Considerações acerca do romance historico

Ms. Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel

Doutoranda em Letras (área Literatura e Cultura)
Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
samarkandra@gmail.com


 

   
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Resumo: Com base, principalmente, em Lukács (1977) e Menton (1993), apresentaremos a trajetória do romance histórico: sua origem, principais características, representantes e mudanças. Partiremos de Walter Scott, o maior nome do subgênero, cuja obra Ivanhoé (1819) é ‘o romance histórico por excelência’ até Alejo Carpentier, o maior representante da ‘nueva novela historica latinoamericana’, cuja obra El Reino de este mundo (1949) revitalizou o subgênero.
Palavras chave: Romance, mímesis, história, sociedade

Abstract: Based, mostly, in Lukács (1977) and Menton (1993), we present the origin, main characteristics, representatives and tranformations of the historic novel. We depart from Walter Scott, its most important author, whose novel Ivanhoe (1819) is the paradigm of historic novel, to arrive at Alejo Carpentier, the most relevant representative of the ‘nueva novela historica latinoamericana’, whose El Reino de este mundo (1949) revitalized the sub-genre.
Key words: Novel, mimesis, history, society.

 

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério.
Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles.

Guimarães Rosa

Considerações iniciais

Há muitos séculos se tornou uma atitude comum mesclar história e ficção, com intuito de narrar feitos heróicos de povo, apresentando, assim, uma espécie de memória coletiva inventada. Homero, por volta do VIII a. C., realizou com maestria este feito, ao criar seus dois grandes poemas épicos: Ilíada e Odisséia. Porém, com o passar dos tempos e surgimento da escrita, outros recursos também foram aliados à história para a criação do texto ficcional, por exemplo, a mescla dos mitos de um povo com as invenções pessoais do autor, que findavam por revelar suas intenções estéticas e éticas. Assim, essas ficções verossímeis, muitas vezes, realizam melhor os conteúdos do emocional coletivo que as memórias da informação histórica, provavelmente por prescindirem de provas ou, simplesmente, à maneira aristotélica, por apresentar não que foi, mas o que poderia ter sido.

Ainda na linha de pensamento de Aristóteles, na Poética, mímesis era imitação daquilo que julgamos ter acontecido, isto é, algo que pertencia ao domínio da memória histórica, ao passo que poiesis representava o campo das possibilidades, que também inclui o real, mas o real tanto no sentido do que aconteceu, como possibilidade, mas também no sentido do realmente acontecido. Acerca do tema, Rosenfeld (1970) ressalva que o termo “verdade”, quando usado em relação a obras de ficção, tem significado diverso:

É a intensa “aparência” de realidade que revela a intenção ficcional ou mimética. Graças ao vigor de detalhes, à “veracidade” de dados insignificantes, à coerência interna, à lógica das motivações, à causalidade dos eventos etc., tende a constituir-se a verossimilhança do mundo imaginário. [...] Trata-se de um “verdadeiro ser aparencial” (Julian Marías), baseado na conivência entre autor e leitor. O leitor, parceiro da empresa lúdica, entra no jogo e participa da “não-seriedade” dos quase-juízos e do “fazer de conta” (ROSENFELD, 1970, p. 20-21).

Verdade, verossimilhança, representação, aparência, todos esses termos serão de suma importância para o que nos propusemos realizar: apresentar, com base em Lukács (1977) e Menton (1993), o romance histórico scottiano e “novo romance histórico latino-americano”, seus principais expoentes, atentando para seus contextos sócio-históricos, suas diferenças e suas similitudes.

 

O romance histórico scottiano: características e principais representantes

Desde o surgimento do romance, por volta do século XVI, e em especial nos séculos XVII e XVIII, existiam romances de temas históricos, em que se misturavam heróis imaginários e personagens históricas, nos quais a História se fazia presente simplesmente para determinação temporal das ações e dos personagens. Porém, a partir do início do século XIX, com as publicações das obras do escritor escocês Walter Scott (1771-1832), este gênero literário começou a reconstituir o passado.

Sir Walter Scott foi o responsável pela revitalização do gênero, pois, ao ambicionar recriar outras épocas e outros mundos, delineou um modelo da estrutura narrativa histórica que foi assimilado por alguns escritores estrangeiros como Alfred de Vigny em Cinq-mars (1826), Victor Hugo em Notre-Dame de Paris (1831), Honoré de Balzac em Les Chouans (1829) e Prosper Mérimée em Chronique du temps de Charles IX (1829). Ele conseguia fazer interagir o tema histórico e sua narrativa, ao organizar dramaticamente os acontecimentos (isto é, ao estruturar o enredo do romance em partes, com exposição, crise e desenlace), criando episódios convergentes, cada qual contribuindo para fazer progredir a ação.

Ivanhoé (1819), por exemplo, foi o primeiro romance de Scott que deixou os temas escoceses para falar de assuntos mais britânicos. Considerado seu romance histórico por excelência, logo no primeiro capítulo, ao modo dos clássicos, Scott nos introduz na obra, informando-nos que a ação tem como pano de fundo o período do fim do reinado de Ricardo Coração de Leão que havia partido para as cruzadas; ao retornar, em 1192, tornara-se prisioneiro pelo duque Leopoldo, da Áustria, com quem tivera desavenças na Ásia. O irmão de Ricardo, o príncipe João, aliado a Filipe de França, preparou um grande complô para usurpar o trono.

O autor não se abstém de demonstrar a insatisfação inglesa com esta situação, atacando a língua francesa:

Na corte, e nos castelos dos grandes nobres, onde se emulava a pompa e a magnificência da corte, o franco-normando era a única língua usada. Nas cortes de justiça, as petições e os julgamentos eram exarados na mesma língua. Em suma, o francês era o idioma da honra, da nobreza e mesmo da justiça, enquanto a língua anglo-saxônia, muito mais viril e expressiva, achava-se entregue ao uso das pessoas rústicas, e dos camponeses, que não conheciam nenhuma outra (SCOTT, 1972, p.11).

Vale a pena ressaltarmos este trecho porque, aparentemente, ele é o tema de todo o livro, a luta de nobres anglo-saxões contra o domínio normando. Verifica-se, entretanto, que não era o intento de Scott apresentar uma versão revisionista da história, pautando sua narração por um suposto ponto de vista dos vencidos. Longe de destilar amargura e ressentimento numa história de oprimidos, Scott celebra em seu romance a formação de uma grande nação pelo amálgama de dois grandes povos: os normandos invasores e os saxões subjugados:

Além dos membros das duas famílias, compareceram ao casamento tanto normandos como saxônios de alta linhagem. O povo recebeu o acontecimento com demonstrações gerais de regozijo, pois era uma garantia de paz e harmonia futuras entre as duas raças, as quais, desde essa época, se misturavam tanto que, hoje, já não é mais possível distingui-las. Cedric viveu o suficiente para ver essa fusão quase completa, pois, à medida que os dois povos se aproximavam e se uniam pelo casamento, os normandos iam-se tornando menos desdenhosos e os saxônios menos rústicos. Mas não foi senão durante o reinado de Eduardo III que a língua mista, agora chamada inglesa, passou a ser falada na corte de Londres, e que o espírito de hostilidade entre normandos e saxônios também desapareceu completamente (idem, p. 551).

Outros temas envolvendo superstições, personagens mitológicos ou folclóricos, também apareceram em Ivanhoé (o romance inicia revelando uma Inglaterra repleta de florestas, belas colinas, carvalhos e lendas; governados pelo rei Oberon).

Scott se inseria em um movimento que, desde o fim do século XVIII, provocava, em alguns países europeus, um forte interesse em pesquisar tradições populares e recriá-las. Carpeaux (1962) observou esta questão:

A arte de Scott não tem nada em comum com o medievalismo artificial, puramente literário, dos pré-românticos. Os seus romances baseiam-se em documentação cuidadosa, e os maiores dentre eles, em documentação oral, ainda viva. Visto assim, Scott é realista (CARPEAUX, 1962, p. 1729).

Esta observação pode até soar estranho aos leitores que desconhecem a vasta obra scottiana, pois, é freqüente se pensar que o autor de Quentin Duward se dedicou apenas a obras ambientadas na Idade Média. Porém, observa Carpeaux,

Scott não é propriamente medievalista: apenas cinco dos seus muitos romances se passam na Idade Média, e no mais Scott só parece medievalista porque a cena preferida - a Escócia, do século XVIII - era um país muito atrasado, quase medieval (idem, p. 1727).

Carpeaux termina seus comentários, acerca de Walter Scott, afirmando que “os seus romances mais importantes não se passam na Idade Média; Scott descreveu o passado não muito remoto da Escócia independente, antes de ela confundir-se com a nação inglesa. É o epitáfio da civilização” (idem, 1962, p. 2091).

Assim, antes de descrever Ivanhoé, o romance dos cruzados, pesquisara baladas e tradições da Escócia, no intuito de contribuir para a preservação da história de sua terra natal, que estava se dissolvendo e se misturando à da Inglaterra. Além disso, sua visão do romance histórico - a necessidade de paixão nos dramas - só era possível para alguém que se norteasse pelos princípios do drama romântico, que fosse hábil o bastante com o tratamento dos personagens e dos diálogos.

Deste modo, o romance histórico, possui várias características que o determinam:

[...] informação histórica; cor local; exotismo; atenção especial ao exterior, mesmo em sacrifício de algo do interior; evocação de civilizações longínquas e de sociedades diferentes ou desaparecidas; sentimentos não individuais, mas comuns da comunidade e representativos: tipos não individuais; a história central, ao revés que na tragédia e na epopéia, não é inventada (LANDIM, 2004, p. 108).

Lukács (1977), por sua vez, teorizou o romance histórico a partir da análise dos romances de Walter Scott, nos quais observou a constância de alguns elementos que definem esse gênero narrativo. Assim, ele o definiu:

1. A época histórica resgatada está num passado mais ou menos distante do presente do autor e serve como um pano de fundo histórico para o romance;

2. Neste pano de fundo é desenvolvida uma trama fictícia, inventada pelo autor, com ações e personagens fictícios que se encaixam perfeitamente na época passada reconstruída;

3. Geralmente, na trama inventada, há uma história amorosa que tanto pode ter um desenlace feliz ou trágico;

4. A trama fictícia ocupa o primeiro plano do romance, ela canaliza a atenção maior tanto do narrador quanto dos leitores;

5. A época histórica passada é somente um contexto, melhor, um pano de fundo, embora não tenha uma importância secundária. O contexto histórico perpassa toda a obra, explicando os comportamentos dos personagens e as soluções dos conflitos.

Um dos pontos chave quanto ao romance histórico clássico é que numa obra deve haver um distanciamento significativo no tempo tratado pelo autor, em relação ao seu próprio. Lukács ao analisar a obra de Scott e esquematizar o paradigma do romance histórico, observou que o autor de Ivanhoé não escrevia sobre a sua época, mas sobre épocas passadas. Porém, apresentou algumas obras de outros escritores que não seguiram, rigorosamente, o modelo que se instaurou com o escritor escocês. Pois, em meados do século XIX, já havia romances que romperam com determinados elementos do paradigma tradicional.

Em nossa literatura, temos José de Alencar (1829-1877), “o primeiro grande prosador do Brasil”, segundo Carpeaux, como um grande exemplo de escritor que, tanto segue o modelo scottiano, em algumas obras, tais como O Guarani e As Minas de Prata, como rompe com o paradigma tradicional, em Guerra dos Mascates (na verdade, um roman à clef).

Em O Guarani (1857), cuja história se passa em 1604, encontramos o personagem histórico D. Antônio de Mariz, fidalgo português que, com Mem de Sá, foi um dos fundadores do Rio de Janeiro, “homem de valor, experimentado na guerra, ativo, afeito a combater os índios”. Alencar o representou como exemplo de nobreza naquela terra de brutos. “Homogêneo de Peri”, segundo Martins (1992), foi, entretanto, apresentado a uma distância média, uma vez que o enfoque do romance está nos personagens fictícios Ceci e Peri.

No romance, Peri é mitificado, configurando assim a imagem do herói além das capacidades humanas. Isto que fica claro em algumas de suas façanhas. Temos então o comentado episódio da onça que, apesar de os “instintos carniceiros”, foi trazida viva aos pés de Ceci.

Segundo Martins, O Guarani

[...] é um romance histórico que busca enraizar num medievalismo ideal os fundamentos da nacionalidade. O Guarani tem sido obstinadamente lido como se fosse um romance realista que tivesse o defeito de idealizar o índio; na verdade, é um romance histórico, isto é, idealista e mítico, que procura dar significação nacional a personagens e processos que só idealmente a poderiam ter. Por isso mesmo, é erro evidente dizer que Alencar idealizou o selvagem: ele o apresenta, juntamente com a paisagem, os personagens europeus e as peripécias da ação, numa escala gigantesca, que, por sê-lo, nos parece irrealista, o que efetivamente é (MARTINS, 1992, p. 66).

Guerra dos Mascates (1873) não segue rigorosamente o modelo scottiano. A história narrada no romance transcorre no ano de 1710, época dos conflitos entre os aristocratas de Olinda, que decaíam graças à crise açucareira desde a expulsão dos holandeses do Nordeste, e os comerciantes do Recife, apelidados de mascates, que prosperavam graças ao intenso comércio e a empréstimos a altos juros concedidos aos olindenses. Estes últimos, mesmo arruinados, mantinham o predomínio político.

Contrariando o paradigma do romance histórico clássico, (vide o conflito de Ivanhoé: anglo-saxões versus normandos) esses acontecimentos e as soluções dos conflitos não possuem relevância no romance. O narrador, um jornalista que escreve uma crônica alinhavada “sobre uma papelada velha, descoberta de modo bem estúrdio” e encontrada 150 anos depois, posiciona-se à distância e ressalta somente pequenos acontecimentos nada heróicos, tais como briguinhas amorosas e familiares e peripécias quixotescas, pois a guerra só aparece na última página do romance.

Estas diferenças não foram acidentais nem refletem falhas na construção do romance. Schwarz (1998) afirma que José de Alencar tencionava ali ridicularizar a figura do Imperador. Corroborando Schwarz, Afrânio Coutinho encontrou características de roman à clef em Guerra dos Mascates, ou seja, registrou a ocorrência de personagens reais que aparecem com nomes fictícios (José Alencar era um talentoso criador de nomes). É notória a semelhança do personagem D. Sebastião com D. Pedro II (o narrador critica constantemente o governo de D. Sebastião e coloca em seus diálogos citações de O Príncipe). Já o sábio personagem Carlos de Enéia, se lembrarmos da querela de José de Alencar com o Imperador, seria o alter ego do próprio romancista.

Seymour Menton (1993) citou alguns romances históricos contemporâneos brasileiros que seguem o modelo scottiano: O Continente (1949), de Érico Veríssimo, A Muralha (1954), de Dinah Silveira de Queirós, Tocaia Grande (1984), de Jorge Amado, Boca do Inferno (1989), de Ana Miranda, dentre outros.

 

Do romance histórico tradicional ao ‘novo romance histórico latino-americano’: características

O romance histórico continuou sofrendo mudanças. Segundo Bella Jozef (1989), nos fins do século XIX, tornou-se “mais interessado nos fatos políticos e sociais, convertendo-se em documento de testemunho ou participação” (JOZEF, 1989, p. 99). Na América Latina, em especial, ele sofreu uma grande revitalização, surgindo um novo modelo do gênero que grande parte da crítica especializada convencionou chamar de ‘novo romance histórico latino-americano’, para diferenciá-lo do romance romântico e naturalista.

Contudo, a presença de uma visão ideológica sobre o passado está presente no romance histórico, quer seja o scottiano ou o ‘novo’. Landim (2004), ao observar o romance histórico naturalista, esclarece-nos que o que o caracteriza é a

[...] análise das relações da natureza com o homem; entretanto, a realidade aparece não somente através de suas formas exteriores, como acontece com Zola e seus seguidores, mas o romancista tende a surpreender o homem em sua integridade intelectual e psíquica; um determinado tipo de análise espiritual cuja evolução se dá do realismo à interpretação. Chegando a esta complexidade o romance histórico pouco perdeu ao atingir a época contemporânea (LANDIM, 2004, p. 111).

Landim completa dizendo que “o elemento fundamental do romance deixa de ser a ação imaginada para converter-se na visão de uma personalidade” (idem).

Acerca do novo romance histórico latino-americano, Menton estabelece o ano de 1949 como marco inicial, data da publicação de El Reino de este mundo, de Alejo Carpentier, pouco mais de 60 anos. Carpentier publicou seu romance, cujo enredo, ambientado na ilha de Santo Domingo, atual Haiti, narrou a história de Henri Cristophe e a revolta dos escravos haitianos do século XVIII.

O que despertou o interesse do autor cubano foi o convite para uma viagem ao Haiti, feito pelo ator francês Louis Jouvert. Assim, lá Carpentier conheceu a história da independência haitiana e a alucinada trajetória do monarca negro Henri Cristophe, rei do norte do Haiti, morto em 1820, responsável pela implantação de um regime autoritário, mas que seguia os moldes da corte francesa. A figura mítica de Henri Cristophe também foi representada em outras obras literárias, dentre elas, The Emperor Jones (1920), do dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill (1888-1953).

Acerca da matéria prima de El Reino de este mundo, Carpentier, no prólogo, revela-nos:

Foi desenvolvido de acordo com uma documentação rigorosa, que não apenas respeita a verdade histórica dos acontecimentos, os nomes dos personagens (incluindo os secundários), de lugares e até de ruas, como também oculta, sob uma aparente intemporalidade, um minuncioso cotejo de datas e cronologias (CARPENTIER, 1985)

Assim, o que faz desse romance um marco é o fato de narrar um importante acontecimento para o povo do Haiti, não só pela ótica dos escravos daquele lugar, mas também por apresentar traços da oralidade africana, os mitos e religião que compõem a cultura haitiana. Tais elementos abordados também traziam algo maior, um projeto idealizado por Carpentier, o ‘ciclo americano’, que consistia em “buscar autenticidade de expressão literária no continente americano e propunha explorar não somente o belo, como o termo maravilhoso sugere, mas também o feio, o insólito da América Latina” (OYAMA, 2007, p.1). Deste modo, Carpentier conseguiu o seu intento: revitalizar a narrativa hispano-americana dos anos posteriores, principalmente aquelas produzidas nos 1960-1970.

Como foi possível ver, o novo modelo difere do romance histórico tradicional principalmente ao destacar os personagens históricos não mitificados como antes, mas com seus cotidianos esmiuçados e suas fraquezas explicitadas. Isto reflete outra característica deste novo paradigma, o distanciamento da versão oficial da história. Os propugnadores deste novo romance histórico procuraram então criar na América Latina, em meados do século XX, um meio de diálogo pretensamente crítico com o passado, ao apresentarem uma nova visão da história, que acreditavam ser mais próxima dos fatos reais.

Deste modo, podemos afirmar que o modelo clássico passou por várias modificações após chegar à América latina. Adquiriu mesmo identidade própria, ao se transformar no ‘novo romance histórico latino-americano’. Vários críticos se propuseram a analisar as características desse novo romance histórico e, dentre eles, o já citado Seymour Menton. Este destacou seis traços característicos do novo romance histórico latino-americano, diferenciando-o do romance histórico clássico:

1. A reprodução mimética de determinado período histórico aparece subordinada, em diferentes graus, a algumas idéias filosóficas, amplamente desenvolvidas por Jorge Luís Borges, em sua literatura, segundo as quais é praticamente impossível se conhecer a verdade histórica ou a realidade, aceitando-se, também, o caráter cíclico da história e, paradoxalmente, sua imprevisibilidade, o que faz com que os acontecimentos mais inesperados e absurdos possam ocorrer;

2. A história é distorcida conscientemente através de recursos como omissões, exageros e anacronismos;

3. Os personagens históricos são ficcionalizados, ou seja, tornam-se protagonistas da obra;

4. Aparece comentários do narrador sobre o processo de escritura da ficção - a metaficção;

5. Presença da intertextualidade;

6. Pode-se notar conceitos elaborados por Bakhtin: dialogismo, carnavalização, paródia e heteroglossia.

O novo romance histórico não se constitui apenas das possibilidades postas pela história. Ele surge, também, e com o mesmo vigor e profundidade, a partir da própria história realizada (fato que se comprova no prólogo de El reino de este mundo). Nesse caso, entretanto, a arte tentará buscar, na experiência, as tensões que produziram esta mesma experiência e a vida, que já foi vivida, é revivida na recriação artística. Os homens reencontram-se não apenas com datas, fatos e lugares que a história já lhes indicou, mas, principalmente, com medos, angústias e eventuais momentos de prazer e felicidade.

Assim, a arte no novo romance histórico latino-americano, ao se defrontar com os documentos e com os testemunhos deixados pelo tempo, torna o leitor partícipe de uma história que já foi escrita, mas que agora se recria sob a voz do artista, de uma forma particular, pois amiúde se quer crítica. Para dar conta dessa importante característica do novo romance histórico latino-americano, devemos lembrar que esse novo romance histórico é latino-americano, não se podendo furtar às suas origens. E é este caráter de romance latino-americano contemporâneo que condiciona a sua abordagem da história, supostamente crítica, chegando muitas vezes às raias do engajamento.

Coutinho (1984), ao apontar as características típicas da narrativa latino-americana, destacou que, durante todo o seu desenvolvimento histórico, esteve presente uma tensão entre tendências opostas, que se expressavam através de uma série de antônimos do tipo regionalismo versus universalismo, consciência versus engajamento social.

Embora estas características não sejam exclusivas da América Latina, elas assumiram um significado especial no contexto latino-americano. Na retratação da paisagem, diferente da descrição puramente exótica, encontramos uma visão mais crítica, comprometida com o propósito de denunciar a situação política, social e econômica de uma determinada região ou país. A inclusão do maravilhoso, do mítico, do fantástico, ou seja, de “outros níveis de realidade”, foram recursos importantes utilizados pelo escritor latino-americano para alcançar uma representação por ele tida por autêntica e global da realidade do seu continente, e oferecer uma contribuição nova e significativa para a literatura ocidental.

Oviedo (1972) observa que na década de 20 foi fundado o romance latino-americano contemporâneo: Los de abajo, de Azuela, em 1916; Raza de bronce, de Alcides Arguedas, em 1919; La vorágine, de Rivera, em 1926; Macunaíma, de Mário de Andrade, em 1929, foram algumas das obras. Embora haja exceções, com elas

[...] nasce um novo romance e nascem seus ismos mais definidores: indigenismo, crioulismo, regionalismo, naturalismo urbano. Todos estes matizes concorrem, todavia, para uma tendência comum: a documental, que trata de oferecer um inventário da realidade de cada país, tanto orográfica como social, agrícola ou política, como uma atitude sempre demonstrativa ou retratista. Esse apego à natureza e, em geral, aos modelos imediatos que a realidade oferece é conseqüência de uma vocação missional: de um lado, os romances de tal período funcional como ata de acusação e denúncia da violência e injustiça que regem a vida do homem americano; de outro, servem de sucedâneo ao livro de viagens: descrevem o país àqueles que não o conhecem ou o conhecem mal, metem-se na selva, na planície ou na socava mineira para tirar uma mensagem de identidade nacional que sane as diferenças abismais que a política oficial dissimula. Postulam uma moral e uma fé, quando não uma militância; no fundo são afirmativos e esperançosos, embora seus quadros sejam deprimentes e atrozes: explicam-nos a piedade e o afã reivindicatório (OVIEDO, 1972, p. 437).

Na década de 30, essa tendência chegaria à mais veemente expressão: uma literatura dita “engajada” surgia, voltada quase exclusivamente para o conteúdo, na qual, segundo Octavio Paz, “os artistas tentaram inserir-se na história viva, mas quase sempre confudiram a política com a história” (PAZ, 1991, p. 180), freqüentemente convertendo-se em servidores de causas ideológicas, em propagandistas por considerarem a linguagem como um mero veículo para a transmissão de idéias revolucionárias, porém cheia de clichês e estereótipos.

Assim, em poucos anos, essa novelística havia transitado de um panteísmo telúrico e de uma fascinação geográfica - “o romance da terra” - à profecia ideológica e à agitação partidária, e caiu nas armadilhas do simplismo, da pedagogia e da mensagem.

Depois o que se viu foi a realidade objetiva coexistindo com o sonho e a fantasia, o engajamento político ou social se casando à consciência estética, e os conflitos locais, circunstanciais, se fundindo com outros de ordem genérica ou existencial; e, segundo Coutinho, “é exatamente nesta mistura de elementos diversos, nesta fusão de 'aparentes opostos' que consiste a essência de tal ficção, a única passível de expressar, de maneira profunda e integral, a relatividade de nosso tempo e cultura” (COUTINHO,1984, p. 182).

 

Considerações finais

O uso de temas históricos para determinação temporal das ações e dos personagens sempre se fez presente na literatura. Porém, só a partir do século XIX, com as publicações de Walter Scott, que o romance começou a reconstruir o passado. Esta reconstrução, teorizada por Lukács, não se dava de forma arbitrária. Menton, por sua vez, informou-nos que formas alternativas de reconstrução do passado, que se afastam do modelo scottiano, são características de um novo paradigma de romance histórico, o novo romance histórico latino-americano, cujo grande representante foi Alejo Carpentier, um escritor que muito bem representa esta fusão do engajamento político com a consciência estética.

Assim, apresentando, em poucas linhas, a trajetória desse subgênero do romance, o romance histórico, visamos contribuir para os estudos não só literários, mas para aqueles que buscam compreender as relações existentes entre história e literatura, principalmente diante da fusão entre o fato e a ficção em meio à trama de um romance histórico.

 

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© Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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