Ressonâncias dos movimentos culturais negros
na poesia de Oliveira Silveira [1]

Donizeth Aparecido dos Santos

Doutorando em Letras (Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa)
Universidade de São Paulo
donizeth.santos@hotmail.com


 

   
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Resumo: Este artigo apresenta algumas considerações sobre os movimentos culturais negros surgidos a partir do Pan-africanismo, nos Estados Unidos, Haiti, Cuba e França, e a influência que eles tiveram na obra literária do poeta afro-brasileiro Oliveira Silveira.
Palavras chave: Pan-africanismo, movimentos culturais negros, Negritude, literatura negra.

Abstract: This article presents some considerations about the black cultural movements appeared from of the Pan-africanism, in the United States, Haiti, Cuba and France, and the influence that they had in the literary work of the Afro-brazilian poet Oliveira Silveira.
Key-words: Pan-africanism, black cultural movements, Negritude, black literature.

 

O Pan-africanismo foi o responsável pela quebra da mordaça imposta ao negro sufocado por séculos de escravidão e décadas de falsa liberdade. Esse movimento surgido nos Estados Unidos no final do século XIX foi o estopim de outros movimentos que surgiram nas primeiras décadas do século seguinte, espalhando a ideologia pan-africanista para além do solo norte-americano, onde quer que houvesse comunidades negras, e em especial a própria África, a terra prometida de um povo em diáspora.

Segundo Pires Laranjeira (1995), os principais nomes do movimento foram Edward Blyden, o primeiro a falar em uma personalidade africana baseada na recuperação do orgulho da raça negra; Willian E. D. Du Bois, o criador do Pan-africanismo e organizador dos cinco Congressos do movimento: Paris (1919), Londres (1921), Londres (1923), Nova York (1925) e Manchester (1945); Henry Sylvester Willian que lançou a ideia de solidariedade fraterna entre africanos e povos de ascendência africana; e George Padmore (sobrinho de Sylvester Willians), responsável pela expansão do movimento em direção à África. Embora houvesse algumas divergências ideológicas entre eles, juntos propunham, ainda de acordo com Pires Laranjeira, uma solidariedade negra para além da geografia ou da classe, adotando o reconhecimento da identidade negra na sua realização nacional, integrada e assimilada à nação, e solidária com os africanos ou a restante diáspora fora da África, em oposição ao Pan-africanismo de caráter racista, megalomaníaco e demagogo, defendido pelo jamaicano Marcus Garvey, que propunha um utópico retorno de todos os negros norte-americanos à África.

Essa vertente do Pan-africanismo revelou ao mundo uma nova maneira de ser negro, resgatando o orgulho da identidade negra, revalorizando suas tradições e sua participação na história:

É, hoje, tido como assente que o Pan-africanismo influenciou todos os grupos e movimentos da sociedade, da política e da cultura dos negros africanos e extra-afriacanos no sentido de uma identificação com sua comunidade racial e, muitas vezes, com um sentimento e uma prática de solidariedade e fraternidade universal. (Laranjeira, 1995:51)

O primeiro desses movimentos surgiu no próprio solo norte-americano no começo da década de 20, e ficou mundialmente conhecido pelos nomes de Black Renaissance, Harlem Renaissance, New Negro, ou simplesmente Renascimento Negro Norte-americano. Formado principalmente por intelectuais e artistas, esse movimento reivindicou em alto e bom tom o lugar do negro na sociedade norte-americana, que, como sabemos, foi (e ainda é) uma das sociedades mais segregacionistas do mundo, onde, além do indivíduo de cor negra não ser reconhecido como elemento de fundamental importância no processo histórico de construção social e nacional, ainda era cerceado em seus direitos essenciais de cidadão norte-americano, não usufruindo dos mesmos direitos dispensados aos seus compatriotas de pele clara e sem manchas de sangue negro em sua árvore genealógica, tendo assim que se enquadrar numa ordem social em que havia escolas, restaurantes e igrejas de um tipo para os brancos e de outro para os negros. Essa divisão social determinada pela origem racial colaborava para a manutenção da antiga relação entre o senhor (branco) e o servo (negro).

É contra essa ordem histórico-social que os integrantes desse movimento se insurgiram. Segundo Zilá Bernd, no Harlem ( bairro negro de Nova York ) dos anos 20, havia uma população estimada em 300 mil negros que não tinha deixado morrer formas artísticas herdadas de sua ancestralidade africana:

o Negro Renaissance, ou Renascimento Negro, que, como o nome indica, pretendia fazer reviver a autoconsciência do negro americano, propondo não uma utópica volta à África, mas uma redefinição do papel do negro em solo norte-americano. Entre os articuladores do movimento estão hoje os muito lidos e traduzidos escritores norte-americanos Langston Hughes, Claude Mackay e Richard Wright, entre outros, que passaram a fazer da denúncia da situação de discriminação e de opressão econômica de que eram vítimas sua temática obsessional. (Bernd, 1988a:23)

A literatura dos escritores do Renascimento Negro, principalmente a do poeta Langston Hughes, percorreu todo o mundo negro, estimulando a eclosão de outros movimentos similares na América (Indigenismo Haitiano e Negrismo Cubano) e Europa (Negritude), enquanto que a música negra norte-americana do período, que contava com os cantores Marian Anderson, Paul Robeson e Josephine Baker entre os seus integrantes, saia do seu reduto e conquistava outros espaços, principalmente a Europa, possibilitando aos negros de outras partes do mundo de se sentirem orgulhosos ao verem pessoas da sua raça vencendo as barreiras impostas pelo racismo, e assim consolidando o sentimento de solidariedade entre todos os negros, algo que seria uma das maiores recorrências da literatura negra, como nos exemplifica o poeta (e depois presidente) angolano Agostinho Neto:

Quando a música negra americana invadiu os salões da Europa, os negros de todo o mundo sentiram com os seus irmãos americanos a alegria de poderem ser ouvidos, mesmo através do trompete. Os murros de Joe Louis foram aplaudidos em todo o mundo negro. Porém, mais importante do que estes factos é o sentimento de solidariedade e de comunidade que existe entre os negros de todo o mundo. Este mundo disperso pelas Américas, Europa e África, formado fora e dentro de África por indivíduos desenraizados dos seus povos e das suas culturas, mestiços culturais portanto, vivendo marginalmente na civilização européia, descobriu-se a si próprio. (Neto, 2000:16)

O Renascimento Negro Norte-americano, juntamente com os movimentos culturais que vieram depois, tendo como matérias-primas a exaltação e o orgulho da raça, a fidelidade à origem africana e a solidariedade, construíram pontes que tornaram possível o trânsito cultural e a partilha de informações e experiências entre esse mundo disperso pelas Américas, Europa e África, referido por Neto.

O primeiro eco ao Pan-africanismo e ao Renascimento Negro veio do Haiti, um pequeno país formado pela metade de uma ilha no Caribe (a outra metade é a República Dominicana) e que possui uma população de maioria negra, devido à população nativa indígena ter sido totalmente exterminada pelos colonizadores e substituída por negros africanos.

O Indigenismo Haitiano surgiu em 1927 em torno da revista La Revue Indigène, que editou seis números até 1928, e tinha por objetivo a reconstrução da imagem do negro, incutindo nos haitianos o sentimento de orgulho da raça que permitisse reaver os valores da herança africana (Laranjeria, 1995:33), pregando, assim, o retorno à cultura autóctone e popular, através da valorização dos falares crioulos e da religião vodu (Bernd, 1988:26-27). Ao contrário dos outros movimentos que tiveram suas ideias propagadas, principalmente, pela poesia, no Indigenismo Haitiano a prosa foi o gênero literário predominante.

Outro movimento caribenho que também se tornou um dos grandes e importantes elos dessa corrente pan-africanista foi o Negrismo Cubano, cuja característica principal, segundo Pires Laranjeira (1995:36), consistia no trabalho poético a partir da linguagem e das culturas crioulas (musical e folclórica), populares, mestiças e nacionais. Segundo Zilá Bernd (1987:52), para a minoria cubana negra (ao contrário do Haiti em que a maioria da população era negra), ser cubano autêntico era “reivindicar sua parte de cultura negra, o elemento fundamental que o distinguia do europeu”. O grande nome do Negrismo Cubano foi o poeta Nicolás Guillén, que além de ser o iniciador do movimento ao publicar Motivos de son em 1930, obra que revolucionou a poesia cubana, “afastando-a em definitivo da subserviência em relação aos modelos europeus” (Laranjeira, 1995:37), também teve uma repercussão de sua obra pelo mundo negro comparável a do norte-americano Langston Hughes.

Por fim, temos a Negritude, o último e o mais difundido dos movimentos negros, pois, após o seu surgimento em Paris na década de 30, o termo “negritude”, que foi utilizado pela primeira vez pelo poeta Aimé Césaire, passou a designar todos os movimentos negros, inclusive os anteriores. Zilá Bernd (1988a), diferenciando a Negritude, substantivo próprio que dá nome ao movimento, e negritude, substantivo comum que significa uma reação negra frente a uma situação de domínio sócio-político-cultural, conclui que esta última sempre existiu desde os primeiros levantes negros no Brasil e no Caribe.

A Negritude como movimento surgiu em Paris nos anos 30, por volta de 1934, sob a liderança de três estudantes negros oriundos de colônias francesas: Aimé Césaire da Martinica, Leon Damas da Guiana e Leopold Sedar Senghor do Senegal, que, enriquecidos pela herança recebida dos movimentos norte-americanos e caribenhos, conceberam o movimento que foi o ápice do grito negro da revolta contra a discriminação racial, a assimilação cultural e o colonialismo, que naquele momento histórico afetava os negros de todo o mundo. Benedita Damasceno define a criação do movimento como

uma forma de recusa à pura assimilação da cultura européia por parte de intelectuais negros africanos, antilhanos, e outros, em detrimento de sua própria identidade cultural, e como uma tentativa de retorno às tradições e valores primordiais da raça negra; era uma tentativa de corrigir as distorções observadas pelos intelectuais africanos e neo-africanos entre a cultura que lhes era imposta e a sua própria realidade circundante e impedir a desagregação de sua unidade cultural. (1988:12)

Zilá Bernd (1988a:17) observa que a Negritude foi definida por um de seus mentores, o poeta Aimé Césaire, “como uma revolução na linguagem e na literatura que permitiria reverter o sentido pejorativo da palavra negro para dele extrair um sentido positivo”. A autora lembra que a palavra negritude em francês possui “uma força de expressividade e mesmo de agressividade que se perde em português, por derivar de nègre, termo pejorativo, usado para o negro, uma vez que existe a palavra noir”, acrescentando que a ideia dos poetas negritudinistas “foi justamente assumir a denominação negativamente conotada para reverter-lhe o sentido, permitindo assim que a partir de então as comunidades negras passassem a ostentá-lo com orgulho e não mais com vergonha ou revolta”.

Os três fundadores da Negritude no princípio se utilizaram do jornal L’ Etudiant Noir para propagação e difusão de suas ideias, e depois suas obras literárias consolidadas falaram por si, espalhando pelos quatro cantos do mundo essa nova maneira de ser negro, através do resgate da identidade negra (ou da origem africana), do protesto contra a ordem colonial europeia, da luta pela libertação dos povos negros oprimidos e do apelo para uma revisão das relações entre os povos, visando a construção de uma civilização do universal, resultado do encontro e união de todas as civilizações (Munanga, 1986:.43-44 . Após alguns desvios de percurso em relação aos objetivos iniciais e divergências ideológicas entre Césaire e Senghor, o movimento, minado por inúmeras críticas, entra em processo de decadência até, segundo Zilá Bernd (1987:31), ser cbondenado à morte no I Festival Cultural Pan-africano realizado em Argel em 1969.

Apesar de alguns equívocos, a Negritude como movimento poético-cultural ou político-social desempenhou um importante papel histórico, de vital importância no processo de descolonização das colônias europeias na África, levado a cabo no período pós-guerra, e também como instrumento de conscientização do negro em diáspora, através da desconstrução de estereótipos seculares atribuídos a ele, levando-o à construção de uma nova identidade e à reivindicação dos diretos a ele negados durante séculos. No entanto, se o movimento da Negritude foi dado como morto no final dos anos 60, a negritude como tomada de consciência por parte do negro está bem viva e pode ser facilmente encontrada aqui no Brasil nos poemas das últimas edições dos Cadernos negros, publicação anual custeada por poetas afro-brasileiros, ou em qualquer outra publicação de literatura que se encaixe nos moldes da Literatura Negra. Essa constatação vai ao encontro da afirmação de Benedita Damasceno de que

todos os jovens poetas negros posteriores, de qualquer língua, devem à Negritude esse legado de independência política, lingüística e espiritual já que agora podem descrever seu mundo e sua cultura em línguas européias sem necessidade de ir apregoando sua cor. Devem-lhe também a liberdade para criar poesia usando seu mundo, sua educação e seu talento, utilizando toda a herança da experiência poética mundial. (1988:34)

Um desses poetas é o gaúcho Oliveira Silveira, cuja obra composta por dez publicações, além de suas colaborações em diversas antologias e nos Cadernos Negros, contém marcas de todos esses movimentos culturais que abordamos anteriormente. A identificação dessas marcas será o nosso próximo ponto de discussão.

Oliveira Ferreira da Silveira nasceu em Rosário do Sul (RS) em 16 de agosto de 1941, é formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e exerce as atividades de professor, pesquisador e historiador. Como poeta tem dez títulos publicados: Germinou (1962), Poemas regionais (1968), Banzo: saudade negra (1970), Décima do negro peão (1974), Praça da palavra (1976), Pêlo escuro: poemas afro-gaúchos (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Poema sobre Palmares (1987), Anotações à margem (1994) e Orixás (2000). Com exceção dos dois últimos, os demais foram editados pelo próprio autor.

Em sua obra poética é possível detectar traços não só da Negritude mas de todos os movimentos negros que a precederam. O poeta gaúcho, apesar de não ter sido o primeiro no Brasil a apresentar essas influências em seus escritos [2], foi quem melhor soube tirar proveito delas e adaptá-las ao seu contexto histórico-social.

Em entrevista realizada na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, em janeiro de 2001, publicada via internet pelo site http//www.portalafro.com.br, o poeta fala sobre a sua iniciação literária, do percurso percorrido do regionalismo gaúcho até a literatura negra, da sua conscientização e do seu engajamento social. Segundo ele, a literatura surgiu em sua vida na época em que ainda morava em Rosário do Sul, sua cidade natal. A infância passada na zona rural foi marcada pela poesia popular, quadrinhas, versos de polcas entoados durante os bailes campeiros, e “causos” contados pelos mais velhos na cozinha ao redor do fogão. Coisas típicas do meio rural gaúcho. Essa oralitura que vivenciou na infância é um substrato da sua obra literária. Depois teve contato com livros e começou a escrever, publicando seu primeiro poema em 1958 num jornal de Rosário do Sul. Estimulado pelos amigos continuou a escrever poemas regionalistas, uma das características do seu estilo ainda vinculado à linguagem rural. Na medida em que se conscientizava sobre a sua condição de negro, experimentou outras tendências literárias até chegar à poesia negra. Essa conscientização chegou um pouco tarde na opinião do poeta. Começou quando entrou para a Faculdade de Letras da UFRGS, em Porto Alegre, e se deu, principalmente, graças à literatura, através de leituras de textos importantes como o Orfeu negro de Jean-Paul Sartre e poemas negritudinistas contidos na antologia de poesia negra organizada por Leopold Sedar Senghor, que, segundo ele, foram o estopim de seu despertar. A leitura desse material e o envolvimento na política estudantil ampliaram seus horizontes, levando-o a pesquisar a história do negro no Rio Grande do Sul.

A sua primeira publicação (Germinou, 1962) é permeada pelo regionalismo, mas a segunda (Poemas regionais, 1968) já contém sinais do entrelaçamento entre o regionalismo gaúcho e a poesia negra, característica que irá permanecer em grande parte de sua obra literária. O poema “Gaúcho de côr mateando”, que depois seria republicado em Pêlo escuro (1977) com o título de “Gaúcho negro mateando” e mais uma pequena alteração textual, evidencia o processo de conscientização do poeta que naquela época ainda não estava completado. Prova disso é a troca da locução adjetiva “de côr” da primeira publicação em 1968 para o adjetivo “negro” da segunda em 1977. Nesse poema, Oliveira Silveira constrói uma simbiose perfeita entre o mundo regional gaúcho e o mundo africano, utilizando-se de vocábulos comuns às duas culturas, que transformam o tecido poético numa ponte que liga os dois lados de um homem gaúcho (e brasileiro), mas também africano na origem. É o primeiro passo em direção a uma poesia de caráter pan-africanista.

GAÚCHO DE CÔR MATEANDO

Meu requeimado porongo
preto aconhego do amargo
sinto em mim quando te afago
velhas raízes do Congo.

Na palma da mão te inflamas
e propicias que eu sinta
a forma quente das mamas
de uma crioula retinta.

Bomba de prata na seiva
de coração que transborda:
luar gaúcho na relva,
quase Rio Grande na forma.

Negror de noite na treva
de longes terras de estio;
erva de verde selva
bomba de leito de rio.

São águas xucras de sanga
troncos de árvore boiando;
são ondas verdes de mar
navio negreiro singrando.

Cada gole, cada gôta
tem o sabor de dois mundos.
E vou bebendo a cicuta
De um banzo que vem do fundo.(Silveira, 1968:8)

A partir de Banzo: saudade negra (1970), o processo de conscientização se completa. Dali em diante, nessa e nas obras seguintes, podemos encontrar todas as características que permearam os movimentos negros de ideologia pan-africanista (Renascimento Negro norte americano, Indigenismo Haitiano, Negrismo Cubano e Negritude Francófona) filtradas através das leituras que o poeta afirma ter feito, e estas, por sua vez, romperam-lhe a venda nos olhos e fizeram com que enxergasse a real condição social do negro, não só no Rio Grande do Sul, mas também em todo o Brasil. A sua poética, a partir de então, passa a inserir-se no contexto da Literatura Negra, cuja principal característica que a distingue das demais, segundo Zilá Bernd (1988b), é a presença de um enunciador, um eu-que-se-quer-negro, que assume a condição negra num discurso em primeira pessoa, do singular ou do plural, tornando-se senhor do seu discurso, passando da posição de objeto, daquele de quem se fala, para de sujeito, aquele que fala.

Seguindo a linha pan-africanista do Renascimento Negro Norte-americano, que buscava o reconhecimento da identidade negra de forma integrada e assimilada à nação, Oliveira Silveira, ao mesmo tempo em que afirma com todas as letras a sua identidade negra, vai em busca do resgate do negro dentro da sociedade brasileira, representada na maioria dos poemas pela sociedade gaúcha, elaborando uma poesia sustentada por uma consciência racial, que o faz aceitar-se negro com orgulho de sua ascendência africana, e pelo regionalismo gaúcho, não negando em nenhum momento suas raízes rio-grandenses, fato que o torna herdeiro de duas culturas e o leva a reivindicar o lugar de igualdade do negro na sociedade gaúcha, que é extensivo à sociedade brasileira, também construída pelo negro, não como coadjuvante como prega a historiografia oficial, e sim como protagonista, rejeitando o termo “contribuição” e substituindo-o por “participação ativa” (Bernd, 1988b:84), através da descoberta “do seu passado, da reconstrução da sua história, do respeito ao seu patrimônio cultural, já plenamente incorporado à cultura brasileira como um dos mais importantes suportes” (Santos, 1997:38). Os poemas “Negro no sul” e “Sim: querência” expressam o exposto acima. Vejamos alguns fragmentos significativos desses dois poemas:

NEGRO NO SUL

No sul o negro charqueou
lavrou
carreteou
/... /
no sul o negro brigou
guerreou
se libertou
quer dizer: ainda se liberta
de mil disfarçadas senzalas
prisões
diabo a quatro
onde tentam mantê-lo agrilhoado. (Silveira, 1977: 4)

SIM: QUERÊNCIA

I
Sim: querência
vastidão, liberdade
e aqui me agrilhoaram.
Sim: querência
tropas ao saladeiro
e aqui me charquearam.
Sim: querência
tropas de guerra, lanças
e me puseram na linha de frente
morte como alforria.
Sim: querência
baile de branco/baile
de negro
e aqui me barram na porta.
Me barram porta de emprego.
Querência: sim
pois querer é adoçar.
Querência sim
mas com esse gosto amargo.
/../
QUERÊNCIA SIM
CADA VEZ MAIS
QUEIRAM OU NÃO. (Silveira, 1977:15)

Nas fontes caribenhas o poeta afro-brasileiro vai beber de águas não encontradas nas afro-norte-americanas. Do Indigenismo Haitiano, que entre muitas importantes contribuições foi o responsável pela desmarginalização do culto do vodu no Haiti, tira proveito dessa experiência e compõe poemas cuja temática é o resgate e a valorização das religiões de matriz africana no Brasil, marginalizadas durante séculos. O poema “No mapa” é um bom exemplo dessa preocupação em recuperá-las, libertando-as desses preconceitos seculares.

NO MAPA

Pelo litoral
ficou
de norte a sul
nagô.
Ficou no Recife:
xangô.
Na Bahia ficou:
candomblé.
No Rio Grande é o quê?
- Batuque, tchê.

Filho de santo
de bombacha,
Ogum
comendo churrasco:
jeito
gaúcho
do negro
batuque. (Silveira, 1981:17)

Do Negrismo Cubano, Oliveira Silveira vai buscar inspiração nos poemas de Nicolas Guillén para elaborar poemas cuja matéria-prima é a linguagem onomatopéica que procura reproduzir o som do tambor e outros instrumentos de origem africana, associados aos ritmos das cerimônias religiosas afros. Os poemas “Tantã” e “Batuque” nos mostram essa outra face da poesia do autor.

TANTÃ

Tantã
sinto teu som
me entrando nos ouvidos
me rachando a montanha
do peito
tantã
ecoando nas entranhas
tantã
voz vulcânica de chão
lavas de lágrimas e de emoção
tantã
lavas fundas de origem
tantã
voz do ser. ( SILVEIRA; 1981, p.1)

BATUQUE

Batuque
tuque
tuque
todo o muque
no tambor.
/.../
Esses negros loucos batendo
já com a cor de Exu-Bará nos dedos,
couro contra couro,
mas o couro do inhã é mais forte,
lá vai seu ronco de trovoada
e a terra vai rachar em fendas
- toque de Xangô.

Batuque
tuque
tuque
todo o muque
no tambor. (Silveira, 1981:16)

A Negritude é outra influência constante em sua obra. A grande maioria dos poemas escritos após 1970, data da publicação de Banzo: saudade negra, está em consonância com o conceito geral e os principais objetivos do movimento francófono. Segundo Kabengele Munanga (1986), Aimé Césaire, para quem a Negritude era simples reconhecimento do fato de ser negro, a aceitação de seu destino, de sua história e de sua cultura, um pouco mais tarde quando provavelmente o movimento já havia acabado, redefiniu-a em três palavras: identidade, fidelidade e solidariedade.

A identidade consiste em assumir plenamente, com orgulho, a condição de negro, em dizer, cabeça erguida: sou negro. A palavra foi despojada de tudo o que carregou no passado, como desprezo, transformando este último numa fonte de orgulho para o negro.

A fidelidade repousa numa ligação com a terra-mãe,cuja herança deve, custe o que custar, demandar prioridade.

A solidariedade é o sentimento que nos liga secretamente a todos os irmãos negros do mundo, que nos leva a ajudá-los e a preservar nossa identidade comum. Césaire rejeita todas as máscaras brancas que o negro usava e faziam dele uma personalidade emprestada. (1986: 44)

Esses três conceitos aparecem na maioria das vezes juntos num mesmo poema. Em muitos casos, como já expusemos num trabalho anterior [3], eles são praticamente quase inseparáveis. Mas para exemplificarmos as características negritudinistas da obra de Oliveira Silveira, escolhemos três poemas, cada um expressando um dos três conceitos definidos por Aimé Césaire.

O resgate e o orgulho da identidade negra são expressados no poema “Veio no dia claro”, em que o enunciador que se assume como negro através da metáfora em minha vida noite, contrasta a claridade da luz do dia com a cor escura da pele de sua amada, transformando a cor negra, tida como feia, triste e negativa, em bela, alegre e positiva, mudando assim o estereótipo da mulher negra:

VEIO NO DIA CLARO

Veio no dia claro
com sua pele escura.
o seu jeito de África
em minha vida noite.

Luz negra em minha vida. ( Silveira, 1970:26 )

No poema “Elo”, encontramos a fidelidade à origem africana. Nesse curto e expressivo poema, as consoantes oclusivas / t / e / d / [4], associadas às vogais nasais / û / e / ãw/ presentes nos vocábulos túmido e cordão, colocados estrategicamente um em cada extremidade do poema, final do primeiro e do último verso, reproduzem o som do tambor africano, que é o grande símbolo de ligação do afro-descendente com sua ancestralidade (Adolfo, 2000). Através desse elo, cordão umbilical=tambor africano, o enunciador mantém-se permanentemente ligado à Mãe-África.

ELO

Aqui meu umbigo túmido
receptor de seiva
neste lado do mar,
nesta longe placenta.

E África lá esta (Silveira, 1981:3)

Em “Alô”, predomina a solidariedade entre os negros de todo o mundo. Nesse poema, o tambor, que no exemplo anterior metaforizava a ligação ancestral, ressurge como símbolo de união entre os negros de todo o continente americano, e por extensão de todo o mundo, solidificando uma solidariedade pan-afro-americana. Segundo Sérgio Adolfo (2000:26), numa análise desse mesmo poema, “é através do som do tambor, instrumento que demarca a musicalidade africana, que o poeta elabora sua visão de irmandade de um povo em diáspora”.

ALÔ

Alô Guianas
Surinam
Colômbia
Todamérica
nossos tambores
de caule e couro
e som de cerne
se saúdem
fraternos. ( Silveira, 1981:13 )

O espaço deste trabalho, embora insuficiente para um mapeamento completo das influências recebidas por Oliveira Silveira dos movimentos culturais negros oriundos dos Estados Unidos, Caribe e França, nos permite tirar algumas conclusões importantes sobre o percurso literário do poeta.

A primeira delas é que toda a sua vivência pessoal, a infância em Rosário do Sul, as leituras, o trabalho como historiador e o engajamento na política estudantil e à causa negra, refletem diretamente na sua obra poética. É o que Antonio Candido (2000) denominou de “o externo que se faz interno”. Como ativista, ele foi o principal responsável por uma das grandes conquistas dos movimentos negros brasileiros: a instituição do dia 20 de novembro, data do assassinato de Zumbi dos Palmares, como o “Dia Nacional da Consciência Negra”; e de uns tempos pra cá tem direcionado a sua obra literária para a comunidade negra, conforme entrevista publicada pela Revista de Artes e Letras Afro-americanas Callallo, o que pode lhe render algumas acusações de cultivar uma literatura de gueto: “Tenho tido a preocupação de direcionar a obra para a nossa comunidade, dentro de um trabalho de Movimento Negro, e, com isso, nos despreocupamos um pouco em relação ao meio branco” (Silveira apud Santos, 1997: 26).

A segunda conclusão é que a obra do escritor gaúcho parte de uma perspectiva regional, passando a nacional até alcançar um caráter universal, em perfeita consonância com a ideologia pan-africanista que norteou os movimentos culturais negros. Através de seu processo de conscientização, descobriu sua identidade negra como se arrancasse uma máscara colada sobre o rosto. E a partir desse encontro consigo mesmo, descobrindo quem é, de onde veio, e o que lhe devem, vai em busca do lugar que sempre lhe foi negado pelas sociedades gaúcha e brasileira, reivindicando seus direitos de igualdade social e participação histórica na construção do estado do Rio Grande do Sul e também do Brasil, na condição daquele que pagou o preço mais alto, ao mesmo tempo em que se mantém fiel as suas raízes africanas e expressa uma solidariedade sem fronteiras para com todas as pessoas da raça negra, sejam aquelas que fazem parte da grande maioria de excluídos, ou aquelas poucas que conseguiram romper as barreiras impostas pelo preconceito e venceram no mundo artístico ou esportivo, ou em outro qualquer, através de seus talentos e habilidades, sem abdicar de sua cor negra.

E a última constatação é que a obra poética de Oliveira Silveira desde 1970, a partir da publicação de Banzo: saudade negra, já se encontra em plena sintonia com os pressupostos dos movimentos negros pan-africanistas, embora tenhamos que admitir e lamentar que essas correntes literárias tenham chegado tardiamente ao Brasil, num momento em que elas já tinham perdido muito de suas forças no cenário internacional. De qualquer modo, o que importa aqui é que o poeta Oliveira Silveira soube habilmente se apropriar das contribuições que esses movimentos trouxeram e com elas enriquecer a poesia afro-brasileira, assim como também o fez anteriormente o poeta Solano Trindade, inserindo-a nesse contexto universal da literatura negra, diminuindo um pouco a distância entre a produção brasileira e a dos países pioneiros.

 

Notas

[1] Este texto foi publicado anteriormente no Boletim do CCH- Revista da Área de Humanas da Universidade Estadual de Londrina, número 48, com o título de “Ressonâncias dos movimentos negros de ideologia pan-africanista na obra poética de Oliveira Silveira.

[2] O primeiro escritor afro-brasileiro a apresentar influências dos movimentos negros foi Solano Trindade na década de 50.

[3] Em Vozes de toda América, vozes de toda África, comunicação apresentada no IX Congresso Internacional da Abralic, realizado em Porto Alegre na UFRGS, no período de 18 a 21 de julho de 2004.

[4] Segundo os lingüistas José Lemos Monteiro (1991) e Nilce Sant’Anna Martins (1997), essas consoantes reproduzem ruídos secos, percussões e batidas.

 

Referências Bibliográficas

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_____(1988a): O que é Negritude? São Paulo, Brasiliense.

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O POETA OLIVEIRA SILVEIRA MORA EM PORTO ALEGRE. Disponível em http//www.portalafro.com.br/portoalegre/oliveira/oliveirasilveira.htm. Acesso em 08 out. 2002.

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——(1977): Pêlo escuro. Porto Alegre, Ed. do autor.

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——(1981): Roteiro dos tantãs. Porto Alegre, Ed. do autor.

 

© Donizeth Aparecido dos Santos 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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