Chove sobre minha infância:
A poética do duplo e a reflexão sobre a vida *

Alzira Fabiana de Christo

Mestre em Letras
Programa de Pós-Graduação (Doutorado) em Letras
Universidade Estadual de Londrina (UEL)
fabizizi@hotmail.com


 

   
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Resumo: Este trabalho constitui uma análise do livro Chove sobre minha infância, do escritor brasileiro Miguel Sanches Neto. A obra em questão aborda a trajetória de Miguel, um menino pobre, que alimenta o sonho de ser escritor em um universo em que as ações estão ligadas ao cultivo da lavoura. Sanches Neto ambienta espacialmente Chove sobre minha infância, em Peabiru, cidade na qual foi criado, situada no Noroeste do Paraná, fato que corrobora para a mescla entre o real e o ficcional. Ao reproduzir a sociedade do interior paranaense, Miguel Sanches Neto não está apenas estabelecendo um perfil histórico, social e econômico do Estado, mas, fazendo um retorno a um modo de organização social distinta dos grandes centros industriais. Há na obra de Sanches Neto uma revelação da identidade social presente no interior paranaense entre as décadas de 1950 a 1980. Ao (re)construir esse contexto, o escritor atenta para um período de transformação na sociedade paranaense, isto é, é a passagem de uma agricultura de subsistência para uma agricultura mecanizada e globalizada.
Palavras chave: Miguel Sanches Neto; Chove sobre minha infância; memória; duplo.

Abstract: This task is related to an analize from the book Chove sobre minha infância written by Minguel Sanches Neto from Parana State. This work tells Miguel’s journey as a poor boy, who dreams to be a writer around a universe where the actions are linked to harvest and crops. Sanches Neto adapts Chove sobre minha infancia, in Peabiru, place where he grew up, located in the Northwestern of Parana, this fact is strengthen by the mixture of real and fictional. When replicate the Parana countryside society Sanches Neto is not worried only to establish a historical, social and economic state profile, but, going back to the social organization way distinguished form the industrial centres. There is also in the work a social identity development in the countryside of Paraná between the 50s and the 80s. Rebuilding this context the author considers the society transformation period of Paraná; this is the passing of familiar agriculture to globalization agriculture.
Keywords: Miguel Sanches Neto; Chove sobre minha infância; memory; double

 

A presença do tema do duplo se faz presente nas mais diversas artes, como nas artes plásticas e, mais recentemente, no cinema. Porém, se trata de um tema célebre quando aparece associado à literatura. Conforme Mendonça,

Uma das mais fecundas manifestações deste mito tem sido a literatura [...] Sua preferência é bastante evidente no drama com a duplicação de personagens - gêmeos, muitas vezes - e mais subentendida, na poesia de domínio subjetivo (MENDONÇA, 2001, p. 144).

Tanto na lírica quanto na prosa, “o tema do eu e do outro é regido por uma lógica que lhe confere unidade: relacionado ao tema do duplo, o desdobramento do eu reflete uma inquietude metafísica e, ao mesmo tempo, aponta para uma profunda reflexão sobre a vida” (CRUZ, 2001, p. 117). A duplicação leva o homem ao seu alter ego - segundo eu - demonstrando uma orientação subjetiva.

Tentando aprofundar os estudos em relação à produção literária de Miguel Sanches Neto, o presente estudo toma como base a obra Chove sobre minha infância [1] (2000) e pretende identificar a presença do mito do duplo na narrativa, uma vez que por meio dos expedientes usados pelo escritor, tem-se o estilo literário delineado por ele. Nesse sentido, serão analisadas observações acerca do tema identidade e memória, bem como a respeito do tempo e espaço social.

As reminiscências da época infantil do escritor Miguel Sanches Neto são a base composicional de Chove sobre minha infância. A trama narrativa está ligada às recordações da personagem Miguel, um menino pobre, que sonhava em ser escritor. Contudo, o universo rústico do qual fazia parte, não lhe oferecia outra possibilidade senão a de repetir a trajetória das demais pessoas que compartilhavam da mesma realidade: Trabalhar na lavoura. Sanches Neto ambienta espacialmente o romance em Peabiru, cidade onde foi criado - situada no Noroeste do Paraná. Este expediente evidencia ainda mais o enlace entre o real e o ficcional

A arte sempre possibilitou ao homem a revelação da condição humana, uma vez que é por meio das expressões artísticas que há a possibilidade de o homem se recriar. Conforme Paz (1982): “A experiência poética é uma revelação da nossa condição original. E essa revelação é sempre resolvida numa criação: a de nós mesmos. A revelação não descobre algo exterior, que estava aí, alheio; o ato de descobrir entranha a criação do que vai ser descoberto: nosso próprio ser” (PAZ, 1982, p. 187). No dizer de Paz, portanto, mais do que recriar as circunstâncias em que o homem vive, o artista cria, por meio das imagens, a possibilidade do homem poder ser.

As produções que contemplam uma visão existencialista ocupam um espaço significativo na literatura. Essas produções que reservam um espaço especial ao eu, demonstram o quanto o homem tem necessidade do encontro consigo mesmo. De acordo com Souza, “a atitude do homem de registrar a sua presença irrepetível no mundo tornou-se, cada vez mais, necessária na época contemporânea devido às várias transformações históricas e sociais” (SOUZA, 1997, p. 124). Nesse sentido, a expressão do eu nas artes, além significar uma espécie de salvação do homem nos dias atuais - nos quais já não se acredita numa remição coletiva - demonstra a procura pelo outro, pois o homem é um ser duplo que necessita dialogar consigo mesmo e com o coletivo. Nesta perspectiva, as imagens do duplo podem expressar-se de diferentes formas, conforme Cruz (2001), “O tema do duplo pode expressar-se mediante recursos imagéticos: espelho, alteridade, retrato, sombra, reflexos, mito de Narciso, personagem gêmeo, ou sósia, entre outros. A princípio, este tema se refere à existência do outro, que duplica a existência do sujeito lírico” (CRUZ, 2001, p. 117). Por meio dessas imagens que representam a duplicação, o artista contempla o eu de forma investigativa, a qual parte de um questionamento a respeito da relação entre o sujeito e o seu próprio interior.

No Gênesis, quando há a cisão do homem em dois - homem e mulher - já a temática do duplo é posta em evidência. Com a sucessão dos anos, tanto artistas quanto filósofos, recorreram a esse tema. Conforme Bravo (1997), “sua eflorescência durante o romantismo não nos deve fazer esquecer que o mito do duplo remonta a épocas bem mais recuadas no tempo: antigas lendas nórdicas e germânicas contam o encontro com o duplo” (BRAVO, 1997, p. 262). Assim, a temática do duplo tem despertado interesse nas mais diversas áreas do conhecimento, conforme Bargalló (2004), o tema do eu e do outro e da identidade e alteridade tem despertado interesse em especialistas de todas as disciplinas das ciências humanas, especialmente da literatura Ocidental, a qual sempre teve o desdobramento como parte da sua estrutura. Para exemplificar a presença da temática do duplo na literatura de todos os tempos, Bargalló refere obras de escritores como, Heráclito, Platão, Sófocles e Plauto. Deste último destaca-se a comédia Anfitrião, a qual elucida a questão da duplicação por meio do sósia.

Atualmente, o mito do duplo, de acordo com Bravo (1997, p. 263), é estreitamente ligado à idéia da subjetividade, a qual teve início no século XVII quando fora lançada a relação binária sujeito-objeto. Até o final do século XVI, o mito do duplo simbolizava “o homogêneo, o idêntico: a semelhança física entre duas criaturas é usada para efeitos de substituição, de usurpação de identidade, o sósia, o gêmeo é confundido com o herói e vice-versa, cada um com uma identidade própria” (BRAVO, 1997, p. 263-264). Porém, a partir do século XVII o “duplo passa a representar o heterogêneo, com a divisão do eu chegando à quebra da unidade (século XIX) permitindo até mesmo um fracionamento infinito (século XX)” (BRAVO, 1997 p. 264). Por “heterogêneo” entende-se a forma de composição do duplo, ou seja, marcada pela diversidade de realizações e representações. Dom Quixote de la Mancha (1605-1615), de Miguel de Cervantes, foi um dos primeiros lançamentos desta fase. De acordo com Mendonça (2001), “Quixote, ao procurar imitar os heróis dos romances de cavalaria, revela uma inquietude busca de seu ‘outro’. Não o encontra, porém, na imitação de heróis de literatura, mas em Sancho Pança, em cujo afeiçoamento faz unir razão e sensibilidade” (MENDONÇA, 2001, p. 145).

Os estudos literários que contemplam a poética do duplo, efetuados no século XX, quase sempre, privilegiaram o ângulo psicológico, o qual relaciona os aspectos do duplo com os estudos da personalidade dos autores, devido a isso é que na maioria das vezes, o duplo está ligado ao mito de Narciso e às tradições mitológicas. A respeito dos heróis duplicados, Bravo (1997) afirma,

Os heróis que se desdobram apresentam uma disposição amorosa voltada para o próprio Ego e sofrem de uma incapacidade de amar. Um conflito psíquico cria o duplo, projeção da desordem íntima; o preço a pagar pela libertação é o medo do encontro. Mas o duplo está ligado também (2ª tese) ao problema da morte e ao desejo de sobreviver-lhe, sendo o amor por si mesmo e a angústia da morte indissociáveis. Visto sob essa perspectiva, o duplo é uma personificação da alma imortal que se torna a alma do morto, idéia pela qual o eu se protege de destruição completa, o que não impede que o duplo seja percebido como um “assustador mensageiro da morte”, do que resulta a ambivalência de sentimentos a seu respeito (interesse apaixonado/terror): ele é ao mesmo tempo o que protege e o que ameaça. (BRAVO, 1997, p. 263).

Deste modo, essa duplicidade recorrente na literatura realiza-se devido aos artistas encontrarem nesse expediente composicional o seu complemento, ou seja, por meio da construção de um duplo - o outro - há a possibilidade de um reconhecimento profundo do ser, ou seja, a recriação do eu, permite avaliar a própria condição existencial e entendê-la; o aparecimento do outro auxilia o entendimento de uma condição humana. Para Bargalló,

O desdobramento quem sabe não supõe mais uma metáfora dessa antítese e dessa oposição de contrários, cada um dos quais encontra no outro seu próprio complemento; do que resultaria que o desdobramento (a aparição do outro) não seria mais que o reconhecimento da própria indigência, do vazio que habita o ser no fundo de si mesmo e da busca do Outro para tentar entendê-lo (BARGALLÓ, 1994, p. 11).

No mesmo propósito, o desdobramento pode significar a angústia diante da morte, ainda de acordo com Bargalló, “a aparição do Duplo seria, em último caso, a materialização da ânsia de sobreviver frente à ameaça da morte. Não é em vão, segundo a influência de Freud, que para a literatura moderna, a aparição do Duplo é o indício de que a morte está próxima” (BARGALLÓ, 1994, p. 11). A respeito dessa relação existente entre morte e duplicidade, Bravo defende, a partir da concepção junguiana, que ela existe justamente por que a duplicidade representa uma nova condição de vida, ou seja, se é por meio do duplo que o sujeito se reconhece de fato, então, a partir desse autoconhecimento ele está apto para, depois de ter revelado as suas privações, uma nova etapa da vida. Segundo Bravo, “o sentimento de culpabilidade do eu indo dar no desejo de morte, para renascer, de acordo com a visão junguiana, num outro ser” (BRAVO, 1997, p. 263).

Contudo, a duplicidade não está necessariamente ligada à analogia; mesmo criando-se um duplo que aparentemente seja semelhante ao seu original, ele não deve ser confundido, pois, o duplo pode até mesmo ser o oposto de seu original. Bravo (1997), esclarece que a figura do duplo é sempre fascinante para aquele que ele duplica, em virtude do paradoxo que representa, uma vez que, ele é, ao mesmo tempo, “interior e exterior, está aqui e lá, é oposto e complementar, e provoca no original reações emocionais extremas (atração/repulsa). De um e outro lado do desdobramento a relação existente numa tensão dinâmica. O encontro ocorre num momento de vulnerabilidade do eu original” (BRAVO, 1997, p. 263). O ser, então dividido, é enfraquecido e predestinado a encontrar o seu outro com quem voltará a ser um.

Em Bravo, encontra-se uma série de escritores que se valeram das diversas maneiras de expressão do duplo. Dentre os temas heterogêneos destacados pela teórica, estão: “o eu estranho e a dispersão do eu”, “a união do vivente com o simulacro técnico”, “o símbolo da busca da identidade”, “o emblema da supra-realidade”, “os mitos de dentro e o inferno íntimo”. Entre os mestres do assunto na literatura, ela cita Dostoievski, Maupassant, Cortazar, Goethe e Kafka. Vale a pena salientar, que na literatura em Língua Portuguesa, vários poetas e romancistas desenvolveram em suas obras o tema do duplo, pode-se citar, dentre outros, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Ferreira Gullar e Helena Kolody.

Em suas obras - tanto em prosa quanto em poesia - Miguel Sanches Neto também contempla essa expressão existencialista, ou seja, se vale de imagens que revelam um eu questionador em busca do verdadeiro sentido sobre a vida. Em Chove sobre minha infância, por exemplo, há um personagem que recebe o nome do escritor, repete os seus comportamentos e atitudes da infância e relaciona-se com as pessoas com as quais o escritor se relacionou, nesse sentido, Sanches Neto criou um duplo que não é ele, mas um outro, isto é, uma personagem criada a partir das suas experiências de vida e, sobretudo, por meio do trabalho com a linguagem. A apresentação desse outro ajuda o eu a avaliar a vida de forma diferente; no momento em que há a partilha das vivências, ocorre a compreensão dos fatos e a revelação da sua condição original. Esta forma de elaboração literária, segundo Sabato (2003) é própria da época atual, de acordo com o escritor e crítico literário,

O romance do século XX não somente dá conta de uma realidade mais complexa e verdadeira do que a do século passado, como adquiriu uma dimensão metafísica que não tinha. A solidão, o absurdo e a morte, a esperança e o desespero são temas perenes de toda a grande literatura [...]. O romance de hoje, por ser o romance do homem em crise, é o romance desses grandes temas pascalianos. E, em conseqüência, ele não somente se lançou à exploração de territórios que aqueles romancistas nem suspeitavam, como também adquiriu dignidade filosófica e cognitiva. Como se pode supor em decadência um gênero com semelhantes descobertas, com domínios tão vastos e misteriosos por percorrer, com o conseguinte enriquecimento técnico, com sua transcendência filosófica e com o que representa para o homem angustiado de hoje, que vê no romance não apenas seu drama, como ainda busca sua orientação? Ao contrário, penso que é a atividade mais complexa do espírito de hoje, a mais integral e a mais promissora nessa tentativa de questionar e expressar o drama que nos coube viver (SABATO, 2003, p. 92).

Assim, Chove sobre minha infância é um romance com características das produções artísticas vigentes na atualidade. Tanto o seu tema, quanto a maneira como o autor o aborda é próprio da literatura de meados do século XX e início do XXI. Essa busca pelo entendimento dos fatos é a representação da angústia que impera sobre os espíritos humanos. O retorno ao passado é a principal característica desse homem em crise que se sente solitário diante de um mundo também em crise. Nessa perspectiva é que a literatura traz à tona essas personagens que questionam o sentido da vida. O Miguel adulto e questionador de Chove sobre minha infância é a representação desse homem que quer descobrir a sua verdadeira identidade, ou seja, acima de entender os fatos aos quais esteve submetido, ele quer se entender e compreender o que se passa no seu âmago.

Conforme Bravo, uma das formas de manifestação do duplo é a relação de diálogo que o autor estabelece entre a sua vida e obra, ou seja, o artista projeta-se nela como se esta fosse um auto-retrato. Desde criança, quando ainda praticava as lições básicas de escrita, o narrador de Chove sobre minha infância encontrava na literatura e no ato de escrever uma forma de revelação e de espelhamento, a este respeito, ele afirma, “A minha mão está doendo, só que sinto prazer. Descubro como cansa escrever, é mais difícil que tirar água do poço, varrer a casa ou limpar o quintal. E no entanto é gostoso, porque a gente fica vendo o papel com aquelas letras como se estivesse olhando o próprio rosto no espelho”. (CMI, p. 41). Ao comentar essa relação, Bravo (1997) afirma que, “pela poética do duplo, escritores contemporâneos liberam seus heróis, que muitas vezes são duplos deles próprios aprisionados num eu particular, fixado no molde da personalidade” (BRAVO, 1997, p. 282). Assim, um dos vieses que Bravo se vale para observar o duplo é o estudo biográfico.

Por um longo período, os estudos das artes e da literatura foram motivados pela suposta presença do criador em sua obra e esta como espelho daquele. Conforme Mendonça, “Muitos destes estudos são impulsionados por mera especulação da personalidade e da vida do artista/criador. Não devemos confundir neste momento a crítica literária com a pesquisa biográfica legítima, cujo objetivo é apresentar ao público um apanhado de informações factuais da vida e obras de um dado artista” (MENDONÇA, 2001, p. 147). Contudo, é inegável que algumas obras artístico-literárias remetam a um determinado autor, isto é, há obras que são, involuntariamente, associadas ao seu criador, uma vez que, elas sugerem, tanto pelo estilo quanto pelo enredo, a forte influência que a vida do artista exerce sobre a sua obra. A esse respeito, Mendonça afirma:

Neste caso, é importante entender duas coisas: primeiramente, esses elementos autobiográficos que porventura sejam reconhecidos numa dada obra deverão ser abordados como elementos reelaborados; filtrados, portanto, para o artístico e literário, destituindo-se, dessa forma, de fator meramente pessoal. Em segundo lugar, o autor poderá valer-se de sua obra como máscara ou disfarce sob a qual faz esconder toda uma circunstância pessoal de onde, por exemplo, deseja fugir (MENDONÇA, 2001, p. 147).

Conforme aponta o estudioso, a máscara elaborada pelo artista constitui o que comumente nomeia-se por arte, ou seja, é esse disfarce que permite, nas expressões artísticas, que a realidade do artista passe a ser ficção. Neste sentido, vai-se de encontro à idéia apresentada em “Autopsicografia”, poema no qual Fernando Pessoa alude à arte de criar versos: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega fingir que é dor / A dor que deveras sente” (PESSOA, 2003, p. 98). É nessa simulação à qual Pessoa alude que se revela a grandiosidade da criação artística e literária.

O conflito estabelecido pelo personagem central do livro, se dá por meio do retorno à infância. Tal retorno, permite ao narrador a reelaboração dos acontecimentos, atitude que permitiria entender alguns fatos que foram determinantes na formação da sua personalidade, dentre eles, o gosto pelos estudos, especificamente, pelo ato de escrever, herdado da mãe. O Miguel adulto, que faz o retorno à infância, já no primeiro capítulo do livro, percebe que desde os seus primeiros anos de vida sentia a necessidade de comunicar-se, o narrador diz:

Quem seria este interlocutor que o menino procurava? Um amigo? Alguém da família? O pai sempre ausente, fazendo seus negócios no centro de Bela Vista do Paraíso? As meninas que moravam na casa ao lado? Talvez todos, mas principalmente o adulto que a criança se tornaria. Ela queria falar comigo, por isso a imagem me ficou tão nítida na lembrança (CMI, 2000, p. 10).

Assim, há a demonstração de que a criança a quem o narrador remete é ele próprio nos primeiros anos de vida; é o Miguel adulto retornando às primeiras lembranças da infância. E essa primeira recordação traz à tona, as habilidades para a escrita, a qual é o fio condutor dos principais acontecimentos em sua vida. Portanto, é por meio dessas imagens duplicadas que se desenvolve toda a discussão em relação aos personagens da obra e, especificamente, no que diz respeito à inquietação existencial do narrador e personagem principal.

A partir da sua duplicação, o narrador expõe tanto aspectos exteriores quanto interiores da sua personalidade. É interessante observar que ele evidencia tanto suas virtudes quanto suas fraquezas. É como se o Miguel adulto se colocasse diante de um espelho, o qual possibilitaria o reconhecimento do seu outro, ou seja, do que ele é originalmente. Contudo, esse ato de reconhecimento se dá aos poucos, conforme os acontecimentos vão sendo narrados.

Segundo as abordagens teóricas estudadas a respeito do tema do duplo, há uma característica que é marcante nas obras que o contemplam: a oposição de contrários, a qual também em Chove sobre minha infância persistirá até o fim da trama. Já nos primeiros capítulos da obra é predominante o embate entre o narrador, Miguel, e seu padrasto, Sebastião. Ocorre essa desarmonia, primeiramente pelo menino ter uma imagem idealizada do pai falecido: “O pai é a grande figura até meus quatro anos” (CMI, 2000, p. 12). E, segundo, por que Miguel e Sebastião não compartilhavam das mesmas opiniões e ideais. Este conflito, que ganha ares de duelo ao longo da narrativa, é indispensável para o narrador, uma vez que representam as forças opostas que desencadearão o desequilíbrio entre a vontade do eu e a vontade do outro. Para Miguel, o pai e o padrasto formavam um contraste e este era compreendido entre o bem (pai) e o mal (padrasto).

Deste modo, esses dois são a representação do inconsciente humano e, portanto, do inconsciente de Miguel. É como se o narrador estivesse se perguntando: “Qual será o segredo da minha alma?”. A resposta está no final do livro quando, ao contrário de outras obras que tem como pano de fundo o mito do duplo, o narrador, com a ajuda da irmã, consegue entender boa parte das suas angústias. Miguel compreende que sua personalidade/identidade é formada tanto por aquilo que herdou do pai, quanto pelos exemplos do padrasto. Carmen declara:

Veja só. Você detesta relógio de pulso da mesma forma que o pai. Tem vergonha de sair de óculos escuros e de bermuda assim como o pai. Gosta de levantar cedo, de trabalhar até ver o fim do serviço. Tal padrasto, tal filho. Toda esta herança está na sua maneira de ver a literatura e de escrever. Você é um camponês no meio de civilizados e isso é o reflexo da educação que, mesmo contrariado, você herdou do lado mais rústico da família (CMI, p. 248).

Por meio da carta da irmã, Miguel passa a compreender melhor os acontecimentos e ver que a presença do padrasto não fora unicamente negativa. Por mais que a convivência com ele tenha sido dolorosa, fora importante para a formação da sua personalidade. Morar com o padrasto teve seu preço, mas ele também foi indispensável no processo de descoberta pessoal e profissional. A esse respeito, Carmen afirma,

Nem o Zé e nem o Luís se parecem tanto com o pai como você [...] E eu acho isso bonito, lutando contra o padrasto você conseguiu ser o herdeiro dele, enquanto os que apenas aceitavam as imposições se perderam pelo caminho [...] Pude assim compreender melhor o padrasto. É um homem que leva a sério a honestidade, tanto nos negócios como na família, e que nos passou esta gana pelo trabalho.Veja como você tem sempre tantos projetos, isso você deve a ele. Me conte, quando você o viu fazendo qualquer coisa desonesta? Enganando alguém na cerealista? (CMI, p. 248-49).

Deste modo, a duplicidade não se dá somente entre o narrador e Miguel, mas também, pela presença do pai e do padrasto, ou seja, a personalidade de Miguel é produto tanto da convivência com o pai quanto a com o padrasto.

Neste propósito, a criação artística é o ato de transcender, de ir além daquilo que faz parte do cotidiano e da história. Por meio da literatura, por exemplo, o homem é conduzido a outros lugares, a outras realidades, imaginações e sonhos . Conforme Almeida, “Embora atado ao tempo e à morte, o homem traz dentro de si o outro tempo, a conciliação entre o fluir e o não fluir, o tempo fixo, o presente eterno anterior à noção de tempo cronométrico. Só se chega a ele pela imagem, já que ele próprio é imagem: a apreensão imediata do transcorrer, o acordo entre o homem e o fluir temporal” (ALMEIDA, 1997, p. 19). A imaginação literária possibilita ao homem ir a lugares imemoriais, os quais não estão relacionados à noção de tempo da atualidade, nesse sentido, elas se caracterizam por estabelecer um diálogo entre o homem e o mundo; nesse diálogo consiste, sobretudo, a revelação desse homem. Portanto, em Chove sobre minha infância, o mito do duplo não aponta para a revelação do real. Antes, Sanches Neto faz uma descrição - mímesis - por meio da qual reflete em seus personagens, de forma tênue, a sua expressiva personalidade.

 

Notas:

[*] As análises apresentadas no presente artigo fazem parte de um estudo maior intitulado A narrativa de Miguel Sanches Neto: Memória e Identidade, defendido junto ao Programa Pós-Graduação Stricto Sensu, nível de Mestrado, em Letras, com área de concentração em Linguagem e Sociedade, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, sob orientação do Professor Dr. Antonio Donizeti da Cruz. A dissertação, ao tentar desvendar a obra de Miguel Sanches Neto, analisa uma das mais bem sucedidas realizações da literatura brasileira contemporânea. Além disso, se caracteriza por ser o primeiro estudo acadêmico que contempla a produção literária do referido escritor

[1] Todas as citações da obra de Sanches Neto referem-se a: SANCHES NETO, Miguel. Chove sobre minha infância. Rio de Janeiro: Record, 2000. E serão referenciadas apenas com a abreviatura (CMI) e com a indicação da página.

 

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© Alzira Fabiana de Christo 2009

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