Ficção Histórica no Liberalismo Português:
História, Anacronismos e Fabulação

Carlos Eduardo da Cruz [1]

Universidade Federal Fluminense UFF - Brasil
eduardodacruz@gmail.com


 

   
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Resumo: O presente trabalho analisa a relação entre História e Ficção na Literatura Portuguesa da primeira metade do século XIX a partir dos escritos de Alexandre Herculano e Almeida Garrett.
Palavras-chave: ficção histórica - liberalismo português

Resumen: Este trabajo analiza la relación entre historia y ficción en la Literatura Portuguesa de la primera mitad del siglo XIX basado en los escritos de Alexandre Herculano y Almeida Garrett
Palabras clave: ficción histórica - el liberalismo portugués

Abstract: Thos work presents an analysis of the relation between History and fiction in the Portuguese Literature from the first half of the 19th Century based at the works of Alexandre Herculano and Almeida Garrett.
Keywords: Historical fiction - Portuguese Liberalism

 

O entendimento elabora e converte em substância própria o que recebe do mundo exterior: dá-lhe a forma da sua vida individual e íntima.
(Herculano, “Do Christianismo”)

O conhecimento da vida anterior de uma nação é o principal auxílio para se poder e saber usar, sem ofensa dos bons princípios, do influxo que um rei de homens livres tem forçosamente nos destinos do seu país, temperando as generosas, mas nem sempre esclarecidas e prudentes aspirações do progresso pela experiência e sabedoria de um passado que também já foi progresso...[...]
(Herculano, Prefácio da terceira edição da História de Portugal)

 

Hoje em dia muito se discute a ficcionalidade das narrativas históricas, por se levar em consideração que a História se mostrou incapaz de produzir um discurso único e definitivo sobre acontecimentos reais, dada a componente ideológica presente em seu relato, tanto na seleção dos fatos - a referência real -, quanto na combinação com a qual o autor descreve esse real selecionado. Isso acaba por colocar em causa a dicotomia entre ficção e narrativa histórica, apesar dos propósitos diferentes desses dois tipos de discurso e da forma distinta com que o leitor recebe esses textos.

Essa diferença entre História e Ficção é literariamente posta em causa na contemporaneidade com as metaficções historiográficas. Esses escritos, que se apropriam da ideia de que a História é interpretação de fatos e que narrativas sobre o passado ou o presente são construídas ideologicamente de acordo com os interesses particulares de indivíduos ou grupos, são influenciados pela corrente da Nova História. Mesmo assim, o leitor sabe que esses romances históricos contemporâneos possuem a prerrogativa da fabulação e que uma narrativa da História está pautada em fatos, apesar de, talvez, se perguntar até que ponto a ficção não tem algo de verdade, relacionando-a com o presente. Também pode se perguntar até que ponto a narrativa histórica não foi comprometida por alguma ideologia. Assim, a análise de uma obra literária não pode deixar de lado sua situação ficcional, mesmo que seja um romance histórico.

De qualquer forma, toda essa discussão esvai-se quando se pensa nos primeiros romances históricos do século XIX. Esse gênero ficcional foi criado numa época em que a sociedade tinha outra visão da História e da relação desta com a ficção. A aproximação feita entre esses dois discursos era de outra natureza. Se hoje se imagina que a História é uma forma de ficção, aquela sociedade olhava o romance histórico como um gênero ficcional que se aproximava da verdade histórica. Então, talvez seja lícito afirmar que, diferentemente do que ocorre hoje, os leitores não tivessem uma ideia clara da relação entre o período do entrecho e sua própria época.

Assim, este ensaio tentará analisar como se dava essa relação entre o tempo da diegese e o de produção dessas obras, nomeadamente na sociedade portuguesa no período do liberalismo. Para isso, a partir das transformações sociais que ocorreram para possibilitar o surgimento e ascensão da ficção histórica na Europa, tentar-se-á perceber como essa sociedade via a História e o romance histórico, a partir do modelo criado por Walter Scott (1771-1832). Depois o foco será sobre os dois mais conhecidos autores portugueses dessa época, nomeadamente Alexandre Herculano (1810-1877) e Almeida Garrett (1799-1854). O objetivo é ver como os dois diferenciavam o que era História e Ficção em suas obras, e como estas se ligavam ou não ao presente a partir da acusação ou confissão da presença de anacronismos nas mesmas, a partir de paratextos e outros escritos.

 

I - O Romance Histórico

Ian Watt (1990) inicia seu livro mostrando que o surgimento dos três primeiros romancistas ingleses na mesma geração não foi mero acidente e que a nova forma criada só poderia ter surgido se as condições da época fossem favoráveis. Essa nova forma, o romance, buscava um “realismo” que retratava a realidade a partir de experiências individuais situadas num contexto temporal, refletindo a nova sociedade que passara a agir e pensar segundo uma tendência individualista. Além disso, “o enredo do romance também se distingue da maior parte da ficção anterior por utilizar a experiência passada como a causa da ação presente” (WATT 1990: 22), mostrando pela primeira vez uma relação de causa e efeito nos acontecimentos.

Essa mudança na forma e no enfoque, deixando de lado as narrativas universais para focar-se na individualidade, que foi possível na Inglaterra no século XVIII, só encontra condições de existir em Portugal no início do XIX, depois da Revolução e das invasões francesas, do pronunciamento liberal de 1820 e da “consolidação” [2] do liberalismo e da monarquia constitucional após a guerra civil (1832-1834). É a partir desse período que se dá o incremento do público leitor, inclusive com a ascensão da imprensa periódica (SANTOS 1988).

Nesse período, a sociedade vivia transformações político-econômicas profundas. Também, cada cidadão passa a ver melhor seu papel na História, numa extensão das mudanças que o Iluminismo e a Revolução Francesa desencadearam na Europa. Essa onda de acontecimentos tornou a História uma relação de acontecimentos que levam ao presente e que não é mais pautada em certas figuras de poder, mas em toda a nação.

Com isso, uma nova visão da História começa a tomar corpo, e o que antes era visto como um conjunto de crônicas e lendas tradicionais passa a ser visto como ciência. Seu sujeito é sobretudo o terceiro estado, agora incluído na História. Afinal, a Revolução Francesa e o Liberalismo colocam a burguesia no poder e o povo foi agente dessa transformação, seja lutando com os exércitos, seja vivenciando a guerra de perto. Essa inclusão do terceiro estado na História foi tarefa encetada em Portugal por Alexandre Herculano, tanto como historiador quanto como ficcionista. A necessidade de se fazer isso foi defendida por ele ao explicar como se deve achar a realidade para se fazer dramas históricos, em um parecer crítico ao drama D. Maria Teles (1841) [3]:

[...] é preciso viver com os grandes de outrora em seus paços esplêndidos, mas assistir também às misérias e agonias dos peões, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior mal-aventurado. (HERCULANO, Opúsculos IX s.d.: 251).

Afinal, pesquisar, conhecer e divulgar a História do terceiro estado não é mero altruísmo, ou tendência da moda, mas uma luta política que refletia a grande questão do século XIX em Portugal: se o país deveria ser regido por uma monarquia representativa ou absolutista. A História até então apresentava as vidas dos grandes senhores da pátria, os reis, a nobreza e o clero e as batalhas que travaram, esquecendo-se que o povo era quem morria nessas guerras e era também a gente comum que a nobreza espoliava, seja à força ou através de leis que lhes concediam mercês, morgadios, dízimos, comendas e outros benefícios. Essa representação do passado servia para manter a nobreza no controle e sustentar o poder absolutista do rei. Levantar o papel do povo na História oficial era, mais do que tudo, uma forma de combater o absolutismo e mostrar um passado em que se vejam as lutas da população pela liberdade. Tanto que, escrevendo n’O País, jornal dos Progressistas Históricos, em 1851, no início da Regeneração, numa polêmica contra o jornal do partido miguelista, A Nação, Herculano argumenta contra os absolutistas:

Pensam que, ao lado da história dos conventos, das catedrais e dos palácios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam que se esses nobres senhores têm os seus registos esplêndidos e luxuários, o povo não tem também suas humildes memórias de espoliações, de agravos, de sofrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-las. Por isso é impossível a volta do absolutismo. (HERCULANO, Opúsculos VII s.d.: 154).

Aliás, incluir o povo e suas derrotas não foi a única transformação que Herculano empreendeu na História de Portugal. Vendo-a como ciência, dispôs-se a procurar em documentos históricos fatos que a comprovem e a retirar dela as lendas ficcionais que lhe eram características. É interessante lembrar sua figura percorrendo o interior do país à procura de documentos que esclarecessem a Idade Média portuguesa [4] , e a reação do clero quando ele retirou da História, criticando-o como fantasioso, o mito criador da nacionalidade, o “Milagre de Ourique”, segundo o qual Jesus Cristo teria aparecido a D. Afonso Henriques dizendo que ele venceria com seu pequeno exército os cinco reis mouros e fazendo surgir no céu a imagem de uma cruz. Isto acabou por suscitar uma grande polêmica em jornais e nos púlpitos de todo o país e rendeu um volume de escritos sobre o assunto, a que o próprio Herculano intitulou “Eu e o Clero”, e alguns outros comentários esparsos, como a nota final do romance histórico O Monge de Cister (1841-1848):

Os mais zelosos (e, cumpre confessá-lo, os mais corteses e honestos) pegaram na penna e provaram-lhe até a evidencia que a arte historica não consistia no que elle [o autor, Herculano] pensava; consistia em cirzir algumas lendas de velhas com as narrativas semsaboronas de meia duzia de in-folios, rabiscados por quatro frades milagreiros, tolos ou velhacos. (HERCULANO, O Monge de Cister vol. II s.d.: 376-377).

Essa ideia de escrever História como ela teria sido realmente não é muito diferente da que estava por trás do romance. Os primeiros romancistas escreviam de acordo com uma premissa que Watt (1990) chama de “realismo formal”, segundo a qual o romance deve ser o relato completo e autêntico da experiência humana (31). Na verdade, o realismo formal torna o romance uma forma literária que permite uma imitação mais imediata da individualidade situada num contexto temporal e espacial do que outras formas permitiam (32). Além disso, o romance começa a apresentar em sua estrutura uma relação de causa e efeito, o que o distingue da maior parte da ficção anterior (WATT 1990: 22).

Assim, essa nova visão da História, concatenada com o realismo apresentado nos romances, foi a base para que Walter Scott pudesse criar o romance histórico [5] . Apesar de já existirem romances com temática histórica antes de Scott, ela funcionava apenas como pano de fundo, pois, na prática, a ação e os personagens seriam atemporais, sem ligação explícita com a época retratada. Logo, é importante salientar que esse novo gênero só surge após a Revolução Francesa, que levou ao cidadão comum a percepção de seu papel na História, que foi transformada numa experiência de massa em escala europeia (LUKÁCS 1962: 23). O povo começava a pressentir que deveria haver um processo ininterrupto de mudanças e que isso tinha um efeito direto sobre suas vidas. Também, ao mostrar ficcionalmente como era a vida social pré-capitalista, Scott estava de alguma forma opondo-se, mas de uma forma conciliatória, à ascensão desse sistema, que tomou maiores proporções econômicas com a revolução industrial que estava em curso, e políticas com a revolução de 1789. A desumanidade do Capitalismo, o caos da competição, a destruição do pequeno pelo grande, o desabamento da cultura pela transformação de tudo em commodities - tudo é contrastado com a Idade Média, vista como um período de crescimento orgânico da cultura. De qualquer forma, o passado só faz sentido se percebermos o presente como consequência dele e isso ocorre porque, para Walter Scott, a História é uma sucessão de revoluções, de lutas, que, com alguns revezes, seguem por um meio-termo, evoluindo lentamente (LUKÁCS 1962: 53).

Para Lukács, romance histórico é uma narrativa sobre um acontecimento da história daquela nação, sem referência explícita ao presente, mas de forma que o leitor perceba que a época retratada é um tipo de pré-história da atualidade, pois foi parte da formação daquela sociedade; e, nesse tipo de romance, a ênfase está nas relações humanas, de onde se depreende o contexto das transformações sociais; há uma visão realista da história; e o herói é o representante de um dos grupos sociais em conflito, mas com acesso livre ao outro grupo. Isso, segundo o modelo de Walter Scott, que, de acordo com Lukács, não foi seguido por todos - apesar de ter sido amplamente lido por toda a Europa - e alguns escritores não chegaram a escrever romance histórico, ou por não escrever suas narrativas de acordo com o contexto histórico-social da época retratada, ou por fazer explicitamente a ponte com o presente, ou por falhar em algum outro requisito que ele considerava essencial de acordo com o modelo scottiano. Apesar disso, alguns autores franceses tentaram teorizar sobre o romance histórico, mas suas ideias variavam de acordo com sua visão estética e sobretudo política.

É ao presente grande, immensa, sublime, augusta a missão do romance. Reformador das velhas crenças e proselyto das novas idéas, abraçou-se com o sabio e com o poeta - colligou-se com o verdadeiro sacerdote da religião e com o philosopho - fez sociedade commum com o historiador e com o economista, e desta sancta alliança nasceu o romance moderno, com todas as gallas e arrebiques que o adornam, - com todas (sic) os mimos e feitiços que o embelezam. (Revista Universal Lisbonense: 16/09/1847).

É justamente em meio às transformações políticas que os críticos do século XIX viam o papel do romance moderno. Esse gênero tinha para eles grande influência na sociedade e representava as mudanças que tinham ocorrido nas últimas décadas na Europa. Em seu artigo “Do Romance Moderno”, publicado na Revista Universal Lisbonense em 16 de setembro de 1847, J. Carlos Massa associa o romance à sociedade, ao cristianismo, que inspirou o “luctar continuo contra as velhas doutrinas”, e à História, e mostra a missão dessa literatura.

 

II - Entre a História e a Ficção

É importante compreender que havia vários modelos de romance histórico além daquele baseado nas obras scottianas e que essa variação dependia da estrutura social em cada país e da visão política de cada autor, a partir de sua relação entre o absolutismo e o liberalismo em suas várias formas. Mesmo assim, essa variedade chegava a Portugal e era amplamente lida, inclusive pelos dois grandes autores da primeira metade do século XIX, Herculano e Garrett, e outros. Os autores portugueses tentavam seguir ou não cada modelo de acordo com suas próprias convicções como se pode perceber pelas palavras de Herculano numa das notas de Eurico, em que chama Scott de “o modelo e a desesperação de todos os romancistas” (HERCULANO, Eurico s.d.: 286). Essa “desesperação” talvez seja fruto da impossibilidade de seguir rigidamente esse modelo numa sociedade menos liberal, menos burguesa e menos industrializada como a portuguesa, com uma tradição diferente e com problemas sócio-históricos diversos daqueles da Grã-Bretanha.

Talvez, essa variação frente aos modelos estrangeiros deva-se à própria visão que esses autores teriam sobre o papel da História e da arte para a sociedade portuguesa. Observando-se o trecho abaixo, retirado do primeiro capítulo do romance O Bobo (1843), “Introdução”, pode-se perceber que Herculano via a pesquisa e divulgação do passado nacional como um caminho para a redenção do país, que ele sempre via como possível a despeito de tudo:

Que todos aqueles a quem o engenho e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da história se dediquem a ela. No meio de uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem; porque não o fazer é um crime.

E a arte? Que a arte em todas as suas fórmas externas represente este nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance sejam sempre um eccho das eras poeticas da nossa terra. [...]

Emquanto, porém, não chegam os dias, em que o puro e nobre engenho dos que então hão-de ser homens celébre exclusivamente as solemnidades da arte no altar do amor patrio, alevantemos uma das muitas pedras tombadas dos templos e dos palacios, para que os obreiros robustos que não tardam a surgir digam quando a virem: “as mãos que te puseram aí eram debeis, mas o coração que as guiava antevia já algum raio da luz que nos alumia” (HERCULANO, O Bobo s.d.: 13-14).

O princípio do liberalismo constitucional que Herculano e Garrett defendiam era o da liberdade. As pessoas deveriam ser educadas para poder usufruir dessa liberdade e lutar por ela contra o absolutismo que era uma ameaça latente. A arte, sobretudo a Literatura, deveria atuar na sociedade com um papel educador. Para isso, cabia a ela o dever de ensinar a História e a liberdade - um raio de luz que havia de alumiar os homens robustos do futuro. A essa ideia corrobora Marinho (2007), que diz que a convicção de que o passado é determinante para a compreensão da sociedade do presente leva intelectuais do século XIX a inserir o discurso da História em seus romances basicamente por dois motivos: dar a conhecer os fatos de outrora a um público geral; e mostrar, através do passado, os defeitos ou qualidades de um momento, para que ele sirva de exemplo ou repúdio (24).

Isso desencadeia uma discussão profícua sobre a capacidade instrucional dos dois modelos de representação da História: a narrativa historiográfica e a ficção histórica. A discussão em Portugal parece apontar para uma equivalência entre os dois. Isso é compreensível, uma vez que se esperava que a ficção histórica seguisse os mesmos princípios do estudo histórico, baseando-se em documentos fidedignos. Entretanto, é possível perceber uma tendência a se preferir a ficção, imaginando-a uma forma mais verdadeira de transmissão de conhecimento, já que não apresentaria apenas os fatos, mas sobretudo os sentimentos e a forma de viver da sociedade. Tanto é que Herculano utiliza a própria ficção como forma de forjar a verossimilhança de sua narrativa numa nota ao conto “O Mestre Assassinado” (1838), na qual ele aponta que se pode ter cabal ideia daquele tipo de violência templária em Ivanhoé, de Walter Scott. Isso acaba por indicar para uma certa equivalência entre ambos os discursos. Assim, para ilustrar esse pensamento, pode-se ver o que diz Herculano em três textos de naturezas diferentes.

Primeiramente, observa-se num trecho do capítulo “A Velhice”, publicado na revista Panorama em 01 de agosto de 1840 como “Moral (fragmento de um livro inédito)”, que viria a compor o póstumo Cenas de um Ano de Minha Vida, a relação entre o que seria um relato fiel e um alterado pela imaginação, após ter ouvido a história da vida de um velho mendigo:

Quem sabe se a imaginação me disse mais verdade do que me dizia a narração do mendigo! Novella, historia, qual destas duas cousas é mais verdadeira? Nenhuma, se o affirmarmos absolutamente de qualquer dellas. Quando o caracter dos individuos ou das nações é sufficientemente conhecido, quando os monumentos e as tradições, e as chronicas desenharam esse caracter com pincel firme, o novelleiro póde ser mais veridico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o genio do povo que passou pelo povo que passa. Então de um dicto, ou de muitos dictos elle deduz um pensamento ou muitos pensamentos, não reduzidos á lembrança positiva, não traduzidos, até, materialmente; de um facto ou de muitos factos deduz um affecto ou muitos affectos, que se não revelaram. Esta é a história intima dos homens que já não são: esta é a novella do passado. Quem sabe fazer isto chama-se Scott, Hugo, ou De Vigny, e vale mais, e conta mais verdades que boa meia-duzia de bons historiadores.

Porque estes recolhem e apuram monumentos e documentos, que muitas vezes foram levantados ou exarados com o intuito de mentir á posteridade, em quanto a historia da alma do homem deduzida logicamente da somma das suas acções incontestaveis, não póde falhar, salvo se a natureza podesse mentir e contradizer-se, como mentem e se contradizem os monumentos. (O Panorama, tomo IV 1840: 243-244).

Há também uma extensa nota de rodapé à publicação de “O Cronista”, que era um conto histórico onde estava inserido outro, “O Bispo Negro”, retirado por Herculano para tomar vida própria no segundo volume de Lendas e Narrativas (1851). Nessa nota, Herculano mostra mais uma vez sua preferência pelo romance histórico como portador da verdade. Inclusive, acredita que talvez venham a pensar o mesmo de suas obras, que seriam mais históricas, indicando ainda, pelas reticências, a falta de estudos históricos modernos em Portugal:

Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que nesta cousa chamada hoje romance-historico ha mais historia do que nos graves e inteiriçados escriptos dos historiadores. Dizem pessoas entendidas que mais se conhecem as cousas escocezas lendo as Chronicas de Canongate de Walter Scott do que a sua Historia d’Escocia. Também ha quem diga que no mais grado quarteirão d’historias de França, escriptas até o anno de 1800, não tenha apparecido ainda a epocha de Luiz 11° como appareceu depois na Notre-Dame de Victor Hugo. São coisas deste mundo! - Não podemos dizer outro tanto das nossas, no todo pequenas e pobres tentativas (as primeiras, todavia, que neste genero se fazem em Portugal) mas se, como intentamos; publicarmos estas composições e outras semelhantes em volume separado, mostraremos quais foram os pensamentos que presidiram á concepção da criminosa Abóbada, e do desalmadissimo Mestre Gil; e gente haverá, talvez, que ache esses pensamentos mais profundamente historicos que.....&c. (O Panorama, tomo III 1839: 306).

Como terceiro exemplo, há um artigo em que se comparam duas traduções para o português do romance Quentin Durward, de Walter Scott, também publicado no Panorama, onde se pode ver o valor que Herculano dá a certos romances históricos, pois ele diferencia o que seria Literatura de mercadoria:

Parece a muitos que a tradução de uma novella é a cousa menos importante, e talvez mais escusada do mundo: - em these poderá ser isto verdade: em hypothese nem sempre. Pegar ao acaso em uma dessas mil novellas que os francezes atiram á imprensa annualmente, como mercadoria para commercio, e traduzi-la em portuguez chôco e bastardo, entra na these; mas trasladar uma novella, como algumas de Walter Scott, onde ás vezes se aprende mais historia do que nos livros dos historiadores - porque estes narram sucessos, e aquellas pintam epochas e gerações - e traslada-la em portuguez corrente e limpo, longe de ser cousa inutil, é um bom serviço que se faz á litteratura portugueza. (O Panorama, tomo III 1839: 128).

Se, como aparece nos textos acima, a sociedade do século XIX acreditava ser possível aprender História a partir da ficção e que aquela deveria ser composta exclusivamente por fatos, ela deveria ser bem crítica quanto à presença ou não de fabulações que alterassem a História num texto ficcional. Por isso, os escritores deveriam ter o cuidado de apontar onde termina o fato histórico e começa a fabulação. Complementando isso, os leitores deveriam ser capazes de identificar o que era real e o que era ficção, apesar da dificuldade de se saber até que ponto os relatos históricos são confiáveis.

Em princípio, a realidade histórica era aquela entendida como baseada nas crônicas históricas confirmadas por documentos antigos, enquanto a ficção, que deveria ser nacional, era inspirada na tradição e em lendas antigas, e serviria para refletir a alma da sociedade. Herculano chega a dizer, sobre o relato do velho mendigo, acima referido, que é por conhecer o caráter nacional que a imaginação pode ser mais verdadeira do que a narrativa histórica. Contudo, essa pode ser a fonte dos anacronismos percebidos nas ficções históricas, por acabar colocando personagens medievais agindo e pensando como indivíduos do século XIX.

De qualquer forma, apesar de toda a defesa da ficcionalização da História como forma de aumentar sua veracidade, essa atitude era criticada pelos leitores, tanto nas obras de Garrett quanto nas de Herculano, que tendiam a ser mais presas aos fatos históricos, como se pode notar por outro trecho da mesma nota do conto “O Cronista”:

Alargamo-nos nesta nota, porque alguem nos increpou de haver-mos alterado a historia em varias chronicas-romances que temos publicado, principalmente no Mestre Gil, e na Abobada: era-nos licito faze-lo; mas cremos que não o fizemos em cousa essencial: nisto démos a chronica; no vestuario em que enfeitámos démos o romance. - Não confundamos idéas; - o extra-historico não é o contra-historico. (O Panorama, tomo III 1839: 306).

Assim, Herculano assume a fabulação de suas “crônicas-romances”, apesar de aludir que não alterara a História, pois os dois tipos de texto estão presentes, sem que um anule o outro, por isso o nome que ele dá a esse tipo de narrativa, unindo a parte histórica (crônica) à parte ficcional (romance). Apesar disso, esse historiador tinha consciência da diferença entre o que poderia figurar num texto histórico e o que só seria possível na ficção. Tanto é que, numa nota à publicação do “Bispo Negro” na coleção Lendas e Narrativas, ele informa que aquela lenda foi tirada das Crônicas de Acenheiro [6] , que ele considera “rol de mentiras e disparates publicado por nossa Academia, que teria procedido mais judiciosamente em deixá-las no pó das bibliotecas”. Ou seja, essa narrativa é cabível como texto ficcional, mas nunca como texto histórico. Também, Herculano não confiava nas crônicas antigas como fonte de verdade. Elas só apresentariam fatos se esses pudessem ser comprovados. De outra forma, eram compostas por lendas, as quais ele aproveitou em suas narrativas ficcionais. Afinal, segundo ele diz numa outra nota do “Cronista”:

Alguem achará falso o tom poetico em que imaginámos estar escripta uma chronica latina dos seculos barbaros: enganar-se-hão; ha em muitas dellas mais poesia, não só na essencia, mas até na expressão, que em grande parte dos versos de tempos modernos. (O Panorama, tomo III 1839: 305).

Esse tom poético das crônicas medievais percebido por Herculano pode apontar para uma tradição de narração histórica com um trato esmerado da língua e com certa ficcionalização, servindo, talvez, de melhor modelo a este autor do que os romances scottianos. Delas ele retirava inspiração, histórias, fatos e poesia, alterando-os mais ou menos segundo sua vontade. Isto ele assume numa nota ao “Mestre Gil”, na qual diz que a descrição da procissão de Corpus não foi inventada, mas retirada de um regimento antigo da procissão. O que nele não vinha escrito foi tirado do que se fazia em Portugal no século XIX, com pequenas alterações de ordem para “sobressair melhor os contrastes”. Assim, uma nota que deveria comprovar a fidedignidade aos costumes do passado acaba por mostrar que sua inspiração é recente. Por outro lado, isso não alteraria muito a validade histórica do narrado, uma vez que, segundo ele mesmo diz na narrativa “Os Sete Dormentes” (1843), as antigas crônicas eclesiásticas, martirológios e santorais estão cheias de “lendas fabulosas”. Mais tarde, Garrett, no prefácio à segunda edição d’O Arco de Santana, em 1851, assegura que não tentou fazer um painel de história e continua:

Quando quis ser fiel à verdade histórica, aos costumes, foi-o. Erudição arqueológica não a quis ostentar porque lhe repugna em romance, e entende que uma obra de imaginação e de espírito é o mais impróprio logar de tratar disso.

Para satisfazer, porém, aos escrupulosos, aqui se juntam nas notas desta segunda edição, alguns documentos indisputáveis que provam haver no presente romance toda quanta verdade histórica um romance pode suportar sem cair em pedante e maçador. (GARRETT s.d.: XXIII)

Garrett completa o prefácio indicando que os tais documentos foram-lhe comunicados “pelo ilustre reformador da nossa história”, ou seja, Alexandre Herculano, de quem era amigo. Entretanto, O Arco possui poucas notas de explicação histórica e não foi publicado com documento algum comprobatório, o que pode indicar que, para Garrett, comprovar a verdade histórica seria torná-lo pedante e maçador.

Assim, torna-se difícil saber com certeza o que era mais valorizado pelos escritores de ficção histórica, pois, apesar de toda e qualquer referência à verdade histórica, Herculano confiava na imaginação para dar veracidade ao relato. Garrett assumia no célebre texto “Memória Ao Conservatório Real”, lido em 1843 no Conservatório Real de Lisboa quando da apreciação de seu drama Frei Luís de Sousa, que “sacrifica às musas de Homero, não às de Heródoto”. Pouco depois, no texto introdutório da primeira edição do Arco, “Ao Leitor Benévolo”, desiste de adotar notas para explicar o que apenas seria entendido pelo leitor portuense, por achar que assim haveria mais notas do que texto. Afinal, relacionando história e ficção, diz ele, no mesmo prólogo:

Fique porém certo o leitor amigo e benévolo que a verdade chamada histórica, isto é, a dos livros, vai guardada e salva.

Quem sabe se essa verdade é mais verdade que a outra? Não importa. (GARRETT s.d.: XIX -XX).

O que Garrett não queria era “maçar” o leitor. Entretanto, valorizava a verdade histórica, que deveria figurar ao lado da invenção.

 

III - Preferência pela Ficção

Dessa forma, levanta-se o problema da verossimilhança histórica. Chamar seus textos de romance já aponta para uma valorização do inventado. Todavia, como se pode perceber, havia forte crítica a isso. Portanto, os autores precisavam dar um ar de verdade a suas obras ficcionais para que elas fossem aceitas pelo público. Cabe aqui lembrar que um dos primeiros romancistas, Defoe (1660-1731), no prefácio de Robinson Crusoe (1719), informa que sua narrativa, apesar de alegórica, é também histórica. e que Crusoe existiu, uma vez que sua obra foi criticada justamente por seu caráter fictício, e essa justificativa foi também uma forma de abrandar a aversão dos puritanos à ficção (WATT 1990: 81).

A reação dos católicos portugueses talvez fosse diferente dos puritanos ingleses. Afinal, deve-se lembrar a polêmica causada pela afirmação de Herculano de que não houve o “Milagre de Ourique”, originando uma forte reação da Igreja portuguesa que não via a História separada de suas lendas e mitos. Estes não deixavam de corroborar a ideia de direito divino dos reis numa evidente defesa do absolutismo.

Contudo, a visão dos letrados liberais deveria ser outra. Vários jogos de verossimilhança com o leitor eram usados, com notas informando que tal fato foi retirado de uma crônica medieval, descrições que situassem a época histórica, ou alusões a pergaminhos ou documentos a que só o autor teve acesso.

Herculano fez uso dessas três formas de criar verossimilhança. Em alguns casos ele chega a reproduzir trechos de crônicas medievais no texto ficcional, como na novela Arras por Foro de Espanha (1841-1842). Esta publicação veio a lume, inclusive, acompanhada por uma ilustração de umas de suas cenas, reforçando a mensagem histórica de sua ficção.

Fig. 1 - Ilustração de uma cena de “Arras por Foro de Espanha”, publicada no Panorama.

O texto de Herculano vai a detalhes como notas explicativas quanto à topografia, arquitetura, indumentária e armamentos como forma de caracterizar personagens. Além disso, Alexandre Herculano dá vida a ambientes e ações típicas da época medieval, como bailes, saraus e teatro (no caso d’A Abóbada, por exemplo).

Herculano também faz uso da estratégia do pergaminho encontrado do qual se torna editor, apesar da aparente ironia no uso desse jogo. Eurico teria sido “despertado pela narrativa de certo manuscrito gótico, afumado e gasto pelo roçar dos séculos, que outrora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho” (VII), conforme afirma no prefácio a esse romance, no qual também afirma que O Monge teria tido a mesma origem. Na nota final d’O Monge de Cister, de 1848, Herculano indica que esse romance tem o substrato “de história tirada de um manuscrito que só eu vi, o que lhe dá certo perfume de santo mistério” (vol II: 380), para mais a seguir ironizar, explicando por duas razões porque não acrescentou ao romance um terceiro volume composto apenas por notas históricas que o fundamentavam:

Primò: - Uma das regras capitaes da verdadeira arte historica é que as testemunhas irrecusaveis de qualquer successo vem a ser aquellas que vivem tres a quatro seculos post factum. Ora o auctor dista da epocha de D. João I quatrocentos annos bem medidos. Logo, na hypothese do Monge, é de per si auctoridade sufficientissima. - Secundò: a precedente narração foi tirada, a bem dizer textualmente, de um manuscripto que estava no mosteiro de ... da comarca de ... da provincia de ... e que só o auctor teve a fortuna de ver. Para que serviriam, pois, citações, notas, emburilhadas? A coisa é de uma authenticidade irreprehensivel. (HERCULANO, O Monge de Cister, vol II s.d.: 383).

Assim, ele pode ironizar a relação dos leitores com as duas formas de narrativa histórica. Quando comenta sobre as “testemunhas irrecusáveis” que distam quatrocentos anos do ocorrido, está ridicularizando os que o criticavam por retirar da História de Portugal o “Milagre de Ourique”, uma vez que os documentos que comprovavam tal milagre eram de três a quatro séculos depois do reinado de D. Afonso Henriques. Além disso, acreditar que tal narrativa era verdadeira porque era baseada em um documento a que apenas o autor teve acesso não é prova alguma de autenticidade, ainda mais para um texto escrito por um historiador que via a História como ciência.

Tal como visto, há ironia na estratégia de convencimento da veracidade dos fatos narrados ficcionalmente. No conto “A Dama Pé de Cabra”, de 1843, cujo título já aponta para a lenda e o fantástico, não caberia nenhum jogo de verossimilhança, ainda mais sendo o autor um historiador. Contudo, o narrador, logo na primeira parte da “Trova Primeira”, conversa assim com o leitor:

E não me digam no fim: “Não pode ser.” Pois eu sei cá inventar cousas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho, quase tão velho como o nosso Portugal. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.

É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague. (HERCULANO, tomo II 1970: 35).

Apesar desses jogos, essas estratégias de verossimilhança nem sempre funcionavam, pois os leitores faziam críticas, acusando os textos de serem fabulosos ou anacrônicos. No caso das fabulações, o problema percebido pelos leitores era o texto desviar-se da verdade histórica. Vale ressaltar que poucos tinham acesso e leitura das crônicas medievais e pautavam-se, portanto, na tradição oral, já questionada por Herculano tantas vezes por conter erros. Outra percepção dos leitores apontava para o anacronismo dos textos literários, que misturavam ao enredo histórico algo de outras épocas, muitas vezes do próprio século XIX.

Mesmo Alexandre Herculano, considerado pela crítica como o mais apegado às crônicas, foi acusado de desviar-se da verdade histórica, como se pôde averiguar por sua defesa quanto às narrativas “A Abóbada” (1839) e “Mestre Gil” (1838). Nesta resposta, ele argumenta que mostrar o crer e o viver da época retratada na diegese é mais importante do que se prender a fatos históricos, o que valoriza a imaginação como meio de retratar com realismo a sociedade. Também, para ele, para se criar ficção histórica não basta colocar alguns nomes e datas antigos, é preciso fazer ressurgir aquela época. Por isso, quem não conhece a História e as sociedades que passaram não deve fazer drama histórico. Tanto que ele, no parecer ao drama D. Maria Teles, apresentado ao Conservatório, orienta os novos teatrólogos a dramatizarem o presente, que ele também considera como História. Isto mostra uma preocupação com a contemporaneidade, com o papel educador da arte e com a forma através da qual a realidade é transposta da sociedade para a Literatura.

Também criticando a forma de alguns escreverem ficção histórica, Garrett apresenta com ironia, em Viagens na Minha Terra, um modo de produção de dramas ou romances históricos, que se diziam originais, apesar de serem apenas cópias de determinado modelo:

Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje fazemos a nossa litterátura.[...]

Tracta-se de um romance, de um drama - cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do vivo da natureza, collori-los das cores verdadeiras da historia... isso é trabalho difficil, longo, delicado; exige um estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!... Não, senhor; a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas,

Um pae,

Dois ou tres filhos de dezanove a trinta annos,

Um criado velho,

Um monstro, incarregado de fazer as maldades,

Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.

Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e recorta a gente, de cada um d’elles, as figuras que precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul - como fazem as raparigas inglezas aos seus albuns e scrapbooks, fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se uns poucos nomes e palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os figurões; com os palavrões illuminam-se... (stylo de pintor pinta-monos). - E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura original. (GARRETT, vol. I 1846: 40-42)

A crítica mais interessante de Garrett parece ser aos anacronismos da ficção histórica. Apontar que algo no romance não pertence ao período histórico em que se passa o entrecho mostra que alguns leitores percebiam as relações entre o narrado e sua própria época. Contudo, cabe salientar que grande parte das referências ao Liberalismo na ficção histórica de Garrett é explícita, com o próprio narrador fazendo comparações entre o que se passava no Arco de Santana e a sociedade portuguesa de seu período. O próprio Garrett indica no prefácio à segunda edição do Arco que não escreve segundo as “severas regras do romance histórico professo e confesso”.

 

IV - Ficção Histórica em Portugal

Fica-se, assim, na dúvida se é possível desenhar um modelo da ficção histórica portuguesa do século XIX, ao menos quanto à relação entre a época retratada e o Liberalismo. Ressaltando aqui que, para o efeito deste trabalho, consideram-se tanto o romance histórico quanto as narrativas mais curtas e os dramas, apesar de Lukács considerar que não houve drama histórico (LUKÁCS 1962: 89). Entretanto, a imprensa e a crítica da época, além dos próprios autores, como visto em algumas passagens aqui referidas, chamam essas narrativas mais curtas de romance quando teorizam sobre elas e consideram dramas históricos as representações de temática histórica. Inclusive, como se pode perceber pelo comentário do narrador das Viagens, romance e drama tinham propósitos e criações semelhantes, fossem eles bons ou ruins. Assim, a despeito do que diz Lukács, cabe ressaltar que cada sociedade produz um tipo de Literatura e, conjuntamente, sua taxonomia própria para descrever essa produção. Como aqui se lida com a recepção da ficção histórica e como quem a recebia considerava que as peças apresentadas eram dramas históricos, vale esta definição.

De qualquer forma, deve-se recordar que, para Lukács, o romance histórico, seguindo o modelo criado por Walter Scott, deve retratar uma situação social que o leitor identifique como uma pré-condição para a sua própria sociedade, que é o resultado desencadeado da crise retratada no romance. Isso seria válido para Portugal?

Almeida Garrett deixa claro que não escreve sobre a História, mas sobre Portugal contemporâneo, o que é ratificado por sua obra literária. Afinal, a problemática apresentada em todas elas é a crise política do Liberalismo português.

No prefácio à terceira edição da tragédia Catão, em 1839 (a primeira é de 1822[7] ), Garrett comenta que foi à Roma antiga, mas que escreve como português para os portugueses de seu tempo. Afinal, a discussão que perpassa esse texto dramático é como se relacionar com a figura poderosa, controladora e imperial de César, numa alegoria do que seriam as formas possíveis de se lidar com o Absolutismo.

No Arco de Santana, as referências ao Liberalismo são claras. O prefácio comenta a situação do clero no vintismo, quando perdeu força, e depois no Cabralismo, quando voltou a ter poder[8] . O desenrolar da trama, as comparações do Porto medieval com o Portugal oitocentista são explícitas, como a que faz entre a sessão de vereadores no município e a de São Bento em Lisboa no século XIX.

No drama histórico Frei Luís de Sousa, como já comentado aqui, dedica-se mais às musas poéticas do que às históricas. Mas as referências políticas estavam lá e eram percebidas, a ponto de só ter sido permitida a representação pública em 1847, com algumas cenas cortadas pela censura. Só em 1850, Frei Luís de Sousa ganhou representação com texto integral, nos festejos de aniversário da rainha D. Maria II[9] .

Analisar a ficção histórica de Herculano é mais complicado. Primeiramente, apesar de só ter publicado três romances, há uma quantidade variada de outras narrativas históricas, que eram publicadas em periódicos da época. Há ainda dois dramas históricos, O Fronteiro d’África, em prosa, com quinze representações em 1838 no Teatro do Salitre, e Os Infantes de Ceuta, lírico, com única apresentação em 1844 na Academia Philarmónica. Além disso, as formas utilizadas por ele nas narrativas curtas são variadas e também diferem das apresentadas nos romances. De qualquer forma, pode-se destacar como fator comum o fato de que, em suas obras, todas as relações entre a diegese e a sociedade oitocentista são implícitas. Apesar disso, ele parece perceber que os leitores seriam capazes de fazer essa associação, mesmo em textos repletos de notas históricas como o Arras.

Nessa novela, numa das cenas, que ele diz ser “de imaginação”, há uma nota explicando que alguns “medirão o tesoureiro-mor D. Judas por um ministro da Fazenda moderno”, mas que, se conhecerem as opiniões, estado de civilização e costumes da Idade Média, e se perceberem o caráter cruel, hipócrita e cobiçoso de D. Leonor Teles, “tão excelentemente pintado pelo grande poeta-cronista Fernão Lopes”, poderão avaliar melhor a verossimilhança dessa cena em meio a outras da vida real daquele tempo. Por outro lado, ao defender-se dessa forma, Herculano acaba por chamar a atenção do leitor para a relação entre o tesoureiro-mor retratado e os ministros da Fazenda de seu tempo, o que seria uma interessante ironia, talvez consciente, principalmente se se levar em consideração que nesse período Portugal passava por uma grave crise financeira.

 

V - Ficção Histórica de Herculano

Por ser autor de obra vasta e diversa, Herculano pôde reconhecer a influência que sua ficção histórica teve na Literatura Portuguesa, apontando a si mesmo como modelo seguido por outros autores, inclusive o próprio Garrett, como ele nos diz no prefácio à primeira edição da coletânea Lendas e Narrativas (1851):

A crítica para ser justa não há-de considerar só essas circunstâncias; há-de considerar, também, o resultado de tais tentativas, que, a princípio, é lícito supor inspiraram obras análogas, como por exemplo Os Irmãos Carvajales e O que foram Portugueses do sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria dos grandes talentos da nossa literatura a empreenderem composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas. (HERCULANO, Lendas e Narrativas - I s.d.: vii).

Num pequeno esboço, sempre incompleto, pode-se dizer que, em algumas obras, principalmente nas narrativas menores, com grande influência das crônicas e livros de linhagem, parece haver dois tipos de romance histórico: um baseado em lendas mais fabulosas do que históricas, como a “Dama Pé-de-Cabra” (1843) e “O Bispo Negro” (1839), e outras mais históricas, como “Arras por Foro de Espanha” 1841-42), “O Castelo de Faria” (1838) e “A Morte do Lidador” (1839).

Nos três romances a ligação com o século XIX é mais clara pela problemática apresentada, principalmente nos dois publicados em volume durante sua vida [10] e que constituem a coleção que ele intitulou O Monasticon. O Monge de Cister tem várias críticas ao pensamento e atitudes daqueles a quem Garrett chamava “barões” e ao clero poderoso, apesar de Herculano tentar representar a época de D. João I como a base da sociedade capitalista portuguesa e da centralização absolutista. Tanto que, no prefácio, ao comentar o convento que lhe remeteu à escrita desse romance, critica os políticos e os “loios”, como metonímia para o clero corrupto e suntuoso. Também, conforme indica Marinho (1992), nesse romance, Herculano exalta o municipalismo da Idade Média, que considera o melhor processo administrativo para o país, por causa de sua descentralização. Estaria, portanto, tentando convencer os eleitores portugueses. De qualquer forma, em seus romances, o destino dos personagens é indiferente ao curso da História. Parece que seus destinos já estão traçados e nunca encontram solução, como se fossem levados pelos acontecimentos sem poder vencê-los, o que faz sentido, ao se observar o Portugal dessa época, com suas várias guinadas políticas.

Nesse contexto, Eurico, o Presbítero é um caso especial na obra de Herculano. Não é à toa que foi sua obra mais lida (teve sete edições em Portugal durante sua vida). A diferença começa na própria definição do gênero em que é escrito. Com uma forma que coaduna narrativas, epístolas e fragmentos, que estão entre o poema em prosa e um fluxo de consciência insipiente, o próprio autor não o define como romance histórico, apesar de a crítica o classificar como tal. Para começar, Herculano afirma em suas notas que não segue em Eurico o modelo de Walter Scott por não ser possível:

o reproduzir a vida dessa sociedade [os godos da Península Ibérica], que nos legou tantos monumentos, com as formas do verdadeiro romance histórico temo-lo por impossível, ao passo que representar a existência dos homens do undécimo ou dos seguintes séculos será para o que os tiver estudado, não digo fácil, mas, sem dúvida, possível.

Qual é a causa disto?

É que nós conhecemos a vida pública dos Visigodos e não a sua vida íntima, enquanto os séculos da Espanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. (HERCULANO, Eurico s.d.: 285-286)

Além disso, ele define esse livro como algo diferente, chama-o de “crônica poema, lenda ou o que quer que seja do presbítero godo” (p. vii). Essa definição, tal como a de romance histórico, também une o lado real da História (crônica) ao ficcional (poema). A diferença, contudo, existe. O uso do hífen em crônica-poema mostra os dois efetivamente como algo único, unido, diferentemente de romance histórico em que a parte histórica é apenas uma qualidade ou característica do gênero romance. Também, ao substituir romance por poema, apesar de manter a ideia de fabulação, de ficcional, indica uma maior subjetividade, além de um trato maior com a língua.

Todas essas diferenças permitem-lhe assumir que usou o que quis da História e imaginou todo o resto. Para a enfabulação do amor de um membro do clero por uma mulher, ele assume, entretanto, que não há registros em lugar algum. Logo, imaginará como puder.

Não possuir os documentos históricos sobre a forma de crer, de sentir e de viver daquela sociedade deve ter lhe dado maior liberdade criativa, já que não ficou preso a notas explicativas. São trinta e uma notas de autor na publicação em volume desse romance. A primeira, talvez a mais importante, é aquela onde ele tenta explicar porque não sabe como classificar seu livro, mostra sua relação com o modelo de Walter Scott, e como a literatura deve tratar desse período da História escolhido por ele. É onde aparece mais claramente a ideia da escolha dos períodos históricos para a diegese, fazer com que o leitor sinta a ligação entre os dois tempos:

A obra literária (novela ou poema - verso ou prosa - que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas - indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Teodorico ou de Leovigildo será o ascendente do Cide ou do Lidador; que o herói se vai transformar em cavaleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e coisa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguês. (HERCULANO, Eurico s.d.: 287).

A maior parte das notas que ele colocou são para explicar certos aspectos pitorescos do romance como os anacronismos quanto à denominação de alguns cargos ou classe da sociedade goda (sete notas), a toponímia (sete notas), as armas e a indumentária da época (cinco notas), e algum outro vocabulário anacrônico (seis notas), além da alusão a poetas do século V, o que passaria certa verossimilhança histórica ao leitor num texto assumidamente ficcional. Também há uma nota em que alude que “numa obra literária, que, se pelo desempenho é humilde, é de sua natureza elevada, custa a dar explicação de língua e gramática; mas assim o requerem os tempos”. Defende então a presença de certos estrangeirismos e o uso da palavra “aresta”. Há ainda três notas de confirmação dos fatos narrados, nas quais aponta que, apesar de terem acontecido, não se sabe a época correta ou não foi exatamente no período retratado no enredo. Ao misturar fatos históricos de épocas distintas, afasta esse livro ainda mais do modelo do romance histórico:

Nas mil tradições, diversas, quer antigas, quer inventadas em tempos mais modernos, sôbre o modo como se constituiu a monarquia das Astúrias procurei cingir-me ao menos no desenho geral, ao que passa por mais próximo do histórico. Todavia, cumpre advertir que Pelágio viveu, segundo tôdas as probabilidades, em tempos um pouco posteriores à conquista árabe, e que a morte de Opas e de Julião na batalha de Cangas de Onis, sucesso narrado por alguns escritores, tem sobrados caracteres de fabulosa. [...] Dêste modo, sendo hoje dificultoso separar, em relação àquelas eras, o histórico do fabuloso, aproveitei de um e de outro o que me pareceu mais apropriado ao meu fim. (HERCULANO, Eurico s.d.: 298).

Aliás, como ele refere nesta nota acima, os próprios relatos históricos da época têm muito de fabuloso e não podem ser considerados como verdade. Logo, não haveria problema em recriá-los ainda mais. Esse pensamento é oposto à visão que ele tinha da História, segundo a advertência da primeira edição do primeiro volume da História de Portugal (1846), em que registra que “averiguar qual foi a existência das gerações que passaram, eis o mister da história. O seu fim é a verdade.” (19).

Tendo como fim a verdade e como propósito a educação, principalmente a do jovem monarca D. Pedro V (1837-1861), Herculano escreveu a História de Portugal começando por discordar dos outros historiadores que o precederam. Para ele, só poderia ser considerada parte da história portuguesa aquela que mostrasse um fio que ligasse o passado ao presente[11] . Então, descarta a história da ocupação celta, fenícia, lusitana, etc., inclusive a história amplamente alardeada de Viriato, por considerar que não há nada em comum entre esses povos e os portugueses, nem mesmo a integridade territorial. Herculano considera como o berço da nação portuguesa a monarquia das Astúrias, que se manteve durante a ocupação árabe. Este é o período histórico em que se passa o enredo de Eurico, a derrocada do império godo com a invasão dos mouros e a resistência nas montanhas do norte, de onde os cristãos partiram para a reconquista e de onde surgiu Portugal como reino independente. No primeiro volume da História, há um breve relato, que o autor diz não ter buscado nas fontes primárias, mas num conjunto de textos de outros historiadores cristãos e árabes, contando o período da ocupação islâmica na Península, desde a invasão até a morte de Afonso VI, que desencadeará os acontecimentos que levam à independência do Condado Portucalense. Lendo-se esse volume da História, que trata do mesmo período de Eurico, pode-se confirmar que os fatos narrados são diferentes nos dois textos, confirmando a nota de Herculano sobre os anacronismos do enredo. Também, a figura do bispo Opas, tão importante no romance Eurico, desaparece do texto histórico de Herculano, o que era de se esperar, uma vez que o autor considerava os relatos existentes sobre ele demais imaginativos.

Além de fazer uso de narrativas históricas diversas e fantasiosas como base para a construção de sua ficção, Herculano também se apropriou de algumas crônicas e alterou-as ao seu modo, conforme uma rara nota de referência documental histórica nesse romance:

O facto narrado neste capítulo é histórico. O lugar da cena e a época é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Vale, junto de Ecixa, que, em tempos posteriores, praticaram êste feito heróico, para se esquivarem à sensualidade brutal dos Árabes. Parece que o procedimento das freiras de Ecixa foi imitado em muitas outras partes. (HERCLANO, Eurico s.d.: 295-296).

Esta nota, apesar de referir um fato histórico (as fontes das crônicas a serem eventualmente consultadas também estão lá), confirma ainda assim o anacronismo na composição ficcional. Não deve ter custado tanto a Herculano alterar o lugar da cena, uma vez que ela parece ter ocorrido não apenas no convento de Ecixa, mas em vários outros, como mostra a nota e também uma passagem do diário de viagem de Herculano pelo interior do país de 15 de julho de 1853. Este relato indica que numa capela do mosteiro de Lorvão há um quadro “que representa uma tropa de mouros entrando violentamente n’um convento de freiras” (HERCULANO, Cenas de um ano de minha vida s.d.:175).

Todavia, o principal anacronismo de Eurico, sua relação com o liberalismo, não é assumido em nenhuma nota ou paratexto de Herculano, nem tampouco há alguma comparação explícita com o século XIX ao longo da narrativa. O romance mantém-se aparentemente como um relato do período de queda do império godo e nascimento da monarquia cristã nas Astúrias. Cabe exclusivamente ao leitor mais atento fazer essa ligação a partir do enredo, das personagens e da crítica do narrador a certos aspectos das sociedades romana, goda e árabe.

 

VII - Eurico: entre história e ficção

Assim, Eurico entra na História da Literatura Portuguesa como uma obra única da ficção historiográfica. Apesar da falta de explicitação quanto à sua relação com o período em que foi escrito, tal como Garrett faz no seu Arco de Santana, a problemática social está lá, como a crítica à traição à pátria, ao poderio político de certos membros do clero, à divisão da sociedade, à guerra civil, à perseguição política e ao governo ditatorial e centralizador, além de uma crítica ao liberalismo (para que se reformasse). Vitorino Nemésio, em “Eurico: história de um livro” (1943), aponta as interrelações entre o tempo em que transcorre o Eurico e o presente em que Herculano está imerso quando publica o livro:

Ora, o romance de Herculano abre precisamente por uma meditação sobre a decadência dos visigodos, comparada à de Roma. “O amor da pátria”, desperto na Espanha “despedaçada pelos bandos civis”, como que nos faz passar da atmosfera do século VIII à contemporaneidade imediata e próxima de Herculano, que sente na sua “voz do profeta” e na sua “harpa do crente” a alma do “último poeta godo”. Não haverá uns longes da morte de D. João VI na de Vítiza? da aclamação de D. Miguel na “entronização violenta de Rodrigo”? a guerra civil nas “conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte e que a muito custo o novo monarca (Rodrigo - D. Miguel) ia afogando em sangue”? (NEMÉSIO s.d.: xxi)

Destarte, Eurico é um modelo de sucesso. Os chamados anacronismos com que criticavam o romance histórico de Garrett estão presentes no Eurico, mas de forma implícita. A fachada de narrativa histórica sem relação explícita com a contemporaneidade, somada ao respeito à figura de historiador e ficcionista histórico sério de Herculano, que durante o primeiro governo de Costa Cabral manteve-se alheio às discussões políticas na imprensa, além da aura antissetembrista que ele possuía depois de ter escrito A Voz do Profeta (1836), contribuíram para que essa obra passasse incólume face à ditadura cabralista, o que não aconteceu com Viagens na Minha Terra, de Garrett, que vinha a público no mesmo período e teve sua publicação interrompida certamente por razões políticas.

Assim, pode-se perceber que alguns autores portugueses das primeiras décadas do liberalismo tinham noção de até que ponto suas obras ficcionais eram realmente históricas ou fabulosas, além de relacionarem suas narrativas históricas com a sociedade oitocentista. Esta relação poderia ser percebida pelos leitores, embora por vezes não muito bem aceita, dependendo do grau de clareza com que estavam inseridas no texto e do posicionamento político do leitor.

 

Notas:

      Este ensaio é parte da pesquisa realizada no Mestrado em Ciência da Literatura (Teoria Literária) na UFRJ, cuja dissertação intitulada Pouca Luz em Muitas Trevas; Eurico, o Presbítero no Liberalismo Português foi defendida pelo autor em agosto de 2009 e teve orientação dos professores doutores André Bueno (UFRJ) e Sérgio Nazar David (UERJ).

[1] Doutorando em Estudos de Literatura (Literatura Comparada) - Universidade Federal Fluminense (UFF) eduardodacruz@gmail.com

[2] Apesar das constantes mudanças de governo, revoltas, revoluções, etc., Portugal manteve-se uma monarquia constitucional liberal.

[3] Não é conhecido o texto a que Herculano se refere, que não deve ter sido publicado (VASCONCELOS 2003: 296).

[4] Os apontamentos de viagem foram publicados juntamente com as Cenas de um ano de minha vida.

[5] O primeiro romance histórico foi Waverley, publicado em 1814.

[6] Cristóvão Rodrigues Acenheiro nasceu em 1474 e escreveu Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, que só foram publicadas em 1824, de acordo as notas de António C. Lucas na edição das Lendas e Narrativas organizadas por Nemésio em 1970.

[7] Apesar de Catão não se figurar como drama histórico por ser uma tragédia, cabe como exemplo pelo assunto suscitado em seu prefácio, por ter sido escrito por um dramaturgo de porte como Garrett, que dedicou grande parte de sua vida à renovação do teatro português, por ter temática histórica e por a peça pertencer ao mesmo período.

[8] “Sufocado o liberalismo por esses dois inimigos [o miguelismo e o “feudalismo agiota”], ressurgia também com força a “oligarquia eclesiástica”, que já no primeiro tomo d’O Arco de Sant’Ana seria veementemente combatida: “hoje [dezembro, 1844] é útil e proveitoso lembrar como os povos e os reis se uniram para debelar a aristocracia sacerdotal e feudal”, salienta Garrett” (DAVID 2007: 139-140).

[9] “A peça [Frei Luís de Sousa] e a memória que lhe serve de introdução parecem compor um conjunto bastante coeso. Ambas evocam os esforços de Garrett para que a experiência liberal sobrevivesse e fosse adiante, apesar das atribulações por que vai passando ao longo do turbulento reinado de D. Maria II”. (DAVID 2007: 138).

[10] O Bobo, publicado n’O Panorama em 1843, só foi publicado em livro em 1878, postumamente, sem que Herculano tivesse tido tempo de terminar as correções que estava fazendo nessa obra.

[11] Argumenta Herculano na “Carta V Sobre a História de Portugal”: “A nossa historia começa unicamente na primeira decada do seculo XII; não porque os tempos historicos não remontem a uma epocha muitissimo mais remota; mas porque antes dessa data não existia a sociedade portuguesa, e as biographias dos indivíduos collectivos, bem como a dos singulares, não podem começar além do seu berço.” (HERCULANO, Opúsculos V s.d.: 121).

 

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Periódicos

O Panorama: Semanário Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Vol. 3º. . Série 1ª. 1839: Typografia da Sociedade, Lisboa.

O Panorama: Semanário Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Vol. 4º. Série 1ª. 1840: Typografia da Sociedade, Lisboa.

O Panorama: Semanário Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Vol. 2º. Série 2ª. 1843: Typografia da Sociedade, Lisboa.

Revista Universal Lisbonense: jornal dos interesses physicos, moraes e litterarios por uma sociedade estudiosa, Vol. 6º. Série 4ª. 1847: Imprensa da Gazeta dos Tribunaes, Lisboa.

 

© Carlos Eduardo da Cruz 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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