Um sorriso de prazer:
leitura do poema “Um sorriso”, de Ferreira Gullar

Frederico Spada Silva

Mestrando em Estudos Literários
Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil)
fredspada@gmail.com


 

   
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Resumo: O presente artigo realiza uma leitura crítica do poema “Um sorriso”, de Ferreira Gullar, analisando a alegoria erótica com que se constrói o discurso amoroso.
Palavras-chave: Ferreira Gullar; erotismo; poesia brasileira

Abstract: The present article offers a critical reading of Ferreira Gullar’s poem “Um sorriso”, analyzing the erotic allegory by which the loving discourse is constructed.
Keywords: Ferreira Gullar; eroticism; Brazilian poetry

 

Um sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
              embaixo
              te espetalas
quando
          com a minha acesa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
                        que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
                            que busco eu
                                          em fogo
                            aqui embaixo?
                            senão colher com a repentina
                            mão do delírio
                            uma outra flor: a do sorriso
                            que no alto o teu rosto ilumina?

(“Um sorriso”, do livro Na vertigem do dia (1980), de Ferreira Gullar.)

 

Já afastada das idéias e dos radicalismos que moviam o Concretismo e o Neoconcretismo, movimentos aos quais o poeta maranhense Ferreira Gullar se ligou de modo bastante fugaz, a poesia que lhe abre a década de 1980, com o livro Na vertigem do dia, marcar-se-ia talvez apenas como modernista - ou pós-modernista, como querem os críticos que cindiram o século XX desde a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

Conforme afirma Alexei Bueno (Bueno 2007: 375-6), Na vertigem do dia é um livro em que, à semelhança de Poema sujo (1976), se mantêm a memória e a São Luís originária, aliadas, por sua vez, a uma meditação sobre o tempo e a morte e à vivência do poeta na capital fluminense.

“Um sorriso”, poema que ora analisaremos, todavia, ainda que possa vincular-se a um discurso memorialístico - memória afetiva, por assim dizer, dada sua temática -, destaca-se pelo emprego de um discurso erótico alegoricamente composto para representar o encontro erótico/amoroso de um eu poético masculino com o feminino que se abre em correspondência para tal encontro.

Composto de dezenove versos livres, apoiados alguns em rimas por vezes sutis, o poema apresenta-se disposto no papel de forma não-ortodoxa, com muitos de seus versos como que fugindo de uma margem que lhes impusesse ordem. Tal distribuição dos versos tanto auxilia, fazendo as vezes de uma pontuação que, à exceção das interrogações, é graficamente ausente, como acaba, também, por atribuir à prosódia um papel fundamental, elevando a força alegórica, imagética, de seus versos.

Por detrás de um título aparentemente simples e singelo - ‘um sorriso’ -, desvela-se um poema de intricada tessitura alegórica, a partir da qual se serve o poeta para desenvolver todo um discurso erótico, marcado pela interrogação constante sobre a relação amorosa e a quê ela se destina: são as investidas do eu poético, o seu toque no sexo da parceira marcando o início do ato sexual, os responsáveis pelo sorriso (“outra flor”) que nasce no rosto dela. O trabalho com a palavra e suas significações; o tecido narrativo; o jogo que deles se configura - tudo isso confirma tratar-se de um texto erótico, em que cada uma das características anteriormente mencionadas tem “a finalidade de mostrar uma representação cultural particular, singular, da sexualidade” (Durigan 1985: 38). O que se vê expresso no poema, ainda que de certo modo velado em metáforas, é o retrato de

uma experiência humana que pode compreender um conjunto de factores psíquicos, afectivos, morais e mesmo intelectuais, que excedem o domínio biológico, mas que têm por centro natural de gravidade a união efectiva de dois seres do sexo oposto, tal como ela se efectua habitualmente no acto sexual (Evola 1976: 23).

A plenitude de simbolismos em torno do discurso erótico talvez seja a principal característica do poema. Grosso modo, descreve o poema apenas um amante (o eu poético) que se pergunta o que quer ele com o ato sexual levado a cabo por sua “fúria de macho”, a que encontra como resposta significar tal ato a conquista, a busca, do sorriso da amada. Para se chegar a tal simplificação, ou melhor, partindo-se dela, é preciso compreender toda a intricada rede de significações utilizadas pelo poeta em seu discurso.

As mãos são peças-chave do poema, instrumento de dominação e de sedução. Podem significar, assim, tomada de posse, invocação, ou mesmo o instrumento com o qual o eu poético colhe aquilo que busca - o sorriso. As mãos ora aparecem carregadas de labareda, ora de delírio. Empunhando o fogo, trazem forte conotação sexual: é da fricção que primeiro se obteve o fogo, e fricção, vaivém, podem também representar uma imagem do ato sexual; além disso, a labareda, com sua forma alongada e, portanto, fálica, penetra, aquece, acende o sexo da mulher. A “mão do delírio”, por sua vez, “repentina”, colhe o que de mais puro pode-se receber de um ser humano - o sorriso, sorriso esse da pessoa amada, que assim ‘agradece’ o êxtase e o gozo (“mel”) proporcionados.

O sexo feminino é “rosa” despetalada pelas “mãos de labareda”, é “flor” noturna “que exala / urina/ e mel”. O sexo feminino oferecido se abre para as mãos do amante, que o despetalam como a uma rosa - flor essa que é justamente o símbolo do amor. As flores, de modo geral, trazem mesmo o simbolismo de um ‘princípio passivo’, conforme apontam Chevalier e Gheerbrant (2006), e assim compará-la à genitália feminina permite-nos pensar no despetalar-se como o abrir dos lábios (vaginais) à ‘mão de labareda’ (os dedos) que os atravessa para alcançar o cálice floral (vagina), noturno, “que exala / urina / e mel”, excreção e gozo/prazer.

O sexo masculino, por vez, é “acesa antorcha”. Palavra não dicionarizada, ‘antorcha’ remete-nos, todavia, à etimologia da palavra ‘tocha’, que, vinda do latim vulgar torca, nos chegou através do francês torche. A antorcha acesa, instrumento de forma fálica, é aqui o veículo de “toda essa assassina / fúria de macho”, de todo o fogo com que o eu poético penetra, invade, ilumina a noite em flor que é o sexo feminino.

O amante, detentor do fogo que incendeia a fêmea-flor, é mãos, falo e olhos. Suas mãos e seu falo detêm o fogo; os olhos não vêem: são, então, as mãos e o falo que enxergam, abrem caminho sexo/flor adentro, a fim de colher “uma outra flor: a do sorriso / que no alto o teu rosto ilumina”. Os olhos, cegos, não servem para enxergar o exterior; o cego

é aquele que ignora as aparências enganadoras do mundo e, graças a isso, tem o privilégio de conhecer a realidade secreta, profunda, proibida ao comum dos mortais. O cego participa do divino, é o inspirado, o poeta, o taumaturgo, o Vidente (Chevalier & Gheerbrant 2006: 217).

As mãos do cego amante, outrora fogo, fazem-se delírio e se abrem como a flor para colher, para receber o sorriso que, no rosto da mulher, nasce/escorre do gozo/mel, sorriso esse que é pura luz a destacar a beleza dessa fêmea-flor.

Ferreira Gullar, desta feita, tece com “Um sorriso” a alegoria, a metáfora, do êxtase sexual, do gozo e do prazer que invadem o corpo feminino e dele se apossam, como também dele se apossara o eu poético em fúria, fúria essa amainada pelo sorriso-luz ofertado pela amada.

 

Bibliografia:

Bueno, Alexei (2007): Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro, G. Ermakoff.

Chevalier, Jean; Gheerbrant, Alain (2006): Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro, José Olympio.

Durigan, Jesus Antônio (1985): Erotismo e literatura. São Paulo, Ática.

Evola, Julius (1976): A metafísica do sexo. Lisboa, Edições Afrodite.

Gullar, Ferreira (1981): Toda Poesia. São Paulo, Civilização Brasileira.

 

© Frederico Spada Silva 2009

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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