O imaginário medieval bestiario
em Viagem à terra do Brasil de Jean de Léry

Vanessa Gomes Franca

Universidade Estadual de Goiás (UEG) - Brasil
Francavg@hotmail.com


 

   
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Resumo: O presente artigo consiste numa leitura do livro Viagem à terra do Brasil, do cronista francês Jean de Léry, a fim de verificar como determinados traços do ideário medieval bestiário apresentam-se nessa obra quando o autor descreve os espécimes animais encontrados nas terras do Novo Mundo.
Palavras-chave: Jean de Léry, crônicas coloniais, bestiário, Viagem à terra do Brasil.

Abstract: This paper consists of a reading of French chronicist Jean de Léry's Viagem à terra do Brasil, aiming to verify how some traces of the medieval bestiary ideology are presented in this work when the author describes the animal specimens found in the lands of the New World.
Keywords: Jean de Léry, colonial chronicles, bestiário, Viágem à terra do Brasil

Resumen: El presente artículo es una lectura del libro Viagem à terra Brasil, del cronista francés Jean de Léry, con el objetivo de averiguar como algunos aspectos del ideario medieval bestiario se presentan en esta obra cuando su autor describe los espécimes animales encontrados en las tierras del Nuevo Mundo.
Palabras-clave: Jean de Léry, crónicas coloniales, bestiario, Viagem à terra do Brasil.

 

"Senhor Deus, como tuas diversas obras são maravilhosas em todo o universo!"
Salmo 104

Com a expansão ultramarina européia houve o aparecimento de uma literatura denominada "crônicas de viagem", ou informativa, na qual inúmeros viajantes ou missionários europeus chegando às terras recém-descobertas da Ásia, África e América, eram encarregados de produzir relatórios com informações sobre os costumes de seus habitantes, a fauna e a flora, além dos recursos minerais ali existentes. Assim, é comum, nestas narrativas, a presença de aspectos exóticos e pitorescos do Novo Mundo.

A literatura informativa, descrevendo diretamente a paisagem, os índios seus costumes e os primeiros grupos sociais que aqui habitaram, revela as reais intenções do colonizador que consistiam em conquistar, dominar, escravizar e comercializar os produtos encontrados nas novas terras. No entanto, tais pretextos eram mascarados pela afirmação de que a finalidade das conquistas consistia na difusão do Cristianismo, ideal que justificava, para os conquistadores, todas as ações empreendidas, inclusive as mais bárbaras.

Apesar da divergência entre os povos colonizadores, todos acreditavam no ideal de superioridade civilizacional e espiritual do conquistador europeu como afirma Léry neste trecho: “os habitantes da Europa, da Ásia e da África devem louvar a Deus pela sua superioridade sobre os dessa quarta parte do mundo” (Léry, 1980, p. 206).

A colonização significou o renascimento do pensamento medieval e genesíaco, principalmente no que se refere às figuralidades monstruosas. As crônicas de viagem, então, são responsáveis pela divulgação da presença desses seres que estavam ainda tão arraigados à mentalidade da época. Desse modo, encontramos com certa freqüência raças de seres monstruosos, fantásticos e, até mesmo, míticos nestas narrativas. É a tradição teratológica que constitui o imaginário ocidental e que vai nortear os colonizadores. Apesar de se situarem no século XVI e XVII é impressionante notar como a simbologia e os monstros ainda causavam tanto fascínio entre os escritores e seus leitores. Para explicar esses monstros, alguns escritores os atribuíam a criação divina: “Aliás o que é invisível em Deus encontra-se visível na criação do mundo (Léry, 1980, p. 209)”.

Nos séculos XVI e XVII podemos constatar, então, a influência não só dos bestiários, mas também dos lapidários e herbários, na mentalidade européia. Deste modo, as narrações dos viajantes estão permeadas por noções simbólicas oriundas da tradição medieval o que implica na influência na descrição do Quarto continente.

Encontramos, muitas vezes, nas crônicas de viagem, uma visão que foi chamada paradisíaca, uma vez que os autores associavam a nova terra ao Eldorado ou aos mitos edênicos. Tais textos refletem ao mesmo tempo o deslumbramento dos viajantes em relação à exuberância da natureza e sua visão dos costumes dos habitantes do Novo Mundo.

O descobrimento do “Quarto continente” pelos navegadores fez com que várias questões fossem questionadas. O contexto religioso predominante durante a Idade Média levantou algumas especulações sobre a real existência deste “Novo Mundo”, uma vez que na Bíblia, após o dilúvio, a terra fora habitada pelos três filhos de Noé: Sem, Cam e Jafet. Assim, para alguns escritores, os americanos seriam, obviamente, os antípodas que não estavam inseridos no ecúmeno cristão. Jean de Léry, em seu livro Viagem à terra do Brasil, discute sobre a origem dos “selvagens” chegando à conclusão de que eles descenderiam de Cam:

Resta-me agora tocar na questão que poderia ser aqui aventada de saber qual a origem desses selvagens. É evidente que descendem de um dos três filhos de Noé, mas acho difícil dizer de qual, baseando-me nas Santas escrituras ou nos doutores profanos. Verdade é que Moisés, fazendo menção dos filhos de Jafé, diz que as ilhas foram habitadas por eles; mas, como é natural, o hebreu se referia às terras da Grécia, Gália, Itália e outras regiões separadas da Judéia pelo mar e consideradas ilhas por ele; não há pois base para que nelas se compreendam a América e adjacências. Dizer que são oriundas de Sem, pai da geração bendita dos Judeus, mais tarde corrompida a ponto de a rejeitar o Criador, não me parece lógico. [...] Parece-me pois mais provável que descendam de Cam (Léry, 1980, p. 221, grifos nossos).

Ainda no que se refere a progênie de Noé, Mary Del Priore também relaciona o patriarca a existência de raças monstruosas: “[...] santo Agostinho já aborda a questão dos monstros a partir do problema da descendência de Noé. Pois se o dilúvio teria renovado toda a população da Terra, essas raças monstruosas descenderiam, elas também, do patriarca” (2000, p. 24).

Jean de Léry foi um dos primeiros viajantes e narradores renascentistas da Terra Brasilis. Nasceu em La Margelle, Bourgogne, em 1534. Segundo Gaffarel (apud LÉRY, 1980, p. 19) nada se sabe da primeira infância deste autor. Sua vida parece iniciar quando este decide estudar teologia e seguir os passos de Calvino. Além de participar das navegações, Léry foi duas vezes ministro. Em Nevers, em 1564 e, em La Charité em seguida. Morreu em 1611, na cidade de Berna.

Durand de Villegagnon, cavaleiro de Malta, vice-almirante de Bretanha desejava fundar uma colônia francesa no Rio de Janeiro, por isso partiu para o Novo Mundo em maio de 1555 com alguns marinheiros e artesãos chegando somente em dezembro do mesmo ano. Depois de sua instalação, Villegagnon escreveu a Calvino pedindo que fossem enviadas pessoas que conhecessem a religião cristã, a fim de divulgá-la entre as pessoas que ali habitassem e igualmente aos selvagens.

A França Antártica seria uma espécie de asilo para seus compatriotas que desejassem fugir de perseguições religiosas. Por esse motivo, grande foi o interesse demonstrado por prosélitos da religião reformada. Calvino, também, viu nesta oferta uma chance de propagar sua doutrina no Novo Mundo, o que o fez convencer Du Pont de Corguilleray a conduzir a coluna genebriana ao Brasil. Pedro Richier e Guilherme Chartier, dois ministros e estudantes de teologia também seguiram viagem para evangelizar na América. Além deles, mais quatorze genebrinos, entre eles Léry.

Embora tenha prometido aos protestantes liberdade, Villegagnon não tardou a contestar suas crenças e a persegui-los. Deste modo, os religiosos deixaram a colônia e se mudaram para uma ilha próxima aos índios Tupinambás.

Apesar das anotações de sua viagem, Léry demorou alguns anos para, finalmente, publicar seu livro Viagem à Terra do Brasil, em 1577. Tal adiamento ocorreu devido a dois fatores. O primeiro se deve à perda do manuscrito original. O autor havia entregado sua narrativa a um amigo que a devolveria por intermédio de um criado. Este, por sua vez, a perdeu em Lyon. Depois disso, Léry, com a ajuda de rascunhos do copista, conseguiu refazer seu texto, mas, também o perdeu. Somente em 1576, com o apoio de um amigo conseguiu reaver o primeiro manuscrito publicando, finalmente, sua obra no ano seguinte. A primeira e a segunda edição trazem o título: Narrativa de uma viagem feita à terra do Brasil. O livro do cronista francês foi traduzido para várias línguas, dentre elas, o latim.

O segundo fator, e talvez mais importante, foi em resposta as “insinuações falsas” que Thévet, um frade franciscano, cosmógrafo real levantou em sua Cosmografia Universal contra ele e seus companheiros de viagem: “[...] a saber terem sido as calúnias de Thévet a causa, em grande parte, da publicação desta narrativa, me desculpem alongar-me demasiado neste prefácio ao desmascarar o impostor com suas próprias obras” (Léry, 1980, p. 46). Thévet acusou os protestantes pelo fracasso da colônia de Villegagnon. Léry, em Viagem à terra do Brasil, defendia os protestantes e acusava o cavaleiro de Malta.

No primeiro capítulo, “Do motivo que nos levou a empreender esta longínqua viagem à terra do Brasil na ocasião em que a fizemos”, o autor afirma que não se deterá em tratar das formosuras, das dimensões ou da fertilidade do Brasil, como já havia feito outros historiadores e cosmógrafos. Segundo ele, seu trabalho consistirá na narrativa sobre o que praticou, viu, ouviu e observou durante a sua viagem ao Quarto continente.

É interessante ressaltar que Léry não foi apenas mais um compilador, ou um copista, das histórias de viagem. Ele apreendeu a sua própria viagem e a apresentou em sua narrativa. Devido à herança da Antiguidade e dos bestiários medievais, sua obra foi resultado da convivência num mesmo texto de mitos, lendas, interpretações de cunho religioso e a presença de descrições antigas como autoridades no conhecimento do mundo. Deste modo, além de relatar o que viu e ouviu, característica das crônicas medievais, Léry utiliza o testemunho de outras pessoas para corroborar com sua narração. Segundo Mary Del Priore:

[...] Os cronistas e viajantes afirmavam, mão sobre o coração, ser verdade o que diziam. Em nome de sua experiência pessoal? Raramente. Com freqüência, em nome da experiência de outrem, de alguém digno de fé, de quem se ouvira uma história “de verdade” sobre monstros e monstrengos. Vivia-se num mundo de “mais ou menos”, de ouvir dizer (Del Priore, 2000, p. 15, grifos do autor).

A citação de uma autoridade era uma estratégia medieval que os autores utilizavam para dar veracidade às suas descrições. Jean de Léry cita, por exemplo, Cícero, passagens da Bíblia, histórias mitológicas como a de Tântalo e de Circe e, principalmente, Plínio:

[...] E, em verdade, depois de minha viagem à América, a qual, pelo que aí se vê (costumes dos habitantes, formas dos animais e produtos da terra em geral, tão diferentes dos da Europa) pode ser chamada Novo Mundo, devo confessar que, embora não aceitando como verdadeiras as fábulas encontradiças em vários autores, reconsiderei minha opinião antiga acerca do que escreveram Plínio e outros mais sobre os países exóticos, pois vi coisas tão prodigiosas quanto tantas outras tidas por impossíveis, de que fazem menção (Léry, 1980, p. 50).

Percebemos, assim, em Viagem à Terra do Brasil, a influência de clássicos da Antigüidade para a interpretação dos fatos observados no Novo Mundo, principalmente de Plínio. Em várias passagens da obra, encontraremos menções a Plínio o Velho, que escreveu a enciclopédia História naturalis, uma das principais fontes para os autores medievais e, conseqüentemente, para os bestiários. Tal obra é composta por 37 livros e, quatro deles foram dedicados aos animais: o livro VIII fala dos mamíferos e dos répteis, o livro IX trata dos peixes e demais animais marinhos, o livro X disserta sobre os pássaros e o livro XI dos insetos. A recorrência a autores da antiguidade não quer dizer que o cronista francês acredite ou concorde com os mesmos. Tal recurso será utilizado como um suporte às suas explicações. Deste modo, veremos Léry citando Plínio, em algumas passagens do seu livro, para apoiar suas idéias como ocorre quando ele fala das tartarugas:

[...] Embora muito falte para que as tartarugas que vivem nesta zona tórrida sejam tão grandes e monstruosas quanto as que Plínio diz se encontrarem nas costas das Índias e nas ilhas do Mar Vermelho, e cujo casco basta para cobrir uma casa habita, algumas existem de fato tão compridas e largas que não é fácil fazê-lo acreditar a quem não as viu. Uma delas apanhada no nosso navio era tão grande que forneceu copioso jantar para oitenta pessoas (Léry, 1980, p. 72).

Dentre outras influências que observamos no autor, podemos destacar suas concepções religiosas e valores distintos na construção da Imago Mundi. Verificamos desta maneira, em sua narrativa o pensamento herdado da tradição religiosa cristã sobre Deus como criador de todas as coisas, mesmo as mais estranhas e monstruosas. Tal crença servia também para demonstrar o poder e a grandeza do Senhor:

[...] A solução mais certa para a questão está nas próprias palavras de Deus a Job quando, par a mostrar-lhe que os homens mais sutis nunca chegariam a compreender a magnificência de suas obras, disse: “Entraste nos tesouros da neve? Viste também os tesouros do granizo?” E isto é como se o Eterno, esse grande e maravilhoso obreiro, dissesse a seu servo: “Em que celeiro tenho eu essas coisas, conforme o teu entendimento? Poderias dar a razão disso? Não, por certo, pois não és bastante sábio” (Léry, 1980, p. 255).

Após um ano de estadia na região da Guanabara, Léry dá uma detalhada descrição da vida cotidiana dos nativos, segundo alguns autores, superior a de Thévet. O indígena é assim descrito por ele:

[...] os selvagens do Brasil, habitantes da América, chamados Tupinambás, entre os quais residi durante quase um ano e com os quais tratei familiarmente, não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes, aleijados ou doentios. Apesar de chegarem muitos a 120 anos, (sabem contar a idade pela lunação) poucos são os que na velhice têm os cabelos brancos ou grisalhos, o que demonstra não só o bom clima da terra, sem geadas nem frios excessivos que perturbem o verdejar permanente dos campos e da vegetação, mas ainda que pouco se preocupam com as coisas deste mundo [...] E parece que haurem todos eles na fonte da Juventude (Léry, 1980, p. 111-112).

É possível verificarmos na obra do cronista francês um comparativismo entre o indígena e os animais: “[...] ouvimos o rumor de um bruto que vinha em nossa direção mas, pensando que fosse algum selvagem não paramos nem demos importância ao caso (Léry, 1980, p. 140)”.

Em alguns trechos de sua crônica, Léry relativiza aspectos da cultura e hábitos dos índios que eram considerados como bárbaros, como por exemplo o canibalismo e a crueldade dos índios em relação aos seus inimigos:

[...] Em seguida, as outras mulheres, sobretudo as velhas, que são mais gulosas de carne humana e anseiam pela morte dos prisioneiros, chegam com água fervendo, esfregam e escaldam o corpo a fim de arrancar-lhe a epiderme; e o tornam tão branco como na mão dos cozinheiros os leitões que vão para o forno. Logo depois o dono da vítima e alguns ajudantes abrem o corpo e o esquartejam com tal rapidez que não faria melhor um açougueiro ao esquartejar um carneiro. E então - incrível crueldade - assim como os nossos caçadores jogam a carniça aos cães para torná-los mais ferozes, esses selvagens pegam os filhos, uns após outros, e lhes esfregam o corpo, os braços e as pernas com o sangue inimigo a fim de torná-los mais valentes (Léry, 1980, p. 198-199).

Poderia aduzir outros exemplos da crueldade dos selvagens para com seus inimigos, mas creio que o que disse já basta para arrepiar os cabelos de horror. É útil, entretanto, que ao ler semelhantes barbaridades, não se esqueçam os leitores do que se pratica entre nós. Em boa e sã consciência tenho que excedem em crueldade aos selvagens os nossos usurários que, sugando o sangue e o tutano, comem vivos viúvas, órfãos e mais criaturas miseráveis, que prefeririam sem dúvida morrer de uma vez a definhar assim lentamente. Por isso deles disse o profeta que esfolam a pele comem a carne e quebram os ossos do povo de Deus (Léry, 1980, p. 203).

Outro aspecto importante que Léry relativiza é a nudez dos índios. Segundo Mesgravis e Pinsky (2000, p. 44):

[...] uma das primeiras coisas que chamava a atenção dos europeus era a nudez dos índios. Oriundos de uma cultura na qual o uso de roupas pesadas que recobriam todo o corpo era a regra social e moral e o pudor era imprescindível, a nudez dos índios foi uma surpresa agradável para uns e chocante para outros. Segundo o Gênesis bíblico - referência fundamental da cultura européia -, o primeiro efeito do pecado de Adão e Eva foi a vergonha da própria nudez e isto deu início ao hábito de os seres humanos cobrirem o corpo. O encontro de homens que andavam sem a mais leve noção de culpa, e mantinham costumes sexuais mais liberais que os dos europeus convenceu muitos destes de que se encontravam perante uma parcela da humanidade que não teria caído em pecado.

O cronista francês afirma que tal comportamento indígena não merece condenação até porque há entre os costumes europeus “males incomparavelmente maiores”:

Antes porém de encerrar este capítulo, quero responder aos que dizem que a convivência com esses selvagens nus, principalmente entre as mulheres, incita à lascívia e à luxúria. Mas direi que, em que pese às opiniões em contrário, acerca da concupiscência provocada pela presença de mulheres nuas, a nudez grosseira das mulheres é muito menos atraente do que comumente imaginam [...].

Não é meu intento, entretanto, aprovar a nudez contrariamente ao que dizem as Escrituras, pois Adão e Eva, após o pecado, reconhecendo estarem nus se envergonharam; sou contra os que a querem introduzir entre nós contra a lei natural, embora deva confessar que, neste ponto, não a observam os selvagens americanos (Léry, 1980, p. 121).

Léry ressalta o clima do Quarto continente comparando-o com o da Europa. O cronista francês, ao se referir a este assunto, cita uma questão levantada pelos antigos - principalmente por Ptolomeu - sobre a impossibilidade de vida dos antípodas numa terra ao sul do Equador, próxima da linha equatorial. Bueno, em seu livro Brasil: terra à vista! a respeito desta tese nos fala:

Os conceitos geográficos no tempo de D. Henrique baseavam-se nas teorias do grego Cláudio Ptolomeu [...] O estudioso, que viveu em Alexandrina, julgava que o planeta era inabitável abaixo da Linha do Equador, onde se iniciaria a “tórrida zona” e o calor “torraria” os homens. Suas teses que colocavam a Terra no centro do universo, eram apoiadas pela Igreja. Desafiá-las era heresia. Ptolomeu não acreditava que pudesse existir uma ligação marítima entre o Oceano Atlântico e o Índico (2003, p. 31, grifos do autor).

A utilização das autorictas formulae, como vimos, consiste em uma estratégia que os cronistas utilizavam para sustentar suas idéias. Léry, entretanto, ao descrever o clima e as paisagens das novas terras, desmistifica tal pensamento, uma vez que invalida a teoria de Ptolomeu:

Entretanto os dias não são nos trópicos nem tão longos nem tão curtos como no nosso clima, conforme o podem compreender os entendidos na esfera. E assim não só os dias são mais iguais debaixo dos trópicos, mas ainda as estações incomparavelmente mais temperadas, embora os antigos pensassem o contrário (Léry, 1980, p. 179, grifo nosso).

Jean de Léry, em sua narrativa, retrata detalhadamente o clima da nova terra, o comportamento, os costumes religiosos e sociais dos índios brasileiros. Será a partir deste levantamento feito pelo cronista francês que reconheceremos marcas do ideário medieval bestiário.

Um ponto que nos faz verificar a influência dos bestiários nas cronísticas do século XVI e XVII refere-se à concepção exótica e fantástica freqüentemente utilizadas para apresentar as desconhecidas espécies da fauna brasileira. Desse modo, o inventário dos animais nativos feito por Léry é um aspecto relevante para a compreensão da mentalidade do cronista francês. Este, além de caracterizar muitos animais desconhecidos como monstruosos, em razão do seu não conhecimento, muitas vezes, exagera em suas descrições, usando superlativos além de conferir um ar tenebroso às bestas. Podemos verificar tal processo na descrição de duas espécies de peixes que ele comenta devido às suas “deformidades”:

A primeira, a que os selvagens denominam tamuatá, mede comumente meio pé de comprimento apenas; tem a cabeça muito grande, monstruosa, em verdade, em relação ao resto do corpo, duas barbatanas debaixo das guelras, dentes mais aguçados que os dos lúcios, espinhais penetrantes, e são armados de escamas tão resistentes que não creio lhes faça mossa uma cutilada; nisso se assemelha a um tatu, como já disse alhures. A carne é tenra e muito saborosa. Os selvagens dão o nome de pana-paná a outro peixe de tamanho médio; tem o corpo e cauda semelhante aos do procedente e a pele áspera como a do tubarão. A cabeça é chata, sarapintada e mal conformada, a ponto de parecer, fora dágua (sic), separada em duas, o que oferece um aspecto horrendo (Léry, 1980, p. 163).

Mais exemplos do exagero causado pelo desconhecido, pelo exótico é a descrição de outras espécies de peixes:

[...] além de peixes voadores cuja existência sempre julgara ser peta de marinheiros e que na realidade é certa.

Tal como em terra fazem as cotovias e estorninhos, cardumes de peixes saíam do mar e se erguiam voando fora da água cerca de cem passos e quase à altura de uma lança (LÉRY, 1980, p. 67).

[...] Entre eles havia um disforme, monstruoso, todo sarapintado, que merece descrição. Tinha quase o tamanho de um vitelo e o focinho de cinco pés de comprimento por pé e meio de largura, armado de dentes cortantes como de serra, de modo que mesmo fora da água o rápido mover dessa tromba era um perigo para as pernas de todos (Léry, 1980, p. 83-84).

No capítulo X, “Dos animais, veação, lagartos, serpentes e outros animais monstruosos da América”, Léry menciona alguns animais híbridos, como por exemplo, o tapirussú

de pêlo avermelhado e assaz comprido, do tamanho mais ou menos de uma vaca, mas sem chifres, com pescoço mais curto, orelhas mais longas e pendentes, pernas mais finas e pé inteiriço com forma de casco de asno. Pode-se dizer que, participando de um e outro animal, é semivaca, e semi-asno. Difere entretanto de ambos pela cauda, que é muito curta (há aqui na América inúmeras alimárias sem cauda), pelos dentes que são cortantes e aguçados; não é entretanto animal perigoso, pois só se defende fugindo (Léry, 1980, p. 135, grifos nossos).

O aspecto desse quadrúpede, como podemos verificar, é a mistura de espécies de animais diferentes, porém, conhecidos pelo autor. Léry utiliza um método de aproximação, isto é, ele fala da similitude entre os animais da América e os da Europa e depois os difere dando suas características particulares. Desse modo, o cronista francês, em seu texto, para descrever a fauna aqui encontrada parte de algo conhecido e vai para o desconhecido, e do comum para o sobrenatural. Outro exemplo dessa assimilação é o taiassú:

Quanto ao javali do país, que os selvagens denominam taiassú, embora semelhante aos das nossas florestas pela cabeça, pelas orelhas, pernas e pés, tem os dentes muito compridos, curvos e pontiagudos. O que os torna perigosíssimos. É mais magro, descarnado; tem um grunhido espantoso e apresenta nas costas uma deformidade notável, uma abertura natural, como a do golfinho na cabeça, por onde sopra, respira e aspira quando quer. E para que não se imagine ser isso uma coisa extraordinária direi que o autor da “História Geral das Índias” afirma existirem na Nicarágua, perto do reino da Nova Espanha, porcos com o umbigo no espinhaço, os quais devem ser da mesma espécie dos que acabo de descrever (Léry, 1980, p. 137).

Jean de Léry compara alguns animais da fauna brasileira à doninha e ao ouriço. Ambos aparecem nos bestiários. White escreve sobre a doninha: “Some say that they conceive through the ear and give birth through the mouth, while, on the other hand, others declare that they conceive by mouth and give birth by ear (White, 1954, p. 92)”. É interessante notar que tal animal, na descrição de Léry, não tem um motivo como nos bestiários, entretanto, “os índios de boa vontade” não o comem, como cita o autor:

[...] Existe outro animal do feitio de uma doninha e de pêlo pardacento, ao qual os selvagens chamam sariguá; tem mau cheiro, e não o comem os índios de boa vontade. Esfolamos alguns desses animais verificando estar na gordura dos rins o mau odor; tirando-lhe essa víscera a carne é tenra e boa (Léry, 1980, p. 138).

Nos bestiários a simbologia do ouriço é pobre e um pouco confusa. Na narrativa de Léry tal besta não terá da mesma forma, grande relevo, servirá apenas para a descrição do tatu: “O tatu da terra do Brasil, tal qual os nossos ouriços, não pode correr tão rapidamente quanto os outros; por isso arrasta-se pelas moitas; em compensação está bem armado, coberto de escamas fortes e duras, capazes de resistirem a um golpe de espada” (Léry, 1980, p. 138). Como já havíamos dito, percebemos que o cronista utiliza animais já existentes para comprovar ou auxiliar suas interpretações.

Outro animal descrito ainda no capítulo X é o jacaré. Segundo Léry, ele tem a grossura da coxa de um homem e comprimento proporcional, além disso, é apresentado como um animal que não oferece perigo, uma vez que os índios o levavam para as suas casas e as crianças brincavam em redor dele. Apesar deste exemplo, o autor nos fala sobre a existência de uma espécie monstruosa de jacarés que, segundo os indígenas, ataca de surpresa as pessoas que não têm tempo de se defender.

Entretanto, ouvi contar os velhos das aldeias que, nas matas, são às vezes assaltados e encontram dificuldades em se defender a flechadas contra uma espécie de jacarés monstruosos que, ao pressentir gente, deixam os caniçais aquáticos, onde fazem o seu covil. A esse respeito, além do que Plínio e outros referem dos crocodilos do Nilo, no Egito, diz o autor da “História Geral das Índias” que matou crocodilos perto da cidade de Panamá, com mais de cem pés de comprimento, o que é coisa quase incrível. Observei os jacarés medianos e vi que têm a boca muito rasgada, as pernas altas, a cauda chata e aguda na extremidade. Confesso que não verifiquei se esses anfíbios conservam imóvel a mandíbula superior, como geralmente se acredita (Léry, 1980, p. 139).

Um outro aspecto da construção imagético-simbólica dos bestiários pode ser verificado na figura do sapo. Este, apesar de ser um animal comum, foi visto pelo medievo cristão como: “[...] un ser monstruoso, repleto de veneno igual que cualquier serpiente y usualmente asociado con la noche, con el mal y con la muerte (Acosta, p. 183)”. Verificamos a influência deste pensamento em Léry quando este afirma que os sapos existentes na França são venenosos e que os do Brasil não. O autor atribui este fato ao clima do Quarto continente:

Também costumam os tupinambás comer certos sapos grandes, moqueados com o couro e os intestinos, donde concluo que ao contrário dos nossos sapos cuja carne e sangue são geralmente mortíferos, os do Brasil em virtude talvez do clima, não são venenosos (Léry, 1980, p. 139-140).

Léry narra vários episódios de sua visita ao Brasil. Dentre eles, um nos chama a atenção. O autor nos conta a história em que ele e dois franceses visitando o país se perderam na mata, pois estavam sem guia, encontrando com um lagarto monstruoso:

[...] De repente, a trinta passos de distância, à direita, vimos na encosta da montanha um enorme lagarto maior do que um homem e com um comprimento de seis a sete pés. Parecia revestido de escamas esbranquiçadas, ásperas e escabrosas como cascas de ostras; ergueu uma pata dianteira e com a cabeça levantada e os olhos cintilantes encarou-nos fixamente. Como nenhum de nós trazia arcabuz ou pistola, mas somente espadas e arcos e flechas na mão, armas inúteis contra animal tão bem armado, ficamos quedos e imóveis, pois temíamos que, fugindo, o bruto viesse contra nós e nos devorasse. O monstruoso e medonho lagarto, abrindo a boca por causa do grande calor que fazia e soprando tão fortemente que o ouvíamos muito bem, contemplou-nos durante um quarto de hora; voltou-se depois, de repente, e fugiu morro acima fazendo maior barulho nas folhas e ramos varejados do que um veado correndo na floresta. O susto nos tirou a lembrança de persegui-lo e, louvando a Deus por ter-nos livrado do perigo, prosseguimos no passeio. E como dizem que o lagarto se deleita ao aspecto do rosto humano, é certo que esse teve tanto prazer em olhar para nós quanto nós tivemos pavor em contemplá-lo (Léry, 1980, p. 140, grifos nossos).

Verificamos em sua narração a influência do pensamento medieval e dos bestiários. Tal lagarto monstruoso pode ser comparado ao Basilisco ou ao Catoblepas. O primeiro é capaz de matar um homem só olhando para ele. O segundo, basta fitar uma pessoa para matá-la. Ambos têm o mesmo motivo, ou seja, a mirada. Apesar dessa semelhança entre o lagarto citado e estes dois animais do bestiário, não encontramos nenhuma referência ao deleite do aspecto do rosto humano.

Outro animal presente na narrativa de Léry é o macaco. Nos bestiários, encontramos a figura do macaco associada ao diabo. O autor descreve dois tipos deles: o primeiro denominado cay pelos selvagens é relacionado ao Sabbat (que tem relação com o mundo das trevas, com a noite, o mal e o demônio):

Reunidos geralmente em bandos, sobretudo no tempo das chuvas, é grande prazer ouvi-los gritar e celebrar o seu sabbat nas árvores, tal como o fazem os nossos gatos nos telhados. Esse animal só traz no ventre um feto, o qual ao nascer logo se agarra ao pescoço do pai ou da mãe; perseguido pelos caçadores, salta de galho em galho e assim se salva [...] (Léry, 1980, p. 142).

Ainda sobre o cay, Léry nos diz que a macaca dá cria somente a um filhote. Nos bestiários, ao contrário:

[...] a macaca sempre dá cria a dois filhotes, de um ela gosta e o carrega nos braços, do outro não gosta, e este, deve agarrar-se às suas costas. Mas quando ela cansa e passa a andar de duas pernas, deixa cair, distraída, o filhote benquisto e é o mal-amado que sobrevive (Acosta, 1995, p. 209).

Para descrever outra espécie de macaco existente no Brasil, denominada saguim, Léry utiliza o método de similitude: “Têm o tamanho e o pêlo do esquilo, mas o focinho, e o pescoço e a cara parecidos com os do leão; apesar de bravio é o mais lindo animalzinho que já vi (Léry, 1980, p. 144)”.

Um dos animais mais curiosos descritos por Léry no capítulo X, é um híbrido, mistura de vários animais e do homem, chamado hay. Além de afirmar que tal espécie possui o rosto humano, outra curiosidade sobre ele é que o mesmo não se nutria, segundo o cronista, de nada bastando-lhe o vento para sobreviver. Para dar veracidade ao que ouviu dizer, Léry não atribui tal narração apenas aos indígenas, mas também imputa esse conhecimento aos estrangeiros que residiam ali.

O maior, chamado hay pelos selvagens é do tamanho de um cão-d’água grande e sua cara de bugio se assemelha a um rosto humano; tem o ventre pendurado como o da porca prenhe, o pêlo pardo-escuro como a lã do carneiro preto, a cauda curtíssima, as pernas cabeludas como as do urso e as unhas muito longas. Embora seja muito feroz, no mato, facilmente se amansa. Mas é verdade que, por causa das unhas, nossos tupinambás, que andam sempre nus não gostam de folgar com ele. O que parece fabuloso, mas é referido não só por moradores da terra mas ainda por adventícios com longa residência no país, é não ter jamais ninguém visto esse bicho comer, nem no campo nem em casa e julgam muitos que ele vive de vento (Léry, 1980, p. 144).

No bestiário, o animal que tem o mesmo motivo, viver somente do ar, é o camaleão. Segundo Acosta (1995, p. 116): “O camaleão [...] se alimenta somente de ar, aspirando-o [...] A idéia de que o camaleão vive do ar provêm de Ovídio e de Plínio”. Desta forma, é possível verificarmos a influência do pensamento medieval e clássicos da antiguidade, como Plínio, visto que este é várias vezes citado pelo autor, para explicar fatos observados nas novas terras.

Como já dissemos, os animais desconhecidos pelo autor serão, muitas vezes, descritos como monstruosos, com deformidades e exageros:

O outro animal a que me refiro e ao qual os selvagens chamam coatí é do porte de uma lebre grande, tem pêlo curto, reluzente e mosqueado, orelhas pequenas, erectas, pontudas; a cabeça é pouco volumosa e o focinho, que começa nos olhos, tem mais de um pé de comprimento; redondo como um bastão afina de repente conservando a mesma grossura desde cima até perto da boca, a qual é tão pequena que nela cabe apenas a ponta do dedo mínimo. Não me parece que exista algo mais extravagante ou monstruoso do que esse focinho semelhante a um canudo de gaita de foles. Quando apanhado, conserva os quatro pés juntos, caindo sempre para um ou outro lado ou se esparramando no chão, de sorte que ninguém pode mantê-lo de pé; só se alimenta de formigas (Léry, 1980, p. 145, grifos nossos).

No capítulo XI, “Da variedade de aves da América, todas diferentes das nossas; dos bandos de grandes morcegos, das abelhas, moscas varejeiras e outros vermes singulares desse país”, Léry nos apresenta as aves existentes no Brasil. Segundo o cronista, estas são tão diferentes das existentes na Europa devido as suas cores tão peculiares.

Uma figura interessante na narrativa de Léry é o papagaio. Esse animal, antigamente, era tido como representante do paraíso, uma vez que ele foi o único que herdou a fala depois que o homem perdeu o Éden. Segundo o cronista francês, os mais bonitos e os que melhor aprendiam a fala humana eram os chamados ajurús. Léry narra que certa vez recebeu um papagaio de presente que pronunciava tão bem as palavras da língua latina como a da francesa, porém, nada disso se aproximava do episódio contado abaixo. O cronista compara o papagaio, capaz de falar perfeitamente se ensinado, aos corvos que em Roma eram venerados por saudarem os sábios por seus nomes:

Maior maravilha ainda me pareceu, porém, um papagaio dessa espécie pertencente a certa índia de uma aldeia distante duas léguas da nossa ilha. Dir-se-ia que essa ave entendia o que lhe falava a sua dona. Quando por ali passávamos esta nos interpelava: “dai-me um pente ou um espelho e eu farei com que o meu papagaio cante e dance em vossa presença”. Se dávamos o que pedia, bastava-lhe uma palavra para que o pássaro começasse a saltar na vara em que pousava, a conversar, assobiar e arremedar os selvagens de partida para a guerra, de um modo incrível. E quando a dona dizia para cantar, ele cantava; e também dançava quando ela lho ordenava. Se porém não lhe dávamos nada, ela se limitava a dizer asperamente ao papagaio: auge, isto é, “pára” e ele se aquietava sem proferir palavra e por mais que lhe disséssemos não movia nem o pé nem a língua. Se os antigos romanos foram bastante sábios para fazer suntuosos funerais ao corvo que, em seus palácios os saudava por seus próprios nomes, tirando mesmo a vida a quem o matava, como nos refere Plínio, imaginasse o que não teriam feito se tivessem possuído um papagaio tão perfeitamente ensinado! (Léry, 1980, p. 150-151).

Se Deus havia criado seres de todo o mundo, nenhum deveria ser desprezado, pois todos fazem parte da criação. Mesmo a menor das criaturas tem algo a ensinar:

[...] Mas a obra-prima de pequenez e maravilha é o pequeno pássaro denominado gonambych pelos selvagens. Tem as penas esbranquiçadas e brilhantes e embora não seja maior do que um besouro, prima no canto. Esse pequeníssimo passarinho quase não se arreda de cima dos pés de milho, o avatí dos índios, ou de outros arbustos, e está sempre de bico aberto. Se não o víssemos e ouvíssemos não poderíamos acreditar que de tão miúdo corpo pudesse sair canto tão alto, claro, nítido como o do rouxinol (Léry, 1980, p. 153).

Uma descrição que nos chama a atenção, entre as demais, é a de uma ave pela qual, de acordo com Léry, os selvagens tinham muita consideração. Tal espécie é descrita pelo cronista como um animal de cor cinza e maior do que o pombo, além de possuir a voz mais aguda e plangente ainda do que a coruja, esta considerada antigamente como arauto da morte. Para os Tupinambás o clamor desta ave representa um sinal de boa sorte na guerra. Segundo Léry, tais índios acreditavam que se seguissem os conselhos indicados pelo augúrio deste pássaro venceriam seus inimigos e, após sua morte, se encontrariam com seus ancestrais.

Certa noite em que dormi numa aldeia chamada Ypec pelos franceses, ouvi à tarde cantarem esses pássaros um canto melancólico e vi os selvagens quedarem silenciosos e atentos. Conhecendo a causa de tal atitude, quis convencê-los de seu erro. Mas apenas toquei no assunto e me pus a rir juntamente com outro francês que me acompanhava, um ancião ali presente exclamou com rudeza: “Cala-te e não nos impeças de ouvir as boas novas que nos enviam nossos avós; quando ouvimos essas aves ficamos todos contentes e nos sentimos com novas forças” (Léry, 1980, p. 154).

Outra descrição relevante refere-se aos morcegos. Segundo Léry, estes são do mesmo tamanho das gralhas e entram nas casas das pessoas quando estas estão dormindo, mordem, então, seu dedão e lhe sugam o sangue sem ser percebido. Léry, a respeito ainda deste animal nos relata um episódio vivido pelos moradores da costa de Cumana retratado pelo autor da História Geral das Índias:

Achava-se doente em Santa Fé de Carabici, vítima de uma pleuris, o criado de um frade. Como não encontrassem a veia para sangrá-lo foi deixado por morto; mas à noite apareceu um morcego que o mordeu no calcanhar descoberto, fartando-se de sangue; e como deixasse a veia aberta, tanto sangue perdeu a vítima, que sarou. Foi o morcego, digo-o eu com o historiador, o benemérito cirurgião do pobre doente.

Assim, não obstante o mal que fazem os morcegos da América, longe estão de ser nocivos como essas aves sinistras a que os gregos chamavam estrígias e que, segundo Ovídio, sugavam os meninos no berço, razão pela qual esse nome foi dado mais tarde às feiticeiras (Léry, 1980, p. 154-155).

No capítulo XII, “Dos peixes mais comuns e do modo de pescá-los”, o autor nos relata outra história que ouviu dos índios. Nesta sua narração, Léry refere-se a outro aspecto do pensamento medieval o qual admitia que tudo o que existia num determinado elemento do universo tinha uma contraparte em outro elemento. Desta forma, se existia um homem que habitava na terra havia um homem que habitava no mar. Apesar desta relação de semelhança, existia uma conotação de monstruosidade sobre a espécie correspondente. É ligado a esse pensamento medieval que o cronista francês nos remeterá à figura do tritão, da sereia e do bugio marinho:

Não quero omitir a narração que ouvi de um deles de um episódio de pesca. Disse-me ele que, estando certa vez com outros em uma de suas canoas de pau, por tempo calmo em alto mar, surgiu um grande peixe que segurou a embarcação com as garras procurando virá-la ou meter-se dentro dela. Vendo isso, continuou o selvagem, decepei-lhe a mão com uma foice e a mão caiu dentro do barco; e vimos que ele tinha cinco dedos como a de um homem. E o monstro, excitado pela dor pôs a cabeça fora dágua e a cabeça, que era de forma humana, soltou um pequeno gemido. Resolva o leitor sobre se se tratava de um tritão, de uma sereia ou de um bugio marinho, atendendo a opinião de certos autores que admitem existirem no mar todas as espécies de animais terrestres (Léry, 1980, p. 164, grifos nossos).

De fato, é com constância que encontramos o relato de figuras quiméricas que habitam o mar e que aterrorizam o homem. Dentre lês, a sereia é o animal aquático híbrido mais importante. Ela aparece no Fisiólogos e nos bestiários caracterizada da cintura para cima como uma mulher e, da cintura para baixo, ela poderia ser uma ave ou um peixe. As sereias aparecem como criaturas malignas que seduzem os homens e os matam. Os tritões, híbridos marinhos, não aparecem nos bestiários, porém eles são conhecidos pela cultura medieval.

Apesar de o cronista francês Jean de Léry não ter mencionado, podemos comparar esse animal descrito pelo índio com o monstro marinho conhecido por Ipupiara. A lenda de tal besta é uma das mais conhecidas de São Vicente sendo, por esse motivo, narrada por vários índios. De acordo com Muniz Jr. (2005):

Quando os navegadores portugueses chegaram ao Brasil, corria a notícia de serpentes monstruosas e de tantas outras assombrosas aberrações. Tanto é que os indígenas tinham pavor da ipupiara, que, segundo a crença, era o "demônio das águas" e que, além de paralisá-los com o olhar profundo, cingia-os com um abraço moral, arrastando-os para o fundo do mar.

Esse monstro também é encontrado nas narrativas de vários cronistas como, por exemplo, em Tratados da terra e gente do Brasil, de Fernão Cardim e História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pêro de Magalhães Gândavo.

A partir do que foi exposto não podemos dizer que este período estava isento de heranças medievais ou da Antiguidade, ao contrário, o desconhecimento do Novo Mundo ocasionou o renascimento do pensamento medieval e genesíaco. Verificamos também a crença na influência da religião no mundo, na sua forma e em seus habitantes. Buscamos, além disso, apresentar o cronista francês Jean de Léry e levantar a presença do pensamento medieval bestiário no que concerne às descrições da fauna brasileira realizadas por ele.

 

REFERÊNCIAS

ACOSTA, Vladimir. (1995) Animales e imaginário: la zoologia maravillosa medieval. Caracas: Universidad Central de Venezuela/Dirección de Cultura.

BUENO, Eduardo. (2003) Brasil: terra à vista!: a aventura ilustrada do descobrimento. Porto Alegre: L&PM.

DEL PRIORE, Mary. (2000) Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano: uma história dos monstros do Velho e do Novo Mundo (séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras.

LÉRY, Jean de. (1980) Viagem à terra do Brasil. Tradução e notas de Sérgio Millet. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

MESGRAVIS, Laima; PINSKY, Carla Bassanezi. (2000) O Brasil que os europeus encontraram: a natureza, os índios, os homens brancos. São Paulo: Contexto. (Repensando a história).

MUNIZ JR., J. Monstro marinho surgiu em São Vicente em 1564. Disponível em: <

VAN WOENSEL, Maurice. (2001) Simbolismo animal na Idade Média: os bestiários: um safári literário à procura de animais fabulosos. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB.

WHITE, Terence Hanbury. (1954) The book of beasts: being a translation from a latin bestiary of the twelfth century. London: J. Cape.

 

[*] Comunicação apresentada em outubro de 2005, em Goiânia, Brasil, no Simpósio “Leitura de Narrativas”.

 

Vanessa Gomes Franca é Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás. Professora de Literatura Brasileira do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás - UnU de Campos Belos. Atua, principalmente, nos seguintes temas: literatura infantil/juvenil brasileira e francesa; tradução; relações entre Literatura e História; bestiário medieval; cronística do século XVI e XVII, narrativa brasileira moderna e contemporânea; relações entre Literatura e Bíblia. Francavg@hotmail.com

 

© Vanessa Gomes Franca 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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