A educação nas telenovelas da Rede Globo de Televisão:
a disseminação do télos pedagógico-empresarial
na dramaturgia televisiva

Renata Maldonado da Silva

Universidade Federal Fluminense
r.maldonado@globo.com


 

   
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Resumo: Este artigo tem o objetivo de discutir a importância da dramaturgia televisiva enquanto um espaço de legitimação do projeto político- pedagógico dos empresários do setor de comunicações no Brasil. Busca-se abordar esta questão a partir da análise de duas telenovelas veiculadas pela Rede Globo de Televisão nos últimos anos que contemplaram a temática educacional. Além disto, busca-se articular o discurso televisivo sobre a educação com as estratégias de imposição e disseminação do télos pedagógico empresarial brasileiro, no qual a Rede Globo ocupa uma posição de destaque.
Palavras-chave: Telenovelas, Educação, Meios de Comunicação

Abstract: This article discusses the importance of television as a legitimating area of the politic and pedagogic projects from the mass media enterprisers in Brazil. This question is analyzed beyond two soap operas produced and made by Globo Network in the last two years who contemplated the education subject. Besides that, it has to articulate the television speech about education with the imposition and dissemination strategies from the brazilian pedagogic enterprisers, where Globo Network has a major role.
Key-words: Soap-operas, Education, Mass media

 

Introdução

O objetivo do artigo proposto é o de apreender de que forma o maior sistema de comunicação do Brasil, o Sistema Globo, concebe e representa a educação no seu principal canal de entretenimento popular, a Rede Globo de Televisão. Analisar-se-à aqui alguns aspectos desta questão através do discurso veiculado por duas telenovelas da emissora que contemplaram a temática educacional nos últimos anos. Especificamente, busca-se refletir sobre as concepções educacionais que presidem aquela representação, mediante a análise do processo de construção do discurso televisivo utilizado nas telenovelas.

Considera-se aqui a forma articulada com que a classe empresarial brasileira tem elaborado desde meados da década de 1990, seguindo uma longa trajetória de dependência e subordinação do capital internacional, o mais recente télos pedagógico nacional a ser perseguido pela sociedade neste novo milênio (Rodrigues, 1998). Neste sentido, adotamos a premissa de que as telenovelas da Rede Globo de Televisão compõem uma parcela fundamental na estratégia de disseminação ideológica do novo télos pedagógico nacional, sendo esta, portanto, a idéia central da tese que procuraremos defender.

Desde a implantação da telenovela no Brasil, no ano de 1964, a temática educacional vem sendo exaustivamente abordada sob diversos ângulos pela principal rede de TV do Brasil. De fato, ao longo dos 44 anos de sua história, a Rede Globo de Televisão tem destacado a importância da educação escolar em várias dos seus melodramas, permanecendo alguns, ainda hoje, presentes na memória dos telespectadores.

Contudo, no ano de 2007, observou-se um significativo aumento de interesse da emissora pelo tema que ocuparia então o centro de duas telenovelas do horário nobre [1]. Em uma delas, Sete Pecados, escrita por Walcyr Carrasco e dirigida por Jorge Fernando (2007. Rede Globo, Rio de Janeiro) veiculada a partir das 19 horas, uma instituição educacional pública desempenhou um lugar relevante na trama. Esta teve grande repercussão junto ao grande público, atingindo médias de audiência em torno de 30 pontos, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE). [2]

Nessa telenovela, Walcyr Carrasco buscou retratar o cotidiano de uma escola pública do ensino médio na periferia de São Paulo, compondo um importante núcleo de personagens que nela trabalhavam. Para o autor, fez-se necessário convencer o público-alvo de que a falência do sistema público educacional brasileiro deve-se ao desestímulo dos trabalhadores do ensino. Neste quadro, a novela abordou como eixos principais a idéia de um Estado ausente no que se refere à questão educacional e a sugestão de qualquer solução para o problema deveria ser buscado na parceria com a iniciativa privada.

As premissas acima citadas reforçam a idéia de que as políticas educacionais poderiam ser substituídas por campanhas filantrópicas. Dessa forma, a trama reforçou, uma vez mais, a surrada concepção empresarial de que para tornar a educação básica verdadeiramente prioritária é necessário torná-la “um serviço prestado e adquirido no mercado ou na filantropia” (Frigotto, 2002, p. 59). Deve-se, desconsiderar, o trabalho e a qualificação dos profissionais do ensino e trouxe subjacente a idéia de empenhar o trabalho voluntário da sociedade civil para a melhoria do ensino.

Outra telenovela de grande audiência veiculada pela Rede Globo de Televisão naquele mesmo ano e que abordou a temática da educação foi Duas Caras, escrita por Aguinaldo Silva e dirigida por Wolf Maya (2007. Rede Globo, Rio de Janeiro). Em Duas Caras, o mesmo autor fez de uma universidade privada, um dos núcleos centrais da sua trama, em torno da qual um número grande de artistas famosos e prestigiados na TV brasileira disputava o seu controle.

Em linhas gerais, Duas Caras procurou legitimar o papel do ensino privado como meio de inserção das classes subalternas no mercado de trabalho. Além disso, abordou a participação do empresariado brasileiro na gestão das instituições educacionais e reafirmou a incapacidade do Estado em gerenciar o grave quadro educacional que vem se instaurando nas últimas décadas.

Considera-se que o discurso veiculado pelas telenovelas sobre a temática educacional uma das principais estratégias de disseminação e imposição do télos pedagógico empresarial brasileiro. O papel desempenhado pelos meios de comunicação seria o de fomentar o consenso social em torno das orientações educacionais produzidas pela burguesia brasileira. Destaca-se, portanto, a posição ocupada pela Rede Globo de Televisão neste cenário.

 

O papel político-pedagógico nas Organizações Globo no cenário educacional brasileiro

Desde meados da década de 1960, as Organizações Globo vêm se ocupando de projetos relacionados à educação, por meio da Fundação Roberto Marinho. Esta foi criada no ano de 1977, tendo como intento principal desenvolver propostas educacionais através de um sistema de parcerias com instituições do chamado “terceiro setor”. Segundo o site desta instituição, sua principal meta seria de a resolver carências sociais que não poderiam ser atendidas pelo Estado ou, pela iniciativa privada, de modo completo. Seu funcionamento estaria condicionado aos mecanismos de captação de recursos provenientes do governo, nas suas três esferas, empresas privadas, associações e instituições de ensino [3]. Atualmente, a instituição possui dezesseis projetos, nos quais todos, ainda que indiretamente, se articulam à questão educacional. [4]

A Fundação Roberto Marinho foi, ainda, pioneira no país na elaboração de um sistema de educação à distância, através do uso das tecnologias da informação, conhecido como Telecurso. Este foi criado em 1978, destinado aos estudantes que não puderam concluir o antigo ensino de 2° grau. Tratou-se um convênio firmado entre a instituição e a Fundação Padre Anchieta, responsável pela manutenção da TV Cultura de São Paulo. Três anos depois, em 1981, originou-se o Telecurso 1°Grau, voltado para as últimas séries do ensino fundamental. Desta vez, o projeto foi feito em parceria com a Fundação Bradesco, ligada a um dos maiores empreendimentos do capital financeiro do país.

A metodologia do sistema Telecurso é desenvolvida através do uso de livros e vídeos. Os alunos podem assistir às aulas pela TV, em sua própria casa, disponibilizadas através da Rede Globo e de suas afiliadas regionais, Globo Internacional, Rede Brasil, TV Cultura, Rede Vida, Rede Minas e o canal Futura, pertencente ao sistema de TV a cabo. Este também é um dos componentes da Fundação Roberto Marinho e o seu conteúdo programático é inteiramente voltado para a questão educacional. Além disso, os alunos podem acompanhar as aulas nas chamadas telesalas, presentes nas instituições conveniadas. [5]

Em 1994, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a Fundação Roberto Marinho reelaborou seu projeto de ensino à distância, sendo denominado Telecurso 2000. Tratou-se de uma nova versão da metodologia educacional que vem sendo desenvolvida desde a década de 1970. Nesta, foram acrescentadas novos conteúdos didáticos e disciplinas. No ano de 2008, foi proposta uma última versão do programa, que está em vigor atualmente, chamado Novo Telecurso. Nesta última, foram incluídas outras disciplinas, tais como: Filosofia, Artes Plásticas, Música, Teatro e Sociologia. Além disso, o programa foi redesenhado para atender indivíduos que sofrem de deficiência auditiva. [6]

Devido ao programa ser veiculado através da TV aberta, o Novo Telecurso é assistido semanalmente por sete milhões de pessoas e já ‘teria possibilitado o acesso ao conhecimento’ a mais de 5,5 milhões de ‘tele-estudantes’ Não é nossa intenção aqui analisar o conteúdo programático do sistema de educação à distância da Rede Globo. No entanto, é importante pontuar que, os projetos educacionais da instituição se inserem no mesmo sistema no qual as telenovelas que serão aqui analisadas fazem parte. Através destes, são produzidos discursos que veiculam determinadas concepções de educação relacionadas ao projeto político-pedagógico da burguesia industrial e do Estado brasileiro, como examinar-se-á adiante.

Por outro lado, destacamos, ainda, a utilização do tele-ensino como justificativa para a redução dos recursos destinados à educação básica, como medidas que visam amenizar a grave crise educacional instaurada em todos os níveis. Frigotto (2002) aponta que, ao invés de ser utilizado como veículo auxiliador do ensino, esse sistema à distância é empregado como política educacional, com o objetivo de substituir gradativamente os ensinos fundamental e médio. Reafirma, portanto, os mecanismos de desigualdades sociais, transformando-se “numa pobre educação para as populações pobres”.(2002, p.61)

Os projetos desenvolvidos pela Fundação Roberto Marinho no âmbito educacional são patrocinados por inúmeras organizações públicas e privadas, dos quais se destaca aqui a Rede Globo de Televisão. No caso do Novo Telecurso, trata-se de um programa que foi elaborado conjuntamente com a FIESP- Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e seus parceiros: Instituto Roberto Simosen, CIESP- Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, SESI- Serviço Social da Indústria e SENAI- Serviço Nacional da Aprendizagem Industrial. Estes últimos vinculados ao sistema CNI- Confederação Nacional da Indústria.

Além das parcerias instituídas com frações da burguesia industrial, como se mencionou acima, a Rede Globo, através da Fundação Roberto Marinho, possui convênios com organismos internacionais, como a UNESCO e a Fundação Ford. Além destes, destaca-se ainda os fortes laços mantidos com instituições públicas, como a Petrobrás e o CNPQ- Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e, principalmente, com o governo federal, através do Ministério da Educação.

 

A disseminação do télos pedagógico-empresarial e a “revisão” da teoria do capital humano

Considera-se que as telenovelas aqui mencionadas fazem parte de um sistema no qual se inserem outros elementos da programação. Através destes, a empresa disseminaria elementos do projeto educacional que vêm construindo nas últimas décadas, em associação com a burguesia industrial e o Estado brasileiro.

Percebe-se que o discurso veiculado pelas telenovelas a serem analisadas traria elementos do projeto político-pedagógico que vêm sendo implementado pelo Estado Brasileiro desde meados da década de 1990. A veiculação de determinadas concepções de educação através deste gênero televisivo resultaria na obtenção de um consenso social sobre políticas educacionais que ainda não foram integralmente executadas pelo Estado Brasileiro. Destaca-se, portanto, a reforma do ensino superior que vem sendo realizada pelo atual governo e a inevitabilidade das parcerias entre a iniciativa privada e o ensino público.

As propostas dos empresários dos meios de comunicação se relacionam às políticas educacionais que vêm sendo realizadas a partir de meados da década de 1990. Acredita-se que o discurso midiático sobre a questão educacional vem sendo produzido a partir de dois vetores principais: através da atuação das reformas neoliberais, no qual o mercado vem se tornando o mecanismo regulador básico da economia, e, por extensão, dos direitos sociais básicos, como a educação, no plano político-econômico. Percebe-se, ainda, a clara associação entre os pressupostos da teoria do capital humano, no qual a educação vem sendo considerada como um vetor de desenvolvimento econômico, no âmbito ideológico.

De acordo com Frigotto (1993), a partir da década de 1960, os EUA, através de seus organismos internacionais, disseminou nos países considerados periféricos, a idéia de que as desigualdades estruturais seriam solucionadas através de investimentos no âmbito do “capital humano”. Esta teoria, de inspiração na economia neoclássica, vem se estabelecendo simultaneamente como uma teoria do desenvolvimento e da educação. Segundo o autor:

“Quanto ao primeiro sentido - teoria do desenvolvimento- concebe a educação como produtora de capacidade de trabalho, potencializadora de trabalho e, por extensão, potenciadora de renda, um capital (social e individual), um fator do desenvolvimento econômico e social. Quanto ao segundo, ligado ao primeiro- teoria da educação- a ação pedagógica, a prática educativa escolar reduzem-se a uma questão técnica, a uma tecnologia educacional cuja função precípua é ajustar requisitos educacionais a pré-requisitos de uma ocupação no mercado de uma dada sociedade. Trata-se da perspectiva instrumentalista e funcional da educação.” (Frigotto, 1993, p.16)

Nesta perspectiva, a teoria do capital humano teria a clara dimensão ideológica de convencer os países emergentes de que o investimento na área educacional seria a condição sine qua non para que estes se ‘igualem’ sócio-economicamente aos centrais. Na medida em que os indivíduos aumentassem o seu nível de qualificação, estes‘ naturalmente estariam aptos para ocuparem melhores postos de trabalho e, conseqüentemente, seriam mais ‘produtivos’ De acordo com o mesmo autor, esta tese teria sido construída a partir de pressupostos burgueses, que “reduz a prática educacional a um fator de produção” (1993, p.18).

Não se pode desconsiderar a existência de uma relativa associação entre a educação e o modo de produção capitalista, tal como Frigotto (1993) assinalou em seu trabalho. No entanto, esta vinculação não se estabelece de modo linear, conforme os pressupostos da teoria do capital humano apontam. A práxis educacional é aqui considerada de natureza distinta das demais relações sociais de produção, apesar de estar assentada nesta última. A educação se estabelece “enquanto uma prática mediadora que na sociedade de classes se articula com interesses antagônicos” (1993, p.18)

No Brasil, a teoria do capital humano se fez presente principalmente no pensamento pedagógico empresarial, a partir da década de 1980. Neste contexto, destaca-se a atuação da CNI- Confederação Nacional da Indústria como a principal porta-voz dos interesses da burguesia industrial brasileira. Segundo Rodrigues:

“Em outras palavras, a CNI busca aglutinar e exprimir os interesses das classes produtoras industriais, identificando os interesses particulares dos empresários industriais aos demais setores da sociedade; isto é, tal discurso mimetiza-se, buscando colocar acima dos antagônicos interesses das classes em luta” (1998, p.130)

De acordo com o mesmo autor, o empresariado industrial, através da CNI-Confederação Nacional da Indústria, vem, desde a sua fundação [7], elaborando projetos pedagógicos que visam ajustar os trabalhadores, nas áreas cognitiva e física, à esfera produtiva. Em relação à questão educacional, o autor diagnosticou um fio condutor: as inúmeras tentativas de ‘adaptar’ a classe trabalhadora às funções necessárias ao capital.

Rodrigues (1998) mostra que, a partir da metade da década de 1980, o discurso pregado pelo sistema CNI [8] tem como bandeira a integração do Brasil ao mercado internacional, visando conjuntamente o progresso tecnológico. No entanto, a educação é vista como um grande empecilho para que o país se torne mais competitivo, impossibilitando o aumento da produtividade na área industrial.

Nesse contexto, a proposta da burguesia industrial é de uma educação que se relacione com as necessidades provenientes das atividades econômicas. A persistência do analfabetismo, o baixo índice de escolarização e a baixa articulação entre as universidades e a empresa são apontados como problemas a serem solucionados. Em função disso, os empresários propõem ao governo uma série de medidas que associam as atividades econômicas e a educação, em acordo com os pressupostos da teoria do capital humano.

O mesmo autor acima citado aponta a universalização da educação básica, e o acompanhamento das inovações tecnológicas como soluções para o aumento da ‘competitividade’ da economia. Destacam-se, ainda, as recomendações feitas pela burguesia industrial às demais instituições de investir no âmbito educacional, “como instrumento de elevação tecnológica” (1998, p.106). Isto, inclusive, é um indicador das futuras ‘parcerias’ que se estabelecerão, inclusive com os empresários dos meios de comunicação, como é o caso do projeto Novo Telecurso.

É importante compreender o desenvolvimento da teoria do capital humano em um contexto de grandes modificações no interior do modo de produção capitalista, cujos desdobramentos se encontram presentes com mais clareza nos dias atuais. Fez-se presente, portanto, as suas contradições, destacando-se aqui a grande crise mundial ocorrida em 1973. Revelou-se a impossibilidade de gerenciamento de seus transtornos intrínsecos a partir dos pressupostos fordistas e do keynesianismo. Ocorreu um processo de reestruturação do capital, que resultará na sua nova versão monopolista. Iniciou-se, portanto, “a completa reorganização do sistema financeiro global e a emergência de poderes imensamente ampliados de coordenação financeira” (Harvey, 1989, p.132)

Em relação à conjuntura internacional, as sucessivas crises do capital que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial serviram de estopim para o florescimento das idéias neoliberais, propostas pelos teóricos Friedrich Hayek e Milton Friedman. Os autores indicaram como soluções para as contradições inerentes ao modo de produção capitalista o forte controle do Estado em relação aos gastos sociais e o estabelecimento do mercado como um mecanismo auto-regulador. Além disso, os governos deveriam buscar incessantemente a estabilidade monetária.

Outros elementos constituintes do pacote neoliberal foram: primeiramente, o rompimento dos acordos que vinham se estabelecendo ao longo do século XX entre o Estado e os sindicatos. Em segundo lugar, o poder sindical foi seriamente afetado pelo aumento do desemprego, enfraquecendo o movimento dos trabalhadores e baixando os salários. O Chile, durante o governo Pinochet (1973), foi o tubo de ensaio no desenvolvimento de um programa nos moldes neoliberais, seguido da Inglaterra, nos anos Thatcher (1979) e da era Reagan nos EUA (1980). Posteriormente, outros Estados adotaram esta política econômica, em níveis distintos. [9]

No Brasil, a década de 1990 foi decisiva na implantação das reformas neoliberais. Iniciou-se um processo de subordinação da burguesia brasileira às grandes corporações internacionais, que vem se mantendo até os dias atuais. O mercado passou a ser o principal instrumento regulador da economia e, o Estado, atendendo às demandas externas e internas, inaugurou seu processo de ajuste ao mercado internacional. De acordo com Frigotto (2002), as reformas no âmbito social que vêm sendo implementadas nas últimas décadas “se pautam pelo desmonte da esfera dos direitos, vale dizer, da esfera pública e passam a produzir políticas de alívio à pobreza”.(p.57)

Seguindo as mesmas idéias, no Brasil, passou-se rapidamente da ditadura civil militar à ditadura do capital, esta inaugurada no governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992). O apogeu da política neoliberal, no entanto, ocorreu durante os oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), em acordo com a burguesia nacional e às imposições estabelecidas aos países emergentes pelo capital internacional. Neste, foram realizadas inúmeras privatizações das empresas públicas, aliado ao desmoronamento dos setores estrategicamente relacionados à questão dos direitos humanos básicos, tais como: saúde, educação, habitação, acesso ao trabalho e à cultura, programa de renda mínima e aposentadorias.

No campo educacional, o ápice das reformas neoliberais foi implantado no governo de Fernando Henrique Cardoso, dos quais se destaca aqui a decepção dos educadores em relação ao projeto que originou a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e ao Plano Nacional de Educação. Em função das divergências ideológicas, as reivindicações que vinham sendo discutidas há mais de uma década foram inexpressivamente incorporadas pelo governo.

Em relação ao ensino superior, a era FHC caracterizou-se por inúmeras greves em função das caóticas condições de trabalho às quais os docentes foram submetidos. A política proposta pelo governo nesta mesma área era de que as universidades brasileiras deveriam produzir conhecimento que fosse rentável do ponto de vista econômico, eliminando o seu compromisso com a ciência e a tecnologia. A seguir, um pronunciamento do Ministro da Educação na época, Paulo Renato de Souza:

“Segundo o ministro a ênfase no ensino universitário foi uma característica de um modelo de desenvolvimento auto-sustentado desplugado da economia internacional e hoje em estado de agonia terminal. Para mantê-lo era necessário criar uma pesquisa e tecnologia próprias, diz Paulo Renato. Com a abertura e a globalização, a coisa muda de figura. O acesso ao conhecimento fica facilitado, as associações e jointventures se encarregam de prover as empresas dos países como o Brasil do Know-how que necessitam. ‘Alguns países como a Coréia chegaram a terceirizar a universidade, diz Paulo Renato. ‘Seus melhores quadros vão estudar em escolas dos Estados Unidos e da Europa. Faz mais sentido do ponto de vista econômico (Revista Exame apud Frigotto, 2002, p.59).

O atual governo, iniciado em 2006, vem dando prosseguimento às políticas educacionais iniciadas na gestão anterior em relação ao ensino superior. Destaca-se aqui o programa REUNI-Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, divulgado através do decreto presidencial n°6096/2007. Este, entre outros aspectos, propõe a elevação do número de alunos de graduação nas universidades federais, assim como o acréscimo da quantidade de estudantes nas salas de aula; diversificação dos tipos de curso de graduação, incentivando o chamado ensino è distância e o aumento da taxa de conclusão dos cursos (Lima, 2008, p.17)

Por outro lado, a política educacional que vêm sendo mantida pelo atual governo é a de que o Estado, indiretamente, deve financiar o ensino superior privado, incentivando o chamado educational business. Isto vem sendo realizado através do PROUNI (Programa Universidade para Todos), regulamentado através da medida provisória n°213, de 10/07/2004. Através deste, o governo federal concede bolsa de estudos integrais e parciais aos estudantes de baixa renda. Trata-se de uma política de cunho assistencialista, pois, ao invés de investir diretamente nas universidades federais, o Estado optou por beneficiar os empresários da educação.

Nesse sentido, percebe-se a articulação existente entre os fundamentos político-pedagógico elaborado pelos empresários dos meios de comunicação sobre a questão educacional e seus ‘parceiros’ - burguesia industrial e Estado. Estas propostas pedagógicas, portanto, se vinculam às diretrizes impostas aos países emergentes pelos organismos internacionais no âmbito da política econômica- neoliberalismo e no campo das políticas educacionais - a associação entre educação e desenvolvimento. É nosso interesse aqui mostrar que, através das telenovelas, a emissora dissemina os projetos político-pedagógicos que vêm sendo impostos à sociedade brasileira na área educacional nos últimos anos.

Acredita-se, ainda, que as telenovelas aqui analisadas mencionadas podem ser consideradas como fenômenos ideológicos que apresentariam indícios do projeto político-pedagógico neoliberal que o Estado brasileiro vem parcialmente desenvolvendo desde a década de 1990. Neste quadro, destaca-se a proposta da reforma universitária que vêm sendo colocada em prática pelo atual governo, como por exemplo, a criação do PROUNI e do REUNI.

Além disso, percebe-se na realidade brasileira indicações da iminência do projeto de privatização do ensino superior no Brasil. Isto vem ocorrendo através da cobrança de taxas em cursos de pós-graduação e até mesmo arrecadação de mensalidades em campi instalados fora de seu estado de origem, como foi constatado no caso da UVA- Universidade Estadual do Vale do Aracaú, no estado do Ceará [10]. Enquanto um dos artefatos culturais de maior repercussão social, acredita-se que as tramas veiculariam ideologias com objetivo de obter o consenso acerca do processo de privatização da educação, que vem sendo encaminhado desde meados da década de 1990.

Nesse sentido, as concepções de educação preconizadas pelas telenovelas Sete Pecados e Duas Caras se articulariam ao projeto educacional dos empresários dos meios de comunicação. Estes estariam vinculados, ainda, aos interesses da burguesia industrial e do Estado brasileiro. Este processo seria mediado através da atuação dos autores das telenovelas, que funcionariam como agentes ideológicos dos interesses da classe empresarial. No entanto, pode-se dizer que o conteúdo ideológico veiculado pelas telenovelas sobre a educação visa à constituição de um consenso sobre as políticas educacionais que vêm sendo implementadas pelo empresariado e pelo Estado brasileiro a partir da década de 1990.

O discurso veiculado pela Rede Globo de Televisão, através das telenovelas, sobre a educação, teriam o objetivo de veicular, massificar e consolidar junto à população o télos político-pedagógico da fração empresarial/industrial da burguesia. O objetivo principal das telenovelas, nesse sentido, seria a obtenção de um consenso social sobre o modo como a questão educacional vem sendo abordada pelas políticas econômicas implementadas pelo Estado brasileiro a partir da década de 1990.

O discurso televisivo se articularia, ainda, às transformações que vem ocorrendo no campo educacional brasileiro desde meados da década de 1990, com a implantação de políticas neoliberais. Neste processo, a educação é retirada da esfera política e deslocada para o mercado, mecanismo auto-regulador capaz de amenizar os conflitos sociais. A sociedade, portanto, deve ser convencida da incapacidade do Estado em gerenciar os problemas educacionais e propor a solução dos conflitos sociais através de parcerias com a iniciativa privada.

Embora a abordagem seja diferenciada, nos enunciados das telenovelas Duas Caras e Sete Pecados, a capacidade inata do setor privado na administração do problema educacional brasileiro é ressaltada. Buscou-se articular, portanto, a política neoliberal que vem sendo gradativamente posta em vigor desde o início dos anos de 1990, com a atuação da Rede Globo de Televisão no setor educacional, através da Fundação Roberto Marinho e de seus programas de ‘parceria’ neste âmbito.

 

Notas.

[1] Tratam-se, respectivamente, da novela Sete Pecados, apresentada às 19 horas, e da novela Duas Caras, apresentada às 21 horas, horários de grandes audiências e, por isso, considerados « nobres » pelos anunciantes.

[2] De acordo com o IBOPE, a média de 30 pontos é considerado um índice elevado para o horário das 19 horas, representando dois milhões e quatrocentos mil espectadores. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sete_Pecados, acessado em 26/08/2008.

[3] Informações obtidas através do site http://www.frm.org.br/, acessado em 19/08/2008.

[4] Os demais projetos da FRM são: Aprendiz Legal, Caminho das Águas, Casa de Cultura, Canal Futura, Globo Ciência, Globo Ecologia, Igreja da Antiga Sé do Rio de Janeiro, Memória do Movimento Estudantil, Multicurso Ensino Fundamental, Museu da Língua Portuguesa, Museu do Futebol, Prêmio Gestão Escolar, Prêmio Jovem Cientista, Tecendo o Saber, Tom da Amazônia. Informações obtidas através do site http://www.frm.org.br/, acessado em 19/08/2008.

[5] Atualmente, no Brasil, existem 27.714 telesalas. Informações obtidas através do site http://www.telecurso.org.br, acessado em 19/08/2008.

[6] Além destas mudanças, ocorreram as seguintes: ampliação dos conteúdos, 70 aulas novas, 43 livros novos, criação de material didático específico para o professor, criação de um portal específico para o programa e introdução de material didático relacionados à área de gestão de pessoas e projetos de manutenção e administração da manutenção. Informações obtidas através do site http://www.telecurso.org.br, acessado em 20/08/2008.

[7] De acordo com Rodrigues, existiriam três momentos que se constituíram como télos do discurso ideológico da burguesia industrial desde a década de 30: a da nação industrializada, o do país desenvolvido e a da economia competitiva. Ver Rodrigues, José. O Moderno Príncipe Industrial: o pensamento pedagógico da CNI. São Paulo: Autores Associados, 1998.

[8] O Sistema CNI é composto pelo SESI- Serviço Social da Indústria, SENAI- Serviço Nacional da Aprendizagem Industrial e IEL- Instituto Euvaldo Lodi.

[9] Para uma análise mais detalhada sobre as políticas neoliberais, ver: HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[10] Segundo o jornal Folha de São Paulo, no ano de 2006, a UVA, que ligada ao estado do Ceará, que recebe verbas estaduais para sua manutenção, cobrava mensalidades de seus alunos em seus campi localizados fora do estado-sede. No entanto, a nova LDB assegura que no caso das as instituições criadas anteriormente à sua promulgação, não é imperativo a prestação de contas ao MEC. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u18540.shtml, acessado em 1/09/2008.

 

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© Renata Maldonado da Silva 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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