Dois olhares sobre o mesmo tema:
diálogos interdisciplinares entre história e literatura
no romance Incidente em Antares

Roselene Berbigeier Feil

Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Brasil
rose-feil@hotmail.com


 

   
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Resumen: La literatura, así como todas las artes, dialoga con cualquier actividad humana. Ficcionalizar la verdad es el principal instrumento utilizado por los escritores para expresar lo prohibido, prohibido por el discurso que legitima el poder ante la verdad oficial. Incidente en Antares, de Erico Verissimo, trae algunos artefactos para demostrar lo que la Historia no puede poner en sus discursos oficiales.
Palabras clave:Erico Verissimo, Literatura, Historia, Ficción, Interdisciplinaridad

 

Conhecer a ficção é participar de um mundo imaginário, mas, que contraditoriamente, muitas vezes ocupa o real. Não temos muita consciência de onde termina um para começar o outro. Sabemos, de maneira bastante leiga, a diferença entre ficção e realidade. Quando lemos um romance, um conto, ou assistimos a um filme, vemos personagens verossímeis ou não, de uma história também plausível ou absurda, num tempo e num espaço, organizados ou caóticos. E, a esse tipo de narrativa costumamos chamar de ficção, em oposição aos filmes documentários, aos livros autobiográficos, cujas personagens efetivamente viveram. Os fatos, aí narrados, podem ser atestados pelos manuais de história, pelos jornais, pelos testemunhos pessoais, em que o tempo e o espaço são mensuráveis e concretos.

Notadamente, a literatura exprimiria o verossímil - a impressão da verdade, não necessariamente falsa, que se inclui no espaço ficcional, enquanto que a história pretenderia o verdadeiro - no sentido da representação do acontecimento particular, indicando que, enquanto uma ficcionaliza o real, a outra o estabelece. Baseando-se nessa visão, a história autodenominou-se a única possibilidade de registro da realidade do passado não reconhecendo essa capacidade na literatura, é contra esse pragmatismo que esse trabalho pretende se fundamentar. Uma vez que, a literatura pode e deve ser encarada como uma fonte privilegiada de leitura dos acontecimentos históricos por sua carga poética e interpretativa e, que, se vista como aliada dos historiadores é mais uma fonte enriquecedora para as pesquisas da história oficial.

A motivação para a escolha desta obra, como base para procedimentos de análise interdisciplinar, se deve ao fato de ser uma obra datada historicamente, tanto temporal quanto esteticamente e, se tratar de um romance reconhecidamente histórico. A característica principal desse tipo de literatura é a mistura entre história <

É perceptível que ficção e história constroem mecanismos de alusão recíproca. Que nenhuma obra ficcional ignora seu tempo, mesmo que ele não apareça necessariamente de forma clara. A história é ambiente, é oblíqua, feita de fissuras que, muitas vezes, são exploradas pela liberdade da literatura que se encarrega de preencher os espaços lacunares que a História oficial “precisa” esquecer. O método de referência que a literatura traz é quase sempre alusivo e inúmeras vezes enigmático, carregado de simbolismos, metáforas, paródias e meios diversos que o literato usa para dizer o indizível. De resto, se pode afirmar que a história é volúvel e caprichosa, tendenciosa e superficial. Além disso, também é incerta, inacabada como a ficção.

Para se desenvolver um trabalho de abrangência interdisciplinar, devemos, em primeiro lugar, estabelecer quais serão as disciplinas envolvidas, bem como sua fundamentação teórica básica. Para um estudo como o pretendido, há que se demonstrar em quais pontos essas disciplinas convergem e/ou divergem, se é que isto seja possível, a medida em que verificamos a todo instante que os textos ditos “novos”, ou as experiências de “vida real” dentro da História, não passam de uma re-criação do que já foi dito ou vivido em algum momento da História, seja ela no seu sentido literário ou não. A respeito, José Geraldo Couto questiona: “História e ficção: onde termina uma e começa a outra? Em que a história contada pelos historiadores difere das histórias contadas pelos ficcionistas? É cada vez mais difícil responder com segurança a questões desse tipo.” (Couto, 1994, p. 4).

Numa releitura do passado, Ivani Fazenda (1999, p. 15) com os olhos de presente e de futuro, promove um reencontro com Sócrates na história do conhecimento:

Conhecer a si mesmo é conhecer em totalidade, interdisciplinarmente. Em Sócrates, a totalidade só é possível pela busca da interioridade. Quanto mais se interioriza, mais certezas vai (sic) se adquirindo da ignorância, da limitação, da provisoriedade. A interioridade nos conduz a um profundo exercício de humildade (fundamento maior e primeiro da interdisciplinaridade). Da dúvida interior à dúvida exterior, do conhecimento de mim mesmo à procura do outro, do mundo. Da dúvida geradora de dúvidas, a primeira grande contradição e nela a possibilidade de conhecimento... Do conhecimento de mim mesmo ao conhecimento da totalidade. (Fazenda, 1999, p.15)

A história da discussão sobre a aproximação ou separação entre a literatura e a história remonta ao início da teorização da arte ocidental, o que torna necessário retroceder brevemente às idéias de Aristóteles, que estabeleceu uma antítese entre história e poesia em sua obra poética, criando assim obstáculos quase intransponíveis entre as duas. Para ele, a literatura, através de sua liberdade poética, encerra mais filosofia, elevação e universalidade, por falar de verdades possíveis ou desejáveis, ao contrário da história que trata de verdades particulares, acontecidas, não-universais, limitadas no tempo e no espaço. Conforme podemos entender quando o filósofo diz não diferirem o historiador e o poeta por escreverem verso e prosa, diferem, entretanto, na medida em que um trata sobre as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Para ele, a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois se refere aquela principalmente ao universal, e esta ao particular.

Sabemos que, tanto a História pode conter o lirismo característico da literatura quanto pode trazer em sua mensagem a contextualização histórica como fator preponderante para localizar o leitor dentro de um enredo. No entanto, o romance pode assimilar as fragrâncias da imaginação e da subjetividade, enquanto a história encanta-se com o cientificismo.

Notamos que essas diferenças nem sempre são bem delimitadas: o romance crê no potencial da invenção da fantasia; a história, por sua vez, conforta-se com os arquivos e seus documentos, adotando uma metodologia de investigação seletiva e, de certa forma positivista. Podemos concluir, então, que a diferença entre a historiografia e o romance não está, portanto, naquilo que ambos perseguem, mas no modo de investigar tais objetivos. Os tênues limites entre as disciplinas trazem uma riqueza especulativa bastante grande, os especialistas de cada área podem trabalhar com as especificidades da outra, sem que a sua área perca a identidade primeira, a interdisciplinaridade é uma exigência natural e interna das ciências, no sentido de uma melhor compreensão da realidade que elas, isoladamente, nos fazem conhecer.

Comecemos então por definir, didaticamente, o que é História e o que é Literatura, mesmo sabendo que estes conceitos são amplos e subjetivos. Para tanto foram escolhidos conceitos básicos incluídos em dicionários de uso escolar:

História - s. f. 1. Parte da vida da humanidade, de um povo; período na existência de um país, de um indivíduo; seqüência de acontecimentos que marcaram um período. 2. Narração que reconstitui o desenrolar dos acontecimentos da vida de um povo, um indivíduo etc. 3. Narração de fatos imaginários; conto, narração, narrativa. 4. Complicação, amolação. 5. Coisa, objeto, negócio (Pereira, 1992, p. 155).

Para ressaltarmos ainda mais esse conceito recorremos a outro dicionário:

História - s. f. 1. Narração dos fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e da humanidade, em geral. 2. Conjunto de conhecimentos, adquiridos através da tradição e/ou mediante documentos, acerca da evolução do passado da humanidade. 3. Ciência e método que permitem adquiri-los e transmiti-los. 4. Narração de acontecimentos, ações, fatos ou particularidades relativos a um determinado assunto. 5. Narrativa (2). 6. Enredo, trama. 7. Mentira. 8. Amolação (Ferreira, 2000, p. 366).

Podemos, é claro, fazer uso dos conceitos que constam nos dicionários, mas válido é sem dúvida o que diz o próprio Erico Veríssimo [1] sobre o que é História, em uma de suas obras. Com simplicidade, ele assim a conceitua: “Se me pedissem uma definição de História, eu diria: é a narrativa da aventura do Homem no Universo e no tempo. Ou então: é um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade.” (Verissimo, 1987, p. 23). Apresentamos a seguir o conceito de literatura:

Literatura - s. f. 1. Arte de compor escritos, em prosa ou em verso, de acordo com princípios teóricos ou práticos. 2. O exercício dessa arte ou da eloqüência e poesia. 3. O conjunto das obras literárias de um agregado social, ou em dada linguagem, ou referidas a determinado assunto: Literatura infantil, literatura científica, literatura de propaganda ou publicitária. 4. A história das obras literárias do espírito humano. 5. O conjunto dos homens distintos nas letras. - Literatura de cordel: a de pouco valor literário, como a das brochuras penduradas em cordel nas bancas dos jornaleiros. Literatura de ficção: o romance e o conto (também se diz simplesmente ficção). Literatura oral: conjunto de manifestações culturais transmitidas oralmente (Pereira, 1992, p. 184).

Após termos claros os conceitos gerais podemos afirmar, então, que imaginação é literatura e, realidade é história. No entanto, segundo menciona Clarice Lispector em uma de suas obras: criar não seria imaginação, seria sim, correr o grande risco de se ter a realidade. Seria, antes de tudo, o imaginário da história.

Com o advento dos aportes interdisciplinares os limites entre as disciplinas se tornaram mais porosos e suas fronteiras estão sendo mescladas continuamente, o que traz uma exigência maior aos especialistas de cada área: reconhecer os limites do seu saber para acolher as contribuições das outras disciplinas sem que se perca o foco inicial de seu estudo.

Uma ciência deverá ser vista como complemento da outra, e a dissociação, a separação entre as ciências necessitará ser substituída pela convergência a objetivos comuns. Na pesquisa e na atitude interdisciplinar, há a possibilidade de que cada pesquisador revele sua potencialidade e sua própria competência, uma vez que é natural que cada área, neste diálogo, tenda a se valorizar diante da outra, nesse momento pode-se perceber nitidamente a qual disciplina pertence o autor da tese.

Nota-se que a distinção entre literatura e história, como afirma White (2001, p. 115) reside no fato de a ficção/literatura ser concebida como a representação do imaginável e, a história como a representação do verdadeiro. O crítico ressalta, ainda, que essa distinção estática deve dar lugar ao reconhecimento de que só podemos conhecer o real comparando-o ou equiparando-o ao imaginável. White é inovador na medida em que questiona algumas das tarefas mais convencionalmente atribuídas ao historiador, ou seja, descobrir, descrever e explicar o que ocorreu no passado fria e mecanicamente. Sua tese considera a história como ciência e arte. Ele observa a indiscutível interferência do narrador na representação e na construção dos fatos narrados, e defende a escrita histórica como algo vinculado ao trabalho de criação e de expressão estética do historiador.

Os limites tênues dessas duas disciplinas conduzem a fronteiras oscilantes, talvez para um estudo interdisciplinar se constituam nas duas áreas das ciências humanas que mais facilmente se intercambiam e se reconhecem, apesar de muitas vezes, para “demarcar” especificidades, negarem esta interação.

Compreende-se que a literatura por sua característica essencialmente humana tenha aptidões sempre renováveis de se comunicar com as outras disciplinas, não se detendo naquelas da chamada área de Humanidades. No artigo intitulado O texto histórico como artefato literário, White (2001, p. 97) resume bem suas posições, afirmando que tem havido uma relutância em considerar as narrativas históricas como o que elas mais manifestamente são: ficções verbais, cujos conteúdos são tão inventados como descobertos, e cujas formas têm mais em comum com suas contrapartidas na literatura que na ciência.

A literatura é um produto da imaginação criadora. Diferentemente da literatura, a história é uma atividade racional de conhecimento e interpretação do passado, utilizando-se de toda aparelhagem técnica e conceitual, fornecida pos diversas ciências auxiliares. Seu objeto é o fato histórico acontecido precisamente num determinado tempo e lugar. Não pode fugir do fato e a ele se dirige através de documentos escritos ou monumentais, os vários testemunhos da ação humana através dos tempos e nos lugares. É, portanto, uma ciência, isto é, uma atividade rigorosa que visa ao estabelecimento dos fatos, com a possível certeza que lhe dão o método e as técnicas científicas. Costa Lima esclarece que: “A história, chamemo-la crua, não equivale ao encaminhamento da dor de cabeça, porque os tratamentos historiográficos e ficcionais são diferentes não são meras disciplinas distintas de um mesmo tipo de saber. Cada um deles retira a história crua da própria empiricidade para elaborá-la segundo modos bem diversos, em que o próprio de um é o impróprio de outro”. (Lima, 2006, p. 117.)

Apesar de parecer, a literatura não é uma atividade de adorno da realidade, de “romantização” da História, e de acordo com Alfonso Reyes ela é a expressão mais completa do homem. Todas as demais se referem ao homem enquanto especialista em alguma atividade singular. Só a literatura expressa o homem enquanto homem, sem qualquer distinção ou qualificação. “Não há caminho mais direto para que os povos se conheçam uns aos outros do que esta concepção do mundo manifestada nas letras”. (Reyes, apud Proença Filho, 1972, p. 54).

Segundo Anatol Rosenfeld, as principais diferenças entre o texto ficcional e outros textos residem no fato de, no primeiro, as orações projetarem contextos objectuais e, portanto, estão colocadas subjetivamente, através destes, seres e mundos puramente intencionais, que não se referem, a não ser de modo indireto, a seres também intencionais, ou seja, a objetos determinados que independam do texto. E independem do texto ficcional, pois estão construídos concretamente no nível da realidade. (Rosenfeld apud Candido, 2000, p. 17)

O artista em seu ofício de criação e invenção trabalha com uma realidade que não tem compromisso obrigatório de associação à realidade concreta, esses fatos criados pelo artista envolvem personagens, seres imaginários, cuja vida se restringe àquilo que o autor nos revela ou insinua a respeito desses seres. Não se deve esquecer, no entanto, que as personagens inventadas por escritores sempre mantêm alguma relação com seres existentes na realidade concreta, por mais fantásticos que eles sejam.

Complementa-se aqui com a definição de Afrânio Coutinho:

A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes (sic) origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas, gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro. A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo que possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana. (Coutinho, 1978, p. 27)

A produção literária de Erico Verissimo se alimenta da História, em grande parte, para a construção de sua ficção. Logo no início da obra “Incidente em Antares” ele deixa isso

bastante claro: “Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros” (Verissimo, 2001, nota do autor).

A partir dessa nota podemos perceber que ele vai usar ficção, lugares e pessoas vivas, bem como localidades e personagens imaginadas; portanto, realizará uma combinação entre História, com “H” maiúsculo, e história, que é a parte fictícia. Lembrando sempre, que a História se faz com documentos e fontes acrescidos de idéias e imaginação do historiador, que constroem uma representação aproximada do que ocorreu no passado, portanto, a História também tem uma liberdade interpretativa e investigativa, assim como a literatura. Isso, na medida em que cada “leitor” da História terá uma visão diferente a respeito dos acontecimentos e de seus reflexos nos tempos atuais.

Assim, ao escolher os fatos que merecerão destaque na construção de suas tramas, o historiador não deixa de inventar, à sua maneira. Se tal visão literária da narrativa histórica pode ser interpretada como uma veleidade do historiador, não custa recorrer à autoridade de um consagrado escritor de romances, José Saramago, para quem:

(...) parece legítimo dizer que a História se apresenta como parente próxima da ficção, dado que, ao rarefazer o referencial, procede a omissões, portanto a modificações, estabelecendo assim com os acontecimentos relações que são novas na medida em que incompletas se estabeleceram. È interessante verificar que certas escolas históricas recentes sentiram como que uma espécie de inquietação sobre a legitimidade da História tal qual vinha sendo feita, introduzindo nela, como forma de esconjuro, se me é permitida a palavra, não apenas alguns processos expressivos da ficção, mas da própria poesia. Lendo esses historiadores, temos a impressão de estar perante um romancista da História, não no incorreto sentido da História romanceada, mas como o resultado duma insatisfação tão profunda que, para resolver-se, tivesse de abrir-se à imaginação. (Saramago, 1990, p. 15)

Carlos Emílio Faraco nos apresenta as reflexões do escritor Miguel de Cervantes (1547-1616) sobre a relação entre a escrita da história e a ficção poética, dizendo que uma coisa é escrever como poeta, outra como historiador: o poeta pode contar ou cantar coisas não como foram, mas como deveriam ter sido, enquanto o historiador deve relatá-las não como deveriam ter sido mas como foram, sem acrescentar ou subtrair da verdade o que quer que seja. (Faraco, 1998, p. 43). Pode-se deduzir do raciocínio de Cervantes que o artista, em seu ofício de criação e invenção, trabalha com uma realidade que não tem o compromisso obrigatório de associação à realidade concreta.

Quando se afirma que os textos se relacionam com a História, não se quer dizer que eles narram fatos históricos de um país, mas que revelam os ideais, os anseios e os temores de um povo numa determinada época, sem que isso necessariamente esteja explícito. A obra de Erico Verissimo, ao fundir os elementos de origem histórica e os aspectos de ordem pessoal, propõe uma reflexão em torno dos acontecimentos que marcaram a história brasileira, de modo abrangente, e a do Rio Grande do Sul, particularmente. A obra verissiana, do ponto de vista de sua concepção literária, obtém um vínculo com a realidade, utilizando os fatos sócio-históricos como apoio para exprimir a atitude humana através dos tempos. A História representa não só a sucessão contínua de fatos, mas explica na sua relação com a Literatura, o constante mover de circunstâncias cuja prática concreta, ao longo do tempo, funciona como síntese da vida.

O que diferencia a História como ciência dos acontecimentos humanos da história como o relato imaginário de um escritor, é que a História não tem fim demarcado por algum sinal específico, e a história, literatura, tem uma cena final, apesar de, em alguns casos, o clímax ficar em suspenso.

Em Incidente em Antares isso é marcante, a sociedade brasileira que Erico Verissimo apresentou pode ser a sociedade brasileira da atualidade, com sua marca de podridão, impunidade, corrupção e falta de ética. No entanto, a história terminará, mesmo que esse final se dê em uma cena aberta, marcada por reticências, mas sempre haverá uma cena final.

O escritor gaúcho não procurava disfarçar a realidade: ao contrário, queria apresentar sua rudeza. Salienta-se que a função da História, desde o seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação sobre ela mesma, procurando explicar a dimensão que o homem teve e tem nesta mesma sociedade.

A História que aparece na obra é uma História crítica por que nela está incutido um discurso que propicia a reflexão sobre o passado e as marcas que este deixará no futuro, ou seus sinais no presente. O texto ficcional nos permite ler a realidade de uma época tanto quanto qualquer outro texto da História, se for lido criticamente. A esse respeito Lucas afirma que: “Os romances são tanto mais eficazes quanto eles provocam no leitor tentativas de respostas intelectuais, respostas da consciência a problemas humanos. Eles fermentam, ao projetar imagens fictícias em nossa consciência, questionamentos acerca do humano”. (Lucas, 1989, p. 183)

O romance “Incidente em Antares” é um relato imprescindível que caricaturiza um período que ainda não nos foi revelado por inteiro, de uma História que continua se expondo por seus aspectos obscuros, de um tempo ainda não desvendado por circunstâncias que interessam aos dominantes.

O discurso do poder, as técnicas jornalísticas, a publicidade do governo, a autoridade da História manipulada, tudo é parodiado, estilizado e reaproveitado no contexto ficcional do romance. Como, por exemplo, a supressão dos direitos civis dos brasileiros, metaforizada no romance pela morte, mas que em realidade se fez através de Atos Institucionais [2] que “decretaram” a imposição da vontade dos que detinham o poder político nas mãos por meio da força. A alegorização de temas políticos é uma arma inteligente na denúncia das arbitrariedades. No entanto, como lembra Luiz Costa Lima:

O alegórico contém uma dificuldade específica: se ele permitir a pura transcrição tipo “isso significa aquilo ou isso”, ou seja, a narrativa, se torna inútil, casca de fruta que se joga fora. Para assumir significação, o fantástico necessita criar uma curva que o reconecte com o mundo. Se, entretanto, essa curva se tornar única, a significação com o apagamento de sua fonte. Para se manter, a alegoria precisa ser plural (Lima, apud Dalcastagne, 1996, p. 80).

A literatura tem a capacidade de se expandir e transcender os limites entre ficção e História, atravessando as fronteiras do universo ficcional e indo questionar o tempo em que se insere, a sociedade a que pertence, o homem que representa e as misérias de sua existência cotidiana. Isso porque, como lembra Bakhtin:

[...] a atividade estética não cria uma realidade inteiramente nova. Diferentemente do conhecimento e do ato, que criam a natureza e a humanidade social, a arte celebra, orna, evoca essa realidade preexistente do conhecimento e do ato - a natureza e a humanidade social -, enriquecendo-as e completando-as, e ela sobretudo cria a unidade concreta e intuitiva desses dois mundos, coloca o homem na natureza compreendida como seu meio ambiente estético, humaniza a natureza e naturaliza o homem (Bakthin, apud Dalcastagne,1996, p.18).

Voltando à idéia de que é na História e, na literatura potencialmente, que o homem se permite conhecer, entende-se por que Erico Verissimo não consegue conceber o romance senão em função da efabulação e da caracterização das personagens com cunho historicista. Para ele, a efabulação é inevitável e se preocupa em fundamentar suas fábulas com documentação fidedigna, com verdade histórica, conforme ressalta Bordini, dizendo que além de ter uma função de veículo, ninguém pode falar de ninguém sem contar uma história. Nenhuma figura humana pode ser estudada em termos literários num vácuo, pois ela pertence a um tempo e a um espaço, tem um passado, vive um presente. Sendo também um contínuo devir, um processo transitivo e não um produto acabado (Veríssimo, apud Bordini, 1995, p. 82).

Bordini (1990) lembra, ainda, que Verissimo seguidamente anotava, passo a passo como em roteiros de estudo, informações a serem colhidas para possibilitar o desenvolvimento de detalhes de cenas e conversas, relativas a fatos históricos de ordem econômica e cultural, as fontes filosóficas e filológicas ou semiológicas. Umberto Eco dá uma receita que mantém como ingrediente essa metodologia de criação dos romances de Verissimo: “para aqueles que querem se transformar num homem de letras, e quem sabe um dia serem capazes de escrever histórias, é preciso também aprender a mentir, e inventar histórias, ou então a história ficará monótona, sem aquela pitada de liberdade poética que a literatura tem para despertar encanto” (Eco, 2001, nota do autor).

Se lermos com atenção o texto de Veríssimo percebemos que ele jamais se limita à mera descrição das figuras reais. A ficção é confundida com a realidade, ou a realidade já é uma ficção. Podemos entender que sim, uma vez que a ficção se trata de uma projeção dos pensamentos do escritor e, a realidade é o resultado da projeção dos sujeitos reais que se materializa.

Normalmente, ouvimos dizer que toda arte é ficção, que literatura, portanto, é ficção, adquirindo um sentido de imitação da realidade, de acordo, inclusive, com a filosofia de Platão e Aristóteles, como se fosse a criação de uma supra-realidade. Apesar de toda a inventividade que se encerra nas artes, há ainda aqueles que, como Platão, reservem à arte um espaço inferior às outras manifestações do conhecimento humano, ou quem, como Aristóteles, reconheça a importância da arte e até sua superioridade em relação à ciência, mas sempre reservando a ela o espaço do diferente.

Segundo Lucien Goldmann: “[...]a estrutura literária apresenta uma homologia com a estrutura mental do grupo social ao qual pertence o autor” (Goldmann, apud SURO, 1985, p. 19) e, portanto são parte de sua História. Claramente podemos ver as relações entre história e literatura nos romances de Veríssimo, não apenas em Incidente em Antares, como homologias formais que têm sua explicação histórico-social nas condições econômicas, sociais e políticas das épocas da história do Brasil em que escreveu seus romances: de 1932 a 1971.

Em crônica intitulada O Correio do Povo e eu, Erico Verissimo revela que tinha o hábito de recorrer às antigas coleções desse jornal ao escrever romances que se passassem no século XIX ou no início do século XX, pois: “...como testemunho da História e espelho da nossa vida social destes últimos oitenta anos, me pode fornecer com abundância os dados necessários”.(Bordini, 1995, p.95).

Mesmo admitindo essas pesquisas prévias, ele afirmava não ter qualidades de historiador, apenas mais um contador de histórias, o que pode ser questionado, pois a investigação que ele fazia visava juntar informações importantes e que poderiam ser utilizadas, ou não, dentro do romance que começava a escrever. Esse trabalho se assemelha bastante ao de um historiador profissional: sendo uma pesquisa no sentido policial do termo, buscava indícios, provas e testemunhos. Borges nos explica isso claramente: As fontes ou documentos não são um espelho fiel da realidade, mas, são sempre a representação de parte ou momentos particulares do objeto em questão. (1993, p. 61). Há teóricos como R. G. Collingwood que insistem em dizer que o historiador é, sobretudo, um contador de histórias e afirmam que a sensibilidade para a História se manifesta na capacidade de criar uma estória plausível a partir de uma seleção de “fatos”, que na sua forma não processada careciam de sentido. (Collingwood, apud White, 2001, p. 100)

Entende-se que Borges não as considere como um espelho fiel da realidade, pois sabemos que essas fontes e documentos sempre estarão impregnados de ideologias variadas, a serviço de um determinado interesse, supostamente coletivo. A ficção é um discurso tão digno de crédito como qualquer outro, porque, como qualquer outro, ela faz uma leitura do real. Reduplicadora ou contestadora, não importa, mas uma leitura tão confiável quanto a da ciência ou a da história.

O aparecimento eventual de vultos e fatos históricos em romance vale apenas como um selo de autenticidade, aliás, marcante em criações ficcionais. O trabalho literário, de Erico Verissimo ou de qualquer outro escritor, pode ser fantástico ou realista, mas nunca será a-histórico, pois a escolha do escritor em relação a determinado tema estará baseada em uma posição necessariamente existencial e datada. O escritor é o resultado de histórias sucessivas, de suas leituras e interpretação dos acontecimentos através do tempo. A literatura, segundo Erico Verissimo é um de processo interação e, quiçá integração, entre a literatura e a história, em que, ao final, se descobre a identidade entre ambas. White (2001, p. 40) diz que a história é uma disciplina conservadora por excelência e que vem se tornando cada vez mais profissionalizada e especializada, ganha status mesmo de ciência, já a literatura, está em permanente transformação buscando novos e criativos meios de se tornar cada vez mais subjetiva para trabalhar a questão das consciências plurais que engloba em seus textos.

Por isso Guimarães Rosa diz que: “[...] a estória não se quer história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida com a anedota”. (Rosa, apud Faraco, 1998, p.23) Assim, a estória, a ficção pode dar uma outra versão da história, uma outra versão da realidade, ao mesmo tempo em que mostra que todos os textos são simples versões dos fatos, contados de acordo com o ponto de vista do narrador, com a ótica do autor. Muito tempo antes de Guimarães emitir essa opinião, Machado de Assis já dizia a mesma coisa:

E repare o leitor como a língua portuguesa é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário do historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista, o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar. (Machado de Assis, apud Faraco, 1998, p. 98)

Ficção, portanto, seria criação da imaginação, da fantasia, coisa sem existência real, apenas imaginária. Walty lembra que Freud explicou a fantasia como sendo o reduto da liberdade e estaria livre do princípio da realidade e que a arte promoveria o retorno daquilo que foi reprimido, o retorno do recalcado, entendendo-se, inclusive um retorno do “censurado” pela História.

O próprio Verissimo entendia seu romance enquanto uma linearidade temporal, portanto mais sujeito a uma seqüência histórica, e afirmava que isso se dava por se tratar de romances com objetividade. Dizia ele: Minha literatura é linear, pois o que narro não é um sonho ou um delírio. Tente falar de uma pessoa sem contar a história dela. A história é o veículo ...] Às vezes, na história está o caráter e o destino da pessoa. E o destino não será uma história?.”( Veríssimo, apud Bordini, 1990, p. 83).

Erico Verissimo concordava com a idéia de Marx quando este dizia que: “[...]a História nada faz [...] é o homem, o homem vivo e real quem faz tudo” (Veríssimo, apud Suro, 1985, p. 23). A História é apenas a atividade do homem na busca de seus objetivos. Ainda, segundo Marx: “[...] a História não é produto da consciência dos homens, mas das relações de produção num momento determinado, com sua correspondente divisão da sociedade em classes.” (Marx, apud Suro, 1985, p. 23). O homem é um ser finito, temporal e histórico. Ele tem consciência de sua historicidade, isto é, de seu caráter eminentemente histórico. Vive em um determinado período de tempo, em um espaço físico concreto; nesse tempo e nesse lugar ele agente e paciente, em relação à natureza e aos outros homens.

- Será que um dia não vai haver mais em toda Terra um lugar em que o homem possa ser dono pelo menos do seu nariz, dizer o que pensa, ter uma quota razoável de liberdade? Talvez em alguma ilha deserta do Pacífico...

- Não te iludas. Nem numa ilha deserta poderemos fugir à História. Um dia quando estiveres estendido na areia, nu e comendo a tua banana gratuita, um país qualquer que está querendo entrar para a “família nuclear”, testará uma bomba atômica e te levará pelos ares em pedaços... (Verissimo, 2001, p.148).

No entanto, a literatura pode ser compreendida como a identidade atemporal desse mesmo homem. Nesse sentido cada leitor é um re-criador de emoções e é possível, através da arte literária restaurar emocionalmente o passado, através da fruição, mudança de estado de espírito do leitor que se transporta para dentro da obra e dela sai transformado pela viagem ao passado desconhecido ou ao futuro presumido. Para lidar com as convergências e divergências entre as ciências e as artes, a interdisciplinaridade se apresenta como uma possibilidade de resgate do homem frente à totalidade da vida. É uma nova etapa, promissora, no desenvolvimento da ciência, em que o próprio conceito das ciências começa a ser revisto. Além disso, conforme nos lembra Santomé:

Também é preciso frisar que apostar na interdisciplinaridade significa defender um novo tipo de pessoa, mais aberta, mais flexível, solidária, democrática. O mundo atual precisa de pessoas com uma formação cada vez mais polivalente para enfrentar uma sociedade na qual a palavra mudança é um dos vocábulos mais freqüentes e onde o futuro tem um grau de imprevisibilidade como nunca em outra época da história da humanidade. (Santomé, 1998, p. 45)

No começo de Incidente em Antares vemos uma integração entre ficção e realidade, já que: “No entanto, a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.” (Veríssimo, 2001, p. 2)

Aqui a ficção afirma sua preeminência sobre a realidade, já que todo conhecedor do Rio Grande do Sul sabe que Antares não existe mais que nesse romance verissiano. Insistindo sobre a realidade de Antares, o narrador onisciente em terceira pessoa transcreve trechos de supostos livros de história que falam das origens do lugar, como nos exemplos abaixo:

Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante [...]. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há mais de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde [...] veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. [...] O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de cartógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, não mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai [...] O mais antigo documentos escrito que se conhece referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da região missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francês Gaston Gontran dÀuberville, intitulado Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831) [...] Outro documentos pouquíssimo conhecido, mas também importante, sobre o que se poderia chamar de pré-história de Antares é uma carta escrita pelo P. Juan Bautista Otero, S. J., ao provincial de sua ordem, Buenos Aires. [...] O Povinho foi elevado a vila por alvará de 25 de maiôs de 1853, data em que recebeu oficialmente o nome de Antares. Pouca gente entendeu a razão dessa mudança ou o sentido da nova denominação. Muitos, como Chico Vacariano, imaginavam que Antares significava “lugar de antas.( Ibid, 2001, p. 9).

Primeiramente o autor nos faz crer que, de fato, a cidade de Antares existe, para em seguida fazer ficção, utilizando seus ambientes, moradores, características geográficas e sociais.Na primeira parte da obra o narrador relata a pré-história e história de Antares, desde a sua fundação até pouco depois do golpe militar de 1964. No período coberto pela narrativa, fatos importantes da história oficial do Brasil são relatados no livro. Assim, o autor refere-se à Guerra dos Farrapos, Guerra do Paraguai, Libertação dos Escravos, Revolução Federalista de 1893, Revolução Militar em São Paulo no ano de 1924, ascensão de Vargas ao poder, Constituinte de 1934, Estado Novo, renúncia de Getúlio em 1945, sua eleição em 1950 e suicídio em 1954, a eleição, posse e mandato de Juscelino Kubitschek (1955/1960), eleição, posse e renúncia de Jânio Quadros (1960/1962), a luta para que João Goulart chegasse à presidência e as greves e manifestações que antecederam o golpe em 1964.

O romance produzido pelo escritor torna-se romance histórico na plenitude da expressão; um de seus temas básicos é o julgamento da sociedade gaúcha e da vida política brasileira. Isto explica por que seus líderes verdadeiros aí estejam presentes, nomeados e devidamente identificados. Como mencionado: “ - Nós [...] lá no Rio Grande do Sul não iremos... iremos nunca para diante... sem primeiro enterrar definitivamente certos cadáveres simbólicos... Gaspar Martins, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros... Getúlio Vargas...e outros, outros [...] Sepé Tiaraju, Bento Gonçalves.”(Verissimo, 2001, p. 102).

Uma das dificuldades para a popularização da obra de Erico Verissimo pelo mundo afora, talvez resida no fato de que para entendimento de sua obra o leitor deve necessariamente estar familiarizado com um mundo muito particular, com significações próprias e restritas: o mundo do escritor, seu mundo real.

Que o autor, sem dúvida, tinha uma sólida base de leitura sobre História do Rio Grande do Sul parece fora de questão; ele não se perdia entre fatos, datas e ambientes ao retratar as sagas de seus conterrâneos, no plano formal do encadear histórico. Por manter-se fiel à realidade histórica, a literatura que Erico Verissimo produziu assume a responsabilidade de julgá-la e, assim, formula um convite explícito ao leitor para que também faça a sua parte. O leitor recebe a missão de questionar, fazer valer a literatura como possível instrumento de conscientização social. Isso é perceptível nessa frase: - Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar ao luxo de ser neutro! (Ibid, 2001, p. 15).

Verissimo mais uma vez convida o leitor a participar, a fazer parte de seu contexto imaginativo tendo posicionamento. A neutralidade não é permitida àqueles que lêem romances políticos, uma vez que eles são uma representação do discurso histórico impugnado pela história oficial. A revelação da realidade ou a sua impugnação dá-se, então, através da literatura, e entre elas a obra de Erico Verissimo.

Os mortos insepultos de Incidente em Antares vão ao coreto e começam a quebrar simbolicamente a censura que subjugava a livre expressão no Brasil à época da escrita desse romance. Falam abertamente todas as “sujeiras” que as pessoas da sociedade cometiam, os adultérios, os furtos, enfim, todos os deslizes de conduta. Eles, os mortos, agora estão livres: o corpo, como já se disse, é a prisão da alma: “ora, ora, meu magistrado, a morte me confere todas as imunidades. Estou completamente fora do alcance da lei dos homens. (Ibid, 2001, p 347.)

A liberdade conferida aos mortos para expressarem toda sua indignação contra os acontecimentos do mundo dos vivos, simbolizaria a liberdade que a literatura reivindica para dizer poeticamente tudo o que a História gostaria de afirmar e nem sempre a ela foi permitido fazer. Sabe-se que o historiador, no seu ato investigativo do passado, precisa familiarizar-se com o não-familiar e, um recurso sugerido é que ele lance mão da linguagem figurativa como primeiro elemento para construção das hipóteses de sua pesquisa, antes mesmo da linguagem técnica de domínio da sua ciência. Neste sentido, inclusive o surrealismo de “mortos insepultos” é valido como fomentador de um pensamento crítico.

No momento do discurso, todos estão em volta do coreto, exceto os estudantes. Eles assistem a tudo das árvores, de onde vaiam a burguesia local. Há semelhança entre essa atitude e a dos estudantes brasileiros depois do golpe militar de 68. Os estudantes de Antares não estavam com “os pés no chão”, justamente como os estudantes brasileiros, que tentaram se opor, com violência, ao Regime Militar, sem condições para tanto. É assim que a disposição das personagens no espaço desempenha um papel simbólico importante. Estar nas árvores simboliza que os estudantes de Antares não estavam conscientes da situação, assim como não estavam conscientes os estudantes brasileiros, que não conseguiam perceber o próprio despreparo ao entrar nas lutas armadas contra o governo, sem as mínimas condições para vencer.

Incidente em Antares é uma narrativa que funciona como uma chama de consciência da perversa realidade num período de trevas e escuridão em que a ditadura militar se fez. Felizmente os censores, funcionários do governo encarregados de verificar o “perigo” da produção intelectual brasileira e que avaliaram Incidente em Antares não foram perspicazes o bastante para perceber os possíveis sentidos da obra, que como forma de efetiva conscientização, promove imagens chocantes, como esta abaixo:

Estão vendo esse olho quase fora da órbita?...parece um ovo de codorna... sim, e esse sangue coagulado que tem por cima lembra catchupe seco...Se me perdoam pelo mau gosto da metáfora as pálpebras e a pele ao redor dos olhos de Joãozinho lembra uma folha de repolho roxo. Guardem essa imagem para se lembrarem dela sempre à hora das refeições. Um ovo de codorna em cima duma folha de repolho roxo. É um excelente processo mnemônico e plástico (sinistra natureza morta) para não esquecer as crueldades de nossa polícia (Veríssimo, 2001, p. 368).

O autor nos mostra a violência da ditadura acontecendo até na sofisticação da cena, não nos poupa dos detalhes. Mais uma vez a veracidade vem contribuir, através do realismo fantástico, um excelente recurso para driblar a censura:

Mas o interrogatório continua...Vem então a fase requintada. Enfiam-lhe um fio de cobre na uretra e outro no ânus e aplicam-lhe choques elétricos. O prisioneiro desmaia de dor. Metem-lhe a cabeça num balde d'água gelada e, uma hora depois, quando ele está de novo em condições de entender o que lhe dizem e de falar, os choques elétricos são repetidos[...] (Ibid, 2001, p. 369).

O caso de tortura e morte de João Paz, cujo atestado de óbito é falsificado pelo Dr. Lázaro (cap. 66), é sintomático. Qualquer semelhança entre ele e os inúmeros casos de mortes por tortura durante o regime militar instaurado no Brasil após 64 é intencional. Nota-se, aliás, que quando o livro foi publicado, no início da década de 70, o país vivia o auge da repressão política e da violência do Estado, que fez inúmeras vítimas nos DOI-CODIs [3] espalhados pelo território nacional.

É válido lembrar do caso de Vladimir Herzog, torturado até a morte, pouco depois do lançamento do livro de Erico Verissimo. “Vlado” [4] foi considerado um suicida na versão oficial. A foto que apresentaram do corpo não convenceu, e ainda não convence ninguém. Nela, o jornalista aparece com os joelhos dobrados. A gravata que o teria matado está esticada e tem uma das pontas amarrada na janela, a qual tem mais ou menos a mesma altura do falecido. Para morrer enforcado nessas condições, Vladimir Herzog teria que pular e cair com os joelhos dobrados. Só assim seu pescoço quebraria e/ou ele seria estrangulado pela gravata, caso ela suportasse o peso do seu corpo e a tração imposta pela queda. Qualquer observador atento pode verificar que o suicídio foi maquiado.

No caso de João Paz foi o atestado médico que maquiou o óbito, pois seu corpo revela as marcas da tortura. Em uma das passagens mais marcantes da obra aparece novamente, e bem disfarçada, uma informação relevante. Quando é narrada a prisão de Ritinha, esposa de João Paz, procura-se por um suposto grupo que praticaria ações contra o governo, vejamos abaixo:

Na manhã em que te prenderam... eles me levaram também, me atiraram dentro de um quarto sem janelas... completamente escuro... e lá me deixaram um dia inteiro, uma noite inteira... Depois me arrastaram para outra sala, me fizeram sentar numa cadeira... acho que eram muitos homens, eu não podia enxergar direito por causa daquela luz forte nos meus olhos...Queriam saber os nomes dos “outros dez” de que tu (eles diziam) eras o chefe... Respondi que não sabia....

- Disseste a verdade.

- Mas eles não acreditaram. Repetiram a pergunta. Jurei por Deus que não sabia. E então aqueles animais ameaçaram me torturar... enfiar agulhas debaixo das minhas unhas... Um deles chegou a dizer a dizer que, se eu não falasse, eles me entregariam nua aos soldados da guarda... Por fim um outro gritou: “Se você não confessa nós vamos pisar nessa tua barriga, cadelinha, e matar o teu filho...” E então...eu...eu confessei!

- Impossível! Tu não sabias, como eu não sei [...](Verissimo, 2001, p. 298-299)

O chamado “grupo dos 11” seria composto por dez homens e um líder, treinados para a luta de guerrilha. No caso de ser deflagrada uma guerra civil, os seus chefes se comunicariam, formando núcleos combatentes mais amplos, de acordo com a necessidade. Esses grupos, além de possuírem potencial guerrilheiro, desempenhariam o papel de conscientizadores políticos de um processo revolucionário. No entanto, os grupos ficaram apenas no planejamento, nunca passaram à ação, ainda assim foram perseguidos.

Novamente, apresenta-se, como forma de justificar a prisão de João Paz o seguinte texto: “- O Joãozinho era um elemento perigoso. Foi denunciado como o chefe do “grupo dos onze” em Antares, um bando de guerrilheiros (existem milhares em todo o país) que entrarão imediatamente em ação logo que vier o golpe da esquerda. Mandei prender o rapaz pra um interrogatório de rotina. (Ibid, 2001, p. 432).”

O terror em Antares se instala através das denúncias anônimas, principalmente com as cartas escritas pelas irmãs Balmacedas. João Paz foi denunciado em uma dessas cartas (cap. 79, 2.ª parte do livro). Denunciado por quem? Novamente temos um caso de identidade entre fantasia e realidade. Afinal, após o endurecimento do regime militar em 1968, as denúncias anônimas eram estimuladas e muito bem vindas. Elas abasteciam os órgãos de repressão com informações necessárias às prisões por suspeita de atividades subversivas.

O escritor tem uma função essencial quando demonstra literariamente a História, isto é, a função de desvincular-se dos padrões, uma vez quando que o homem assume a atitude de historiador tem que esquecer todas as considerações, como o amor aos amigos e o ódio aos inimigos. Pois assim como os seres vivos se tornam inúteis quando privados de olhos, também a história da qual foi retirada a verdade nada mais é do que um conto sem proveito. Através da liberdade poética que o escritor possui, este pode explorar outras verdades, aquelas que normalmente não fazem parte da verdade oficial.

A respeito, Suro cita Lukács:

“O caráter histórico duma obra não consiste em que apareçam nela as figuras históricas políticas mais importantes da época, mas em seu caráter típico como reflexo do momento histórico-social. Portanto, o autor não ter que ser fiel a todos os detalhes históricos da época narrada, mas à sua estrutura, não fugindo às características gerais do momento. (Lukács, apud Suro, 1985, p. 27)

É importante deixar estabelecido, como aponta Lukács, que a literatura, sendo um objeto específico da criação humana, depende do ponto de vista do autor. Quer dizer, o fato de pertencer a determinadas épocas históricas e grupos sociais não nos permite traçar um paralelo entre a realidade histórico-social do autor e suas modalidades literárias. É importante ver a liberdade criativa do autor quando, consciente ou inconscientemente, se associa a determinados grupos sociais ao refletir sobre a sua realidade histórico-social através duma teoria da história. Conclui-se que na definição dum romance histórico o importante não é que se tenham referências concretas a figuras e a momentos históricos, mas a interação entre as personagens e o processo histórico, deixando de lado a alienação, fazendo com que a personagem venha a contribuir produtivamente de alguma maneira, não necessariamente “ensinando” história oficial.

O romance formula um processo, o processo da História brasileira contemporânea. Daí resulta a crise da consciência que culmina com a falência da própria legitimidade do Estado. No Brasil, temos agido assim, de maneira continuada e viciosa: “Se um espelho reflete um ato e um fato que consideramos escandaloso, quebramos o espelho e voltamos as costas para o ato e o fato, dando a questão como resolvida” (Verissimo, 2001, p. 362).

No Brasil sempre houve uma preocupação grande em se esconder sob os tapetes de uma falsa democracia social, a realidade, as verdadeiras condições em que vive o povo. Basta ver na passagem abaixo que isso não mudou e historicamente pode-se perceber que haverá uma continuidade. Revela-se mais uma vez a história apresentada como ficção:

É curioso... estranho que haja tanto respeito pelos mortos e tão pouco pelos vivos. Claro! É fácil ser justo e compreensivo para com os que morrem. Basta enterra-los... e eles nos deixam em paz. Agora, é difícil compreender e ajudar os vivos vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano, ano após ano [...]. (Ibid, 2001, p. 222)

Nas palavras da personagem Quitéria, nova menção às atitudes com características brasileiras: “- Somos todos uns sentimentais. Um povo como o nosso adora as meias soluções, as compressas d'água quente. Nada é sério mesmo, neste país” (Ibid, 2001, p.87 ). O próprio povo não se respeita e não questiona suas ações, porque não foi estimulado a fazê-lo.

Concordando com a crítica verissiana à alienação da sociedade patrimonialista brasileira, os brasileiros são vistos como mortos viventes, o que comprova sua alienação diante de uma sociedade que os trata como coisas abstratas e não como seres humanos com vida e sentimentos próprios. Arnold Hauser demonstra com clareza quase didática a função da arte que pode expor todas as mazelas sociais, não como função, mas como potencialidade:

A essência histórica da arte reside principalmente na circunstância de que o objeto estético real, pleno e perfeito, não é a obra de arte por si mesma, mas sim a obra que logra exercer influência, isto é, a vivência artística concreta, a relação ativa sujeito/objeto. Isto quer dizer que não só o sujeito receptor experimenta e valoriza as obras de maneira sempre diferenciada, conforme sua situação histórica, mas também que as próprias obras parecem transformar-se toda vez que ingressam em contextos históricos variáveis (Hauser, apud Chaves, 1991, p. 10).

Nas sucessivas crises políticas que finalmente levaram à eliminação da democracia, esse romance assumiu também a tarefa de explicar e interpretar o contexto histórico em que a ditadura de Vargas de instalou. A passagem a seguir, traduz, de forma clara, essa situação: “[...] em 1938, depois de proclamado o Estado Novo, que lhe pareceu um golpe genial do baixinho para continuar no poder sem os trambolhos do Congresso e dos partidos políticos. (Verissimo, 2001, p. 45).

No romance em questão é retratado um Getúlio Vargas, que se tornou um mito para as pessoas simples e humildes. Isso era necessário para caracterizar a força de um Homem, isso mesmo, Homem com H maiúsculo como é citado em algumas passagens do texto, que assume as proporções de um Deus, o “Salvador da Pátria” decadente. Uma das características marcantes de um sistema denominado populismo tão questionado pela História, assim explicado por Doratioto:

Populismo - Política em que se estabelece uma relação direta e emocional entre um líder e a massa desorganizada e carente, que vê no líder e no Estado um meio rápido de ver atendidas suas necessidades. Por outro lado, o Estado desenvolve a idéia de ser ele o organizador de uma ampla aliança de interesses sociais, econômicos e políticos, voltada para o bem-estar comum. Ocorre quando os partidos políticos não estão devidamente organizados e a sociedade não desenvolveu formas próprias de organização e participação política (Doratioto, 1991, p. 82)

Para muitos brasileiros da época, Getúlio Vargas, era santo, como para a preta Acácia, representante da classe proletária, dentro da obra. A literatura identifica grupos humanos marginais; é o caso das massas que apenas serviram de figurantes para a história. Os seus desejos não atendidos, as suas presenças mantidas no anonimato, enfim, suas vozes silenciadas, compõem um modelo alternativo ao fato produzido historicamente, que marca presença mais intensa na literatura do que na própria história oficial, onde nem sempre sua participação interessa. Diz o autor:

Na sua breve oração daquela manhã, Acácia pediu ao Dr. Getúlio que protegesse a população de Antares...depois de fazer o sinal da cruz, ergue-se, gemendo, e de repente lhe ocorreu pedir mais alguma coisa ao seu “santo”: Meu ganhame aqui é pouco e o trabalho muito, Presidente. Mande essa gente me pagarem mais. Amém!( Ibid, 2001, p. 302).

O modelo adotado neste romance sugere o debate ideológico, a discussão política, a exposição direta das opiniões, misturando nesse questionamento tanto as personagens historicamente reais como as puramente fictícias, se é que existam personagens neste modelo. Segundo pensamento do próprio Verissimo:

Em minha opinião, um escritor não deveria pertencer a partidos políticos, porque a pressão por seguir todo o tempo as linhas partidárias sem dúvida arruinará seu trabalho. Por outro lado, não há muito propósito em se portar como o sujeito que tinha uma metralhadora portátil e que, interrogado durante a guerra civil espanhola sobre qual o lado por que lutava, respondeu: nenhum, luto por conta própria. (Veríssimo, apud Pesavento, 2001, p. 137).

O romance oferece à literatura a dimensão de sua historicidade. Trata-se da apresentação de momentos privilegiados em que a ficção assume a consciência política da sociedade. Tanto mais importante se registrarmos que, instaurando a metáfora da tirania e do aprisionamento, através da ditadura, ou sugerindo a fronteira da liberdade, através da morte, História e Literatura reuniram-se no mesmo processo de revelação da realidade brasileira.

A 11 de dezembro de 1963 houve greve geral em Antares. O clima existente na cidade nesse dia é visto pelo narrador onisciente em terceira pessoa como algo assustador: ”Pesava na cidade uma atmosfera de princípio de fim do mundo.”(Verissimo, 2001, p.196). Isto é um elemento mítico que concorda com a teoria mítico-cíclica da história que estrutura o romance. Há uma correspondência entre as mortes inesperadas e o clima de desassossego político-social existente no Brasil em dezembro de 1963, no final do governo de João Goulart: “O Jânio Quadros renunciou em 1961. E agora tudo isso [...] A morte de Quita, do Cícero, a greve geral, as loucuras do Jango e do Brizola [...] toda essa anarquia nacional[...]”(Ibid, 2001, p. 210). Incidente em Antares é um romance histórico, pois claramente o que acontece às personagens tem que ver diretamente com os eventos histórico-sociais brasileiros. O personagem professor Terra concorda com a explicação cíclica da história:

A gente esquece com facilidade. As gerações se sucedem. Cada governo escreve a história de acordo com as suas conveniências. E eu acho, meu caro, que cada um de nós tem nas suas mais remotas cavernas interiores um troglodita adormecido que, submetido a um certo tipo de estímulo, vem rapidamente à tona de nosso ser e se transforma num déspota totalitário capaz de todas as bestialidades. E nunca faltará um falso humanista para inventar uma teoria filosófica com o objetivo de coonestar todas as monstruosidades cometidas pelo “homem das cavernas (Ibid, 2001, p. 145).

Em uma passagem da personagem do Dr. Cícero nota-se a continuidade da história brasileira, revela-se mais uma vez a teoria cíclica, dessa vez em relação ao famoso Baile da Ilha Fiscal:

Para vós o importante é que a festa continue, que não se toque na estrutura, não se alterem os estatutos do clube onde os privilegiados se divertem. A canalha que não pode tomar parte na festa se amontoou lá fora no sereno, envergando a triste fantasia e a trágica máscara da miséria, essa deve permanecer onde está, porque vós os convivas felizes achais que pobres sempre os haverá, como disse Jesus. E por isso pagais a vossa polícia para que ela vos defenda no dia em que a plebe decidir invadir o salão onde vos entregais às vossas danças, libações, amores e outros divertimentos (Ibid, 2001, p. 344).

A literatura brasileira, especialmente da geração de 30, sempre registrou as grandes transformações sociais, adquirindo, com freqüência, um aspecto documentário para trazer ao debate as profundas alterações provocadas pelas forças detentoras do poder econômico e político. Daí por que, no caso de Erico Verissimo, a ficção nunca se desvinculou da função de instrumento válido para a interpretação da realidade circundante, uma vez que este autor é definido como participante desta geração, apesar da obra em estudo ter sido escrita em 1971.

Observando simultaneamente o presente insatisfatório e o passado da sociedade, o romancista articulava sua atitude humanista numa ideologia liberal que se faz contrária ao partidarismo, mas ainda assim situa o romance como um processo onde a ética do narrador deixa de ser um dado externo para converter-se em elemento interno de seu discurso, isto é, o fundamento do realismo. O romance em questão é “realista” no sentido do seu apreço pela fidelidade ao real, pelo detalhismo descritivo, mas também devido à fórmula empregada na recriação/criação das personagens e na explicação do seu destino onde importam sobremaneira os antecedentes, as raízes sociais, a função que desempenham na coletividade.

Na escrita de Erico Verissimo, a documentação do passado e a indagação acerca das origens históricas do homem em sociedade são condições necessárias para a existência da verdade. Entenda-se: a verdade da ficção, a verossimilhança de suas personagens imaginárias e a verdade do leitor presente, que lê o texto e o recebe como um referente da realidade vivida.

No texto, há várias passagens onde Juscelino Kubitschek é apresentado como o presidente que vai mudar os rumos do Brasil. O texto demonstra uma expectativa positivista, como, de fato, era a mentalidade predominante no final da década de 50. O plano de metas do governo surgia para revolucionar e fazer o país progredir: “Cinqüenta anos de desenvolvimento em cinco”(Verissimo, 2001, p. 96) e, mais do que isso procurava incutir na nação brasileira a idéia de que ela, a sociedade, tinha “um encontro marcado com o Destino, e um grande papel a representar no palco da História”( Ibid, 2001, p. 97).

Notadamente procuramos na literatura o prazer, mas se a isso podemos aliar conhecimento certamente teremos maior satisfação, de acordo com Chaves: “não se procura um livro para fugir à vida, mas sim para viver ainda mais, viver a vida da outras personagens, em outras terras, outros tempos. Ainda é o desejo de viver que nos leva para a leitura dos romances”. (Chaves, 1991, p. 42)

Proença Filho cita Sartre, pois este crê: “que a literatura de ação na história e sobre a história deve substituir a literatura de puro deleite estético”. (Sartre, apud Proença Filho, 1972, p. 54)

A literatura nos possibilita essa viagem, essa transcendência, onde podemos ser o que não se é, e nessa ação podemos estar unindo o prazer da leitura com uma função social, o conhecimento acerca de determinado assunto. Todos gostam de histórias, porque elas oferecem uma representação da vida, proporcionando a participação do leitor nos acontecimentos sem que este corra os “riscos” que a realidade apresenta.

No caso de Incidente em Antares, a viagem começa 100 anos antes dos acontecimentos finais, como requisito para justificar as atitudes daquela sociedade, a finalidade de uma “operação borracha” que pressupõe uma limpeza moral, que restituiria a normalidade. A transgressão dos valores já estava bastante arraigada naquela sociedade, e, isso foi sendo apresentada progressivamente. Deve-se frisar que apesar da “operação borracha” os fatos do incidente vazam para a imprensa internacional. Este é mais um caso de semelhança entre a fantasia e a realidade. Apesar dos militares proibirem a publicação de reportagens denunciando a tortura nos porões dos DOI-CODIs, apreenderem jornais, prenderem e torturarem jornalistas, a situação no Brasil não foi ignorada no exterior.

Os exilados políticos se encarregaram de contar ao mundo o que estava acontecendo no país. Muito embora isso não tenha trazido conseqüências imediatas, com o tempo e o aumento da pressão internacional o regime militar teve que ceder um pouco. A “operação borracha”, aliás, guarda semelhança com a política deliberada dos militares de negar a utilização da violência como recurso político a partir de 1968.

Se considerarmos a Antares de 63 e o Brasil pós 64, não podemos esquecer de registrar novamente que Verissimo antecipou o que ocorreria. A aprovação da Lei da Anistia [5] passou uma borracha na história brasileira, impossibilitando a punição dos culpados pelas torturas praticadas durante o regime militar, a anistia funciona como uma medida de pacificação nacional em que o governo anula os processos e penas de pessoas condenadas por motivos políticos. Mais uma vez há uma absoluta semelhança entre a conduta da burguesia de Antares e a brasileira após 68. Como a tortura não era noticiada obviamente não existia. Somente após a Anistia é que os casos de tortura foram realmente investigados. É claro, uma vez que os responsáveis já não poderiam ser mais punidos.

Quando um escritor quer ser imparcial e absolutamente objetivo, na simples escolha dos temas, das personagens, na pura disposição das cenas ele está dando a sua opinião sobre a vida, o mundo, os homens. Através do truque utilizado, em que os mortos insepultos exigem o sepultamento, ele expõe os podres de uma sociedade em decomposição, hipócrita e carcomida nas suas entranhas. Os mortos insepultos e o mau cheiro exalado, sem dúvida, constituem um símbolo metafórico e revelam bem a decomposição moral da sociedade. Antares é apenas uma molécula dentro de um sistema maior.

A literatura não é algo abstrato, que se crie como mero jogo ou entretenimento, mas, ao contrário, algo que se quer solidário, engajado no processo mesmo da realidade, da vida. De acordo com o pensamento de Chagas a literatura tem, sem dúvida, uma função social, e o produto literário é algo socializado, que se integra no processo histórico e social; e o próprio escritor, enquanto escritor, é o agente dessa função social que é a literatura, e dessa integração na sociedade do produto literário. (1976, p. 16).

Em entrevista para o jornal “Zero Hora”, declara Erico Verissimo que “o cenário não importa” e “o que conta [...] é o homem e seus problemas”.(Verissimo apud Chagas, 1976, p. 135). Trazendo para a literatura esses problemas, ele forneceu um amplo painel da realidade brasileira em aproximadamente 30 anos de sua obscura história durante a ditadura militar.

Na obra há uma lacuna entre 06/01/63 (cap. 59, 2.ª parte do livro) e abril de 1965 (cap. 65, 2.ª parte do livro). A referida lacuna é significativa. Ela parece querer indicar que o narrador, ou não quer, ou não pode relatar os fatos ocorridos naquele período, da mesma forma que vinha fazendo. A segunda parte do livro, que cobre justamente este período, é o longo flash back que trata do incidente com os mortos. Assim, o relato do fato fantástico corresponde à quebra da normalidade política e a impossibilidade de tratar-se a História historicamente, tal como vinha ocorrendo até então.

Erico Verissimo sempre se definiu como “um contador de histórias”. Entende-se, o ato de “contar a história” não nega nem disfarça o mundo; antes, narra-o com a existência de criaturas fictícias, mas, nem por isto, menos verdadeiras. A história, nesse romance, é uma espécie de tribunal de última instância, onde os recursos para se mudar os fatos estão esgotados. Vê-se isso no caso de Getúlio. Também no caso de Kubitschek, quando o personagem Lucas Faia, falando de Juscelino, diz: “Coisas que hoje parecem ousadia, loucura, amanhã serão consideradas não só sensatas [...] como até [...] modestas, tímidas” (Verissimo, 2001, p. 91).

A lição de história só se conhece plenamente no futuro, quando toda a potencialidade do passado se vê na perspectiva da distância temporal, um dos requisitos fundamentais para o ato historiográfico. A história é cheia de mudanças, nada estática, a história se constrói no presente, mas manifesta seus resultados no futuro. Como bem podemos analisar no trecho que segue:

O Getúlio com esta carta varre a sua testada, salva-se como homem e como estadista, encontra uma saída honrosa para uma situação pessoa difícil, apresenta-se como um mártir do povo, candidata-se à História, vinga-se dos inimigos atirando nos ombros e na consciência deles o seu próprio cadáver, e ao mesmo tempo... entrega ao João Goulart e ao P.T.B. um programa político e uma bandeira de guerra (Ibid, 2001, p. 91).

A narrativa de Erico Verissimo coincidiu, também, com a fase de urbanização acelerada no Estado e no país; a cidade e seus tipos são por ele retratados à perfeição:

A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto de ordem material como intelectual.. até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se...O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio - contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares e vice-versa (Verissimo, 2001, p.29).

É realismo sim, e realismo social, que para se tornar alegórico, junta-se ao realismo mágico. Segundo tese de Wolfgang Iser, a ficção “constitui um mundo familiar reproduzido de forma não familiar” (Iser, apud Bordini, 1995, p. 20). Erico Verissimo, em pessoa, se colocou dentro do romance que criou. Em um diálogo com a personagem Quitéria, ele quer saber quais as impressões que ela tem sobre ele. Faz neste momento, a sua própria ficcionalização, na medida em que se insere dentro da irrealidade:

- E o nosso Erico Verissimo?...

- Nosso? Pode ser seu, meu não é...quem vê a cara séria desse homem não é capaz de imaginar as sujeiras e despautérios que ele bota nos livros dele....

...em matéria de política o Erico Verissimo é um inocente útil (Ibid, 2001, p.178).

Erico Verissimo não era um inocente útil para o regime político, e como prova de sua repulsa ao Estado Novo, suspendeu um programa radial infantil, no qual participava em Porto Alegre, para não ter que se submeter à censura prévia. Comentando sobre esse incidente, Verissimo exclama: “Como as ditaduras temem as palavras!”. Afirma, assim, que diante de tais circunstâncias as mudanças histórico-sociais verdadeiras são impossíveis e que a sociedade patrimonialista brasileira se perpetuará indefinidamente. Afirma, ainda, que sempre predominará o caudilhismo político, seja por parte de um indivíduo ou por parte de uma instituição, como expressa o coronel Tibério Vacariano: “Ora, professor, que cada qual cuide da sua vida. Quem for mais capaz e mais macho vence. É a lei do mundo. Sempre foi.”( Ibid, 2001, p. 471).

A ficção não precisa acompanhar os passos do senso comum ou da lógica histórica; nem sequer da moral. Um texto literário pode apresentar não só palavras exóticas e pouco usadas, mas pode trazer para si toda forma de linguagem, inclusive, a linguagem factual do dia a dia que será registrada pela história oficial com o passar do tempo. O distanciamento temporal comprovará o que de verdade ou de ficção foi grafado como real. Os historiadores talvez não gostem de pensar que suas obras são traduções do fato em ficções, mas este é um dos efeitos de suas obras. Ao sugerir enredos alternativos de uma dada sequência de eventos históricos, os historiadores fornecem aos eventos históricos todos os possíveis significados de que a arte da literatura da sua cultura é capaz.

Ler obras com conotação histórica é, no mínimo, um bom exercício para a memória - mesmo para aqueles que não estiveram participando dos fatos. Incidente em Antares é uma obra alegórica, onde o autor utiliza a história oficial para a composição ficcional. Caracteriza, o autor, um lugar qualquer que, quando conhecido, passa a ser o microcosmo onde cabe sua ficção. Os personagens são colocados quase ao alcance de nossas mãos, vivendo seus dramas cotidianos, pequenos conflitos que são alimentados pela arbitrariedade de um regime que institucionalizou a violência.

Obras como esta, questionam e bombardeiam a verdade oficial. Oferecem verdades, respostas, explicam o horror a que se viram submetidos homens e mulheres durante tantos anos. O que se encontra em suas páginas são indagações que induzem o leitor a pensar e repensar a verdade histórica. A arte e a ficção seriam o espaço do questionamento, da dúvida, da eterna pergunta.

Temos que ter em mente que, ao escrever sobre história, mesmo com os recursos da ficção, e mesmo sendo um trabalho de ficção, o escritor estará sempre amarrado ao que realmente aconteceu. O escritor não pode criar um acontecimento partindo do nada. A realidade pode ser entendida como um limitador.

Outro fator em que a realidade limita é que a história é, em poucas palavras, triste e feia: um tipo de historinha que infelizmente conhecemos bem, e que avança através do tempo, torturadores impunes, corruptos que mudam de lado de uma hora para outra e que ainda se sobressaem como defensores da moral e dos bons costumes, gente idealista assassinada e difamada, um povo todo que apóia os que os oprimem.

Mas há que se considerar, sempre, que a história pode ser enriquecida pela ficção e que nesse caso, a criatividade do autor o fará desvencilhar-se dos limitadores. Seria bastante coerente afirmar que também o historiador, no seu ato de investigar o passado, usa da ficção para reconstruir e imaginar como transcorreram os acontecimentos.

Ficcionalizar é, portanto, importante para resgatar a história. A evidência histórica é limitada diante da multiplicidade imaginativa que a literatura é capaz de proporcionar. Os historiadores não são livres para inventar seus personagens, ou mesmo as palavras e os pensamentos de seus personagens, além de ser improvável que sejam capazes de condensar os problemas de uma época na narrativa sobre uma família, uma cidade, um fato social com a mesma épica e lírica como fazem os romancistas, mas estes podem servir de fonte inspiradora para um novo fazer diante do cientificismo que a História requer.

 

Notas:

[1] Ao contrário do que recomenda a regra ortográfica que diz: “todas as palavras proparoxítonas deverão ser acentuadas”, o nome de Erico Verissimo não recebeu acentuação por ocasião de seu registro civil.

[2] Os Atos Institucionais foram decretos emitidos após o Golpe militar de 1964 no Brasil. Serviram como mecanismos de legitimação e legalização das ações políticas dos militares, estabelecendo para eles próprios diversos poderes extra-constitucionais. Na verdade, eram um mecanismo para manter na legalidade o domínio dos militares. Sem este mecanismo, a Constituição de 1946 tornaria inexecutável o regime militar, daí a necessidade de substituí-la por decretos.

[3] Sigla que designou o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, órgão de inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime inaugurado com o golpe militar de 31 de março de 1964, destinado a combater o chamado “inimigo interno”.

[4] Jornalista, morto por asfixia nos Departamentos do DOI-CODI em São Paulo, por ter sido considerado comunista, aos 38 anos de idade, em 25 de outubro de 1975.

[5] Lei da anistia é o nome popular da lei n° 6.683, que foi promulgada pelo Presidente João Baptista Figueiredo em de 28 de agosto de 1979, ainda durante a ditadura militar, e que diz o seguinte: Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares (vetado). § 1º - Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política.

 

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Roselene Berbigeier Feil é Mestranda em Literatura e Práticas Culturais pela Universidade Federal da Grande Dourados. rose-feil@hotmail.com

 

© Roselene Berbigeier Feil 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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