Mikhail Bakhtin no Brasil: primeiras repercussões

Clara Ávila Ornellas [1]

Universidade Estadual Paulista
(UNESP-Assis/FAPESP)
Brasil
ornellasclara@gmail.com


 

   
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Abstract: In this text we present references on the first repercussions of the thought of Mikhail Bakhtin in the Brazilian academic context, particularly, in the area of Letters, of the Universidade de São Paulo and the Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. After the exposition of historical and biographical elements, we detach first books critical-theoreticians produced for Brazilian researchers and professors. Moreover, we present the programs of the first courses of the two institutions of education that had made references to Bakhtin. These materials contribute for the elaboration of a historical panorama of the repercussion of Mikhail Bakhtin in the West World.
Key-words: Critical Reception; History of the Ideas; Mikhail Bakhtin; Brazil

 

Considerando a importância do pensamento de Mikhail Bakhtin (1895-1975) para as Ciências Humanas e a atualidade de seus estudos, particularmente, para a área de Letras, este texto apresenta parte dos resultados da pesquisa de mestrado intitulada “A presença de Mikhail Bakhtin em dissertações de mestrado e teses de doutorado, em Letras, da USP e PUC/SP, no período de 1972 a 1996”, defendida em 1998, no Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo, sob orientação da Professora Doutora Elisabeth Brait e incentivo de bolsa CNPq.

A referida pesquisa centralizou-se no estudo dos tipos de utilização do pensamento bakhtiniano por parte dos alunos de pós-graduação em Letras, da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ambas localizadas na cidade de São Paulo. A partir da presença de referências bibliográficas ao pensador russo em 100 trabalhos de conclusão de mestrado e doutorado, focalizou-se como ocorreu esta apreensão formalizada em três categorias básicas: citação textual, paráfrase e alusão.

No presente texto, apresentamos considerações gerais sobre as primeiras manifestações do pensamento de Bakhtin no âmbito acadêmico, destacando-se principalmente Boris Schnaiderman como precursor na divulgação das idéias bakhtinianas, bem como os primeiros livros críticos-teóricos e as primeiras disciplinas a trazerem à tona referências às idéias bakhtinianas por parte de professores e pesquisadores brasileiros. Para tanto, iniciamos essa abordagem localizando primeiramente os contextos histórico e pessoal vivenciados pelo pensador russo e suas relações com um círculo de estudos, elementos importantes para se compreender as condições de produção em que ocorreu o desenvolvimento dos estudos realizados por este pensador. Apresentar esses dados se torna promissor, haja vista que congrega elementos reveladores do percurso das idéias deste pensador no Brasil e auxilia na elaboração de um panorama histórico da repercussão de Mikhail Bakhtin no Ocidente.

 

Contexto político e história pessoal

Considerado um dos maiores pensadores do século XX, no âmbito das Ciências Humanas, Mikhail Mikhaillovich Bakhtin nasceu em 16 de novembro (ou 04 no calendário antigo) [2] de 1895, em Oriel, Rússia. Observando-se sua biografia, em contraste com o contexto histórico, é possível perceber o reflexo de um regime político autoritário na dimensão individual. Isso pode ser compreendido se considerarmos a história da República Socialista Federativa Soviética da Rússia da época em que o teórico russo viveu.

No início do século, a Rússia passou por revoluções marcadamente importantes para o seu desenvolvimento tanto interno quanto externo. O ano de 1917 contou com duas revoluções, em particular, que o tornou inesquecível não apenas para os russos, mas para a história deste século.

A primeira revolução data do mês de fevereiro quando a burguesia se junta ao proletariado, inclusive aos militares que estavam descontentes com a participação russa na I Guerra Mundial (1914-1918), pois o povo, de um modo geral, não suportava mais a fome, a miséria e a opressão que, se antes da Guerra já eram predominantes, na sua vivência chegaram a níveis insustentáveis. Nesse clima hostil, as manifestações populares provocaram a abdicação do czar Nicolau II e, pela primeira vez na história da Rússia, instaura-se um regime constitucional. Entretanto, camadas da burguesia detentoras de facções do poder tentaram impor um regime restaurador, isto é, uma volta à opressão contra as camadas trabalhadoras da população. Nova revolução acontece, então, em 25 de outubro e, desta vez, o comando nacional finalmente fica nas mãos da classe proletária. Instaura-se o regime comunista, presidido por Vladimir Ulianov Lênin. Contudo, isso não significou que a Rússia entraria numa época de paz:

E a reação dos antigos privilegiados foi uma luta encarniçada contra os revolucionários: unidades do exército, sob o comando de oficiais reacionários (Denikin, Kornilov, Vrangel), auxiliadas por tropas estrangeiras, levaram o terror às mais diversas regiões da Rússia. O novo Estado é compelido a responder com violência: o Exército Vermelho (criado por Trotski) replica ao terror reacionário com firmeza e impiedade e, três anos depois, impõe-se em toda a Rússia. (NETTO, 1985, p. 29)

Após a morte de Lênin (1924), entram em disputa, pela sucessão governamental, Trotski e Stalin. Stalin torna-se vencedor e abre-se nova página da história da Rússia, isto é, o chamado período stalinista, que vai de 1927 a 1953.

Stalin conseguiu que seu país se industrializasse e entrasse na modernização, processo já em desenvolvimento em países europeus (França e Bélgica, por exemplo). Entretanto, os meios pelos quais chegou a esta conquista não foram nada exemplares:

Os métodos empregados, contudo, foram brutais: populações inteiras dos campos foram deportadas, as formas do trabalho industrial (envolvendo homens egressos de zonas agrícolas e, portanto, pouco afeitos à disciplina exigida pela fábrica moderna) tiveram feição repressiva - inclusive o direito de greve foi rigorosamente proibido. (Idem, 1985, p. 41)

Stalin não aceitava idéias que iam de encontro às suas e, para fazer valer seu poder, a repressão se instalou de tal modo que foram realizados inúmeros expurgos e a “polícia política” tornou-se tão autocrática e impiedosa quanto o seu chefe de Estado. Multiplicam-se prisões com trabalhos forçados para presos políticos e assassinatos sem motivo aparente. Tal realidade implantou o total obscurantismo a toda sorte de pessoas, desde as mais humildes, que muitas vezes eram punidas sem saber o motivo, até os pensadores da época. Com esses últimos, Stalin foi implacável. Afinal, professores, escritores e filósofos ofereciam alto risco à imposição da repressão. É nesses termos que se apresenta a história contemporânea da vida de Mikhail Bakhtin e não são poucas as conseqüências por ele sofridas em decorrência do stalinismo. A biografia Mikhail Bakhtin (1984) [3], dos americanos Clark e Holquist, oferece vários aspectos importantes sobre o pensador russo, como se observa a seguir.

A vida de Bakhtin, durante as revoluções de 1917 e concomitantemente a I Guerra Mundial (1914-1918), esteve ligada à cidade de Petrogrado, onde cursou estudos clássicos na Faculdade Filológico-Histórica, tendo concluído o curso no ano de 1918. Essa época de intensa turbulência política também afetou o ensino universitário com a diminuição do número de professores. Segundo Clark e Holquist, Bakhtin não se manifestava nem a favor, nem contra os revolucionários. Tal posição de neutralidade política seria um traço marcante em toda a vida do pensador.

Entre os anos de 1918 a 1920, Bakhtin lecionou para o curso ginasial na cidade de Nevel e conviveu com o primeiro círculo de discussões filosóficas. A presença em debates em que se discutia política, religião, filosofia, dos quais participavam estudiosos e interessados em geral, deu origem às bases para o que seria o desenvolvimento do pensamento bakhtiniano. Os participantes mais influentes, para Bakhtin, foram Matvei Isaevich Kagan, doutor em filosofia alemã, e Lev Vasilievich Pumpiansky, que estudava a cultura européia. Foi na convivência com esse círculo que o pensador russo conheceu Valentin Nikolaevich Volochínov, estudioso de filosofia e de música que assinaria, ainda nos anos 20, obras atribuídas a Bakhtin, como é o caso de Marxismo e filosofia da linguagem e O freudismo.

Em 1920, Bakhtin mudou-se para Vitebsk, na época grande centro em efervescência cultural, resultado da fuga dos intelectuais das cidades de Moscou e Petrogrado, muito afetadas pela Guerra Civil. Novamente a prática de discussões filosóficas, políticas e culturais dariam origem a um segundo círculo, o de Vitebski, onde o pensador russo conheceu Pavel Nikolaevich Medvedev, formado em Direito e reitor da Universidade Proletária da cidade. Medevedev também assinaria textos atribuídos a Bakhtin. Outro fato importante para a vida de Bakhtin nesta época foi o seu casamento com Elena Aleksandrovna Okolovick, em 1921.

Em 1924, já em Leningrado, segundo Clark e Holquist, Bakhtin teve uma das fases mais importantes para sua vida em termos não só intelectuais, mas biográficos. Intelectualmente, produziu importantes obras e estudos: “During this brief interlude [1924-1929] he completed four major books, on Freud, the Russian Formalists, the philosophy of language, and the Dostoevskian novel, in addition to a number of articles” (CLARK e HOLQUIST, 1984, p. 95).

Para a vida de Bakhtin, Leningrado significou intensas dificuldades, pois não conseguiu emprego oficial e dependeu de pequena pensão do governo para sobreviver. Sua saúde estava precária. Mas Clark e Holquist ressaltam que a figura de Bakhtin dentro do Círculo de Leningrado tornou-se cada vez mais destacada, emergindo-o como líder do grupo.

Com a repercussão positiva [4] do livro Problemas da obra de Dostoiévski [5], em 1929, Bakhtin tornou-se mais conhecido academicamente. Entretanto, não pôde dialogar com os críticos de sua obra, em razão do regime stalinista. Sem argumentos muito claros - oficialmente seria em decorrência de sua participação numa congregação religiosa então não aceita pelo comunismo - Bakhtin foi condenado a seis anos de trabalhos forçados na Sibéria. Como suas condições de saúde não eram boas devido a osteomelite que o atormentava, sua pena foi reduzida para exílio no Casaquistão. Isso significou total falta de contato com os meios intelectuais da época. Desta forma, de uma só vez o regime stalinista negou a Bakhtin a liberdade para discutir as críticas acerca de seu livro recém-publicado, o convívio com intelectuais e o acesso às produções científicas e literárias do período.

Em agosto de 1934 terminou o exílio de Bakhtin, mas ele continuou em Kustanai, cidade do Casaquistão onde cumpriu a pena. Isto aconteceu em função das dificuldades políticas do pensador. Afinal, Bakhtin trazia o estigma do exílio e não era permitida a residência de condenados ou ex-condenados políticos em cidades como Leningrado ou Moscou. Esse foi mais um saldo negativo que o regime de Stalin deixou na vida deste pensador.

Ao final do mesmo ano, Bakhtin mudou-se para a cidade de Saranski e, através da recomendação de seu amigo Medevedev, conseguiu um emprego no Instituto Pedagógico da cidade. Contudo, no panorama político ocorria o Grande Expurgo - eliminação de todas as pessoas que eram contra o regime stalinista - que logo atingiu a referida instituição de ensino e, com medo de represálias, o pensador russo renunciou ao seu cargo e mudou-se para Savelovo.

Em Savelovo, mais uma fase de dificuldades financeiras e complicações de saúde atinge o pensador. A osteomelite tomava conta das duas pernas e chegou a tal ponto de gravidade que foi preciso amputar a perna direita em 1938.

Conforme afirmam Clark e Holquist, no segundo semestre de 1938, o Grande Expurgo inicia um declínio considerável de suas ações. A situação política ficou mais fácil e o número de detenções diminuiu. Até 1941, os intelectuais viveram uma época de maior liberdade e é nesse ano que Bakhtin apresentou sua tese para doutoramento intitulada Rabelais na história do Realismo. Porém, com a participação da Rússia na II Guerra Mundial (1939-1945), há uma estagnação tanto no processo de defesa da sua tese como na sua carreira de professor.

Após o término da Guerra, a Rússia ficou em estado de destruição, mas para Bakhtin, finalmente, acontece uma reviravolta em sua carreira. Ele defende sua tese. A defesa, entretanto, causou alvoroço porque a banca de avaliadores achou o trabalho muito aberto à sexualidade. Depois de sete horas de discussão foi concedido ao teórico russo o título de Candidato a doutor. O trabalho gerou polêmica e críticas. Contudo, Bakhtin optou pela postura de circunspecção. Continuou a lecionar e a fazer conferências. Seu nome tornou-se mais conhecido e ele transformou-se num professor bastante popular.

Com a morte de Stalin, em 1953, e a sua substituição por Nikita Khruschev, impõe-se nova situação para os intelectuais russos. Muitos erros cometidos durante o regime stalinista são reparados. Há a libertação de centenas de prisioneiros e o reconhecimento honroso de muitos pensadores que já tinham morrido, ou melhor, assassinados. Destacamos o caso de um dos amigos de Bakhtin, Medevedv, que morreu em local indeterminado.

O pós-stalinismo trouxe para Bakhtin, enfim, o reconhecimento com o cargo de chefe do Departamento de Russo e Literatura estrangeira da Ogarev Universidade de Mordovia, em Saransk, em 1958. Com a obtenção deste cargo, ele recebeu novas acomodações num prestigiado prédio da cidade. Em sua casa pôde, além de estudar, receber alunos e amigos. Foi um período de tranqüilidade.

O estudante de graduação Vadim Valerianovich Kozhinov, em 1960, no Instituto Gorky, teve o acesso ao livro de Bakhtin sobre Dostoiévski e à dissertação a respeito de Rabelais. Pensando que o autor destes trabalhos já havia morrido, juntou-se a outros amigos e escreveu para editoras pedindo a republicação do primeiro e a publicação da segunda. Não obtêm sucesso, mas nesse processo descobrem que Bakhtin ainda vivia e entram em contato com ele. Kozhinov e seus amigos tornam-se os novos discípulos do pensamento bakhtiniano, contribuindo muito para a divulgação de suas idéias, lutando junto com Bakhtin para conseguir as publicações das obras já referidas. Problemas da poética de Dostoiévski foi republicado, com a revisão do autor, em 1963, e A obra de François Rabelais e a cultura popular da Idade Média e do Renascimento teve publicação em 1965. Esses foram os dois livros que Bakhtin publicou durante sua vida. Outros, porém, seriam editados postumamente a partir dos escritos deixados pelo autor: Problemas de Literatura e de Estética, Moscou, 1975 e Estética da criação verbal, Moscou, 1979.

Não fosse o agravamento de sua saúde e da saúde de sua esposa, Bakhtin não teria mudado para Moscou em busca de tratamento médico. O final de sua vida foi bastante sofrido. Em 1971, sua esposa faleceu. No ano seguinte, ele perde a mobilidade de sua outra perna, ficando incapacitado para andar. A vida do pensador se complicou ainda mais com o problema de moradia. Ele residiu em vários lugares que os amigos lhe arrumavam, mas tudo era difícil devido à sua imobilidade física. Bakhtin passou seus últimos anos em uma cama, dedicando seu tempo à revisão de tudo que escreveu. Sua morte ocorreu em março de 1975.

 

O Círculo de Bakhtin e a questão da autoria

As reuniões dos círculos de estudos dos quais Bakhtin participou não eram em nada rígidas e fixas, conforme Clark e Holquist. Na verdade, tratou-se de grupo de amigos que gostavam de se encontrar para debates sobre filosofia e interesses em comum como cultura, política, literatura, música ou até mesmo biologia. Algumas vezes todos se reuniam para essas discussões, outras vezes tratou-se de reuniões particulares entre dois ou três integrantes.

Essa troca de conhecimentos, que o Círculo proporcionou, levou Bakhtin a ter contatos com outras áreas de estudos como pintura, música, medicina, biologia entre outras. Através desse relacionamento interativo, o pensador pôde confrontar suas idéias com outros horizontes de pesquisas e, a partir dessas experiências, elaborar conceitos de crítica literária e filosófica baseados em conteúdos, como por exemplo, da física - caso do cronotopo ou da música - bivocalidade.

Como aludimos anteriormente, durante o convívio com o Círculo foram publicadas obras e artigos assinados pelos integrantes do grupo. Essa questão gerou polêmica, porque há casos de livros publicados sob a assinatura de Volochínov e Medvedev postos em dúvida se seriam mesmo destes autores ou se elaborados por Bakhtin. Nos limitaremos aqui a citar somente os livros que foram alvo de dúvidas, não citando os artigos [6] de periódicos sobre os quais pousa também a sombra da ambigüidade quanto à autoria:

1- MEDVEDEV, P. and BAKHTIN, M. The formal method of literary scholarship: a critical introduction to sociological poetics. Leningrado: Priboi, 1928.

2- VOLOCHÍNOV, V. and BAKHTIN, M. Freudism. Moscou-Leningrado, 1927.

3- VOLOCHÍNOV, V and BAKHTIN. Marxismo e filosofia da linguagem: o problema do método sociológico na ciência da linguagem. Leningrado, 1929.

Boris Schnaiderman em “M.M. Bakhtin - notícia bibliográfica”, pertencente à coletânea Turbilhão e semente (1983), apresenta a posição do russo V.V. Ivanov em relação a autoria desses livros: “Na publicação de Tártu aos 75 anos de Bakhtin, V.V. Ivanov afirma, de modo categórico, que todas as obras [...] são fundamentalmente de Bakhtin. Volochinov e Miedviédiev teriam introduzido apenas ‘pequenos acréscimos e modificações de algumas partes..’” (SCHNAIDERMAN, 1983, p. 19).

Para Clark e Holquist, essas obras são de autoria do pensador russo e apresentam como argumento para tal afirmação a questão de que Bakhtin não aceitava as imposições de editores quanto a qualquer modificação em seus textos. Por isso, seus amigos teriam assumido compromissos editoriais para que as obras fossem publicadas, tornando-se responsáveis pela autoria. Os biógrafos levantam também o problema da censura política que permitia somente a publicação de livros para divulgação do marxismo ortodoxo e, como Bakhtin não era marxista ortodoxo, seus amigos teriam acrescentado elementos de teoria política para a liberação dos livros.

Outro argumento sustentado por Clark e Holquist é que o Círculo, ao publicar obras com nomes diferentes ao do autor original, se propunha a trabalhar a questão da autoria junto à noção de que nenhum discurso é privilégio de uma única pessoa, já que as palavras são o produto das relações sociais entre um “eu (s)” e um “outro(s)”.

Morson e Emerson (1990) são contrários às posições de Clark e Holquist. Eles questionam a posição dos biógrafos de Bakhtin fazendo, entre outras afirmações, a de que entre as obras assinadas por Volochínov e Medvedev pode haver influência de Bakhtin, mas que tais livros não foram escritos por ele. Morson e Emerson ainda acrescentam ser muito comum estudantes e colegas serem influenciados pelo pensamento de determinados amigos, mas ao usarem as idéias desses amigos para constituírem seus próprios trabalhos há transformações de ponto de vista significantes. A posição final de ambos quanto às obras atribuídas a Bakhtin, mas que não foram assinadas por ele, pode ser resumida em duas frases: “They are excellent books, but they are not Bakhtin’s. They are highly sophisticated monologizations of Bakhtin’s thought” (MORSON e EMERSON, 1990, p. 118) [destaque dos autores].

Já a crítica francesa Marina Yaguello (1992), na introdução da tradução brasileira do livro Marxismo e filosofia da linguagem, afirma que não só o livro sobre marxismo como também os demais textos disputados, são de Bakhtin. Para ela, o fato de tais obras terem sido publicadas com os nomes de outros autores se justificaria na atitude dos amigos do pensador russo que, ao verem sua dificuldade financeira e querendo ajudar na divulgação de suas idéias, publicaram tais obras em seus nomes: “Não há dúvidas quanto à paternidade de suas obras. O conteúdo se inscreve perfeitamente na linha de suas publicações assinadas...” (YAGUELLO, 1992, p. 12).

Tzvetan Todorov em Le principe dialogique (1981), a propósito da mesma questão, procura ser imparcial, limitando-se a afirmar : “je dirais que ces textes ont été conçus par le même (les mêmes) auteur(s), mais qu'ils ont été rédigés, en partie ou en totalité, par d'autres” (TODOROV, 1981, p. 20).

Em relação à posição dos críticos brasileiros quanto a esta questão, apresentaremos apenas duas colocações - uma contrária e outra a favor de que sejam obras bakhtinianas - que demonstram a preocupação dos estudiosos quanto a este fato.

Para Flávio Kothe (1977) o livro Marxismo e filosofia da linguagem é de autoria de Volochínov. Pode até ser, segundo o crítico, que exista alguma influência do pensamento bakthiniano na obra de Volochínov. Contudo, ambos seguiram linhas de pensamento diferenciadas, o que não permite vislumbrar uma mesma obra sendo assinada pelos dois conjuntamente.

Luiz Roncari (1988) ao tratar da questão diz:

A tendência, agora, é a de se atribuir todos [os livros] a ele [Bakhtin], mantidas as ressalvas de algumas partes postiças, mais dogmáticas, visando a afirmar um caráter marxista com vistas a driblar a censura, principalmente. [...] Mas creio que uma consideração de princípio aqui também se faz necessária: é a da relatividade da autoria individual na concepção dialógica de Bakhtin. Ele mesmo não se preocupa muito em enclausurar entre aspas todas suas citações... (RONCARI, 1988, p. 41). [destaque do autor]

É na mesma linha de Ivanov, Clark e Holquist e Roncari que nos posicionamos em relação à questão da autoria. Consideramos que o livro Marxismo e filosofia da linguagem - a obra mais conhecida e estudada em solo brasileiro -, se fora escrito na íntegra por Bakhtin, ou em parte, consolida-se como uma referência concreta ao pensamento do autor. Por essa razão, seguindo a edição brasileira, faremos menção sempre a Bakhtin, enunciando na bibliografia o nome de Volochínov entre parênteses.

 

Bakhtin no Ocidente

Na apresentação do livro Uma introdução a Bakhtin (Hatier, 1988), temos um panorama sobre Bakhtin que inclui notas biográficas e bibliográficas. Parte do texto nos informa acerca da circulação das obras do pensador russo no mundo:

No Ocidente, o nome de Bakhtin começou a circular nos fins da década de 50, com um texto de Vladimir Seduro (Dostoyevski in Russian Literary Criticism 1846-1956. New York, 1957), ganhando mais notoriedade a partir de 1967 com o artigo de Julia Kristeva (“Bakhtin, le mot, le dialogue et le roman”) publicado em Critique. São dos anos seguintes as principais traduções ocidentais dos livros de Bakhtin, das quais damos a seguir a primeira data [...]: em 1968, saem a tradução italiana do livro sobre Dostoiévski e a tradução inglesa do livro sobre Rabelais; em 1973, sai a tradução inglesa do livro sobre filosofia da linguagem; em 1976, saem a tradução alemã do livro sobre poética sociológica e a tradução inglesa do livro sobre Freud; em 1978, sai a tradução francesa dos textos sobre o romance; em 1984, a tradução francesa do material de arquivo. (Apresentação do livro Uma introdução a Bakhtin, 1988, p. 10) [7]

Segundo Clark e Holquist, as discrepâncias que ocorreram entre as datas de criação, publicação e tradução das obras bakhtinianas levaram a divulgação do pensador russo em perspectivas diferentes:

For example, translations of the book on Dostoevsky and Rabelais appeared in France in the late 1960s, during the high tide of Structuralism, so that they seemed best understood in the context of Structuralism or semiotics. Bakhtin's prominence in the Anglophone world arose in the wake of his vogue in Paris, which made it difficult to think of him as other than a literary critic in the Formalist tradition or a theorist of carnival and ritual inversions of hierarchy. (CLARK e HOLQUIST, 1984, p. viii-ix)

No Brasil, o primeiro livro traduzido foi Marxismo e filosofia da linguagem: problemas do método sociológico na ciência da linguagem, trazendo o nome de Volochínov entre parênteses, publicado pela editora Hucitec, em 1979, com a tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi a partir da edição francesa (Paris, Les Editions de Minuit, 1977).

A segunda tradução foi o estudo Problemas da poética de Dostoiévski, em 1981, publicado pela Forense-Universitária, traduzido por Paulo Bezerra a partir da terceira edição do original russo Kbudójestvennaya literatura, Moscou, 1972. A segunda edição foi publicada em 1997, incluindo revisões do tradutor. Atualmente, já conta com a quarta edição, de 2008, também revisada pelo tradutor [8].

A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais é a terceira obra de Bakhtin traduzida para a língua portuguesa. A versão é de Yara Frateschi e outros, editada pela Hucitec em 1987, feita a partir da edição francesa L'ouevre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance, Paris, Ed. Gallimard, 1970. Sua mais recente reedição - a terceira - data do ano de 1996.

O quarto livro, Questões de literatura e de estética: a teoria do romance, traduzido por equipe coordenada pela professora Aurora Fornoni Bernadini, foi publicado em 1988, pela editora Unesp/Hucitec. A referência quanto ao texto de origem são as Edições Khudajestvenaia Literatura, Moscou, U.R.S.S., 1975. Sua segunda edição data de 1990 e a quinta de 2002.

Estética da criação verbal foi publicada pela editora Martins Fontes, em 1992, com tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. Já conta com uma segunda edição, datada de 1997. Essa tradução foi realizada a partir do francês. Paulo Bezerra realiza nova tradução direta do original em 2003.

A seguir, verificaremos que, bem antes da primeira tradução de uma obra de Bakhtin ser publicada em nosso país, já nos primeiros anos da década de 70, em aulas de cursos de pós-graduação, os alunos liam e tematizavam as idéias do pensador russo. Assim, se antes de se editar uma tradução brasileira Bakhtin era tomado como precursor de concepções inovadoras para os estudos discursivos, depois das primeiras traduções (1979/1981) foi grande o impulso que tomou o pensamento bakhtiniano no meio acadêmico. Esse último aspecto também será destacado a seguir, depois da apresentação das primeiras manifestações de professores e pesquisadores brasileiros sobre as idéias de Bakhtin.

 

O pensamento bakhtiniano no Brasil

O precursor das idéias de Mikhail Bakhtin no Brasil foi o crítico, escritor, tradutor e professor Boris Schnaiderman que, como responsável pelas disciplinas de língua e literatura russa na Universidade de São Paulo, nos anos 60, teve seu primeiro contato com o pensamento bakhtiniano através da leitura de Problemas da poética de Dostoiévski na edição italiana. A partir desse primeiro contato, tomou este pensador russo como referência em suas aulas de literatura da graduação e cursos de pós-graduação.

Nessa época, o Brasil estava vivendo a ditadura militar. O poder repressor impedia que a maioria dos livros de pensadores estrangeiros tivesse circulação pelas universidades. Como Boris Schnaiderman afirma (1997, p. 16) na conferência inaugural do Colóquio Cem anos de Bakhtin, realizado em São Paulo: “Em 1964, as livrarias russas em nosso país tiveram todos os seus livros retirados para ‘exame’, numa verdadeira operação militar, que acabaria em incineração pura e simples”.

Atesta-se neste trecho a dificuldade de acesso às obras do pensador russo no Brasil da ditadura e, ironicamente, o precursor do dialogismo “chega” ao país quando o discurso monológico-autoritário impunha o silêncio e a subserviência do povo aos comandos militares opressores. As idéias de Bakhtin causaram impacto nos pesquisadores do Brasil ditatorial, na medida em que seus textos permitiram perceber a importância do dialogismo para entender não apenas o texto verbal, mas também o contexto extra-verbal e, a partir daí, construir uma nova visão do homem como ser eminentemente social e, portanto, produto de suas relações ideológicas.

Na “Conversa Preliminar”, do livro Turbilhão e semente: ensaios sobre Dostoiévski e Bakhtin (1983), Schnaiderman comenta sobre o impacto que a obra de Bakhtin lhe causou: “[...] procurei transmitir neste volume sobretudo o impacto que me causou, em sucessivas etapas, o pensamento teórico de Mikhail Bakhtin. Defrontando-se com um acontecimento extraordinário da literatura, o turbilhão e semente que foi Dostoiévski...” (SCHENAIDERMAN, 1983, p. 8).

Em “M. Bakhtin, a poética de Dostoiévski, polifonia”, texto que integra o mesmo livro, Boris comenta a importância de Bakhtin:

Realmente, o conjunto dos trabalhos deixados por Bakhtin e seus companheiros nos permitem, mesmo hoje em dia [texto de 1981], uma reflexão mais eficiente sobre a relação entre a estrutura de uma obra literária e as condições históricas em que ela surgiu. O modo como essa relação foi então colocada ajuda a superar certas abordagens lineares e conceber o texto como intimamente ligado ao problema social na linguagem, que já se manifesta no fato de que toda palavra pressupõe um interlocutor. (Idem, p. 74)

Ainda no mesmo texto, comentando sobre a tradução para o português da obra Problemas da poética de Dostoiévski, o professor afirma sobre a diversidade do pensamento de Bakhtin:

Enfim, de um ou de outro modo, o livro de Bakhtin agora publicado em português liga-se diretamente com o que vem sendo feito em nosso meio, em Teoria Literária, História da Arte, Antropologia etc. A extensão de suas concepções para os setores mais diversos, além do âmbito puramente literário ou filosófico, foi preconizada, mas não levada a efeito por ele [...] É com alegria que temos de saudar o aparecimento, em forma acessível, desta obra fundamental e rica, cuja própria exuberância e caráter inovador suscitam discussões, divergências, aplausos... (Ibidem, p. 80-81)

No texto “M. Bakhtin e a palavra no romance”, ainda no mesmo livro, Schnaiderman comenta as inovações que o pensamento bakhtiniano trouxe aos estudos das Ciências Humanas. Para ele, as questões estudadas por Bakhtin ainda são atuais e suas reflexões ampliam caminhos onde teóricos tiveram dificuldades. Mesmo que existam reservas quantos a algumas de suas premissas, as discussões suscitadas a partir de seus estudos possibilitam resultados fecundos (Cf. SCHNAIDERMAN, 1983, p. 86).

Mais à frente, no mesmo texto, Boris faz um comentário importante que demonstra a interdisciplinaridade do pensamento de Bakhtin:

Bakhtin fornece-nos elementos para tentar superar alguns grandes problemas dos estudos literários e lingüísticos. Por um lado, ficamos mais armados para compreender como é possível ligar o estudo imanente de um texto, a sua construção interna, com os elementos históricos e sociais, a tão apregoada relação texto/contexto fica muito mais esclarecida. Por outro lado, sua teorização permite ficarmos mais preparados para ultrapassar o estudo lingüístico do período gramatical e nos preocuparmos com os enunciados. (Idem, p. 92)

No último ensaio do livro Turbilhão e semente, ‘Estética da obra literária’, Schnaiderman volta a se referir às contribuições de Bakhtin para uma nova visão na análise de textos. Ele destaca que os estudos bakhtinianos transcendem as limitações de abordagem, pois contribuem para investigações na área língua e literatura e, muito mais que isso, proporcionam uma visão de mundo polifônica em que “vozes ecoam e se entrecruzam e tudo repercute em tudo” (Schnaiderman, 1983, p. 126).

Pelas citações apresentadas, observamos o pensamento de Bakhtin chegando ao Brasil como uma revolução que atinge o meio acadêmico, mostrando a importância da valorização do contexto para uma análise discursiva e, além disso, propondo uma nova visão do homem enquanto ser constitutivo de discursos.

A seguir, demonstraremos como as idéias de Bakhtin repercutiram nos anos seguintes à “descoberta” do pensador russo, procurando apontar quais as reações dos estudiosos diante dessas idéias e de que forma eles as relacionaram à análise discursiva e às outras áreas das Ciências Humanas.

Na apresentação do livro Diálogos com Bakhtin (FARACO, 1996), encontramos referências que nos ajudam a melhor caracterizar a repercussão de Bakhtin no Brasil e no mundo, durante os anos 70:

Diante de tantos percalços [referência à dificuldade de acesso as obras do de Bakhtin], não é de se estranhar, de um lado, a tardia repercussão de suas idéias (pode-se dizer que só no fim dos anos 70 é que Bakhtin começou a ser referência sistemática nos debates acadêmicos); e, de outro, a forma caótica de apropriação de seu pensamento. (FARACO, 1996, p. 8)

Depois de apontar algumas tentativas de “rotular” Bakhtin dentro de uma tendência específica, Carlos Alberto Faraco, em seu texto “O dialogismo como chave de uma antropologia filosófica”, que integra o livro Diálogos com Bakhtin, comenta que as várias tendências de se atribuir rótulos a Bakhtin pela academia é uma consequência esperada, pois diante do desconhecido e novo, normalmente, busca-se adequá-lo ao já conhecido e estabelecido. Tal perspectiva, salienta Faraco, geram leituras castrantes que reificam e minimizam a importância de suas idéias.

Beth Brait, no texto “A natureza dialógica da linguagem: formas e graus de representação dessa dimensão discursiva”, que integra os Diálogos com Bakhtin, permite visualizar a abrangência do pensamento de Bakhtin nos estudos dos anos 90:

O conceito de linguagem que emana dos trabalhos desse pensador russo está comprometido não com uma tendência lingüística ou uma teoria literária, mas com uma visão de mundo que, justamente na busca das formas de construção e instauração do sentido, resvala pela abordagem lingüístico/discursiva, pela teoria da literatura, pela filosofia, pela teologia, por uma semiótica da cultura, por um conjunto de dimensões entretecidas e ainda não inteiramente decifradas. (BRAIT, 1996, p. 71)

Retomando o texto de Faraco, “O dialogismo como chave de uma antropologia filosófica”, encontramos também uma visão dos estudos brasileiros que utilizam o pensamento bakhtiniano nos últimos anos do século XX. Para este crítico, a percepção de vanguarda conferida ao pensamento de Bakhtin auxilia no entendimento, em parte, do aumento significativo de estudiosos interessados em suas idéias, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo. Semelhante movimento de forma crescente origina traduções de seus textos e proporciona interpretações esclarecedoras de temas de lingüística, literatura, psicologia, educação estética, teoria cultural, solidificando-se através da criação de bases de dados, eventos e publicações (Cf. FARACO, 1996, p. 115).

Paulo Bezerra, no “Prefácio à segunda edição brasileira” do livro Problemas da poética de Dostoiévski (1997), aponta de maneira contundente a importância do pensador russo como contraponto ao pensamento neoliberal emergente:

Traduzidas para o nosso contexto atual, essas concepções filosóficas de Bakhtin são um suporte teórico fundamental para aqueles que não aceitam a nova (?) concepção monológica do mundo e o discurso autoritário e pretensamente indiviso produzido pelos arautos da globalização neoliberal e do chamado fim da história. (BEZERRA, 1997, p. XII)

Procurando traçar um panorama da repercussão de Bakhtin desde sua “chegada” ao Brasil até os nossos dias, apresentamos aqui não um quadro histórico perfeitamente delineado, mas um breve levantamento do impacto das primeiras leituras às posteriores análises. A recepção de Bakhtin tornou-se, pouco a pouco, mais detalhada e reflexiva. Vimos que não se vislumbra o pensamento bakhtiniano somente no âmbito dos estudos discursivos, mas num contexto mais amplo de interdisciplinaridade.

O Bakhtin dos últimos anos é visto não como um crítico com conceitos “rotuláveis”, mas um pensador que foge a delimitações estanques, propondo uma nova forma de se pensar o homem. Tem-se consciência da amplitude de seu pensamento e, ao mesmo tempo, do perigo de cair-se em generalizações. Por essa razão, atenta-se para o fato de que o pensador russo não deixou tudo pronto e acabado, sendo necessário estudar e analisar suas idéias cada vez mais profundamente para, assim, compreender elementos instigantes que são por elas suscitados e, ainda, não totalmente compreendidos.

 

Os primeiros livros críticos-teóricos

Quase dez anos após a primeira edição de uma obra bakhtiniana em língua portuguesa, Marxismo e filosofia da linguagem, 1979, acontece o primeiro encontro no Brasil que tomou por objeto de estudo o pensamento de Bakhtin. Esse evento foi realizado na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, em 1987. Como resultado deste encontro, temos a publicação do livro Uma introdução a Bakhtin, editora Hatier, 1988.

Uma observação realizada na apresentação do volume permite observar a relevância do crítico nos estudos discursivos:

Mikhail Bakhtin não pode ser ignorado por quem se interessa pela questão da linguagem. Os ensaios que compõem este livro decorrem de um esforço de leitura precisa da obra desse grande pensador do século XX, ainda pouco divulgado no meio intelectual brasileiro. Os autores nos reportam a um instigante e renovado diálogo com o pensador, confirmando a idéia de que a autoria individual é uma questão relativa, já que 'nossa fala vem dos outros. (“Uma introdução a Bakhtin”, 1988: s/p)

É interessante destacar nesta citação o emprego de palavras como “ignorado”, “esforço”, “pouco”. Por meio desses termos, observamos o quão importante são as idéias bakhtinianas e as dificuldades para apreendê-las e aplicá-las. Esta apresentação do primeiro livro sobre Bakhtin no Brasil não deixa dúvidas quanto à certeza dos estudiosos de estarem “pisando” num campo muito rico, mas que carecia de mais estudos no âmbito brasileiro. O despontar de uma publicação desse caráter demonstra o interesse dos pesquisadores brasileiros em entender melhor o pensamento bakhtiniano e divulgá-lo enquanto precursor de um pensamento amplo e complexo.

O segundo livro de cunho crítico-teórico teve sua origem em trabalhos apresentados no V Encontro da Anpoll, na Universidade Federal de Pernambuco, Recife, em 1990. Nesse congresso, aconteceram duas mesas-redondas que tiveram como tema “Em torno de Bakhtin”. A compilação desses trabalhos constitui o livro Dialogismo, polifonia e intertextualidade, editado pela Edusp, em 1994, sob a organização dos professores Diana Luz Pessoa de Barros e José Luiz Fiorin.

Novamente, com base num trecho da apresentação desta coletânea, delineamos a importância do pensamento bakhtiniano e o interesse dos pesquisadores brasileiros em aprofundar o conhecimento sobre as idéias de Bakhtin: “Este livro, na esteira fecunda aberta pelo teórico russo, pretende discutir algumas questões propostas por ele, aprofundá-las, examiná-las de outro ângulo, mostrar sua utilidade na constituição de uma teoria do discurso e do texto” (BARROS e FIORIN, 1994, s/p).

Em 1995, em Curitiba, por ocasião do centenário de Bakhtin, aconteceu o segundo encontro no estado do Paraná para apresentação e discussão de trabalhos a respeito de Bakhtin. Novamente, destaca-se a presença da Universidade Federal do Paraná como ponto importante na edição de mais um livro crítico-teórico do pensador russo em nosso país: Diálogos com Bakhtin, editora UFPR, 1996, organizado por Carlos Faraco, Gilberto de Castro e Cristóvão Tezza. Na apresentação, encontramos a seguinte observação:

Tendo origem em seminários apresentados na UFPR, em comemoração aos 100 anos de Bakhtin, o conjunto dos ensaios que compõem esta coletânea pode ser organizado em dois grandes grupos: aqueles que buscam aprofundar a compreensão do olhar de Bakhtin e aqueles que se caracterizam pela utilização do olhar bakhtiniano. (FARACO et al., 1996)

No mesmo ano, aconteceu o Colóquio Internacional “Cem anos de Bakhtin” em São Paulo, promovido pelo Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo. Como não poderia deixar de ser, esse evento foi bastante procurado pelos pesquisadores de todo o país, pois se consistiu numa oportunidade para ouvir professores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros tratarem acerca de um pensador que figura em muitas áreas das Ciências Humanas. Os trabalhos apresentados nesse colóquio foram organizados pela professora Beth Brait, dando forma ao quarto livro brasileiro que discute as idéias do pensador russo: Bakhtin, dialogismo e construção do sentido, editora da Unicamp, 1997.

José H. Nunes, ao comentar o conteúdo do livro, revela que os pesquisadores e estudiosos extrapolam a aplicação mecanicista dos conceitos de Bakhtin para análises mais conscientes que não só utilizam o pensamento bakhtiniano, mas procuram contribuir com textos críticos empenhados em desvendar os conceitos desenvolvidos pelo pensador:

Este livro traz uma importante contribuição para o conhecimento da obra de Mikhail Bakhtin. [...] Apresenta estudos sobre os principais conceitos, o contexto histórico e epistemológico, questões de enunciação e de sentido, os gêneros do discurso, o romance e problemas de tradução de seus textos. Explicita sua relação com diversas áreas de saber: lingüística, filosofia, antropologia, psicanálise, psicologia, literatura, estudos da cultura, sociologia, artes. Trata-se de um livro de referência para todos os que se interessam por este polêmico autor. Expõe o que já foi realizado e aponta o que ainda pode ser feito para a compreensão de sua obra. (NUNES, 1997, s/p)

Esta publicação destaca, sem dúvida, a presença bakhtiniana nos estudos discursivos como fundamento teórico que oferece uma visão diferente de análise interdisciplinar. Essa tendência de interdisciplinaridade teve maior destaque na segunda metade dos anos 90, não só nos estudos do discurso, mas nas Ciências em geral. Desse modo, para os estudiosos que se interessam em observar o mundo sob a perspectiva discursiva, o pensamento bakhtiniano oferece uma visão atual e profícua para o entendimento das inter-relações entre homem e contexto(s).

Importa-nos justificar que a seleção dos quatro [9] livros críticos-teóricos sobre Bakhtin publicados no Brasil se deveu ao nosso objetivo de apontar as publicações pioneiras que têm como objeto o pensamento bakhtiniano e que tiveram origem em congressos e encontros. Os conteúdos dessas obras demonstram a efetiva e importante contribuição crítica-teórica de estudiosos brasileiros para a consolidação e entendimento das idéias do teórico russo, no âmbito dos estudos enunciativos desenvolvidos no Brasil.

 

As primeiras disciplinas

O Serviço de Pós-Graduação da FFLCH-USP, através do serviço de sua editora, publicou um catálogo de Programas de pós-graduação em Letras de 1971 a 1987. Neste levantamento, encontramos as primeiras referências a Bakhtin nos cursos de pós-graduação da USP. É interessante ressaltar que a primeira disciplina em que há referências a Bakhtin foi oferecida em 1971, oito anos antes da primeira tradução brasileira de um livro do pensador russo.

Nesse sentido, destacamos novamente a importância do professor Boris Schnaiderman já que, pouco tempo depois de ter “descoberto” Bakhtin, faz referência explícita ao pensador russo em duas disciplinas oferecidas no ano de 1971 - dizemos explícita porque é provável que já se referisse às suas idéias em aulas.

Ressaltamos que não sendo pertinente oferecer aqui uma relação de todos os programas de curso que fazem referência ao pensador russo, não apresentamos uma lista abrangendo todo o período estudado. Importa-nos somente ressaltar o pioneirismo das referências, isto é, limitamo-nos a apresentar as dez primeiras disciplinas que se relacionam à nossa perspectiva de investigação.

1. Área: Teoria literária e literatura comparada

Disciplina: Análise das estruturas narrativas. Os contos de Dostoiévski.

Responsável: Prof. Dr. Boris Schnaiderman semestre/ano: 1/1971

Referência bibliográfica a Bakhtin: não há referência bibliográfica e sim de conteúdo: “Item 7. ‘Árvore de Natal e um casamento’. ‘Noites brancas’. O mundo estranho de Petersburgo e sua marca na obra de Dostoiévski. ‘O pequeno herói’ - a visão parodística e polifônica de Dostoiévski (no sentido de M. Bakhtin) permite-lhe profunda penetração psicológica, muito além das limitações da ciência da época" .

2. Área: Teoria literária e literatura comparada

Disciplina: Histórias das idéias críticas. A crítica e a obra de Dostoiévski.

Responsável: Prof. Dr. Boris Schnaiderman semestre/ano: 2/1971

Referência bibliográfica a Bakhtin: não há referências bibliográficas, mas de conteúdo: “Item 9. A concepção de M. Bakhtin sobre Dostoiévski, como o verdadeiro fundador do ‘romance polifônico’. 10. A obra de Dostoiévski, expressão do ‘sentido carnavalesco do mundo’(Bakhtin). 11. As novas possibilidades que a teoria de Bakhtin abre para o estudo das obras de ficção. Alguns exemplos concretos. 12. A teoria de Bakhtin, como uma das grandes formas de expressão de nossa época”.

3. Área: Teoria literária e literatura comparada

Disciplina: Projeções da literatura russa (1920-1930)

Responsável: Boris Schnaiderman semestre/ano: 2/1976

Referência bibliográfica a Bakhtin: a referência também está no conteúdo do programa: “Item 12. O pensamento crítico neste período: a crítica marxista na Rússia. A.V. Lunatchárski. S.M. Eisenstein como teórico. Mikhail Bakhtin. Leonid Grossman”.

4. Área: Literatura brasileira

Disciplina: Análise e interpretação de Macunaíma

Responsável: Profa. Dra. Terezinha A. P. A. Lopes semestre/ano: 1/1978

Referência bibliográfica a Bakhtin: La poétique de Dostoiévsky, 1970 [10].

5. Área: Teoria literária e literatura comparada

Disciplina: Teoria dos gêneros literários: o romance

Responsável: Prof. Dr. Davi Arrigucci Jr. semestre/ano: 2/1979

Referência bibliográfica a Bakhtin: Esthétique et théorie du roman, 1978.

6. Área: Literatura portuguesa

Disciplina: O “Novo realismo” de Carlos de Oliveira e Graciliano Ramos

Responsável: Prof. Dr. Benjamin Abdala Júnior semestre/ano: 1/1980

Referência bibliográfica a Bakhtin: La poétique de Dostoiévski, 1970.

7. Área: Língua espanhola e literatura espanhola e hispano-americana

Disciplina: Forma e ideologia no romance hispano-americano

Responsável: Profa. Dra. Irlemar Chiampi semestre/ano: 2/1981

Referência bibliográfica a Bakhtin: Esthétique et théorie du roman, 1978.

8. Área: Literatura brasileira

Disciplina: Literatura brasileira: música e literatura na obra de Mário de Andrade

Responsável: Prof. Dr. José Miguel Soares Wisnik semestre/ano: 1/1983

Referência bibliográfica a Bakhtin: L'oeuvre de François Rabelais et la cultura populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, 1970.

9. Área: Teoria literária e literatura comparada

Disciplina: Aspectos da teoria do romance (A questão dos gêneros em “Grande Sertão Veredas”)

Responsável: Prof. Dr. Davi Arrigucci Júnior semestre/ano: 1/1984

Referência bibliográfica a Bakhtin: Esthétique et théorie du roman, 1978.

10. Área: Filologia e língua portuguesa

Disciplina: Língua portuguesa (Linguagem e periodismo)

Responsável: Profa. Dra. Elza Miné da Rocha e Silva semestre/ano: 1/1984

Referência bibliográfica a Bakhtin: Marxismo e filosofia da linguagem, 1979.

Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo não encontramos um catálogo que listasse as disciplinas de pós-graduação como aconteceu na USP. Desse modo, para verificarmos quais foram as 10 primeiras disciplinas a fazerem referência a Bakhtin, recorremos ao arquivo das ementas do curso de Comunicação e Semiótica, principal foco em nossa pesquisa.

Em 1973, ocorreu o credenciamento do curso de pós-graduação denominado Teoria Literária na PUC/SP, sem área específica de concentração. No ano de 1979, houve recredenciamento e o mesmo curso passou a ser denominado Letras, com área de concentração em Comunicação e Semiótica. Um novo recredenciamento, ocorrido em 1987, mudou novamente o nome do programa para Comunicação e Semiótica, estabelecendo as áreas de concentração Comunicação, Semiótica, Sistema Inter-semiótico e Semiótica da Literatura. É este último recredenciamento que persiste até o desenvolvimento da pesquisa que realizamos entre 1995 e 1997.

1. Área: Comunicação e Semiótica [11]

Disciplina: "Borges/Machado/ Sterne: hacia una teoría de la parodia"

Responsável: Emir Rodríguez Monegal (Visitante) semestre/ano: 2/1977

Referência bibliográfica a Bakhtin: - La poétique de Dostoiévski, 1970.

- L'oeuvre de François Rabelais, 1972.

2. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Sistemas intersemióticos I

Responsável: Prof. Dr. Flávio R. Kothe semestre/ano: 1/1978

Referência bibliográfica a Bakhtin: não há especificidade, o que temos é a seguinte

observação: “Bibliografia: Os textos básicos de Medvedev, Volosinov e Bakhtine,

conforme bibliografia distribuída”.

3. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Semiótica geral

Responsável: Profa. Dra. Maria Lúcia Santaella Braga semestre/ano: 1/1979

Referência bibliográfica a Bakhtin: VOLOSINOV, Marxism and the philosophy of language, 1973.

4. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Semiótica geral

Responsável: Profa. Dra. Maria Lúcia Santaella Braga semestre/ano: 2/1979

Referência bibliográfica a Bakhtin: Idem anterior

5. Área : Comunicação e Semiótica

Disciplina: Semiótica e literatura I

Responsáveis: Emir Rodríguez Monegal (Visitante)

Haroldo de Campos semestre/ano: 2/1980

Referência bibliográfica a Bakhtin: - La poétique de Dostoiévski, 1970.

- L'oeuvre de Rabelais et la culture populaire au

Moyen Age, 1970.

6. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Semiótica da literatura I

Responsáveis: Emir Rodríguez Monegal (Visitante)

Haroldo de Campos semestre/ano: 1/1981

Referência bibliográfica a Bakhtin: Idem anterior

7. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Semiótica da literatura I

Responsável: Haroldo de Campos semestre/ano: 2/1981

Referência a Bakhtin: - Esthétique et théorie du roman, 1978.

- Problemi di teoria del romanzo, 1976.

- The dialogic imagination, 1981.

8. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Sistemas intersemióticos II

Responsável: Profa. Maria Rosa Duarte de Oliveira semestre/ano: 2/1982

Referência a Bakhtin: - Marxismo e filosofia da linguagem, 1979.

- La cultura popular en la Idade Media e no Renascimento, 1971.

9. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Sociologia da comunicação

Responsável: Profa. Maria Rosa Duarte de Oliveira semestre/ano: 1/1983

Referência bibliográfica a Bakhtin: - Marxismo e filosofia da linguagem, 1979.

10. Área: Comunicação e Semiótica

Disciplina: Sociologia da comunicação

Responsável: Profa. Maria Rosa Duarte de Oliveira semestre/ano: 2/1983

Referência bibliográfica a Bakhtin: - Marxismo e filosofia da linguagem, 1979.

- La cultura popular en la Idade Media e no

Renascimiento, 1971.

- Problemas da poética de Dostoiévski, 1981.

A apresentação das 10 primeiras disciplinas a citarem Bakhtin nas duas instituições pesquisadas mostra que o interesse pelo pensador russo em nosso meio acadêmico surgiu bem antes da primeira tradução brasileira. Provavelmente foi esse interesse dos estudiosos para com as idéias deste pensador que gerou a necessidade de traduções.

Mais uma vez, vemos à frente das disciplinas pioneiras o nome do professor Boris Schnaiderman, figurando, portanto, como o precursor responsável pela divulgação das idéias do pensador russo nas salas de aulas brasileiras durante os anos 70. O dialogismo, então, transcende à primeira relação pesquisador/obra para chegar às salas de aulas, trazendo e ouvindo outras vozes sobre questões velhas e novas da análise discursiva e dos estudos das Ciências Humanas em geral.

As nove primeiras disciplinas, lecionadas na USP, a se referirem a Bakhtin são da área de Literatura e Teoria Literária: Teoria Literária e Literatura Comparada, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e, aparecendo como dado diferenciador temos a última, de número 10, como sendo da área de Filologia e Língua Portuguesa. Este último índice nos leva a concluir que as idéias bakhtinianas começavam a deixar de se restringirem ao campo do estudo literário, já na década de 80.

As referências às ementas dos cursos da PUC mostram que nessa instituição o pensamento de Bakhtin chega também pela análise literária “Borges/Machado/Sterne: hacia una teoría de la paródia”. Depois, houve três cursos que, com base unicamente no título, afirmamos serem estritamente da área de Semiótica. Na quinta referência, “Semiótica e literatura”, já podemos observar uma interação, configurando uma interdisciplinaridade entre Semiótica e Literatura; o mesmo curso se repete nas referências 6 e 7, com acréscimos e variações em relação ao número de obras de Bakhtin.

Enquanto que na USP a primeira referência à tradução de Marxismo e filosofia da linguagem para a língua portuguesa aparece na disciplina “Língua portuguesa (Linguagem e periodismo)”, oferecida no ano 1984, na PUC, a referência ao mesmo livro aparece dois anos antes, na disciplina número oito de nossa lista: “Sistemas intersemióticos II”, ministrada no segundo semestre de 1982.

As duas últimas referências já atestam a inter-relação da sociologia com a comunicação. Essas duas disciplinas mostram, da mesma maneira que na USP, uma abordagem do pensador russo diferenciada dos estudos estritamente literários. Acreditamos que esse fato também tenha se tornado mais freqüente a partir de 1983, nos cursos de pós-graduação da área de Comunicação e Semiótica da PUC.

Mesmo sendo muito breve nossa referência às 10 primeiras disciplinas das duas instituições, nela podemos verificar uma busca de amplitude na visão e apreensão do pensamento bakhtiniano. Começando timidamente com duas referências do ano de 71 e indo até 84, observamos que a dificuldade de acesso às obras de Bakhtin (escritas em línguas estrangeiras) não foi motivo para impedir a divulgação de suas idéias no meio acadêmico brasileiro.

De uma maneira geral, a apresentação dos principais elementos que demarcam a recepção do pensamento de Mikhail Bakhtin no Brasil demonstra o interesse ascendente de estudiosos, professores e pesquisadores brasileiros pelas idéias preconizadas pelo pensador russo. Isso se reflete hoje nas próprias aulas de graduação de Letras e de outras áreas das Ciências Humanas, onde se pode verificar o estudo de conceitos básicos como dialogismo e polifonia por parte dos estudantes deste nível de ensino, haja vista que na formação de pós-graduação de seus mestres, muitas vezes, o pensamento bakhtiniano exerceu presença, senão primordial ao menos de contato com as idéias de Bakhtin. Semelhante realidade nos permite afirmar que, atualmente, se realiza um profícuo diálogo entre as idéias bakhtinianas e os acadêmicos brasileiros, realizando de maneira contundente a interação entre diferentes vozes e pensamentos em um continuum inacabado como deve ser todo diálogo humano e conforme defendia Bakhtin.

 

Notas

[1] Atualmente, a autora realiza o pós-doutoramento “Da escrita do leitor à voz do escritor: estudo sobre marginálias de João Antônio”, na UNESP-Assis, sob a supervisão da Professora Doutora Ana Maria Domingues de Oliveira e incentivo de bolsa FAPESP. Nesta investigação em curso, o pensamento de Mikhail Bakhtin consolida-se como referência fundamental.

[2] O calendário Juliano foi oficial na Rússia até 1918, quando o governo soviético o substituiu pelo Gregoriano, vigente em todo Ocidente e instituído pelo papa Gregório XIII, em 1582, e tem 12 dias a menos em relação ao primeiro (CD-ROM, Folha de São Paulo, Edição 1997).

[3] A tradução brasileira foi realizada por J. Guinsburg (São Paulo: Perspectiva, 1998).

[4] Um dos melhores exemplos dessa repercussão positiva foi a publicação do ensaio intitulado O mnogogolososti Dostoevskogo (po povodu knigi M.M. Baxtina ‘Problemy tvorcestva Dostoevskogo’ por Anatoly V. Lunatcharsky, então Comissário do Povo pela Instrução Pública da URSS e um dos mais eminentes críticos marxistas do começo do século. Esse ensaio foi traduzido para a língua inglesa e incluído na coletânea intitulada On Literature and Art (Moscou: Progress Publishers, 1973).

[5] Com a edição refundida por Bakhtin, em 1963, a obra foi renomeada como Problemas da poética de Dostoiévski.

[6] Para referência quanto aos artigos ver “Notas bibliográficas”. In: FARACO et al. Uma introdução a Bakhtin. Curitiba: Hatier, 1988.

[7] Não há indicação de autoria desta apresentação. Para referências bibliográficas ver FARACO et al., 1988, na bibliografia deste texto.

[8] Em 2008, em comemoração aos 80 anos da primeira versão do trabalho que depois seria reformulado para Problemas da poética de Dostoiévski, o tradutor brasileiro Paulo Bezerra publica nova tradução com revisões. Nesta edição, o tradutor inclui um prefácio intitulado “Uma obra à prova do tempo”. Neste texto, ele informa que as primeiras contribuições no Brasil - no campo específico de reflexão sobre literatura e cultura - para a divulgação do pensamento de Mikhail Bakhtin foram de Boris Schnaiderman e José Guilherme Merquior. Deste filósofo brasileiro de projeção internacional, Bezerra alude ao Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da cultura, obra que só teve uma edição, em 1974. Junto a estes, Bezerra também ressalta - na área de Lingüística - Carlos Alberto Faraco, Cristóvão Tezza, Beth Brait, José Luis Forin entre outros. Paulo Bezerra, além de traduzir do russo as principais obras de Dostoiévski, destaca-se ainda como o tradutor que mais verteu obras de Bakhtin do russo ­- Estética da criação verbal (2003), O Freudismo (2004 - 2ª edição).

[9] Atualizando os dados da pesquisa realizada em 1998, indicamos que, hoje, os pesquisadores brasileiros contam com uma oferta maior de obras sobre o pensador russo, tais como A revolução bakhtiniana do filósofo italiano Augusto Ponzio (2008), Mikhail Baktin: criação de uma prosaística, de Gary Morson e Caryl Emerson e Mikhail Bakhtin em diálogo: conversas de 1973 com Viktor Duvakin (2008) todas traduzidas para a língua portuguesa. Atentamos que outras produções de especialistas brasileiros foram publicadas. Beth Brait lançou os estudos Bakhtin: dialogismo e polifonia e Bakhtin e o Círculo, ambos de 2009, e também organizou as coletâneas Bakhtin: conceitos-chave (2005) e Bakhtin: outros conceitos-chave (2006). Brait republicou, em 2005, o então esgotado Bakhtin: dialogismo e construção do sentido. Organizada por Faraco e Tezza, está a coletânea Vinte ensaios sobre Bakhtin (2006).

[10] Destacamos apenas o título e o ano de publicação.

[11] Todos os cursos se referem à área de Comunicação e Semiótica, independentemente da questão de recredenciamento por nós aludida.

 

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© Clara Ávila Ornellas 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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