Lima Barreto em 100 anos de jornalismo e literatura

Gutemberg Medeiros

Universidade de São Paulo
gam8@zaz.com.br


 

   
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Resumen: Resumo: O Brasil comporta uma rica tradição de jornalistas e escritores que fazem um tipo de produção a qual chamamos de metajornalismo. Ou seja, levantar críticas ou polêmicas sobre o espaço midiático aos seus leitores e incluí-los nestas reflexões. Tal produção pode ser veiculada tanto em textos jornalísticos ou em outros gêneros, como romances ou contos. Apresentamos uma leitura de um dos mais agudos exemplos deste tipo de texto de fronteira entre jornalismo e literatura, na acepção do pensador russo Iuri Lotman, o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha de autoria de Lima Barreto, que completa em 2009 o seu primeiro centenário de publicação em livro.
Palabras clave: Lima Barreto, jornalistas e escritores, metajornalismo

Resumen: Brasil tiene una rica tradición de periodistas y escritores que hacen un tipo de producción que llamamos de metaperiodismo. O sea, levantar críticas o polémicas sobre el espacio midiático a sus lectores i incluir estés en estas reflexiones. Tal producción puede ser publicada tanto en textos periodísticos o en otros géneros, como romances o cuentos. Presentamos una lectura de un de los mas amplios ejemplos de este tipo de texto de frontera, en la acepción del pensador ruso Iuri Lotman, entre periodismo y literatura, el romance Recuerdos del escribano Isaías Caminha de autoría de Lima Barreto, que completa en 2009 su primer centenario de publicación en libro.

 

Mário de Andrade, um dos principais intelectuais brasileiros do século XX e não apenas na literatura, acreditava que a cidade do Rio de Janeiro possuía uma “raça de escritores” dedicados à “descrição nua e crua da pequena burguesia ou do alto proletariado”. Neste texto, provavelmente do final dos anos 30 do século passado, sinalizava o romance Memórias de um Sargento de Milícias de Manoel Antônio de Almeida (1831-1861) iniciou esta tradição ou escola. Machado de Assis (1839-1908) teria habitado este espaço por vezes e “o admirável criador de Isaías Caminha” Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) fixado definitivamente tal tradição.

Estas observações são muito mais valiosas do que aparentam ser. Afinal, Mário era um dos principais participantes do Modernismo brasileiro e já um ensaísta respeitado e aborda justamente Recordações do escrivão Isaías Caminha, romance que teve vários problemas de veiculação e só passou a ter o seu valor minimamente reconhecido a partir dos anos 50, quando da primorosa biografia do autor e a edição de suas obras reunidas por grande editora paulistana, a Brasiliense, ambas realizações de Francisco de Assis Barbosa.

Isaías Caminha foi primeiro editado em folhetim em revista de curta duração, mas os capítulos ventilados foram o suficiente para chamar a atenção dos jornalistas e escritores da Belle Époque da capital da República, em 1907. Em 1909, chega a livro e o seu lançamento desperta uma das maiores vinganças que jornalistas podem promover: o silêncio. Ao completar o centenário de sua primeira edição, este romance tem um lugar especial na produção deste escritor, pois fica nítido que ele sacrificou a estética pela ética, ao promover uma dura e rica leitura do mundo jornalístico da época. Mas antes, faz-se necessário lembrar aspectos da vida de Barreto. Neste artigo, levantamos aspectos de uma produção a qual chamamos de metajornalismo, onde se promove toda uma criticidade aos meios de comunicação por escritores e jornalistas, o que chamamos de metajornalismo. Como levantamos em nossa tese de doutoramento, percebemos que Lima Barreto exerceu esse lugar bem como muitos outros de sua época, compondo uma arena de vozes polêmica em relação às profundas transformações no jornalismo brasileiro seguindo os rumos exercidos no espaço midiático nos Estados Unidos e Europa desde a década de 80 do século XIX. Além de ser um texto de fronteira do jornalismo e da literatura, na acepção do pensador russo Iuri Lotman. Em espanhol, há duas versões: Recuerdos del escribano Isaías Caminha (Universidad del Pais Vasco, 2007) e Recuerdos Del escrebiente Isaías Caminha (Ayacucho, 1978) Vila Quilombo

Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, filho do tipógrafo João Henriques de Lima Barreto e da professora Amália Augusta Pereira de Carvalho. O pai era mulato nascido liberto e Amália igualmente mulata e, vítima de tuberculose, falece em 1887. Estes dados são importantes para compreender como o casal, a duras penas, conseguiu vencer uma série de dificuldades em um país que aboliu a escravidão, mas não o racismo. O que seria marcante em toda a vida de Lima Barreto e em sua obra sobre este tema específico ao falar a partir zona de exclusão social e não sobre a mesma. Alfabetizado por sua mãe, de 1888 a 1893, Barreto segue a instrução primária em um dos melhores da época e quase exclusivamente freqüentada por meninos das famílias mais ricas. Seu acesso a esse ensino de elite deveu-se aos cuidados de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto. A sua infância também é muito marcada pelos acontecimentos importantes da época, como a Abolição da Escravatura, o fim do império e a revolta da armada.

Ingressa no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1897 e conquista notoriedade acadêmica mais pelo seu senso de humor ácido, especialmente em suas caricaturas de mestres e professores. Semelhante tom, apesar de ser constantemente aprimorado, foi constante em quase toda a sua produção literária e jornalística, como observou uma das maiores críticas literárias brasileiras, Lúcia Miguel Pereira, “... nesse momento de alegre superficialidade que ressoou a sua voz áspera e amarga”. O seu ingresso no jornalismo acontece no pequeno periódico A Lanterna, em 1901. Apesar de bem quisto na faculdade por vários colegas e professores, o ambiente lhe era adverso, especialmente por ter que conviver com alunos de condição social bem acima da sua. Em 1902, Barreto começa a freqüentar a boêmia em cafés da Rua do Ouvidor, no centro da metrópole, mas não busca apenas diversão. As portas das redações de jornais diários e de revistas ficavam, via de regra, pelos cafés desta rua e da Avenida Central.

Na época, o seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa já localiza o sofrimento de Barreto por ser negro e pobre na Belle Époque, construída e mais dedicada em oportunidades aos brancos. “É triste não ser branco”, grafou o autor em seu Diário Íntimo. Porém, 1902 também foi marcante para Barreto pelo fato do pai ter ficado louco e tornar-se arrimo de família a cuidar deste, três irmãos, a agregada Presciliana e seus três filhos e o amigo de família e ex-escravo Manuel de Oliveira. Com apenas 21 anos, essas responsabilidades pesam em demasia sobre os ombros. Diante destas contingências, Barreto abandona a faculdade e assume como amanuense da Secretaria da Guerra. No mesmo período, muda-se com a família para o subúrbio carioca. A mesma casa em que viveu até morrer e apelidou, em crônica, de Vila Quilombo em contraposição ao novo bairro Copacabana. Quilombo, na língua Bantu (África Ocidental), designava lugar de pouso de povos nômades e, posteriormente, designou refúgio de escravos fugidos. Apresenta-se, então, a polaridade da pirâmide social designada a por estas metáforas. Copacabana, ao contrário do subúrbio, faz parte da zona sul carioca, na época, de seus novos bairros à beira-mar, primeiramente ocupados pelos novos ricos ou profissionais liberais da então capital federal. Como Barreto registrou mais tarde, a cidade oficial são dos bairros da zona sul carioca, “o resto é a cidade indígena, a cidade negra”.

Em paralelo ao emprego público, atua em jornais e revistas. Em 1905, é jornalista profissional e produz 22 reportagens não assinadas sobre a escavação dos subterrâneos do Morro do Castelo para o Correio da Manhã, um dos mais importantes diários da época. Acidente geográfico de suma importância histórica, ali lançada a pedra de fundação da cidade do Rio de Janeiro. O morro foi completamente arrasado dentro das obras de reformulação urbanística da capital federal para favorecer a abertura da Avenida Central, bem aos moldes da reformulação parisiense nos meados do século XIX. Um marco em sua trajetória foi abrir a revista Floreal, em 1907. O principal objetivo era publicar a sua produção, o que não conseguia em outros veículos de imprensa - onde trouxe os primeiros capítulos de Recordações do escrivão Isaías Caminha.

Na apresentação da revista, composta por Lima Barreto, inicia seus postulados de metajornalismo com ironia em relação aos grandes órgãos da imprensa da época. O editor elenca as dificuldades que serão enfrentadas pelo novo periódico. Em primeiro lugar, aponta que faltam-lhe “grandes nomes, dêsses que enchem o céu e a terra, vibram o éter imponderável”, ou seja, alguém famoso em jornais ou livros para atrair leitores. Floreal também não tem distribuição de “desenhos, fotogravuras, retumbantes páginas a côres com ‘chapadas’ de vermelho - matéria tão do gosto da inteligência econômica do leitor”. Barreto nada mais do que descreve as chamadas revistas ilustradas da época que tomaram a capital federal a partir nesta mesma época.

Após arrolar várias faltas ou deficiências em verdadeiro duplo negativo aos grandes jornais e revistas, estas podem ser a plataforma das principais qualidades do veículo, o de “escapar às injunções dos mandarinatos literários, aos esconjuros dos preconceitos, ao formulário das regras de tôda sorte, que nos comprimem de modo tão insólito no momento atual”. Nestas linhas, há explícita alusão ao jornalismo de adular poderosos na literatura ou na política para fazer caixa na redação ou favorecimentos outros.

Barreto traz nesta mídia elementos claros de seu metajornalismo plenamente exercido em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, onde trava polêmica aberta contra o novo jornalismo industrial que se assenta neste período, mas já estabelecido há mais de 30 anos nos Estados |Unidos e Europa. Após publicar o terceiro capítulo de Recordações do escrivão Isaías Caminha na revista, consegue chamar a atenção de um dos mais destacados críticos literários da época, José Veríssimo. Em sua coluna no Correio da Manhã, afirma sobre o início do romance de Barreto: “creio descobrir alguma cousa”. O que já era uma receptividade das melhores. Apenas em dezembro de 1909, consegue lançar em livro este romance pela chancela lisboeta Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & Cia. No Brasil, a indústria editorial era muito incipiente e quase todos os escritores publicavam ou nas prensas portuguesas ou a francesa, pois no Rio de Janeiro havia filial da parisiense Garnier. Esta realidade só começa a mudar a partir de 1910. A revista Floreal durou apenas quatro números, mas Barreto já era então “um homem marcado, pelo menos incompatibilizado com grande número de influentes jornalistas e escritores”, como pontua Francisco de Assis Barbosa.

 

Jornalismo na Literatura

Em toda a sua obra, o alto teor jornalístico se mantém no diapasão de roman à clef implementado em Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Outro caso é em Numa e a Ninfa, cuja publicação é em 1915 com o subtítulo expressivo de Romance da vida contemporânea, reafirmando o compromisso de ter toda forma de expressão verbal como uma forma de ler, expressar e polemizar com a realidade emergente de sua época, mantendo sempre o papel de repórter aliado ao de escritor: “Lima Barreto faz desfilar, à margem do romance, justamente com a respectiva corte de bajuladores, uma porção de caricaturas de figurões políticos, dos quais a maioria caiu em completo esquecimento”, como já lembrou um dos pilares do jornalismo brasileiro, Barbosa Lima Sobrinho.

Os freqüentes problemas de saúde decorrentes do alcoolismo começam a interferir seriamente em sua vida em 1914, quando passa pela primeira internação em hospício. A segunda internação acontece em 1916, interrompendo as suas atividades de jornalista, escritor e funcionário público. Uma série de greves e manifestações explodem no Rio de Janeiro e em São Paulo, chegando a outros estados, pela mobilização anarquista de 1917. Barreto atua na imprensa proletária através do jornal A.B.C. Entre os seus principais artigos desta fase está o “Manifesto maximalista”, em apoio à revolução russa bolchevique. Após uma série de tentativas, consegue a aposentadoria do serviço público por invalidez em 1918. Em função desta, intensifica e muito a sua colaboração constante a vários órgãos de imprensa, como Careta, A. B. C., Hoje, Rio Jornal, A Notícia, O País, Gazeta de Notícias e outros.

A sua ampla produção de crônicas jornalísticas foi publicada em volumes pela editora Brasiliense, em 1956, sob os títulos de Os Bruzudangas, Bagatelas, Vida Urbana, Marginalia e Impressões de Leitura. Já por alguns destes títulos, percebe-se o quanto Barreto tinha como foco de seus textos midiáticos a zona de exclusão social e a cidade com suas bruscas modificações. Como jornalista, também priorizou temas da ordem do dia e acontecimentos importantes, a exemplo da Revolução Russa, a Conferência de Versailles, eleições presidenciais, greves operárias, feminismo, início do futebol como esporte de massa no Brasil - o qual era terminantemente contrário -, as altas no custo de vida entre outros. Ainda fazia em suas crônicas memorialismo com suas impressões vívidas na primeira pessoa do singular, sobre temas aparentemente desimportantes do cotidiano.

Em 1o de novembro de 1922, falece Barreto de colapso cardíaco em sua residência Vila Quilombo, abraçado a exemplar de Revue de Deux Mondes, uma das revistas que mais gostava de ler. Em pleno Dia de Finados, seu velório e enterro aconteceram na alta periferia de Todos os Santos, completamente desassistida pelos poderes públicos. Chovia muito e o barro amarelo tomava todo o lugar. Poucos amigos compareceram ao velório, como lembrou o jornalista Enéas Ferraz em artigo de O Paíz em 30 de novembro de 1922. Esse “mestre do romance brasileiro, que a morte acabou de levar, era um mulato sujo e borracho que os literatos, quando estavam na Avenida, fingiam em não o ver passar”. Os mesmos que, em mais de 20 anos, a ele procuraram para ter orientações desde o que ler até revisões de originais.

Porém, um dos momentos mais eloqüentes deste artigo de jornal, está na descrição do cortejo que levou o caixão até a estação de trem mais próxima. “À tarde, o enterro saiu, levado lentamente pelas mãos dos raros amigos que lá foram. Mas, ao longo das ruas suburbanas, de dentro dos jardins modestos, às esquinas, à porta dos botequins, surgia, a cada momento, toda uma foule anônima e vária que ia incorporando atrás do seu caixão, silenciosamente. Eram pretos em mangas de camisa, rapazes estudantes, um bando de crianças da vizinhança (muitos afilhados do escritor), comerciantes de bairro, carregadores em tamancos, empregados da estrada, botequineiros e até borrachos, com o rosto lavado em lágrimas, berrando com o sentimentalismo assustado das crianças, o nome do companheiro de vício e de tantas horas silenciosas, vividas à mesa de todas essas tabernas...”. O cortejo fúnebre de Barreto foi composto por pessoas que em muito lembravam seus personagens marginalizados, seja de folha de jornal, revista ou de livro.

Uma vez morto, a Academia Brasileira de Letras reconheceu o seu valor a partir do artigo de um de seus acadêmicos, Coelho Netto, causticamente retratado em Isaías Caminha - publicado em Jornal do Brasil, em 5 de novembro de 1922: “Romancista dos maiores que o Brasil tem tido [...] descrevendo o meio popular como nenhum outro”. Apesar destas palavras, o cronista afirmou que Barreto descuidou de sua obra, ao não corrigi-la dos vícios de linguagem e sem a revisão necessária, como se deveria fazer com qualquer obra de arte. Justamente essa falta de cinzelar textual é que contagiou tanto os modernistas de 1922.

Neste sentido, em crítica publicada em O Estado de São Paulo, em 17 de setembro de 1951, um dos mais importantes críticos literários brasileiros e componente das lides modernistas, Sérgio Milliet, lembrou a importância de Barreto como “pioneiro do romance moderno” e ainda “admiravam-no os revolucionarios de 22 pelo seu estilo direto e limpo em contraste com o alambicado Coelho Netto ou com o doce Afranio Peixoto, como o admiravam pela verdade caricatural de seus heróis e pela mordacidade de sua critica social”. Este crítico e historiador também aponta que tal admiração da geração de 22 era alimentada pelo modo como Barreto tinha como tema recorrente o preconceito racial no Brasil. Apesar do escritor ser completamente avesso aos modernistas, chegando a repelir uma tentativa de aproximação movida por estes e efetivada por Sérgio Buarque de Holanda, em 1921.

Somente 20 anos após a morte de Barreto, tiveram início duas tentativas frustradas de publicar as suas obras completas. A vitoriosa foi as Obras de Lima Barreto pela paulistana Brasiliense, em 1956, em 17 volumes precedidos de estudo introdutório. A maioria desses ensaios foi feita exclusivamente para esta edição por intelectuais dos mais destacados como Sérgio Buarque de Holanda, Alceu de Amoroso Lima, Lúcia Miguel Pereira, Astrojildo Pereira, Agripino Grieco, Gilberto Freyre e outros. De inédito, constam os dois volumes de correspondências e coletâneas de crônicas e artigos publicados, muitas vezes, em jornais ou revistas de pequenas tiragens.

Ressalta-se que o único volume de crônicas organizado por Barreto, mas publicado um ano após a sua morte, foi Bagatelas (Empresa de Romances Populares, 1923). No prefácio, justifica o seu principal motivo ao enfeixar esses textos em livro: “seria mais prudente deixal-os enterrados nas folhas em que appareceram, pois muitos delles não são lá muito innocentes; mas, conscientemente, quero que as inimizades que elles possam ter provocado contra mim, se consolidem, porquanto, com S. Ignácio de Loyola, penso que não ha inimigo tão perigoso como não ter absolutamente inimigo”. Barreto revela muito de sua escrita em geral e produção jornalística. Ao singelamente afirmar que quer consolidar inimizades - do papel jornal efêmero para a perenidade possível do livro - quer deixar marcada uma de suas principais características: a de polemista. Por vezes, demais ferino e mesmo eivado de injúrias pessoais até a polarização entre subúrbio dos pobres e região central dos ricos no Rio de Janeiro, ­ travou debates muitas vezes solitários. Porém, torna-se evidente o caráter estético mal compreendido em sua época, consolidando a sua produção como uma das mais ricas sobre a Primeira República brasileira. Além de se firmar um texto de fronteira do jornalismo e da literatura, para lembrar a acepção de Lotman. Constituindo-se como um vetor de memória textual que revela não apenas problemas substanciais e muitas vezes silenciados de sua época, mas ainda vários deles presentes na sociedade brasileira de hoje. Especialmente sobre a zona de exclusão, que tão bem soube traçar e falar. Não falando sobre esta zona de exclusão, mas a partir dela.

 

Primeiro fez-se o metajornalismo

Uma forma de iniciarmos uma leitura de Recordações do escrivão Isaías Caminha é exatamente pelo seu fim, onde Barreto fecha com “Todos os Santos, Rio de Janeiro - 1908”, ano da Exposição do Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, a solidificar a Modernidade no país avalizada por seus segmentos de classe dominante. O bota-abaixo foi plenamente realizado pelos e para os ricos brancos no centro da metrópole carioca e os pobres fora da economia formal ou os remediados - desde funcionários do comércio ou funcionários públicos de baixos cargos - são exilados em massa aos morros ou ao subúrbio. Pois neste final de romance Barreto já delimita ao seu leitor de onde emerge aquela voz e produção: do alto subúrbio carioca de Todos os Santos.

Após o percurso pela obra, o leitor percebe que essa voz emerge de alguém que não deve ser habitual dos cafés mais refinados da então capital federal ou dos novos bairros abastados da zona sul localizados ao longo da novíssima Avenida costeira - posterior Nossa Senhora de Copacabana e co-irmã da Avenida Central. Desde seu primeiro romance até seu último volume organizado em vida, Barreto deixa claro que sua voz não fala ou prioriza sobre a zona de exclusão e seus habitantes, mas emerge e é formada a partir deste lugar. O que determina um lugar que centraliza tempo e espaço no imaginário da época e, acima de tudo, constitui o polemista a travar um debate sobre a ordem social. Curiosa é a definição de Agripino Grieco, crítico literário central entre as décadas de 20 e de 60, sobre Recordações do escrivão Isaías Caminha ao qualificar este romance como “os bastidores e os alçapões da imprensa”, na dinâmica de apontar as produções de Barreto como de veracidade histórica.

O romance narra a história de um rapaz pobre e mulato que sai do interior para a capital em busca de conquistar diploma e boa posição na vida. Nas palavras do narrador, “Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor...”. Isto é, sair do limite da zona de exclusão tentando inserção na outra polaridade, em apagamento óbvio de sua identidade, o branqueamento simbólico pelo diploma, algo quase monopolizado pela elite branca desta sociedade racista.

Após conseguir uma carta de recomendação de uma liderança política local para um deputado federal, alcançando a possibilidade de algum emprego para o sustento, começa a sua viagem de trem ao Rio de Janeiro. No caminho, pontua-se, mais uma vez, o racismo. Em uma parada, um “rapaz alourado” é atendido antes dele no balcão de café, mesmo tendo chegado depois. O contraste da cor feriu-o aliado aos olhares lançados pelos presentes a ponto de sentir uma raiva muda, “por pouco ela não rebentou em pranto”. Ao chegar à capital federal, logo conheceu a iluminada Rua do Ouvidor com suas gentes e luzes e se hospedou em hotel do centro da cidade. No terceiro capítulo, ainda publicado em Floreal, Caminha avista ao longe que “sôbre todos pairava a figura inflada, mescla de suíno e de símio, do célebre jornalista Raul Gusmão [...] seu fingimento de superioridade, dos seus gestos fabricados, da sua procura de frases de efeito, de seu galope para o espanto e para a surprêsa”.

É importante exprimir um dos principais códigos desta obra. Como um tradicional roman à clef, calcado em fatos ou pessoas reais, este romance apresentou-se aos leitores da época como sátira ao Correio da Manhã, um dos maiores órgãos de imprensa da época. O jornal, no romance, é nomeado como O Globo e entre as personalidades da mídia perfeitamente identificáveis por seus leitores sob pseudônimos, está João do Rio sob o codinome Raul Gusmão. Este é citado em mais duas ocasiões-chave do romance. Como possuidor de “covardia moral” e com ótimos relacionamentos nas Laranjeiras. Neste caso, alusão e pressuposição com os leitores da época ao Palácio das Laranjeiras, construído entre 1909 e 1913 no bairro de mesmo nome, sendo residência de Eduardo Palassin Guinle, um dos empresários mais ricos do Brasil. Gusmão ainda falaria com familiaridade a deputados e senadores, “gente influente para a glória e tudo o mais - começou a elogiá-lo pelo seu jornal”. Além de caracterizar relações promíscuas entre o jornalismo e focos de poder político, mais uma vez João do Rio é perfeitamente identificável ao leitor da época. Como introdutor da reportagem temática no Brasil, foi um dos principais responsáveis pela “crônica mundana” carioca, gênero jornalístico que antecedeu as “colunas sociais”.

Em outro momento, a sua vestimenta e o gestual de dândi, no estilo de Oscar Wilde, são satirizados: “grande fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano e marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e procurando os mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a reputação jornalística”. Na seqüência, um personagem comenta que viu Gusmão em hospedaria da zona de meretrício com um fuzileiro naval, em explícita insinuação de que o jornalista seria homossexual. Outro personagem replica que não seria bem este o caso. “O público quer que todo o talento artístico tenha um pouco de vício; aos seus olhos, isso o aumenta extraordinariamente, dá-lhe mais valor e faz com que o escritor ganhe mais dinheiro”. Ambos logo concluem que Gusmão era mesmo o “gênio do reclame...” [ou da autopromoção].

Do específico deste conhecido e bem sucedido jornalista, Barreto amplia sua narrativa para a imprensa apresentada como instrumento de mercado, ao contrário da anterior capitaneada por jornalistas que travariam embates ideológicos em prol da sociedade como um todo. Tal realidade é percebida como ingerência negativa, trazendo para o cenário valores culturais fundamentados na mais valia do capital. Ressaltamos que o ponto de vista negativo em relação à imprensa é posto ao leitor antes mesmo do protagonista chegar a entrar em redação do jornal. Somente à altura do capítulo oitavo, Caminha buscar ajuda do jornalista de O Globo para conseguir emprego. Depois de já ter sofrido inúmeras privações, ele não tem dinheiro nem mesmo para comer.

O capítulo inicia com descrição da redação. “Era uma sala pequena, mas comprida que larga, com duas filas paralelas de minúsculas mesas, em que se sentavam os redatores e repórteres, escrevendo em mangas de camisa. Parava no ar forte cheiro de tabaco; os bicos de gás queimavam baixo e eram muitos. O espaço era diminuto, acanhado, e bastava que um redator arrastasse um pouco a cadeira para esbarrar na mesa detrás, do vizinho”. Esta era a redação do “jornal de grande circulação, diário e matutino, recentemente fundado e já dispondo de grande prestígio sôbre a opinião”. Aqui, destacam-se dois aspectos que podem passar despercebidos. Um jornal que já alcançou prestígio, certamente deve chegou a receita positiva também. Ou seja, a descrição mostra condições de produção adversas para os jornalistas, como o espaço diminuto entre os postos de trabalho e a péssima ventilação, agravada pelo constante odor de tabaco no ambiente. É interessante observar que o prestígio de um jornal se mede, em primeiro lugar e como está expresso, em sua capacidade em mover e conduzir a opinião pública.

A descrição dessa nova e pujante empresa jornalística continua neste capítulo. Há dois momentos em que se evidencia a performance do veículo, com o “desempenho de linguagem” e “desabrimento de linguagem” como novidades. Estas já eram características buscadas pelo jornalismo moderno da época e visavam abolir o discurso mais tradicional dos redatores de antes - quando não empolado - em busca de maior agilidade comunicacional. Já se almejava um texto verbal mais próximo do coloquial, aliado à busca da síntese, para dialogar cada vez melhor com fotografias e charges. A questão da linguagem vai além destas características gerais. Caminha destaca como este novo jornal, entre os poucos de grande porte na capital federal, “quatro ou cinco”, se destacava em seu “franco ataque aos dominantes, uma afetação de absoluta austeridade e independência, uma colaboração dos nomes mais amados do público”. Com os poucos jornais disponíveis no Rio de Janeiro, o narrador faz questão de lembrar como era fácil ao governo e aos poderosos comprar as suas opiniões favoráveis. Aliás, como co mo na época era revelado por outros da época, como o crítico literário José Veríssimo e o ex-presidente da República Campos Salles. Este último, em suas memórias publicadas um ano antes de Isaías Caminha chegar a livro, confessou ser impossível governar sem comprar a imprensa, o que ele e seus antecessores fizeram.

Mas esse novo veículo, descrito por Caminha, “levantou a crítica, ergueu-a aos graúdos, ao presidente, ao [sic] ministros, capitalistas, aos juízes, e nunca os houve tão cínicos e tão ladrões”. Assim, a cidade agitou-se sob a palavra do periódico em arruaças ou pequenos motins, fazendo com que o governo demita um ou outro, o que fazia a vendagem subir cada vez mais. Essa passagem é muito importante, pois revela um olhar ingênuo do protagonista ao se deparar com aquela empresa de notícias por dentro pela primeira vez. Com o passar do tempo, esta visão muda radicalmente. As descrições seguem-se em vários momentos irônicos. Por exemplo, o narrador afirma que o secretário de redação é “arrogante como todo jornalista”.

O narrador testemunha acontecimento comum, a mera construção ou manutenção de famas sob determinados interesses. Chega à redação um dos escritores mais conhecidos do país, nomeado como Veiga Filho - representação plenamente pelo leitor da época de Coelho Netto - para saber se foi dada a matéria sobre a sua última conferência aos elegantes da urbe. Ninguém a fizera e o chefe de redação propõe que o escritor mesmo o faça. Este retruca negativamente, perguntando o que diriam se lançasse mão de igual expediente que rendeu maus comentários a outros colegas. O chefe garante que eram apenas “murmúrios de literatecos” sem importância e o escritor redige o seu próprio elogio para ser publicado sem assinatura. Após concluí-lo, o escritor lê a matéria em voz alta para todos na redação, composta por uma série de elogios. “Contestou teorias de Tólstoi, pôs finas notações aos ataques feitos a Napoleão e ao estudo do seu gênio por Lombroso. Patenteou uma grande erudição e conhecimentos não suspeitados; e quando a sua palavra colorida descreveu os suplícios desse titã roído pelo enfado, houve na sala um soluço.”

Observamos como esta sumidade das letras nacionais está ao avesso do próprio Barreto, daí a compreensão maior da ironia destilada. Por exemplo, como se não bastasse ele ser profundo admirador da literatura russa - tendo-a recomendado sempre que possível em crônicas e cartas - era especialmente afeito aos pressupostos filosóficos de Leon Tolstói a partir de sua obra sobre estética O que e Arte?, como o expressou em alentado texto intitulado “O destino da Literatura”. É interessante notarmos neste recorte como o autor utiliza-se de vozes diferentes para caracterizar um pensamento particular. Ao invés de simplesmente registrar de maneira direta o fato de Veiga Filho fazer um artigo sobre si próprio, ele trás para a arena de seu discurso alusões a vozes diferentes e absolutamente contrárias. Além da confusa noção de discurso de autoridade de Veiga Filho, o ato verbal de Barreto amealha diferentes pensamentos para expressar a falsa erudição deste personagem. Haja vista que Tolstói foi conhecido divulgador da não-violência e da igualdade entre os homens, conceitos diametralmente opostos a Napoleão e, muito menos, relacionados às considerações sobre a genialidade desse imperador francês feitas por Lombroso. Há uma polaridade em Veiga Filho, um nítido defensor da ordem estabelecida, ao privilegiar a teoria, com aura científica de Lombroso que era incensada pelas lides forenses da zona de inclusão. No outro extremo e em descrédito, Barreto posiciona a voz de Tolstói que emerge do campo literário e transita pelo pensamento político avesso aos poderes capitalistas dominantes, muitas vezes elencado aos movimentos anarquistas à revelia da vontade do próprio autor. Tal polêmica acusa toda uma série de textos que tomavam as a sociedade da época tanto dos incluídos quanto dos excluídos.

Após a leitura do texto pelo escritor, Caminha constata que no dia seguinte aquilo seria lido em todo o país, mais um longo artigo a proclamar a glória de Veiga Filho. O narrador é acometido de uma dúvida: e se todos os textos deste jornal, tão independente e corajoso, forem construídos desta ou de outras formas tão distintos da aparência? “Naquela hora, presenciando tudo aquilo, eu senti que tinha travado conhecimento com um engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho de prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marioni e a estupidez das multidões. Era a Imprensa, a Onipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constituição!”

Atuando como contínuo e depois chegando a jornalista, Caminha narra o que vê nesta atividade. Não apenas em O Globo, mas em outros veículos. Todas as suas apreensões projetam o metajornalismo de Lima Barreto, a julgar pelo editorial sob a forma de manifesto de Floreal e revelam-se desdobramentos que acusam a necessidade do escritor de mover uma campanha polêmica contra este novo jornalismo brasileiro. Por exemplo, desde que a pauta não seja um crime espantoso, “uma crônica mais pensada ou artigo mais estudado será refugado como pesado. A gente dos jornais do Rio só tem idéias e clichés de opiniões de tôda a natureza incrustados no cérebro”. Veja-se a missão de combater a desinteligência reinante que Barreto fala em seu artigo a Floreal. Em movimento normal na produção do escritor ao abordar o ambiente e do geral ir ter ao específico, o narrador descreve as mudanças que ocorreram em si em apenas um ano em redação de jornal diário. Passa a julgar-se superior a todos que não têm familiaridade com as redações e pleno de inteligência e talento, enquanto só trocava as tintas dos tinteiros de repórteres e de redatores como contínuo, mas “participava assim de um jornal, onde todos têm gênio”.

A linha de produção é resumida na seguinte realidade. “Na redação era assim: escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a favor.” Mais avante, define-se o diretor como um senhor feudal e todos atuam como vassalos em total obediência. Essa violenta relação de poder é desfiada em efeito dominó. “Não há repartição, casa de negócio em que a hierarquia seja mais ferozmente tirânica. O redator despreza o repórter; o repórter, o revisor; êste, por sua vez, o tipógrafo, o impressor, os caixeiros do balcão”.

 

Jogo de máscaras

Já que começamos esta leitura pelo seu fim, iniciamos este final por seu respectivo começo, a “Breve Notícia” assinada por Lima Barreto - “Todos os Santos, 31 de dezembro de 1916” - e incluída na segunda edição do romance. Caminha narra a sua derrelição. Todos os seus ideais foram sendo abandonados na medida que atuava no jornal. O sonho de se tornar doutor para redimir a sua exclusão social é trocado por outra forma de inclusão social. Conseguiu ascender ao cargo de repórter unicamente por ter flagrado o dono do jornal num bordel. Assim, para manter seu funcionário calado, lhe concede o novo cargo. Porém, ao contrário de sua visão crítica presente na maior parte da obra, a partir do momento em que passa a repórter, torna-se “vassalo” do diretor do jornal e busca ascendência social ao defender a ordem dominante. “ Nos meus primeiros meses de reportagem foi quando amei mais ativamente a vida. Não porque me visse adulado pelos almirantes e capitães-de-mar-e-guerra, mas porque senti bem a variedade onímoda da existência, a fraqueza dos grandes, a instabilidade das coisas e o seu fácil deslizar para os extremos mais opostos.”

Barreto compõe um jogo de máscaras ao declarar que Caminha existe, tendo recebido dele o manuscrito, mandando-o editar. Ele afirma também ter a completa liberdade de tratar os originais. Assim, suprimiu a introdução de Caminha, recuperou e a reproduziu nesta “Breve Notícia”. Ou seja, o texto do personagem sob o texto do autor.

Ele de ainda informa que, 10 anos passados desta narrativa, Caminha se entregou completamente ao seu meio social e perdeu muito de sua amargura. Anda pelo Rio de Janeiro em “belas fatiotas, já foi ao [Teatro] Municipal, freqüenta as casas de chá”. Tanto submergiu neste meio de adulações com políticos que se tornou um deles, deputado estadual pelo estado do Espírito Santo com vistas a ser deputado federal. Não se preocupa mais com o livro e Barreto logo o espera presente “nas notícias elegantes dos jornais. Isaías deixou de ser escrivão. Enviuvou sem filhos, enriqueceu, será deputado. Basta”.

Sobre o Recordações... quase toda a crítica e os jornais também praticaram a mesma vingança, o silêncio. Barreto esperava a polêmica aberta, a discussão plena, mas nada aconteceu de fato. Curioso é como Barreto recebeu vários comentários de amigos ou conhecidos, falando sobre a forma como tratava o jornalismo e a surpresa do autor se revelava, como em carta a Esmaragdo de Freitas, datada de 15 de outubro de 1911. “O meu fim foi fazer ver que um rapaz nas condições do Isaías, com todas as disposições, pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas, batido, esmagado, prensado pelo preconceito com o seu cortejo, que é, creio, cousa fora dêle. Não sei como me saí da empresa, mas o seu artigo diz-me que bem. Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquêle que me surgiu para lutar contra a indiferença, a má vontade dos nossos mandarins literários.

O que defendemos aqui, após este percurso, é que realmente Barreto foi mais jornalista do que literato neste texto de fronteira do jornalismo e da literatura. Aqui, ele lançou mão do recurso do polemista. Ao compor uma obra de metajornalismo conta o que era executado na época, utilizou elementos do antigo jornalismo que foi destituído. Antes do jornalismo moderno, todo o jornal era hegemonicamente opinativo. A modalidade de jornalismo acidamente opinativo era tão recorrente a ponto de atingir com ofensas determinadas pessoas, como José Veríssimo apontou ao clamar por uma lei de imprensa que pusesse limites a esta prática ainda em 1900. E como Barreto o fez em relação a João do Rio, em atenção especial não dispensada a outro personagem. Com a nova fase, a opinião evidente passou a ser circunscrita ao editorial de fundo ou às partes dedicadas a críticas, para dar espaço a matérias de maior cunho informativo. Ataques pessoais ou a instituições continuam, mas de formas mais sutis na condução de sentido. Desta forma, Barreto retroage no tempo e no espaço a uma forma de reportar regida por uma ordem anterior e editorializa todo o Recordações... Como dissemos anteriormente, o romance se realiza tendo como prioridade uma ética em detrimento de uma estética. Onde Barreto é antes de tudo um jornalista a lançar mão de toda uma fundamentação jornalística anterior panfletária para discutir e atacar um novo jornalístico dito como “informativo” que assoma na primeira década do século XX.

Assim, acreditamos dar uma contribuição à leitura dessa obra que ocupa um lugar quase único na história do jornalismo, do metajornalismo e da literatura do Brasil. Especialmente pelo fato de que se insere à uma rica tradição de metajornalismo exercida no Brasil por escritores e repórteres - veiculada tanto em jornais e revistas quanto em outros espaços de produção, como o literário. A nossa pesquisa sinalizou ainda que um outro momento de crítica tão agudo como este em relação ao mundo jornalístico foi efetivado pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues em sua peça Beijo no asfalto (1961).

 

Referências bibliográficas

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BARBOSA, Francisco de Assis. “Lima Barreto, o precursor do romance moderno”. Boletim Bibliográfico: Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, volume 42, nº 3, julho a setembro de 1981, p. 9-35.

FERRAZ, Enéas. “A mote do mestre”. Boletim Bibliográfico: Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, volume 42, nº 3, julho a setembro de 1981, p. 51-55.

GRIECO, Agrippino. Evolução da prosa brasileira. Rio de Janeiro: Ariel, 1933.

LIMA SOBRINHO, Barbosa. “A Imprensa”. DOYLE, Plínio (org.). Brasil 1900-1910. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1980, p. 123-141.

MEDEIROS, Gutemberg Araújo de. Urbanidade e metajornalismo nas matrizes da modernidade: memória textual nas produções de Lima Barreto e João do Rio. Tese de doutoramento defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2009.

MILLIET, Sergio. Diário Crítico. São Paulo: Martins: Editora da Universidade de São Paulo, 1982.

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SALLES, Campos. Da propaganda à presidência. Rio de Janeiro: Lammert, 1908.

 

© Gutemberg Medeiros 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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