Molduras da memória, palimpsestos do tempo:
uma leitura da poesia memorialística de Carlos Drummond de Andrade

Alana de Oliveira Freitas El Fahl

Doutoranda em Letras
Universidade Federal da Bahia


 

   
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Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar poemas de Carlos Drummond de Andrade ligados à temática da memória. Ao longo de sua vasta produção é perceptível que as lembranças da infância, da família, das casas e das cidades em que viveu tornam-se alimentos constantes de sua poética.
Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade - Lirismo- Memória.

Abstract: The present article aims to study some Carlos Drummond de Andrade's poems related with the theme of memory. Throughout his vast work, the remembrance of childhood, family, houses, and cities where he lived nourishes a very import part of his poetic.
Keywords: Carlos Drummond de Andrade; Lyrism; memory

 

1. ESCREVER PARA LEMBRAR

1.1 Amar o perdido, atando as pontas da vida

A obra poética de Carlos Drummond de Andrade oferece aos seus leitores um vasto universo de temas e possibilidades de leituras. Na sua longa trajetória pelas letras, o poeta mineiro contemplou uma ampla diversidade de assuntos, dos mais prosaicos aos mais complexos, sempre com o seu estro refinado.

O seu lado de poeta social, que convida seus leitores, todos os josés possíveis, a sentir os perfumes da rosa do povo ou irmanarem-se ao sentimento do mundo, é apenas uma das faces do bruxo itabirano.

Existem outros tantos motivos literários atravessando a sua obra, um deles, que destacaremos neste artigo, consiste na presença constante do binômio tempo/memória na sua travessia poética.

O poeta, em vários momentos de sua obra, debruçou-se sobre a poesia memorialística, buscando na sua experiência pessoal, os motes que alimentaram muitos dos seus textos. E é justamente sob a mesma perspectiva que surgem também as relações temporais na sua poesia. Drummond trabalha em muitos poemas com a reversibilidade do tempo, trazendo para o presente eventos do passado, atividade só possível através da memória, única faculdade humana capaz de subjugar a irreversibilidade do tempo.

Assim, nesse território de sua poética, ele realiza a condição do poeta lírico por excelência, ou seja, recorda-se, rememora o já vivido, traz de volta ao coração aquilo que lhe ficou registrado, fazendo vir à tona no tempo presente, o passado revisitado pelo olhar do poeta preso ao seu tempo, porém habitado pelos fantasmas do pretérito.

As lembranças do poeta retornam ao cenário de sua poesia, sob várias formas, ora despertadas por objetos concretos, ora por presenças diáfanas. É comum surgirem imagens da infância, da casa paterna, da história de sua família, emolduradas pela escritura do poeta.

Suas memórias mais íntimas por vezes cruzam-se com a própria memória do Brasil, já que a sua família representa uma metonímia de capítulos da História do Brasil, a história da riqueza dos latifúndios mineiros, com suas fazendas de café e gado, ou a própria exploração dos metais das Minas Gerais, que aparecem em flashes nos poemas do autor, já que dessa imponência do passado só restaram iscas de memória (Tive ouro, tive gado, tive fazendas. / Hoje sou funcionário público.).

Nessa perspectiva de escrever para lembrar, o poeta reconstitui ao lado de sua memória pessoal, elementos da memória brasileira, recontados não por registros oficiais, mais justamente através de arquivos afetivos acessados pelas reminiscências do poeta.

Como norteador do motivo literário “memória” na obra do autor, destacamos o poema Memória (Claro Enigma, 1951), que parece delinear a relação do poeta com o tempo passado e a sua permanência pulsante no tempo presente:

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Este poema apresenta a dimensão que o poeta confere ao passado em sua vida.O passado o confunde, ou seja, permanece no presente de forma inolvidável, e são justamente as memórias, artefatos de matéria intangível, que marcam a sua vida, se ramificando no presente, ao contrário de outras experiências concretas que se esvanecem ao serem tocadas.

Além disso, ao observamos a forma do poema, vemos que o poeta o trata de modo especial, buscando a harmonia, através de rimas regulares e estrofes equilibradas, revelando assim a reverência que o poeta tem pela memória, já que a trata pelo principio da beleza estética, princípios da analogia.

Como molduras recortadas do tempo pretérito vão surgindo na poesia de Drummond, cenas, objetos, costumes, reflexões em torno dos tempos já findos, mas que sempre ficarão.

 

2. MOLDURAS DA MEMÓRIA

2.1 Álbuns e laços de família, a dor do olhar

Na poesia memorialística, Drumonnd nos convida muitas a visitar as suas moradas da infância, seja a casa da fazenda ou a casa da cidade, como também nos oferece o seu álbum de família para folhearmos. As fotografias desse álbum ou os objetos dessas casas funcionam como museus de miniaturas que reúnem todo um acervo de lembranças que por vezes revisitam a vida presente do poeta.

Construindo poesia a partir das marcas de imagens do seu passado, o poeta nos apresenta recortes de suas recordações, que aparecem emoldurados pelas suas hábeis letras. Articulando as grafias possíveis, o autor apresenta a sua família e o que ela representa, através de poemas que pintam o passado do seu clã, agora um retrato na parede, como Itabira, mas que continua doendo e confundindo o seu coração. Observemos o poema Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940):

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas

Nesse poema podemos notar claramente a presença da origem/passado do autor, que começa a ser enunciado no título do poema. Os mortos vestidos de sobrecasaca retratam os antepassados dos Andrade. Os dois substantivos expostos no título e que retornam no poema são índices de um tempo remoto.

A partir do álbum de família, ainda que situado num canto, ângulo das recordações, o passado permanece balizando o presente do poeta através de suas memórias. As fotografias surgem como provas tangíveis do passado, todavia o que lhe toca nas fotografias, aquilo que a inexorabilidade do tempo não pode destruir, é o soluço imortal que ainda emana das imagens amareladas. Todos ali já estão dormindo profundamente, porém habitam ainda as recordações do poeta. Sobre o canto como motivo literário observa Bachelard no ensaio A Poética do Espaço (2003: p.149):

E todos os habitantes dos cantos virão dar vida à imagem, multiplicar todas as nuanças de ser dos habitantes dos cantos. Para os grandes sonhadores de cantos, de ângulos, de buracos, nada é vazio, a dialética do cheio e do vazio corresponde apenas a duas realidades geométricas. A função de habitar faz a ligação entre o cheio e o vazio. Um ser vivo preenche um refúgio vazio. E as imagens habitam. Todos os cantos são freqüentados, se não habitados.

A citação acima se coaduna perfeitamente com a atribuição que Drummond confere ao álbum de fotografias, é do canto que emanam as recordações daqueles que novamente são convidados a habitar o presente do poeta. O vazio do presente é preenchido pela vida que ainda pulsa dos seus antepassados, ainda que estejam mortos e vestidos de sobrecasaca, indícios materiais do pretérito.

É interessante perceber em outros poemas do autor, a presença/referência da fotografia como um elemento que faz vir à tona as reflexões sobre o passado do poeta. Podemos citar como exemplos o emblemático Confidência do Itabirano (Sentimento do Mundo, 1940), no qual sua terra natal é cantada em tom de elegia pelos versos: Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!, ou ainda no soneto A grande dor das coisas que passaram, do seu livro póstumo Farewell (1996), onde as lembranças de um idílio amoroso emergem entre fotos mil que se esgarçavam, a fim de exaltar o redivivo amor que de memória-imagem se alimenta.

Todavia, a ratificação da fotografia como portadora de reminiscências, surge como um forte impulso lírico no poema Retrato de Família (Rosa do povo, 1945). Nesse longo poema o autor se põe a contemplar uma fotografia de sua família, passados vinte anos de sua data de origem.

O retrato, daqueles que reúnem toda a família, funciona como uma genealogia de seu clã. A fotografia é analisada pelo olhar do poeta, uma mescla de respeito e constatações melancólicas.

É interessante notar que ao longo do poema, o poeta não só fala dos familiares, pai, tios, avó, meninos. Ele também destaca outros elementos presentes na fotografia, como o jardim, a areia, as flores e as cadeiras, objetos que também compõem a imagem da família e por essa razão também são, juntamente com as pessoas, corroídos pelas implacáveis duas décadas passadas. O poema é entrecortado por palavras que retratam símbolos de corrosão, como poeira, amarela, extintos e cinzento, signos que reforçam a inexorabilidade do tempo.

Costa Lima destaca esse efeito da passagem do tempo na poesia de Drummond no ensaio O Princípio-Corrosão na Poesia de Carlos Drummond de Andrade, do seu livro Lira Antilira (1995: p.149), segundo ele, a corrosão ataca os objetos familiares, e é comum aparecer associada aos objetos presentes nas lembranças da casa paterna.

É evidente no poema em questão, como também no anterior (Os mortos de sobrecasaca) a veracidade da afirmação citada, uma vez que como já foi dito, os símbolos da corrosão se fazem presentes.

É nítido o passado convivendo com o presente em forma de ruínas, metaforizadas nos poemas através de palavras como verme, roer e poeira, esta última verificada nos dois textos.

Agora destaquemos algumas passagens de Retrato de Família:

A moldura deste retrato
em vão prende suas personagens.
Estão ali voluntariamente,
saberiam - se preciso - voar.

Poderiam sutilizar-se
no claro-escuro do salão,
ir morar no fundo dos móveis
ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
e papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
quando a matéria se aborrece?

A referência à moldura estabelece a relação com o papel que o poeta dá ao passado. O tempo já emoldurado pode ser revisto, revisitado. O passado foi imobilizado pela passagem do tempo, todavia continua pulsando (saberiam - se preciso - voar.) e despertando reflexões.

Como vemos na estrofe seguinte, o lugar das memórias deveria ser, o fundo dos móveis, ou o bolso de velhos coletes, ou seja, espaços bem reservados, bem arquivados, onde ficariam sutilmente (Poderiam sutilizar-se) guardados do seu olhar, porém pela fotografia, flagrantes da memória, as lembranças ficam expostas e por isso, doem.

Na última estrofe selecionada, o poema menciona outros espaços portadores de memória de tempos já findos, as gavetas e os papéis, como depositários de muitas lembranças em repouso, mas que retornam à vida pelo toque do poeta.

É como se o poeta partisse do pequeno universo registrado pela fotografia, e fosse expandindo o seu olhar para os outros receptáculos de recordações que também habitam sua casa, morada de suas memórias.

É possível flagrar, ainda sob o signo da corrosão, uma certa ironia do poeta ao contrastar o passado, idade de ouro, e a parcimônia do presente Por vezes, o tom de lamento, mesmo que mitigado por notas de humor, pode ser registrado, como podemos ver no poema Herança (Menino Antigo, Boi Tempo II, 1973):

De mil datas minerais
com engenhos de socar
de lavras lavras e mais lavras
e sesmarias
de bestas e vacas e novilhas
de terras de semeadura
de café em cereja (quantos alqueires?)
de pratas em obras (quantas oitavas?)
de escravos, de escravas e de crias
de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai
da aurifúlgida comenda no baú
enterrado no poço da memória
restou, talvez? Este pigarro.

O poema já se denuncia irônico pelo título, que ao referir-se à herança, nos remete de imediato a bens materiais. Todavia o movimento do poema é justamente o oposto, todos os aspectos materiais vão se desintegrando, de forma abrupta, registrada lingüisticamente no poema pela sucessão da conjunção coordenada aditiva - e, e pelo encadeamento da preposição - de, que sugerem no poema um ritmo acelerado das perdas da história da vida do poeta.

O tom da desintegração perpassa todo o poema, a idéia de poeira e ruína, novamente se faz presente, a partir de uma cadeia decrescente, as suas heranças vão se desfazendo rapidamente até alcançarem a condição de vestígio da memória, representado no poema pela imagem do baú, outro objeto portador de reminiscências por excelência, e depois das lembranças somente o pigarro, resíduo infecto, herança indesejada.

Ainda vale notar no poema a seleção vocabular referente ao espólio perdido, palavras que delineiam um panorama completo de todas as riquezas significativas que já haviam pertencido ao clã do poeta, que vão sendo elencadas no poema como uma série de bens materiais imponentes, representativos de vários ciclos da economia mineira, até alcançar a aurifúlgida comenda, símbolo de ouro e fulgor, agora soterrada no baú da memória como os outros tesouros do passado, um título do prestígio da família, mas que também foi dissipado pelo tempo.

Os retratos justamente teriam essa função mágica de aprisionar o tempo, de imortalizar um instante, de tornar eterno um momento instantâneo que jamais voltará, a menos que as fotografias ou outras armadilhas incitem a memória, deflagrando as recordações.

Para validar o que foi dito, citemos o próprio poeta, em um trecho do poema Diante das Fotos de Evandro Teixeira (Amar se aprende amando, 1985):

Fotografia é o codinome
Da mais aguda percepção
Que a nós mesmos nos vai mostrando
E da evanescência de tudo,
Edifica uma permanência,
Cristal do tempo no papel.

Fecharemos agora o álbum de família, para visitarmos a(s) casa(s) do poeta.

 

3. PALIMPSESTOS DO TEMPO

3.1 A ilustre casa das recordações

Num movimento de ampliação do olhar deixemos as fotografias e passemos a visitar a(s) casa(s) do poeta, imagem também recorrente em sua obra poética. A imagem da casa como motivo literário permanente, atravessa a obra do autor justamente como ocorre com as imagens fotográficas já apresentadas.

O símbolo da casa aparece também como receptáculos de lembranças, guardiãs de enredos múltiplos que o poeta vai reconstruindo, ao decerrar as cortinas do palácio da memória, como sugere Santo Agostinho em Confissões.

Aparecem nos poemas algumas casas do poeta, como a casa da fazenda em Itabira e a casa de Belo Horizonte, além de mais tarde vermos surgir referências a edifícios e apartamentos, numa alusão à sua mudança para o Rio de Janeiro.

Pois são nessas primeiras casas, de sua pátria mineira, que focaremos nossa análise, visto que elas estão sempre povoando o presente do autor.

No poema Infância (Alguma Poesia, 1930), já no primeiro livro do poeta, é apresentada a casa da fazenda, embora ela não seja explicitamente citada, podemos reconstituir pelas ações da sua família e outras referências mencionadas no poema, a rotina de uma casa de fazenda do início do século XX.

Através dos comportamentos do pai (montava a cavalo), da mãe (ficava sentada cozendo), e também da preta velha que chamava para o café com uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala, podemos compor o cenário de sua casa de fazenda. Reduto de uma parcela da história brasileira, notas de uma sociedade patriarcal que ainda convivia com os resquícios da escravidão.

Notamos também no poema Casarão Morto (Menino Antigo, Boitempo II, 1973), a presença desse mesmo espaço rural, que é registrado pelo poeta agora com um tom saudosista ao lamentar a destruição/transformação desse lócus:

Café em grão enche a sala de visitas,
os quartos - que são casas - de dormir.
Esqueletos de cadeiras sem palhinha,
o espectro de jacarandá do marquesão
entre selas, silhães, de couro roto.
Cabrestos, loros, barbicachos
pendem de pregos, substituindo
retratos de óleo de feios latifundiários.
O casarão senhorial vira paiol
depósito de trastes aleijados
fim de romance, p . s.
de glória fazendeira.

O poema acima tanto pode ser lido como uma página memorialística do poeta, como também pode ser analisado como um registro histórico das mudanças ocorridas na economia brasileira da primeira metade do século XX.

Vemos, metonimicamente, um Brasil rural sendo gradativamente soterrado como um depósito de trastes aleijado.Os retratos a óleo dos antepassados passam a ocupar o mesmo espaço que os já inúteis objetos de couro, metáfora exata para a decadência de seu clã. É o fim de uma era, enunciada com todas as letras pelo poeta, fim da glória fazendeira. A casa da fazenda, o casarão agonizante, encerra um ciclo, é agora um engenho de fogo morto, mas que ainda sobrevive como suas fagulhas nas lembranças do menino antigo.

Novamente esse espaço ressurge sob o mesmo tom de finitude no poema Depósito (Boitempo, 1968), os mesmos objetos, símbolos da extinta glória fazendeira agora estão entulhados, como se estivessem numa loja, só que sem comerciantes para negociá-los. A única presença viva nesse depósito de trastes partidos que não podem ser consertados é uma enorme aranha negra, a tecer seus fios de tempo e dor.

Notamos nesses poemas a presença da relação espaço/tempo que vai se estabelecendo a partir das ruínas da memória. O autor revive um espaço físico, portanto uma presença concreta que habitou um tempo já passado, e os faz retornar em forma de resíduos acridoces que o visitam no presente. Affonso Romano de Sant’anna (1992:p.190) afirma a esse respeito:

Sendo poesia uma construção sobre ruínas, é aquilo que se salva no tempo e se estabelece como memória do próprio tempo. Poesia é o que resiste à destruição. O próprio Drummond diz: “o que se dissipou não era poesia.”. Poesia é o que fica depois do fluxo, da vida. É a derrota do tempo, porque é uma forma que se imtemporalizou ao sintetizar vida e morte e ao somar ganhas & perdas de um modo dialético. É uma forma intemporal mas se funde no tempo.

A citação do crítico, especialista na obra drummondiana, enfatiza com muita coerência o tratamento do aspecto temporal desenvolvido pelo poeta. Essa face de sua poética utiliza-se da memória para reconstruir no presente, ainda que como ruínas, as recordações do passado. No presente, as imagens da casa de infância são revisitadas num passado que ficou preservado na lembrança.

Para entendermos essa vertente do poeta, podemos compará-la à imagem do palimpsesto, ou seja, nos pergaminhos do poeta, na suas grafias, há a coexistência de vários tempos habitando seu processo de criação, a cal do escriba moderno é dissolvida pela força da memória, fazendo com que tecituras do passado migrem para o presente. É perceptível uma intersecção de tempos que ora se tangenciam, ora se interpenetram. Aspecto registrado por Fábio Lucas (in Fortuna Crítica, 1978: p.241):

Convém, finalmente, assinalar que, em Drummond, há várias dimensões do tempo. A primeira o faz depósito, no qual o poeta, escafandro, mergulha voluntariamente em busca da reconstrução de si mesmo. Chamemos a tal subsolo infratempo. Lugar onde adormecem as sensações, vertente do sentimento do mundo, convívio com o exterior moldável ou adverso. O poeta, aí, manipula a própria biografia: reminiscências, evocações, o mundo infantil, a família, a terra natal, Minas gerais - conjunto e argamassa de seu ser-no-mundo.

A nomenclatura infratempo sugerida por Fábio Lucas casa-se perfeitamente com a representação do palimpsesto, com a idéia de que existem outros tempos/textos soterrados sob o tempo presente, prontos a eclodir pelas brechas da cal. Os resíduos estão sempre emergindo para a superfície exposta.

A imagem do escafandro nos remete à imagem do escavador, arqueólogo de si mesmo, retratada por Drummond no poema Coleção de Cacos (Esquecer para lembrar, Boitempo III, 1979), como observamos nos versos: Agora coleciono cacos de louça/ quebrada há muito tempo./ Cacos novos não servem./ Brancos também não./ Têm de ser coloridos e vetustos, / desenterrados - faço questão- da horta.

As imagens das casas vêm à tona exatamente permeadas por essa confluência de tempos. A casa seria o principal espaço das recordações. Ela guarda as mais várias odisséias do menino antigo, que vêm como fantasmas rondar o homem de óculos e bigodes, o homem do tempo presente.

A casa vista como palimpsesto, fica explícita no poema Casa sem Raiz (Esquecer para lembrar, Boitempo III, 1979), neste poema o autor busca em vão fundir a casa de Itabira na casa de Belo Horizonte, do qual destacaremos algumas estrofes (1, 2, 4 e 6 respectivamente):

A casa não é mais de guarda-mor ou coronel.
Não é mais o Sobrado. E já não é azul.
É uma casa, entre outras. O diminuto alpendre
onde oleoso pintor pintou o pescador
pescando peixes improváveis. A casa tem degraus de mármore
mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,
Que repercute no Pará. Os tambores do clã.
A casa é em outra cidade,
Em diverso planeta onde somos, o quê? Numerais moradores.

Tem todo o conforto, sim. Não o altivo desconforto
do banho de bacia e da latrina de madeira.
Aqui ninguém bate palmas. Toca-se a campanhia.
As mãos batiam palmas diferentes.
A batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena.
A campanhia emite um timbre sem história.
A casa não é mais a casa itabirana.

Aqui ninguém morreu, é amplamente
o vazio biográfico. Nem veio de noite a parteira
(vinha sempre de noite, à hora de nascer)
enquanto a gente era levada para cômodos distantes,
e tanta distancia havia dentro, infinito, da casa,
Que ninguém escutava gemido e choro de alumbramento,
E de manha o sol era menino novo.

Tão estranho crescer, adolescer
com alma antiga, carregar as coisas
que não se deixam carregar.
A indelével casa me habitando, impondo
sua lei de defesa contra o tempo.
Sou o corredor, sou o telhado
sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo
à espera do embornal. Casa-cavalo,
casa de fazenda na cidade,
o pasto, ao Norte; ao Sul, quarto de arreios,
e esse mar de café rolando em grão
na palma de sua mão - o pai é a casa,
e a casa não é mais, nem sou a casa térrea,
terrestre, contingente,
suposta habitação de um eu moderno.

A Casa sem Raiz talvez seja um dos poemas mais significativos da poesia memorialística. Nele podemos perceber a presença do jogo temporal conduzindo todo o texto. A casa de Belo Horizonte contém a casa de Itabira, obviamente representada pelas reminiscências da casa antiga.

Dessa forma o presente contém o passado, e este passado está de tal forma enraizado no poeta, que ele já não precisa da presença material da casa, o Sobrado já faz parte dele, o amador transformou-se na coisa amada, como fica claro nos versos: Sou o corredor, sou o telhado sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo à espera de embornal.O intangível subjuga o material, o poeta prefere o som dos tabuões pisados de botas, à imponência do frio mármore.

Vemos nas duas primeiras estrofes uma tentativa de comparar as casas, buscando as benesses da casa nova, porém tal procedimento não alcança êxito, pois o poeta não consegue desvencilhar-se da casa antiga, idéia já trabalhada no poema Casa (Boitempo, 1968), no qual o poeta descreve a sua casa da infância, reservando somente para ela o título de casa, como revelam os versos que concluem o poema: Há de ser por fora azul 1911./ Do contrário não é casa.

A casa de Belo Horizonte é apenas uma casa entre outras que os transforma em numerais moradores, também pessoas entre outras. Ao passo que a casa itabirana é a portadora de todo o seu passado é nela que ecoa os tambores do clã, imagem das mais importantes do poema porque funciona como uma metonímia de todo o passado histórico de sua família, uma metáfora da origem, do primitivo que preenche a casa azul, a casa do guarda- mor e do coronel.

O poeta não consegue instalar na casa de Belo Horizonte as vivências da casa de Itabira, como Dom Casmurro não conseguiu reproduzir a casa de Matacavalos no Engenho Novo, pois a casa atual é vazia, é uma casa sem história, embora seja uma casa confortável, com marcas urbanas de requinte (degraus de mármore, campanhia), ele prefere o antitético altivo desconforto da casa primeira, representado pelo banho de bacia e latrina de madeira.

A casa da cidade é uma casa sem raízes, por isso incapaz de substituir a casa azul. São latentes as marcas históricas que o poeta imprime à casa itabirana. Enquanto a outra é um vazio biográfico, o sobrado rural é o livro de registros da família, onde estão elencados a história dos seus, bem delineada no poema pela citação das mortes e nascimentos, signos da vida e de sua perpetuação.

Na 6ª estrofe, a idéia anunciada pelo autor no poema Memória, retorna exemplarmente. As coisas findas, porque são muito mais que lindas, resistem à ação do tempo, como ratificam os versos: A indelével casa me habitando, impondo sua lei de defesa contra o tempo. A casa antiga habita o poeta.

Bachelard (p.25) atribui à casa um grande valor simbólico. Portanto ela representa um dos motivos literários do universo poético por excelência. As considerações que o filósofo faz sobre a casa conjugam-se especialmente com o poema em análise:

...Vive a casa em sua realidade e em virtualidade, através do pensamento e dos sonhos.

Por conseguinte, todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm valores oníricos consoantes. Já não é em sua positividade que a casa é verdadeiramente “vivida”, não é somente no momento presente que reconhecemos os seus benefícios. Os verdadeiros bem-estares têm um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa nova casa. A velha locução: “Levamos para a casa nova nossos deuses domésticos” tem mil variantes.

As observações de Bachelard atestam com eficácia o que lemos nos versos do poeta. As memórias da casa antiga o acompanham de forma indelével e passam a habitar na casa nova como presenças reais, mesmo que oníricas, elas se corporificam no presente do poeta.

A imagem da casa como um espaço material povoado por imaterialidades, que por sua vez, são mais significativas que os objetos concretos, também surge no poema Liquidação (Boitempo, 1968):

A casa foi vendida com todas as lembranças
Todos os móveis todos os pesadelos
Todos os pecados cometidos ou em via de cometer
A casa foi vendida com seu bater de portas
Com seu vento encanado sua vista do mundo
Seus imponderáveis
Por vinte, vinte contos.

Aqui a casa foi vendida e junto com ela todas as histórias que a habitavam. A mobília dessa casa não é apenas constituída por objetos materiais, ao contrário, à exceção dos móveis, todos os bens citados fazem parte de um patrimônio intangível, representados pelas lembranças que o poeta guardava da casa.

A idéia impressa no título, Liquidação, nos sugere que a casa foi vendida por um valor muito aquém do valor real, porque os elementos que o poeta arrola são justamente “objetos” de preços simbólicos, os ditos “objetos” de valor sentimental, portanto incalculáveis. Os imponderáveis vinte contos não são capazes de comprar o bater de portas, o vento encanado e, sobretudo sua vista do mundo.

E é neste último bem, a sua vista para o mundo que reside toda a força da poesia de Carlos Drummond de Andrade, porque o que diferencia o poeta do homem comum, é justamente saber olhar e ver aquilo que os outros não alcançam, revelando para estes outros homens o indecifrável texto da máquina do mundo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião. José Olympio Editora: Rio de Janeiro, 1978.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Record: Rio de Janeiro, 2003.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. Record: Rio de Janeiro, 1998.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Literatura Comentada. Org. Rita de Cássia Barbosa. Nova Cultural: São Paulo, 1988

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Martins Fontes: São Paulo, 2003.

LIMA, Luiz Costa. Lira & Antilira. Topbooks: Rio de Janeiro, 1995.

LUCAS, Fábio. Drummond, Dentro e Fora do tempo (in fortuna crítica). Dir. Afrânio Coutinho. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1978.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond - o gauche no tempo. Record: Rio de Janeiro, 1992.

 

© Alana de Oliveira Freitas El Fahl 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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