Jardineiro Arlequim:
Reflexões sobre um Pássaro Incubado n´A Palavra Cerzida de Cacaso

Débora Racy Soares

Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/FAPESP)
debora_racy@yahoo.com.br


 

   
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Resumo: O objetivo deste artigo é refletir sobre o livro A Palavra Cerzida (1967), escrito por Antônio Carlos Ferreira de Brito (Cacaso). Nesse seu primeiro livro, Cacaso pensa a poesia como trabalho em processo. Para tanto, recorre a personae poéticas diferentes: o jardineiro, o arlequim e o pássaro incubado.
Palavras-Chave: A Palavra Cerzida, 1967, Cacaso, Antônio Carlos Ferreira de Brito, poesia brasileira.

Abstract: The purpose of this article is to reflect about the book A Palavra Cerzida (1967), written by Antônio Carlos Ferreira de Brito (Cacaso). In his first book Cacaso considers poetry as work in progress. In order to do so, he makes use of different poetic personae such as the gardener, the clown and the laying bird.
Keywords: A Palavra Cerzida, 1967, Cacaso, Antônio Carlos Ferreira de Brito, Brazilian poetry.

 

1. Primeiros Passos

A Palavra Cerzida (1967) é o primeiro livro de poesia de Antônio Carlos Ferreira de Brito (1944-1987), mais conhecido por Cacaso no meio literário brasileiro da década de setenta. Na época em que este livro foi publicado, Cacaso cursava Faculdade de Filosofia na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, onde era aluno de José Guilherme Merquior. Antes, porém, de começar a escrever versos, o poeta que se dizia “paulista de Uberaba” e que fez parte da chamada geração “marginal do mimeógrafo” da década de setenta, já tinha estreado no cenário musical brasileiro (apud HOLLANDA, 2000, p.239).

Em 1962, com 18 anos, Cacaso compõe “Carro de Boi”, em parceria com Maurício Tapajós. Posteriormente, esta música seria gravada pelo grupo “Os Cariocas”, e se tornaria popular entre o pessoal do “Clube da Esquina”. Milton Nascimento, diante do sucesso de “Carro de Boi”, resolve regravá-la em seu disco “Geraes”, em 1976. É oportuno perceber que, antes de se dedicar à publicação de seus seis livros de poemas, Cacaso se interessou pelo universo musical. Suas composições em quadrinha migrariam, depois, para alguns de seus poemas. A pertinência de um estudo comparado, entre poemas e canções, já foi sinalizada por Soares (2003). Alguns versos do poeta parecem um verdadeiro celeiro de sonoridade musical, além de funcionarem como uma espécie de rascunho criativo para suas futuras canções.

Entre 1962 e 1966, a produção poética de Cacaso ganha força, sobressaindo-se em detrimento de sua lavra musical. A Palavra Cerzida, portanto, resulta deste furor criativo inicial, que ocuparia o poeta durante a maior parte da década de setenta. Nesta época, Cacaso mostra-se mais interessado na publicação alternativa de seus livros de poesia, embora não tenha abandonado o hábito de compor canções. À medida que seu interesse pela poesia decresce, com a publicação do último livro, Mar de Mineiro (1982), Cacaso intensifica sua produção musical.

Mar de Mineiro já é um livro misto, de poemas e canções, com predominância destas. São 75 canções, ao lado de 44 poemas. Dedicado aos parceiros musicais Nelson Ângelo e Novelli, este livro de 1982 pode ser lido como uma espécie de farewell do poeta Cacaso, pois inaugura sua definitiva passagem para o universo de compositor da Música Popular Brasileira. Em 1980 afirmara: “tem uns dois anos que eu não consigo fazer um poema, a verdade é essa. Só sei fazer letra de música” (BRITO, 1981, p. 08). A idéia de Cacaso era “compor bastante”, para quando “as pessoas perceberem”, já “estar com um projeto pronto” (BRITO, 2000, p. 110).

As mais de oitenta canções, compostas com Nelson Ângelo, contribuem para consagrar a definitiva entrada de Cacaso no mercado fonográfico, logo na primeira metade da década de oitenta. Sua produção musical pode ser ouvida no CD Mar de Mineiro, de 2002. Este CD, produzido por Nelson Ângelo, apresenta 13 músicas, todas oriundas de sua parceria com Cacaso. Ademais, representa a concretização do sonho “de gravarem juntos”, que “ambos acalentavam, desde os anos setenta” (SOARES, 2007, p.03).

Cacaso acreditava que a música poderia lhe garantir projeção nacional, dando-lhe a “chance de ficar conhecido no Brasil inteiro” (BRITO, 2002, p.109). No que concerne à poesia, sabia que “mesmo que ela desse certo”, poderia deixá-lo “confinado ali na esquina”, pois sua “experiência com poesia” era “num setor minúsculo” (BRITO, 2002, p.109). De certa forma, a frustração poética inicial, com A Palavra Cerzida, acrescida da divulgação limitada de seus livros - produzidos de forma alternativa na década de setenta - seriam recompensadas, posteriormente, com o reconhecimento musical. Na década de oitenta, quando começou a fazer sucesso no meio musical, Cacaso chegou a ser considerado o “legítimo herdeiro” de Vinícius de Moraes (HOLLANDA, 2000, p.240).

 

2. A Palavra Cerzida

O gosto pela poesia escrita resultaria n´A Palavra Cerzida, o único livro de Cacaso publicado de forma tradicional, através de uma editora reconhecida, a José Álvaro. Todos os seus demais livros - Grupo Escolar (1974), Beijo na Boca (1975), Segunda Classe (1975, com Luís Olavo Fontes), Na Corda Bamba (1978) e Mar de Mineiro (1982) - seriam publicados com seus próprios recursos, em edições limitadas, de no máximo 500 exemplares.

José Guilherme Merquior, professor predileto de Cacaso, foi seu principal incentivador. Na época, o jovem poeta, em dúvida sobre seus poemas, teria se aconselhado com o mestre. Surpreso diante do que havia lido, Merquior não só estimulou a publicação dos versos em livro, como também se encarregou de escrever a nota introdutória à primeira edição de A Palavra Cerzida. Na verdade, o título original deste livro era Primeira Elegia. Porém, Merquior sugeriu o título final e também um outro, que foi logo descartado: As Palavras Incendiadas, numa alusão ao último verso do poema conclusivo “Alegoria”. Além de determinar o título do primeiro livro de Cacaso, Merquior apresentou um poeta estreante, que conseguia “infundir muito de novo” e de “definitivo” à “rica tradição poética do modernismo” (apud BRITO, 1967, p.11). Após expor, de forma breve, as quatro partes que compõem A Palavra Cerzida - “O Lado de Dentro”, “O Triste Mirante”, “A Palavra de Dois Gumes”, “O Sono Diurno” - o crítico literário concluiu sua apresentação definindo, como “poesia autêntica”, versos de “sabor eminentemente visionário”, que tornam “poéticas” “as coisas heterogêneas” (apud BRITO, 1967, p.11-14).

Mesmo tendo sido louvado por Merquior em sua estréia, Cacaso relata ter passado por uma “experiência muito frustrante”, pois A Palavra Cerzida “foi editad(a), distribuíd(a) e não aconteceu nada (...) o livro nunca foi lido, nunca foi comprado por ninguém” (BRITO, 1981, p.06). “Foi uma coisa tão inexistente na minha vida, a publicação do livro, que eu tinha a sensação de ser editado, e não ser” (BRITO, 1981, p.06). Diante de suas expectativas frustradas - para não dizer ingenuidade de principiante - Cacaso teria desconfiado de sua capacidade como poeta, como registra em nota de seu segundo livro, Grupo Escolar.

Em sua opinião, a recepção quase nula de A Palavra Cerzida deveu-se ao fato de ter escrito “uma poesia muito complicada, muito intelectualizada, com pretensão um pouco filosófica” (BRITO, 1981, p.06). Motivado pela suposta baixa receptividade de sua obra, Cacaso procurava justificar sua “complicação” poética dizendo que, na época, era estudante de Filosofia. “Os poemas são um pouco forçados por alguém que tinha assuntos abstratos, queria escrever e tinha lido muita poesia modernista” (BRITO, 1983, p.141). Em outros momentos, chega até a afirmar que o livro de 1967 é “um livro de estudante de Filosofia” porque “tem o ser e o nada”. “Mais construído” e “menos voltado para a vida” é como o jovem poeta considera seu livro inicial (apud Pereira, 1981, p. 164). Livro que, em 1983, declarara “ler” e se perguntar: “será que fui eu que fiz?” (BRITO, 1983, p.141).

O estranhamento em relação a A Palavra Cerzida não deixa de ser curioso. Observando a trajetória poética de Cacaso, percebemos que há tantos “Cacasos” quantos são os seus livros. De certa forma, a necessidade de experimentar, somada à liberdade criativa, dispositivos essenciais para o poeta, revelam uma trajetória acidentada, repleta de desafios para a análise. Talvez o último Cacaso, aquele de Mar de Mineiro, não se reconheça em seu livro de estréia justamente pelo fato de, desde o início, travestir-se em múltiplas personae. Embora este exercício não chegue a configurar heterônimos, como no caso extremo do poeta português Fernando Pessoa, produz um efeito curioso: a constante desidentificação. Assim, sem identidade lírica fixa, o poeta revela-se sempre à procura de uma forma inusitada de expressão. Os estilos, sobrepostos no decorrer desta trajetória sui generis, deixam entrever uma poética pautada pelo constante exercício de aprendizagem. Portanto, a problematização da identidade lírica, embora não figure como tema em A Palavra Cerzida, já aparece, de forma implícita, na necessidade de experimentar fantasias.

Ainda em relação ao primeiro livro, é interessante atentar para a forma como foi produzido. O cerzimento da palavra poética exigia uma “programação rígida” que, por sua vez, iria repercutir na construção rigorosa dos versos (apud PEREIRA, 1981, p.164). Depois d´A Palavra Cerzida, a arquitetura cabralina dos primeiros versos seria substituída por poemas que parecem seguir o fluxo da fala e da respiração e dão a impressão - equivocada - de terem sido feitos sem esforço. Abusando da concisão, à maneira oswaldiana, e da linguagem cotidiana, como os primeiros modernistas, Cacaso revelaria sua outra face em livros como Beijo na Boca e Na Corda Bamba. Inspirado em Bandeira, Cacaso experimentaria uma nova forma de linguagem poética, mais voltada para a vida, como ele desejava. Não podemos, contudo, associar a distensão formal à facilidade de composição. Pelo contrário, a impressão de facilidade revela um outro tipo de esforço construtivo que não encontra equivalentes n´A Palavra Cerzida.

 

3. O Pássaro Incubado

No primeiro livro - A Palavra Cerzida - o sujeito lírico exibe algumas fantasias: de pássaro incubado, de samurai, de jardineiro, de peixe, de arlequim, esta talvez emprestada de Mário de Andrade. O desfile de fantasias - tiradas “só em dia de carnaval” - anuncia a multiplicidade fecunda como exercício de escrita (BRITO, 1982, p. 120).

A palavra ainda está sendo cerzida sob múltiplas influências, mas é notável a presença tanto do léxico drummondiano (boi, pedra, retinas), quanto do cabralino (pedra, galo, dia, engenharia, faca, lâmina). Poderíamos dizer que esta “palavra de dois gumes” está sendo adestrada, sobretudo, na escola das facas e no museu de tudo (BRITO, 1967, p. 71).

Logo no poema de abertura, “O Pássaro Incubado”, o poeta revela sua sina: sua condição inacabada. O “cubo”, análogo ao ovo, funciona como incubadora, propiciando o desenvolvimento do poeta, ainda em estado embrionário. Pois é certo que esse poeta ainda está “preso” à “gaiola”, do “lado de dentro” (BRITO, 1967, p.15,17). Essa servidão voluntária, depreendida da força da metáfora, pode ser lida duplamente. Por um lado, como se trata do primeiro livro, o poeta ainda não está preparado, não está em “condição acabada” e justificaria sua falta de “domínio” da linguagem poética (BRITO, 1967, p.18). Por outro lado, em decorrência da inexperiência, ainda está atado a “roupa(s) enjeitada(s) que lhe “decepa(m) as asas” (BRITO, 1967, p.17).

Em outras palavras: a busca da própria voz, de asas próprias, demanda a passagem pela tradição literária. É como se o poeta justificasse sua “branca imaturidade”, reconhecendo que ainda “não é dono de onde mora”, mas também “não mora onde é inquilino” (BRITO, 1967, p.18, 127). De certa forma, sua poesia ainda está em definição, pois “diante do espelho”, ainda não tem “rosto” (BRITO, 1967, p.20). Poesia que, como o “dia”, é “aurora que não se arrisca” (BRITO, 1967, p.23).

A idéia do pássaro incubado será retomada em outros poemas do livro, como “A Ostra” e “Clausura”, através de novas metáforas. Ratificando o fechamento necessário à incubação, o sujeito lírico segue “trancado na jaula”, em “casta armadura”, procurando “um canto que embala” (BRITO, 1967, p.27). O “canto” em construção revela o canteiro de (d)obras e o rigor de um “samurai” que não se cansa de edificar quadrinhas (BRITO, 1967, p.29). Ao lado de formas clássicas, como o soneto, as quadrinhas predominam neste primeiro livro. Os poemas de cunho metalingüístico são especialmente reveladores. Ao pe(n)sar suas penas, tal como “geográfo quase alheio”, o poeta, “em tempo de notícia” revela seu percurso: “a cada passo uma pena”/ “a cada traço uma cena” (BRITO, 1967, p.17, 33). Assim, a construção do poema está associada à reinvenção de si: “me invento na laje, no corte e na palavra./Inútil: estou sempre começando” (BRITO, 1967, p.39). Por isso, o poeta é “mapa“ e “não (se) desvend(a)” (BRITO, 1967, p.33).

A crítica teria como tarefa aprender a ler o mapa para desvendar o poeta que, como o esperado, jamais se despe das fantasias e, além do mais, as coleciona. Estamos, portanto, diante de uma carta geográfica bastante acidentada. A topografia incerta deste A Palavra Cerzida, contudo, aponta o norte: antecipa uma trajetória ambígua que já nasce confundida entre dois veios: a “origem” e o “limite” (BRITO, 1967, p.85). A “origem”, A Palavra Cerzida, revela que o “limite” não reconhece “formas de contenção” (BRITO, 1967, p.34). O poeta-peixe transborda num “fluir além das escamas”, através da poesia que é “travessia”, como a vida, e “geração”, criação de novas formas, reinvenção de si (BRITO, 1967, p.35,38).

A fecunda multiplicidade, entrevista neste primeiro livro, revela um percurso poético que será pautado por superações. Pois, não é a própria superação o “ato do saltar-por-sobre-si-mesmo”, “o ponto originário - a gênese da vida”? (NOVALIS, 1988, p.152). Se a superação é o princípio, então o (re)começar é eterno, pois os limites tornam-se infinitos. Assim sendo, os versos de Cacaso, nesse primeiro livro, estão em “Processo”, como o poeta (BRITO, 1967, p.63). Assim, faz parte do processo, atender à exigência da vida que “lateja e propõe outro costume” (BRITO, 1967, p.69). De fato, o costume, as fantasias serão várias ao longo de sua trajetória poética, pois o (re)nascimento é sempre “parto insólito” que “concentr(a)” e “dissip(a) as formas varridas” (BRITO, 1967, p.63).

O “Jardineiro”, semeador da “palavra escrita” que “permanec(e) na terra”, confirma o destino do poeta: “postumamente sobreviv(er)” (BRITO, 1967, p.79, 81). Nesse sentido, é interessante pensar o signo em sua origem etimológica - sèma: túmulo e signo. A palavra poética floresce novamente a cada leitura, desabrochando sentidos, desafiando o tempo e o silêncio da morte. A movimentação do “Signo” promove a permanência do “jardim” na “fímbria intemporal” (BRITO, 1967, p.99). Ler é ressuscitar.

Já o “Arlequim” nega a “morte servida em pedra”, “moldada” em “retinas”, ao convocar o “nervo exposto”, o palpitar da vida (BRITO, 1967, p.71). O desejo de mobilidade casa-se com a necessidade de tirar e pôr fantasias, enfim, de (se) experimentar (n)uma poética multicolorida. O traje cerzido por um poeta incubado transforma-se “em verbo”, em “palavras incendiadas” para “resgatar o mundo” (BRITO, 1967, p.167).

 

Referências

BRITO, Antônio Carlos Ferreira de. A Palavra Cerzida. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1967.

——. Coleção Remate de Males 2 - Rebate de Pares (revista). Org. Berta Waldman e Iumna Maria Simon. Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP, Campinas, 1981, p. 6-9.

——. Mar de Mineiro: Rio de Janeiro, 1982.

——. “Poemas da Palavra Cerzida: Tontas Coisas, Marcas do Zorro, o Rapto da Vida”. Revista do Brasil, no. 2, 1983, p. 132-143.

——. Revista Inimigo Rumor: Especial Cacaso. Rio de Janeiro, maio de 2000. ISSN: 1415-9767.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. “Vida de Artista”. In: ____________ et al. (Org.). Cultura em Trânsito: da Repressão à Abertura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000, p.239-242.

NOVALIS (Friedrich von Hardenberg). Pólen. Fragmentos, Diálogos, Monólogo. Tradução,

apresentação e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Iluminuras, 1988.

PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de Época: Poesia Marginal Anos 70. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1981.

SOARES, Débora Racy. Um Frenesi na Corda Bamba - Análise Crítica da Obra Poética Grupo Escolar (1974) de Antônio Carlos Ferreira de Brito. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Araraquara, São Paulo, 2003.

——. “O Ornitólogo e a Arapuca: Notas sobre A Palavra Cerzida e Grupo Escolar de Cacaso”. Revista Texto Poético, ISSN 1808-5385, vol.4, 2007, p.1-9.

 

© Débora Racy Soares 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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