Machado de Assis e a teoria da alma humana

Teresinha V. Zimbrão da Silva

Professora de Literatura Brasileira e do Mestrado e Doutorado em Estudos Literários
UFJF (MG- Brasil)
teresinha.zimbrao@ufjf.edu.br


 

   
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Resumo: Nesse artigo, trabalharemos com duas áreas de conhecimento, Literatura e Psicologia. Nossa proposta é interdisciplinar: pretendemos analisar o conto O Espelho, de Machado de Assis, do ponto de vista da Psicologia de Carl G. Jung.
Palavras-chave: Machado de Assis; Literatura Psicológica; Psicologia Junguiana.

Abstract: In this article, we shall work with two areas of knowledge, Literature and Psichology. Our proposal is interdisciplinary: we intend to analize a short story entitled O Espelho, by Machado de Assis, from the point of view of the Psychology of Carl G. Jung.
Keywords: Machado de Assis; Psychological Literature; Jungian Psychology.

 

1. Literatura e Psicologia:

É certo e até mesmo evidente que a psicologia, ciência dos processos anímicos, pode relacionar-se com o campo da literatura.
Carl Gustav Jung

Esse trabalho tem uma proposta interdisciplinar: contribuir para a análise de obras literárias à luz da Psicologia Junguiana.

As relações entre Literatura e Psicologia são discutidas por Jung em um conjunto de ensaios publicados em português sob o título, O Espírito na Arte e na Ciência (JUNG, O. C. vol XV). Nestes ensaios, Jung defende a interdisciplinaridade entre as duas áreas de conhecimento, espaço onde pretendemos nos situar. Jung diferencia então dois procedimentos distintos na criação da obra literária: o visionário e o psicológico. No primeiro, há presença predominante de conteúdos desconhecidos que parecem provir das profundezas do inconsciente, já, no segundo, estão presentes conteúdos que a consciência conhece ou pode pressentir.

Estudaremos o conto machadiano O Espelho, como exemplo de obra psicológica. Nise da Silveira, psiquiatra e analista junguiana, já havia definido de modo semelhante, a obra machadiana: “Na literatura brasileira vamos encontrar excelentes exemplos de obras psicológicas nos romances e contos de Machado de Assis”. (SILVEIRA,1977:139)

Para Jung, é a obra visionária e não a psicológica que mais oferece possibilidades de interpretação ao psicólogo. Na obra psicológica, o autor antecipa a psicologia particular de seus personagens, sobra ao psicólogo pouco a acrescentar que o autor já não o tenha dito e muito melhor. Jung sublinha: “O assim chamado romance psicológico (...) tem por assim dizer sua própria psicologia, que o psicólogo poderia, no máximo, completar ou criticar”. (JUNG, O. C. vol. XV §136).

Apesar de Jung desencorajar então o estudo de obras psicológicas, esse trabalho pretende mostrar que a Psicologia Junguiana pode também acrescentar muito à leitura de Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho é um autor conhecido pela produção de obras abertas à espera de um leitor para as completar. Em Machado de Assis, tudo está implícito, incluindo a própria psicologia. Nossa proposta, portanto, é estudar Machado de Assis à luz de conceitos junguianos, em particular, o conceito de Individuação, que será definido em seguida.

 

2. Individuação:

é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação.
C. G. Jung

O termo “Individuação” se refere à totalidade de um processo de desenvolvimento psíquico. Segundo a Psicologia Junguiana, todo ser humano tem em si o potencial para se desenvolver, embora aconteça a muitos, que este desenvolvimento seja “interrompido”, acontece a outros, ser este “realizado”. O processo é impulsionado por forças instintivas inconscientes, contudo, o homem pode influenciá-lo quando consegue estabelecer, através dos sonhos e de outras manifestações, um produtivo diálogo entre consciente e inconsciente. É a partir daí que aspectos parciais da personalidade irão se integrando na realização de um indivíduo definido como mais “inteiro” e “total”.

A Individuação corresponde a um movimento não linear onde o centro da psique se desloca do ego para o self (Si mesmo). Quando o ego, centro da consciência, passa a dar ouvidos aos conselhos do self vindos do inconsciente mais profundo, este se torna o centro da personalidade. Individuar-se é aconselhar-se com o self. É somente através dos seus conselhos que o ego se conscientiza das potencialidades inatas da psique e as realiza. O self é o conselheiro do ego realizador, daí a necessidade do diálogo entre consciente e inconsciente.

Apesar do processo de individuação variar muito de pessoa para pessoa e de não seguir um curso linear, é possível descrever, em caráter didático, suas principais etapas. A princípio, o processo se inicia com a retirada da máscara que usamos nas relações com o mundo: a persona. Esta máscara representa o nosso rosto tal como os outros esperam que ele seja, não necessariamente como ele de fato é. A persona está limitada a aspectos “claros” da nossa personalidade, aspectos aceitos pelo ego e que são compatíveis com as convenções sociais. Quanto mais esta máscara estiver colada ao rosto (identificação do ego com a persona), mais difícil será sua retirada.

Se bem sucedida a desidentificação de ego e persona, aparece então um rosto desconhecido que nos assusta: é a sombra. Vemos então aspectos escuros, sombrios da nossa personalidade, aspectos que não aceitamos em nós e que por isto mesmo reprimimos no inconsciente e projetamos no outro. Reconhecer esta projeção é parte do processo de iluminar a sombra. Quanto mais a sombra for reprimida e mal projetada (dissociação entre ego e sombra), mais sombria e difícil de ser confrontada.

Depois do reconhecimento da própria sombra, é a vez do homem confrontar a sua anima e da mulher o seu animus. Anima é a personificação de tendências psicológicas femininas na psique do homem e animus a personificação de tendências psicológicas masculinas na psique da mulher. Por tendências psicológicas femininas e masculinas, entendam-se as características que são tipicamente identificadas como femininas e masculinas nas culturas a que pertençam este homem e esta mulher. Tais características constituem o que o homem e a mulher desconhecem em si mesmos. Se o que conhecem e desenvolvem são os seus respectivos egos masculino e feminino, o que desconhecem e precisam desenvolver são a anima, o lado feminino do homem e o animus, o lado masculino da mulher. E é muito importante que estes lados sejam reconhecidos e desenvolvidos porque são os responsáveis pelo relacionamento com o inconsciente. Anima e animus representam, no indivíduo, a sua voz interior.

Como todo conteúdo inconsciente, anima e animus tornam-se conscientes quando projetados no outro. Podemos então olhar, e como num espelho, vermos a nós mesmos. A anima é geralmente projetada em mulheres e o animus em homens. A dificuldade está em reconhecer que as características que estamos vendo no outro são na verdade nossas. Se o indivíduo consegue vencer esta dificuldade e passa a projetar adequadamente a sua anima ou animus de modo a desenvolvê-los, estes exercerão a sua função de intérpretes no diálogo com o inconsciente, transmitindo ao ego os conselhos do self.

Confrontados anima ou animus, o indivíduo estará mais próximo daquilo que, dentro do processo de Individuação, os junguianos definem como experiência da “totalidade”. Os reconhecimentos da persona, das projeções da sombra, de anima ou animus correspondem à integração de aspectos parciais do psiquismo. A conscientização destes aspectos através do diálogo entre consciente e inconsciente conduz o ser humano à experiência de tornar-se “Si mesmo”, um ser mais “inteiro” e “total”, integrado por consciente e inconsciente em seus aspectos claro e escuro, masculino e feminino, receptivo aos conselhos do self.

 

3. Machado de Assis à luz dos conceitos:

Para estudar Machado de Assis a partir da Psicologia de Jung, decidimos pelo seguinte recorte: trabalhar um tema a partir de um conto. Como mencionado anteriormente, selecionamos O Espelho, publicado em Papéis Avulsos, coletânea de 1882. A escolha desse conto encontra sua motivação no fato dele ser representativo de um tema dos mais recorrentes na obra machadiana, que é o mascaramento social - um tema que se oferece, tal como esperamos demonstrar, como muito apropriado para ser lido à luz dos conceitos junguianos. Já mencionamos que no processo de Individuação, os reconhecimentos da persona, da sombra, de anima ou animus correspondem à integração de aspectos parciais do psiquismo. A conscientização destes aspectos, segundo os junguianos, conduz o indivíduo à auto-realização. No caso machadiano, os personagens são exemplares do processo de Individuação acometido por psicopatologias, é o que esperamos demonstrar no caso d’O Espelho.

 

4. O Espelho: esboço de uma nova teoria da alma humana

Cinco cavalheiros, entre quarenta e cinco e cinqüenta anos, conversam em uma noite e caem no tema da natureza da alma humana. Um deles, Jacobina apresenta a teoria de que o homem tem duas almas: uma que olha de dentro para fora (alma interior) e outra que olha de fora para dentro (alma exterior). E narra então um episódio dos seus vinte e cinco anos, quando era pobre e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Uma tia, que morava num sítio, convidou-o então a visitá-la e a levar a farda. Chegando lá, foi alvo, por parte da tia e dos escravos, de inúmeras e atenções e cortesias por conta da patente. Diante disso, Jacobina transformou-se: o alferes eliminou o homem. A alma exterior, reduzida à patente, apossou-se dele. Contudo, circunstâncias externas - a tia viajou às pressas, os escravos fugiram - o obrigaram a ficar sozinho no sítio, sem ninguém para lhe prestar louvores. Sentiu-se muito mal. Depois de uma semana nesta situação, ao olhar para o espelho, recuou assustado, o vidro não lhe estampou a figura nítida e inteira, mas vaga e difusa. Receou enlouquecer. Lembrou-se então de vestir a farda defronte do espelho e o vidro reproduziu a figura integral. Encontrara, no espelho, a alma exterior, ausente com a tia, fugida com os escravos. A partir de então todo dia, por umas duas ou três horas, colocava-se diante do espelho e vestia-se de alferes, depois despia-se outra vez. Com este regime pode atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir. Tendo terminando de narrar o episódio aos outros, Jacobina se retira silencioso.

Machado de Assis desenvolve neste conto uma análise crítica das máscaras sociais, mostrando que há casos, como o narrado n’ O Espelho, em que estas se colam de tal modo aos rostos, que com estes se confundem. O conto traz implícito um período de intensas mudanças sociais e políticas no cenário da vida brasileira. Tentava-se então conciliar uma constituição política liberal, espelhada na da burguesia européia, com uma prática social escravocrata.

E a despeito da escravidão, o discurso dominante era que o Brasil civilizava-se. Vestia-se com roupas das mais modernas, lavadas e passadas por primitivos escravos. O espelho mirado era o da Europa e refletia a imagem aburguesada do brasileiro europeizado. O Brasil importava de Paris as suas vestes Belle Époque: uma significativa máscara social dos personagens machadianos. E uma máscara das mais brasileiras, pois expressa características típicas da sociedade do Brasil oitocentista. O texto de Machado de Assis analisa criticamente esse contexto onde as vestimentas do burguês civilizado e liberal mascaravam toda a sombria violência da primitiva prática escravocrata.

Veremos que o conto exemplifica um processo de Individuação acometido por uma psicopatologia: identificação do ego com a persona. Procuraremos estudar o tema do mascaramento social construído n’O Espelho, à luz, sobretudo, dos conceitos de ego, persona, sombra e anima. Consideraremos que, em uma das poucas referências conhecidas a Machado de Assis e Jung, Nise da Silveira sugeriu: “Nenhum exemplo ilustrará melhor o que seja a persona que o conto de Machado de Assis O Espelho.” (SILVEIRA, 1977: 80). Desenvolveremos primeiro a sugestão da analista junguiana, trabalhando os conceitos de ego e persona, para depois completarmos o estudo com os conceitos de sombra e anima.

Um dado importante, a ser considerado neste trabalho, é que os personagens machadianos são profundamente universais e ao mesmo tempo brasileiros. Sua brasilidade é reconhecível na estilização literária que Machado de Assis realiza das características sociais do Brasil oitocentista. O texto machadiano, à semelhança do contexto brasileiro, mostra um mundo assentado nos privilégios da elite e numa estrutura social organizada com base no ócio e na desvalorização do trabalho, onde só restava ao pobre e ao escravo o “favor” dos ricos.

Procuraremos então reconhecer, além das características universais da “alma” dos personagens machadianos, também as suas características brasileiras. Partiremos do princípio de que é possível colocar o Brasil num divã. Tomaremos como principal referência o trabalho desenvolvido por Roberto Gambini, sociólogo e analista junguiano que defende: “se uma teoria psicológica é válida para o indivíduo, deve poder também ser aplicada a situações coletivas” (GAMBINI, 2000:35). Gambini pratica uma psicologia da história do Brasil, uma investigação cujo alvo é a nossa “alma”. Consideraremos, sobretudo, a sua definição da psicopatologia do brasileiro - “Sem anima e com sombra. Olha como foi que nós começamos” (DIAS & GAMBINI, 1999:34).

Situaremos essa definição no contexto machadiano, considerando o dado importante de que o brasileiro procurava adotar então uma persona civilizada, reprimindo uma sombra primitiva, sobretudo representada pela escravidão. Procuraremos reconhecer esta característica, dentre outras, da “alma” brasileira dos personagens machadianos.

 

5. A Persona em O Espelho

Ao descrever o processo de Individuação segundo a Psicologia Junguiana, Nise da Silveira cita O Espelho como exemplar para a compreensão do conceito de persona:

Nesse conto, Machado apresenta a teoria de que o homem tem duas almas: “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.” E narra o caso de um jovem que, sendo nomeado alferes da Guarda Nacional, tanto se identificou com a patente que o “alferes eliminou o homem”. (SILVEIRA, 1977: 80)

Se compreendermos a teoria machadiana das duas almas, alma interior/alma exterior, como correspondendo, respectivamente, ao par ego/persona da psique junguiana, poderemos deduzir que o conto trata de um caso psicopatológico de identificação do ego com a persona. Não parece ser outra a explicação do personagem: nomeado alferes, tanto se identificou com a patente que...

O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade... tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar... Era exclusivamente alferes. (MACHADO DE ASSIS, 1997: 348).

De fato, o ego identificou-se com a persona. Contudo, circunstâncias externas obrigaram o personagem a ficar sozinho num sítio onde não havia ninguém para lhe prestar louvores ou sinais de respeito devidos à patente de alferes. Sentiu então um vazio absoluto. Depois de uma semana nesta situação: “deu-me na veneta olhar para o espelho... Olhei e recuei. O próprio vidro... não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada e difusa.” (MACHADO DE ASSIS, 1997: 350). Considerando a tradição primitiva de que o reflexo de uma pessoa no espelho é a sua própria alma, parece que a “alma” do personagem, reduzida à persona, quando confrontada com a solidão do sítio, sem ter um “outro” que a reconhecesse em sua máscara de alferes, “esfumaçou” e “dispersou-se no ar”. Então...

Então tive medo... receei... enlouquecer... Subitamente... lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a... defronte do espelho...levantei os olhos e... O vidro reproduziu então a figura integral, nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. (MACHADO DE ASSIS, 1997: 350-351).

Na ausência de um “outro” concreto para reconhecer a sua persona, o personagem encontrou um “outro” substitutivo. O artifício de vestir concretamente a máscara de alferes e de se colocar diante do espelho permitiu-lhe ver-se como um outro o veria. Isto foi o suficiente para que a sua “alma” readquirisse contornos nítidos:

Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir... (MACHADO DE ASSIS, 1997: 352)

O conto machadiano utiliza-se da metáfora do espelho para descrever um caso psicopatológico de identificação do ego com a persona. A máscara vai se colando de tal modo ao rosto que, ao ser “dissolvida” contra a vontade do indivíduo, este tem a sensação da quase “dissolução” do próprio rosto.

A máscara tornara-se o rosto: só quando foi recolocada é que Jacobina viu a sua imagem retornar nítida ao espelho. O ego está tão distanciado do self quanto identificado à persona. É como se a “alma” de Jacobina só emitisse um reflexo exterior (ego/persona), mostrado nítido no espelho quando da recolocação da máscara. Na inexistência deste tipo de reflexo (ausência da máscara), o espelho tende a nada mostrar. Essa parece ser a tradução junguiana do “esboço de uma nova teoria da alma humana”, o subtítulo que Machado dá ao conto.

A identificação do ego com a persona é uma psicopatologia humana e universal, cujas características esperamos ter reconhecido e explicitado. Contudo, é possível também reconhecer suas características particulares, próprias à cultura do indivíduo em questão. Procuraremos explicitar em seguida, no caso do conto, as características culturais brasileiras desta psicopatologia, completando o estudo com os conceitos de sombra e anima.

 

6. A alma Brasileira n’ O Espelho machadiano

Principiemos por notar um importante detalhe na descrição narrativa do espelho onde se mira Jacobina: “Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI.” (MACHADO DE ASSIS, 1997: 347). Machado de Assis define o espelho onde se mira Jacobina como sendo europeu. Seu reflexo, sua persona são dados pela Europa. Como alferes, porta-bandeira, da guarda nacional, Jacobina representa o próprio Brasil a espelhar-se numa persona que não lhe é própria. Nas palavras de Walter Boechat, psiquiatra e analista junguiano:

A monumental persona étnica brasileira começou a ser elaborada desde a época que D. João VI chegou ao Brasil fugindo de Napoleão. Nossas roupas são de estilo europeu, nossa arquitetura também raramente leva em conta o calor tropical e úmido. (BOECHAT,

O espelho oitocentista machadiano reflete a imagem do brasileiro europeizado, seduzido pela persona do civilizado liberal e reprimindo a sombra primitiva do escravocrata. Se o ego identifica-se patologicamente à persona, não confronta a sua sombra, não desenvolve uma anima que o guie ao self. Este parece ser o caso de Jacobina e do Brasil. Essa psicopatologia é comum quando há fragilização do ego. De fato, Jacobina demonstra ter um ego fragilizado: aos 25 anos, ao se tornar alferes, se deixa seduzir pela “paparicação” da família, sobretudo da mãe e da tia que irão definir sua nova identidade egóica:

Minha mãe ficou tão orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes... tia Marcolina... abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes... E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. (MACHADO DE ASSIS, 1997: 347).

O feminino no conto, a anima, representada pela mãe e pela tia, antes guiam o ego de Jacobina à identificação com a persona. Como não retira a máscara, Jacobina não confronta o seu rosto sombrio. Projeta-o, sobretudo nos escravos fugidos:

Ah! Pérfidos! Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados... Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém... (MACHADO DE ASSIS, 1997: 349)

Como afirma Boechat: “a cor negra está arquetipicamente associada à sombra, e isto tem um importante papel na interação interétnica no Brasil.” (BOECHAT, http//:www.ajb.org.br/jung-rj/artigos/povos.htm). No Brasil oitocentista, os brancos ou mestiços livres projetam a sua sombra nos negros escravos. O outro racial é o receptáculo para as projeções sombrias de uma injusta sociedade escravocrata: são os “pérfidos”, “velhacos” e “malvados”, aqueles a serem marginalizados, enquanto que o branco europeu é o receptáculo da persona, aquele a ser imitado. Como sublinha Gambini, no processo de colonização, o colonizado acaba por imitar o colonizador:

O nó da dificuldade está na falta de uma consciência clara sobre o próprio valor... vivemos um processo de séculos buscando ideais e valores de outras culturas... Um dos problemas da colonização é que o colonizado acaba mimetizando o colonizador, vivendo numa espécie de hipnose na relação com o outro. Como se houvesse sido inoculado um germe do colonizador dentro da psique do dominado, uma espécie de inoculação psíquica que contamina sua mente e o impede de olhar para si mesmo. Passam-se os anos, os séculos, e aquele vírus continua lá, não permitindo, por exemplo, que nos posicionemos diante dos grandes temas do planeta, com voz própria e uma postura diferenciada perante os outros países. (DIAS & GAMBINI, 1999: 196-197).

O colonizado, ao se olhar no espelho, quer ver a imagem do colonizador e não a si mesmo. Gambini, ao colocar a “alma” brasileira no divã, narra a história de suas origens e assim define sua psicopatologia:

O espírito feminino estava muito mal colocado na civilização européia. Estava reprimido. A Inquisição e a perseguição às bruxas são a própria representação desse estado de coisas... Então, se o princípio feminino já estava reprimido lá, aqui no Novo Mundo, onde não havia pecado, dava para ser absolutamente fálico. Sem anima e com sombra. Olha como foi que nós começamos. (DIAS & GAMBINI, 1999: 34).

Não há pecado debaixo da linha do equador, decretou com autoridade o papa Paulo III no século XVI. E os portugueses, na sua aventura fálica de conquista, liberaram a sua sombra no Novo Mundo. E a sombra passou a organizar a vida das pessoas no Brasil, impedindo o desenvolvimento do ego, que permaneceu imaturo. Nas palavras de Gambini:

Quando a sombra está organizando a vida de uma pessoa, há uma repressão das boas qualidades do ego, que são o quê? Saber lidar com a regra, com a lei, com a ética, com o justo e o injusto, com o legítimo e o não-legítimo, com o pode, não pode. Ela então vai aprendendo que nem todos os desejos podem ser satisfeitos, que não pode ter tudo, que é preciso respeitar os outros, que é necessário dividir. Mas quem aprende? É o ego que aprende tendo um diálogo com a sombra... uma atrofia do lado construtivo do ego... gerou um ego absolutamente imaturo. (DIAS & GAMBINI, 1999: 54-55 ).

Jacobina parece representar o Brasil, que em sua imaturidade egóica, não confronta a sua sombra e identifica-se com a sua persona. É importante notar que o episódio narrado se passa quando Jacobina tem a idade de 25 anos. Somos informados que chegará aos cinqüenta anos como um capitalista bem sucedido e inteligente, capaz inclusive de teorizar sobre as duas almas do homem. É ele quem expõe a teoria no conto:

A alma exterior não é sempre a mesma... muda de natureza e de estado... conheço uma senhora que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petropólis... Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. (MACHADO DE ASSIS, 1997: 346-347).

Em suma, um indivíduo que se conscientizou a respeito da persona como máscara retirável, que conquistou inclusive sucesso na sua vida social e que parece, portanto, ter desenvolvido ego e persona. Talvez possamos compreender a sua trajetória, desde os 25 anos, como a de alguém que eventualmente conseguiu desidentificar o ego da persona, desenvolvendo a ambos - e a sua teoria - e foi somente até onde Machado de Assis nos conduziu no seu conto. Se aceitarmos que Jacobina representa o Brasil, talvez o escritor esteja a sugerir um futuro otimista para os brasileiros: a possibilidade da desidentificação do ego do colonizado em relação à persona do colonizador.

 

7. O Bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois.
Roberto Schwarz

É nossa esperança que este trabalho tenha conseguido, de fato, estabelecer a interdisciplinaridade entre os campos de estudos literários e junguianos. Já é relativamente considerável a bibliografia sobre Literatura e Psicanálise Freudiana, mas o mesmo não se pode dizer a respeito de Literatura e Psicologia Junguiana. No que diz respeito a obras psicológicas, é bem verdade que foi o próprio Jung quem, de certo modo, desencorajou o seu estudo, preferindo antes estudar as obras visionárias. Contudo, também foi o próprio Jung quem nos ensinou a desconfiar de unilateralidades. Esperamos ter demonstrado que um tema dos mais recorrentes na obra machadiana, o mascaramento social, se oferece como muito apropriado para ser lido à luz dos conceitos junguianos e que a Psicologia de Jung tem a contribuir, e muito, para a leitura de um autor psicológico como o “bruxo” Machado de Assis. Em suma, esperamos que este trabalho venha a representar, de fato, uma contribuição para o estabelecimento de relações produtivas entre Literatura e Psicologia Junguiana.

 

REFERÊNCIAS:

BOECHAT, Walter. Diferenças Étnicas e as Barreiras entre os Povos. In: http://www.ajb.org.br/jung-rj/artigos/povos.htm

GAMBINI, Roberto e DIAS, Lucy. Outros 500: uma conversa sobre a alma brasileira. São Paulo: SENAC São Paulo, 1999.

__________Espelho Índio: a formação da alma brasileira. São Paulo: Axis Mundi: Terceiro Nome, 2000.

JUNG, Carl Gustav. O Espírito na Arte e na Ciência. (Obras Completas, vol. XV). Petrópolis: Vozes, 1985.

__________ O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

MACHADO DE ASSIS, J. M. (1997) Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, 3 vols.

SCHWARZ, Roberto. Mesa-Redonda. In: BOSI, Alfredo (org.) Machado de Assis: Antologia e Estudos. São Paulo: Ática, 1982.

SILVEIRA, Nise da. Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

 

© Teresinha V. Zimbrão da Silva 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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