Seymour Glass e o herói de formação religiosa
nos contos de J. D. Salinger

Adolfo José de Souza Frota

Universidade Estadual de Goiás (UEG) - Brasil
adolfo_thedrifter@yahoo.com.br


 

   
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Resumen: El objetivo de este artículo es analisar como ocurre la narrativa de formación presentada en una manera alternativa: el cuento. Intentamos establecer algunas características del Bildungsroman y analisar cual es el proyecto pedagógico del autor J. D. Salinger y el proceso de formación religiosa de Seymour Glass y de su familia.
Palabras clave: Bildungsroman, J.D. Salinger, cuento norteamericano contemporáneo

Resumo: O objetivo deste artigo é analisar como se configura a narrativa de formação apresentada em uma forma alternativa: o conto. Pretendemos estabelecer algumas características do Bildungsroman e analisar qual é o projeto pedagógico do autor J. D. Salinger e o processo de formação religiosa de Seymour Glass e de sua família.

 

Antes de qualquer mensagem de conteúdo ideológico já é ideológica a própria pretensão do narrador.
Theodor Adorno - Notas de literatura I

Não me importo com os políticos. Tenho nada em comum com eles. Eles tentam limitar os nossos horizontes; e eu tento expandi-los.
Salinger - Entrevista ao The Paris Review

 

Jerome David Salinger foi um dos autores mais discutidos nas décadas de 50 e 60 pela vasta produção contística. Mas, foi em seu único romance, O apanhador no campo de centeio, que a sua notoriedade extrapolou as fronteiras norte-americanas. Depois de O apanhador..., Salinger criou outra personagem que conseguiu ir além de Holden Caulfield, o protagonista do único romance: trata-se da estranhíssima e não menos fascinante personagem Seymour Glass.

O apanhador... é um romance que aborda o processo doloroso de aprendizagem de Holden diante de um mundo falso e hipócrita. A idéia de trabalhar com personagens que se revoltam contra um modelo social vigente e saem em busca de refúgios alternativos é a grande temática da obra de Salinger.

O processo de formação de um protagonista, mais comum à expressão literária romance, foi vastamente difundido e estudado, por ser um gênero literário canônico e consagrado, o Bildungsroman. Em nosso artigo, trataremos de uma outra forma de narrativa de formação ampliando a idéia de que podemos encontrar em contos uma personagem que procura ou não estabelecer contato com a sociedade assim como discutir que a formação pode ser, não só de um protagonista, mas de toda a família. Estamos falando do Conto de Formação.

Como não se trata de propor uma teoria nova e sim compará-la com as teorias sobre o Romance de Formação, discorreremos sobre o Bildungsroman e analisaremos as suas principais características aplicando-as nos contos que tratam de Seymour Glass e irmãos. São eles: “Um dia ideal para os peixes banana”, da coletânea Nove estórias, “Zooey”, do livro Franny & Zooey, “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira” e “Seymour: uma apresentação”, ambos os contos reunidos no livro Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour: uma apresentação, e “Hapworth 16, 1924”, inédito no Brasil.

 

Breve panorama do Bildungsroman

O termo Bildungsroman (Romance de Formação) foi criado em 1810 pelo professor de filologia clássica Karl Morgenstern. Por um processo de justaposição dos radicais Bildung (formação, educação ou processo de civilização) e Roman (romance), o gênero surge na Alemanha no último quartel do século XVIII com o objetivo de nacionalizar a literatura alemã por parte de uma burguesia impregnada de novos valores sociais. Desta forma, podemos apontar um dos primeiros aspectos do Bildungsroman: ele está ligado ao momento histórico de sua composição, como a aspiração da personagem que reflete o ambiente em que vive e os anseios que deseja para si e para a sua formação e caráter.

Vários autores, entre eles Cristina Ferreira Pinto, em O Bildungsroman feminino (1990), Vilma Patrícia Maas, em O cânone mínimo (1999) e Marcus Vinicius Mazzari, em Romance de Formação em perspectiva histórica (1999) concordam ao apontar Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, como o arquétipo do gênero. Cristina Ferreira Pinto (1990, p. 9-10) informa que houve outros Romances de Formação anteriores a Wilhelm Meister, como o Parzival, de Eschenbach, e o Simplizissimus, de Grimmelshausen.

Apesar de Goethe não ter sido o primeiro a usar o termo, a concepção dessa tipologia se deve a ele quando, no referido romance, passou a usar, com certa freqüência, a palavra Bildung e outras derivadas ao se referir à sua personagem.

Outra importante informação sobre o romance é que ele se caracteriza a partir dos elementos temáticos e da obra, e não por causa da sua estrutura. É o romance da formação de uma personalidade, da infância e da adolescência até a idade adulta.

Vilma Patrícia Maas (1999, p. 19), que segue a linha de raciocínio do filólogo Morgenstern, citado há pouco, define esse tipo de romance, tradicionalmente, como aquele que representa a formação do protagonista em seu início e trajetória até alcançar um determinado grau de “perfectibilidade”. A evolução do caráter da personagem deve também promover, concomitantemente, a formação do leitor. Essa característica aponta que o Bildungsroman tem caráter ideológico pela proposição de uma pedagogia que auxilia o leitor em seu aprendizado. Como exemplo e modelo, o filólogo o associa ao romance goetheano, que trata da educação ideal de um jovem burguês, o protagonista Wilhelm Meister, criando assim o que a historiografia literária reconhece como o paradigma do modelo.

Cristina Ferreira Pinto (1990, p. 9-10) aponta que é possível considerar o Bildungsroman como um gênero ou subgênero narrativo. No entanto, como a autora observa, o Romance de Formação não constitui uma categoria isolada, principalmente em se tratando da narrativa moderna. Por isso, o romance moderno tem caráter híbrido, ele pode ser Histórico, Social, Psicológico, Regionalista. Um Bildungsroman pode comportar mais de uma forma: ser, ao mesmo tempo, Social/Histórico, Filosófico/Regionalista. Ele se “flexibiliza” de acordo com a necessidade da escrita e a intenção do autor, o que aponta para a idéia de que o termo não possui uma teoria cristalizada e que seja possível o surgimento de modificações estruturais e temáticas.

Cristina Ferreira Pinto (1990, p. 10) também afirma que o gênero apresenta as conseqüências dos eventos que ocorrem no mundo e que afetam o herói em sua psique, enfatizando o seu desenvolvimento interior como o resultado de sua interação com a sociedade, e funciona como um estudo de sua vida interior. Com isso, o Bildungsroman pretende refletir sobre a formação do protagonista ao mesmo tempo em que presta um serviço para o leitor, ao trazer a experiência de uma personagem que precisa se inserir no mundo.

Já Marcus Vinícius Mazzari (1999, p. 67), ao se referir ao cânone, nos alerta que não se deve ver Wilhelm Meister como uma manifestação dos anseios burgueses, na tentativa de preparar os seus jovens apenas para assumir as funções dessa sociedade, como fabricar novos talentos para assumir os papéis pré-impostos pelo meio. Ele destaca que o jovem Wilhelm anseia pelo desenvolvimento de suas potencialidades para alcançar uma formação harmônica, mas isso não significa que ele tenha que aceitar os caminhos burgueses preestabelecidos. O que se nota é, pelo contrário, a recusa do protagonista, visto que ele escolhe a vida artística ao invés de cuidar dos negócios familiares, preocupando-se com o desenvolvimento de suas potências internas - quer dizer, artísticas, existenciais e intelectuais -, para harmonizar-se interiormente. O equilíbrio com o meio surge a partir de um equilíbrio emocional. Cuida-se primeiro de si, para poder cuidar do todo:

No romance Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, a expansão plena e harmoniosa das capacidades do herói, a realização efetiva de sua totalidade humana é projetada no futuro e sua existência apresenta-se assim como um “estar a caminho” rumo a uma maestria ou sabedoria de vida, a qual é representada menos como meta a ser efetivamente alcançada do que como direção ou referência a ser seguida (MAZZARI, 1999, p. 73, grifo do autor).

Se não houvesse equilíbrio com o mundo, ele deveria ser encontrado pelo herói. No momento da concepção do Bildungsroman, ainda imperava aquela idéia do homem em sintonia com o seu meio. Por isso, o Romance de Formação pressupunha que a diferença entre indivíduo e sociedade podia ser superada (MAZZARI, p. 85). E o surgimento do termo coincide com o momento do reconhecimento do romance como forma literária “digna” na Alemanha, quando este ganha status artístico e se torna um gênero popular. Ele cresce junto com a classe média alemã, em seu momento de emancipação política, artística e cultural.

As narrativas do fim do século XVIII tomam novos rumos em relação aos seus antecessores. Com a perspectiva posterior realista, o romance passa a representar o homem comum mediano que enfrenta as mesmas dificuldades na vida que os homens comuns enfrentam. Os leitores já não encontram novos Ulisses, heróis de poderes extraordinários como Aquiles ou cavaleiros que vencem sozinhos exércitos como Siegfried, típicos das epopéias e canções de gesta, e sim personagens jovens que se inauguram perante a vida, que buscam uma profissão, um auto-aperfeiçoamento e o seu lugar no mundo. Vale lembrar que a representação do “homem comum” no romance não é algo inédito do Romantismo na Alemanha. Basta-nos lembrar de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, escrito em 1605.

A idéia de que a literatura serve para educar também é apontada pelo filósofo alemão Walter Benjamin que em “O narrador” (1980, p. 59), defende o conceito da arte como mecanismo educador, quando diz que a narrativa tem uma dimensão utilitária, podendo consistir num ensinamento moral, numa sugestão prática, num provérbio ou numa norma de vida. Ao analisar o papel do narrador no romance, Benjamin afirma que o narrador é aquele que sabe dar conselhos, ou seja, aquele que tem algo para contar, ensinar, passar adiante. O papel pedagógico da arte também é lembrado pelo romancista francês Alain Robbe-Grillet. No livro Por um novo romance (1969, p. 26), Robbe-Grillet afirma que os romancistas perceberam que contar histórias apenas para distração era fútil. O romancista está ciente de que a realidade é ambígua, ou seja, confusa em demasia, para que se possa extrair dela, apenas dela, uma lição.

Por estar relacionado com a sociedade de sua época, a do final do século XVIII, Wilhelm Meister reflete uma tendência desse século: a da busca de harmonia entre o homem e o meio em que vive. E sendo o Bildungsroman fruto de anseios de uma determinada sociedade, conseqüentemente, com as transformações sociais, novos valores surgem. Assim, acreditamos que o Romance de Formação sobreviveu às revoluções e continua presente como manifestação artística. É como nos informa Mazzari (1999, p. 85):

Os sucessivos desvios que o Bildungsroman vem apresentando em relação ao seu protótipo [...] mostram-se como reflexos das transformações políticas e econômicas ocorridas nas estruturas da sociedade em que o herói em formação busca integrar-se. Se em Goethe a crescente precariedade de tal integração é tratada de forma a se preservar ainda a integridade humana, em outros autores podemos observar uma tendência à dissolução caricatural da concepção clássica de formação.

Isso quer dizer que os escritores que surgem depois de Wilhelm Meister, ao perceberem que o desenvolvimento ideal da sociedade burguesa não pode ser plenamente realizado em uma sociedade nova, com novas tendências, anseios e valores, passam a refletir essa dificuldade criticando o modelo goetheano de harmonização social (MAZZARI, p. 68). Salinger inova o gênero por apresentar não apenas mais um Bildungsroman que busca rompimento com a sociedade, o jovem Holden Caulfield de O apanhador no campo de centeio. Conhecendo algumas publicações anteriores mesmo ao romance O apanhador..., como “I’m Crazy” (1945) e “Slight Rebelion Off Madinson” (1946), ambos tendo como protagonista Holden Caulfield, percebemos que Salinger começa a experimentar com contos que trazem o mesmo protagonista no momento de descoberta pessoal. Esses contos viraram capítulos do romance posteriormente.

Conseqüentemente ao aspecto social, não só os membros da sociedade mudam com o passar dos anos. Robbe-Grillet (1969, p. 22) afirma que a personagem também exprime a transformação. Ele aponta para essa mudança ao se referir ao “novo” herói romanesco. Os autores modernos não conseguem mais criar nem mesmo aquele herói típico do século XVIII e XIX, com identidade e história porque eles não acreditam mais nesse tipo de personagem. Assim, o “romance de personagens [o Bildungsroman na sua forma tradicional] pertence inteiramente ao passado, caracteriza uma época: a que marcou o apogeu do indivíduo”. Ainda com ele:

Hoje, nosso mundo está menos seguro de si mesmo, mais modesto talvez, uma vez que renunciou à pessoa todo-poderosa, mas também mais ambicioso, uma vez que olha para o além. O culto exclusivo do “humano” cedeu lugar a uma tomada de consciência mais ampla, menos antropocentrista. O romance parece vacilar, tendo perdido seu melhor sustentáculo de outrora, o herói. Se não consegue pôr-se de pé novamente é porque sua vida estava ligada à vida de uma sociedade agora extinta. Se conseguir, pelo contrário, um novo caminho se abrirá para ele, com a promessa de novas descobertas (ROBBE-GRILLET, p. 23, grifo do autor).

Observando algumas referências de teóricos que analisaram o Bildungsroman, acreditamos que o gênero ainda seja possível atualmente, mas não daquela forma romântica como em Wilhelm Meister, ou restringida apenas ao romance, visto que no século XX o conceito teleológico do desenvolvimento individual sofre uma ruptura. No período das duas guerras mundiais, a representação do indivíduo como um todo harmônico, desenvolvido segundo suas tendências naturais, não corresponde à nova realidade. As condições históricas que sustentavam o projeto burguês de evolução esfacelam-se, ao mesmo tempo em que a personalidade individual se descobre fragmentária. Por este motivo, o Bildungsroman continua a existir, só que não mais na busca da integração social e sim, na sua ruptura. Ruptura que pode se estender a forma literária escolhida por um autor. Salinger experimentou falar da formação de suas personagens principais em contos, primeiro Holden Caulfield, em seguida, Seymour Glass. Vale lembrar que a atitude de Salinger, de representar um herói em vários contos, não é inédita nos Estados Unidos. Para isso, basta-nos citar Ernest Hemingway que escreveu uma série de contos sobre seu alter ego Nick Adams.

Apontando para a idéia de que o Bildungsroman se transforma com o passar dos tempos, o termo é defendido por Wilma Patrícia Maas (2000, p. 207)

como um produto de configurações históricas e literárias determinadas, que se transformam ao longo da existência do próprio conceito [...]. A longevidade do Bildungsroman [...] só pode ser explicada por essa capacidade do conceito de se deixar apropriar pelas diferentes épocas histórico-literárias.

Isso significa que o gênero sobrevive ao passar dos tempos por seu processo de constante atualização de acordo com o momento histórico. Os contos de J. D. Salinger surgem logo após a Segunda Guerra Mundial, período de mudança social no Ocidente e profundas transformações econômicas. A modificação surge consoante as novas necessidades dos jovens da segunda metade do século XX, brilhantemente exposto por Salinger em toda a sua literatura.

Ambientados no final da década de 40 e início da de 50, os contos de Salinger não refletem o período de tensão beligerante entre as duas maiores super potências da época: os EUA e a URSS. Pelo contrário, o conflito é estabelecido entre a sociedade estadunidense consolidada e rica e a nova geração que vem para contestar os valores preestabelecidos. Uma das principais características apontadas pelos autores Malcom Bradbury e Howard Temperley, em Introdução aos estudos americanos (1976, p. 336-337) é que a década de 60 foi bastante produtiva economicamente, pois nove em cada dez famílias tinham aparelho de televisão e quase três quintos, carro. A renda per capita aumentou e o padrão de vida foi o melhor de todos os tempos. Outro fator importante a ser destacado foi o crescimento demográfico. Na década anterior, a população dos Estados Unidos sofreu um acréscimo de 18,5 por cento e esse aumento fez-se sentir nos anos 60. O mais significativo deste dado é a quantidade de menores de 18 ou maiores de 65 anos: cerca de 45 por cento da população eram jovens ou velhos demais para suportar este peso econômico. O novo quadro social influenciou toda uma geração que vinha desde os anos 50 lidando com a nova conjuntura.

Isso significa que, basicamente, a sociedade norte-americana era constituída principalmente por jovens que nasciam e cresciam no período da Segunda Guerra Mundial e os anos que se seguiram, em um país que era o mais rico e o mais promissor, já que a Europa havia sido destruída pela guerra. Entretanto, a nova guerra que os EUA tinham que enfrentar era travada em seu próprio solo e pelos seus próprios filhos insatisfeitos com a idéia de acúmulo de bens materiais em detrimento de uma formação mais humanista.

Os heróis de Salinger são problemáticos por não conseguirem um “ajuste social”. Por isso, algumas vezes, chegam a ser internados em hospitais para tratamento psiquiátrico. Holden Caulfield conta a sua “odisséia” nova-iorquina no divã. Seymour Glass é internado quando ainda era soldado. Ambos não conseguem mais encontrar todas as certezas em um cosmos fechado. Aliás, suas certezas não coincidem com o mundo. Por isso, eles se alienam em busca de um mundo totalmente diferente daquele que existe. Vão à busca de uma religião da inocência, representada pelas crianças e sua pureza, ou procuram religiões não convencionais nos Estados Unidos, como o Zen-Budismo e o Taoísmo.

O herói que vamos analisar busca os dois caminhos ao estabelecer contato apenas com crianças e flertar com religiões orientais. Ademais, ele procura ensiná-las aos outros irmãos.

 

O Conto de Formação: fragmentação e ruptura nos contos de J. D. Salinger

Chamaremos de Conto de Formação as narrativas curtas que se referem à Seymour Glass e família. Conforme antecipamos anteriormente, não pretendemos teorizar sobre o conto, e sim levantar algumas características do Bildungsroman e aplicá-los às histórias sobre ele e sua família, ressaltando os principais aspectos da narrativa de formação.

O protagonista de vários contos de Salinger escritos depois de O apanhador no campo de centeio, Seymour, aparece pela primeira vez em “Um dia ideal para os peixes-banana”. O conto inaugura a obsessão literária do autor desde então, apesar de Salinger não publicar nada de novo há mais de 40 anos. O conto trata dos instantes finais de Seymour antes do suicídio, quando estava em uma segunda lua-de-mel com a esposa Muriel, em Miami beach, Flórida.

O segundo conto, “Zooey”, aborda o tema da passagem da adolescência para a fase adulta protagonizada por Franny, a caçula da família Glass. É a partir de “Zooey” que Buddy, o irmão mais velho desde a morte de Seymour, aparece como narrador, personagem e alter ego de Salinger.

Em “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira”, Buddy (narrador-personagem) vai ao casamento de Seymour, mas a cerimônia é cancelada porque o noivo foge. É somente quando vai para o apartamento, acompanhado pela dama de honra e outros convidados, que Buddy descobre que Muriel também havia fugido.

“Seymour, uma apresentação” é um conto-tese em que Buddy não conta uma história linear, apenas alguns relatos que lhe vem à memória com o intuito de defender a superioridade intelectual do irmão morto ao compará-los com Kafka, Kierkgaard e Van Gogh, outros gênios loucos.

O último conto sobre Seymour publicado, até o momento, “Hapworth 16, 1924” é considerado pela crítica como uma despedida infeliz de uma personagem fascinante. É, na verdade, uma seqüência mal-sucedida da brilhante invenção literária de Salinger. O jovem Seymour, nessa longa carta com mais de 30 mil palavras, pede alguns livros para os pais (pois o garoto de 7 anos de idade estava acampado em Hapworth), e dá alguns conselhos espirituais a família. O conto é, também, a infeliz despedida do autor que desde então, não tem publicado mais nada.

Um dos aspectos mais interessantes e relevantes das narrativas sobre Seymour é que, com exceção do primeiro e do último conto, os outros 3 não o trazem de forma direta. Ou seja, Seymour é apenas mencionado e suas frases são reaproveitadas e lembradas, tanto pelo narrador quanto pelas demais personagens, todos de sua família. O “louco” e “desajustado” protagonista de “Um dia ideal...” sofre modificações de acordo com as publicações do autor. Isso significa que Seymour ganha significância dentro do universo literário de Salinger. Por isso, há disparidades entre o caráter do primeiro Seymour, o ex-soldado que comete suicídio, se comparamos com a sua última versão, a criança notável pelo seu conhecimento espiritual.

Em Salinger, Seymour é retratado como uma personagem de natureza aberta e sem limites, que vai ganhando cores com o processo da escrita e que vai melhor desenvolvendo as suas idéias. Ele vai evoluindo com o passar do tempo. O primeiro Seymour, de “Um dia ideal...”, não é o mesmo jovem de “Hapworth 16, 1924”. O problemático marido de Muriel, motivo de preocupação da família da esposa, que joga o carro contra uma árvore, é posteriormente construído como uma personagem mais equilibrada quando criança. No conto que traz os momentos finais de Seymour, a preocupação da mãe de Muriel é que ele não volte a atentar contra a vida. Na verdade, ela está se referindo ao acidente de carro provocado pelo genro: “- Ele tentou fazer aquela brincadeira com as árvores?” (SALINGER, 2003b, p. 8).

Em “Um dia ideal...”, a lógica da personagem, ou seja, os traços que demarcam o caráter de Seymour, não estão bem definidos, quer dizer, temos uma personagem que consegue apenas manter relações com crianças e que causa estranheza aos adultos. Em um conto que mostra somente os momentos finais de Seymour, não conseguimos ter noção da complexidade de sua personalidade, conforme podemos perceber com a leitura dos outros contos, principalmente aqueles de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour: uma apresentação. Ele vai crescendo na escrita do seu autor. Por isso, somente com a elaboração de novos contos que dessem mais descrições sobre Seymour, daria ao leitor uma melhor noção de sua personalidade. E as outras publicações nos fazem entender as características dessa personagem, ou pelo menos, nos fazem levantar hipóteses dos motivos que o levaram a tirar a própria vida.

Essa evolução ocorre de forma inversa, pois a primeira narrativa, “Um dia ideal...” acontece o seu suicídio. Os outros contos vêm para “corrigir” a impressão errada que poderia ter o leitor ao se referir à Seymour. Por isso, Salinger cria Buddy, o irmão que é personagem e narrador e que assume o papel de “limpar” o nome do suicida. Ele realiza aquilo que provavelmente fez Horácio, na peça Hamlet, de William Shakespeare. Antes da morte por envenenamento de Hamlet, Horácio opta pelo suicídio, mas tem a vontade interrompida quando Hamlet lhe pede que sobreviva para contar, às futuras gerações, os seus tristes embates contra o reino podre da Dinamarca. Buddy, à maneira de Horácio, sobrevive ao irmão apenas para lhe limpar o nome.

Em muitos dos contos de Salinger, principalmente aqueles relacionados à família Glass, percebemos que o autor acentua uma das características mais marcantes do homem moderno: a sua fragilidade. E o representante desse homem pouco vigoroso, o herói literário, está diante de um mundo maior que ele. Os perigos que ele tem que enfrentar não são nada iguais àqueles de Ulisses ou os moinhos de vento de Dom Quixote. Longe de Caribde e Cila, as personagens de Salinger enfrentam o desafio mais difícil de vencer, o de estarem vivos, de representarem seres humanos modernos em conflitos e em momentos de decisões: Holden e Franny representam o fim da adolescência; Seymour, o fim da esperança de viver no mundo infantil e de ter uma visão do mundo mais humana e transcendental.

A fragmentação é sugerida com o próprio sobrenome Glass, que pode significar vidro, ou seja, aquilo que pode se partir em mil pedaços, quer dizer, se perder diante dos problemas do mundo.

A década de 50 é marcada pelo surgimento do movimento Beat e do rock and roll, ambos protagonizados por jovens revoltados. Mesmo estando distante dos movimentos da “juventude transviada”, Seymour foi um dos que levantaram a bandeira das religiões alternativas. Mesmo não sendo hippie, Seymour adotou, em seus discursos, importantes conceitos de várias religiões orientais, inclusive o do Cristianismo Ortodoxo Russo.

O protagonista de Salinger não procura se harmonizar com a sociedade norte-americana, e sim romper com os seus valores buscando a harmonização em seu próprio lar, criando, inclusive, uma linguagem própria que só os membros da família possam entender. Nas palavras de Buddy: “falamos uma espécie de linguagem esotérica de família” (SALINGER, 2003a, p. 43). Em busca de novos parâmetros, Seymour encontra no Zen-Budismo e outras religiões orientais as respostas para os seus problemas. E é aí que ele ensina para os irmãos os principais conceitos das religiões orientais ao mesmo tempo em que o leitor também se educa. Quando as personagens falam de suas formações religiosas, estão, na verdade, falando da formação e da educação que receberam de Seymour. Portanto, os contos sobre Seymour e a família abordam, principalmente, a formação filosófica de todos, desde o irmão mais velho até a caçula. Quando falam de Seymour, todos estão, na verdade, falando de si próprio.

Qual foi o meio que Salinger elegeu para representar o seu herói? Nada poderia ser mais conveniente que o conto, forma curta de expressão literária. Assim, o leitor terá que procurar Seymour espalhado em diversas histórias, juntar os “cacos de vidro” para montar um verdadeiro quebra-cabeça literário e conseguir entender a dimensão de seu pensamento e ensinamento. Ao ler sobre os outros irmãos, o leitor apreenderá o caráter do protagonista de Salinger, pois quando falam de si, estão também falando do seu irmão.

Se o Bildungsroman está ligado ao momento histórico de sua composição, trazendo uma personagem que reflete o ambiente em que está inserido, nos contos de Salinger conseguimos notar a mesma característica. Essas narrativas cobrem o período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial, período de tensão beligerante, de fragmentação e divisão do mundo e de procura por religiões do oriente. A dispersão é representada na forma da história, porque, ao invés de o autor utilizar o romance, prefere os contos. Assim, para termos uma noção mais abrangente da configuração dessa personagem, precisamos procurá-la nas várias narrativas sobre a sua família. O momento histórico pelo qual os Estados Unidos estão passando é de grande otimismo econômico, apesar de haver, em contrapartida, um pessimismo com a forma de configuração da nova sociedade. Outra preocupação do autor foi refutar a educação ocidental que valoriza o conhecimento racional e científico e a axiologia do acúmulo de bens como meio de trazer satisfação e felicidade. Se pensarmos que nada justifica uma intervenção militar, uma das maiores loucuras da humanidade, não é difícil reconhecer em Seymour a representação do que seria a Segunda Guerra Mundial, pois, antes do suicídio, ele havia sido internado no hospital do exército.

À maneira do Bildungsroman, o Conto de Formação de Salinger também apresenta as conseqüências diretas do mundo na formação do herói em sua psique. Seymour Glass, no primeiro momento, sofre com a experiência de ser um ex-combatente. A sua segunda lua-de-mel em Miami beach tem mais intenções terapêuticas do que uma nova tentativa de salvar o casamento. É nos contos depois de “Um dia ideal...” que conhecemos o lado místico de Seymour. Essa nova faceta de Seymour é apresentada para corrigir a impressão de que ele era apenas mais um soldado afetado pela guerra. Em “Seymour: uma apresentação”, Buddy nos informa sobre o “novo” Seymour:

Para todos os efeitos, Seymour escreveu e falou poesia chinesa e japonesa durante os trinta e um anos em que fez uma parada entre nós, mas sua iniciação formal ocorreu certa manhã quando ele tinha onze anos, na sala de leitura do primeiro andar de uma biblioteca pública [...]. Tinha acabado de pegar uma tradução dos versos de P’ang, a maravilha do século XI (CS, p. 106).

As narrativas não enfatizam grandes ações ou acontecimentos envolvendo qualquer participação física. Com exceção de “Um dia ideal...”, as demais narrativas focam o desenvolvimento interno dos irmãos, através dos ensinamentos de Seymour, como ocorre em “Zooey”.

Agora, resta-nos uma dúvida: o motivo do suicídio de Seymour. Frente a um mundo cheio de incertezas e conflitos, ele procura diversificar a sua formação humanista, estudando algumas religiões orientais. Sendo um poeta, compõe poesias na forma tradicional japonesa, o haicai. Pela sua trajetória, consegue alcançar um grau de “perfectibilidade” a ponto de ser comparado com outros artistas consagrados (Kafka, Kierkgaard, Van Gogh). Entretanto, essa noção de perfeição defendida por Buddy em “Seymour: uma apresentação” é apenas a sua visão pessoal sobre o caráter do irmão. Quer dizer, Seymour é perfeito para ele e não para o mundo. Agora, falta-nos refletir sobre o ato final. Se na forma tradicional de Bildungsroman o herói procura a harmonização com o meio, nos contos de Salinger, o herói, pelo contrário, procura fugir de toda e qualquer convenção, opondo-se, assim, à idéia ligada a uma tradição. Seymour aprofunda o seu conhecimento na cultura oriental. Se pensarmos que o casamento se torna um acordo social, Seymour foge à regra, visto que, mesmo que tenha demonstrado estar feliz com o enlace, foge da cerimônia com a noiva. O casamento é uma das maiores convenções de nossa sociedade e Seymour, a princípio, se recusa a fazer parte, a se “adequar”, a uma exigência social. Se, pela idade, deve ter uma atitude adulta, ou, pelo menos esse comportamento deve ser esperado nas suas interações sociais, o herói escapa a rotulações. Isso se confirma com a opinião da dama de honra que se queixa para os outros convidados do casamento a falta de qualquer atitude madura dele (SALINGER, 2001, p. 39).

Como nos alertava, anteriormente, Mazzari (1999, p. 67), mesmo o cânone Wilhelm Meister não deve ser encarado como uma manifestação das necessidades da burguesia, uma forma de preparar os jovens para assumir papéis sociais pré-impostos pelo meio. Seymour, à maneira de muitos outros jovens, não está preparado para a guerra. E, sendo obrigado a participar, volta com graves seqüelas psicológicas. Ele até tenta levar uma vida artística, como nos informa Buddy, ao compor uma coletânea de poemas:

Desde o princípio de 1948 venho chocando - minha família acredita que literalmente - um caderno de folhas soltas habitado por cento e oitenta e quatro poemas curtos que meu irmão escreveu durante seus três últimos anos de vida (SALINGER, 2001, p. 99).

Observando as narrativas de Salinger, acreditamos que este, imbuído de novos valores, como a desvinculação das coisas materiais, dos produtos de consumo, procura, em seus livros, combater a ideologia capitalista norte-americana da preocupação em acumular bens ou fama pelos meios de comunicação. No discurso de Franny, que sofre influência de Seymour, a jovem alega ao irmão Zooey que um dos motivos de sua crise é querer apenas “esclarecimento íntimo, ou paz de espírito... em vez de dinheiro ou prestígio ou fama ou coisas assim” (SALINGER, 2003a, p. 118), expectativas típicas dos atores em geral. Em sua sociedade, a dos jovens do pós Segunda Guerra Mundial, o desapego aos bens supérfluos é a tônica. Assim, esse novo pensamento se aproxima das filosofias orientais, principalmente do Hinduísmo e do Zen-Budismo. Essas religiões também influenciam uma geração inteira que se manifesta pregando o amor às coisas do espírito, à paz e à harmonia com os outros povos. E, para que haja harmonia, o homem deve estar de bem consigo mesmo e vencer a ambição de acúmulo de bens materiais.

O orientalismo se tornou um ponto forte na obra de Salinger depois de O apanhador no campo de centeio. O autor começa a se concentrar nos estudos sobre religiões orientais, principalmente, o Zen-Budismo e busca, inclusive, apoio editorial para a publicação de algumas obras sobre o tema. O biógrafo de Salinger, Ian Hamilton, no livro Em busca de Salinger (1990, p. 129-130) nos informa que as pessoas que interagiam com Salinger diziam que ele estava cada vez mais interessado em estudar e até publicar livros sobre autores orientais. Logo, as personagens e produções de Salinger, doravante, passam a reproduzir o discurso religioso e a enfrentar problemas advindos da tentativa de ter uma vida espiritual na América do Norte. Por isso, o Seymour do primeiro conto, é diferente da versão apresentada por Buddy depois de “Um dia ideal...” e por isso, Teddy (Nove Estórias), do conto homônimo, se queixa da dificuldade de “meditar e levar uma vida espiritual na América” (SALINGER, 2003b, p. 159).

Essa influência se estenderia aos novos contos,principalmente, “Zooey”. [1] “Zooey” é, para Hamilton (1990, p. 159),

[...] uma tentativa de adaptação do evangelho de Ramakrishna [sábio guru da Índia] para os anos 50. Esse evangelho também era em forma de diálogo discípulo/mestre, sendo o personagem principal uma espécie de Seymour Glass, transmitindo sabedoria ao jovem deslumbrado.

Quem narra esse conto é Buddy, que diz também ser o autor. A narrativa começa com uma longa carta dele para Zooey que a lê enquanto estava na banheira. Buddy é, além de escritor, professor universitário de Composição Avançada da turma 24-A. Tal artifício serve para que Salinger expresse, convincentemente, suas idéias sobre educação (HAMILTON, p. 158-159).

Mais do que qualquer outra obra de Salinger, “Zooey” é um conto sobre educação. A relação entre as personagens denota um processo pedagógico familiar: Zooey ensina Franny a superar a sua crise existencial, na verdade, a crise que os adolescentes costumam passar quando entram para a idade adulta agravada por uma crise de ordem espiritual. O enredo do conto é o seguinte: Franny acabara de retornar da universidade e passava por uma crise existencial. Sua única saída, até aquele momento, era ler um livro de misticismo religioso chamado The way of a pilgrim and the pilgrim continue his way, que trata da jornada espiritual de um peregrino russo que busca, em uma viagem de autoconhecimento, entender o significado da frase “orai sem cessar” e como ele pode realizar a Prece de Jesus incessantemente.

Franny pegara o livro no quarto de Seymour/Buddy. Esse era o seu único recurso para tentar entender o problema que estava passando. Quando conversava com Zooey, Franny reclama do modelo educacional na universidade e do papel de ator, já que os dois são atores. Zooey lhe explica:

Você pode dizer a Prece de Jesus daqui até o dia do Juízo, mas se você não percebe que a única coisa que conta na vida religiosa é o desapego, o desprendimento, então não vejo como conseguirá avançar um palmo. Desprendimento, companheira. Ausência de desejo. “O fim de todas as ambições, de todos os anseios”. Esse negócio do desejo, se você quer saber a pura verdade, é o que faz um ator, em primeiro lugar (SALINGER, 2003a, p. 154-155, grifo do autor).

Nesse conto, além de Zooey ensinar a irmã, ele também se queixa da educação que ambos receberam: “- Somos dois desajustados, Franny e eu [...]. Eu sou um desajustado de vinte e cinco anos e ela uma desajustada de vinte. E esses dois safados é que têm a culpa toda [...] (SALINGER, 2003a, p. 83). Zooey se queixa, na verdade, de ter sido educado por Seymour e Buddy: “Aqueles dois safados nos pegaram desde crianças e nos tornaram desajustados, com padrões inaceitáveis” (SALINGER, 2003a, p. 110).

Buddy, logo no início da narrativa, reconhece que teve papel fundamental na educação dos irmãos:

[...] queríamos que vocês dois soubessem quem eram e o que significavam Jesus e Ghautama, Lao-tse e Shankaracharya, Huineng e Sri Ramakrishna etc., antes de saberem muita coisa, ou qualquer coisa, sobre Homero, Shakespeare, ou mesmo Blake e Whitman, para não falar de George Washington e sua cerejeira, ou o que é uma península, ou como se divide uma oração (SALINGER, 2003a, p. 55).

Entretanto, ele reconhece que pode ter “errado” na formação dos irmãos, principalmente de Zooey. Na verdade, para o tipo de vida que Zooey pretendia levar, ou seja, a de um ator, o grau de cultura espiritual se tornava desnecessário. Essa é a razão de Buddy se justificar:

[...] a verdade é que não posso deixar de pensar que você seria um ator muito mais convincente e mais bem ajustado se Seymour e eu não tivéssemos impingido os Upanichades, os Sutras, Mestre Eckhart e todos os nossos velhos amores, com o resto das leituras que recomendamos quando você ainda era um garoto (SALINGER, 2003a, p. 50-51).

Buddy justifica que antes de qualquer outro tipo de educação, a formação espiritual é mais necessária. A ordem pedagógica de “Zooey” está estabelecida da seguinte forma: Seymour, o irmão mais velho, ensina Buddy. Seymour e Buddy se tornam os educadores da família. Zooey ensina Franny a superar a crise existencial. Buddy, o narrador educa a família ao escrever e mostrar o conto. Salinger ensina os seus leitores ao publicar a obra. A educação está, evidentemente, voltada para as religiões orientais.

Alguns contos de Salinger, principalmente aqueles publicados depois de Nove estórias, são verdadeiros tratados de filosofia Zen. Os discursos das personagens estão impregnados de ensinamentos orientais. Dessa forma, acreditamos que o autor nitidamente sugere um novo modelo de educação, priorizando a realização dos anseios metafísicos internos ao falar sobre a formação de Seymour e a sua influência nos outros irmãos. A sugestão está na abordagem de temáticas que refletem a educação. Este seria, então, o caráter pedagógico encontrado nos contos sobre Seymour. Ao mesmo tempo em que as personagens vão se educando, à medida que se lembram dos ensinamentos do irmão morto, o leitor tem contato com alguns dos principais conceitos e crenças das religiões orientais pela alusão e citação de frases e histórias envolvendo os fundamentos do Zen-Budismo, do Taoísmo, do Hinduísmo e do Cristianismo Ortodoxo Russo. E as histórias também acentuam aspectos dessas religiões. Assim, tanto o enredo quanto a personagem exprimem, ligados, o intuito da obra literária de Salinger, da sugestão de que as religiões orientais podem dar uma melhor formação para os jovens. Seymour vive o enredo e as idéias orientalistas. Em se tratando, na sua maioria, de histórias contadas pelos irmãos, o Zen-Budismo, assim como o Taoísmo e as outras religiões orientais, tornam-se temas fortes nas narrativas.

No início de “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira”, Buddy reproduz um conto taoísta que Seymour costumava ler para Franny sobre a busca de Chiu-Fang Kao, encarregado de procurar um “cavalo excepcional”. Esse lenhador encontra o animal (uma garanhão), entretanto, diz ser este uma égua baia. Quando o imperador Mu, o responsável por mandar o lenhador, vê o animal, se queixa de tal equívoco. A moral da história está no fato de que Chiu-Fang Kao consegue ver a essência de tudo e não liga para a aparência. A aparência, para a religião taoísta, se torna irrelevante. Ele “vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver” (SALINGER, 2001, p. 11). No final da citação, o narrador comenta: “Sem dúvida, contudo, o que eu quero mesmo dizer é o seguinte: desde que o noivo [Seymour] saiu definitivamente de cena, não consigo pensar em ninguém mais a quem confiaria a tarefa de procurar um cavalo para mim” (SALINGER, 2001, p. 11).

A reprodução do conto moralista justifica um dos maiores ensinamentos das religiões orientais sobre a aparência e a essência. No início de “Zooey”, Buddy diz: “Certa vez, Seymour me disse [...] que todo estudo religioso legítimo deve culminar na ignorância das diferenças, as ilusórias diferenças, entre rapazes e moças, animais e pedras, dia e noite, calor e frio” (SALINGER, 2003a, p. 56).

Utilizar as religiões orientais através dos contos é uma tentativa de reação espiritual aos perigos do mundo excessivamente materialista do século XX. Salinger acredita que a verdadeira arte deve tentar, por qualquer meio, forjar (ou sugerir) um tipo de estilo de vida. A ênfase dada à manifestação espontânea de nossa interioridade também sugere a idéia de que uma forma efetiva de consegui-lo é restaurar a nossa natureza original ou retornar para um estado em que a espontaneidade parece ser mais natural: a infância. Por isso, ele adota como personagens, em sua maioria, jovens e crianças. Esta naturalidade e consciência de uma “impessoalidade” peculiar às crianças é gradualmente eliminada pela educação convencional, pois as crianças são educadas a cultivarem a individualidade. A função do Zen-Budismo, por exemplo, é desfazer o dano inevitável desse modelo de educação e encorajar um estado de totalidade em que as funções mentais ocorram livres e espontaneamente. As crianças são símbolo da perfeição e da pureza. É o que Seymour escreve em “Carpinteiros...”: “Uma criança é um hóspede na casa, digna de ser amada e respeitada - nunca possuída, pois pertence a Deus” (SALINGER, 2001, p. 80).

Sendo impossível a inserção no mundo, cria-se um espaço alternativo, ou melhor, há o desprezo do mundo adulto e a fuga para o infantil, sinônimo de pureza e inocência. Por isso, Seymour só consegue se relacionar com as crianças Sybil e Sharon, em “Um dia ideal...”. Mesmo assim, elas não conseguem salvá-lo do suicídio.

O último conto de Nove estórias, “Teddy”, que não fala sobre Seymour ou a família, mas se torna o início da temática religiosa em Salinger, evidencia uma forma alternativa de educação pregada pela personagem homônima. Basta-nos lembrar, primeiramente, que Teddy tem muitas características da versão de Seymour desenvolvida, principalmente, em “Hapworth 16, 1924”. Quando Nicholson, que é um professor, ou seja, alguém responsável pela educação, pergunta o que Teddy faria se pudesse mudar o sistema pedagógico norte-americano, o garoto responde:

Tenho certeza de que ia começar com os assuntos que as escolas ensinam primeiro [...]. Acho que, primeiro, reunia todas as crianças e mostrava a elas como se medita. Ia procurar ensiná-las a descobrir quem elas são, e não apenas qual o nome delas e coisas desse tipo (SALINGER, 2003b, p. 164, grifo do autor).

A idéia de “Teddy” é basicamente aquela apresentada por Buddy quando justifica a educação que Seymour e ele deram para os irmãos. Em “Zooey”, o conto em que Seymour apenas é citado, Zooey conversa com Franny sobre as mazelas da educação tradicional, atacando o modelo pedagógico e os agentes desta tradição, ou seja, os professores. Franny assim se refere ao seu professor Tupper: “Ele me detesta porque estou matriculada naquele curso maluco de Religião que ele orienta e nunca consigo retribuir os seus sorrisos quando ele banca o simpático e o sabichão de Oxford” (SALINGER, 2003a, p. 101).

Mais adiante, ela expõe o motivo de ter abandonado o colégio: “Meti na cabeça a idéia... e não conseguia expulsá-la, por mais força que fizesse... de que a universidade era apenas mais um lugar apático e imbecil no mundo onde uns sujeitos se dedicavam a acumular os tesouros da terra e não sei mais o quê” (SALINGER, 2003a, p. 115, grifos do autor). Entretanto, o ataque ao modelo ocidental de educação também é feito pelo narrador. Buddy, no início de “Zooey” assim se refere: “qualquer forma de educação seria muito mais atraente se não começasse por uma busca do conhecimento, e sim, como se diria no Zen-Budismo, por uma busca do não-conhecimento” (SALINGER, 2003a, p. 54).

A formação de Seymour, o influenciador da família, que também foi professor universitário, começa por um processo de leitura de vários livros eruditos, de diversas áreas do conhecimento, conforme podemos observar em “Hapworth 16, 1924”: “De novo, as obras completas do Conde Leon Tolstoy [...] Qualquer livro fanático ou não sobre Deus ou meramente sobre religião [...] A prece de Gayatri, de autor desconhecido” (SALINGER, 2008, texto online). [2] Deixando à parte a dúvida de que um garoto de 10 anos tenha tamanha erudição, mesmo sabendo que ele, aos 15, já era doutor, ficamos sabendo que o contato com a religião começa desde cedo. A busca dele é pela iluminação espiritual, diferente daquele conhecimento científico: “Não deixei para ela nenhuma noção humana decente que noventa e oito por cento da minha vida, graças a Deus, não tem nada a ver com a dúbia busca pelo conhecimento” (SALINGER, 2008, texto online). [3] E, pela sua formação filosófica, Seymour influencia os outros irmãos em suas próprias formações. Isso significa que as palavras dos irmãos são reproduções dos ensinamentos dele. Por trás dos pedidos de livro de Seymour, há uma nítida recomendação literária e religiosa para o leitor, da mesma forma como ocorre quando os irmãos dialogam sobre suas respectivas formações.

Os heróis de Salinger procuram alternativas de fugir a opressão da sociedade materialista e capitalista. Portanto, nas narrativas desse autor há uma proposta educativa de rompimento com os valores sociais norte-americanos. Essas histórias não apresentam o mesmo otimismo da integração do ser ao meio, e levantam dúvidas sobre a educação norte-americana. Se Goethe acreditava na possibilidade de a sociedade abarcar o indivíduo, os contos que envolvem Seymour Glass e família representam, por sua vez, a descrença na integração do indivíduo com o mundo que está modificado. É uma visão diferenciada daquela do século XVIII. Em vez de se adequar à sociedade, Seymour procura o rompimento total e o mergulho em um mundo mais humano e espiritualizado. E, para isso, faz a viagem para a cultura do oriente. Seymour e os outros irmãos Glass procuram absorver as axiologias do hemisfério oriental ao invés de se aproximarem dos valores da sociedade estadunidense. A “revolução” começa pela primeira e mais importante sociedade em que estamos inseridos: a família. A busca pelo conhecimento começa não pela escola e universidade, mas pelo estudo das religiões do oriente. Foge-se de um conhecimento mais racionalista para prezar a espiritualidade.

Os contos de J. D. Salinger, ao contrário do cânone Bildungsroman, não pressupõem que a diferença entre indivíduo e sociedade possa ser superada. Em suas narrativas curtas, fica evidente exatamente o oposto: o “indivíduo” Seymour Glass em momento algum consegue superar essa diferença. Basta, para isso, lembrar que ele, em nenhuma instância, aparece conversando com adultos. Em “Um dia ideal...”, Seymour interage com Sybil. Em “Carpinteiros...”, foge da cerimônia de casamento. Fica evidente que ele procura “forjar” uma nova sociedade, iniciando o processo com a sua família ao educar os irmãos mais novos nos preceitos de religiões orientais, andando “contra a maré”. Ao invés de haver integração do homem ao meio, ele rompe, ou melhor, sugere uma nova sociedade, desconstruindo os valores antigos e propondo “novos” ao incorporar, em sua formação, as religiões alternativas nos EUA.

Estas características diferenciam Seymour (e conseqüentemente os outros irmãos Glass) da personagem de Goethe de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. Portanto, o modelo tradicional de Bildungsroman é atualizado para um contexto moderno de guerra e de divisão dos países. O romance e o herói do século XX entram em crise contra os valores sociais vigentes. Já não é possível buscar a harmonia com o meio, pois o próprio meio está corrompido e em conflito, e esse é o motivo das neuroses das personagens modernas. Holden Caulfield recebe tratamento psicológico quando percebe que não pode fugir de um mundo cheio de hipócritas. E os contos sobre a formação espiritual de Seymour e dos irmãos acompanham esse momento de transformação. Se agora o herói se apresenta fragmentado, nas duas acepções de fragmentação, dividido em pedaços e fragilizado, a narrativa também fica fragmentada, curta e “dispersa”. E é assim que aparece Seymour. A herança do racionalismo do século XVIII é interrompida no momento em que se abandona a idéia de uma consciência una, passível de se moldar e se formar por meio de um processo linear da experiência: o indivíduo está esfacelado assim como sua formação também está.

Vilma Patrícia Maas (1999, p. 210), que compartilha a mesma interpretação do teórico Jürgen Jacobs, já apontava para a dissolução do eu na virada do século XIX para o XX. A desintegração da experiência de vida do homem moderno e a dúvida quanto a constituição una do indivíduo tornaram questionável uma categoria até então válida para a representação do mundo no romance. A harmonização do homem com a sociedade já não era mais possível. E Salinger, na segunda metade do século XX, consolida esse momento de crise e de transição de valores ao representar o seu herói flertando com religiões orientais. Elias Canetti (1976 apud MAAS, 1999, p. 210) afirma que o mundo moderno não pode ser mais representado nos romances antigos, porque este se encontra desintegrado e só o escritor que consegue captar as tensões deste ambiente hostil pode fazer uma representação verossímil da realidade.

Dessa forma, acreditamos que o Seymour, espalhado em diversas narrativas, é um representante Bildung, agora representado em contos. As narrativas sobre Seymour se configuram como paródia do cânone, porque existe ainda uma proposta educativa, mas não aquela que procura a integração do homem com o seu meio, e sim outra que propõe um rompimento, um afastamento com tudo aquilo que é mais valorizado. A paródia aqui não ganha a configuração de satirizar ou ridicularizar o modelo, e sim sugerir uma nova forma de representação, uma releitura. Desconstruir os valores sociais e reconstruí-los modificados se torna o objetivo das narrativas de J. D. Salinger.

É evidente que os contos são uma reação à idéia do acúmulo de bens, do materialismo ainda presente fortemente nessa cultura. A década de 50 foi o período em que os EUA mais cresceram economicamente. Carros, geladeiras, televisões foram produzidos em série e uma nova classe média surgia. Seymour fazia parte dessa nova classe média. Entretanto, assim como Holden Caulfield, se revolta contra a idéia de que basta apenas estar inserido na sociedade e ter um papel social para se alcançar a felicidade.

O século da psicanálise e das duas guerras mundiais estabelece, assim, uma nova galeria de protagonistas, em que a formação está presente, de uma forma que ultrapassa os pressupostos do romance burguês, reconfigurando-os conforme a realidade histórica. Se o mundo está em ruptura, em conflito, a literatura, de alguma forma, evidencia esta crise. E, nos Estados Unidos, que viram muitos jovens serem arrancados de suas famílias para uma guerra que trouxe vários benefícios econômicos para a superpotência, não foi diferente. Salinger consolida esta característica dos autores modernos, de representar a sua realidade mesmo sugerindo um total rompimento.

 

Notas:

[1] Salinger tem, além de “Hapworth 16, 1924”, 21 contos inéditos no Brasil. São histórias curtas escritas antes da década de 50 e publicadas em jornais e revistas. Elas estão proibidas de serem coletadas em antologias. A única antologia de Salinger autorizada é Nove estórias.

[2] The complete works again of Count Leo Tolstoy [...] Any unbigoted or bigoted books on God or merely religion [...] The Gayatri Prayer, by unknown author. Todas as traduções de “Hapworth 16, 1924”, são de nossa autoria.

[3] I have left her no decent, human notions that ninety-eight per cent of my life, thank God, has nothing to do with the dubious pursuit of knowledge.

 

Referências:

Do autor:

SALINGER, J. D. (2001) Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour: uma apresentação. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Compahia das Letras.

______. (2003a) Franny & Zooey. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2003.

______. (2008) Hapworth 16, 1924. Disponível em: .

______. (2003b) Nove estórias. Tradução de Jório Dauster Magalhães e Silva e Álvaro Gurgel de Alencar. Rio de Janeiro: Editora do Autor.

Sobre o Bildungsroman:

BENJAMIN, Walter. (1980) O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ______. Textos escolhidos. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Abril, p. 57-74.

MAAS, Wilma Patrícia. (1999) O cânone mínimo: o bildungsroman na história da literatura. São Paulo: Unesp.

MAZZARI, Marcus Vinicius. (1999) Romance de Formação em perspectiva histórica: O tambor de lata de G. Grass. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.

PINTO, Cristina Ferreira. (1990) O bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva.

ROBBE-GRILLET, Alain. (1960) Por um novo romance. Tradução de T. C. Netto. São Paulo: Documentos, 1969.

Sobre o autor, o contexto histórico e gerais:

ANÔNIMO. (2003) The way of a pilgrim and the pilgrim continue his way. Tradução de Helen Bacovcin. New York: Doubleday, 2003.

BRADBURY, Malcom; TEMPERLEY, Howard. (1976) Guerra e guerra fria. In BRADBURY, Malcom; TEMPERLEY, Howard (Ed.). (1976) Introdução aos estudos americanos. Tradução de Elcio Cerqueira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, p. 304-367.

HAMILTON, Ian. (1990) Em busca de J. D. Salinger. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Casa-Maria Editorial & LCT - Livros Técnicos e Científicos.

 

Adolfo José de Souza Frota é Mestre em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás defendendo a dissertação “Bildungserzählung e o narrador nos contos de Jerome David Salinger” no ano de 2007. Atualmente, é professor de Literaturas de Língua Inglesa, no curso de graduação em Letras, da Universidade Estadual de Goiás, na cidade de Campos Belos onde desenvolve pesquisa sobre foco narrativo.

 

© Adolfo José de Souza Frota 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero41/seyglass.html