A funcionalidade do espaço da Casa Vauquer,
em O pai Goriot, de Honoré de Balzac

Ana Paula Cantarelli

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Brasil
anapaula_cantarelli@yahoo.com.br


 

   
Localice en este documento

 

Resumo: Honoré de Balzac é um escritor reconhecido mundialmente, bem como o é sua obra A Comédia Humana, composta por oitenta e oito narrativas. Entre tantos textos, para este estudo selecionou-se apenas um: O pai Goriot. Este romance apresenta um cruzamento de intrigas e de personagens, tendo a Casa Vauquer como principal espaço ficcional. Nesse local, tramas e intrigas irão desenvolver-se no decorrer da narrativa, tornando o romance denso e complexo, e a pensão Vauquer um ambiente ímpar. Para este estudo, realizamos um pequeno recorte na narrativa, visando identificar as funções assumidas pela Casa Vauquer em relação à caracterização das personagens e às ancoragens no “real”, configurando relações extratextuais.
Palavras-chave: Balzac; espaço ficcional; Casa Vauquer.

Abstract: Honoré de Balzac is a world-renowned writer as much his work A Comédia Humana, comprising eighty-eight narratives. Among the many texts, for this study was selected only one: O pai Goriot. This novel presents cross-intrigues and characters, and the Vauquer’s house represents the main fictional space. In this location, plots and intrigues will develop in the course of the narrative, making the novel's dense and complex, and pension Vauquer a unique ambiance. For this study, we conducted a small piece of the narrative in order to identify the functions of a Vauquer’s house for the characterization of the characters and the relations with the "real", setting up relations beyond of the text.
Key words: Balzac; fictional space; Vauquer’s house.

Resumen: Honoré de Balzac es un escritor reconocido en todo el mundo, como lo es su obra La Comedia Humana, compuesta por ochenta y ocho narrativas. Entre los muchos textos, para este estudio fue seleccionado sólo uno: O pai Goriot. Esa novela presenta un cruce de intrigas y de personajes, teniendo la Casa Vauquer como principal espacio ficcional. En ese local, tramas e intrigas irán desarrollarse a lo largo de la narrativa, tornando la novela densa y compleja, y la pensión Vauquer un ambiente impar. Para esta investigación, realizamos un pequeño recorte en la narrativa, intentando identificar las funciones asumidas por la Casa Vauquer relacionada con la caracterización de los personajes y con los anclajes en el “real”, configurando correspondencias extratextuales.
Palabras clave: Balzac; espacio ficcional; Casa Vauquer.

 

1. Introdução

O romance O pai Goriot, de Honoré de Balzac, foi escrito no ano de 1834, e faz parte de A Comédia Humana. Esta narrativa tem como principal cenário a Casa Vauquer, uma pensão burguesa localizada em uma zona pobre de Paris. A história inicia no ano de 1819, e trata, principalmente, da trajetória de Goriot, burguês, ex-comerciante; de Eugênio de Rastignac, estudante de Direito provinciano, deslumbrado com a sociedade parisiense; e de Vautrin, também conhecido como Engana-a-Morte, envolvido em negociações ilícitas.

Neste trabalho, pretendemos desenvolver uma análise das referências espaciais relacionadas à pensão Vauquer, apresentadas no primeiro capítulo da narrativa (“Uma pensão burguesa”), lugar no qual circulam a maior parte das personagens da obra. Para tal, analisaremos o romance como texto construído através de certos elementos narrativos visando recriar uma realidade a partir de outra, considerando, dessa forma, o espaço como um elemento ficcional, inventado.

Em O pai Goriot, o espaço da Casa Vauquer assume duas importantes funções: a de antecipar a caracterização das personagens que ali habitam, pois ao descrever a localização geográfica e a estrutura física da pensão, é possível inferir as características de seus hóspedes; e a de estabelecer uma “ancoragem” da narrativa no “real”, utilizando-se de subsídios que remetem a um saber cultural recuperável fora do romance. Sem o intuito de analisar as personagens ou suas ações a partir do ambiente no qual estão inseridas, selecionaremos para este trabalho apenas as referências espaciais que se relacionam à referida pensão.

 

2. Organização do romance

O romance O pai Goriot, de Honoré de Balzac, está dividido em seis capítulos: “Uma pensão burguesa”; “As duas visitas”; “A entrada na sociedade”; “Engana-a-Morte”; “As duas filhas”; “A morte do pai”. A narrativa é realizada em terceira pessoa por um narrador que controla todo o saber, sem limitações de profundidade externa ou interna, tendo acesso a todos os lugares, bem como ao passado, presente e futuro. Sua visão é ilimitada.

A narrativa inicia com a descrição da sra. Vauquer e de sua pensão, espaço este em que se desenvolverá a maior parte dos acontecimentos. Em seguida, um a um, os sete pensionistas internos são apresentados, entre eles o protagonista pai Goriot, que dá nome à obra. Goriot é um burguês, ex-comerciante, que enriqueceu com a especulação da venda de trigo, porém, no tempo da narrativa, não passa de um espectro daquilo que havia sido.

Goriot é pai de duas filhas (Delfina e Nastácia), que raramente o visitam. Ambas são casadas com homens ricos, mas, apesar da riqueza de seus maridos, as filhas pedem auxílio financeiro ao pai, o que o leva a desfazer-se, pouco a pouco, de seus bens, chegando a mais completa penúria.

Eugênio de Rastignac, outro morador da pensão, é um jovem provinciano, estudante de Direito, que busca ascender socialmente. Para isso, usa da influência de sua prima, senhora de Beauséant, que o introduz nas altas rodas francesas. Assim, conhece as filhas de Goriot, e através do envolvimento com Delfina, que se torna sua amante, toma conhecimento da exploração que o velho sofre por parte delas. Devido a esse envolvimento, ocorre uma aproximação entre Eugênio e Goriot.

Vautrin, outro hóspede da pensão, percebe a ambição de Eugênio e tenta persuadi-lo a participar de um plano, no qual ele (Vautrin) encomendaria a morte do irmão de Vitorine (outra hóspede da pensão). Com o irmão morto, Vitorine herdaria toda a fortuna do pai. Caberia, então, a Eugênio a tarefa de seduzi-la, casando-se com ela e tomando posse de sua fortuna. Contudo, ele, apesar de indeciso em alguns momentos, acaba por recusar.

Ao longo da narrativa, Eugênio se compadece da forma como as filhas tratavam Goriot, e quando este adoece é Rastignac quem o auxilia. Somente nos seus últimos momentos de vida, é que Goriot percebe que havia sido abandonado pelas filhas, às quais só interessava seu dinheiro. Após a morte do velho, quem toma as providências para seu funeral é Eugênio, pois Delfina e Nastácia sequer comparecem ao enterro. A narrativa termina com Eugênio considerando-se pronto, após suas experiências com Goriot e suas filhas, para fazer parte da sociedade parisiense.

 

3. A Casa Vauquer

A Casa Vauquer começa a ser apresentada no primeiro capítulo da narrativa cujo título já lhe faz referência (“Uma pensão burguesa”), possuindo um papel fundamental no romance, pois é neste espaço que a grande parte das ações se desenvolve. O espaço da pensão Vauquer assume duas funções importantes na narrativa: a de fornecer indícios que antecipam características das personagens que ali habitam; e a de estabelecer uma “ancoragem” da narrativa no “real”.

3.1 Espaço como indício da caracterização das personagens

A apresentação do espaço da pensão Vauquer, ao longo do primeiro capítulo da narrativa, fornece indícios que permitem fazer inferências sobre algumas características dos indivíduos que ali habitam. As referências espaciais apresentadas criam um saber que será refletido sobre as personagens, dando indicações que permitem, de antemão, avaliá-las e as definir socialmente de maneira indireta.

Ao iniciar o capítulo intitulado “Uma pensão burguesa”, temos a primeira referência ao tipo de hóspedes que essa casa abriga: burgueses. Contudo, ainda não é possível afirmar a classe social à qual pertencem. No decorrer do primeiro parágrafo, o narrador nos relata que “essa pensão aceita igualmente homens e mulheres, moços e velhos, sem que jamais a maledicência tenha atacado os costumes desse respeitável estabelecimento” (BALZAC, 1989, p. 23). Assim apresentada, espera-se que as personagens, que ali residam, sejam de ambos os sexos e de idades diversificadas.

Entretanto, na sequência do parágrafo, o narrador nos diz: “é verdade que há trinta anos não se via ali uma moça, e que para um rapaz morar ali era preciso que a família lhe desse uma mesada muito pequena. Em 1819, porém, época em que este drama começa, vivia lá uma pobre moça” (BALZAC, 1989, p.23). A ausência de moças em um local que as aceita remete à falta de condições favoráveis para recebê-las, ou seja, instalações que não estão adequadas a sua presença. E o fato de um jovem somente se hospedar nessa casa se não tiver recursos para pagar uma melhor, define o tipo de classe social que ali habita: classe econômica baixa. Se o local é habitado somente pela classe baixa, se as moças o evitam, se é o último recurso para um jovem, consequentemente pode-se inferir que a estrutura é precária.

A percepção sobre a classe econômica que aluga as dependências da Casa Vauquer confirma-se com as descrições sobre a localização desta. Após indicar a localização geográfica (“Está situado na parte baixa da rua Nova de Santa Genoveva, no ponto em que o terreno se inclina para a rua da Besta de maneira tão íngreme que raramente os cavalos sobem ou descem” - BALZAC, 1989, p. 24), dando ênfase para o aspecto íngreme que afasta o tráfego de cavalos, o narrador, ao reforçar a dificuldade de acesso, reforça também a perspectiva sobre a situação financeira dos hóspedes que ali se alojam. Este aspecto é mais uma vez reiterado, quando, ao longo do mesmo parágrafo, o narrador nos relata:

O homem mais despreocupado ali se sente constrangido, os transeuntes mostram-se tristes, o ruído de uma carruagem transforma-se num acontecimento, as casas parecem taciturnas, as paredes lembram uma prisão. Um parisiense que por lá se perdesse veria apenas pensões burguesas ou instituições, miséria ou tédio, velhice que morre, alegre mocidade aprisionada, forçada a trabalhar. Nenhum bairro de Paris é mais horrível e, digamos de passagem, mais desconhecido. (BALZAC, 1989, p.24)

O sentimento de constrangimento por parte de um homem despreocupado, o fato de o local estar rodeado por “miséria e tédio”, de haver “velhice que morre” e “mocidade aprisionada”, criam uma gradação que remete à pobreza do lugar, que culmina com o vocábulo “horrível”, reforçando a impressão de miséria e precariedade extremas. Após a apresentação da localização geográfica, o narrador apresenta a descrição da estrutura externa, relatando alguns detalhes que antecipam as características psicológicas das personagens como, por exemplo, a descrição seguinte:

Sob a concavidade que essa pintura simula, eleva-se uma estátua representando o Amor. Ao verem o verniz cheio de falhas que a cobre, os amadores de símbolos descobriram nela, talvez, um mito do amor parisiense que se cura a alguns passos dali. Sob o pedestal, esta inscrição meio apagada recorda a data desse ornamento, pelo entusiasmo que testemunha por Voltaire, ao voltar a Paris em 1777: “Seja quem fores, eis teu dono:/ Ele o é, ou foi, ou há de sê-lo”. (BALZAC, 1989, p.25)

Nesta descrição, o verniz cheio de falhas da estátua do Amor oportuniza a inferência de que os hóspedes que vivem na Casa Vauquer não são indivíduos que possuam ilusões acerca do amor inocente e extremado, pois as falhas simbolizam algo que já foi utilizado, mas que perdeu seu vigor, que se desgastou. Tais deficiências do verniz somadas a “os amadores de símbolos descobriram nela, talvez, um mito do amor parisiense que se cura a passos dali” reforçam tal ideia. A inscrição gravada ao pé da estátua demonstra que, apesar de desgastado e falhado, o amor é um ”ser” que subjuga a todos: ”Seja quem fores, eis teu dono:/ Ele o é, ou foi, ou há de sê-lo”. Então, cria-se a perspectiva de que as personagens que habitam a Casa Vauquer de alguma forma passaram ou passarão por experiências amorosas mal sucedidas, sendo esta uma característica psicológica.

Ainda quanto às informações que podem ser apreendidas do espaço em relação às personagens, está a referência ao descaso e à sujeira da estrutura interna da pensão, o que remete ao aspecto da precariedade apontado anteriormente. Este aspecto é diretamente relacionado, pelo narrador, às roupas que portam os hóspedes da pensão: “o espetáculo desolador que oferecia o interior da casa se repetia, do mesmo modo, nas roupas dos moradores, igualmente arruinados” (BALZAC, 1989, p.30), estabelecendo, assim, uma relação de igualdade entre o aspecto da Casa Vauquer e o aspecto das personagens.

3.2 Relações do espaço com o “real”

Nesta narrativa, outra função que pode ser atribuída ao espaço da Casa Vauquer é a função mimética, ou seja, as referências espaciais produzem uma ilusão de realidade, estabelecendo uma relação entre o texto e o extratexto. Ao iniciar o primeiro capítulo, o narrador tenta estabelecer um “pacto de verdade” com o leitor ao utilizar a expressão “All is true” (BALZAC, 1989, p.24) para referir-se à narrativa que irá contar. Tal “pacto” não permanece apenas nessa afirmativa de “verdade”, o conjunto de descrições que segue este enunciado o fortalecerá.

No parágrafo seguinte, buscando localizar com maior precisão a pensão, o narrador revela:

O prédio da pensão burguesa pertence à sra. Vauquer. Está situado na parte baixa da rua Nova de Santa Genoveva, no ponto em que o terreno se inclina para a rua da Besta de maneira tão íngreme que raramente os cavalos a sobem ou descem. Dessa circunstância resulta o silêncio que reina nessas ruas, apertadas entre o zimbório do Val-de-Gracê e o zimbório do Panthéon, dois monumentos que alteram as condições da atmosfera, lançando nela tons amarelados e cobrindo tudo ali com uma sombra por efeito dos tons severos que suas cúpulas projetam. (BALZAC, 1989, p.24)

Neste fragmento, o narrador situa geograficamente a pensão da sra. Vauquer na cidade de Paris. Para isso, utiliza-se de elementos como “parte baixa da rua Nova de Santa Genoveva”; “rua da Besta”; “zimbório do Val-de-Gracê”; “zimbório do Panthéon”, existentes no real, propiciando, assim, que o romance remeta a um saber cultural recuperável fora dele. Esses lugares “ancoram” o romance no real, produzindo a impressão que são um reflexo deste.

Após a localização geográfica, o narrador inicia a apresentação da estrutura da pensão, sendo esta estabelecida do exterior (fachada, jardins, pátios, etc.) para o interior (primeiro pavimento, distribuição dos cômodos, etc.), criando uma impressão de movimento, como se fosse possível acompanhar o olhar do observador. Ao iniciar a descrição da fachada, o narrador aponta:

A fachada da Casa Vauquer dá para um jardinzinho, de modo que fica em ângulo reto sobre a rua Nova de Santa Genoveva, de onde aparece em todo o comprimento. Ao longo dessa fachada entre a casa e o pequeno jardim, corre uma calha de pedra, de uma toesa de largura, diante da qual há uma aleia coberta de areia e orlada de gerânios, louros-rosa e romãzeiras, plantados em grandes vasos de louça azul e branca. (BALZAC, 1989, p. 25)

Nesse trecho, o elemento “rua Nova de Santa Genoveva” é retomado, fortalecendo a impressão de “real” criada pelas menções anteriores. Ocorre, ainda, a agregação de componentes da estrutura física da casa, como a fachada, o jardim, a calha de pedra, a aleia, à narrativa. Tais informações configuram uma descrição que se utiliza de detalhes buscando precisão, de modo que seja possível fortalecer o vínculo com a “realidade”, produzindo um efeito “realista” na obra. Esse efeito é reforçado à medida que se amplia o número de detalhes apresentados como, por exemplo, a enumeração das plantas que orlam a aleia no trecho acima (“gerânios, louros-rosa e romãzeiras”) e a precisão da medida de largura da calha (”uma toesa de largura”).

Ao continuar a apresentação externa da pensão, o narrador, nos dois parágrafos subsequentes à descrição da fachada, apresenta a aspectualização da entrada da casa da sra. Vauquer durante o dia e durante a noite, enfocando as mudanças entre esses dois espaços de tempo:

Durante o dia, uma porta com claraboia e campainha estridente deixa perceber, ao fim da pequena calçada, na parede oposta à rua, um arco com a pintura imitando mármore verde, obra de um artista do bairro. Sob a concavidade que essa pintura simula, eleva-se uma estátua representando o Amor. Ao verem o verniz cheio de falhas que a cobre, os amadores do símbolo descobriram nela, talvez, um mito do amor parisiense que se cura a alguns passos dali. (...)

Ao cair da noite, a porta da claraboia é substituída por uma inteiriça. O jardinzinho, que tem o comprimento da fachada, acha-se metido entre o muro da rua e a parede da casa vizinha, ao longo da qual pende um manto de hera que a oculta inteiramente e atrai o olhar dos transeuntes por oferecer um aspecto muito pitoresco em Paris. (...) Ao longo de cada parede corre uma alameda estreita, de cerca de 21 metros, que leva a um caramanchão de tílias (...). (BALZAC, 1989, p. 25-26)

Neste trecho, as menções “durante o dia” e “ao cair da noite”, somadas às referências espaciais, reforçam o caráter de “real”, pois “ancoram” não só o espaço, mas também o tempo da narrativa na “realidade”. A presença de detalhes como “o verniz cheio de falhas”, “pende um manto de hera que a oculta inteiramente”, “corre uma alameda estreita, de cerca de 21 metros” também reiteram tal caráter, pois a menção de pormenores cria um efeito de particularidade ao cenário descrito, individualizando-o e diferenciando-o.

A seguir, o narrador passa da apresentação externa da pensão para a interna, iniciando pelo andar térreo e por seus cômodos, descrevendo a sala de estar e a sala de refeições:

Essa sala de estar comunica com uma sala de refeições, separada da cozinha pelo vão de uma escada com degraus de madeira e tijolos pintados e encerados. Nada é mais triste à vista que essa sala mobiliada com poltronas e cadeiras estofadas com crinas, com riscas alternativamente opacas e luzidias. Ao centro, vê-se uma mesa redonda com tampo de mármore de Sainte-Anne, enfeitada com esse licoreiro de porcelana branca e ornada de filetes dourados meio apagados, que se vê por toda a parte hoje em dia. Essa sala, muito mal assoalhada, tem as paredes revestidas de madeira até uma certa altura. (...) Pois bem, apesar de todos esses horrores, se a comparardes à sala de refeições, que fica ao lado, achareis essa sala de estar elegante e perfumada como o quarto de vestir de uma senhora. Essa sala, inteiramente forrada de madeira, foi, outrora, pintada com uma cor agora indistinta, que constituiu um fundo sobre o qual a imundície se acumulou em camadas, de maneira a desenhar figuras bizarras. (BALZAC, 1989, p. 26-27)

Essa seleção de elementos e de objetos feita pelo narrador contempla aspectos da sala de refeições e da sala de jantar da pensão, peças essas normalmente frequentadas pelos hóspedes. A apresentação desses cômodos reveste-se de realismo, à medida que os detalhes são mencionados. A maneira como a descrição é realizada, possibilita ao leitor que se ponha no interior de cada uma das salas e direcione seu olhar para os móveis, objetos e demais particularidades que o narrador aponta. O detalhamento e a riqueza de pormenores permitem que se resgatem conhecimentos de fora do texto, estabelecendo, mais uma vez, uma ilusão de “real”.

No decorrer do primeiro capítulo, o narrador passa a descrever, além do térreo, os demais andares que constituem a Casa Vauquer:

O primeiro andar continha os melhores aposentos da casa. (...) Os dois aposentos do segundo andar (...) O terceiro andar compunha-se de quatro quartos (...) Por cima do terceiro andar havia um telheiro para estender a roupa e duas mansardas(...) (BALZAC, 1989, p.29)

Esse trecho cria uma nova impressão de movimento que agora se direciona de baixo pra cima, indo do térreo ao telheiro. A enumeração dos andares e do telheiro reitera o caráter de “real”, pois salienta características estruturais da pensão. A partir dessa apresentação, serão introduzidas as personagens na narrativa, elemento que optamos por não analisar neste trabalho.

 

4. Considerações Finais

A partir da análise da funcionalidade do espaço da Casa Vauquer, no capítulo “Uma pensão burguesa”, da obra O pai Goriot, é possível dizer que este assume duas funções importantes que se somam. A primeira pode ser descrita como uma função narrativa, pois fornece indícios que nos permitem fazer inferências sobre características das personagens que habitam o lugar. A segunda pode ser descrita como uma função mimética, pois os detalhes presentes na apresentação do espaço criam uma ilusão de realidade.

Ao fornecer informações que, ao longo da narrativa, serão compreendidas pelo leitor, sendo-lhe possível resgatá-las, à medida que o texto progride, para justificar determinadas atitudes ou comportamentos das personagens, o narrador cria um laço entre as partes do romance, estabelecendo um vínculo entre o espaço e as personagens.

Ao fornecer informações que podem ser compreendidas de imediato, ligando o texto ao extratexto, como nomes de ruas ou monumentos, o narrador cria um vínculo entre a realidade e a obra, trazendo para esta saberes exteriores, que atribuem ao romance um caráter “realista”, que é reiterado à medida que são apresentados detalhes e particularidades do cenário descrito.

 

Bibliografia

BALZAC, Honoré de. O pai Goriot. Trad. V. de Oliveira. In:_________. A Comédia Humana. Vol. IV. São Paulo: Globo, 1989.

REUTER, Yves. Introdução à análise do romance. Trad. A. Benjamini; M. Arruda; N. Sette; C. Jouët-Pastré. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

© Ana Paula Cantarelli 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero43/cavauque.html