Antonio Candido: O Sistema e a Formação na Formação

Prof. Dr. Flávio Leal

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia
IFBahia - Brasil
literaturaleal@yahoo.com.br


 

   
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Resumen: Este artigo ressalta, na tradição da historiografia Literária Brasileira, meio de difusão e ensino da Literatura Brasileira, a concepção historiográfica elaborada pelo Professor Dr. Antonio Candido de Mello e Souza (1918 - ). Esboçando um possível Sistema da própria historiografia literária, a partir de sua tríade elementar (autor/educador - obra/Formação - público/universidades), este artigo percorre a trajetória deste Educador e busca debater seus preceitos, na obra marcante publicada em 1959, Formação da Literatura Brasileira: Momentos decisivos, e em outras publicações mais recentes.
Palabras clave: Antonio Candido, “homem de letras”, Ciências Humanas, universidade, Historiografia Literária Brasileira.

 

A minha amada mãe, Cristina Leal,
minha saudade permanente.

 

Quando o Professor Afrânio Coutinho planejava, organizava e dirigia a publicação coletiva de A Literatura no Brasil (1955-1959), no Rio de Janeiro, que deveria representar “a média” do pensamento crítico dos estudos literários brasileiros, a obra Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, escrita por outro docente, Antonio Candido de Mello e Souza [1], e publicada no ano de 1959 [2], em São Paulo, seria outro grande marco historiográfico e contraponto na tradição da História e da Crítica literárias, nas academias universitárias brasileiras, promovendo uma ampla discussão sobre a formação, desenvolvimento, difusão, ensino, estudo crítico e modelo analítico da Literatura Brasileira.

O crítico e professor Antonio Candido encontra-se em uma posição singular na tradição da crítica e da historiografia literárias brasileiras contemporâneas [3]. Sempre aclamado e recebido como um dos maiores expoentes dessas áreas de estudos, Professor Antonio Candido é reconhecido como autor de uma inovadora e profícua obra historiográfica crítica, freqüentemente, reeditada pelas principais editoras nacionais do mercado livresco, pois as gerações subseqüentes continuam debruçando-se sobre seus escritos. Como professor aposentado de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, cujos cursos ministrados eram realizados e acompanhados por um grande número de educandos, bastante impressionados pelo rigor analítico e sensibilidade de sua reflexão crítica, no exercício da pesquisa e do magistério, Antonio Candido transformou-se em uma referência, nas disciplinas universitárias, sobre os estudos literários, não somente sobre a literatura brasileira. Como pesquisador, professor e escritor, Candido, ao longo de sua trajetória acadêmica e social, alcançou grande notoriedade e reconhecimento [4] entre os outros profissionais, tornando-se, a partir de sua produção e do ensino, incentivo e referência para tantos outros professores, escritores e pesquisadores de literatura e das humanidades.

Em entrevista concedida, em 2004, Antonio Candido ressalta, em sua biografia, a formação de sua vocação analítica e sua “identificação profunda com a atividade” de crítica literária, como um leitor-comentador e “crítico nato”. Afirma o Professor Candido:

Tive vocação crítica precoce e por sugestão de minha mãe adquiri desde os quinze anos este hábito de comentar as leituras em cadernos. Por isso, aos vinte e três pude começar a escrever na revista Clima sem nenhuma experiência anterior. Desde cedo gostei de ler os críticos brasileiros e franceses, nos jornais, nas revistas, nos livros de meus pais. Digo isso para sublinhar minha identificação profunda com a atividade que sempre exerci a partir dos vinte e três anos, mesmo quando profissionalmente fazia outra coisa na Universidade. Considero-me, portanto, um crítico nato, mas isso não me impede de considerar a crítica um gênero lateral e dependente. [5]

A biografia e formação do Professor [6] Dr. Antonio Candido de Mello e Souza, autor de Formação e de diversos clássicos da crítica literária, demonstra seu empenho na construção de uma vida acadêmica respeitável, dedicada à pesquisa, ao magistério, às letras e às Humanidades. Antonio Candido nasceu no Rio de Janeiro, no dia 24 de julho de 1918. Proveniente de família mineira, aos três anos se mudou para a cidade de Santa Rita de Cássia, em Minas Gerais, onde viveu a maior parte da sua infância. No ano de 1935, concluiu o curso secundário no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, em São Paulo. Três anos mais tarde concluiu o curso complementar no Colégio Universitário da USP (Universidade de São Paulo).

Em 1939, sob a grande influência do pai, o médico Aristides Candido de Mello e Souza, Antonio Candido ingressou na Faculdade de Direito da USP. Contudo, ao mesmo tempo, adentrou na Faculdade de Filosofia (no Departamento de Ciências Sociais) daquela instituição, mas só concluiu efetivamente a graduação do Departamento de Ciências Sociais. No curso de Ciências Sociais, Candido obteve influência de Roger Bastide, no campo da Sociologia, e de Jean Maugüé, na Filosofia, dentre outros intelectuais marxistas. Em 1941, Candido lançou com os companheiros: Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, a “geração de Clima” [7], a Revista Clima, a qual desvelou toda uma geração de inovadores intelectuais paulistas.

Em 1942, Antonio Candido tornou-se Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais, na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. No mesmo ano, ingressou no corpo docente como primeiro assistente da disciplina Sociologia II do Professor Fernando de Azevedo, sendo colega de outro grande intelectual, Florestan Fernandes. A partir de 1943, passou a colaborar com o jornal Folha da Manhã, em que escreveu diversos artigos e resenhou os primeiros livros do poeta pernambucano, João Cabral de Melo Neto, e da romancista Clarice Lispector, demonstrando sensibilidade e rigor analítico na apreciação de novos escritores ainda desconhecidos, no contexto brasileiro. No ano seguinte, Candido encerrou o curso de bacharelado da Faculdade de Direito, porém não prestou o exame de conclusão desse curso. Começou, então, a publicar a coluna “Notas de Crítica Literária”, no jornal Folha da Manhã, (um dos jornais que, anos mais tarde, formariam a Folha de São Paulo), atividade na qual trabalhou até o ano de 1945. Nesse mesmo ano, Antonio Candido casou-se com Gilda de Moraes Rocha, outra intelectual de sua geração Clima, crítica literária também reconhecida, compartilhando a autoria e o debate em alguns textos.

Prof. Dr. Antonio Candido de Mello e Souza
(1918 -  )

Em 1945, Antonio Candido recebeu o título de livre-docente em literatura brasileira, com a tese intitulada “Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero”, que seria um grande embasamento metodológico e crítico para a criação de sua Formação, quatorze anos depois. Participou, nesse mesmo ano, em plena Segunda Guerra, da fundação da União Democrática Socialista, logo depois integrada à Esquerda Democrática, embrião do atual PSB (Partido Socialista Brasileiro). Tornou-se ainda crítico literário do Diário de São Paulo, permanecendo nessa atividade até o ano de 1947.

Em 1954, Antonio Candido recebeu o título de doutoramento em Ciências Sociais, com a tese “Os Parceiros do Rio Bonito”, sendo reconhecida como uma obra-prima da sociologia brasileira, um marco nos estudos brasileiros sobre sociedades tradicionais. Dois anos mais tarde, em 1956, elaborou o projeto do Suplemento Literário do Jornal O Estado de São Paulo, e publicou Ficção e Confissão, livro de ensaios sobre a obra de Graciliano Ramos. Entre 1957 e 1960, Antonio Candido lecionou a disciplina Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia de Assis, interior do Estado de São Paulo, atualmente campus da Universidade Estadual Paulista - UNESP.

Em 1959, Antonio Candido publicou Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, considerado um clássico, nas áreas de pesquisa e ensino, da crítica e historiografia literárias brasileiras. Nesta obra, Candido projeta os alicerces da sua visão teórico-metodológica de análise da literatura nacional. A Formação da Literatura Brasileira transformou-se em um livro fundamental, nas universidades brasileiras e no exterior, principalmente, no ensino e difusão do “sistema literário” orgânico da literatura feita no Brasil, em dois “momentos decisivos” do processo contínuo de formação: 1750-1836 e 1836-1880.

Em 1961, Antonio Candido retornou à Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, assumindo a nova disciplina de Teoria Literária e Literatura Comparada. Em 1962, assumiu a presidência da Cinemateca Brasileira. Em 1964, Antonio Candido tornou-se Professor Associado de Literatura Brasileira na Universidade de Paris - França. Nesse mesmo ano, publicou o livro Tese e Antítese. No ano de 1968, Antonio Candido tornou-se professor visitante de literatura brasileira e comparada na Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América. Dois anos mais tarde, o Professor publicou o seu livro Vários Escritos, divulgando artigos que se tornaram referências, como por exemplo: “Esquema de Machado de Assis” e “Direito à Literatura”.

Entre o ano de 1973 e 1974, Antonio Candido foi um dos dirigentes da Revista Argumento, sofrendo censura e proibição, no seu quarto número, pela então vigente ditadura militar brasileira opressora e perigosa.

A partir do ano de 1974, Antonio Candido torna-se Professor Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (assim denominada a partir de 1970) da Universidade de São Paulo - USP, sendo responsável pela formação de grande parte da intelectualidade nacional, direta ou indiretamente. Entre os seus educandos, estão algumas personalidades renomadas, na área das Humanidades: Antônio Lázaro de Almeida Prado; Fernando Henrique Cardoso; Roberto Schwarz; Davi Arrigucci Jr.; Walnice Nogueira Galvão; João Luiz Lafetá; Antônio Arnoni Prado, o mexicano Jorge Ruedas De La Serna, dentre tantos outros reconhecidos professores, pesquisadores, pensadores e escritores latino-americanos.

Entre os anos de 1976 e 1978, o Professor Antonio Candido coordenou o Instituto da Linguagem na Unicamp (Universidade de Campinas - São Paulo). Em 1977, Candido assinou o Manifesto dos Intelectuais, clamando o fim da censura imposta pela Ditadura Militar Brasileira e concedeu uma corajosa entrevista à Revista IstoÉ, na qual defendeu o socialismo como uma saída para a sociedade brasileira.

O Professor Dr. Antonio Candido de Mello e Souza aposentou-se na Universidade de São Paulo, no ano de 1978, porém continuou lecionando e orientando discentes, educadores e pesquisadores, nas pós-graduações, daquela instituição.

No ano seguinte, em 1979, Candido participou, juntamente com o intelectual Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982), amigo de longa data, do lançamento do Manifesto de Fundação do PT (Partido dos Trabalhadores). Em 1993, Antonio Candido publicou dois volumes de ensaios: O Discurso e a Cidade; Recortes.

Antonio Candido recebeu, no dia 15 de julho de 1998, o Prêmio Camões, o mais importante prêmio cultural do universo lusófono, concedido em conjunto pela República Portuguesa e pela República Federativa do Brasil. Em 1997, Antonio Candido publica Iniciação à literatura brasileira, um “resumo para principiantes”, obra sucinta fiel às bases da Formação da Literatura Brasileira de 1959. Em 1999, na comemoração dos 40 anos de lançamento do clássico, Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido foi homenageado com uma exposição no Memorial da América Latina, em São Paulo - Brasil. Compunham a exposição todos os trabalhos publicados por Antonio Candido, além de painéis com comentários do próprio autor sobre a literatura na América Latina. Nesse mesmo ano, a Editora Humanitas e a Fundação Perseu Abramo lançaram o livro Antonio Candido - Pensamento e Militância, organizado pelo Professor Dr. Flávio Aguiar, no qual estão reunidos escritos sobre Candido e sua obra, que esboçam a biografia e o trabalho do reconhecido crítico e professor literário brasileiro.

No ano de 2001, outra obra clássica de Candido, Parceiros do Rio Bonito, é reeditada com fotos inéditas tiradas pelo próprio autor. Em março 2002, Candido publica o livro intitulado Um Funcionário da Monarquia, no qual acompanha a ascensão de um empregado do segundo escalão da burocracia imperial, na época do Imperador Dom Pedro II, segunda metade do século XIX. Ainda, escreve O Romantismo no Brasil, publicado pela Editora Humanitas, em 2002.

Conforme afirma Paulo Sérgio Pinheiro, o Professor Antonio Candido “se projeta por sua integridade e dignidade em contraste com seus contemporâneos, tendo guardado sempre, consistentemente, uma saudável distância do poder. Ao longo de sua trajetória, soube como nenhum outro intelectual viver a permanente tensão entre continuidade, adensamento ou superação” [8]. Antonio Candido, em sua trajetória biográfica, bibliográfica e acadêmica, como também afirma o Professor Arrigucci Jr., crítico de postura e argumentação intelectual, demonstra que:

[...] traços gerais de sua escrita parecem incorporar, desta forma, sem apagar a marca personalíssima, um pendor para traduzir a objetivação da experiência coletiva, de que se faz naturalmente porta-voz. Assume, por isso, uma função decisiva no contexto brasileiro, onde sua obra significa, em seu movimento a uma só vez de herança e passagem, um ponto privilegiado da lucidez crítica e da consciência histórica com relação à tradição. [9]

Herança e Passagem são duas acepções que Antonio Candido sempre tentou, com suas atitudes políticas e educacionais, privilegiar em seu trabalho crítico. Respeitando a tradição que a disciplina possui: Sílvio Romero, José Veríssimo, Araripe Jr., Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Afrânio Coutinho, dentre outros, mas também leitor compulsivo de seus contemporâneos, sua obra marca o respeito e a reflexão para a configuração de produção acadêmica que possui sua mirada no contexto social, educacional, cultural e literário brasileiro.

A produção crítica de Antonio Candido surge em um contexto bastante propício aos acadêmicos universitários, pois o ambiente aberto pela criação da Universidade de São Paulo e a efervescência intelectual da capital paulista, na primeira metade do século XX, permitiram o surgimento de muitas obras e pesquisas. Desta forma, por exemplo, a década de 50 é aberta por Lucia Miguel Pereira, com sua História da literatura brasileira (prosa e ficção: 1870 - 1920), logo após Otto Maria Carpeaux publica a sua Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, em 1951. Um ano após, Professor Wilson Martins surge com sua obra: A crítica literária no Brasil. Em 1954, Antônio Soares Amora publica sua História da literatura brasileira (os séculos XVI-XX). Mas também, em 1956, Alceu Amoroso Lima publica sua Introdução à literatura brasileira. A década se encerra com as duas maiores publicações deste meio século para a historiografia e crítica literárias: a primeira, em 1955 - 1959, do Professor Dr. Afrânio Coutinho, fundador dos estudos literários na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a obra coletiva A literatura no Brasil, e, finalmente, no ano de 1959, Antonio Candido publica os dois tomos da Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.

Antonio Candido iniciou seus estudos e trajetória acadêmica, em seu trabalho intelectual, pelas Ciências Sociais, por isso, talvez, o aspecto social em suas análises literárias seja tão evidente. Iniciando, na tradição dos Estudos Literários, com sua tese: Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero, em 1945, Antonio Candido demonstra o cuidado, respeito e a acuidade pela tradição para dar um passo além no campo dos estudos críticos e historiográficos literários. Analisando a “estratégia crítica” empregada na Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos (1959), João Alexandre Barbosa aponta no trabalho de Antonio Candido a união “de dois tipos de influências importantes: os estudos antropológicos de traço funcionalista, principalmente ingleses e norte-americanos, articulados pela leitura sociológica de herança marxista, e uma teoria da obra literária como estrutura estética, absorvida no trato com o New Criticism.” [10]

Nesta perspectiva, Candido demonstra que possui como preferência o ensaio, sendo a forma mais adequada, na qual suas argumentações e flexibilidades puderam desenvolver-se, explicando [11], (José Guilherme Merquior ressalta a importância da crítica de Antonio Candido e sua face de pendor explicativo e argumentativo), o complexo com requinte e mais acessibilidade ao leitor. Afirma Arrigucci Jr. que:

sem relaxar o fio da disciplina intelectual e o rigor dos conceitos, assume muitas vezes em Antonio Candido a dimensão de um ato político, num meio em que poucos têm acesso à cultura e em que a retórica da complicação do discurso pode funcionar como instrumento de dominação política ou da mais solene mistificação. [12]

Esta crítica explicativa, pautada no conhecimento e na acessibilidade, com seu caráter político e cultural, marca o trabalho de Antonio Candido e seu perfil de intelectual empenhado. Percebe-se este pendor explicativo e didático, na configuração de sua obra Formação da Literatura Brasileira. Candido elabora conceitos e delimitações que norteiam suas concepções e trabalho de pesquisa sobre a Formação, reestruturando e rompendo com a “versão etnológica da história, desarticulando também - pela primeira vez cabal - o chamado método utilitário-funcional de Sílvio Romero” [13], uma vez que muitas obras historiográficas do início do século XX permaneceram vinculadas e limitadas ao “método crítico” empregado na História da Literatura Brasileira de 1888.

Observa-se, na configuração da obra com pendor argumentativo e explicativo, que a Formação da literatura brasileira, texto crítico em capítulos monográficos, com vertente e organização historiográfica, por excelência, de Antonio Candido, presença constante nas bibliografias de cursos universitários de literatura, limitado cronologicamente aos dois “momentos decisivos”: 1750 - 1836 e 1836 - 1880, Arcadismo e Romantismo brasileiros, possui como conceito-núcleo a concepção de sistema orgânico literário, a fim de configurar o processo formativo e dinâmico da Formação da Literatura nacional.

No decorrer da análise sobre a formação da literatura, compreendem-se as percepções da constituição do contexto cultural e social de produção, recepção e transmissão de obras literárias, que promovem a existência de um sistema articulado de produtores, obras e leitores, “condições mínimas de existência do fenômeno literário”, estruturando um sistema literário e a sua tradição (continuidade), um sistema de caráter simbólico. Nesta mirada, percebe-se um processo formativo linear iniciado com os poetas mineiros árcades, que plantaram “de vez a literatura do Ocidente no Brasil, graças aos padrões universais por que se regia, e que permitiram articular a nossa atividade literária com o sistema expressivo da civilização a que pertencemos, e dentro da qual fomos definindo lentamente a nossa originalidade” [14], aos pré-românticos no início do século XIX, para culminar o processo de diferenciação e autonomia, no Romantismo brasileiro [15]. A concepção historiográfica elaborada pelo Professor Dr. Antonio Candido, que observa a “literatura (...) como componente de um sistema social”, possui outra perspectiva crítica “rejeitando o impressionismo e o historicismo”, elevando-se na tradição da disciplina. Segundo a Professora Drª. Célia Pedrosa,

na Formação, a literatura, apesar de analisada como componente de um sistema social que lhe determina valores e funções, é, ao mesmo tempo, avaliada em sua capacidade de organizar-se com autonomia formal e significativa. Essa perspectiva implica numa metodologia que, rejeitando o impressionismo e o historicismo, defende a atenção à formulação objetiva da linguagem literária. [16]

Antonio Candido elabora as proposições metodológicas, que se tornaram bastante conhecidas, lamentando, nos prefácios subseqüentes, as discussões realizadas apenas a título de método crítico e historiográfico, provenientes da “Introdução” inicial da Formação, pois a crítica dos estudos literários focou, em suas avaliações, principalmente, o aspecto metodológico da obra. Exceto alguns exames críticos, já elencados nesta pesquisa, outras obras não se propuseram a debater as análises literárias das obras literárias e as configurações realizadas em sua historiografia literária, atendo-se ao método crítico e historiográfico. Ainda, interessaram à crítica os pressupostos elaborados no “Prefácio da 2ª edição”, que visavam ao esclarecimento e à explicitação do que estava presente na “Introdução” inicial, sendo bastante discutidos nos cursos de letras das universidades e áreas afins. [17]

Os debates acadêmicos iniciam-se pela proposta presente no título da obra de Antonio Candido, expondo a configuração da historiografia por duas temáticas: “formação” e “sistema” literários. Como há a delimitação presente no título da pesquisa historiográfica de Antonio Candido, a noção de formação literária de um sistema orgânico delimita seu campo de pesquisa e análise aos “momentos decisivos”, da formação da literatura brasileira, em um processo dinâmico, que se constituiria como um sistema articulado. Sendo a concepção de sistema literário o ponto de ancoragem da obra, a literatura, enquanto produção cultural e artística, como “fenômeno de civilização”, somente poderia ser considerada e tomada como estabelecida, quando hou­vesse um sistema articulado de autores, obras e público-leitor, em uma tríade dinâmica e viva, capaz de fixar e reconhecer uma tradição, uma “tocha entre corredores” passada de geração a geração. Esta “continuidade ininterrupta de obras e autores, cientes quase sempre de integrarem um processo de formação literária”, ou seja, “uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens (...). Sem essa tradição não há literatura, como fenômeno de civilização” [18], conforme afirma o Professor Antonio Candido.

A Formação, com seu arcabouço teórico, realiza uma distinção entre as manifestações literárias, “ralas, esparsas e sem ressonância”, termo já repercutido pelo Prof. Dr. José Aderaldo Castello em sua obra homônima (Manifestações literárias da era colonial, 1962), e o próprio conceito de Literatura, que será entendido por Candido como um sistema configurado por sua organicidade, ou seja, a “Literariedade” dos textos ficcionais estará não apenas no aspecto imanentista de cada obra estética, mas também em sua relação de existência com a sociedade e com seus aspectos de produção, recepção e tradição, que farão da obra um objeto cultural vivo, existente em um sistema articulado por uma tríade enérgica e histórica (autor-obra-público), em “interação dinâmica”.

No prefácio da segunda edição, datado de novembro de 1962, Antonio Candido argumenta em defesa da tese sobre a configuração do sistema literário, a partir da observação da tríade e de um processo formativo, de uma literatura orgânica e dinâmica:

Suponhamos que para se configurar plenamente como sistema articulado, ela (a literatura) dependa da existência do triângulo “autor-obra-público”, em interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição. Sendo assim a brasileira não nasce, é claro, mas se configura no decorrer do século XVIII, encorpando o processo formativo que vinha de antes e continuou depois. [19]

Este conceito de sistema literário norteia todo o pensamento e argumentação da Formação, dando-lhe um caráter ímpar, conceitual e teórico dos Estudos Literários, na Historiografia Literária do Brasil. A partir da aceitação deste conceito-núcleo, Candido diferencia, sem menosprezo ou subjugação, as “manifestações literárias, de literatura propriamente dita”:

Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura propriamente dita, considerada aqui como um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes dominantes são além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes de seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. [20]

Desta forma, o processo formativo dinâmico da Literatura Brasileira, concebida como sistema literário com sua organicidade, possuindo uma constituição progressiva de um sistema articulado e coeso, em uma tríade com interação constante e dinâmica, denomina a concepção de Literatura. Desta forma, caso não se perceba a existência de um sistema articulado, não haverá literatura enquanto práticas sócio-culturais específicas e, socialmente, reconhecidas e aceitas. A partir desta perspectiva histórica e conceitual, não há literatura sem um sistema literário, logo a obra Formação da Literatura Brasileira empenha-se na análise da fundação, desenvolvimento e consolidação do sistema literário brasileiro, cujos certos escritos são tomados como literatura propriamente dita e não apenas percebidas como “manifestações literárias” isoladas e sem ressonância. O Barroco, desta forma, por não se articular em uma tradição é seqüestrado pela concepção de Sistema, coerentemente, de acordo com a perspectiva de Antonio Candido. Muitos leitores, como o crítico Haroldo de Campos, por exemplo, lêem a Formação, esperando que a obra historie a literatura brasileira, como um manual ou compêndio de literatura tradicional, já que é “um livro de crítica, mas escrito do ponto de vista histórico” [21]. Segundo a Professora Drª. Marisa Lajolo, “a partir desta perspectiva - evidentemente equivocada - que tais leitores ficam com a sensação de que falta ao livro o que vem antes e o que vem depois destas balizas” [22]. Para Haroldo de Campos, a exclusão:

(...) - o “seqüestro” - do Barroco na Formação da Literatura brasileira não é, portanto, meramente o resultado objetivo da adoção de uma “orientação histórica”, que timbra em separar literatura como “sistema”, de “manifestações literárias” incipientes e assistemáticas. Tampouco é “histórica’, num sentido unívoco o objetivo, a “perspectiva” que dá pela inexistência de Gregório de Matos para efeito da formação de nosso “sistema literário” (I - 24). Essa exclusão - esse “seqüestro” - e também essa inexistência literária, dados como “históricos” no nível manifesto, são, perante uma visão “desconstrutora”, efeitos no nível profundo, latente, do próprio “modelo semiológico” engenhosamente articulado pelo autor da Formação. [23]

Observando a concepção de Sistema, já debatida por Costa Lima que delineia algumas fontes teóricas do processo crítico-metodológico elaborados por Antonio Candido, como por exemplo o funcionalismo antropológico inglês [24], e por Marisa Lajolo [25] em seu arguto ensaio sobre a Formação, Antonio Candido ressalta que a literatura concebida por esse viés é um conjunto articulado, “sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores”. É um sistema que apenas permanece vivo se houver a recepção não-passiva da obra pelo leitor, interagindo com a produção literária, modificando-a e respondendo-lhe. A concepção de sistema literário pode ser retomada, a partir da publicação mais recente do Professor Antonio Candido, intitulada Iniciação à literatura brasileira, cuja idéia de um sistema literário é analisada em pormenores. Nesse livro publicado, no ano de 1997, quase quatro décadas depois da Formação, o conceito de sistema é debatido por Candido, novamente:

Entendo aqui por sistema a articulação dos elementos que constituem a atividade literária regular: autores formando um conjunto virtual, e veículos que permitem seu relacionamento, definindo uma vida literária: públicos, restritos ou amplos, capazes de ler ou de ouvir as obras, permitindo com isso que elas circulem e atuem; tradição, que é o reconhecimento de que obras e autores precedentes, funcionando como exemplo ou justificativa daquilo que se quer fazer, mesmo que seja para rejeitar. [26]

A completude do sistema literário, segundo Antonio Candido, apresentar-se-ia no Romantismo Brasileiro, estando o Naturalismo/Realismo no Brasil em pleno sistema literário “configurado e amadurecido”:

Nesse tempo podemos considerar como configurado e amadurecido o sistema literário do Brasil, ou seja, uma literatura que não consta mais de produções isoladas, mesmo devida a autores eminentes, mas é atividade regular de um conjunto numeroso de escritores, exprimindo-se através de veículos que asseguram a difusão dos escritos e reconhecendo que, a despeito das influências estrangeiras normais, já podem ter como ponto de referência uma tradição local. [27]

A este processo dinâmico, une-se o autor, “termo inicial” do processo literário, criando assim uma configuração orgânica e dinâmica da “realidade literária” com uma tradição histórica e literária, composta por uma tríade coesa, componentes de um processo orgânico formativo da Literatura, na obra: Formação da Literatura Brasileira, em seus principais momentos decisivos. Em A Literatura no Brasil, organizada e dirigida pelo Professor Afrânio Coutinho, em 1955, quatro anos antes da publicação da Formação, Antonio Candido escreve o capítulo “O Escritor e o público”, iniciando um debate sobre a literatura como prática social e o papel do escritor, enquanto elemento da tríade do sistema, posteriormente, inserido neste contexto:

Vale dizer que o escritor, numa determinada sociedade, é não apenas o “indivíduo” capaz de exprimir a sua originalidade (que o delimita e especifica entre todos), mas alguém desempenhando um “papel social”, ocupando uma posição relativa ao seu grupo profissional e correspondendo a certas expectativas dos grupos leitores ou auditores. A matéria e a forma da sua obra dependerão em parte da tensão entre as veleidades profundas e a consonância ao meio, descobrindo um diálogo mais ou menos vivo entre criador e público.

(...)

A literatura é, pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. A obra não é um produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é passivo, homogêneo, registrando uniformemente o seu efeito. São dois termos inter-atuantes a que se junta o autor, termo inicial deste processo de circulação literária, para configurar a realidade da literatura, atuando no tempo. [28]

O processo de configuração e constituição desse sistema literário, de acordo com Antonio Candido, já seria percebido, no século XVIII colonial, observando e analisando as obras dos escritores das Academias de Seletos e dos Renascidos e com a produção poética dos árcades mineiros, que “são quase todos animados do desejo de construir uma literatura como prova de que os brasileiros eram tão capazes quanto os europeus.” [29] Ainda, segundo Antonio Candido,

Salvo melhor juízo, sempre provável em tais casos, isto ocorre a partir dos meados do século XVIII, adquirindo plena nitidez na primeira meta­de do século XIX. Sem desconhecer grupos ou linhas temáticas anterio­res, nem influências como as de Rocha Pita e Itaparica, é com os chama­dos árcades mineiros, as últimas academias e certos intelectuais ilustra­dos, que surgem homens de letras formando conjuntos orgânicos e ma­nifestando em graus variáveis a vontade de fazer literatura brasileira. [30]

A concepção de sistema literário torna-se o alicerce sobre o qual as análises literárias de Antonio Candido são erigidas, promovendo, a partir desta perspectiva historiográfica, uma percepção da existência de uma tradição, diferenciando-se a literatura brasileira, enquanto sistema articulado, das “manifestações literárias” realizadas por escritores que não compuseram este corpo sistêmico da Formação da Literatura Brasileira. Esta configuração do sistema literário inicia-se com os árcades, sendo a sua constituição consolidada com o Romantismo, no século XIX, num processo de continuidade, rompendo as diferenças formais entre Arcadismo e Romantismo. Segundo Antonio Candido, no “Prefácio da 2ª. edição”, uma “solidariedade estreita” e sua “vocação histórica” aproximam-nas, gerando um movimento na Formação literária:

Neste sentido, tentei sugerir o segundo pressuposto atinente aos perío­dos, a saber, que há uma solidariedade estreita entre os dois que estudei (Arcadismo e Romantismo), pois se a atitude estética os separa radical­mente, a vocação histórica os aproxima, constituindo ambos um largo movimento, depois do qual se pode falar em literatura plenamente cons­tituída, sempre dentro da hipótese do "sistema", acima mencionado. [31]

Neste “largo movimento” unido por uma verdadeira “vocação histórica”, percebe-se a concepção de “sistema literário", sobre a qual se forma uma tradição articulada, estabelecendo-se a tese fundamental da obra de Antonio Candido, ou seja, a literatura “brasileira” inicia-se com as produções dos árcades mineiros, o “início de nossa verdadeira literatura” [32], em um processo contínuo e orgânico de formação, que culminará nas produções do século XIX, no Romantismo Brasileiro, constituindo-se um sistema orgânico fundamentado em uma tradição, promovida e instituída pela tríade (autor-obra-público) fundamental da composição literária. Assim, cria-se o sistema, a partir dos árcades neoclassicistas setecentistas e firmando-se como sistema orgânico que se constituía, no decorrer do século XIX, por meio dos românticos com seus vieses nacionalistas e seu projeto de criação de uma literatura autônoma e valorosa. A partir deste pressuposto, a Formação da literatura brasileira demarca as origens do sistema literário brasileiro, nos meados do século XVIII, considerando completo seu processo formativo, nos meados do século XIX.

O Professor Antonio Candido, em Formação, transpõe os debates e as questões sobre a origem e autonomia literárias para a análise do processo formativo da literatura brasileira, pois “A nossa literatura é ramo da portuguesa; pode-se considerá-la independente desde Gregório de Matos ou só após Gonçalves Dias e José de Alencar, segundo a perspectiva adotada.” [33] Por conseguinte, Antonio Candido resolve o problema da origem literária, solucionando, posteriormente, a questão de autonomia, segundo a constituição de um processo formativo dinâmico e articulado com várias esferas.

Assim sendo, percebem-se, de acordo com a argumentação historiográfica de Antonio Candido, o início do sistema literário brasileiro, no Neoclassicismo, e sua plena maturidade no Romantismo brasileiro, estilos de época que, respectivamente, iniciam e encerram a Formação da literatura brasileira:

O momento decisivo em que as manifestações literárias vão adquirir, no Brasil, características orgânicas de um sistema é marcado por três correntes principais de gosto e pensamento: o Neoclassicismo, a Ilustração, o Arcadismo. [34]

E ainda:

(...) os escritores brasileiros que, em Portugal ou aqui, escrevem entre, digamos, 1750 (início da atividade literária de Cláudio) e 1836 (iniciativa consciente de modificação literária, com a Niterói), tais escritores lançaram as bases de uma literatura brasileira orgânica, como sistema coerente e não manifestações literárias isoladas. [35]

O seu texto sistêmico encerra as análises com o movimento do Roman­tismo, quase alcançando a obra de Joaquim Maria Machado de Assis, o “herói oculto” [36] da Formação da Literatura brasileira, con­forme afirma Antônio Callado, ou chamado mais tarde de Um Mestre na Periferia do Capitalismo pelo Professor Dr. Roberto Schwarz.

Na configuração da Formação, há uma grande questão de valor exposta, pois o Arcadismo das Minas Gerais, de acordo com Antonio Candido, instituiu uma cultura civilizada integrada ao Ocidente, em terras ainda coloniais e esquecidas, sendo “para nós, foi auspicioso que o processo de sistematização literária se acentuasse na fase neoclássica, beneficiando da concepção universal, rigor de forma, contenção emocional que a caracterizam” [37]. Segundo o Professor, o arcadismo mineiro “plantou de vez a literatura do Ocidente no Brasil”:

(...) graças aos padrões universais por que se regia, e que permitiram articular a nossa atividade literária com o sistema expressivo da civiliza­ção a que pertencemos, e dentro da qual fomos definindo lentamente a nossa originalidade. [38]

Na apreciação crítica da Formação, foram os árcades que criaram inicialmente uma “poesia civilizada” [39], instituindo “uma tradição contínua de estilos, temas, formas ou preocupações” [40]. No enfoque da Formação, os árcades iniciaram o processo formativo dinâmico da literatura brasileira, a partir da pressuposição que “mais ou menos definida de que ilustravam o país”, esquecidos em terras coloniais, iniciaram a construção de uma “cultu­ra válida”. Esta validade percebida poderia ser tomada como um empenho existente, que caracterizaria a literatura brasileira por um compromisso com a vida nacional, no qual poderia ser notada “a consciência, ou a intenção, de estar fazendo um pouco da nação ao fazer Literatura”.

A fun­ção integradora da obra literária “nos processos culturais” percebe, na Formação da Literatura Brasileira, o Arcadismo, primeiro momento decisivo da formação, como instante fundador da literatura brasileira, pois as produções poéticas arcádicas mineiras demonstram a perspectiva entre o fazer literário e a vontade de fazer literatura, como fator de civilização pela própria integração dos dados da realidade local aos padrões de civilização europeus. Conforme Candido, no Arcadismo, ocorre a convergência entre a vontade grupal/autoral, sendo as obras literárias alicerçadas na herança ocidental e na temática local. Ainda, ressalta-se a função civilizatória da literatura como criadora de modelos cultos e civilizados de existência, que demonstravam padrões universais e locais ao público leitor, que se constituía na então colônia portuguesa esquecida. No Arcadismo, percebe-se sua função civilizatória porque “plantou de vez a literatura do Ocidente no Brasil, graças aos padrões universais por que se regia, e que permitiram articular a nossa atividade literária com o sistema expressivo da civilização a que pertencemos, e dentro da qual fomos definindo lentamente a nossa originalidade”. [41]

Essa tendência ou consciência, como afirma Antonio Candido, foi exacerbada com as produções, no século XIX, dos autores românticos e seu projeto de construção nacional como um “esforço de construção do país livre”:

Depois da Independência o pendor se acentuou, levando a considerar a atividade literária como parte do esforço de construção do país livre, em cumprimento a um programa, bem cedo estabelecido, que visava à diferenciação e particularização dos temas e modos de exprimi-los. Isto explica a importância atribuída, neste livro, à “tomada de consciência” dos autores quanto ao seu papel, e à intenção mais ou menos declarada de escrever para a sua terra, mesmo quando não a descreviam. [42]

Desta maneira, a conexão entre o Arcadismo e o Romantismo parte desta perspectiva processual, cuja literatura pressupõe a convergência de grupos organicamente vinculados, que pretendem integrar, a partir da criação de obras literárias, essa civiliza­ção ao Ocidente, identificando-se, no sistema, em um processo civilizatório, porque o Romantismo, segundo momento decisivo, no século XIX, possui como preocupação elementar e enfática constituir uma literatura autônoma e “nacional”, após a Independência política de 22, perspectiva iniciada no primeiro momento decisivo arcádico, conforme a Formação.

Observando esse movimento civilizatório, que encontra o seu ápice na estética do Romantismo, o processo de formação da literatura brasileira é percebido pela análise e junção entre as formas, as temáticas e os fatores sócio-contextuais brasileiros, integrados a uma concepção de civilização ocidental. Sendo assim, na configuração da Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido demonstra que, a partir de concepção de sistema orgânico e integrado existente esboçado, as produções literárias da estética árcade mineira são tomadas numa perspectiva valorativa e numa função positiva, como ambiente propício para as futuras obras autônomas dos românticos, que se propuseram, explicitamente, a redigir uma literatura nacional. Neste foco, a formação da literatura configura-se como um processo de separação do “galho da portuguesa”, entre formas, temáticas e aspectos contextuais, que ressaltam as características locais e universais, sendo a estética romântica o ápice do processo de constituição de uma literatura civilizada, tendo os árcades como origens, na ex-colônia portuguesa tropical, com a civilização brasileira plenamente integrada ao modelo ocidental europeu ilustrado.

De tal modo, o processo de Formação, sob o enfoque de sistema literário, é uma valorização de um tipo de civilização, ou processo civilizatório ocidental. À margem do sistema elaborado, o Barroco foi seqüestrado por Candido e resgatado por Afrânio Coutinho e por Haroldo de Campos. Afrânio Coutinho, por exemplo, critica a Formação de Antonio Candido, em Conceito de Literatura Brasileira [43], ressaltando que Antonio Candido defende “uma tese reacionária portuguesa”, porque propõe a “formação” somente no século XVIII e XIX, banindo Gregório de Matos [44] e Padre Antônio Vieira, o Barroco no Brasil, para fora da articulação do “sistema”. Esta exclusão ocorreu, segundo a constituição do sistema, por não se adequar o Barroco organicamente ao “sistema”, sob a noção de "sistema funci­onal", mas também por um ideal de civilização do presente, observando o passado “formativo”.

Antonio Candido pressupõe uma construção da “ordem” sistêmica, contínua, formadora de uma tradição orgânica, social, cultural, coesa, integradora e integrada, tentando “testar” sua tese sobre o processo formativo contínuo, a partir de um sistema literário e dinâmico, a fim de eclodir a análise na autonomia nacional, formando-se a Literatura Brasileira, centrada no prisma ocidental das grandes literaturas, já que a nossa é “pobre” e “fraca”, “galho secundário”, quando “comparada às grandes”, proveniente de “segunda ordem” do “jardim das musas”.

Formação da literatura brasileira, texto historiográfico por excelência de Antonio Candido, limitado cronologicamente aos dois principais “momentos decisivos” - 1750-1836 e 1836-1880, articulado a partir do seu conceito-núcleo: sistema orgânico literário, analisa seus momentos para configurar o percurso sistêmico integrado por, segundo Antonio Candido,

quatro grandes temas (que) presidem à formação da literatura brasileira como sistema entre 1750 e 1880, em correlação íntima com a elaboração de uma consciência nacional: conhecimento da realidade local; a valorização das populações aborígines; o desejo de contribuir para o progresso do país; a incorporação aos padrões europeus. [45]

Desta forma, os aspectos estéticos e ideológicos do sistema erigido e delimitado, ao mesmo tempo elementos de estilo de época, como a exaltação da Natureza, do idílio pastoral arcádico ao indígena romântico mítico, enquanto homem natural, o desejo de uma sociedade livre e independente, são observados por Antonio Candido naqueles escritores, que “lançaram as bases de uma literatura brasileira orgânica, como sistema coerente e não manifestações isoladas” [46]. A metade do século XVIII e a metade do século XIX são os momentos que demarcam o início e o amadurecimento do sistema literário brasileiro.

Em sua obra de 1997, Iniciação à Literatura Brasileira, o Professor Antonio Candido propõe três divisões para a literatura brasileira, ratificando sua concepção sobre o processo formativo da literatura brasileira, a partir da configuração do sistema literário:

1) a era das manifestações literárias, que se estende do século XVI até meados do século XVIII;

2) a era da configuração do sistema literário, que se estende de meados do século XVIII até a segunda metade do século XIX;

3) a era do sistema literário consolidado, que se estende da segunda metade do século XIX, até nossos dias. [47]

Analisando e inter­pretando o processo contínuo de “formação da literatura brasileira”, em seus “momentos decisivos”, Antonio Candido, que se ancora na concepção exposta de sistema literário, une-se, de certa forma, à tradição romeriana dos estudos literários, pois sempre vincula a literatura à sociedade. Entretanto, no caso da Formação, como exemplo do trabalho crítico do professor, esta adoção é distinta da mesma tradição, pois a obra não possui a pretensão de definir os “fatores” histórico-sociais, que determinariam a manifestação literária ficcional. A perspectiva da análise de Candido percebe o fenômeno literário como uma “entidade autônoma no que tem de especificamente seu”[48], mas também retoma os dados contextuais da sociedade, em uma relação de influências recíprocas entre ficção e realidade, sendo um todo orgânico e integrado. Antonio Candido recusa o método do sociologismo determinista do Professor Sílvio Romero, mas também, ao mesmo tempo, nega a postura formalista e imanentista da “nova crítica”. Assim, sendo a concepção de “sistema” ressaltada como um todo orgânico e coerente, Antonio Candido busca “ver simples onde é complexo, tentando demonstrar que o contraditório é harmônico”, perseguindo em sua análise uma “coerência tran­sitória de uma unidade”, enquanto sistema coerente “em equilíbrio ins­tável”. Observa Antonio Candido:

Por outro lado, se aceitarmos a realidade na minúcia completa das suas discordâncias e singularidades, sem querer mutilar a impressão vigoro­sa que deixa, temos de renunciar à ordem, indispensável em toda inves­tigação intelectual. Esta só se efetua por meio de simplificações, redu­ções ao elementar, à dominante, em prejuízo da riqueza infinita dos pormenores. É preciso, então, ver simples onde é complexo, tentando demonstrar que o contraditório é harmônico. O espírito de esquema intervém, como fôrma, para traduzir a multiplicidade do real; seja a fôrma da arte aplicada às inspirações da vida, seja a da ciência, aos dados da realidade, seja a da crítica, à diversidade das obras. E se qui­sermos reter o máximo de vida com o máximo de ordem mental, só resta a visão acima referida, vendo na realidade um universo de fatos que se propõem e logo se contradizem, resolvendo-se na coerência tran­sitória de uma unidade, que sublima as duas etapas, em equilíbrio instável. [49]

A relação entre ficção e realidade empírica, entre texto e contexto, suas fronteiras e feituras, suas inter-relações e processos de constituição; estes são aspectos que a Teoria da Literatura e a Crítica Literária trazem à tona às suas discussões, constantemente. De acordo com Candido, em sua concepção metodológica de construção crítica e historiográfica, ressaltando de maneira bem didática, a interpretação estética assimila:

a dimensão social como fator de arte. Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros. [50]

O externo [Contexto - Realidade empírica] se torna interno [Texto - Obra estética] e o elemento social se torna um dentre vários elementos que compõem o texto ficcional, em um movimento dialético entre ficção e realidade. Evidentemente, há o reconhecimento da transgressão ficcional dos fatores sociais e da autonomia da ficção, em face da realidade e das relações de reciprocidade existentes entre ambas as esferas. Assim, “vendo os problemas sob esta dupla perspectiva, percebe-se o movimento dialético que engloba a arte e a sociedade num vasto sistema solidário de influências recíprocas”. [51]

O professor e crítico uspiano Alfredo Bosi, autor reconhecido de História concisa da literatura brasileira e Dialética da colonização, em “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” [52], debate especificamente sobre a História das Histórias Literárias do Brasil. Nesta discussão, Bosi ressalta que está em “busca de um historicismo aberto, largo e profundo, que saiba fundar conceitualmente uma história da literatura como história das obras literárias.”[53] A superação de um historicismo representativo nacionalista romântico e de um historicismo sociologizante positivista, evolucionista e naturalista é a renovação apontada pelo Professor Alfredo Bosi. Desta forma, o cerne da disciplina História da Literatura encontrar-se-ia na história das obras literárias, nas especificidades dos textos, tomados enquanto “individuações descontínuas do processo cultural” que “podem exprimir tanto reflexos (espelhamentos) como variações, diferenças, distanciamentos, problematizações, rupturas e, no limite, negações das convenções dominantes no seu tempo.” [54] Para propor tal Resistência, termo tão caro ao texto, o Professor Alfredo Bosi cria uma revisão dos principais historiadores e críticos da Literatura Brasileira: Sílvio Romero, José Veríssimo, Araripe Jr., Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Augusto Meyer, Álvaro Lins, Nélson Werneck Sodré, Afrânio Coutinho, Antonio Candido et alli. De acordo com o texto, exemplificando saídas resistentes, encontram-se a História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux, e Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, de Antonio Candido, que demonstram a relação entre obra e contexto, propiciando um entendimento “da literatura como história das obras literárias” e suas singularidades literárias. Tomando a relação entre texto e contexto como reciprocidade de influências, superando a simplória representação, as historiografias literárias de Carpeaux e Candido adotam uma “perspectiva ampliada, respeitosa dos direitos da memória, da imaginação e da reflexão crítica, (...) recebem nova luz as relações entre literatura e sociedade, literatura e nação.” [55]

Perante as correntes contemporâneas de estudos literários, Alfredo Bosi diz que a relação entre Literatura e Sociedade não deve ser tomada como pacífica, após a lição demonstrada por Otto Maria Carpeaux. “No final do séc. XX, quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural Studies) se arrisca de novo a simplificar as relações entre literatura e sociedade, vale a pena retomar os nós conceituais da questão.” [56] Afirma Alfredo Bosi que Antonio Candido, assim como Otto Maria Carpeaux, possui “candente atualidade hoje quando a prática dos Estudos Culturais voltou a tratar o texto literário como variante da indústria cultural ou mero instrumento de lobbies[57], na perspectiva do Professor Alfredo Bosi.

Por outro lado, de acordo com o Professor Antonio Candido, em relação à feitura ficcional, os “fatores socioculturais” extratextuais marcam e encontram-se presentes:

Eles marcam [fatores socioculturais], em todo caso, os quatro momentos da produção, pois: a) o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, orienta-o segundo os padrões da sua época, b) escolhe certos temas, c) usa certas formas e d) a síntese resultante age sobre o meio. [...] Como se vê, não convém separar a repercussão da obra da sua feitura, pois, sociologicamente ao menos, ela só está acabada no momento em que repercute e atua, porque, sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana [...] [58]

Os fatores socioculturais participam da/na elaboração do ato ficcional, como afirma Antonio Candido em toda a sua argumentação crítica. Entretanto, ressalta-se que, em sua concepção crítica, o dado ficcional não vem diretamente do mundo extratextual, como a tradição romeriana pressupunha; mesmo rearticulando a esfera contextual, a ficção possui sua autonomia de existência e resistência. Esta relação existencial dialética “depende de princípios mediadores, geralmente ocultos, que estruturam a obra graças aos quais se tornam coerentes as duas séries, a real e a fictícia”. [59]

Estes “princípios mediadores” norteiam o trabalho ficcional em sua elaboração transgressora entre texto e contexto, gerando, de acordo com o Professor Antonio Candido, uma “redução estrutural dos dados externos”, que é a transformação - transgressão - dos dados externos que se tornam internos, criando dessa forma sua “especificidade relativa” do texto ficcional. Esta articulação do externo realizada pelo autor e seu imaginário fornece o aspecto de ficção à obra estética, percebido na leitura, que observa o mundo humano, diferenciando-a de documento, pois a realidade pode ser percebida, mas não descrita como tal no texto ficcional.

Antonio Candido estabelece, recentemente, certa nomenclatura para designar os textos que fornecem com maior “claridade” aspectos da realidade extratextual. São os “textos translúcidos” [60], contrapondo-se aos “textos opacos” documentais, que não sentem tanto o poder do “arbítrio transfigurador” do processo ficcional. Ambos devem ter tratamento diferenciado, sendo os dois tipos “válidos” para perceber e sentir a realidade que lhes é inerente.

Sobre a elaboração autoral do texto ficcional, segundo Antonio Candido, a “integração” (seleção, combinação e transgressão dos fatores contextuais) é responsável pelo aspecto satisfatório para sentir a realidade no texto ficcional. Candido ressalta, em seu ensaio: Dialética da Malandragem sobre as Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida, que o autor:

[...] os organiza de modo integrado [suprimir, complementar, valorizar - operações básicas da ‘Produção do mundo’ - Goodman], o resultado é satisfatório e nós podemos sentir a realidade. Quando a integração é menos feliz, parece-nos ver uma justaposição mais ou menos precária de elementos não suficientemente fundidos, embora interessantes e por vezes encantadores como quadros isolados. Neste último caso é que os usos e costumes aparecem como documentos, prontos para a ficha dos folcloristas, curiosos e praticantes da petite historie. [61]

O “modo integrado” realizado pelo autor na transgressão da realidade para a criação do universo ficcional pode ser satisfatório, sendo ficcional, ou não, apenas documento, mera reprodução. Em um processo de “tematização do mundo”, a ficção no texto ficcional é gerada e configurada. Ainda, a Combinação dos fatores extratextuais, que também é um ato de transgressão dos dados empíricos contextuais, fornece uma pista sobre a elaboração e a intencionalidade do texto. Ela fornece uma força de convicção do ato ficcional que, segundo Antonio Candido,

depende pois essencialmente de certos pressupostos de fatura, que ordenam a camada superficial dos dados. Estes precisam ser encarados como elementos de composição, não como informes proporcionados pelo autor, pois neste caso estaríamos reduzindo o romance a uma série de quadros descritivos dos costumes do tempo. [62]

A ficção diferencia-se de todos os discursos científicos porque o ficcional não quer ser visto ou tomado como tal, isto é, de acordo com Antonio Candido, enquanto as ciências querem o sentimento de todo real, a ficção não cobiça este estatuto, “[...] pois o sentimento da realidade na ficção pressupõe o dado real mas não depende dele. Depende dos princípios mediadores, geralmente ocultos, que estruturam a obra e graças aos quais se tornam coerentes as duas séries, a real e a fictícia” [63]. Antonio Candido ressalta a concepção de que a comunicação artística se completa em uma interação dinâmica entre os elementos, que a compõem e que fazem parte em “momentos indissoluvelmente ligados da produção e se traduzem, no caso da comunicação artística, como autor, obra, público”. [64]

Enfim, desta forma, a literatura, como esfera formal e imaginária, integra uma concepção maior de relações culturais, pois Antonio Candido lê a literatura brasileira como “fenômeno de civilização”, desempenhando um aspecto funcionalista. Conforme Antonio Candido, “esta precedência do es­tético, mesmo em estudos literários de orientação ou natureza histórica, leva a jamais considerar a obra como produto; mas permite analisar a sua função nos processos culturais. É um esforço (falível como os outros) para fazer justiça aos vários fatores atuantes no mundo da literatura.” [65]

A concepção sobre o sistema, a formação e as reflexões literárias refinadas e demonstradas, nas obras de Antonio Candido, são posicionamentos debatidos e estudados, no século XXI, pois uma certa distância temporal e acadêmica devida começa a aflorar. Sem dúvida, como marco historiográfico, que relaciona Literatura e Sociedade, a Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos encontra-se no aprendizado de várias gerações, enquanto obra voltada ao ensino e à pesquisa sobre estudos literários, nesta “necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade”, de combater as opressões e se empenhar na reflexão sobre uma literatura e uma sociedade brasileiras. Estas atitudes empenhadas (Palavra Empenhada) promovem ao conhecimento e ao prazer estético o exercício da reflexão, isto é, conforme o Professor Antonio Candido, o “nervo da vida”: a contradição na aventura do espírito.

Nesta perspectiva crítica, o conceito de sistema poderia ser abordado por perspectivas contemporâneas. Como exemplo, segundo a Professora Marisa Lajolo, “pode-se retomar a idéia de que a pesquisa das formas de existência, em diferentes momentos, de cada um dos componentes [autor-obra-público] do sistema literário da literatura brasileira pode ser uma primeira tarefa de uma agenda para estudos literários brasileiros que queira inscrever-se na linha teórica que Antonio Candido funda em 1959.” [66] Desta forma, pode-se partir dos debates obtidos pela tradição da historiografia literária brasileira, respeitando seu alcance e proporcionando novas reflexões acerca do ensino e do estudo crítico de Literatura, assim como Antonio Candido o fez.

Ainda, como afirma Marisa Lajolo, “se a história e a crítica literárias são os componentes mais abstratos deste sistema, o mais concreto é o sistema escolar, base sem a qual não ocorre alfabetização e letramento da comunidade a ser transformada em público [leitor deste sistema constituído]”[67]. Enquanto obras voltadas ao ensino de literatura, no sistema educacional, as historiografias literárias brasileiras podem sofrer reflexões contínuas, realizando uma permanente renovação, para além da mera reprodução pedagógica ou metodológica, pois a Educação (também de Estudos Literários e Artísticos) não é estática ou repetidora dos conhecimentos, tacitamente, aceitos.

Segundo Antonio Candido, a literatura é por natureza humanizadora e como tal não pode ser subserviente. Ela fornece tanto a fruição como promove a inquietude do espírito, “aventura do espírito”. Afirma Antonio Candido que toda “obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção.[68] Esta Humanização, que é a própria literatura, é entendida como:

o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. [67b]

A literatura, estudada por Antonio Candido ao longo de décadas, é vista como um Direito e como um “fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade (...).” [68b]

O verbo Arruar, citado por José Petronillo de Santa Cruz, na homenagem realizada a Antonio Candido pelo livro Esboço de Figura, expõe uma metáfora sobre a biografia e bibliografia acadêmicas do Professor: “termo de engenharia e urbanismo: ‘traçar ou abrir ruas para fazer vila ou cidade’. E, logo em seguida, outro sentido: ‘passear pelas ruas, percorrer as ruas’”. As ruas do saber abertas por Antonio Candido, nos seus passeios pela Literatura Brasileira, sem dúvida, deixaram um legado importante à tradição dos estudos literários. Evitando meras apologias e reproduções, lembra Santa Cruz,

Quem, porém, examinar atentamente sua bibliografia verá que Antonio Candido, através de sua atividade e de sua produção literária é alguém que soube e ainda hoje sabe arruar. O arruar de Antonio Candido está nos livros que publicou - tão poucos para tanto arruar! - e nos artigos, estudos, prefácios publicados no Brasil e fora daqui e que denotam uma grande paixão em andar pelas ruas do saber, com apetite literário ou perspicácia sociológica, mas também como o engenheiro ou um urbanista do primeiro sentido da palavra, abrindo ruas e demarcando caminhos. [69]

Passeando ou abrindo ruas, redescobrindo saberes ou rememorando-os, analisando a literatura em um exercício crítico de respeito e admiração, o Professor Dr. Antonio Candido de Mello e Souza (1918 - XXXX) assume seu lugar perante a Literatura Brasileira e a sociedade, como professor, pesquisador e autor do marco historiográfico analítico literário, que estabelece o “Sistema e a Formação” na Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos.

 

Notas:

[1] Algumas Obras: Introdução ao método crítico de Sílvio Romero, 1945; Brigada ligeira, 1945; "Monte Cristo ou Da Vingança". Cadernos de cultura, N° 10. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1952; Ficção e confissão, 1956; O Observador literário, 1959; Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1959; Teófilo Dias. Poesias escolhidas. Sel., introd. e notas, 1960; Graciliano Ramos. Trechos escolhidos. Apresentação e antologia, 1961; A Personagem de Ficção, 1963; Presença da literatura brasileira (junto com José Aderaldo Castello), 1964; Os parceiros do Rio Bonito, 1964; Tese e antítese, 1964; Literatura e sociedade, 1965; O Estudo Analítico do Poema, 1967; Introducción a la literatura de Brasil. Caracas, 1968; Literatura e cultura de 1900 a 1945, 1970; Vários escritos, 1970; Sílvio Romero. Teoria, crítica e história literária, 1978; Teresina etc., 1980; Álvares de Azevedo. Poemas. Sel., pref., notas. 1984; Na sala de aula, 1985; A educação pela noite, 1987; Quatro Esperas, 1990; Brigada Ligeira e outros Escritos, 1992; O Discurso e a Cidade, 1993; Recortes, 1993; Iniciação à literatura brasileira, 1997; A Educação pela Noite & outros Ensaios, 2000; O Romantismo no Brasil, 2002; Um Funcionário da Monarquia, 2002. Ainda, Professor Antonio Candido publicou, em sua trajetória acadêmica, mais de três centenas de artigos, prefácios e estudos críticos. Alguns estudos sobre Antonio Candido: PEDROSA, Célia. Antonio Candido, a palavra empenhada. São Paulo, Edusp, 1994. ANTELO, Raúl. Antonio Candido y los Estudios Latinoamericanos, - Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana da Universidade de Pittsburgh, 2002. AGUIAR, Flávio (org.). Antonio Candido: pensamento e militância. Fundação Perseu Abramo e Humanitas FFLCH/USP, 1999. LAFER, Celso. (org.). Esboço de Figura. São Paulo, Duas Cidades, 1978. SCHWARZ, Roberto. "Pressupostos, salvo engano, de Dialética da malandragem". In: ___ Que Horas São? São Paulo: Companhia das Letras, 1989. SCHWARZ, Roberto. Seqüências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ARANTES, Paulo Eduardo. Sentimento da Dialética. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. ARANTES, Paulo Eduardo. "Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo", In: ARANTES, Paulo e Otília Fiori, Sentido da Formação. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997, pp. 7-66. DANTAS, Vinícius (org.). Bibliografia de Antonio Candido e Textos de intervenção. Rio de Janeiro, ed. 34, 2002, 2 volumes. DINCAO, Maria Ângela e SCARABÔTOLO, Eloísa (org.). Dentro do texto, dentro da vida. Ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo, Companhia das Letras/Instituto Moreira Salles, 1992. BOSI, Alfredo. Literatura e Resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. CAMPOS, Haroldo. O Seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira - o caso Gregório de Matos. Bahia: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989. MOTTA, Leda Tenório. Sobre a crítica literária brasileira no último meio século. Rio de Janeiro: Imago, 2002. JACKSON, Luiz Carlos. A tradição esquecida. Os parceiros do Rio Bonito e a sociologia de Antonio Candido. São Paulo, Humanitas - Fapesp; Belo Horizonte, ed. da UFMG, 2002. PONTES, Heloísa. Destinos mistos. Os críticos do grupo Clima em São Paulo (1940-1968). São Paulo, Companhia das Letras, 1998. DE LA SERNA, Jorge Ruedas. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003.

[2] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997.

[3] Conf. PEDROSA, Célia. Antonio Candido, a palavra empenhada. São Paulo, Edusp, 1994.

[4] Algumas Premiações oferecidas ao Prof. Antonio Candido:

    Condecoração de Officier d'Académie - República Francesa - 1951;
Condecoração de Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico - Presidência da República do Brasil - Set/1994;
Prêmio do Instituto Nacional do Livro - 1960;
Prêmio Jabuti “Formação da Literatura Brasileira” - 1960;
Prêmio: Fundação Bunge - 1990;
Prêmio "Almirante Álvaro Alberto" - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - 1991;
Prêmio "Machado de Assis" da Academia Brasileira de Letras - 1993;
Prêmio Camões (República Portuguesa e a República Federativa do Brasil) - 07/1998;
Prêmio Internacional ALFONSO REYES - México - 2005;
Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano da União Brasileira de Escritores - 2007;
A maior homenagem do Governo do Estado de Minas Gerais - Medalha da Inconfidência - 2007.

[5] CANDIDO, Antonio. “A vocação crítica”. Entrevista concedida a Manuel da Costa Pinto. In: Revista Cult, Vol. 61. 2004. p. 53.

[6] Formação Acadêmica de Antonio Candido:

    Licenciado em Ciências sociais - USP - 1942.
Livre-docente (Literatura brasileira) - USP - 1945.
Doutor em Ciências sociais - USP - 1954.
Professor Associado de literatura brasileira na Universidade de Paris - 1964.
Professor Titular (Teoria literária e Literatura comparada) - Universidade de São Paulo - USP - 1974.
Professor Emérito - Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo - USP - 1984.
Doutor honoris causa - Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - 1987.
Professor Emérito - Faculdade de Filosofia de Assis da Universidade Estadual de São Paulo - UNESP - 1988.

[7] CESAR, Guilhermino. "Um homem da geração de Clima". In: LAFER, Celso (Org.). Esboço de figu­ra: homenagem a Antonio Candido. SP: Duas Cidades, 1978.

[8] PINHEIRO, Paulo Sérgio. “Um reencontro com ‘il miglior fabbro’”, Folha de S. Paulo, Cad. Mais!; p. 19; 12/12/1999.

[9] ARRIGUCCI JR., Davi. “Movimentos de um leitor (ensaios e imaginação crítica em Antonio Candido)” In: Idem. Outros achados e perdidos. São Paulo: Cia. das Letras, 1999. p. 240.

[10] BARBOSA, João Alexandre. “Paixão crítica” In: Idem. A leitura do intervalo. SP: Iluminuras, 1990. p.60.

[11] MERQUIOR, José Guilherme. “O texto como resultado (notas sobre a teoria da crítica de Antonio Candido)”. In: LAFER, Celso (Org.). Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. SP: Duas Cidades, 1978. p. 121.

[12] ARRIGUCCI JR., Davi. “Movimentos de um leitor (ensaios e imaginação crítica em Antonio Candido) In: Idem. Outros achados e perdidos. SP: Cia das Letras, 1999. p. 239.

[13] PRADO, Antonio Arnoni. “Dimensão Crítica da Formação”. In: De La SERNA, Jorge Ruedas. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p. 419

[14] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 17.

[15] Ibidem: TOMO I da Formação: Introduções; Cap. I - Razão, Natureza, Verdade; Cap. II - Transição literária; Cap. III - Apogeu da Reforma; Cap. IV - Musa Literária; Cap. V - O Passadista; Cap. VI - Formação da Rotina; Cap. VII - Promoção das luzes; Cap. VIII - Resquícios e Prenúncios.
    TOMO II da Formação: Cap. I - O Indivíduo e a Pátria; Cap. II - Os primeiros românticos; Cap. III - Aparecimento da ficção; Cap. IV - Avatares do Egotismo; Cap. V - O Triunfo do Romance; Cap. VI - A expansão do lirismo; Cap. VII - A corte e a província ; Cap. VIII - A consciência literária.

[16] PEDROSA, Célia. Antonio Candido, a palavra empenhada. São Paulo, Edusp, 1994. p.108.

[17] Conf.: LAFER, Celso (Org.). Esboço de figu­ra: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1978; D'INCAO, Maria Angela e SCARABOTOLO, Eloísa Faria (Org.). Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Cia. das Letras/IMS, 1992.

[18] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 24.

[19] Ibidem. p. 15-16.

[20] Ibidem. p. 23.

[21] Ibidem. p. 24.

[22] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: DE LA SERNA, Jorge Ruedas. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p 57.

[23] CAMPOS, Haroldo. O Seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira - o caso Gregório de Matos. Bahia: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989. p. 32.

[24] LIMA, Luiz Costa. “O conceito de história literária na Formação” In: Idem. Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

[25] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: DE LA SERNA, Jorge Ruedas. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003.

[26] CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. 3ª. Ed. São Paulo: Humanitas, 1999. (1ª. Ed. 1997) p. 15

[27] Ibidem. p. 52

[28] CANDIDO, Antonio. “O escritor e o público” In: COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1955. Vol. I, p. 158.

[29] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 26.

[30] Ibidem. p. 24-25.

[31] Ibidem. p. 16.

[32] Ibidem. p. 25.

[33] Ibidem. p. 28.

[34] Ibidem. p. 41.

[35] Ibidem. p. 67.

[36] CALLADO, Antônio. “Formação da literatura brasileira: um monólogo interior”. In: D'INCAO, Maria Angela e SCARABOTOLO, Eloísa Faria (Org.). Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Cia. das Letras/IMS, 1992. p. 142.

[37] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 27.

[38] Ibidem. p. 17.

[39] Ibidem. p. 17.

[40] Ibidem. p. 25.

[41] Ibidem. p. 17.

[42] Ibidem. p. 26.

[43] COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Pallas/ MEC, 1976. p. 38.

[44] Conferir a citação N° 23 sobre o Seqüestro do Barroco de Haroldo de Campos, neste capítulo.

[45] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 66-67.

[46] Ibidem. p. 67.

[47] CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira, 3ª. Ed. São Paulo: Humanitas, 1999. (1ª. Ed. 1997) p.14.

[48] Idem. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 16.

[49] Ibidem. p. 30.

[50] CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”. In: Idem. Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p. 07.

[51] Ibidem. p. 24. [grifo meu]

[52] BOSI, Alfredo. “Por um historicismo renovado: reflexo e reflexão em história literária” In: Idem. Literatura e resistência. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

[53] Ibidem. p. 09.

[54] Ibidem. p.10.

[55] Ibidem. p.53.

[56] Ibidem. p. 11.

[57] Ibidem. p. 43.

[58] CANDIDO, Antonio. “Literatura e a Vida social”. In: Idem. Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p. 21. [Grifos meus]

[59] SCHWARZ, Roberto. “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da Malandragem’” In: LAFER, Celso (Org.). Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 136.

[60] CANDIDO, Antonio. Estruendo y liberación. Ensayos críticos (editores: Jorge Ruedas de la Serna y Antonio Arnoni Prado) México: Siglo XXI, 2000. p. 14-15.

[61] CANDIDO, Antonio. “Dialética da Malandragem”. In: ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias. Ed. Crítica. Cecília de Lara (Org.). Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 327.

[62] Ibidem. p. 328. [grifo meu]

[63] Ibidem. p. 337.

[64] CANDIDO, Antonio. “A literatura e a Vida Social”. In: Idem. Literatura e Sociedade. 7a. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985. p 22.

[65] Idem. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 1º. Volume: 1750-1836; 2º. Volume: 1836-1880. 8ª ed. BH - RJ: Ed. Itatiaia Ltda., 1997. Vol. I, p. 16.

[66] LAJOLO, Marisa. “A leitura na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido”. In: DE LA SERNA, Jorge Ruedas. Antonio Candido: Homenagem. São Paulo. Ed. UNICAMP, 2003. p. 70.

[67] Ibidem. p. 69

[68] CANDIDO, Antonio. “Direito à Literatura”. In: Idem. Vários Escritos. 3a. ed. (Revista e Ampliada). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p. 245.

[67b] Ibidem. p. 249.

[68b] Ibidem. p. 243.

[69] SANTA CRUZ, José Petronillo de. “O Arruar de Antonio Candido”. In: LAFER, Celso (Org.). Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1978. p. 69-70.

 

© Flávio Leal 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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