Ignatiff and presented by Kahtrin Woodward, as the identity and the alterity are established in the context of the reported literary work.
Keywords: Belonging, Identity, Alterity, Tradition.

 

“Um homem não é só, um lago de silêncio,
necessita de ouvir a música da fala humana”.
(DOURADO, 1980, p. 73)

 

1 Introdução

Tratar de identidade e de alteridade implica em percorrer caminhos paralelos, originários de uma mesma estrada que de repente se bifurca: quem segue pela via da esquerda acaba por rejeitar a da direita e vice-versa. Dessa forma, a identidade de uma via somente configura-se na negação da outra, de modo que, dependendo do ponto de vista adotado, quem ora é identidade, ora poderá ser alteridade. Entretanto, também é necessário perceber que percorrer uma ou outra via não é um dado imutável, embora esteja associado a diversos fatores, como os simbólicos, que o condicionam em alguma medida.

Woodward (2007: 11), ao discutir identidade e alteridade, afirma que “a identidade é marcada pela diferença”, ou seja, um sujeito somente se reconhece como pertencente a um determinado grupo, porque se vê como diferente dos demais. Assim, acontece com os dois caminhos: a estrada da direita apenas configura-se como estrada da direita porque nega a da esquerda.

Neste trabalho, então, realizaremos uma analise da obra Ópera dos mortos, de Autran Dourado, datada de 1967, procurando identificar as perspectivas da identidade e da alteridade ao longo do romance, e como se estabelecem as duas vias nele constituídas: a configurada pela família Honório Cota, e a configurada pelos demais moradores da cidade. Para tal, utilizaremos quatro sugestões propostas por Michael Ignatiff, e apresentadas por Woodward (2007), em seu texto Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual, publicado na obra Identidade e diferença.

 

2 Organização do Romance

O romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado, está dividido em nove capítulos que compõem uma narrativa linear quase que em sua totalidade: “O sobrado”; “A Gente Honório Cota”; “Flor de seda”; “Um caçador sem munição”; “Os dentes da engrenagem”; “O vento após a calmaria”; “A engrenagem em movimento”; “A semente no corpo, na terra” e “Cantiga de Rosalina”. A narração, nessa obra, desenvolve-se a partir de um narrador que ora assume o papel de observador, ora assume um caráter onisciente, cruzando vozes e revelando pensamentos.

Em uma cidade ficcional não nomeada, localizada no interior de Minas Gerais, estado brasileiro, desenvolve-se a história da família Honório Cota, tendo início com a figura de Lucas Procópio Honório Cota. Homem, descendente da classe aristocrata, temido por todos os moradores da cidade devido às maldades que praticava, principalmente, contra os escravos, entre elas, os estupros cometidos contra as mulheres negras. Lucas construiu uma casa na cidade, a qual pouco habitava, permanecendo mais tempo em sua fazenda, com a esposa, dona Isaltina, e o filho, João Capistrano Honório Cota.

João tinha apenas dez anos quando o pai faleceu, sendo, dessa forma, educado quase exclusivamente pela mãe, de quem herda o porte e o bom comportamento. Quando adulto, o filho de Lucas Procópio casou-se com dona Genu, e, depois de ampliar a casa da família na cidade com a construção de mais um andar, passou a residir nesta junto com a esposa. O sobrado, que já atraia o interesse dos moradores locais anteriormente, transformou-se em um objeto de curiosidade e desejo, pois seu dono o decorou com os mais caros ornamentos.

Após o nascimento de Rosalina, única filha de João, a casa passou a receber muitos convidados todas as noites. Entretanto, apesar dessas recepções, o filho de Lucas Procópio não estabeleceu uma proximidade com o povo da cidade que permitisse o ingresso na intimidade de sua família, exceto por Quincas Ciríaco, padrinho de Rosalina. Quincas era filho de um antigo capataz de seu pai e, além de seu sócio no armazém de café e na máquina de beneficiar, era também seu amigo e conselheiro.

O pai de Rosalina, vendo sua casa sempre cheia de gente, decidiu, então, ingressar na política, a exemplo de seu avô materno. No entanto, após as eleições, os membros de seu partido entraram em acordo com os opositores, impedindo João Capistrano Honório Cota de assumir o cargo para o qual se candidatara. Assim, revoltado contra a cidade, João fechou as portas do sobrado, encerrando as visitas noturnas e distanciando-se ainda mais do convívio daquela sociedade.

Um ano após a frustrada tentativa do filho de Lucas Procópio em assumir um cargo político, faleceu dona Genu. Os moradores locais tiveram acesso à residência da família Honório Cota para o funeral, e viram nesse acontecimento uma possibilidade de reatar as visitas ao sobrado. Entretanto, João permaneceu em seu claustro interior. Às três horas da tarde, momento em que o caixão foi fechado, o proprietário do sobrado, em um gesto simbólico, parou o relógio-armário localizado na sala, saindo depois para o cemitério acompanhado dos presentes, mas sem permitir uma real aproximação.

Algum tempo depois, o pai de Rosalina também faleceu, e novamente o povo da cidade voltou a ingressar na residência da família Honório Cota, em virtude do velório, esperançoso em retomar o contato há tempos perdido. No entanto, a neta de Lucas Procópio reproduziu fielmente o gesto feito pelo pai no funeral de dona Genu: na hora de fechar o caixão, desceu as escadas e parou o relógio de ouro que João costumava usar, colocando-o ao lado do relógio-armário anteriormente parado. Rosalina, apesar de órfã, ao contrário do que era esperado, não se aproximou dos habitantes da cidade, permanecendo isolada dentro do sobrado, tendo apenas Quiquina, uma escrava muda, como contato com o mundo exterior.

A filha de dona Genu ocupou seus dias com a produção de flores de pano e de papel, que eram vendidas por Quiquina na cidade. Seus lucros, além do resultado da venda das flores, provinham dos negócios de seu pai. As atividades eram gerenciadas por Emanuel, filho que Quincas Ciríaco. Emanuel, quando mais jovem, havia pedido Rosalina em casamento, sendo recusado por não pertencer à mesma classe social. Todavia, apesar da recusa, Rosalina continuou a nutrir um amor por ele, amor esse que nunca foi consumado, e que, acompanhado dos fantasmas de sua solidão, a conduziu para o consumo de bebidas alcoólicas durante a noite, na tentativa de evadir da realidade que a cercava.

Com a passagem do tempo, a residência da família Honório Cota deteriorou-se, mas sua dona não permitiu a entrada de nenhum morador da cidade para realizar as reformas necessárias. Com a chegada de José Feliciano (Juca Passarinho), um forasteiro, Rosalina viu a possibilidade de realizar os reparos dos quais sua casa necessitava.

Devido à sua solidão e isolamento, a filha de João estabeleceu uma relação mais íntima com Juca: durante o dia o tratava como empregado e durante a noite mantinha relações sexuais com ele. Quiquina não aprovou a conduta de sua senhora, mas, apesar dos olhares e dos grunhidos, não conseguiu impedi-la de encontrar-se todas as noites com o empregado.

Como fruto desses encontros noturnos, Rosalina engravidou. Durante o parto o filho morreu, e a escrava o pôs nos braços do pai para que este o enterrasse no cemitério sem que fosse visto. Após o sepultamento de seu filho, Juca Passarinho abandonou a cidade.

Com o filho morto, e a fuga de seu empregado-amante, Rosalina passou a visitar o cemitério durante as madrugadas com um vestido branco, uma flor de pano no cabelo e entoando uma canção triste que assombrava quem a ouvia. No final do romance, desfeitos os mistérios que envolviam a ensandecida e infeliz cantilena, Rosalina saiu do sobrado pelo braço de Emanuel, o único homem que despertou seu amor, e foi conduzida para longe da cidade.

 

3 Discutindo Identidade-Alteridade

Ao tratar de identidade, Silva (2007: 74) afirma que definir identidade “em uma primeira aproximação” parece ser fácil: “a identidade é simplesmente aquilo que se é”. A partir dessa primeira aproximação, a identidade passa a configurar-se como auto-suficiente e auto-contida. Já a diferença, estrutura-se, segundo essa perspectiva, como aquilo que a identidade não é, como a negação da identidade. Entretanto, essa definição fácil, ao princípio, é, posteriormente, apresentada de maneira mais complexa por esse autor. Segundo ele, “as afirmações sobre diferença só fazem sentido se compreendidas em sua relação com as afirmações sobre a identidade” (SILVA, 2007: 74), ou seja, para haver identidade deve haver diferença, sendo esses dois conceitos dependentes.

Woodward (2007: 9) apresenta uma perspectiva muito próxima da de Silva ao defender que “a identidade é relacional”, isto é, ela necessita que exista algo fora dela, uma outra identidade, uma identidade que difira dela, mas que lhe propicie condições para existir. A dependência de uma “outra” existência fora da identidade para configurá-la soma-se à perspectiva apontada por Silva (2007), quando este assinala como necessário que exista uma diferença para dar sentido à identidade.

Todavia, apesar do aspecto subjetivo, a identidade não se estabelece no isolamento, pois, segundo afirma Hall (2007: 106), “na linguagem do senso comum, a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal”. Estabelecer um pertencimento, conforme adverte esse autor, não é um processo “completado”, e sim um processo em permanente construção, pois, “embora tenha suas condições determinadas de existência, o que inclui os recursos materiais e simbólicos exigidos para sustentá-la, a identificação é, ao fim e ao cabo, condicional; ela está, ao fim e ao cabo, alojada na contingência” (HALL, 2007: 106).

Esse aspecto de não completude característico da estruturação do processo identitário está intimamente relacionado com a necessidade da existência de um “outro” que se configura em não pertencente à identidade, que não compartilha dos mesmos referencias simbólicos e que nega as ações lingüísticas produzidas por esta. Por tudo isso, a identidade não se constitui no isolamento, mas somente no coletivo é possível estabelecer quem é a identidade e quem é a diferença, sendo essa configuração passível de variação, devido à incompletude da identidade como apontou Hall.

De acordo com esse autor: “as identidades estão sujeitas a uma historicização radical, estando constantemente em processo de mudança e de transformação” (HALL, 2007: 108). Assim, a delimitação da identidade passa pelo que se pode chamar de “estar sendo”, “de optar por ser”, em oposição ao “destinado a ser”, “obrigado a ser”. Nessa perspectiva, a identidade deixa de ser algo sólido, concreto e estabelecido, para tornar-se algo mutável e fluído, ou como aponta Bauman (2005: 22), em uma entrevista concedida a Benedetto Vecchi, algo provisório: “a fragilidade e a condição eternamente provisória da identidade não podem mais ser ocultadas”.

A partir da condição mutável e provisória da identidade, quem ora é identidade ora poderá configurar-se em alteridade, pois não há papéis específicos e pré-determinados. Isso permite que os sujeitos possam tanto assumir quanto negar posturas, tanto escolher quanto negar ser, de acordo com o contexto e o momento histórico no qual estão inseridos.

 

4 Identidade-Alteridade em Ópera dos Mortos

Ópera dos mortos, de Autran Dourado, é um romance que resgata o passado da família Honório Cota na figura de Rosalina. O texto estrutura-se a partir de um narrador que projeta sua voz ora para dentro da trama participando das ações, ora para fora, assumindo um caráter onisciente, cruzando vozes e revelando pensamentos.

Ao assumir o caráter de partícipe das ações, o narrador, em vários trechos, utiliza-se de verbos conjugados na primeira pessoa do plural ou a expressão “a gente”, adotando um posicionamento que se identifica com o povo da cidade, compondo, assim, uma coletividade: “Aí o coronel passou a imperar no sobrado. A gente podia vê-lo, cumprimentá-lo com todas as reverências merecidas, quando ele se dignava a chegar no balcão do sobrado” (DOURADO, 1980: 17). Essa identificação produz uma oposição marcada pela referência à família Honório Cota, apontando para uma identidade e uma alteridade em um mesmo contexto local: a identidade do povo da cidade e a alteridade da família Honório Cota. Entretanto, perceber quem configura a identidade e quem configura a alteridade nesta obra consiste em assumir um determinado ponto de observação, pois só é possível falar em alteridade no que se refere à família Honório Cota se considerarmos o povo da cidade como uma identidade que se contrapõe aos moradores do sobrado, e vice-versa.

Woodward (2007), na tentativa de ilustrar aspectos relacionados à identidade e à diferença, cita dez sugestões do escritor e radialista Michael Ignatieff para tratar a questão da identidade. Embora estas sugestões estejam voltadas para a questão da identidade nacional, de acordo com Wooodward (2007: 14), “a discussão de Michael Ignatieff ilustra diversos dos principais aspectos da identidade e da diferença em geral”. Entre as sugestões apresentadas, selecionamos quatro que servirão para estruturar uma proposta de leitura da obra aqui analisada, a partir do enfoque da identidade e da alteridade:

4. A identidade é, na verdade, relacional, e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades. (...)

5. A identidade está vinculada também a questões sociais e materiais. Se um grupo é simbolicamente marcado como o inimigo ou como tabu, isso terá efeitos reais porque o grupo será socialmente excluído e terá desvantagens materiais. (...)

7. A conceitualização da identidade envolve o exame dos sistemas classificatórios que mostram como as relações sociais são organizadas e divididas. (...)

8. Algumas diferenças são marcadas, mas nesse processo algumas diferenças podem ser obscurecidas; por exemplo, a afirmação da identidade nacional pode omitir diferenças de classes e diferenças de gêneros. [grifo do autor] (WOODWARD, 2007: 14)

4.1 “A identidade é, na verdade, relacional, e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades”

A identidade pode ser marcada pela apropriação, por parte do indivíduo, de objetos, ou ainda pela simples identificação dos indivíduos com estes. De acordo com Woodward (2007: 10), “existe uma associação da identidade da pessoa e as coisas que ela usa”. Essa associação se estabelece de maneira simbólica e marca o pertencimento ou a exclusão a um dado grupo, por meio do compartilhamento ou não de determinados símbolos.

No caso do romance analisado, a construção da identidade da família Honório Cota é estabelecida por meio de diversos símbolos que não são compartilhados por outros membros da cidade, diferenciando estes das pessoas que habitam o sobrado. Entre esses símbolos, destacam-se: o sobrado; a postura e as vestimentas de João Capistrano Honório Cota; e o ato de parar os relógios quando dona Genu e o pai de Rosalina falecem.

O sobrado configura-se no maior símbolo dessa família, pois ostenta não só a riqueza e a opulência desta, mas também identifica a união entre João Procópio e seu pai (“Eu quero uma casa só, inteira, eu e ele juntos pra sempre” - DOURADO, 1980: 04). Essa união não pode ser compartilhada pelos demais moradores da cidade, nem mesmo pela esposa de João, mas é plenamente personificada nas atitudes de Rosalina, já adulta, para com Juca Passarinho. Durante o dia, no primeiro andar, ela o trata como criado, de maneira ríspida, como Lucas Procópio costumava tratar seus empregados. No entanto, durante a noite, assume o papel de amante, conduzindo-o para o seu quarto no segundo andar, configurando, assim, a existência de duas Rosalinas unidas em uma só, como o sobrado de dois andares unido em uma única construção.

Outro símbolo de relevada importância está na maneira como o marido de dona Genu veste-se e em seus modos em meio aquela gente pobre e simples. A postura e a conduta deste lhe permitem a criação de uma imagem distante, que não consente intimidade. Esse distanciamento estabelece, ao redor de João, uma áurea que o assemelha a grandes figuras históricas, uma áurea que não pode ser rompida e que não permite o ingresso de outros:

Cuidava muito dos trajes, da sua aparência medida. O jaquetão de casimira inglesa, colete de linho atravessado pela grossa corrente de ouro do relógio; a calça é que era como a de todos na cidade - de brim, a não ser em certas ocasiões - (batizados, morte, casamento - então era parelho mesmo, por igual), mas sempre muito bem passada, o vinco perfeito. Dava gosto ver.

(...) Desde longe a gente adivinhava ele vindo: alto, magro, descarnado, como uma ave pernalta de grande porte. Sendo assim tão descomunal, podia ser desajeitado: não era, dava sempre a impressão de uma grande e ponderada figura. Não jogava as pernas para os lados nem as trazia abertas, esticava-as feito medisse os passos, quebrando os joelhos em reto.

Quando montado, indo para a sua Fazenda de Pedra Menina, no cavalo branco ajaezado de couro trabalhado e prata, aí então sim era a grande, imponente figura, que enchia as vistas. Parecia um daqueles cavaleiros antigos, fugidos do Amadis de Gaula ou do Palmeirim, quando iam para a guerra armados cavaleiros. (DOURADO, 1980: 09-10)

O terceiro símbolo aqui analisado relaciona-se com o ato de parar os relógios durante o velório de dona Genu e de João Capistrano. Quando dona Genu falece, seu marido, em atos medidos, para o relógio-armário da sala, do sobrado, às três horas, quando fecha o caixão: “Só apareceu na hora de fechar o caixão. Na sala, ele olhou todos do alto, nenhuma palavra. Dirigiu-se primeiro para o grande relógio-armário, aquele mesmo, e parou o pêndulo. Eram três horas”(DOURADO, 1980: 26). Este gesto medido e simbólico, para não só o marcador físico do tempo naquela residência, mas também o tempo psicológico em que vivem os habitantes do sobrado. Esse pêndulo parado está associado com a postura de isolamento assumida por João e sua filha:

Depois da janta, lá iam os dois vagarosamente passeando em direção à Santa Casa, lá no alto, de onde se descortinava a morraria se sucedendo: verde a princípio, para se tornar azul, cinza depois, para os lados de São Paulo. Ali os dois pastavam a sua tristeza e solidão. Até que a noite caía e eles voltavam. (DOURADO, 1980: 27)

Quando o pai de Rosalina morre, ela repete o gesto deste, parando o relógio de bolso do pai, colocando-o ao lado do relógio-armário anteriormente parado. A repetição desse ato intensifica a tentativa de parar a marcação do tempo (“os relógios da casa estavam todos parados, a gente escutava as batidas do silêncio” - DOURADO, 1980: 29). Os relógios parados configuram a estagnação dos costumes, a ênfase nas tradições e a tentativa de conter o fluxo do tempo dentro do sobrado, desconsiderando a cidade vívida lá fora, compondo uma identidade na qual o povo da cidade não pode ingressar, um sistema simbólico do qual eles não podem se apropriar.

Contudo, essa identidade também pode ser percebida como uma alteridade, no momento em que, sob o prisma do povo da cidade, é possível perceber a família Honório Cota como negadora das condutas e posturas desse grupo. Assim, em um processo reverso, pode-se afirmar que o sobrado, por sua construção, não é partícipe da estrutura de edifícios da cidade; que as condutas da família Honório Cota são uma forma de identificar uma alteridade em relação aos habitantes da cidade; e, o ato de parar os relógios configura-se em uma forma de estabelecer um pertencimento ao passado, à tradição, em negação ao presente.

4.2 “A identidade está vinculada também a questões sociais e materiais. Se um grupo é simbolicamente marcado como o inimigo ou como tabu, isso terá efeitos reais porque o grupo será socialmente excluído e terá desvantagens materiais”

Em Ópera dos mortos, há a presença, no mesmo cenário, de um conflito social entre os moradores da cidade e a família Honório Cota. Os habitantes da cidade são marcados como inimigos, pois, ao fazerem um acordo partidário entre si e impedirem que João assumisse o cargo político ao qual se candidatara, passaram a configurar-se em opositores da família. Essa configuração amplia o distanciamento já existente entre esses dois grupos, pois a família Honório Cota isola-se no sobrado não permitindo o ingresso dos moradores da cidade neste, tratando-os como inimigos. Ao fechar as portas de sua casa, a família de Rosalina configura-se em uma unidade estruturada a partir dos laços de sangue ou afetivos (dona Genu e João) e, principalmente, a partir da tradição aristocrata a qual pertenciam. Tal unidade, sólida se poderia dizer, ao excluir os moradores da cidade, deixa estes em desvantagem material, pois perdem o acesso ao sobrado e ao que este contém.

Nem mesmo Quiquina, personagem que circula nos dois ambientes, permite que outras pessoas tenham acesso ao que se passa na casa. Todavia, apesar desse livre trânsito entre os dois locais, Quiquina estabelece seu pertencimento, em maior grau, com a família da casa onde serve:

Quiquina era a ponte, o barco que nos levava àquela ilha. A ponte que contudo não podíamos atravessar, o barco sem patrão vagando no mar silencioso dos sonhos de impossível travessia. Porque a gente indagava de Quiquina sobre a vida no sobrado. Se pediam notícias de Rosalina, ela ficava mais muda do que era, sem nenhum gesto, a fábrica de sua fala emudecia. Ela baixava os olhos e presto se retirava. (DOURADO, 1980: 82)

Por outro lado, na percepção dos moradores da cidade, a família Honório Cota configurou-se em um tabu pela diferença de classes sociais e pelos objetos presentes no sobrado. A diferença de classe social entre os dois grupos cria uma distância entre eles: enquanto Rosalina descendia de uma classe aristocrata, os demais compunham uma classe de trabalhadores assalariados, marcando, dessa maneira, a diferenciação social. Quando João Capistrano fecha as portas do sobrado que estava repleto de móveis e objetos requintados à cidade, este passa a configurar-se em um lugar proibido, e por isso almejado e estigmatizado. O desejo de retornar à residência da família Honório Cota e a curiosidade sobre o que se passa em seu interior são os principais propulsores do interesse a respeito deste:

Desde os primeiros dias a cidade filiou Juca Passarinho, ele era um dos nossos. De novo tentávamos construir uma ponte para o sobrado, talvez por ali a gente pudesse passar. Seria a ligação cortada, que se tentou restabelecer por ocasião das duas mortes: a de dona Genu e a de João Capistrano Honório Cota. (...) Duas tentativas frustradas. O sobrado continuava inabordável. Jamais conseguiríamos chegar ao seu miolo, restabelecer a ligação perdida. (DOURADO, 1980: 90)

4.3 “A conceitualização da identidade envolve o exame dos sistemas classificatórios que mostram como as relações sociais são organizadas e divididas”

Primeiramente, no início do texto, ao apresentar o Coronel Lucas Procópio Honório Cota, o narrador deixa claro que a relação deste não é de pertencimento ao povo da cidade, mas sim de distanciamento: “Aquele outro Lucas Procópio Honório Cota: respeito a gente tinha, e muito, mas era mais de medo, pelas partes que ele fazia” (DOURADO, 1980:10). Ao revelar o medo compartilhado entre moradores da cidade com relação a Lucas Procópio, o narrador marca o não pertencimento deste a este grupo, configurando-se, dessa forma, em um “outro”, em uma alteridade.

A distância diminui quando se trata de João Capistrano Honório Cota. Ao ampliar as instalações do sobrado feito por seu pai, João passa a receber as pessoas da cidade em sua residência. Contudo, apesar do acesso à casa da família, em nenhum momento ele faz parte da coletividade da cidade: “Desde menino João Capistrano fora homem sério, nunca se misturava, mantinha sempre uma distância respeitosa” (DOURADO, 1980: 11).

Rosalina, filha de João, mantém uma distância maior do que a que foi mantida por seu avô e por seu pai: “Queríamos que Rosalina fosse feito Lucas Procópio, nos lançasse na cara todos os desaforos, ao menos falasse com agente” (DOURADO, 1980: 82). Ao isolar-se do convívio social, permanecendo em um “confinamento” no interior do sobrado, a neta de Lucas estabelece uma distância que é supervisionada pelo olhar e pelos ruídos cheios de sentido da escrava Quiquina.

Além desses dois grupos bem distintos: os integrantes da família Honório Cota, e os demais moradores da cidade, há ainda duas personagens que vagueiam entre essas duas dimensões: Quiquina e Juca Passarinho. Quiquina, apesar de ser escrava, tem acesso à intimidade de Rosalina. Com seus olhares, gestos e ruídos, a escrava se mantém como um baluarte da tradição da família Honório Cota, impedindo Rosalina de esquecer as condutas assumidas por seu pai e avô.

Assim, esse não pertencimento ao povo da cidade estabelecido por João e Rosalina, para configurar-se em outra identidade, busca, para legitimá-lo, estabelecer uma ancoragem na tradição aristocrata dessa família, recorrendo para isso ao passado. Segundo Woodward (2007: 27), “Ao afirmar uma determinada identidade, podemos buscar legitimá-la por referência a um suposto e autêntico passado - possivelmente um passado glorioso, mas de qualquer forma, um passado que parece “real” - que poderia validar a identidade que reivindicamos”. Essa conduta de retorno ao passado expressa-se nas referências feitas por João a Lucas Procópio (“Eu quero uma casa só, inteira, eu e ele juntos pra sempre” - DOURADO, 1980: 04; “Eu sou filho de Lucas Procópio Honório Cota” - DOURADO, 1980: 25) e na postura de claustro assumida por Rosalina a exemplo de seu pai:

Não de jeito nenhum ela pensava em casar. Emanuel bem que quis. O pai. Você não deve de olhar pra nenhum rapaz, não deve dar confiança pra essa gentinha. Depois do que aconteceu. Esta gente não presta. A gente também deve ter um pouco de orgulho. (DOURADO, 1980: 37)

José Feliciano, empregado do sobrado, embora seja de classe pobre, estabelece um relacionamento íntimo com Rosalina. Todavia, essa relação não é suficiente nem para integrar Juca à família do sobrado, nem para incorporar Rosalina à cidade. Ao contrário, acaba propiciando a partida de Juca, e o enlouquecimento de Rosalina, que se fecha ainda mais em seu mundo interior.

4.4 “Algumas diferenças são marcadas, mas nesse processo algumas diferenças podem ser obscurecidas; por exemplo, a afirmação da identidade nacional pode omitir diferenças de classes e diferenças de gêneros”

Durante a narrativa, ocorre a separação entre dois grupos distintos: a família Honório Cota, e os demais moradores da cidade. Na relação de pertencimento ou negação a um destes dois grupos, foi suprimida a diferença de gêneros, mas a diferença de classes foi enfatizada. Isso pode ser percebido pelo fato da família Honório Cota compor uma alteridade para o povo da cidade, primeiramente pela figura de Lucas Procópio, seguida de João Capistrano e, finalmente, por Rosalina, não havendo distinção de gêneros, apenas o pertencimento à família, e à mesma classe social.

Quanto aos demais, é possível afirmar que todos estão agrupados sobre o “guarda-chuva” do povo da cidade, sendo esta identidade marcada pela exclusão no que diz respeito à família Honório Cota. Neste grupo, também não há a distinção entre sexos, sendo essa diferença obscurecida. Entretanto, a classe social inferior os designa como diferentes, pois este aspecto é enfatizado.

Indivíduos como Juca Passarinho e Quiquina, apesar de estarem nos dois grupos, estabelecem relações distintas. Juca possui uma maior identificação com o povo da cidade, devido à classe social a que pertence. Apesar do envolvimento com Rosalina, este não é reconhecido nem por ela, nem por Quiquina como partícipe da identidade da família Honório Cota. Dessa forma, o que coleta de informações sobre o passado da família vem da rua, pois Rosalina pouco fala sobre o assunto: “Se você quer saber coisas, falou ela alto, quase gritando, mexericar, vai procurar essa gentinha da rua com quem o senhor anda metido, pensa que não sei?” (DOURADO, 1980: 72-73)

Quiquina, ao contrário, estabelece um pertencimento maior à família Honório Cota, não como um membro efetivo, mas como uma escrava que, após a morte dos patrões, encarrega-se de manter viva, por meio de olhares e gestos, a lembrança da tradição dessa família: “Os gestos de Quiquina quando aflita, os olhos esbugalhados, os grunhidos” (DOURADO, 1980: 32-33). Quiquina conta com o carinho e a afeição de Rosalina, diferente de José Feliciano:

Um mero empregado. Ele viu logo que não seria nunca feito Quiquina, que ela tratava num misto de amizade, respeito e carinho. Com Quiquina ela dizia assim - Quiquina, você, íntima. Mas mesmo Quiquina, que tinha sido sua ama, sabia que o mando, as rédeas ficavam nas mãos delicadas e firmes de Rosalina. (DOURADO, 1980: 72)

 

5 Considerações Finais

Depois de se ter percorrido, pelo menos em parte, as duas estradas apontadas como possíveis na narrativa analisada, pode-se reforçar alguns aspectos assinalados anteriormente nesse texto no que diz respeito à identidade e à alteridade, tais como: a subjetividade e o aspecto temporal. Em Ópera dos mortos, somente a família Honório Cota poderia, subjetivamente, optar por fazer parte da identidade composta pelos demais moradores da cidade onde viviam. Entretanto, a opção pelo isolamento nega essa possibilidade, criando outro grupo, outra estrada, por meio da diferenciação. Ao povo da cidade, não cabe a possibilidade de ingresso nesta via, não estando, dessa forma, pautada pela subjetividade a sua escolha.

Quanto ao aspecto temporal, o passado e o presente exercem um papel ativo, nesta obra, no que se refere à construção da identidade, pois é no passado da família Honório Cota que Rosalina busca uma justificativa para sua conduta. Ao afirmar que: “Não, eles não podiam ter feito aquilo com ele. Com ela. Ele não merecia. Tão bom, tão calado, tristinho. Pra sempre tinha de odiar. Não esqueço, ninguém deve esquecer” (DOURADO, 1980: 32), a filha de João Capistrano reaviva o sentimento do pai em relação à cidade como se fosse seu, e pauta sua conduta através deste.

Assim, por uma subjetividade estabelecida por um grupo (família Honório Cota) e por meio de um passado que se presentifica nas condutas de Rosalina, a família Honório Cota configura-se em outra via, em outra estrada que delineia um caminho paralelo com a configurada pelos habitantes de sua cidade. Estes caminhos, algumas vezes, ao longo da narrativa, parecem que vão unir-se devido à presença de Juca Passarinho e de Quiquina, entretanto acabam por separarem-se drasticamente quando, louca, Rosalina abandona o sobrado, seguindo sozinha em sua estrada.

 

6 Referências Bibliográficas:

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

DOURADO, Autran. Ópera dos mortos. São Paulo: Difel, 1980.

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© Ana Paula Cantarelli 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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