A Companhia dos Lobos:
concepções de moral e sexualidade em uma versão contemporânea
do conto Chapeuzinho Vermelho

André Bozzetto Junior

Professor de História, graduado em Estudos Sociais - História
Mestrando em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)
Bolsista CAPES
bozzettojunior@yahoo.com.br

Lílian Rodrigues da Cruz

Psicóloga, doutora em Psicologia (PUCRS)
Docente do departamento de Psicologia e do Mestrado em Letras
na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)
liliancruz2@terra.com.br


 

   
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Resumo: O presente artigo objetiva analisar as concepções de moral e sexualidade no conto “A Companhia dos Lobos”, de autoria de Angela Carter, através de uma análise comparativa da fábula infantil “Chapeuzinho Vermelho”, nas versões de Charles Perrault e a dos irmãos Grimm. O texto está embasado teoricamente nos trabalhos de Darnton (1986), Coelho (1991) e Hillesheim & Guareschi (2006). No conto de Angela Carter, ao contrário de transmitir lições de moral e alertas sobre a sexualidade como nas primeiras versões de “Chapeuzinho Vermelho”, ela se propõe a questionar tais valores e condutas, no final da obra, onde a menina ao invés de ser devorada pelo predador acaba relacionando-se sexualmente com ele. A personagem principal refuta a condição de inocente, considerando-se apta a tomar decisões em conformidade com seus desejos. Finalizamos mostrando a identificação da autora com o movimento pós-feminista da Inglaterra, onde esta procura evidenciar aspectos relevantes relacionados à condição de mulher, como o desejo de liberdade e o não conformismo perante a tentativa de imposição masculina.
Palavras-chave: Intertextualidade; Angela Carter.

Resumen: La compañía de los lobos: concepciones de moral y sexualidad en una versión contemporánea del cuento Caperucita Roja: el presente artículo pretende analizar las concepciones de moral y sexualidad en el cuento “En compañía de los lobos”, de Angela Carter, mediante un análisis comparativo de la fábula infantil “Caperucita Roja”, en las versiones de Charles Perrault y la de los hermanos Grimm. El texto se basa teóricamente en los trabajos de Darnton (1986), Coelho (1991) y Hillesheim & Guareschi (2006). En el cuento de Angela Carter, no se transmiten lecciones de moral y alertas sobre la sexualidad como en las primeras versiones de “Caperucita Roja”, sino que, al finalizar la obra, intenta cuestionar esos valores y conductas, en la cual la niña en lugar de ser devorada por el predador acaba relacionándose sexualmente con él. El personaje central refuta la condición de inocente, considerándose apta para tomar decisiones de acuerdo con sus deseos. Finalizamos el artículo mostrando la identificación de la autora con el movimiento post-feminista de Inglaterra, en el cual ésta procura evidenciar aspectos relevantes relacionados a la condición de ser mujer, como deseo de libertad y no como conformismo ante la tentativa de imposición masculina.
Palabras clave: Inter-textualidad; Angela Carter

 

Introdução

Hoje em dia, quando se fala em contos de fadas, logo nos vêm à mente a lembrança de obras universalmente conhecidas como “A Bela Adormecida”, “O Pequeno Polegar”, “Barba Azul”, “Chapeuzinho Vermelho” e outras tantas que nos foram contadas na infância por nossos pais, babás ou professores, com a intenção primordial de mediar nossos primeiros contatos com a literatura e assegurar momentos de ludicidade e entretenimento. Contudo, em suas origens - que nos remetem ao final do século XVII - os contos de fadas, ao serem compilados pela primeira vez em livro pelo francês Charles Perrault, apresentavam uma proposta considerada mais “grandiosa”, uma vez que além de entreter as crianças, também se propunham a transmitir lições de moral, importantes para a formação pessoal. Segundo Tatar (2004), citada por Hillesheim & Guareschi (2006, p, 109) os contos de Perrault pretendem “conter uma moralidade louvável e instrutiva, mostrando que a virtude é sempre recompensada e o vício é sempre punido, estabelecendo uma relação direta entre a obediência e a possibilidade de uma boa vida”, afirmação que consta no prefácio de Contos de Mamãe Gansa, livro publicado pelo autor em 1697.

A partir destas considerações, objetiva-se neste texto analisar as concepções de moral e sexualidade no conto “A Companhia dos Lobos”, de autoria de Angela Carter, através de uma análise comparativa da fábula infantil “Chapeuzinho Vermelho”, nas versões de Charles Perrault e a dos irmãos Grimm. O texto está embasado teoricamente nos trabalhos de Darnton (1986), Coelho (1991) e Hillesheim & Guareschi (2006).

 

A sexualidade em “Chapeuzinho Vermelho”

Oriunda da tradição oral, a versão de Perrault do conto “Chapeuzinho Vermelho” talvez seja a mais difundida e conhecida no mundo, embora originalmente não fora dirigida ao público infantil, possui um flagrante teor erótico, evidenciado em algumas passagens como o momento em que a menina “tira a roupa” e “deita-se” com o lobo, cedendo ao assédio sedutor deste. Por fim, a menina acaba devorada, como por castigo por ter se deixado seduzir.

Assim, o conto de Perrault evidencia o cuidado que as “mocinhas” devem ter para não se deixarem levar pelos galanteios de lobos “gentis e prestimosos”, sob a pena de acabarem “virando jantar”. Coelho (1991, p. 90-91) reforça essa idéia argumentando que neste conto “a intenção de alertar as meninas contra a sedução amorosa está bem clara” e que elas devem, portanto, “ser rigorosamente obedientes aos conselhos dos mais velhos”.

Darnton (1986) afirma que a tradição oral - de onde Perrault retirou o material para sua compilação literária - também se valia dos contos para ilustrar argumentos morais, que circulavam entre qualquer faixa etária. Porém, a carga de violência e erotismo existente nesses contos era muito maior do que aquela evidenciada nas versões de Perrault. No caso da história que inspirou “Chapeuzinho Vermelho”, a menina (que ainda não era descrita como portadora do capuz rubro) era induzida pelo lobo a comer fatias de carne e a beber o sangue da avó antes de se despir em uma espécie de ritual erótico e, por fim, ser devorada por seu algoz. Para o autor, o conteúdo extremamente explícito dos contos difundidos por meio da oralidade era reflexo do próprio meio de vida dos seus principais propagadores, que eram os camponeses pobres, sobretudo os franceses. O excerto transcrito a seguir ilustra de maneira mais eficiente essa afirmação:

Famílias inteiras se apinhavam em uma ou duas camas e se cercavam de animais domésticos, para se manterem aquecidos. Assim, as crianças se tornavam observadoras participantes das atividades sexuais de seus pais. Ninguém pensava nelas como criaturas inocentes, nem na própria infância como uma fase diferente da vida, claramente distinta da adolescência, da juventude e da fase adulta por estilos especiais de vestir e de se comportar (Darnton, 1986, p. 47).

Apesar de menos explícita em termos de violência, Hillesheim & Guareschi (2006) argumentam que a versão de Perrault continua expondo mais abertamente a questão da sexualidade porque foi escrito em um momento em que esse tipo de assunto era abordado de forma meio indiscriminada entre adultos e crianças, uma vez que ambas as faixas etárias conviviam quase que indistintamente. Além disso, na visão das autoras, a punição irrecorrível da menina estaria também relacionada “ao seu pecado”, pois a mentalidade da época ainda estava muito apegada aos preceitos religiosos.

Na Alemanha, mais de um século depois, também tendo o folclore europeu como referência, surge a versão dos irmãos Grimm de “Chapeuzinho Vermelho”, talvez mais conhecida que a de Perrault. De acordo com Hillesheim e Guareschi (2006), na versão dos irmãos germânicos, a história acaba sendo suavizada, com a omissão dos detalhes eróticos e com o acréscimo de um desfecho bem menos obscuro, onde a menina e sua avó acabam salvas por um caçador que dá cabo do lobo malvado. Neste caso, a lição de moral é igualmente mais amena, sendo traduzível como “nunca se desvie do caminho e nunca entre na mata quando sua mãe proibir”. Além disso, as referências sexuais explícitas são omitidas em virtude da visão vigente no período, onde os assuntos de adultos e crianças não deviam mais se misturar, e tais elementos “deixam de ser considerados adequados ao universo infantil”. Da mesma forma, o final redentor - onde a menina e a avó são salvas - está igualmente relacionado com a mentalidade da época, onde a visão iluminista, incutida da noção de desapego ao domínio do pensamento religioso, prega que a Chapeuzinho Vermelho pode “aprender a lição” e ter a sua “recuperação”, desde que consiga “controlar seus desejos sexuais anormais e, assim, viver uma vida sadia e feliz”.

Na contemporaneidade, existem inúmeras versões de “Chapeuzinho Vermelho”, em diferentes idiomas, fazendo uso de diversas mídias e destinadas a diferentes públicos. Mantendo o foco da análise na relação com a moral e a sexualidade, uma versão que parece merecedora de especial atenção, principalmente em virtude de seu caráter contraditório e contestador, é aquela que consta no conto A Companhia dos Lobos, que integra o livro O Quarto do Barba-azul (The Bloody Chamber and Other Stories), publicado originalmente em 1979, de autoria da escritora inglesa Angela Carter, e que em 1984 originou o filme também intitulado A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves), dirigido por Neil Jordan e com roteiro da própria Angela Carter.

A sexualidade em “A Companhia dos Lobos”

O conto da autora inglesa, claramente destinado ao público adulto, se fundamenta principalmente na versão de Perrault, mas agrega uma série de outros elementos ao seu conteúdo. Um dos aspectos mais inovadores é a abordagem do personagem “lobo mau” como sendo um lobisomem, que, sob a influência da lua cheia, tem o dom de metamorfosear-se tanto em um predador quadrúpede, carnívoro e voraz, como em um belo rapaz, misterioso e sedutor. Além disso, a história principal que todos conhecemos - da menina que vai visitar a avó e é assediada pelo lobo - é entremeada por outras histórias paralelas, onde diferentes personagens se vêem as voltas com os maléficos lobisomens. De forma quase explícita, a narrativa de Carter faz permanentes referências à sexualidade, o que pode ser ilustrado pela própria descrição das personagens, como no momento em que ela se refere ao lobisomem dizendo que “antes de se tornar lobo, o licantropo se despe completamente” e que, portanto, “se virmos um homem nu entre os pinheiros, corramos como se o diabo estivesse atrás de nós” (Carter, 2000, p. 204). O mesmo se verifica na descrição da própria Chapeuzinho Vermelho, conforme ilustra o excerto a seguir:

Os seios começam a despontar; o cabelo parece linho, tão louro que mal forma sobra na testa; as faces são de um escarlate e branco emblemáticos, e já lhe começaram as regras, esse relógio dentro dela que dará sinal uma vez por mês. Ela está de pé e move-se dentro do pentáculo invisível da sua própria virgindade. É um ovo intacto; um vaso selado; tem dentro o espaço mágico cuja entrada está fechada por uma válvula de membrana (p. 205).

Porém, ao contrário das três versões abordadas anteriormente - do folclore oral camponês, de Perrault e dos irmãos Grimm - que, em diferentes teores e graus de profundidade, traziam uma lição de moral, o que Carter faz em A Companhia dos Lobos é justamente questionar a moralidade. O questionamento é expresso de forma bastante clara através das atitudes da menina, que mesmo estando ciente das intenções do lobisomem, acaba entrando no “jogo” proposto por ele. Um dos momentos em que isso fica evidente é no momento em que o lobisomem, em sua forma humana, propõe para a menina a aposta de ver quem chega antes até a casa da avó. Caso o adversário vencesse, a menina teria de lhe dar um beijo. Então, ela teve o esmero de se demorar pelo caminho “para ter certeza de que o lindo rapaz ganharia a aposta” (Carter, 2000, p. 207). Ao chegar à casa da avó, a menina logo descobre que a anciã foi devorada pelo lobisomem, mas mesmo assim se despe e deita-se na cama com ele. E aqui surge outra inovação da versão de Carter: ao invés de ser devorada pela monstruosa criatura, a menina “acasala” com ele, e o conto termina com ela dormindo “em paz e docemente na cama da vovozinha, entre as patas do lobo afetuoso” (p. 213).

Na versão cinematográfica de A Companhia dos Lobos, o roteiro elaborado pela escritora evidencia essa visão de forma extrema. O filme nos mostra a menina sendo constantemente advertida pelos seus pais e pela avó para que “não saia do caminho” e tenha cuidado com os lobos, “principalmente aqueles que não são peludos por fora, mas sim por dentro”, e, apesar de todas as recomendações, ela se entrega voluntariamente aos assédios do lobisomem. O final desta versão elaborada para as telas é ainda mais emblemático, onde, após manter relações sexuais como a monstruosa criatura, a própria menina se transforma em lobisomem e foge para a floresta, em companhia de outros quadrúpedes.

Assim, a leitura que podemos fazer de ambas as versões de A Companhia dos Lobos é que, para Carter, no que tange à sexualidade, não há inocência. Apesar de todos os avisos, apesar das infrutíferas tentativas de controle por parte dos familiares, a menina cedeu aos seus impulsos carnais e se deixou levar pela curiosidade e pelas tentações do sexo. E assim o fez tendo plena consciência das intenções daquele que “a seduziu”. A cena do filme em que a menina se transforma em outro lobisomem após fazer sexo com um, parece simbolizar o que é visto pela autora como parte de um processo esperado: após conhecer o sexo, o ser humano estará para sempre “transformado”. Após ser “atacada” por um predador, a “vítima” também se torna um predador, e, por sua vez, passa a estar apta para atacar outras “vítimas”. O ocorrido não foi considerado um ato de maldade. A única a ser literalmente devorada foi a vovozinha, pois ela se opunha à ordem vista como natural. A avó simbolizava a pregação da uma pretensa moralidade, a imposição de limites, a obrigatoriedade de se seguir determinadas regras, e por isso foi morta - para que o lobisomem e a menina tivessem liberdade para fazer o que desejassem.

 

Considerações finais

Realizando uma breve análise do contexto histórico em que as duas versões de A Companhia dos Lobos foram elaboradas, entre o final da década de 1970 e início da de 1980, verificamos que se tratava do auge do movimento conhecido como pós-feminismo na Inglaterra, cujo símbolo maior provavelmente seja a ascensão de Margaret Tatcher ao cargo de Primeira Ministra inglesa, considerado inédito e revolucionário. Angela Carter foi claramente influenciada por este movimento, tanto que ao longo de sua carreira de escritora publicou diversos artigos, crônicas e mesmo romances exaltando a condição feminina. Escreveu até novas versões de caráter feminista para obras de Charles Baudelaire e até do Marques da Sade. No caso específico de O Quarto do Barba Azul, livro onde consta o conto A Companhia dos Lobos, a autora elabora novas versões para vários contos de fadas de circulação mundial, como “O Gato-de-botas”, “Branca-de-neve”, “A Bela e a Fera”, etc, onde as personagens principais são femininas, e o desfecho dos contos sempre se dá no sentido de evidenciar aspectos relevantes relacionados à condição de mulher, como o desejo de liberdade, o não conformismo perante a tentativa de imposição masculina, o confronto direto visando a defesa de suas idéias.

É neste sentido que podemos compreender a postura da Chapeuzinho Vermelho de A Companhia dos Lobos. Ela dispunha das informações que precisava acerca de si mesma e também tinha sido devidamente advertida sobre o perigo dos lobisomens. Mesmo assim, a personagem principal refuta a condição de inocente, considerando-se apta a tomar decisões em conformidade com seus desejos, julgando-se mulher e, principalmente, abnegando as normas e tabus impostos pelos mais velhos.

Tendo em vista estes apontamentos, parece pertinente concluir com uma reflexão acerca da temática da infância, da moral e da sexualidade que permeia as diferentes versões de “Chapeuzinho Vermelho” e as concepções vigentes nos dias atuais em relação a essa temática. O século XXI apresenta uma realidade singular, onde as crianças parecem se adaptar de forma cada vez mais rápida, e até mesmo um tanto autônoma em relação ao mundo que as cerca. Se levarmos em conta que elas têm acesso a uma enxurrada de informações, oriundas das mais diversas fontes (internet, televisão, revistas, etc), que a estrutura capitalista parece investir cada vez mais na visão da criança enquanto consumidora, e que a mídia, de uma maneira geral, veicula conteúdos de teor sexual com ênfase sem paralelo, não me parece absurda a idéia de que o conto sobre a meiga menina de capuz vermelho e o lobo malicioso esteja esperando para ser escrito novamente.

 

Referências:

Carter, Angela (2000). O Quarto do Barba Azul. Rio de Janeiro: Rocco.

Coelho, Nelly Novaes (1991). Panorama histórico da literatura infantil juvenil. São Paulo: Ática.

Darnton, Robert (1986). O Grande Massacre de Gatos. Rio de Janeiro: Graal.

Hilleshein, Betina & Guareschi, Neuza M. F. (2006). Contos de fada e infância. Educação & Realidade, v. 31, nº 1, p. 107-126.

 

Referência fílmica:

A Companhia dos Lobos. Direção de Neil Jordan. Inglaterra: 1984.

 

© André Bozzetto Junior y Lílian Rodrigues da Cruz 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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