A contradição trágica no teatro de Dias Gomes

Lourdes Kaminski Alves

Universidade Estadual do Oeste do Paraná
UNIOESTE - Cascavel, Paraná, Brasil


 

   
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Resumo: Este artigo pretende apresentar uma leitura comparativa entre três peças do dramaturgo brasileiro Dias Gomes e Antígona (442 a. C.) de Sófocles observando como se constitui o trágico no teatro contemporâneo. Sabemos que ao contrário da tragédia clássica, a contradição trágica no drama contemporâneo situa-se no mundo das diversidades terrenas e seus pólos opostos quase sempre estão representados pelo homem oprimido e as forças do poder como a igreja, o Estado, a tradição, ou outras forças opressoras. As peças O pagador de promessas (1960), O santo inquérito (1966) e As primícias (1977) de Dias Gomes apresentam aspectos intertextuais com Antígona de Sófocles, que ora se aproximam, ora distanciam-se do trágico antigo.
Palavras-chave: Tragédia, drama contemporâneo, intertextos.

Abstract: This article intends to present a comparative reading of three plays by the Brazilian dramatist Dias Gomes and Antígona (442 BC), by Sófocles, analyzing how the tragic is being constituted in contemporary theater. We know that, differently from the classical tragedy, the tragic contradiction in contemporary drama is situated in the field of the world diversities, and its opposed poles are almost always represented by the oppressed man and the power forces such as the Church, the State, the tradition, or other oppressing forces. The plays O pagador de promessas (1960), O santo inquérito (1966) and As primícias (1977), by Dias Gomes, present intertextual aspects with Antígona, by Sófocles, which sometimes get closer, sometimes move away from the ancient tragic.
Key-words: Tragedy, contemporary drama, intertexts.

 

INTRODUÇÃO

A tragédia grega do séc. V é um fenômeno histórico e singular e como reflexo do ser humano sobre a problemática de sua existência, uma criação de validade que persiste por sobre o tempo. O fim da pólis grega representa o esgotamento da força vital em que se originou a tragédia e por conseqüência, o fim da tragédia clássica, no entanto, é notável a influência do teatro antigo sobre o espírito ocidental, originando o drama trágico, que por sua vez, encontra pontos de convergência com a tragédia grega, tanto nos caracteres de personagens, quanto no tema e na releitura de alguns elementos de ordem estrutural como se é possível observar em algumas peças de Dias Gomes.

 

DRAMA CONTEMPORÂNEO E A TRAGÉDIA ANTIGA: INTERTEXTOS

Lançando-se um olhar sobre Antígona de Sófocles (442 a. C) e as peças - O pagador de promessas (1960), O Santo Inquérito (1966) e As primícias (1977) de Dias Gomes percebem-se significativas semelhanças: herói trágico, preferência por descrição de caracteres em detrimento das cenas, função interventiva do coro, uso da ironia trágica e das antinomias entre forças opostas, individuação do herói, defesa de valores éticos e morais.

As peças dialogam em muitos aspectos, por exemplo, tal como Antígona, as personagens Zé-do-Burro, Branca Dias e Mara são personagens éticos defendem valores essenciais, estão inseridos no sentido de uma ordem dentro da qual se inscreve o herói trágico.

Se a tragédia em seu estado puro não é mais possível, a experiência trágica inerente ao humano, ainda se pode verificar. Na opinião de Gerd A. Bornheim, o simples fato de que se continua colocando o problema do trágico atesta que o tema da “diferença essencial entre o trágico antigo e o trágico moderno não perdeu sua atualidade” (BORNHEIM, 1992, p. 91). A diferença existe, e é ela que permite a compreensão do quanto se está longe da tragédia em seu sentido próprio. Mas a diferença não é tão absoluta que impossibilite a compreensão e mesmo a experiência do trágico no drama contemporâneo.

A possibilidade de uma experiência fragmentada do trágico no drama contemporâneo pode ser compreendida da seguinte forma: na tragédia grega, a vivência da separação ontológica resulta no reconhecimento de uma medida reconciliadora que transcende a separação, ao passo que no mundo contemporâneo, a problemática se esgota na meditação ou na experiência da própria separação ontológica, debatendo-se para encontrar uma medida que possa colimá-la, mesmo através do desespero; tal medida, portanto, já não se configura em termos de uma harmonia preestabelecida.

Parece claro que a experiência trágica fundamental no mundo contemporâneo é que a tragédia se transfere da esfera humana, ou da hybris do herói, para o sentido último da realidade, confundindo-se, assim, com uma objetividade ontológica esvaziada de sentido - qualquer coisa como uma ontologia do nada. A desmedida se instala no que Hegel (1999) chama de substância objetiva. É como se a ordem, o cosmos fosse deslocado a favor do caos. E esse transporte do trágico para o cósmico ou objetivo paralisa o trágico em uma dimensão própria e especificamente humana. O conflito trágico não deixa de existir, porém se torna quase imperceptível para o homem contemporâneo.

Na Poética, em que Aristóteles (1984) desenvolve a teoria da mudança do destino como núcleo do mythos trágico, e, em conexão com ela, defende sua concepção dos caracteres “médios” como sendo os mais apropriados à tragédia, Aristóteles assevera que semelhante queda no infortúnio, caso se tenha que considerá-la trágica, não deve decorrer de um defeito moral, mas da falha trágica/cegueira, incapacidade humana de reconhecer aquilo que é correto e obter uma orientação segura.

Semelhante concepção que, na vulnerabilidade do homem, na derrota de suas armas espirituais ante o poderio das forças contrárias, permite vislumbrar as origens da ação trágica, também aparece no drama trágico contemporâneo.

Os heróis voltam-se para Deus em busca de segurança, mas, assim mesmo, sua vida nesta terra, devido à constituição humana, está de antemão exposta ao engano; às aparências lhes escondem a realidade, conduzem ao desvario que atrai para a ruína, tal como as personagens Zé-do-Burro e Branca Dias. Idéias desse tipo, que partem da fragilidade e do risco da existência humana, encontram forte ressonância no mundo contemporâneo.

Nesse sentido, a época contemporânea apresenta uma relação completamente nova e extremamente fecunda com a tragédia da antiguidade grega. Mesmo assim, o fenômeno do trágico no mundo contemporâneo requer esforço, o mesmo pode encontrar compreensão a partir de análise das relações entre o homem e o mundo em que ele se insere.

A contradição trágica pode situar-se no mundo dos deuses e seus pólos opostos podem chamar-se Deus e homem, ou pode tratar-se de adversários que se levantem um contra o outro no próprio ser do homem. O primeiro requisito para o aparecimento do efeito trágico é a dignidade da queda, observada no fim trágico de Zé-do-Burro, Branca Dias e na ação firme e determinada da personagem Mara em As primícias.

A peça O pagador de promessas, pela questão do sincretismo religioso, apresenta as oposições entre a fé primitiva e arcaica de Zé-do-Burro e a posição ortodoxa cristã de Padre Olavo. Essa bipolaridade é estendida nas figuras de Santa Bárbara e Iansan que, por sua vez, vai se desdobrando em outras oposições como o espaço fechado da igreja com suas autoridades e o espaço aberto da praça dos populares, até revelarem o universo sagrado em oposição ao universo profano. A personagem Zé-do-Burro perturba o equilíbrio da ordem natural, que deverá ser restabelecido mais tarde pela némesis de acordo com o conceito grego de vingança.

O leque dos pares opostos vai se abrindo no desenrolar da trama, revelando as tensões entre o mundo rural e seus valores em contraste com o mundo urbano respectivamente, o que acentua o perfil do herói Zé-do-Burro como herói de traços míticos. A vontade obstinada do herói o conduz ao desfecho trágico. Na unidade de tempo de um dia, as personagens do povo trazem a voz do antigo coro grego emitindo julgamentos, esclarecendo as ações e marcando as peripécias do enredo.

A máscara física da tragédia antiga é substituída pela máscara social representada pela figura de Zé-do-Burro que sugere ironicamente o atraso e a incomunicabilidade entre o mundo primitivo e arcaico e o mundo “civilizado” e urbano; as relações opositivas entre mundos culturais impossibilitados de dialogarem entre si.

A atmosfera trágica se realiza na contemplação do herói sendo carregado de braços estendidos sobre a cruz para dentro da igreja. A vingança do povo faz cumprir a promessa e pode ser lida como a representação da némesis grega. Zé-do-Burro tem o perfil do herói trágico na medida em que defende seus valores com o empenho da própria vida, cada decisão da personagem brota do íntimo da própria consciência moral, sua integridade define sua totalidade.

A peça O santo inquérito apresenta o choque entre a espontaneidade e o desejo de liberdade de Branca Dias em oposição ao pensamento ortodoxo religioso de Padre Bernardo. A perseguição à heroína a caracteriza como uma variação do arquétipo de heróis de transformação e redenção. Na peça, as antinomias se expressam pelas leis do tribunal do Santo Ofício representadas na figura de Padre Bernardo, e na imagem dos corredores escuros do colégio jesuíta, em contraste com a fé e a crença no homem livre, representada por Branca Dias e seu mundo de luz.

Também se opõem entre si, a argúcia do discurso retórico do tribunal do Santo Ofício e o argumento espontâneo de Branca Dias em favor de sua liberdade, o que a incrimina até a morte. A ação de não abjurar para não perder a dignidade acentua-lhe a grandeza moral em oposição ao medo e à falta de integridade ética e moral do pai.

Assim como em Antígona em que há um julgamento humano e um julgamento divino, anunciados respectivamente por Creonte e Tirésias, em O santo inquérito desenrola-se um julgamento no palco, em que o enredo se dirige como para os atos de um processo, até chegar ao tribunal competente, não podendo mais ir adiante, instaurando-se a tensão máxima do trágico.

A atmosfera trágica fica, então, resguardada pela consciência da heroína de que não foi a primeira e não será a última a sofrer as injustiças do poder e neste reconhecimento é encaminhada para a fogueira. A némesis (restabelecimento do equilíbrio) está no sentimento catártico de Padre Bernardo que se sente perdoado ao assistir a heroína arder na fogueira da Santa Inquisição.

O perfil de Branca Dias intertextualiza-se com o perfil de Antígona no que se refere à maldição familiar, Branca Dias é neta de judeus e Antígona pertence à família dos labdácidas. Ambas devem pagar pela maldição do guénos, cujos descendentes foram amaldiçoados.

A bipolaridade própria do trágico aparece na peça As primícias impressa na figura do Proprietário que defende a tradição do jus primae noctis ou direito de pernada, violentando a liberdade e a dignidade dos noivos Lua e Mara que não pretendem obedecer à tradição. O conflito trágico se instala a partir da decisão dos noivos que rompem com a ordem estabelecida.

A ação desenvolvida em três cenários fechados dialoga de forma opositiva refletindo a interioridade e a subjetividade da protagonista (casa da noiva); o poder da tradição e a classe social (casa do Proprietário); a presença da igreja católica que ratifica a tradição do poder da nobreza (interior da igreja). Estes cenários constituem universos macros que denotam separação de classes sociais e valores distintos; podem, também, ser observados em seus interiores, cujo desmembramento em espaços menores revelam vozes dissonantes, a exemplo da Senhora, que troca os lençóis para o ritual e que celebra com Mara ao ver terminada a tradição; Donana, mãe da noiva que não compreende a rebeldia dos noivos por que sempre foi assim e assim deveria continuar sendo; os noivos aviltados que perseguem Lua e Mara para que, igual a eles cumpram o ritual. São espaços fragmentados e que na peça alcançam um grau de ambivalência textual, trazendo à tona as fragilidades humanas daquele universo.

O coro, de importância fundamental na peça é praticamente responsável pela descrição da ação dramática, faz intervenções emitindo opinião, juízos de valor, instituindo a dúvida e a ambigüidade sobre o destino da heroína.

A figura do Proprietário, no texto sempre grafado com inicial maiúscula, representa a máscara do poder e da arbitrariedade, dono do destino dos homens que habitam suas terras, ultrapassa o métron, pela hybris ocasionando pela cegueira da razão a falha trágica.

A heroína decide agir e seu ato original indica a força de sua hybris, na defesa dos princípios nos quais acredita. Mara destaca-se das demais personagens pela integridade ética e moral, o que lhe acentua o caráter trágico.

A antinomia se resolve pela ação heróica da protagonista que rompe definitivamente com as forças opressoras do indivíduo, finalizando-se o enredo por uma situação trágica reconciliatória. Em As primícias a némesis é marcada pela liberdade que Mara conquista. A vingança humana cumpre-se determinando o fim de um tempo da arbitrariedade e violência à liberdade humana.

Quanto ao desfecho trágico das peças, observa-se tanto em Antígona de Sófocles, como em O pagador de promessas e O santo inquérito aquilo que Lesky (1982) denomina visão cerradamente trágica do mundo, concepção do mundo como sede de aniquilamento absoluto de forças e valores que necessariamente se contrapõem, inacessíveis a qualquer solução e inexplicável por nenhum sentido transcendente, gerando o conflito trágico cerrado; uma visão pessimista sobre o destino dos homens.

Todavia, em As primícias se vislumbra a situação trágica que admite uma reconciliação final. Na opção criativa pela situação trágica, porém reconciliatória, o dramaturgo deixa entrever uma visão otimista sobre o homem e o mundo.

Quanto ao perfil das personagens, em lugar da alta categoria social dos heróis trágicos da tragédia antiga, coloca-se agora outro requisito, que se poderia configurar como considerável altura da queda; o que se sente como trágico deve significar a queda de um mundo ilusório de segurança e felicidade para o abismo da desgraça ineludível.

Conforme Lesky (1982), a autêntica tragédia está sempre ligada a um decurso de acontecimentos de intenso dinamismo. Aristóteles (1984) caracterizou a tragédia não como imitação de pessoas, mas de ações e da vida. O grau do trágico é o que se designa por possibilidade de relação com o próprio mundo. O caso deve interessar os homens, afetá-los, comovê-los. Somente quando o homem é atingido nas profundas camadas de seu ser, é que experimenta o trágico. Nas peças de Dias Gomes aqui analisadas há a presença de um conteúdo trágico, realizado pelo conflito, pelas antinomias presentes, pela experiência consciente da angústia existencial, pela liberação da dor e do sofrimento, pela totalidade ética e moral dos heróis que os conduz ao desfecho patético.

Um dos requisitos para o gênero trágico é que o sujeito do ato trágico deva sofrer tudo conscientemente. Por isso, as grandes figuras da tragédia ática exprimem em palavras os motivos de suas ações, as dificuldades de suas decisões e os poderes que as cercam. O coro de Antígona diz que o homem, em seu trágico destino, não pode fazer outra coisa senão gritar, não se lamentar nem se queixar, mas gritar a plenos pulmões aquilo que nunca foi dito antes, somente para dizê-lo a si mesmo, para ensinar-se a si mesmo. Na tragédia grega, a reflexão racional e a selvagem e apaixonada manifestação dos afetos aparecem separados por limites formais bem precisos.

Ao contrário, no drama contemporâneo, a personagem é apenas um átomo, um fragmento dentro da tragicidade cósmica; ela se perde em sua insignificância e todo seu esforço para saber qual é a sua culpa resulta em absurdo. O desvelamento da culpa não encontra viabilidade para vir a se manifestar. É como se a injustiça estivesse instalada no próprio Deus, desfazendo-se em conseqüência, qualquer critério ou media que possa aquilatar a injustiça.

Trata-se então de pôr à mostra a injustiça, por exemplo, de certa estrutura social, como o capitalismo, o racismo, ou ainda o fanatismo religioso ou inquisitorial.

Nesses casos, os limites da substância objetiva são mais reduzidos, muitas vezes confinados a certa região do espaço e do tempo; trata-se então de problemas mais particulares, mas que são apresentados de um modo negativo ou predominantemente como tal.

A intertextualidade entre as peças trágicas de Dias Gomes e Antígona de Sófocles se dá pelo perfil das personagens protagonistas no nível da estilização. Tanto a heroína da tragédia antiga como Zé-do-Burro e Branca Dias ao tentar realizar o que acreditam ser verdadeiro causam sua própria ruína. O indivíduo não é dono do seu livre-arbítrio. O argumento quase sofístico de padre Bernardo e Padre Olavo para defender os princípios da igreja, argumento que é uma negação do livre arbítrio, mostra a vontade de um Deus enfurecido, como força determinante dos acontecimentos, muito semelhante ao que ocorre com a força dos deuses sobre os heróis da tragédia clássica.

Quanto à forma, o teatro contemporâneo não segue a estrutura fechada do teatro grego. A narrativa é efetuada através de quadros cênicos, que procuram ilustrar algo, e são independentes, completos e acabados em si mesmos. Essa técnica é utilizada nas peças de Dias Gomes.

No entanto, todas as peças têm um prólogo, situando a ação e a finalidade da fábula e igualmente são estruturadas de acordo com o mythos complexo aristotélico, na medida em que a mudança de um estado de equilíbrio resulta de uma peripécia. A personagem Zé-do-Burro deseja cumprir sua promessa, realiza a caminhada com a cruz e ao chegar à igreja é impedido pelas próprias autoridades religiosas de concretizar a promessa. A personagem Branca Dias ao salvar o padre Olavo assina sua própria sentença de morte. As personagens Lua e Mara de As primícias casam-se e são impedidos de unirem-se na noite de núpcias. Mara finge ceder e mata o Proprietário. São algumas das peripécias e reconhecimentos que nas peças de Dias Gomes caracterizam o mythos complexo, meios ligados à própria tessitura da fábula, de maneira que resultam dos fatos anteriores.

Nas peças há uma moldura, isto é, uma construção dupla, uma espécie de narrativa dentro de narrativa. Em O pagador de promessas a praça é a moldura, em que se encaixam os diversos quadros, ligados pela figura dos populares. Em O santo Inquérito, a lenda de Branca Dias usa o tribunal da inquisição para resolver a pendência entre a fé da protagonista e a fé de padre Bernardo. O tribunal do santo ofício é usado como metáfora da ditadura militar. A peça As primícias é encaixada no musical que narra a saga de Lua e Mara em busca da liberdade violada pelo poder da tradição do jus primae noctis.

Diferentemente das personagens nobres da tragédia antiga, Zé-do-Burro e Branca Dias são ingênuos, tipos populares, que encarnam de forma trágica o impossível para o mundo. Rosa, mulher de Zé-do-Burro, é um elemento desagregador, em torno do qual gravitam elementos transgressivos, provocando confusões com seu comportamento quase libertino. Diferentemente, Augusto, noivo de Branca Dias, personagem de forte expressão, luta pela liberdade até a morte ao lado da heroína. Também a personagem Lua, noivo de Mara, exerce grau de protagonismo importante, constituindo-se par à altura da heroína na peça.

O autor, dialeticamente, expõe bons e maus, fracos e poderosos, definindo a lei como protetora dos ricos contra os pobres, pois a justiça reflete os valores da classe dominante. E o seu mau juiz (porque não obedece ao código vigente) acerta ao julgar de acordo com as verdades de sua vivência, do seu conhecimento dogmático da realidade. Daí advém a sua paz de espírito. Isto acontece com Padre Olavo de O pagador de promessas, o padre Bernardo de O santo inquérito e o Vigário de As primícias.

Dias Gomes confessa suas raízes populares na escolha dos temas e nos caracteres das personagens que visam não só divertir, porém alertar, fazer pensar, na medida em que se situam num espaço de contradição e na violação dos direitos humanos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesse sentido, a variável trágica nas peças de Dias Gomes resulta do embate entre o homem ético e a sociedade contemporânea, naquilo que ela privilegia como seus valores essenciais; a valorização dos bens materiais e do poder político. É a realidade histórica da censura, das autoridades políticas e eclesiásticas, das forças da tradição que determinam o conflito trágico cerrado em O pagador de promessas e O santo inquérito.

Na medida em que os dois pólos, homem e sociedade mudam de natureza, ocorre a situação trágica tal como se inscreve na ação de Mara e no aniquilamento do Proprietário em As primícias. A situação trágica admite uma reconciliação final e se vislumbra uma visão mais positiva sobre o homem em relação às forças dominadoras.

Historicamente, apenas a título de contextualização, o ano de estréia de O pagador de promessas em 1977, antecede ao ano de extinção do Ato Inconstitucional número cinco (AI5) por decisão da própria ditadura. No período subseqüente, a sociedade respirava o clima da Lei da Anistia, aprovada em agosto de 1979, ironicamente estendendo o manto do esquecimento sobre torturados e torturadores, absolvendo a todos na perspectiva da reconciliação nacional.

Sabendo-se da formação ideológico-partidária do dramaturgo brasileiro seria, talvez, legítimo deduzir que as lutas vividas pelos protagonistas de suas peças trágicas representariam realizações estéticas das categorias fundamentais da visão materialista do mundo e, portanto, olhando para o interior dessas obras, encontrar-se-ia transfigurada, em forma de texto dramático, a luta de classes, a religião e a ideologia aristocrática como formas de alienação popular, o poder de Estado como falsa legitimidade, as referências disfarçadas à infra-estrutura econômica e à superestrutura jurídica, a consciência social das personagens como consciência invertida, a luta do progresso contra as forças conservadoras dos humanistas contra os reacionários entre outras idéias desse mesmo conjunto semântico.

Não se nega que estes aspectos não estejam contidos nas peças, mas acredita-se que as mesmas não são narrativas fundadas numa vulgata materialista em que opressores e oprimidos conflituam numa lógica de morte; não existe revolta ou rebelião ou preparação de revolução nessas peças, existe apenas resignação das mulheres e dos homens que vêem seus filhos continuarem a história; que assistem impotentes ao desmando do Estado e da Igreja, mas também, alegria e festas do povo face aos casamentos e rituais fabricados pelos poderosos, sadismo e recalcamento entre homens e mulheres através das mortificações das noivas no ritual.

Tal como em Antígona, é a revolta pessoal calada que estala e não a denúncia coletiva de atos revoltantes, embora se saiba presente a luta de classes como motor da história indubitavelmente presente nos conflitos sociais observáveis nas peças do dramaturgo brasileiro, assim como também estão presentes os conflitos sociais e políticos da pólis grega na tragédia clássica.

No entanto, englobando o conflito social e econômico evidente na textura das peças, existe, para, além disso, algo mais que as liberta das correias redutoras de um marxismo visto apressadamente. Este algo mais demarcador da singularidade e da excelência das peças aqui arroladas assenta-se em diversos fatores que, cruzados e vinculados ao texto dramático, faz delas obras significativas do teatro brasileiro.

 

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Abril, 1984, p. 263.

BORNHEIM, G. A. O sentido e a máscara. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 91.

GOMES, Dias. O santo inquérito. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

______. As primícias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

______. O pagador de promessas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. HEGEL, G. W.

Friedrich. Estética. Trad. Orlando Vitorino. São Paulo: Nova Fronteira, 1999, p. 84.

LESKY, A. A tragédia grega. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1982, p. 38.

SÓFOCLES. Édipo Rei; Édipo em Colono; Antígona. Trad. Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

 

Lourdes Kaminski Alves - Docente do Colegiado do Curso de Letras Português/Inglês/Italiano/Espanhol e do Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras: Linguagem e Sociedade, nível de Mestrado da UNIOESTE, campus de Cascavel - PR. Brasil. Mestrado em Letras na Universidade Estadual de Londrina - UEL - PR sob orientação do Profª. Drª. Alamir Aquino Correa. Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, São Paulo - Brasil - sob orientação da Profa. Dra. Maria Lúcia Pinheiro Sampaio. Pós-Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras - Área de Concentração em Estudos de Literatura da PUC-RJ - Brasil, sob a orientação do Prof. Dr. Gilberto Mendonça Teles.

 

© Lourdes Kaminski Alves 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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