Dom Quixote a la brasileira e a la espanhola: questões de leitura

Izaura da Silva Cabral [1]


 

   
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Resumo: O trabalho traz uma análise da questão que envolve a leitura de duas obras que se relacionam uma por ser um trabalho de adaptação de literatura adulta para infantil, outra por ser um clássico que traz personagens que vivenciam, quase que literalmente, a vida das personagens literárias.
Palavras-chave: literatura, leitura, crianças leitoras, livros

Abstract: The work brings an analysis of the question that involves the reading of two workmanships that if relate one for being a work of adaptation of adult literature for infantile, another one for being a classic that almost brings personages that they live deeply, that literally, the life of the literary personages.
Key-words: reading literature, reading, children, books

 

Em sua adaptação Dom Quixote das Crianças, Lobato persegue a função emancipadora de sua literatura, pois como Dona Benta conta a história para as crianças e estas têm liberdade de opinião, posto que as atitudes de Sancho e Dom Quixote são questionadas pelas personagens do Sítio e aí, justamente nesta recepção crítica, reside o fato de maior responsabilidade pelo caráter emancipador da narrativa. Também o contato com estas personagens, como Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, vindas de fora e adaptadas à nova realidade, é visto como outro modo de emancipação do leitor, já que as histórias das personagens não são somente traduzidas para uma nova língua, mas também para uma nova cultura.

Em Cervantes o papel da leitura é considerado como desencadeador de todas as ações que envolvem a personagem protagonista. Em Lobato, a leitura representa uma ponte que une as personagens, já que todas as noites todos se reúnem ao redor de Dona Benta para ouvi-la. O livro, no sítio, fornece cultura e material fantástico, uma vez que as personagens a partir das leituras, criam aventuras e confundem suas vidas com as das personagens. Na narrativa adaptada à idéia da importância da leitura clássica é salientada pela avó, mostrando que a criança pode sim entrar em contato como o clássico, mesmo que seja uma forma adaptada.

 

1. O lugar do livro na vida das personagens

O livro, tanto para os personagens do Sítio, como para Dom Quixote é sinônimo de paixão, fantasia, cultura e rotina. A paixão de Dom Quixote pelos livros, especialmente os de novelas de cavalarias, é tão grande que para ele o que de mais valioso há no mundo são seus livros e é capaz de se desfazer até de seus bens materiais para ter mais dinheiro com que comprar mais e mais obras para ler. A maior parte de seu tempo é dedicado à leitura: “[...] nos intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano) se dava a ler livros de cavalarias, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler, [...].” [2]

O amor aos livros, pelo pessoal do Sítio, era muito grande, em se tratando principalmente da boneca Emília, que por ser um ser muito curioso, adorava demorar-se na sala de leituras de Dona Benta para descobrir novas histórias e, principalmente, para ver as ilustrações. Tanto Cervantes quanto Lobato multiplicam situações de leitura em que as personagens-leitoras se envolvem demasiadamente com o texto, e como diz Lajolo [3], passam “de leitores-de-papel-e-tinta a leitores-de-carne-e-osso.” E esse envolvimento faz com que realidade e fantasia comecem a se misturar, uma vez que o protagonista da obra de Cervantes contada por Lobato é um fidalgo castelhano que perdeu a razão pela leitura assídua de romances de cavalaria e em razão do seu grande “fantasiar” acha que pode sair pelo mundo a enfrentar gigantes imaginários, encantadores, terríveis inimigos, e fazer justiça como os seus heróis prediletos dos livros que lê.

Em Cervantes, a leitura é o elemento desencadeador das aventuras de Dom Quixote, o herói só é levado a agir de tal forma por não conseguir separar uma história ficcional das experiências da vida real. Monteiro Lobato também aponta para a confusão das personagens do Sítio em relação à obra que estão lendo.

À semelhança do que sucedera por ocasião dos serões nos quais Dona Benta contara às crianças as histórias de Peter Pan [...], quando a sombra cortada de Peter Pan sugere a Emília picotar a sombra de Tia Nastácia, também nesse D. Quixote a boneca não fica imune à loucura do protagonista. [4]

A boneca pensa ser Dom Quixote:

Emília continuava a dar vira-cambotas. Depois foi buscar um cabinho de vassoura e disse que era lança, e começou a espetar todo mundo. E botou um cinzeiro de latão na cabeça, dizendo que era o elmo de Mambrino. Por fim montou no Visconde, dizendo que era Rocinante. [5]

Ela se convence de que é uma verdadeira heroína:

Dona Benta foi espiar pela janela e de fato viu as estripulias que Emília Del Rabicó estava fazendo no quintal. Vestidinha de cavaleira-andante, toda cheia de armaduras pelo corpo e de elmo na cabeça, avançava contra as galinhas e pintos com a lança em riste, fazendo a bicharada fugir num pavor, na maior gritaria. Até o galo, que era um corijó valente, correra a esconder-se dentro de um caixão.

Dona Benta gritou-lhe várias vezes que parasse com aquilo. Tudo inútil. A boneca fora tomada dum verdadeiro delírio de heroísmo. [6]

O menino Pedrinho também, em determinada ocasião, não separa vida real da vida dos personagens de leituras, já que em Lobato, muitas vezes as personagens muitas vezes não separam a vida da ficção:

— Eu explico tudo, vovó - respondeu o menino. - Foi na semana em que caiu em casa aquele livrinho da história de Carlos Magno e dos Doze Pares da França. Comecei a ler e fui me esquentando, me esquentando, me esquentando, até que não pude mais. Minha cabeça virou - ficou assim como a de Dom Quixote. Convenci-me de que eu era o próprio Roldão. E fui lá no quarto dos badulaques e tirei aquela espada que pertenceu ao velho Tio Encerrabodes, e amolei-a no rebolo, bem amoladinha. E quando a senhora saiu com Tia Nastácia e Narizinho para visitar o compadre Teodorico, ah, que regalo! Corri ao milharal e não vi nenhum pé de milho na minha frente. Só mouros! Eram trezentos mil mouros! Ah! Caí em cima deles de espada que foi uma beleza. Destrocei-os completamente. Não ficou um só! Que coisa gostosa... [7]

Vivendo em ambiente rural, os habitantes do sítio poderiam isolar-se do resto do mundo, sem conhecimento do que passa fora do seu habitat, mas é através dos livros que eles conseguem viajar pelo mundo todo, com o herói dom Quixote as crianças podem visualizar uma Espanha da época em que os mais lidos livros eram os de novelas de cavalarias e quando Cervantes através de seu cavaleiro ridiculariza os padrões aceitos na época.

As leituras no Sítio se estendiam por muitos serões, quando todos se reuniam ao redor de dona Benta para ouvir as histórias contadas por ela, sempre regados em seus intervalos por muitas gulodices “[...] um dia batata-doce assada. Outro dia, pinhão cozido. Outro dia, pipoca. Outro dia, amendoim torrado. Outro dia, cará, inhame ou mandioca. E sempre um café coado na hora que era “da hora”, como Narizinho dizia.” [8]

O lugar do livro na vida das personagens das duas obras é destacado, é fornecedor de fantasia, cultura, entretenimento, faz o desenrolar das ações, acompanha-os até mesmo em seus sonhos. E esse destaque só é possível pela transmissão do amor ao livro pelo adulto, que em Lobato, é representado por Dona Benta, e em Cervantes, por Dom Quixote.

 

2. A função do adulto na iniciação das crianças na leitura de clássicos

Ana Maria Machado salienta que é muito importante que os adultos coloquem os pequenos desde cedo em contato com a literatura “o primeiro contato com um clássico, na infância e adolescência, não precisa ser com o original. O ideal mesmo é uma adaptação bem feita e atraente.” [9] Principalmente com os clássicos universais, para ela “o que interessa mesmo a esses jovens leitores que se aproximam da grande tradição literária é ficar conhecendo as histórias empolgantes de que somos feitos”. Ainda acrescenta que

[...] Também não é necessário que essa primeira leitura seja um mergulho nos textos originais. Talvez seja até desejável que não o seja, dependendo da idade e da maturidade do leitor. Mas creio que o que se deve procurar propiciar é a oportunidade de um primeiro encontro. Na esperança de que possa ser sedutor, atraente, tentador. E que possa redundar na construção de uma lembrança (mesmo vaga) que fique por toda a vida. Mais ainda: na torcida para que, dessa forma, possa equivaler a convite para a posterior exploração de um território muito rico, já então na fase das leituras por conta própria.” [10]

Para a autora, o “clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda.” [11] Lajolo [12] reforça que, em Lobato não falta a idéia de que “[...]ouvir a história de Dom Quixote não é a mesma coisa que lê-la, e lê-la na íntegra, cabendo também a Dona Benta chamar a atenção das crianças para a diferença entre originais e suas adaptações.” Para a avó é uma pena que as crianças ainda não consigam ler o original por completo:

— É uma lástima - disse Dona Benta - eu estar contando Sá a parte aventuresca da história do cavaleiro da Mancha. Um dia, quando vocês crescerem e tiverem inteligência mais aberta pela cultura, havemos de ler a obra inteira nesta tradução dos dois viscondes, que é ótima. [13]

Parece evidente para Dona Benta que a narrativa adaptada só terá sentido, se ela salientar a importância da literatura clássica e a preservação da fonte:

- Mas você devia respeitar essa edição, que é rara e preciosa. Tenha lá as idéias que quiser, mas acate a propriedade alheia. Esta edição foi feita em Portugal há muitos anos. Nela aparece a obra de Cervantes traduzida pelo famoso Visconde de Castilho e pelo Visconde de Azevedo. [14]

Segundo Lajolo, a relação de Dona Benta com a cultura é “mais complexa, mais aprofundada, mais antiga, e que assim se proclama sem falsos escrúpulos de um igualitarismo enganoso”, ainda para ela esse aspecto cultural da avó das crianças “[...] parece sugerir que entre um iniciador de leitura e seus iniciandos (ou entre professor e seus alunos) não se deve estabelecer nenhum nivelamento por baixo.” [15]

A autora destaca o fato de dona Benta transitar do estilo de Castilho da tradução portuguesa da obra contada por ela para o estilo coloquial de sua platéia, sendo assim uma poliglota dentro da língua portuguesa e tem consciência de seu papel como condutora das crianças à leitura:

Dona Benta, como todo e qualquer leitor competente da língua escrita e oral, é poliglota, isto é, transita com facilidade do estilo clássico de Castilho para o estilo coloquial de sua platéia. Mas tem plena consciência de que ambas as modalidades são diferentes, e que sua responsabilidade, como iniciadora dos jovens na prática de leitura, é levá-los até o classicismo de Castilho. [16]

Quando Narizinho comenta que é uma pena que Dom Quixote não vença sempre suas batalhas e critica Cervantes por tratar tão mal seus personagens. A narradora Dona Benta explica que isso é para equilibrar outras histórias de cavaleiros andantes, nas quais os heróis venciam sempre. Como leitora consciente em relação ao mundo real, a avó sabe que é preciso mostrar aos pequenos que a vida não é só feita de vitórias. Bettelheim salienta que muitos pais discordam dessa posição defendida por Dona Benta, eles “[...] acreditam que só a realidade consciente ou imagens agradáveis e otimistas deveriam ser apresentadas à criança - que ela só deveria se expor ao lado agradável das coisas.” Para o psicanalista “essa visão unilateral nutre a mente apenas de modo unilateral, e a vida real não é só agradável.” [17]

A função de Dona Benta não se resume, apenas, em levar o clássico de Cervantes para os pequenos de uma forma mais acessível, ela também cita outras obras, outros personagens, outros autores para que as crianças sempre tenham curiosidade de conhecer outros livros, e Emília já conhece e está muito curiosa “[...]. Eu poderei admirar muito os escritores clássicos; mas, para ler, quero os modernos, como esse tal Machado de Assis que a senhora tanto gaba.” [18]

A avó tem consciência de seu papel como condutora das crianças na iniciação da leitura, por isso nunca se cansa de contar histórias todos os dias, para Fanny Abramovich, é muito importante na formação dos pequenos ouvirem histórias:

Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão de mundo... [19]

Em razão de a criança estar em um processo de formação, muitas vezes em um primeiro contato com um clássico, ela pode se apavorar com a leitura, já que esta pode ser cansativa e sem nenhuma significação. Por isso cabe ao adulto, como condutor da criança no caminho pelo gosta da leitura, levá-la a um contato com uma obra adaptada à sua visão de mundo, ao seu conhecimento, à sua fase de vida, para que ela venha quando adulto, se interessar pela leitura dos originais que conheceu como forma adaptada, não ficando constrangido com esse tipo de leitura.

 

Notas:

[1] Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Española do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves, Licenciada em Letras/Espanhol pela UNISC, Mestre em Letras- Leitura e cognição pela UNISC.

[2] Cervantes, p. 29.

[3] Lajolo, p. 101.

[4] Ibidem, p. 101.

[5] Lobato, p. 252.

[6] Ibidem, p. 252.

[7] Ibidem, p. 216.

[8] Lobato, p. 222.

[9] Machado, p. 15.

[10] Machado, p. 12-13.

[11] Ibidem, p. 15.

[12] Lajolo, p. 101.

[13] Lobato, p. 197

[14] Ibidem, p. 144

[15] Lajolo, p. 102

[16] Ibidem, p. 102-103.

[17] Bettelheim, p. 17.

[18] Lobato, p. 299.

[19] ABRAMOVCH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989, p. 16.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 11.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha.. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo:Ática, 1993.

LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das crianças. São Paulo: Linoart, 1992.

MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo.Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

RODARI, Gianni. Gramática da fantasia.7. ed. São Paulo: Summus, 1982.

 

© Izaura da Silva Cabral 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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