O uso dos adjetivos sob uma perspectiva enunciativa [1]

João Carlos Cattelan [2]

Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Brasil
cattelan@brturbo.com.br


 

   
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Resumo: Este estudo busca refletir sobre o uso de adjetivos [3], entendendo-os como índices de avaliação. A reflexão é feita no sentido de interrogar o que orienta o autor do texto no processo de adjetivação que constitui. Usando enunciados cotidianos que chamaram a atenção para o problema de que o adjetivo não realiza, discursivamente, a função de distinguir um elemento dos demais, este estudo se vale de recortes de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, como ampliação do corpus de dados empíricos. Parte-se da hipótese de que o papel social que ocupa, a posição discursiva assumida, o cenário em que a atividade discursiva se desenvolve, o auditório a que o autor se dirige, o lugar social de onde ele enuncia e o ethos que pretende construir levam os locutores a efetuar certas escolhas, buscando construir uma imagem de si frente ao cenário discursivo em que se encontra, tendo, é óbvio, razões ilocutórias (impostas institucionalmente) para se portar de uma maneira. Objetiva-se, como já dito, essencialmente, refletir sobre o que orienta os locutores no tocante ao uso dos adjetivos, concebendo-os como índices de avaliação axiológica.
Palavras-chave: discurso; adjetivos; índices de avaliação; Eça de Queirós.

Resumen: Este estudio busca hacer una reflexión [3] sobre el uso de adjetivos, entendiéndolos como índices de evaluación. La reflexión es hecha en el sentido de interrogar lo que orienta el autor del texto en el proceso de adjetivación que constituye. Usando enunciados cotidianos que llamaron la atención para el problema de que el adjetivo no realiza, discursivamente, la función de distinguir un elemento de los demás, este estudio se vale de trechos del libro O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós, como ampliación del corpus de dados empíricos. Se parte de la hipótesis de que el papel social que ocupa, la posición discursiva asumida, el escenario en que la actividad discursiva se desarrolla, el auditorio para el cual el autor se dirige, el lugar social de donde el enuncia y el ethos que pretende construir llevan los locutores a tener ciertas preferencias, buscando construir una imagen de sí propio frente al escenario discursivo en que se encuentra, teniendo, obviamente, razones ilocutorias (impuestas de modo intencional) para portarse de tal manera. Se objetiva, como ya fue dicho, esencialmente, hacer una reflexión sobre lo que orienta los locutores con respecto al uso de los adjetivos, concibiéndolos como índices de evaluación axiológica.
Palabras clave: discurso, adjetivos, índices de evaluación, Eça de Queirós.

Abstract: This study has the objective of discussing about the usage of adjectives [3], taking the conception that they are used as evaluation indices. The reflection is done arguing what leads the authors of the text to use the adjectives that it chooses. Using daily enunciates, which were faced and called the attention the adjectives, in the discourse, does not have the function of detach a thing in relation to the others, this study takes some parts of the book Crime do Padre Amaro, by Eça de Queirós, as an enlargement of the corpus of the empirical data. It is taken the hypothesis that the social role, the assumed discursive position, the scene where the discursive activity is developed, the audience the author speaks to, the social place where it is enunciated and the ethos it is intended to construct lead the speaker to do certain choices, searching to construct an image of itself concerned to the discursive scene where it finds itself, ilocutory reasons (institutionally imposed) to behave that way. The objective is, as already said, to reflect about what leads the speakers regarding to the use of the adjectives, conceiving them as evaluation indices and not as qualifying elements.
Key-words: discourse; adjectives; evaluation indices; Eça de Queirós.

 

Quando se comparam línguas como o português e o inglês, percebe-se uma diferença “estrutural” do uso dos adjetivos: no primeiro, ele é, em geral, posposto; no segundo, ele aparece antes. Entende-se que esta atividade, mais do que apontar uma questão relativa à estruturação sintático-gramatical do enunciado, denuncia uma visão de mundo e um modo de se posicionar em relação a ele. Mais do que colar a linguagem ao mundo e às coisas, de modo especular e transparente, ela revela um olhar cultural que não fala sobre o mundo, mas o concebe de determinado modo. Pode-se afirmar que, enquanto para o falante de português seria necessário, antes, inserir o tópico num determinada categoria, para, depois, particularizá-lo em sua especificidade, o que parece apontar para a necessidade de inserção prioritária dos “seres do mundo” em princípios gerais (o comportamento do anatomista: cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa), para o falante de inglês, o caminho ocorre ao inverso: antes, ele deve especificar de que tópico trata, para, depois, dizer qual é ele. Um exemplo do que se está afirmando pode ser observado na designação das ruas. Em português, diz-se rua x, enquanto, em inglês, diz-se x street. Isto não pode ser explicado apenas como uma operação sintática que as duas línguas teriam organizado de modo distinto. Dever-se-ia aprofundar mais a afirmação que acaba de ser feita, mas ela permite partir do ponto de vista de que o adjetivo não é usado somente para qualificar ou diferenciar entidades discursivas.

Diversos enunciados do cotidiano (se não todos) reiteram a possibilidade de afirmar que o adjetivo, mais do que um problema de sintaxe ou de atribuição de juízo de valor pessoal a um “objeto”, revela uma posição cultural (alguns diriam ideológica) sobre o que cativa a atenção. Como afirma Reboul (2000, p. 142),

é impossível que [os locutores se dirijam um ao outro] se não houver entre ambos um acordo prévio. De fato, não há diálogo, nem mesmo argumentação, sem um entendimento mínimo entre os interlocutores, entendimento referente tantos aos fatos quanto aos valores. Pode-se até dizer, sem paradoxo, que o desacordo só é possível no âmbito de um acordo comum.

Ou seja: a avaliação que se faz dos tópicos do discurso indiciam a manifestação de uma voz anterior, interdiscursiva, que afeta aquele que a realiza, denunciando a presença de uma rede de memória no discurso que ele profere.

Objetiva-se, neste estudo, refletir sobre o uso dos adjetivos, concebendo-os não como determinados pela sintaxe da língua ou pela opção individual do locutor, mas como índices de valoração cultural e, portanto, discursiva. Dito de outro modo, busca-se mostrar que, quando se adjetiva um tópico discursivo, essa atividade revela a pertença social do locutor. Observar, portanto, como a adjetivação é feita permite ter acesso a como um grupo social concebe o mundo (não apenas o mundo objetivo). Para a defesa deste ponto de vista, utilizar-se-ão enunciados colhidos de interações face a face, além de recortes de O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, buscando atender ao que Mazière (2007, p. 52) afirma ser a obrigação do estudioso do texto/discurso: preservar “a língua [e a] sua ordem simbólica”. Ou ainda: ele deveria supor que “o nível sintático dos fenômenos lingüísticos é irredutível a toda abordagem que os assimilaria a um cálculo das intenções dos falantes ou a processos mentais derivados da psicologia” (p. 71), afirmação que deveria ser alargada no sentido de abranger os demais processos que se revelam na materialidade concreta da língua.

Os três exemplos analisados a seguir foram colhidos numa aula em programa de mestrado, noutra em curso de graduação e num curso para docentes. No primeiro caso, ao se refletir sobre como as culturas se constroem a partir de relações imaginárias com o que as cerca, lendo diferentemente o que, em outro grupo social, é visto de outro modo, foi relatado aos mestrandos que, diferentemente dos brasileiros, os aimaras [4] têm uma forma peculiar de conceber as relações conjugais. Refletia-se sobre a afirmação de Castoriadis (1982, p. 124) de que “O sujeito é dominado por um imaginário vivido como mais real que o real, ainda que não sabido como tal, precisamente porque não sabido como tal”. Tematizava-se a tese de que o imaginário é “alguma coisa ‘inventada’, quer se trate de uma invenção ‘absoluta’, ou de um deslizamento, de um deslocamento de sentido, onde símbolos já disponíveis são investidos de outras significações, que não suas significações ‘normais’ ou ‘canônicas’” (p. 154).

Relatava-se aos mestrandos que os aimaras exigem que rapazes e moças permaneçam virgens até os dezoito anos, podendo, então, viver com o parceiro escolhido o período de experiência de um ano. Caso o casal deseje manter a relação, o ritual do “casamento” é efetuado e a união se torna indissolúvel, sendo o adultério punido com a expulsão do infrator, que deve passar a viver no continente e não é mais aceito entre os habitantes. Mas, se, após o primeiro ano, os “cônjuges” entenderem que a relação não os satisfaz, voltam a viver sozinhos, tendo direito a uma segunda tentativa, repetindo-se o período de experiência e, na seqüência, o “matrimônio” ou a separação. Ainda é possível uma terceira tentativa. Se esta também não se consolidar, quem se envolveu em três relações e não se adequou a nenhuma também é expulso da aldeia, o que ocorre, além disso, em casos de traição. Evidenciava-se, pois, a diferença de concepção que norteia os aimaras e o pensamento ocidental, tanto que, quando a guia terminou a explanação, um dos turistas perguntou se o rapaz não via problema em contrair núpcias com uma mulher não mais virgem, revelando uma forma distinta de entendimento. A questão que ele propunha só se justifica na medida em que se percebe que ela se fundamenta em outros valores.

Após conhecer este hábito cultural dos aimaras, um dos mestrandos produziu o enunciado Que gente mais liberal! Com gente, o aluno indicia as pessoas de quem acaba de ser relatado um modo de ver o mundo; com liberal, ele modifica o efeito de sentido do termo a que se refere; com que, ele sobre-determina o enunciado com um tom de espanto, exclamação e derrisão (ser liberal, no campo afetivo amoroso, não seria necessariamente elogiável: mencione-se o fato de ele ter produzido o enunciado em tom irônico-satírico); com mais, ele permite inferir que até se pode ser liberal, mas há um limite para que se exerça a liberalidade, limite este ultrapassado pelos aimaras, que estariam num gradiente colocado acima do nível “normal” [5].

Mas, sobretudo, deve-se perceber que a fala da aluna sobre as pessoas às quais o índice de avaliação liberal é aplicado as julga de forma negativa e as considera como pertencentes a um grupo contraposto a outro: este seria formado por pessoas não liberais e, pois, menos lascivas e devassas: menos eróticas e, neste sentido, menos pecaminosas. Se há um grupo de pessoas ao qual se pode avaliar como liberal (avaliação intensificada pela presença de mais: quer dizer, muito ou fartamente liberais), isto permite inferir que há um grupo do qual se poderia afirmar não ser liberal: ou ser menos liberal. Pode-se imaginar que o locutor do discurso faça parte deste grupo e que o tome, pois, como referência para a caracterização “caricaturada” do outro, posto sob suspeição.

Eis que se alcança o ponto almejado: por que o autor do enunciado o constrói da forma que constrói (na modalidade exclamativa, com o índice de avaliação mencionado e com o elemento intensificador destacado)? De onde ele tira o tom que sobre-determina o discurso que profere? O que o conduz a atribuir a liberal o tom negativo e irônico? E a resposta parece óbvia: o mundo do outro é posto sob as lentes do mundo próprio, sendo este o crivo avaliativo que conduz à emissão do juízo de valor proferido. À ameaça de uma cisão ou de uma ruptura do mundo “normal”, cabe responder à altura, se não com ironia, sarcasmo, sátira e derrisão. Pode-se, pois, afirmar, conforme Mazière (2007, p. 53), que os recursos da língua

são lugares de inclusão [e] manifestam como um sentido pensado e expresso noutro lugar, antes, discursivamente separado, afeta a sintaxe ao se inserir lateralmente [no discurso]. O pré-construído, reduzido por alguns a um simples antecedente, a uma citação provinda de um ambiente doxal, é a parte propriamente lingüística [do discurso], [pois] pode haver ‘separação, distância ou deslocamento entre o que é pensado antes, alhures ou independentemente, e o que está contido’ [no enunciado].

O que se espera frisar devidamente é que, na atividade discursiva de adjetivar, o locutor se vale de uma voz enunciativa que o antecede e que se imiscui no seu discurso, levando-o a avaliar o objeto posto sob apreciação de uma determinada maneira e a emitir juízos de valor que revelam a sua pertença social e, por conseqüência, o conjunto de valores partilhados pelos membros do seu grupo social. A adjetivação é, pois, menos uma operação de caráter individual e subjetivo do que uma atividade que ocorre ao sabor dos valores doxais de uma coletividade.

No segundo caso, numa aula num curso de graduação, o professor debatia com os acadêmicos a polêmica envolvendo a empresa carioca Daslu e a apropriação intertextual do seu nome por prostituas cariocas, que teriam criado uma empresa chamada Daspu. Como o tema suscitou a participação apaixonada dos presentes, o conteúdo previsto acabou sendo deixado de lado e a prostituição se tornou o foco, havendo quem a defendesse e quem a censurasse, com isso, sendo relatados exemplos conhecidos, sendo mencionados casos de pessoas conhecidas que se prostituíam (inclusive, para poder freqüentar a universidade) e sendo narrados filmes e programas televisivos que abordavam o tema. Dentre os enunciados proferidos durante o debate, um deles logrou ser memorizado, indício revelador de que um problema se encontrava sendo gestado, embora ainda não se tivesse consciência precisa disso. Que o homem é um ser social se sabe há muito tempo: ter a medida do que isto significa é algo que se constrói muito lentamente.

Um dos acadêmicos relatou o que teria visto, segundo ele, no canal MaxPrime, num programa que teria como tema a vida noturna de alguns países latino-americanos. Para a constituição do programa, uma equipe de televisão sairia pelas ruas entrevistando pessoas, conversaria com prostitutas nas ruas e visitaria lugares de vida noturna, como clubes, boates e danceterias. O foco central das visitas estaria relacionado à atividade desenvolvida durante o período em que as pessoas sairiam para “aproveitar a vida e se divertir”. Seria desnecessário dizer que o tema acabaria sendo, sobretudo, a sexualidade, fosse aquela de homens e mulheres que sairiam para curtir a noite ou de profissionais empenhados em dar prazer ao público. Com isso, a equipe acabaria centrando todo o tempo do programa em entrevistas com garotas de programa, que teriam a oportunidade de justificar por que faziam o que faziam. O relato do acadêmico atingiu o clímax, quando mencionou o caso de uma mulher que, embora tivesse família (marido e filho pequeno), era prostituta profissional, saía à noite para ganhar dinheiro e o marido sabia da atividade que ela exercia. Ele, estando desempregado, aceitava a atividade da mulher, realizava as tarefas domésticas e era mantido, assim como o filho e a esposa, pela renda obtida por ela. Sobre o programa que revelava, portanto, que, em determinados países, mulheres são prostitutas, embora tenham família e o marido saiba da atividade que exercem, um aluno disse Que gente mais indecente!

Como espelho de face plana, que, supostamente, reflete sem refratar o que repousa sobre sua face límpida, valendo-se de um enunciado quase decalque do anterior, com gente, o aluno indicia as pessoas cujo modo de ver o mundo acaba de ser relatado; com indecente, avalia o termo adjetivado; com que, acresce uma entonação de crítica, negação e repulsa ao enunciado que produz (ser indecente, no discurso pertencente ao campo da sexualidade (e, por isso, também ao das relações conjugais: portanto, ao campo afetivo amoroso), não é algo elogiável); e, com mais, permite deduzir que se pode ser indecente, mas há um parâmetro razoável para que a indecência possa ocorrer, razoabilidade extrapolada pelas pessoas em questão.

Como no enunciado anterior, deve-se perceber que o adjetivo indecente se aplica a um grupo de pessoas possuidoras de hábitos ao qual se atribui a característica negativa (em maior grau e mais radicalmente do que no primeiro caso) em destaque, fazendo-se a hipótese de que, para a produção desse juízo de valor, toma-se como referência o modo de agir supostamente característico de outro grupo, usado para a realização do contraste. Neste, as pessoas não seriam indecentes, nem teriam a atitude do casal. Como antes, se um grupo de pessoas é avaliado como indecente (índice de avaliação intensificado pela presença de mais, o que equivale a muito indecentes), pode-se inferir que há outro grupo do qual não se pode afirmar isso (deve-se admitir que, neste enunciado, a gradação se aplica de forma menos tranqüila do que no outro): ou, pelo menos, que seja menos indecente. Pode-se imaginar que o autor faça parte deste grupo e que o tome como grade para a caracterização do outro posto sob a ótica da suspeição.

E se chega ao mesmo ponto: é de um ponto de vista subjetivo que o locutor emite o juízo de valor apontado? Qualificar gente como indecente objetiva diferenciar um substantivo de outro? Algum ditame de ordem mais profunda deve ser buscado para explicar o que o atributivo encobre? Por que o autor dá a ele uma entonação pejorativa e escarnece das pessoas que teriam a atitude descrita? As respostas para as questões apontam sempre na mesma direção: o autor do texto não se pauta em ditames de ordem pessoal, no sentido de ter consciência de por que faz certas escolhas. O tom derrisório, a gradação constituída e o juízo de valor proferido obrigam a ultrapassar o personagem empírico que profere o enunciado e buscar o seu enunciador: o verdadeiro responsável pela crença que é professada. Há que se buscar de onde vem a voz que se imiscui na do produtor do discurso e, talvez, com um pouco de esforço, chegar-se-ia ao idealismo platônico, ao movimento literário romântico e ao cristianismo; portanto, à condenação de atitudes “imorais”, “indecorosas” e “pecaminosas”. À ferida narcísica que paira ameaçadoramente, a resposta deve ser enfática. Não é contra uma postura individual diferente da sua que o autor se posiciona, mas contra uma atitude que é característica de seu grupo (supostamente) e que o leva a avaliar como avalia. Na sua voz, enuncia-se uma voz dispersa e difusa que pertence a um diz-se, sem que se saiba exatamente quem diz, mas se sabe que ela diz e se aprendeu a reconhecê-la como verdadeira.

Pode-se fechar a análise deste exemplo e ratificar a tese que se está defendendo com a afirmação de Ducrot (1987, p. 192), para quem

O sentido do enunciado pode fazer surgir aí vozes que não são as de um locutor. Chamo ‘enunciadores’ estes seres que são considerados como se expressando através da enunciação, sem que para tanto se lhe atribuam palavras precisas; se eles ‘falam’ é somente no sentido em que a enunciação é vista como expressando seu ponto de vista, sua posição, sua atitude, mas não, no sentido material do termo, suas palavras.

Ou, quando ele afirma (p. 159) sobre o “arrazoado por autoridade”: “Trata-se, antes, de uma forma particular de autoridade polifônica, condição de todo discurso: pode-se deplorar que ela tenha optado por fazer ouvir esta voz e não aquela, mas isto não muda nada com relação à necessidade que todo discurso tem de pôr em cena outro discurso”.

No terceiro caso, num curso para docentes em que se discutia o discurso publicitário, chamava-se a atenção para os mecanismos postos em funcionamento pela publicidade para que conquiste a atenção do espectador, faça com que ele memorize o produto anunciado e alcance o objetivo de fazer o objeto anunciado ser adquirido. Falou-se de diversas estratégias e técnicas destinadas à mnemotécnica da publicidade e como elas estão relacionadas a desejos, medos, anseios, sonhos e vontades. A conversa acabou se voltando para a discussão de campanhas de lingerie e a Duloren se tornou a pauta da discussão. Citando-se campanhas publicitárias mais contundentes da empresa (irmãs em atitude lésbica, homens em atividade homossexual, Eva com dois homens, papai-noel buscando seduzir mulheres, homens usando lingerie feminino, freiras sob risco de serem estupradas) e mostrando que, mais do que construir uma imagem positiva do produto, a publicidade deve cativar a atenção do comprador do produto, o enunciado do docente foi Após o lançamento destas campanhas chocantes... O problema que se coloca, outra vez, é o de refletir sobre o que permite que a atitude seja taxada de chocante, assim como as anteriores foram consideradas como liberal e indecente.

Pode-se afirmar que, com a expressão campanhas, dirigida deiticamente, por meio de destas, às atividades de divulgação dos produtos da Duloren, o autor se referia às propagandas da empresa, cuja equipe de marketing se valeu, por um determinado período, de estratégias que tocavam pontos sensíveis das condições de verossimilhança da sociedade brasileira. Porém, em relação aos outros dois casos, o adjetivo chocante é menos a emissão de um juízo de valor sobre o que se acha posto em xeque do que a revelação do estado de ânimos que é criado, quando as pessoas se deparam com estas materialidades discursivas. Dito de outro modo: se, nos outros enunciados, o adjetivo aparecia como a explicitação de um ponto de vista avaliativo, neste caso, ele revela a maneira com que esse tipo de publicidade é recebido pela comunidade em que circula. Ele não é chocante, ele choca; isto é: ele não é chocante, como se poderia dizer que é belo ou feio, mas ele é chocante, porque produz uma reação psicológica ou emocional que choca o público espectador. Se, nos outros casos, o locutor era o porta-voz da doxa dominante, aqui, ele revela, mesmo que não o saiba, o efeito de sentido de um discurso sobre ela. Mesmo que se deixe de lado este rigor de distinção entre o efeito de sentido gerado num caso e no outro, deve-se notar de onde vem esta avaliação-constatação: por que esse discurso choca é a pergunta que se faz. Se ele agride, choca e é mal recebido, porque, de alguma maneira, agride o narcisismo do sujeito, isto tem uma razão social.

Como antes, entende-se que o enunciado não deve ser imputado a uma causa de ordem individual: o melindre e o incômodo que ele provoca não se devem à agressão a algum traço de caráter pessoal. Ficar chocado frente às campanhas publicitárias de que se tratava no momento não resulta de uma “opção” que se fundamente no ser empírico que afirma estar chocado ou avalia que essas propagandas chocam. Assim como Elias (2000) o mostra com relação às fofocas, afirmando que elas se referem àqueles que transgridem os valores de um grupo social, ou assim como Freud (1969) o demonstra com relação aos chistes, dizendo que eles estão ancorados na conformidade psíquica de uma sociedade, pode-se afirmar que o uso da adjetivação como indicação de avaliação se baseia nos valores sociais de uma comunidade que possui um regime de crenças e determinados filtros para julgar o mundo. As campanhas da Duloren não são chocantes por alguma característica imanente ou estrutural, embora a materialidade do texto conte (e muito) para o efeito de sentido do discurso, mas porque um texto é lido a partir das suas condições de produção e da rede de memória social e cultural que o constitui, com a qual mantém um laço espacial, temporal e pessoal incontornável.

Certeau (1995) denomina esse acordo tácito comum (em geral, inconsciente) de comunidade filosofante. Em As Revoluções do Crível, o autor defende que a autoridade se sustenta na medida em que possui legitimidade, garantida por um conjunto de crenças que lhe dá sustentação, entrando em derrocada, quando as coisas críveis deixam de sê-lo. Sobre o crível, é que se tornaria possível “fundar uma sociedade sobre razões para viver próprias a todos e a cada um”; ele forneceria “os circuitos que possibilitam um reconhecimento recíproco” e permitiria a “um grupo social formular, ele próprio, seus quadros de referência e seus modelos de comportamento” (p. 39). Deve-se perceber, pois, que, para além das materialidades textuais, há um suporte de crenças que garante a possibilidade do dizer e a inteligibilidade do discurso. Pode-se resumir, na tese do autor de que o conjunto de crenças fornece “o ar que torna uma sociedade respirável. Ele permite uma comunicação e uma criatividade sociais, pois fornece referências comuns e vias possíveis” (p. 3), o princípio que é recorrente entre os enunciados: eles mostram que o uso de adjetivos se dá a partir de um solo partilhado entre os interlocutores e que, assim, eles funcionam como índices de avaliação, devendo ser vistos dessa forma, para que o efeito de sentido do discurso possa ser definido. Dito de outro modo, eles precisam ser lidos a partir do domínio de um solo comum de crenças, já que, como afirma Reboul (2000, p. 165),

As presunções têm função capital, pois constituem o que chamamos de ‘verossímil’, ou seja, o que todos admitem até prova em contrário. Por exemplo, não está provado que todos os juízes são honestos e competentes, mas admite-se isso; e, se alguém desmente em tal ou tal caso, cabe-lhe o ônus da prova. O verossímil é a confiança presumida. Em todo caso, a presunção varia segundo os auditórios e as ideologias.

À frente, analisar-se-á o funcionamento dos adjetivos [6] em recortes do romance de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, buscando apontar que o seu uso revela a grade valorativa que posta o locutor numa determinada visada axiológica. Faz-se esta opção, porque parece não ser suficiente, para defender o ponto de vista que se assumiu, apenas apresentar os exemplos analisados, que se constituem de enunciados fortuitos e ocasionais: ordinários. A escolha de terminar a defesa de que os adjetivos são índices de avaliação que se orientam pela crença social comum por meio de passagens do romance se deve ao fato de poder indicar que, nele, a adjetivação, elogiosa ou demeritória, usada para avaliar os ditames religiosos é ditada por crenças que apontam para uma pertença social e discursiva. Ou seja: Ferrão, abade confessor que apresenta uma forma peculiar de compreender a relação do homem com Deus, não elogia uma forma de compreensão e rejeita a outra por algum ditame de ordem individual, mas por pertencer a uma forma social de atribuição de sentido.

No romance citado, Eça de Queirós [7] produz uma crítica aguda com relação à igreja católica, submetendo-a a uma devassa no que tange aos responsáveis por levar a religião ao povo. Caracterizando o clero como devasso, promíscuo, oportunista, guloso, falso, hipócrita, covarde, dentre tantos outros traços, o autor pinta a instituição romana com as mais negras cores, responsabilizando-a por manter as pessoas nas trevas e por fazê-las temer a vida, dada a caracterização feita de Deus como tirano e perverso, atento a tudo disposto, às mais ínfimas falhas, a punir o transgressor. Submetidas ao terror do pecado e da penalidade da perda da alma, as pessoas reprimiriam os seus desejos mais elementares e singelos e submeteriam a si e aos outros a um regime de desumanidade, regrada por jejuns exagerados, orações intermináveis e refreamento incondicional dos desejos. Na caracterização dos clérigos como falsos, mesquinhos, aproveitadores e lascivos, constitui-se uma imagética mimetizadora que leva a vislumbrar, inclusive, a possibilidade de haver abades assassinos de crianças, apaziguando a consciência com a defesa de que elas seriam mais um anjo a ter garantido o paraíso.

Frente ao quadro tétrico que ambienta o romance, Amaro Vieira assume a abadia em Leiria, imbuído dos nobres sentimentos cristãos de pregar o Evangelho e salvar as almas. Com a morte do pároco da Sé, José Miguéis, Amaro é nomeado e o cônego Dias, amante de dona Joaneira, mãe de Amélia, que será protagonista do enredo, arranja tudo para que o novo vigário se hospede na casa da senhora, na qual ele é um hóspede bem vindo: bem tratado à mesa e à sesta. Na casa de dona Joaneira, as beatas da paróquia se reúnem e engendram suas atividades assistenciais. Amaro se hospeda ali e compõe o quarteto de dois casais: o cônego Dias e a mãe de Amélia e ele e Amélia, uma “rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito desejada” (p. 19). Como Amaro era “ainda novo” (p. 20), adivinha-se que essa reunião de pessoas terá um desfecho previsível, já que Amaro, “por cima, sobre o teto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se” (p. 29). Amélia se torna amante do pároco e engravida, morrendo ao final, assim como o filho.

No desenrolar do romance, aparece o abade Ferrão [8], que busca apaziguar o estado espiritual deplorável em que a moça se encontra, por se julgar pecadora e sofrer terríveis medos das punições que Deus estaria reservando para ela por viver a situação que vivia.

Desde a sua chegada a Leiria, o abade Ferrão percebeu que aquele não era um lugar qualquer. Fosse porque observava as atitudes do cônego Dias, as atividades do círculo de beatas, a relação que adivinhava existir entre Amélia e Amaro e como tudo ocorria na comunidade, o religioso se achava incomodado com as atividades da igreja católica. Ao seu redor, constatava a existência de pessoas falsas, traiçoeiras, fofoqueiras, trapaceiras, hipócritas, mas principalmente reprimidas e recalcadas. Do ponto de vista dóxico de que partilhava, não podia concordar com o terror implantado nas pessoas, que estremeciam de medo à possibilidade de cometer um pecado e, ao mesmo tempo, eram tão frágeis e irresolutas, que não havia forma de viver escorregadelas. Contra a pouca força de vontade dos paroquianos, era erguido um Deus tirano, ameaçador e brutal. Amélia e Amaro representam a fragilidade humana e pecaminosa e o horror que tomava a alma do pecador: um quadro criado, para o abade, pela ação da igreja católica, herdeira das ações dos tribunais inquisitoriais, querendo pôr a ferros os pecadores.

Um evento que expõe de forma contundente a repressão a que a comunidade havia sido submetida ocorre quando o abade Ferrão recebe a confissão de dona Josefa. Esta relata que tinha dificuldades para se concentrar nas orações, interpondo-se na sua intenção de levar o terço a cabo a lembrança de um saiote vermelho (símbolo da sexualidade recalcada), tendo que iniciar a oração “trinta e oito vezes de seguida”, sem sucesso de levá-la ao término. Havia, ainda, outro pecado que a torturava: às vezes, tendo o nome de Deus ou de Maria na boca, “sentia vir expectoração” e, por isso, ela “engolia o escarro”, mas achava “que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com as fezes”: belas metáforas para o que se passava no espírito da pobre coitada. Mas o golpe fatal vem, quando ela revela que, “nem soube como, pôs-se a pensar como seria S. Francisco de Assis nu em pêlo!” (p. 294). Recebendo esta confissão, o abade Ferrão

Percebera bem que tinha diante de si uma dessas degenerações mórbidas [9] do sentimento religioso, que a teologia chama de Doença dos escrúpulos - e de que na sua generalidade estão afetadas hoje todas as almas católicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença duma maníaca perigosa; e instintivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira (p. 294).

Este é um esboço geral do que é, em parte, o romance de onde saíram os recortes que serão analisados. É claro que um apanhado geral não se faz sem risco de deixar coisas de lado, mas ele serve para situar o cenário religioso em que se movem as personagens. Ferrão, movido por outra forma de compreender a relação do homem com Deus, horroriza-se com o quadro que se desdobra: pessoas aterradas com a possibilidade de pecar e com tanto recalque e repressão que, desde pensamentos singelos até prazeres terrenos, a igreja havia se incumbido de sublimar. Vislumbrar este cenário é importante para o que se quer demonstrar: que o processo de adjetivação de que o enunciador se vale para fazer do abade Ferrão o seu porta voz se constitui a partir de uma grade valorativa diferente daquela praticada pela igreja católica, contra a qual o romance se levanta de modo derrisório. É importante perceber isso, para que se ouça, em Ferrão, não uma voz, mas duas, com a negação de uma e a afirmação da outra, o que vai de encontro ao que afirma Maingueneau (1989, p. 120):

Um enunciado de uma formação discursiva pode, pois, ser lido em seu ‘direito’ e em seu ‘avesso’: em uma face, significa que pertence a seu próprio discurso, na outra, marca a distância constitutiva que o separa de um ou vários discursos. [...] Dizer que a interdiscursividade é constitutiva é também dizer que um discurso não nasce, como geralmente é pretendido, de algum retorno às próprias coisas, ao bom senso, etc., mas de um trabalho sobre outros discursos.

Ferrão tem uma percepção mais humanizadora da religião e percebe criticamente as atitudes da igreja da sua época. Para ele, Deus não é punitivo e nem está à espreita de quem cometa deslizes para puni-lo, sem lhe dar chance de redenção. A responsabilidade pelas trevas de espírito e pelo terror em que se encontravam as pessoas do seu tempo devia-se, a seu ver, ao clero corrupto que tinha ao seu encargo pregar a religião, mas implantava preconceitos e falsas crenças no espírito das pessoas. Uma passagem emblemática do romance, neste sentido, ocorre, quando, após ouvir a confissão de dona Josefa, Eça de Queirós se imiscui na consciência do abade, simulando relatar, na forma direta e indireta, o que se passava no seu interior. Esta simulação deve levar a crer que, embora pareça ser o abade quem pensa da maneira relatada, é a voz do autor que se pronuncia sobre a atividade eclesiástica da sua época:

O abade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto dos Céus, representando Deus e os seus santos como uma corte que não é menos corrompida, nem melhor, que a de Calígula e dos seus libertos (p. 295).

A passagem mostra a rejeição de Ferrão à forma de pregação da igreja: “centenares de sacerdotes trazem [...] o rebanho naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto dos Céus”, ao mesmo tempo em que permite compreender, por contraposição, qual é a sua perspectiva de funcionamento da religião católica: uma instituição que deveria estar a serviço do esclarecimento, ajudando as pessoas a se compreenderem melhor e às vicissitudes a que estão submetidas. Isto se revela com limpidez no recorte a seguir, que ocorre, quando Ferrão ouve a confissão de dona Josefa. Por meio do discurso direto e indireto, o autor entra na consciência do abade e revela o que se passa, fazendo chegar ao leitor o seu ponto de vista sobre o que se praticava e a possibilidade de uma outra prática religiosa:

Quis então levar àquele noturno cérebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que é por amor que é necessário servi-lo, não por medo... Que todos esses escrúpulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cair no estômago, eram perturbações da razão doente. Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regime para ganhar forças. Que não se cansasse em orações exageradas (p. 295).

Percebe-se com que estado de ânimo os fiéis viviam a religião, por causa da atividade clerical. Com noturno cérebro, povoado de fantasmagorias, imaginação torturada, terror de ofender, perturbações da razão doente e orações exageradas, o quadro esboçado sobre a atividade da igreja e sobre o seu resultado sobre os fiéis pinta com cores negras a atividades de uns (o clero) sobre a vida dos outros (os fiéis). Eis outra doxa de compreensão de como deveria se dar a relação e uns com os outros. Nela, cabe levar aos fiéis uma luz mais alta e mais larga, ver Deus como um pai indulgente e amigo e Aconselh[ar] confiança em Deus. Na visada de Ferrão, não se pode deixar de ouvir um contra-discurso àquele que seria hegemônico do momento. Não se pode deixar de perceber que um tom doce e suave sobre-determina os enunciados do abade. A sua religião é meiga e doce e se contrapõe à do seu tempo, que leva terror, medo, perturbações e cansaço aos fiéis.

Eis que se retoma, enfim, o caminho que reencontra o ponto de vista que se defende: que o uso de adjetivos revela uma prática discursiva que se pauta em valores sociais e axiológicos que faz com que a adjetivação revele índices de valor ancorados em comunidades de crenças que partilham doxas distintas. Afora outros recursos usados para caracterizar outra percepção da igreja e do papel do clero, chama-se a atenção para os enunciados a seguir. Ferrão se incumbe (na verdade, ele é incumbido pelo autor) de levar uma luz mais alta e mais larga aos fiéis, o que, por meio do marcador de pressuposição mais, faz inferir que aquela que era levada era menos alta e menos larga, produzindo resultados estreitos e doentios. Na luz, está metaforizado um conhecimento que deveria ser mais esclarecido do que aquele com que as pessoas eram contempladas. Este saber se referia a uma outra forma de concepção de Deus e da relação dos homens com Ele. É claro que este saber positivo está do lado de Ferrão e que as trevas, a desinformação e a imaginação torturada estão do lado de seus detratores, representados pelo Cônego Dias e por Amaro. Como se vê, a adjetivação estabelecida sobre a luz (o saber religioso levado aos fiéis) toma como fio de atribuição não alguma característica imanente ao objeto de que se fala, mas os juízos valorativos de uma comunidade que partilha pontos de vista que se contrapõem aos de uma outra.

Por outro lado, Ferrão nega que o Senhor seja um amo feroz e furioso e ele só pode fazê-lo, porque há quem diga que o Senhor possui tais traços: a sua negação é, pois, polêmica (Ducrot, 1987). Negando que Deus seja feroz e furioso, o autor prepara o terreno para outra crença, acreditando que a palavra possa construir um novo mundo. Afirmando que o Senhor é um pai indulgente e amigo, o abade se contrapõe ao discurso corrente, buscando constituir outra imagem de Deus: não como um amo feitor de escravos, Senhor feroz e furioso, mas um ser paternal, amigo e compreensivo. Deve-se perceber que estes enunciados revelam duas formas de compreensão, sendo os adjetivos (amplo, largo, feroz, furioso, indulgente e amigo) selecionados a partir de um dicionário sócio-cultural: doxal, que contrapõe duas vozes valorativas distintas.

Para concluir, analisam-se alguns elementos pontuais do excerto a seguir:

Ah, fora decerto Nossa Senhora, compadecida enfim dos seus tormentos, que lhe mandara do Céu aquela inspiração de se ir entregar toda dorida aos cuidados do abade Ferrão! Parecia-lhe que deixara lá, no seu confessionário azul-ferrete, todas as amarguras, os terrores, a negra farrapagem de remorso que lhe abafava a alma. A cada uma das suas consolações tão persuasivas sentira desaparecer o negrume que lhe tapava o Céu; agora via tudo azul; e quando rezava, já Nossa Senhora não desviava o rosto indignado. É que era tão diferente aquela maneira de confessar do abade! Os seus modos não eram os do representante rígido dum Deus carrancudo; havia nele alguma coisa de feminino e de maternal que passava na alma como uma carícia; em lugar de lhe erguer diante dos olhos o sinistro cenário das chamas do Inferno, mostrava-lhe um vasto Céu misericordioso com as portas largamente abertas e os caminhos multiplicados que lá conduzem, tão fáceis e tão doces de trilhar que só a obstinação dos rebeldes se recusa a tentá-los (p. 311-312).

Pela intromissão na consciência de Amélia, que encontrava em Ferrão consolo para o fato de se julgar indigna e pecaminosa dado o seu envolvimento com Amaro, que não a amava, mas se servia dela para dar vazão à luxúria e à lascívia, o autor a torna sua porta-voz e a faz esboçar um quadro doce, meigo e singelo da igreja, uma instituição que poderia não ser ameaçadora, mas servir de alento para quem se achasse necessitado de compreensão e direção. O recorte permite entrever a proposta de uma outra atividade clerical, sobre-determinando-a com um efeito de humanidade, compreensão e doçura. Contra a Negra farrapagem em que Amélia se via, Ferrão fazia-lhe compreender que essa roupagem ou esse remorso que lhe abafava a alma era resultado da atividade clerical e se fazia necessário incutir no seu espírito outra relação com Deus, que não poderia ser buscada na prática discursiva do clero em voga. O adjetivo negra só se justifica como sendo selecionado por um mirante social, não sendo mais do que a revelação da falibilidade humana, quando posto sob outra percepção. Contra a negra roupagem, Ferrão, dada a sua forma de conceber a religião, fazia desaparecer o negrume que lhe tapava o Céu. Contra o Deus carrancudo incutido em Amélia pela pregação dos abades, Ferrão sinalizava com um ser feminino e maternal, possuidor de amor incondicional e disposto à reconciliação. Contra o sinistro cenário das chamas do inferno, o abade falava de um Céu misericordioso; contra as portas fechadas para os pecadores, ameaça constantemente retomada por uma percepção axiológica, ele lhe mostrava portas largamente abertas; contra caminhos estreitos e difíceis de serem trilhados na busca da salvação, eram mostrados a Amélia caminhos tão fáceis e tão doces, mostrando-lhe que o rumo do homem para Deus não era difícil.

Não se pode deixar de ouvir, neste excerto, um intrincado entrelaçamento de vozes, constituído por cinco vozes: o discurso de Amélia, locutora do enunciado, que é atravessado pelo discurso do abade Ferrão; o discurso de seu confessor, que se posta contra o discurso de Amaro e do clero local; o discurso do clero, sobre o qual se articula polemicamente o de Ferrão; o discurso de Eça de Queirós, que se vale dos dois primeiros como embaixadores da sua voz para poder se pôr ao lado de uma outra cosmovisão; o discurso de um enunciador genérico (a voz de um diz-se social) que, nas condições de produção do romance, estaria tomando corpo contra a forma de atuação da igreja católica e do que qual o romancista se faz porta-voz. Pela relação antagônica que estabelece com o clero tradicional, rejeitando o terror e o medo criado a partir de suas pregações sobre o pecado e sobre a punição dos pecadores, Ferrão é uma voz que se constitui discursivamente a partir do discurso do outro, desta forma, devendo ser lido no seu direito e no seu avesso: em cada adjetivo, deve-se perceber porque Ferrão é levado a ver certos fenômenos de forma negativa, relendo-os e colocando-os em outro diapasão.

Nesta toada, na voz de Amélia, os discursos do clero tradicional e do novo confessor se revelam e se re-editam, tendendo a moça a valorizar, assim como Ferrão, negativamente um e positivamente o outro. Por meio, portanto, de uma polifonia tecida a partir da simultaneidade de cinco vozes, Eça de Queirós coloca, na sua voz de na de seus embaixadores, os qualificativos adequados para valorizar uma concepção de mundo e desvalorizar a outra. As vozes que se expressam no romance se constituem na sociedade em que se move o autor e a sua atividade discursiva lhes dá vida, para poder se postar ao lado de uma e rejeitar a outra, criando, no romance, um palco teatral em que dois sistemas doxais conflitantes se confrontam e determinam a escolha dos adjetivos a serem atribuídos a cada tópico chamado a compor a trama textual. Vê-se, portanto, que os adjetivos escolhidos não possuem uma relação intrínseca com os “objetos” a que se referem, devendo-se compreender que essa relação aparentemente natural se faz a partir da submissão à injunção dos valores axiológicos e doxais de uma concepção social.

 

Notas

[1] Antes de tudo, faz-se necessário chamar a atenção do leitor para a ambigüidade que lhe pode escapar na elaboração do título deste estudo. Pretende-se que ele possa remeter para, pelo menos, dois efeitos de sentido. O primeiro se refere ao fato de ter o objetivo de contribuir com as reflexões que indicam que o processo de adjetivação, mais do que estabelecer um procedimento de diferenciação do mundo, está a serviço da enunciação e da visão cultural em que o enunciador se coloca, com todas as conseqüências que isto acarreta para a constituição da materialidade discursiva. O segundo, já anunciado na indicação do primeiro, remete para a defesa de que o uso dos adjetivos por parte do enunciador, mais do que uma simples imposição especular do mundo sobre a articulação da textualização, resulta do quadro axiológico de valores em que ele se situa e o obriga a avaliar e categorizar o mundo de uma determinada maneira. Neste caso, atenta-se para o fato de que a adjetivação se associa a determinados fatores enunciativos, de modo que, por meio dele, projetam-se avaliações do enunciador que são permeadas por um “olhar cultural” sobre o mundo. Perspectiva remete, portanto, ao mirante de onde este texto observa o uso dos adjetivos e àquele de onde o usuário da língua recorta os que atendem ao seu projeto de sentido.

[2] O autor é docente da Unioeste no curso de Letras de Marechal Cândido Rondon e do Mestrado em Letras do campus de Cascavel. Reside em Cascavel, estado do Paraná, no Brasil. CEP 85.810-021. E-mail: cattelan@brturbo.com.br ou cattelan@unioeste.br

[3] Como os textos levam em consideração o público leitor para o qual se dirigem e como o texto de caráter científico circula num espaço mais fechado do que outros tantos, optou-se por não discutir de modo mais sistemático a noção de adjetivo, para, depois confrontá-la com a perspectiva assumida aqui, pressupondo que o possível leitor deste texto não tem necessidade disso para acompanhar as reflexões alinhavadas.

[4] Povo descendente dos incas que habita uma ilha construída sobre o lago Titicaca a partir da acamação de totora, vegetal que brota no fundo do lago, alcança a superfície e serve de alimento para os habitantes.

[5] Embora o objetivo central deste estudo se relacione à pretensão de compreender o uso do adjetivo sob uma perspectiva enunciativa, é óbvio que os demais ingredientes do enunciado devem ser levados em consideração para a determinação do seu efeito de sentido.

[6] Não se julga que seja necessário estabelecer uma distinção mais aprofundada ou sofisticada entre o uso dos adjetivos no discurso cotidiano e no discurso literário, pois se defende que não há uma diferença substancial entre o uso que se faz num caso ou no outro. É óbvio que, como tipos discursivos distintos, cada um deles tem uma circulação distinta e finalidade diferente, mas isto não obriga concluir que os adjetivos sejam usados de forma divergentes em cada caso.

[7] Frise-se que, quando é feita uma referência a Eça de Querós, é como efeito enunciativo materializado no discurso que ele é considerado e não como a pessoa física do ser do mundo.

[8] Faz-se, aqui, a hipótese de que Ferrão é, de forma relativa, o porta-voz enunciativo do autor do romance: Eça de Queirós, o autor, fala por meio dele polifonizando a sua voz.

[9] Os excertos retirados do romance observado e citados doravante terão alguns dos seus adjetivos postos em destaque, sobretudo os que revelam a posição sociocultural e axiológica do abade Ferrão, de quem, faz-se a hipótese aqui, Eça de Queirós (o autor “enunciador”) se vale para fazer veicular pontos de vista sociais distintos dos que o romance denuncia: os da igreja católica tradicional. Os grifos têm a finalidade de continuar chamando a atenção do leitor para o uso determinado culturalmente dos adjetivos.

 

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© João Carlos Cattelan 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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