Os arquivos de Murilo Mendes: biblioteca e filioteca

André Luiz de Freitas Dias        Frederico Spada Silva        Profa. Dra. Jovita Maria Gerheim Noronha

andrecapile@gmail.com                        fredspada@gmail.com                              jovitq@yahoo.fr
                                                                                                                 Universidade Federal de Juiz de Fora
                                                                                                                     Minas Gerais, Brasil.


 

   
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Resumen: Em nosso artigo, tomaremos a noção de arquivo em dois sentidos: coleção concreta e coleção imaginária. O artigo terá por objeto, de um lado, a biblioteca pessoal do poeta Murilo Mendes (1901-1975), que se encontra no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (MAM), em Juiz de Fora (MG), e, de outro, uma das obras do poeta, Retratos-relâmpago (1973), que constitui um inventário de autores caros a Murilo.
O Museu de Arte Moderna Murilo Mendes abriga parte considerável da coleção de quadros do poeta e de sua biblioteca pessoal. Ali estão livros em francês, espanhol e italiano, e também primeiras edições autografadas por escritores com quem Murilo criou laços de amizade ao longo de suas viagens. O interesse nesses volumes provém também das marcas de leitura ali deixadas pelo poeta mineiro: frases sublinhadas e notas de margem que revelam suas preferências, suas impressões, suas paixões, seu agudo espírito crítico. A pesquisa e o exame de tais marcas, conjugados ao estudo das obras do poeta, permitem compreender como esse intelectual periférico se apropriou, de maneira criativa, da tradição moderna européia.
   Em Retratos-relâmpago, Murilo parece criar, a partir de retratos de vários artistas, um outro tipo de biblioteca que permite compreender o processo intelectual e de formação de sua prática poética. Trata-se de uma tradição pessoal influenciada intimamente por seus afetos e por suas afecções, entendendo-se “afecção”, neste contexto, como uma alteração das faculdades receptivas: um modo próprio de receber e de transformar impressões - aquelas de um Murilo-leitor. Eis o ponto de partida para a montagem de uma biblioteca particular, construída como uma coleção de afetos, a que chamaremos filioteca.
Palavras-chave: Murilo Mendes; arquivo; afecção; filioteca

Résumé: Dans notre étude, la notion d´archives sera prise dans deux sens: collection concrète et collection imaginaire. L´article portera, d´une part sur la bibliothèque personnelle du poète brésilien Murilo Mendes (1901-1975), qui se trouve au Musée d´Art Moderne Murilo Mendes (MAM), à Juiz de Fora, Brésil, et, d´autre part, sur une des œuvres du poète, Retratos-Relâmpago (Portraits-éclair) qui constitue un inventaire des auteurs chers à ce poète brésilien.
  Le Musée d´Art Moderne Murilo Mendes abrite une partie considérable de la collection de tableaux du poète et de sa bibliothèque personnelle. Toutes les œuvres en français, espagnol et italien y figurent. On y trouve des premières éditions signées par des écrivains avec qui Murilo s´est lié d´amitié au long de ses voyages. L´intérêt de ces volumes provient aussi des marques de lectures que Murilo y a laissées: phrases soulignées et notes de marge révèlent ses préférences, ses impressions, ses passions, son aigu esprit critique. Le repérage et l´examen de ces marques conjugués à l´étude des œuvres du poète, permet de comprendre comment cet intellectuel périphérique s´est approprié de manière inventive la tradition moderne européenne.
  Dans Retratos-Relâmpago,, Murilo semble créer, à partir des portraits de plusieurs artistes, un autre type de bibliothèque qui permet de comprendre les processus d´intellection et de formation de sa pratique poétique. Il s´agit d´une tradition personnelle influencée intimement par ses affects et ses affections. Le mot “affection”, dans ce contexte, doit être compris comme une altération des facultés réceptives: un moyen propre de recevoir et de transformer des impressions - celles de Murilo-lecteur. Voilà le point de départ du montage d´une bibliothèque particulière, construite comme une collection d´affects, que nous appelerons philiothèque.
Mots-clé : Murilo Mendes ; archive ; affection ; philiothèque

 

Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito.
(Microdefinição do autor [B]. Mendes, 1994:46)

Assim inicia Murilo Mendes seu auto-retrato, sem dúvida uma definição perfeita deste poeta viajante e colecionador, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1901. Nos anos 1920, Murilo se instala no Rio de Janeiro, onde toma conhecimento do Surrealismo e se aproxima da poesia modernista brasileira.

A partir de 1957, instala-se definitivamente na Itália, onde se torna professor de Literatura Brasileira na Universidade de Roma. Com sua mulher, a também poeta Maria da Saudade Cortesão, recebe escritores, artistas, cineastas e intelectuais em seu apartamento da Via Del Consulato. Muitos deles serão evocados por Murilo em seus Retratos-relâmpago.

Em 1975, o poeta falece em seu apartamento, em Lisboa. Deixou mais de vinte livros publicados em português, italiano e francês, bem como uma vasta biblioteca e uma importante coleção de arte, “coleção preciosa, nascida toda da amizade e do convívio” (Picchio, in Mendes, 1994:29) com grandes artistas brasileiros e europeus. Uma parte desses arquivos - livros e obras de arte - encontra-se atualmente no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (MAM), criado pela Universidade Federal de Juiz de Fora para abrigá-la.

Em nosso estudo, tomaremos a noção de arquivo em dois sentidos: coleção concreta e coleção imaginária. Começaremos pela evocação desta biblioteca privada tornada pública, nascida da acumulação de obras ao longo de toda a vida deste ilustre leitor e na qual se deixam transparecer suas preferências. Tal biblioteca se constitui de obras em francês, espanhol e italiano - as em português foram legadas à Universidade de Roma. Além de sua riqueza, da presença de volumes raros e de dedicatórias de grandes artistas e escritores com os quais Murilo tinha relações de amizade, o interesse desses arquivos reside nas marcas de leitura do poeta: frases sublinhadas e notas de margem relevam suas escolhas, suas impressões, suas paixões, seu agudo espírito crítico. A pesquisa e o exame de tais marcas, conjugados ao estudo dos textos do poeta, permitem compreender - o que será explicado em momento propício - como esse intelectual brasileiro se apropriou de maneira inventiva da tradição moderna européia.

 

Sob o pó das estantes repousa a memória: o museu folheia a biblioteca real

Depois de mim - vibrarão outros gritos terríveis diante dos limites do homem.
(Depois de mim. Mendes, 1994:763)

No ano de 1977, dois anos após a morte de Murilo Mendes, a Universidade Federal de Juiz de Fora recebeu a biblioteca do poeta, composta de mais de 2.800 volumes das mais diversas áreas (literatura, artes plásticas, música e filosofia), pelas mãos de sua viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes, fazendo cumprir o testamento do poeta, que destinara seu acervo pessoal à instituição. O acervo de artes plásticas do escritor, proveniente da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, só em 1994 veio para Juiz de Fora, por interferência do governo brasileiro, constituindo, então, o Centro de Estudos Murilo Mendes (CEMM), abrigado na casa onde Murilo Mendes nascera e passara a infância e parte da adolescência.

O episódio da vinda do acervo de artes plásticas é envolvido por peculiaridades dos mais variados gêneros. Foi gerada grande celeuma em torno da impossibilidade de a instituição hospedar adequadamente as obras, tais como esbarros políticos entre prefeituras e outros museus, além de entraves burocráticos, resultantes de uma complicada operação de apropriação. Como se conjunções astrais possibilitassem o irrevogável direito de curadoria à Universidade, surge uma feliz coincidência providencial: o então presidente da República, senhor Itamar Franco, era juiz-forano, conterrâneo de Murilo Mendes. Mais uma vez, ao anedotário mítico do poeta - enfant terrible por excelência - foi agregada mais uma história.

Em 2005, transformou-se no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, localizado no prédio da antiga Reitoria da UFJF, de concepção arquitetônica modernista. Além da biblioteca de origem, outras três compõem o Centro de Estudos Literários, totalizando cerca de 10 mil volumes entre edições princeps, obras raras, manuscritos e documentos originais. A coleção de artes plásticas de Murilo Mendes reúne cerca de 300 obras de arte, configurando a principal coleção de arte moderna de Minas Gerais, com obras de artistas nacionais e internacionais.

Dos acervos de livros cuidados pelo MAM, encontramos o Acervo Murilo Mendes, constituído por 2864 títulos, uma biblioteca de obras raras em razão das características únicas de seus livros: há ali edições de tiragem reduzida, edições especiais enriquecidas com ilustrações originais, edições princeps (originais da primeira edição das obras), dedicatórias de figuras ilustres ao poeta e, sobretudo, anotações feitas por Murilo Mendes que constituem documentação significativa para o estudo de sua obra; Acervo Artur Arcuri, formado por 2010 livros doados pelo engenheiro autor do projeto arquitetônico do campus da UFJF e ex-professor de História da Arte; Acervo Guima, formado por 3790 livros doados pela família do escritor e artista plástico João Guimarães Vieira, com obras nas áreas de história, filosofia, religião, literatura, história da arte e estética; Acervo Poliedro, constituído de livros e catálogos de arte doados por museus e instituições culturais do país e do exterior, além de títulos e publicações relacionadas com o acervo do Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, tais como dissertações de mestrado e teses de doutorado, ensaios e outras obras de referência.

Margarida Salomão, ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora, em um dos últimos atos como reitora, em forma de resolução de número 16/2006, inclui no regimento do MAM as principais finalidades do projeto:

Art. 2º - O Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (MAM) tem como finalidade o desenvolvimento da cultura e do ensino, devendo, além de outras atividades:

I) proceder a pesquisas e estudos sistemáticos da obra de Murilo Mendes, de sua crítica e sua interpretação;

II) promover estudos científicos, artísticos e literários, divulgando os resultados obtidos;

III) promover intercâmbio com instituições nacionais e estrangeiras no âmbito de sua finalidade;

IV) promover exposições abertas ao público das obras que compõem seu acervo de artes plásticas e de outras coleções que puder adquirir e/ou exibir;

V) preservar, organizar e divulgar seu acervo, colocando-o a serviço da atividade de pesquisa e da coletividade;

VI) outras atividades afins, assim reconhecidas pelo Conselho de Curadores. (Conselho Superior, 2006)

A abertura ao público, seja acadêmico, seja da cidade, apresenta uma característica importante na curadoria praticada pela instituição, como indicado pela resolução: trata-se de uma prática de acesso e inclusão, que indica a vontade de se criar, para os pesquisadores de arquivo, o acesso com menores restrições à documentação de que precisam. Embora haja abertura, o tratamento arquivístico dos documentos é coordenado pela técnica, pela política, pela ética e pelo direito, no sentido que dá Derrida em Mal de Arquivo (2001). O arquivo é memória, e esta, por sua vez, é um estado potencial tanto para informação quanto para formação e, como tal, pode alterar a realidade do arquivo e dominar o presente. É possível pensar a memória como arquivo quando se pretende determiná-lo enquanto monumentalidade; e tal monumentalidade é ampliada quando a memória é dotada de poder institucional, no caso em questão, um museu.

 

Abrir o livro com o olhar armado: a constituição de uma biblioteca imaginária, Murilo Mendes e suas filiações

Meu arquivo é o mundo.
(Genealogia. Mendes, 1994:761)

Percorrendo a obra de Murilo Mendes, notamos a pouca relação do poeta com a palavra “biblioteca”. Pouca relação, seja dito, no seu sentido restrito. A biblioteca não se afigura como imagem corrente nem em sua poesia, nem em sua prosa. Não há um sentido apaixonado pelo termo, em seu sentido restrito, aceptivo, dicionarizado. Mas quando consideramos a palavra em seu termo etimológico, é ampliado seu aspecto, é revelado um novo matiz, criando uma nova condição de colecionador.

Para esse poeta, colecionar parece ter o sentido de estabelecer laços e conexões, formando uma espécie de rede feita de dados culturais, artísticos, mas também pessoais e afetivos, que ajudam o estudioso a compreender melhor sua personalidade artística. (Pereira, M., 2002:13)

O termo é mencionado, de forma explícita no conjunto poético, em apenas um poema - “Parábola”, do livro homônimo, escrito entre 1946-1952 -, em que, mesmo anunciada, consta apenas como enumeração de elementos: “A rua, o rolar de remota carruagem; / Intacto o piano, exausta a biblioteca”.

Na prosa, as citações aparecem em número maior, ainda que de modo tímido. São quatro no total, espalhadas em livros esparsos.

Em A Idade do Serrote, no texto em que homenageia Belmiro Braga, figura ilustre da vida cultural da Juiz de Fora da Belle-Époque, vislumbramos as relações de afeto, já constituintes da personalidade do poeta. Belmiro Braga, também poeta e amigo do pai de Murilo, é tratado com carinho, como sendo “padrinho de batismo literário”. Embora “sua linguagem de trovador menor” já não o tocasse - Murilo admite não ter lido mais um só verso do “padrinho”, uma vez transposta a adolescência - Braga mantém uma posição interessante e privilegiada na iniciação do menino:

(...) tendo eu sete anos voluntariamente me ensina a rimar e metrificar, mais tarde me abre a caverna da sua biblioteca onde durante mil e uma tardes descubro Bocage, Antônio Nobre, Cesário Verde, Camilo Fialho de Almeida, Eça de Queirós (...) (Mendes, 1994:910)

É nesse rito de iniciação que Murilo descobre, além dos autores citados, Castro Alves e se liberta dos manuais escolares de leitura de poesias. Percebe-se a importância do encontro com Braga em sua formação no número alegórico das tardes passadas na companhia dos livros, numa caverna que nos remete a Platão, onde encontra o ideal, não só no inteligível, mas no legível das tessituras - caverna que nos remete, ainda, à imaginação infantil, à profusão dos volumes que a criança vê e valoriza como tesouros escondidos.

Outra biblioteca que Murilo visita no momento de sua formação é a do Professor Aguiar, que leciona filosofia, e também é contemplado em A Idade do Serrote. Dessa vez é o espanto da criança diante da organização rigorosa dos volumes que dita o tom da passagem:

Surpreendi-me a primeira vez ao constatar que a casa do professor é ordenadíssima, uma livraria com o apêndice de três pessoas no fundo, os livros são fichados e bem arrumados nas estantes modestas; segundo Mário de Andrade, tudo limpo que nem toada de flauta. (Mendes, 1994:969)

Sua relação privilegiada com o professor, que Murilo classifica como marco importante de sua vida, foi, de fato, estabelecida e aprofundada fora da sala de aula, mais especificamente no decorrer de conversas informais, à tarde, na casa do mestre. Essas conversas terminavam sempre com um mesmo ritual: Aguiar encorajava seu discípulo a não perder nada daquilo que havia visto e aprendido, a cultivar a memória, o que o professor considerava como um arquivamento, pois nas gavetas da memória são arquivados os fatos do mundo. Igualmente, outras chaves do arsenal de composição poética de Murilo são fruto daqueles encontros, a saber, a poesia como tentativa de explicação e de compreensão do mundo e das coisas, o que o poeta chamaria, por exemplo, mais tarde, de “liaisons dangereuses entre poesia e filosofia, poesia e ciência” (Mendes, 1994:970 [grifos do autor]).

A imagem da coleção de livros aparecerá, enfim, em duas outras obras murilianas, ligada a uma figura em cuja obra é recorrente a imagem do paraíso representado sob a forma de biblioteca: Jorge Luís Borges Em Carta Geográfica, Murilo alude a tal metáfora afirmando que a “subscreveria desde o início da [sua] adolescência.” (Mendes, 1994:1103). A imagem ressurge, em Retratos-Relâmpago, quando, para falar de Borges, O poeta brasileiro imagina tê-lo encontrado na biblioteca do imperador da Babilônia.

Se as referências ao termo são raras, isso não significaria de fato prova de indiferença, pois a imagem da biblioteca prefigura não apenas a personagem do leitor-colecionador insaciável, mas, sobretudo, um dos mais importantes procedimentos de criação de Murilo, já que, curiosamente, uma grande parte de sua obra se constrói como uma biblioteca particular, uma biblioteca imaginária formada por seus afetos.

A prosa muriliana, de feição memorialística, configura-se como uma coleção de escritores e situações cuja seleção/escolha chama nossa atenção para a presença do “olhar armado” - do poeta que reúne e organiza sua biblioteca pessoal. A composição da obra faz entrever o que motivou a leitura, sugere o gesto da mão que retira os volumes das estantes, abre-os, sublinha-os, deixa marcas em suas páginas, recorta-lhes simbolicamente os fragmentos e se apropria deles, numa construção porosa de uma prosa feita de citações e de colagens.

Essa operação mental se revela de forma emblemática em Retratos-Relâmpago, obra em prosa na qual Murilo põe em cena um elenco artístico de variados gêneros - especificamente escritores, artistas plásticos e músicos - e comenta criativamente perfis e obras. O livro é disposto por seções, constituindo uma espécie de museologia crítica. O Setor 1, inteiramente dedicado a escritores, abre-se com o retrato de Homero - sem dúvida o fundador da consciência ocidental das narrativas de fundação - e se fecha com o retrato de René Char. O Setor 2 abriga pintores e escultores, e o Setor 3, os músicos. Esses três setores formam uma primeira série, composta entre os anos de 1965-1966, à qual se acrescentará uma outra, escrita em Roma, entre 1973-1974, e publicada após a morte do poeta. A Série 2 parece seguir o mesmo percurso da anterior, sem, contudo, ordenar-se em setores, apresentando uma organização mais difusa, menos estruturada, como se tivesse permanecido inacabada. Tal falta de rigor é, de fato, um elemento metafórico de um primeiro instante do arquivamento. Essa Série representaria o gesto primeiro do colecionador: escolher e reunir os volumes, incorporá-los, sem ordem nem fichamento, a essa biblioteca simbólica.

Murilo não visita essa biblioteca como um leitor comum, cujo olhar desarmado, desatento, busca ao acaso e distraidamente um volume entre os demais, mas vai antes criá-la esteticamente, como se abrisse os volumes que a constituem. Um exemplo significativo desse aspecto crítico dos retratos, dessa intimidade imaginária, dessa colagem é o retrato de Victor Hugo:

Foi de fato avô pra mim; eu, neto pródigo. Passamos a vida a litigar. Em breve ele começou a ter ciúmes de Baudelaire, que segundo sua própria definição criara um frisson nouveau; imaginem o que não seria com Aquele das Illuminations, isto é, Shakespeare enfant. Mas no dia da sua morte prendi no braço esquerdo, não a fita tricolor, e sim o luto do céu parisiense. Eu ainda não nascera; que importa.

Oh! quel farouche bruit font dans le crépuscule

Les chênes qu’on abat pour le bûcher d’Hercule!

Através dos anos pingavam sobre minha mesa os textos das suas poesias póstumas. (Mendes, 1994:1209 [grifos do autor])

A relação com a literatura e com os grandes autores constitui o eixo de compreensão do livro. O poeta se reinventa, criando parentescos imaginários com seus antepassados, repaginando os sentidos de sua formação, pela irreverência. Ele elabora um modo crítico de leitura, construindo seus textos a partir do substrato da tradição, de que se apropria e que remodela e transforma.

Com seus contemporâneos, ao contrário, podemos enumerar os laços de afeição literária que se combinam com as relações interpessoais reais, concretas - confirmadas pelas numerosas dedicatórias em volumes de sua biblioteca. Assim, o primeiro encontro com Henri Michaux, que esteve no Brasil entre 1933-1940, evocado em Retratos-relâmpago:

Um dia encontrei-me com ele na Livraria José Olympio. Eu trazia o canudo dos originais de As Metamorfoses, para entregar a um editor. Michaux, com grande surpresa minha, mostrou interesse em folheá-los. Disse-me que lia espanhol. Decifrou o primeiro texto, “O Emigrante”, afirmando: “C’est très beau”. Respondi-lhe que então lho dedicaria: assim fiz. Daí o oferecimento num exemplar do seu livro Peintures: “A Murilo Mendes qui d’un seul poème a emporté mon admiration et ma sympathie. H. Michaux”.

Revi-o muitas vezes, em Paris e Roma. Continuei a comer os livros do poeta, apesar do seu desprezo pela Europa. (Mendes, 1994:1227 [grifos do autor])

Podemos citar, ainda, os encontros com André Breton em Paris, entre 1952-1953, o oferecimento do exemplar de seu livro mais famoso, Nadja, com “singular dedicatória: À Murilo Mendes, sur les bandes blanches du grand tamanoir j’écris: de tout coeur son ami André Breton” (Mendes, 1994:1238). A dedicatória não nasce de mera cordialidade, antes é dada pela relação construída na troca de peculiaridades culturais. De um lado, Breton ficara curioso com episódios, homens e coisas que teriam marcado Murilo, tanto no Brasil, quanto na Europa: é o caso do tamanduá. De outro, o poeta francês passa a indicar lugares em Paris onde Murilo teria a possibilidade de encontrar o imprevisto - o acaso objetivo -, bem como a localização de cinematecas, onde passavam filmes “idiotas” dos tempos do cinema mudo. A relação com a figura artística de Breton fora sempre problemática, gerando em Murilo, alternativamente, atração e repulsa, mas a descoberta do surrealismo, diz o poeta, foi mesmo um “coup de foudre” que o fez abraçar o movimento à moda brasileira.

Todos os livros e as situações que fazem parte da vida de Murilo se encontram dessa forma reunidos, compondo seus arquivos literários, uma espécie de biblioteca imaginária que reúne em suas estantes a tradição já consolidada e a tradição recente, as personagens que ele freqüenta percorrendo suas obras e aquelas que freqüenta concretamente, criando laços de amizade que ultrapassam as fronteiras do tempo e do espaço para formar aquilo que podemos chamar de sua filioteca: “pela estratégia de colecionar amigos, contemporâneos ou não, Murilo Mendes escolhe sua própria gênese e a marca como uma filogênese” (Pereira, T., 2003:158).

Carta Geográfica se apresenta igualmente como uma coleção: cartões postais em que os itinerários escolhidos ligam sensações, planos e geografias, seguindo as vias da literatura. Os lugares são antes visitados nas linhas imaginárias da leitura, contrapondo-se a empiria das estadas à experiência real/física daqueles lugares vivida pelo poeta - e apontam para a impossibilidade de realização plena do objeto visto:

A visita à casa restaurada de grandes artistas é sempre melancólica: impossível retomar, como nas obras literárias, o fio do tempo perdido. Também falta a essas casas o sopro da figura que as animou; reduzem-se à tradução de uma tradução. (Mendes, 1994:1093)

É assim que a fratura entre o sentido literário e a realidade é desvelada pelo olho do poeta: trata-se de um modo particular de leitura, uma nova familiaridade entre o leitor e o que é lido, um pacto firmado com o livro, não mais visto como mero objeto, “mas [como] a própria transpiração do espírito dum homem” (Mendes, 1994:852). Trata-se, pois, de um universo em revelação. Mas tal decifração do literário pode ainda ser ampliada com um outro sentido: a impossibilidade do real, lido como “tradução de uma tradução”, numa alusão de leitura que deve de fato nos ler, tanto quanto ser lida. Transformada em vida, nos distanciando das implicações modernas e modorrentas às quais a literatura foi colocada,

O homem moderno fez do livro, do jornal, da revista e do cinema, cabides para sua inteligência e sensibilidade. As conseqüências deste fato são graves: cresce dia a dia o perigo dum abandono de tradições e costumes poéticos, de uma substituição da invenção livre e pessoal por sucedâneos mecânicos e estandardizados - enfim, o perigo de uma diminuição da vida. (Mendes, 1994:852)

A imagem de uma biblioteca imaginária é ainda sugerida pelo poeta como forma de construção e de conhecimento de um itinerário, na parte 7 de Carta Geográfica, intitulada Dias em Londres, quando Murilo nos diz:

O tempo é escasso para os encontros, festas maiores, que, abrindo livros, freqüentado teatros, visitando museus, alguém poderá realizar em Londres, por exemplo, com:

Com efeito, é a proposta de uma coleção de livros que serve de guia para os dias passados em Londres. Nessa biblioteca, podemos vislumbrar uma espécie de síntese do modo como Murilo se relaciona com suas leituras: são indicativos de itinerários, são traços de sua relação com a tradição literária, é um modo de reinvenção do estado de leitor. Reinvenção crítica dos espaços físicos e canônicos.

Se caminhar entre estantes de bibliotecas significa dispor o corpo - sempre interferente - entre paralelas, então o corpo caminhante age como interseção, ponto de contato entre a imaginação de galerias que sustentam volumes e o deslocamento material de uma ordem estabelecida. A seleção, a ordem e a disposição das peças de uma biblioteca conduziram uma primeira parte de nosso percurso; assumir a leitura da constituição privada dessa coleção, construída por afetos inerentes ao colecionador, e vê-la transformada em patrimônio público e histórico, guiou-nos em seguida.

Pensar a biblioteca por suas características físicas - estantes, volumes, extensão, localização - ou somente pelos produtos de exceção que ali estão elencados - obras raras, periódicos, manuscritos - é colocá-la no mesmo patamar de supermercados e suas seções de consumo, com suas prateleiras claras e produtos delimitados por e para as necessidades do consumo. O que torna atraente a biblioteca proposta por Murilo não é apenas a retomada quantitativa das obras, tampouco a raridade fetichista do acervo, mas antes saber que esses arquivos foram organizados poeticamente, por esse personagem de compleição cosmopolita, que freqüentou, em carne e espírito, algumas das principais figuras das grandes vanguardas artísticas do século XX.

Esta visão do poeta pode nos servir de fio condutor para nos guiar em nossas descobertas de seus arquivos privados, daquela caverna pessoal cujas portas, a exemplo de seus mestres, ele quis nos deixar abertas. A obra de Murilo é uma coleção aberta. O que impressiona em sua constituição é a maneira de operar do poeta colecionador: é como se ele retirasse, um a um, seus livros das estantes de madeira, para criar uma biblioteca crítica, uma enciclopédia de colagens, em que se perfilam seus afetos. Visão de mundo construída a partir do texto, texto-mundo, vida-literatura.

 

Bibliografia

Conselho Superior: Regimento do Museu de Arte Moderna Murilo Mendes,
http://www.ufjf.br/res.php?id=4231, 2006, acesso em: 25 nov. 2007.

Derrida, Jacques (2001): Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. de Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro, Relume Dumará.

Lucas, Fábio: Retrato relâmpago de Murilo Mendes, Colóquio Letras,
http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=28&p=64&o=p, n. 28, p. 64-68, nov. 1975, acesso em: 25 nov. 2007.

Mendes, Murilo (1994): Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.

Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (MAM): http//www.mam.ufjf.br, s/d, acesso em: 25 nov. 2007.

Pereira, Maria Luiza Scher (Org.) (2004): Imaginação de uma biografia literária: os acervos de Murilo Mendes. Juiz de Fora, UFJF.

Pereira, Maria Luiza Scher (2002): Tempo de Murilo - II - visita ao acervo do poeta: as obras e as margens. Ipotesi - Revista de estudos literários. Juiz de Fora: UFJF, v. 6, n. 1, p. 11-18, jan./jun. 2002.

Pereira, Terezinha Maria Scher (2002): Murilo Mendes: A poética da amizade em dois momentos. In: Pereira, Maria Luiza Scher (Org.): op. cit., p. 51-61.

Pereira, Terezinha Maria Scher (2003): Acervos de Murilo Mendes. In: Souza, Maria Eneida de; Miranda, Wander Mello (Orgs.) (2003): Arquivos Literários. São Paulo, Ateliê Editorial, p. 157-165.

Picchio, Luciana Stegagno (1994): Vida-Poesia de Murilo Mendes. In: Mendes, Murilo: op. cit., p. 23-31.

Souza, Eneida Maria de (2007): Crítica cult. Belo Horizonte, UFMG.

 

© André Luiz de Freitas, Frederico Spada Silva y Dias, 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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