Os sentidos produzidos sobre a mulher: discurso e silêncio

Marina Coelho Pereira*
Soraya Maria Romano Pacífico**
Lucília Maria Sousa Romão***


 

   
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Resumen: Pretendemos analisar como os sentidos sobre a mulher e o feminino foram tecidos sócio-historicamente e, a partir disso, observar aquilo que permanece e aquilo que deslizou, provocando fissuras, ou, quiçá, rupturas com alguns fios discursivos que emolduraram a mulher durante tanto tempo. Temos, então, como objetivo explicitar quais sentidos foram legitimados, em determinado momento histórico, permitindo que um dizer circulasse até ser interpretado como natural, como evidente.
Palabras clave: genero y discurso, silencio socio-cultural

 

Introdução:

Sabemos que a figura feminina é responsável por grande parte da educação que se processa na maioria das redes Municipal e Estadual de ensino no Brasil; por isso, a profissão docente está, freqüentemente, associada ao feminino e ao maternal, adjetivos até hoje atribuídos às mulheres. Mas, afinal, o que significa ser mulher? O que é permitido para o sujeito-mulher? Desde já adiantamos que não nos referimos à questão de gênero, mas sim, pretendemos analisar como os sentidos sobre a mulher e o feminino foram tecidos sócio-historicamente e, a partir disso, observar aquilo que permanece e aquilo que deslizou, provocando fissuras, ou, quiçá, rupturas com alguns fios discursivos que emolduraram a mulher durante tanto tempo. Temos, então, como objetivo explicitar quais sentidos foram legitimados, em determinado momento histórico, permitindo que um dizer circulasse até ser interpretado como natural, como evidente.

Poderíamos realizar nossa pesquisa a partir de muitos lugares, mas optamos por trabalhar na interface língua/literatura e buscar, nas personagens que circulam em alguns textos literários, formulações e circulação de sentidos sobre o feminino. Nosso corpus é formado por obras do início do século XIX até o século XX que, a nosso ver, constituem-se como marcos na literatura, que se estendem até hoje. Para nós, estas obras possibilitaram a compreensão da construção de um sujeito que representa a mulher; dizemos representa posto que nosso objeto de análise são as falas e os discursos construídos pelo autor da obra a partir de uma posição discursiva de sujeito-mulher, numa relação de interlocução. Dessa forma, é por meio da criação artística que pretendemos investigar os sentidos sobre o feminino, em determinado contexto sócio-histórico. As obras selecionadas são:

- O Primo Basílio (Eça de Queirós, 1878)

- Dom Casmurro (Machado de Assis, 1899 - publicado em 1900)

- Negrinha (Monteiro Lobato, 1920)

- A Hora da Estrela (Clarice Lispector, 1977)

A escolha destas obras, especificamente, deu-se devido ao período no qual se inserem, que vai desde o final do século XIX - quando as mulheres tinham ocupações prioritariamente relacionadas ao lar e à família, e não circulavam livremente em espaços públicos -, até o início do XX, - quando a mulher inicia-se no trabalho fora de casa e começa a ocupar mais comumente os espaços públicos. Um outro motivo que nos levou a optar por essas obras diz respeito às personagens que nelas ganham “vida”, já que se tratam de algumas das mais conhecidas personagens femininas na literatura, com características diversas que, talvez por isso, aproximam-nas.

As análises serão realizadas em conformidade com a Análise do Discurso (AD) de matriz francesa que, instituída por Michel Pêcheux em 1969, transformou os rumos dos estudos lingüísticos, incorporando três campos principais: a lingüística, o materialismo histórico e a psicanálise. Ainda dentro da AD, alguns conceitos foram mais importantes para este trabalho, são eles: sujeito, ideologia e formação discursiva.

 

Sujeito, discurso e ideologia: os pilares teóricos da teoria discursiva

O discurso é apreendido no social. Objeto de estudo da AD, o discurso, necessita do social para sua existência e, assim, constrói-se na exterioridade à língua e insere-se na história produzindo sentidos e construindo-a. O sujeito, nesse processo, faz uso da língua a partir do lugar social que ocupa. A palavra discurso, etimologicamente, deriva das palavras ‘curso’, ‘percurso’, termos que sugerem movimento. Diante dessa perspectiva e também de acordo com a AD, o discurso é, então, visto como uma prática de linguagem que se transforma constantemente; uma ação social em constante transformação que, para ser analisado, segundo Fernandes (2007, p. 21), “implica interpretar os sujeitos falando, tendo a produção de sentidos como parte integrante de suas atividades sociais. A ideologia materializa-se no discurso que, por sua vez, é materializado pela linguagem em forma de texto”.

O discurso, ainda de acordo com o autor, é exterior à língua, localiza-se no social entre a língua e a fala e é o lugar em que se pode observar a relação entre língua e ideologia. A língua produz sentidos por e para os sujeitos, de acordo com Orlandi (2005), e a ideologia atua nesse processo de constituição, inevitavelmente; assim, sujeitos e sentidos são constantemente afetados pela língua e pela história. O sujeito é incessantemente levado a interpretar tudo o que está ao seu redor e, pelo efeito da ideologia, temos a impressão de que os sentidos sempre existiram, sempre estiveram lá. É este o processo de “evidência de sentido” que permite que possamos compreender o dizer do outro partindo de um já-lá, o que Pêcheux estudou em vários trabalhos (1975, 1997, 1999). Por exemplo, quando nosso interlocutor diz “trabalhador”, sabemos do que se trata graças ao efeito de evidência produzido pela ideologia.

A evidência do sentido - a que faz com que uma palavra designe uma coisa - apaga o seu caráter material, isto é, faz ver como transparente aquilo que se constitui pela remissão a um conjunto de formações discursivas que funcionam com uma dominante. As palavras recebem seus sentidos de formações discursivas em suas relações. Este é o efeito da determinação do interdiscurso (da memória) (ORLANDI, op.cit., p.46).

Desse modo, a historicidade é apagada e os sentidos são neutralizados sem que percebamos. Ainda de acordo com Orlandi (op.cit., p.46), “por esse mecanismo - ideológico - de apagamento da interpretação, há transposição de formas materiais em outras, construindo-se transparências - como se a linguagem e a história não tivessem sua espessura, sua opacidade - para serem interpretadas por determinações históricas que se apresentam como imutáveis, naturalizadas”. E isso nos interessa muito neste trabalho para podermos entender como os sentidos sobre a mulher puderam ser produzidos e divulgados, mantendo-se circulantes ainda atualmente, pois é a ideologia que permite que isso ocorra, “naturalmente”. A ideologia, para a AD, apresenta-se como sendo a interpretação dos sentidos que se dá guiada pela relação existente entre a linguagem e a história (Pêcheux, 1975). Assim, só será possível compreender que sujeito é esse autorizado a produzir sentidos se antes compreendermos a ideologia que o captura, já que o indivíduo só se constitui como sujeito pela ideologia. Orlandi (op. cit., p.46) coloca que “a evidência do sujeito - a de que somos sempre já sujeitos - apaga o fato de que o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. Esse é o paradoxo pelo qual o sujeito é chamado à existência: sua interpelação pela ideologia”.

Tal ponto nos faz recorrer ao conceito de formação discursiva presente nas obras de Pêcheux (op.cit.); imaginemos, então, que diferentes discursos se formam, dependendo do lugar sócio-histórico-ideológico em que se encontra o sujeito que produziu determinado enunciado. A formação discursiva, então, materializa as formações ideológicas que a integram, e apresenta, em seu interior, diferentes discursos - contextualizados em seu tempo e espaço - que serão chamados interdiscursos. A formação discursiva pode ser entendida como o conjunto de sentidos sócio-historicamente produzidos sobre determinado enunciado, e na qual o sujeito inscreve-se para que seu discurso faça sentido em determinado contexto. Nas palavras de Fernandes (2007, p.48), “é o entrelaçamento de diferentes discursos, oriundos de diferentes momentos da história e de diferentes lugares sociais”. Isso permite, então, que o sujeito esteja inscrito em diversas formações discursivas e que se utilize deste mecanismo para significar a partir de diversos lugares sociais. Sendo assim, percebemos que o sentido não existe por si mesmo, mas é determinado pelo lugar histórico-ideológico ocupado pelos interlocutores e pode sofrer mudanças se esse lugar for outro. No tocante ao nosso trabalho, podemos dizer que a formação discursiva é o que determina os sentidos permitidos sobre a mulher, ou seja, se a mulher foi destinada às funções do lar e reservada aos espaços domésticos, isso só ocorreu graças às formações discursivas dominantes, em que estavam inscritos os sujeitos autorizados a produzir esses sentidos sobre o feminino.

Essa considerações nos levam a apontar que o sujeito, ao produzir determinados sentidos, silencia outros já que, constituído pela ideologia, acredita que controla os sentidos que faz circular e que ele não poderia significar de outra maneira. O discurso, dessa forma, pode possibilitar tanto uma transformação na ordem vigente quanto a sua manutenção, o que vem ocorrendo nas questões que abrangem os sentidos sobre o feminino. Muitos dos sentidos produzidos sobre a mulher há séculos, ainda se apresentam nos dias de hoje; porém, apontam um deslizamento, um movimento de tensão entre o mesmo e a ruptura. Os sujeitos, para a teoria discursiva, não são considerados como indivíduos com existências particulares; não são a pessoa em si, mas a posição possível de dizer em um determinado contexto social e não em outro. Assim, o sujeito é interpelado em sujeito pela ideologia, posicionando-se em um lugar tido como evidente e natural para produzir sua tomada de palavra, esquecido da exterioridade e da anterioridade que lhe sustentam a voz. Nessa direção conceitual, a teoria do discurso concebe o sujeito como heterogêneo e este é um conceito relevante para nossa análise; a heterogeneidade do sujeito se deve ao fato de seu discurso ser constituído de vários outros discursos. Em sua voz, estão presentes outras vozes que também têm origem em diversos discursos, pois a constituição do sujeito ocorre pela interação social que este estabelece com os outros sujeitos. As diversas vozes que constituem o discurso são, pela AD, chamadas polifonia, termo inicialmente usado por Bakhtin (apud Rubino 1989, p.14). Por tudo isso, o sujeito pode também ser considerado polifônico. Temos, portanto, que ambos, sujeito e formação discursiva, para a teoria discursiva, são heterogêneos.

O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva é levada (...) a incorporar elementos pré-construídos, produzidos fora dela, com eles provocando sua redefinição e redirecionamento, suscitando, igualmente, o chamamento de seus próprios elementos para organizar sua repetição, mas também provocando, eventualmente, o apagamento, o esquecimento ou mesmo a denegação de determinados elementos (Maingueneau, 1993, p.113 apud Pacífico, 2002, p.3).

A interdiscursividade relaciona-se diretamente com aquilo além do que é dito no discurso e que os sujeitos já compartilham através de um mecanismo conhecido como memória discursiva. Na memória discursiva, não há apenas aquilo que os sujeitos já viveram e, sim, a existência de idéias já concebidas.

 

Silêncio e censura nos/dos sentidos sobre a mulher

O espaço destinado à mulher, historicamente, na sociedade, foi a casa e as questões familiares. Sendo assim, já há muitos anos as mulheres ocupam-se do lar, dos afazeres domésticos e da educação dos filhos. Diferentemente do homem, a quem era permitido transitar tanto pelo espaço familiar quanto pelo espaço público, o lugar da mulher era apenas o interior da casa, o que a impossibilitava, quase invariavelmente, de manter-se em um emprego de qualquer natureza, obrigando-a a depender financeiramente do marido.

A escola, como exemplo, era um ambiente externo/público pouco permitido à mulher. Mais tarde foi possível que algumas delas ocupassem, na escola, uma posição profissional, ou seja, de professoras, um dos poucos trabalhos fora do ambiente da casa que a mulher poderia exercer sem que ofendesse seu pai ou seu marido. A mulher, até o século XIX, não tinha possibilidade de participação social, não era discursivizada como cidadã, já que não podia votar, muito menos estudar e/ou trabalhar. Além disso, também não decidia sobre sua vida pessoal: não escolhia casar-se ou não, ter filhos ou não, trabalhar ou não.

Para essa mulher, os poucos sentidos permitidos já eram ditados desde a infância, ser mulher era seguir uma cartilha de bons modos, adequados comportamentos, prendas domésticas, enfim, ser mulher equivalia a viver uma situação de servidão em relação ao homem, ao poder dele como provedor material (chefe da casa) e como garantia da família (o nome do pai ou do marido) (PACÍFICO & ROMÃO, 2006, p. 83).

Assim, a profissão docente já há muito vem sendo uma alternativa à emancipação dessas mulheres que enxergam uma possibilidade para sua atuação além do lar, e também para sua emancipação financeira, pois, como já dito, dependiam completamente de seus maridos. A mulher do século XXI, com um espaço de trabalho remunerado, pode, inclusive, optar por não se casar e por não ter filhos. Por esses e outros motivos, os sentidos circulantes sobre ser-mulher e seu lugar na sociedade propalam o caráter do recato, da maternidade e do compromisso com a família, com o lar e a manutenção da harmonia familiar. Da mulher, sempre foi esperado o bom comportamento, poucos movimentos e, principalmente, discrição e boa postura que, para nossa análise, são indícios que nos ajudam a compreender melhor o funcionamento da ideologia no/do discurso sobre a mulher.

“Da mesma forma, consideramos que na materialidade lingüística e visual, há indícios do funcionamento da ideologia e da memória que precisamos tatear e inscrever como sentidos em movimento. Tocar não o conteúdo como um dado já colocado no texto a ser decodificado, mas perceber as pegadas do sujeito deixadas pelo seu rastro de incompletude, pelas suas hesitações e repetições, pelos silêncios e espaços intervalares de seu dito, que instalam discurso, posições e efeitos a serem lidos” (PACÍFICO & ROMÃO, op.cit., p.79-80).

É possível que possamos, através da análise dos recortes das obras citadas, percorrer os caminhos dos sentidos produzidos sobre a mulher (sujeito-mulher); entendemos que as obras, cada uma em seu contexto histórico-ideológico trazem em si idéias e concepções sobre a mulher, bastante comuns à época em que se situam.

Ainda que as obras pesquisadas tenham sido escritas por homens - no caso de “A Hora da Estrela”, Clarice Lispector utiliza-se do pseudônimo de Rodrigo R.M. -, não apenas eles, mas a sociedade como um todo colaborava para a manutenção dessa posição desprivilegiada destinada à mulher, incluindo as próprias mulheres. “É no movimento da permanência e da ruptura, da continuidade e do enfrentamento com os sentidos dominantes sobre a imagem feminina (...)” (PACÍFICO & ROMÃO, op.cit., p.81) que será possível perceber indícios de como circulavam (e circulam) esses sentidos, como são produzidos, e quais mecanismos tornam possível que eles se mantenham quase intactos ainda hoje, em diversos contextos sociais em que a mulher é inferiorizada em relação ao homem, como podemos observar em enunciados do tipo “lugar de mulher é na cozinha”; ou ainda, no trânsito, “só podia ser mulher”. Essa análise, não se caracteriza, especialmente, por selecionar obras que representem um dizer da mulher sobre ela mesma; pelo contrário, as obras caracterizam-se por apresentarem um dizer masculino sobre o feminino, com toda a bagagem histórica que esse movimento pode conter.

O silêncio indica que o sentido pode sempre ser outro e, muitas vezes, o mais importante é aquilo que não se diz (ORLANDI, 1997). A materialidade significante do silêncio caracteriza-se como sendo diferente da materialidade significante da linguagem e é esse o principal fator que influencia na maneira pela qual se produz sentido. Não há como definir o silêncio apenas considerando a relação sonora - falta de som -, mas sim, se pensarmos em relação à significação. O silêncio, então, significa em si mesmo além de tornar possível toda a significação. Não se pode compreender o silêncio apenas tendo como base ‘dito’ e ‘não-dito’, já que, como vimos, ele não precisa, necessariamente, remeter ao dito para significar, pois realmente significa por si só. O que se pode notar é que a matéria do silêncio difere da matéria como a conhecemos na linguagem verbal e, se colocamos o silêncio apenas como referente à linguagem verbal - à falta de som - retiramos dele sua opacidade e espessura, características importantes para este estudo.

O silêncio é assim, a ‘respiração’ (o fôlego) da significação; um lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. Reduto do possível, do múltiplo, o silêncio abre espaço para o que não é ‘um’, para o que permite o movimento do sujeito (ORLANDI, op.cit., p.13).

‘Dizer’ e ‘calar’ andam juntos. Ao dizer algo, apagamos, inevitavelmente, outros sentidos possíveis, mas indesejáveis em determinada situação discursiva. Acreditamos ser esta “impressão do sentido único e verdadeiro” a que se refere Orlandi (op.cit.), que contribui para manutenção do imaginário sobre a mulher; apenas desta forma é possível que os sentidos circulantes sobre o feminino e a censura sobre seu dizer e seu comportar-se, mantenham-se por tanto tempo, sob o sustentáculo da ideologia dominante.

 

A produção dos sentidos e a relação de poder

Como já dito, a relação estabelecida entre linguagem e silêncio - entre ‘dito’ e ‘não-dito’ - deve ser contextualizada, já que diz respeito diretamente à autoridade atribuída aos interlocutores no discurso, posto que o sujeito discursivo pode/deve falar/silenciar determinado sentido.

A legitimidade do dizer é ela mesma uma construção, ou melhor, um efeito discursivo. As propriedades discursivas revelam o tecido sócio-histórico do dizer que tem uma relação constitutiva com as relações de poder, institucionalmente estabelecidas: relação entre a “situação” e a “posição” dos interlocutores, estabelecida por regras de projeção (cf Pêcheux, 1969)). Há pois uma história discursiva da construção do poder-dizer atestada pelo discurso (Orlandi, 1989, p.42).

Em toda sociedade há vozes que contribuem para a construção e reconhecimento de um ‘consenso geral’, o que pode ser entendido como um “senso-comum”, nas palavras de Orlandi (1989). É através de “personagens discursivos” (idem), como por exemplo, os mediadores, compreendidos como vozes de autoridade, que são determinados tanto a produção de sentidos, quanto o que deve ser entendido por esses sentidos - através do silenciamento. Esse processo ocorre devido aos lugares sociais de onde essas vozes produzem sentido, que podem ser caracterizados como lugares historicamente legitimados, com papel fundamental na produção de sentidos. Temos, então, que o apagamento de sentidos faz parte da constituição do dito enquanto este produz sentido. Cabe a nós, então, identificar, nos textos selecionados para a análise, quais sentidos foram apagados, além de as possíveis razões para esse silenciamento. Sabemos que, em determinadas épocas, apenas certos sentidos eram permitidos e, dessa maneira, muitos outros eram apagados. Esse silenciamento, especialmente o imposto sobre a mulher - o que mais nos interessa aqui - indicia quais sentidos circulavam, quais eram permitidos à mulher e quais eram impostos a ela. que pretendemos discutir a seguir.

 

Análise discursiva de dados: que lugar de dizer é esse?

Sabemos que os autores delegam voz às personagens e, por meio delas, fazem circular sentidos que confiram ou contestem os discursos legitimados pela ideologia dominante, em determinado contexto sócio-histórico. Por ser assim, pretendemos analisar como as personagens das obras literárias selecionadas colocam em discurso sentidos sobre a mulher. Muitas vezes, a interpretação desses sentidos só será possível por meio da busca de indícios que circulam nas marcas lingüísticas, ou então, pela análise do silêncio constitutivo da linguagem.

Obra literária Dom Casmurro

“- Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como a mãe de Deus, consentiu (...)”. (ASSIS, 1997, p.71)

“A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora, anterior ao primeiro pecado; nem por simples intuição era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto é, não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu (...)”. (ASSIS, 1997, p.101)

Ambos os recortes indiciam uma visão de mulher muito ligada ao recato. A mulher deveria ser pura, santa como a “mãe de Deus”. Como estava ligada às coisas divinas, não lhe era permitido sequer deduzir sobre as coisas mundanas, visto que não seria capaz de conjeturar sobre malícias, seduções, interesses, sentimentos ligados ao homem e, não, a Deus. Conseqüentemente (e, ideologicamente), a mulher é colocada numa posição inferior à do homem, pois este pode interpretar e é capaz de entender as coisas terrestres, enquanto aquela só cabem as coisas celestes, os pensamentos puros. É importante notar que, ambos os recortes, trazem, principalmente, uma imagem da mãe, de como ela deve comportar-se e o que é esperado dela.

“Capitu refletiu algum tempo, e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde, em minha casa.

- Pode, mas para quê?

- Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.” (ASSIS, 1997, p.93)

Este excerto trata da visita ao padre, que havia se tornado “Protonotário Apostólico” recentemente. Capitu mostra grande vontade de ir cumprimentá-lo, porém, ela mesma acredita ser mais adequado visitá-lo na casa de Bentinho, e não na casa paroquial. Consideramos interessante a posição de Capitu que, embora ousada e “dissimulada”, reconhece quais lugares são permitidos às mulheres. A casa do padre - que era homem - era não poderia visitar, pois “já era meia moça”. Além disso, percebemos também que o padre é posto, primeiramente, na condição de homem, em vez de sua condição de padre. Naturalmente, ele sendo padre e amigo da família, não seria de se esperar alguma investida sua em Capitu, mas ainda assim, para ela, prevaleceu a complicada relação homem-mulher ao planejar a visita ao padre.

Obra literária O Primo Basílio

“- Ela aí vem.

- Quem?

- A Luísa.

Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, só. - Respondeu à cortesia dos dous homens com um sorriso, adeuzinhos da mão, um pouco corada.

E Sebastião, imóvel, seguindo-a devotadamente com os olhos:

- Se aquilo não respira mesmo honestidade! Vai às lojas... Santa rapariga!”. (QUEIRÓS, 1997, p.177)

“Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como o leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de cousinhas: em mias de seda que queria comprar; no farnel que faria a Jorge para a jornada; em três guardanapos que a lavadeira perdera...” (QUEIRÓS, 1997, p.16)

O primeiro recorte refere-se ao episódio em que Luísa sai para encontrar-se com Basílio no “Paraíso”. Consideramos interessante a reação de Sebastião que a vê, desacompanhada, num espaço público - destinado aos homens. Todo o espanto dele se deve à idéia de que o espaço destinado à mulher na sociedade era o interior da casa. “Para essa mulher, os sentidos permitidos já eram ditados desde a infância, ser mulher era seguir uma cartilha de bons modos, adequados comportamentos, prendas domésticas, enfim, ser mulher equivalia a viver uma situação de servidão em relação ao homem (...)”. (PACÍFICO & ROMÃO, 2006, p.83). No segundo recorte, há fortes indícios das ocupações destinadas à mulher, sendo estas as mais triviais possíveis, mostrando que não lhe era permitido sequer pensar e ocupar-se de algo mais proveitoso. Seu lugar era a casa e sua ocupação eram as tarefas relativas à casa e aos seus cuidados pessoais.

Obra literária A Hora da Estrela

“Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Tanto que (explosão) nada argumentou a seu favor quando o chefe da firma de representante de roldanas avisou-lhe com brutalidade (...) que só ia manter no emprego Glória, sua colega, porque quanto a ela, errava demais na datilografia, além de sujar invariavelmente o papel. Isso disse ele. Quanto à moça, achou que se deve por respeito responder alguma coisa e falou cerimoniosa a seu escondidamente amado chefe:

- Me desculpe o aborrecimento.” (LISPECTOR, 1999, p.24-5)

Nesse recorte, nota-se que Macabéa “nada argumentou a seu favor”. Essa frase, por si só, oferece-nos pistas do que era permitido a ela significar: quase nada. Macabéa nada argumentou a seu favor, pois não tinha voz, não lhe era permitido o dizer, pois nem ela própria, nem seus colegas lhe atribuíam tal poder. A mulher não poderia argumentar, ainda mais com seu chefe (um homem!). Não lhe era permitido exercer a voz de autoridade, tanto pelo fato de ser mulher, como também, no caso de Macabéa, pelos agravantes de ser pobre e nordestina. Em contraposição, sua colega Glória representa tudo o que ela não poderia ser, o que as mulheres não poderiam ser naquela época. Glória é ousada, sedutora, audaciosa e possui ambição: quer ultrapassar o lugar que lhe foi designado na empresa. Não por acaso o seu nome é Glória, que pode significar vitoriosa, importante, bem-sucedida.

“Passara-a no raio-X e dissera:

- Você está com começo de tuberculose pulmonar.

Ela não sabia se isso era coisa boa ou ruim. Bem, como era uma pessoa muito educada disse:

-Muito obrigada, sim?” (LISPECTOR, 1999, p.68)

O que este recorte nos mostra, principalmente, é a interdição de sentidos a que a mulher, muitas vezes, era submetida. Macabéa era marginalizada por uma série de fatores: era pobre, nordestina, “feia”, com baixo grau de escolaridade e de letramento e, mulher. Sendo assim, o acesso que tinha a determinados contextos era muito restrito, ou quase inexistente, o que fazia com que, a todo o momento, ela expusesse sua figura como a de ignorante. Sabemos ainda que, o lugar ocupado pelo médico e tudo que isso representa não pode ser ignorado aqui. Há, nesse diálogo, uma relação assimétrica dos interlocutores, entre aquele que tem o “conhecimento das coisas”, que tem o poder de voz, de fazer circular determinados sentidos sobre saúde/doença (cf. IAMAMOTO, PACÍFICO, ROMÃO, 2006) com aquele que não o tem. O médico, então, ocupa uma posição de autoridade, de quem domina os sentidos científicos e, assim, silencia o outro simplesmente por reconhecer-se como autoridade. Macabéa, por sua vez, também reconhece sua impotência diante do poder do médico, já que este domina a linguagem e o conhecimento médico, e isto lhe confere prestígio e respeito.

Para Gnerre (1998), a começar do nível mais elementar, de relações com o poder, a linguagem constitui o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder. Como podemos observar, Macabéa sentiu a dor do arame e a barreira que foi colocada entre ela e o médico.

Nas sociedades complexas como as nossas, é necessário um aparato de conhecimentos sócio-políticos relativamente amplo para poder ter um acesso qualquer à compreensão e principalmente à produção das mensagens de nível sócio-político. Adquirir os conhecimentos relevantes e produzir mensagens está ligado, em primeiro lugar, à competência nos códigos lingüísticos de nível alto. Para reduzir ou ampliar a faixa dos eventuais receptores das mensagens políticas e culturais é suficiente ajustar a sintaxe, o quadro de referências e o léxico. Uma construção sintática mais complexa pode ser suficiente para dirigir a um grupo mais restrito uma mensagem encaixada de dentro de um discurso de nível geral muito acessível (GNERRE, op.cit., p.21)

Inferimos que Macabéa reconhece a linguagem como um campo inexplorado, ao qual teve um acesso muito minguado, embora saiba mobilizar sentidos caros às relações socialmente consideradas polidas ou educadas, a marca lingüística “muito obrigada” é um exemplo desse funcionamento.

“Glória tinha um traseiro alegre e fumava cigarro mentolado para manter um hálito bom nos seus beijos intermináveis com Olímpico. Era muito satisfatona: tinha tudo o que seu pouco anseio lhe dava. E havia nela um desafio que se resumia em ‘ninguém manda em mim’.” (LISPECTOR, 1999, p.65)

Para nós, a obra de Clarice Lispector apresenta novas possibilidades à mulher, possibilidades estas que também se apresentavam para as mulheres da época. Era o momento de a mulher explorar novos espaços, ocupar postos de trabalho e sentir-se dependente apenas de si mesma. Acreditamos que Glória representa justamente essa mulher, pronta e disposta a experimentar o mundo. Já, Macabéa, ainda não descobriu em si essas possibilidades, e está presa a idéias mais conservadoras, apresentadas ao longo de nosso texto. Dessa maneira, há, entre as duas mulheres, um conflito de sentidos sobre o feminino e sua relação com o mundo. Glória, então, é a nova mulher, aquela considerada gloriosa que consegue as coisas que quer, busca o novo, o diferente e procura não se submeter a nada, nessa direção de análise, é triunfante e faz jus ao seu nome. Ela sabe que o que precisa para se realizar é apenas de si mesma e luta por isso.

“Em compensação se conectava com o retrato de Greta Garbo quando moça. Para minha surpresa, pois eu não imaginava Macabéa capaz de sentir o que diz um rosto como esse. Greta Garbo, pensava ela sem se explicar, essa mulher deve ser a mulher mais importante do mundo. Mas o que ela queria mesmo ser não era a altiva Greta Garbo cuja trágica sensualidade estava em pedestal solitário. O que ela queria, como eu já disse, era parecer com Marylin”. (LISPECTOR, 1999, p.64)

Temos, neste recorte, os sentidos que levam à visão de mulher como objeto de beleza. Pensamos que esses sentidos podem ser derivados daqueles anteriormente apresentados, acerca dos cuidados pessoais, asseio e higiene. A mulher passa a ser vista, primeiramente, por sua beleza - ou pela falta dela - e é valorizada ou não por isso. Diante desse novo contexto, as mulheres passaram a preocupar-se com sua aparência, muitas vezes, levando essa preocupação ao exagero e fixando ideais, modelos de beleza a serem almejados, como no caso, Marilyn, por Macabéa. Esses sentidos, então, reconhecem a mulher por sua aparência e silenciam todas as suas outras possibilidades. À mulher que não foi destinada a beleza, só resta a interdição e o silêncio, pois não é reconhecida como inteiramente mulher. Há uma formação discursiva dominante na mídia que sustenta que, para ser verdadeiramente mulher, deve-se preencher determinados requisitos de beleza, além de preocupar-se com seu corpo, postura e comportamento, o que observamos cada vez mais, no mundo contemporâneo. Percebemos que, diante disso, a mulher é tratada como objeto, e os sentidos que ela tece em relação à sua vida, aos filhos, à profissão, à arte, enfim, são apagados se a beleza estiver ausente ou escondida, ou seja, exige-se da mulher, assim como exige-se da língua e do sujeito, a ilusão de completude e, no caso, a “beleza é fundamental”.

 

Obra literária Negrinha

“Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelo cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu”. (LOBATO, 1920, apud MORICONI, 2000, p.78)

Esse recorte nos apresenta os dois lugares nos quais era permitido à mulher circular: a casa e a igreja. Nota-se que a cozinha é identificada como lugar reservado à mulher pobre, enquanto à patroa era destinada a sala. Percebe-se aí um sentido que circula ainda nos dia de hoje, em relação à patroa e empregada e, também, a muitas mulheres que, mesmo no século XXI só podem circular com permissão nesses dois lugares. “Tudo o que era discutido a respeito das mulheres limitava-se aos escopos do lar. À mulher cabia o universo doméstico, os cuidados com a casa e com a família, enquanto ao homem cabia o sustento do lar”. (CHIARETTI, 2006, p.6) e os espaços externos e públicos. A mulher não circulava pelos espaços públicos, com exceção da igreja, onde estava sempre acompanhada da família.

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

- Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária - mas que trabalheira me dá!

- A caridade é a mais bela das virtudes cristãs, minha senhora - murmurou o padre.

- Sim, mas cansa...

- Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

- Inda é o que vale... (LOBATO, 1920, apud MORICONI, 2000, p.81).”

Percebemos, neste recorte, que a ocupação social mais importante de Dona Inácia era a vida religiosa. Através de atitudes que considerava “caridosas”, ela se vê como uma “boa alma”, altruísta e piedosa. Mas uma vez, vemos que além de ser a religião sua ocupação principal - deixando de fora as atividades de cuidados com o lar - os sentidos aos quais tinha acesso eram os referentes aos bons modos e respeito ao próximo. Ainda que, na realidade os atos que praticava com Negrinha fossem contrários a qualquer idéia de respeito ao próximo, D. Inácia realmente acreditava estar acolhendo a menina, e não podia se dar conta da crueldade que praticava. Isso se dá devido aos sentidos - circulados, em especial, em ambientes religiosos - que colocam o respeito ao próximo acima de tudo e, assim, um ato cruel praticado seria “abafado” diante da “caridade” de se adotar uma criança órfã. Notamos que a ideologia funciona exatamente desta maneira: neutralizando os sentidos, fazendo com que atitudes atrozes sejam consideradas naturais se existe uma compensação para tal. A mulher burguesa, vivia cercada de funções relacionadas à maternidade e aos cuidados com o lar que sua única atividade fora do ambiente interno eram as coisas relativas à igreja, e estas sobrepunham-se, com freqüência, às suas próprias atitudes perante os outros.

“Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca - o preparatório -, e o momento dos filhos - definitivo. Depois disso está extinta a mulher (LOBATO, 1920, apud MORICONI, 2000, p.83).”

Sabemos que o autor, através de suas personagens, circula sentidos que tanto podem contribuir para uma transformação ou para a conservação de determinada condição. No entanto, no caso deste recorte, trata-se de um comentário do autor sobre suas personagens e, sendo assim, este deixa circular certo sentidos nos dão pistas sobre o lugar sócio-histórico que ocupa. Partindo dessa idéia, temos que este, quando coloca a maternidade como finalidade única da mulher, silencia todos os outros sentidos possíveis, e interdita a mulher das diversas possibilidades que esta poderia ter acesso.

 

Considerações finais

É interessante pensarmos que a todo o momento é também a ideologia que nos faz acreditar sermos quem somos e produzir os sentidos que produzimos inseridos no contexto em que estamos, considerando, sem dúvida, o jogo das formações imaginárias. Podemos, então, afirmar que toda a construção deste trabalho poderia ser outra e assumir as mais diversas formas, se fosse outro o nosso lugar social. Muitas vezes ouvimos que “o silêncio vale mais do que mil palavras” e acredito que essa frase se relacione com o tema do qual tratamos, pois, realmente, o silêncio torna possível tudo aquilo que não dissemos. Por outro lado, optamos, inconscientemente ou não, por silenciar, e essa escolha, por si só, significa muito. Além disso, o silêncio nos oferece muitas e variadas possibilidades, o que instala a polissemia, pois faz-nos trabalhar com a não-transparência da linguagem.

Ao final deste trabalho, percebemos ainda, que o local destinado à mulher era o privado, o interior da casa e a ela não era permitido o questionamento, a reflexão, tampouco ultrapassar aquilo que lhe foi designado. Assim, ela deveria ser a mantenedora da ordem do lar, garantindo seu bom funcionamento e harmonia, sem sequer considerar outra opção para si. Os sentidos que circulavam sobre a mulher davam a falsa idéia de que havia apenas um lugar possível. Através da ideologia, a mulher foi colocada numa posição de submissão ao homem, sem que pudesse escolher seu próprio caminho: deveria sempre e incontestavelmente submeter-se às ocupações que serviam aos interesses da família apenas. Esse comportamento, ao longo do tempo, silenciou o sujeito-mulher e deu-lhe ocupações que não instigassem o questionamento e a denúncia contribuindo, assim, para a manutenção de sua função social. O que notamos, ao final das análises, foi uma tentativa de controle de sentidos, de impedimento de novas leituras e interpretações sobre a mulher, ou seja, um silenciamento que levou à manutenção dos sentidos sobre a mulher. Isso fez com que, impossibilitada de interferir nos sentidos sobre o feminino, a mulher se mantivesse numa situação passiva e de interdição, o que a impediu de transformar esse contexto.

A linguagem e os sentidos que fazemos circular, influenciam diariamente em nossos atos e expectativas e a ideologia, muitas vezes, impede que nos demos conta disso. Por outro lado, “por maior que sejam os esforços desta tentativa de controle dos sentidos, estes sempre transbordam, escapam, aparecem de outra maneira, e essa tensão acaba gerando possibilidades diferentes de leituras” (PACÍFICO, 2002, p.26), que possibilitam pequenas transformações graduais e a construção de novos sentidos sobre uma mesma coisa. Se considerarmos que o autor de um texto literário tem o poder de fazer circular sentidos sobre e para a mulher, concepções que começam a ser levantadas com a obra de Clarice Lispector, como a mulher inovadora, questionadora, trazem para a literatura outros sentidos: a tensão entre o mesmo e o diferente no que diz respeito aos sentidos permitidos sobre o feminino.

A polissemia é o conceito que permite a tematização do deslocamento daquilo que a linguagem representa o garantido, o sedimentado. Esta tensão básica, vista na perspectiva do discurso, é a que existe entre o texto e o contexto histórico-social: porque a linguagem é sócio-historicamente constituída, ela muda; pela mesma razão, ela se mantém a mesma. Essa é sua ambigüidade” (Orlandi, 1993, p. 20 apud Pacífico, 2002, p.27).

E é justamente essa ambigüidade inerente à linguagem que torna possível que trabalhos como este e tantos outros sejam produzidos e incentivem as diversas possibilidades contidas no discurso, o questionamento e a curiosidade diante do que parece ser “o mesmo”. São as tensões e os conflitos que nos impulsionam e nos levam a modificar o contexto em que estamos e a construir outros sentidos a fim de não nos atermos aos mesmos.

 

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* Pedagoga pela Faculdade Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

** Docente do curso de graduação em Pedagogia e da pós-graduação em Psicologia da Faculdade Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

*** Docente do curso de graduação em Ciências da Informação e da Documentação e da pós-graduação em Psicologia da Faculdade Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Professora colaboradora do mestrado em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Bolsista CNPQ.

 

© Marina Coelho Pereira, Soraya Maria Romano Pacífico y Lucília Maria Sousa Romão 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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