O uso do ‘mas’ no gênero entrevista:
funções de ressalva e de orientação de novo subtema

Aparecida Feola Sella y Clarice Cristina Corbari

Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brasil
afsella1@yahoo.com.br     ccorbari@yahoo.com.br


 

   
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Resumo: Objetiva-se, neste artigo, descrever o funcionamento da conjunção ‘mas’ em entrevistas cedidas por Rubem Alves e Paulo Freire, disponibilizadas, em versão escrita, na Internet. As características desse tipo de texto demandam um suporte teórico advindo tanto de pesquisas desenvolvidas por teóricos que lidam com os materiais de língua oral-dialogada quanto de pesquisas voltadas paras as relações que as sequências textuais provocam. As análises mostram que o conector ‘mas’ sinaliza sempre uma reordenação do enunciado sob outro ponto de vista: em um primeiro momento, possibilita a inserção de ressalvas, que constitui uma das estratégias de progressão textual e, por isso, de organização dos atos de fala que se deixam desenhar mediante os interesses dos interlocutores; em um segundo momento, como decorrência da ressalva, aciona o desenvolvimento de um novo subtema.
Palavras-chave: Entrevista; conjunção ‘mas’; estratégia de ressalva; introdução de subtema.

Abstract: This article describes the behavior of the conjunction ‘mas’ (but) in interviews with Rubem Alves and Paulo Freire, available on the Internet in written version. The characteristics of this text genre require a theoretical framework offered by studies on both conversational speech and text sequence strategies. The analyses show that the connector ‘mas’ often indicates an utterance reordering under another point of view: firstly, it enables the introduction of reservation acts, which constitute one of the strategies of text sequence and, consequently, of organization of speech acts driven by the interlocutors’ interests; secondly, as a result of the reservation act, it triggers the development of a new subtopic.
Key words: Interview; conjunction ‘mas’ (but); strategy of reservation; introduction of subtopic.

 

Introdução

Muitas pesquisas desenvolvidas no âmbito dos estudos linguísticos acenam para funções das chamadas conjunções coordenativas, mais ligadas à ossatura que os argumentos imediatamente envolvidos evocam (cf. Ducrot, 1987). São estudos que medem o comportamento do sentido canônico ou tradicionalmente aceito, voltam-se para o nível da sentença, e inserem questões de orientação argumentativa. Diante, porém, de uma porção textual maior, da qual fazem parte relações atreladas às diretivas interpostas pelo conector, as quais se estendem além da sentença, percebe-se outro universo de sentidos.

Diante de texto que configure entrevista, o alcance de atuação do conector depende, entre outras coisas, dos objetivos dos interlocutores. Percebeu-se isso nas duas entrevistas selecionadas para ilustração de alguns resultados da presente pesquisa. São elas: (a) entrevista cedida pelo escritor e professor Rubem Alves, intitulada Uma escola para voar, publicada no caderno virtual “Extra Classe”, em março de 2002, e (b) entrevista cedida por Paulo Freire, publicada com o título Na voz do mestre, alguns saberes necessários à prática docente..., em abril de 1997, e apresentada no programa Salto para o Futuro, transmitido pela TV Escola.

Diante da constatação de que o nível interacional rende fator a ser considerado, parte-se, aqui, do princípio de que há estratégias nesse nível de operação que se deixam refletir no material linguístico. Sendo assim, foi preciso pensar nesse espaço textual que vai além da sentença e que se mede pelo alcance da atuação do conector. Recorreu-se ao termo ‘recorte’ presente em Guimarães (1987) e Orlandi (1988), na tentativa de delimitar as porções textuais analisadas. Esse termo define-se, basicamente, como uma unidade discursiva que emerge de uma determinada situação de discurso. Guimarães (1987), que procede a um estudo clássico e minucioso das conjunções em língua portuguesa, traça como limite justamente o escopo de atuação das conjunções por ele observadas, e apresenta análises reveladoras de funções postas no plano da argumentação, o que, por si só, já anuncia a própria mobilidade de sentido que um conector assume ao ser atualizado em determinada situação de discurso.

Essa mobilidade, ao olhar de um pesquisador que se detém a verificar a progressão textual, pode se tornar o foco da atenção, haja vista a possibilidade de se deparar com relações textuais co-vinculadas, tecidas, portanto, por traços de sentidos avaliados somente na relação estabelecida por porções textuais com extensão maior que a do escopo sentencial. Entre as orações conectadas pelo ‘mas’, pôde-se observar que essa conjunção serve para tecer contornos enunciativos, e, em decorrência, sua ação de tessitura mais parece orientar o leitor do que somente gerenciar o conteúdo por ela iniciado.

Para proceder à análise das relações que o ‘mas’ estabelece no tecido linguístico, recorreu-se à proposta de Van Dijk (2001), o qual observa com propriedade que um “modelo del contexto es dinámico: cambia permanentemente durante la comunicación (se adapta, se actualiza), debido a cambios en la situación social, o en la interpretación del discurso. Es decir, el contexto constantemente influye en el desarrollo del discurso, y viceversa” (Van Dijk, 2001: 72). Dessa forma, para o autor, a situação ou contexto é que regula a produção e a recepção do discurso, o que revela a faceta de ser o discurso uma forma de ação.

Sendo assim, é preciso avaliar quais relações reclamam determinados conectores, e como essas relações se definem. Neste trabalho, exploraram-se os sentidos postos em relação ao fluxo informacional de um texto que, na origem, é oral-dialogado. Trata-se de entrevistas cujo arcabouço se deixa desenhar por meio de opiniões acerca de assuntos muito próximos da vida pessoal ou mesmo dos objetivos profissionais dos entrevistados.

Essa observação referenda-se a partir da noção de texto escrito que foi vertido de sua origem, na qual papéis sociais são delimitados pelas diretivas postas pela pergunta do entrevistador, com objetivos voltados para uma pauta da qual o entrevistado, em tese, não pode fugir. No interior das entrevistas, as perguntas ganham relevo de tema, embora a condução temática normalmente ocorra de acordo com os interesses dos entrevistados. Sendo assim, o que se coloca como relevo prende-se muito mais ao que o entrevistado tece com relação à pergunta, já que muitas expectativas postas pelo entrevistador acabam ou encorajando ou inibindo o entrevistado.

É nesse movimento que se percebem os objetivos de cada interlocutor, o que rende, na teia linguística, estratégias que podem variar de uma simples respostas até um tratado permeado de ressalvas, condicionantes, ironias, metáforas, comparações. Inclusive, o tecido linguístico pode se voltar para o próprio trajeto da entrevista, e, então, alguns elementos podem assinalar contornos enunciativos. Schiffrin (1987) refere-se a uma estrutura similar, em que se apresentam marcas do discurso ora responsáveis pela contraparte ideacional, ora pela contraparte interpessoal. Dessa forma, a condução temática fica atrelada aos interesses dos envolvidos na entrevista.

 

1. De ato ilocutório a laços ilocutórios

Segundo Searle (2000: 136), os atos ilocutórios ou ilocucionários apresentam como aspecto comum a finalidade ilocucionária, proveniente da “tentativa de fazer com que o ouvinte faça alguma coisa”. Searle indica cinco tipos de finalidade ilocucionária; porém, em nenhuma delas há espaço para os casos estudados, haja vista sua pesquisa estar atrelada às condições de verdade. Contudo, é possível arriscar e ainda supor que o encaminhamento de uma asserção possa estar atrelado a nuances presentes no interior do que se declara ou explica. Sendo assim, pensemos que os casos estudados possam servir como um subgrupo da finalidade ilocucionária assertiva, proposta por Searle, sem, contudo, considerar taxativamente o ponto de vista do autor. Calculemos a asserção como um exercício de imposição, no qual arremates vão se configurando num complexo ato de fala que conta com subatos, digamos. Ducrot (1987), por exemplo, em sua teoria da polifonia, verifica que os atos ilocucionários se deixam constituir em virtude das convenções da língua, na situação de discurso. Stalnaker (1982) revela cautela, por seu turno, ao se tratar de uma sentença como “Eu suponho P”, a qual pode ser tanto um relato como uma afirmação cautelosa. Essa ambiguidade estaria situada na distinção entre contexto e mundo possível. Contudo, essa visão, se traduzida para o universo da presente pesquisa, sinalizaria não mais condições de verdade, mas uma instância de discurso que atualiza os sentidos.

Como a analise parte de entrevista, tem-se, neste gênero, o que Marcuschi (2007) denomina de expectativas a serem satisfeitas. Nos recortes analisados, as sequências apresentam-se em pares adjacentes que geram tipos de ordenação mediante interesses diversos dos interlocutores. E, no interior de cada turno, há um cuidado com a carga informacional a ser repassada, mediante as condições que o tipo de interação provoca, dentre eles o pouco tempo para planejamento (cf. Marcuschi, 1986).

Nesse sentido, os interlocutores conhecem as regras e se dispõem a participar, e, para tanto, acionam estratégias várias, desde aquelas pertencentes ao campo da orientação das ideias até o campo da interação (para usar uma terminologia de Schiffrin (1987)). Nas entrevistas analisadas, percebe-se que certas sequências acionam a tessitura do fluxo informacional cuja temática é conduzida no embalo pergunta/resposta, mas também servem para garantir a preservação ou mesmo a imposição da face. Toma-se, aqui, a explicação de Marcuschi (1986) ao sinalizar para características de uma interação face-a-face.

Portanto, a noção de ato ilocutório, sob essa ótica, sublima noções canônicas da pragmática, por exemplo, e se estabelece em um emaranhado de interligações. Por isso, tenta-se lidar com a noção proposta por Van Dijk (1978), autor que também menciona a conversação, ou seja, considera o discurso como uma atividade interativa. A partir do exercício de análise de algumas conexões, Van Dijk comenta que cada ato de fala está apenso nas sequências em que aparece, e que a relação de adequação a outros atos de fala está relacionada aos propósitos e estratégias empregadas pelos usuários. Ainda segundo o autor, um ouvinte não tem necessariamente de recordar todos os atos de fala indivuais, mas pode simplesmente construir alguns macroatos de fala porque esses serão pertinentes para uma maior (inter)ação (cf. Van Dijk, 1978: 60-73).

Resta para esta pesquisa, então, unir essa ideia de sequência à de ato de fala complexo, em que se deixam transparecer estratégias que vinculam o movimento interativo de uma entrevista. Talvez se esteja falando mesmo de algumas estratégias comuns ao contorno interativo, e que representam esquemas específicos, o que se assemelha a muitas pesquisas já apresentadas no âmbito do Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta - NURC, que se destina a documentar e descrever a norma objetiva do português culto falado em capitais brasileiras.

 

2. Descrevendo as entrevistas

Mediante os objetivos rapidamente expostos anteriormente, selecionaram-se duas entrevistas, concedidas por profissionais bastante conhecidos no Brasil, especialmente no meio acadêmico: Rubem e Alves Paulo Freire.

A entrevista com o escritor e professor Rubem Alves intitula-se Uma escola para voar e foi publicada no caderno (online) “Extra Classe” (ano 7, n. 59, março de 2002), disponibilizada no sítio do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul, SINPRO/RS - Sindicato Cidadão. A publicação mensal “Extra Classe” caracteriza-se por apresentar entrevistas e artigos que versam sobre temas relacionados principalmente à educação, à cultura e à sociedade.

Na entrevista, Rubem Alves comenta o seu conceito de escola ideal: aquela que “dá asas”, ou seja, aquela “que encoraja seus alunos a pensar, que não corta a sua imaginação”. Ao falar dessa escola ideal em termos metafóricos, o escritor, em resposta a uma pergunta do entrevistador, apresenta também o seu contraponto: as escolas que são gaiolas, que não permitem o aluno “voar”. Nas perguntas que constam da entrevista, o tema se desdobra na discussão sobre a possibilidade de uma escola desse tipo existir de fato, sobre as dificuldades enfrentadas pela escola em “ensinar a pensar” e estimular o gosto pela leitura, bem como sobre questões mais pessoais - obras recentes, atividades, formação, entre outras.

A entrevista com Paulo Freire, publicada com o título Na voz do mestre, alguns saberes necessários à prática docente..., foi realizada no Instituto Paulo Freire, em São Paulo, para a série “Projeto Político-Pedagógico da Escola”, desenvolvida em abril de 1997 e apresentada no programa Salto para o Futuro, transmitido pela TV Escola. A entrevista foi publicada no próprio sítio da TV Escola. O programa, que está no ar desde 1991, tem como proposta a formação continuada de professores, especialmente os de Ensino Fundamental e Médio, e se tornou referência para professores e educadores de todo o país. O programa tem um caráter interativo, e recorre a diferentes mídias - TV, Internet, fax, telefone e material impresso - no debate de questões relacionadas à prática pedagógica e à pesquisa no campo da educação.

Na entrevista, Paulo Freire comenta sobre seu então recém-lançado livro Pedagogia da autonomia, saberes necessários à prática educativa, dando alguns exemplos desses saberes considerados essenciais a um professor, apontados no livro. Mais especificamente, o educador cita e comenta os seguintes saberes: “mudar é difícil, mas é possível”, e “saber escutar”. Sobre esses dois temas sustenta-se a maior parte de sua fala, compondo a resposta à primeira pergunta do entrevistador. Ao final da entrevista, em resposta à segunda e última pergunta do entrevistador, Paulo Freire diz o que entende por escola cidadã, conceito que, para o educador, liga-se ao de autonomia.

Como ponto comum que une as duas entrevistas, tem-se, portanto, as opiniões dos entrevistados acerca de assuntos muito próximos da vida pessoal ou mesmo dos objetivos profissionais ou pessoais dos entrevistados. Esse enredo tão próximo dos ideais dos autores confere ações mais espontâneas, o que se traduz em verdadeiras conexões textuais reveladoras de intenções tanto pautadas no cuidado com o conteúdo informacional quanto no gerenciamento deste mesmo conteúdo.

 

3. Proposta de análise

A análise aqui apresentada especula a noção de sequência proposta por Van Dijk, a qual direciona sondagem de funções que alçam porções textuais mais amplas que a sentencial. Trata-se de funções que formam uma espécie de rede, na qual os sentidos vão sendo delineados mais especificamente na progressão textual. Diante desse contexto mais amplo, considerado na análise do corpus, perceberam-se ocorrências em que o ‘mas’ atua como articulador de ressalva e orientação temática. São funções previstas já largamente por autores que lidam principalmente com a modalidade oral-dialogada, justamente mediante a dinâmica desse tipo de texto.

Para que se pudesse avaliar de forma mais devida principalmente o escopo de atuação no enredo textual, os recortes selecionados representam casos recorrentes e servem para ilustrar como as ressalvas podem servir de introdução de subtema, e, por isso, garantir a continuidade do fluxo informacional numa perspectiva de imposição do próprio entrevistado. Este, no enlevo de poder expressar suas opiniões, haja vista a condução do gênero entrevista, mesmo diante de certo monitoramento, acaba por acatar a liberdade de expressão, e isso se deixa representar no alinhavo linguístico. Esse terreno mostrou-se propício ao aparecimento de trechos notadamente relacionados com o próprio monitoramento da fala.

Para ilustração da análise proferida, recolhemos três trechos de cada uma das entrevistas, os quais contêm as mesmas formas de sequências esquemáticas, muito embora o conteúdo dos argumentos seja diferente.

Vejamos, primeiramente, os recortes retirados da entrevista cedida por Rubem Alves. Neste primeiro recorte, apresenta-se parte da fala introdutória do entrevistador, ao dar início à apresentação do entrevistado:

(01) (1a) Professor, escritor, teólogo, psicanalista. Aos 68 anos de vida, Rubem Alves é tudo isso, (1b) mas acima de tudo um sonhador. (1c) No bom sentido da palavra, ele sonha com a construção de uma escola ideal, que “dê asas” e ensine as crianças a pensar e a gostar de aprender. Sobre este sonho escreveu até um livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.

Observe-se que as porções assinaladas revelam o seguinte esquema: em (1a), tem-se um ato de asserção com teor epistêmico, o qual recebe, no seu bojo, uma ressalva que orienta o leitor para o dado informacional mais importante, em (1b), por meio do ‘mas’. Esse movimento, por sua vez, também serve para inserir o novo subtema, (1c), da fala do entrevistador, na qual objetiva-se esclarecer ao leitor sobre a importância do autor e, ao mesmo tempo, realçar uma característica que o distingue provavelmente de um conjunto de autores que não são idealistas, por exemplo.

Percebe-se, nesse fragmento, uma espécie de desnivelamento mediado pelo ‘mas’: o entrevistador apresenta, em um primeiro momento, qualidades mais “concretas” do entrevistado, possivelmente conhecidas do público, e, com o ‘mas’, institui a ressalva, atribuindo-lhe uma característica no plano do “não-concreto”. A noção de contraste pode ser acionada aqui, pois parece ser uma estratégia do locutor (neste caso, o entrevistador), para dar destaque à informação que vem a seguir. E, de fato, o desdobramento dessa informação, na sequência do texto, mostra a importância dada à informação.

Guimarães (1987), em seu estudo sobre as funções das conjunções em língua portuguesa, já observava que as estruturas com ‘mas’ não apresentam um nivelamento entre o conteúdo das orações, mas, sim, a predominância da ideia contida na oração iniciada por essa conjunção. Schiffrin (1978) observa que o conector but (equivalente ao ‘mas’ do português) tem várias funções no discurso, dentre as quais acenar mudança de assunto e assinalar uma informação que o locutor julgue importante, o que parece ser o caso no exemplo acima.

Vejamos agora o segundo recorte, agora referente à fala do entrevistado. Percebe-se, aqui, que a análise do enunciado imediatamente anterior não é suficiente, já que a asserção em (2b) foi “preparada” nos enunciados anteriores, em (2a), usados para justificar ou validar previamente a afirmação que será dada em (2b). Note-se especialmente o trecho sublinhado, que sintetiza a ideia em (2b) a que se quer acrescentar a ressalva.

(02) Infelizmente há também escolas que são gaiolas. (2a) As crianças se sentem dentro delas como pássaros. Não podem voar. São engaioladas pelos programas e pelos professores a que se referiu Bruno Bettleheim, um dos maiores educadores do século XX. Numa entrevista que deu já no fim de sua vida, ele disse o seguinte: “na escola os professores me ensinavam coisas que eu não queria aprender e do jeito como eles queriam ensinar.” (2b) Por isso as crianças sofrem. (2c) Mas os professores são engaiolados também dentro da mesmice dos programas que têm de repetir ano após ano. (2d) Esses professores são como aqueles guias de excursão que, diariamente, são obrigados a repetir as mesmas informações para os turistas. Ao final é um tédio, uma impaciência, uma irritação, um desejo de aposentadoria.

Tem-se, aqui, portanto, a seguinte configuração: em (2b), ocorre um ato de asserção, que, por sua vez, é também uma conclusão do que vinha sendo dito anteriormente (2a), cuja retomada é feita pelo conector de caráter anafórico ‘por isso’. Como ressalva à afirmação contida em (2b) - a de que as crianças sofrem (e sofrem porque são engaioladas pelos programas e pelos professores, conforme argumentado anteriormente) -, acrescenta-se, em (2c), um dado que poderia não ser considerado na asserção anterior: o fato de que também os professores são engaiolados por esses mesmos programas (note-se particularmente o ‘também’ enfatizando a ressalva). Parece se tratar de uma estratégia de amenização, atenuação, ou de preservação da face, já que os interlocutores pressupostos são, em grande parte, professores, o que poderia gerar uma recepção negativa. Observa-se, então, que, em (2c), a ressalva já introduz um novo subtema, desenvolvido na sequência, em (2d), em que se confirma o estatuto de vítima dos professores e se referenda o conteúdo posto na ressalva.

No último recorte da entrevista com Rubem Alves, tem-se a seguinte fala do entrevistado:

(03) (3a) Recursos financeiros são necessários para a educação. (3b) Mas só os recursos financeiros não melhoram a educação. (3c) Pode-se educar bem com poucos recursos e educar mal com muitos recursos. Por vezes o excesso de recursos perturba a inteligência.

Aqui, novamente, tem-se uma asserção em (3a), em que se faz ressoar um discurso já incorporado em diversos segmentos da sociedade - incluindo-se aí a opinião pública. Na sequência, em (3b), apresenta-se a ressalva, que já aponta para um novo subtema, (3c), em que se explicita como o dinheiro não garante a qualidade da educação. As possibilidades, direcionadas em dois polos, apresentadas pelo locutor em (3c), respondem à estratégia de reforçar a posição de que o dinheiro é condição necessária, mas não suficiente para se ter educação de qualidade.

Na entrevista com Paulo Freire, pode-se observar o mesmo movimento do ‘mas’ em várias ocorrências. O curioso é que o tom didático de Freire se deixa transparecer nos articuladores textuais “quer dizer”, “o que vale dizer” e “o que eu quero dizer é que”. Esses articuladores reforçam o fato de que a ressalva tanto pode inserir o subtema de forma direta como também pode requisitar explanações, exemplificações, esclarecimentos com relação ao próprio ato de ressalvar, o qual, por exemplo, pode ter se tornado hermético, de baixa resolução para alguns leitores. Essa estratégia revela o cuidado do entrevistado com o público que irá consultá-lo. Vejamos:

(04) (4a) Então, saber escutar é não apenas a expressão de uma sabedoria democrática, (4b) mas é também uma arte, (4c) quer dizer, é preciso que eu vá me constituindo na audição de quem fala. O que vale dizer: é preciso que eu limite o meu tempo de fala para que quem me escuta tenha o direito de falar também.

No fragmento acima, Paulo Freire comenta um dos saberes essenciais que constituem tema de seu livro e, por conseguinte, também da entrevista: saber escutar. Então, em (4a), o educador apresenta uma propriedade desse saber, que é, por sinal, uma propriedade “esperada”, ou seja, está no âmbito da expectativa do público: a de que retrata uma atitude democrática. Em (4b), o entrevistado acrescenta uma outra propriedade, agora menos ligada à expectativa geral: a de que escutar é uma arte. Ao introduzir essa nova propriedade, acena-se para um novo subtema, desenvolvido - ou explicado, como acenam os articuladores textuais “quer dizer” e, mais adiante, “o que vale dizer” - em (4c). Importa notar que (4c) abrange não só o enunciado imediatamente posterior, mas estende-se também ao enunciado seguinte, ainda destinado a apresentar ao leitor uma explicação, ou, antes, a reforçar o ato de fala de explicitação, reformulando o enunciado em outras palavras.

No recorte a seguir, é preciso novamente considerar a porção textual assinalada antes da asserção em (5b) para que se possa compreender o movimento argumentativo do entrevistado:

(05) Eu queria, para terminar essa primeira pergunta que você me fez, dizer o seguinte: (5a) para mim, um dos equívocos das escolas tem sido o de sugerir, ou insinuar, ou até dizer explicitamente ao educando que (5b) a compreensão de um texto deve ser procurada pelo leitor, (5c) mas por isso mesmo, por ser procurada pelo leitor, é que a compreensão do texto é criação de quem escreve o texto. (5d) O que eu quero dizer é que não é isso, não pode ser, o leitor é também produtor da compreensão do texto que lê.

No fragmento acima, em (5b), apresenta-se uma asserção - que, na verdade, não representa a voz o autor, mas da instituição “escola”, conforme dito em (5a) -, a qual é reelaborada em (5c), por meio do ‘mas’, como se fosse uma ressalva. Em (5d), refuta-se essa ideia, o que fica explícito pelo fragmento “O que eu quero dizer é que não é isso, não pode ser”, antecedendo o argumento de que o leitor assume uma atitude ativa diante do texto. Embora esse argumento não seja diretamente acionado pelo ‘mas’, observa-se que há uma estreita relação com o que foi dito em (5c), constituindo-se em um ato de fala que visa a expressar uma objeção ao pensamento corrente da escola com relação ao processo de leitura.

Vejamos agora o último recorte da entrevista com Paulo Freire:

(06) (6a) E como ninguém pode ser só, a escola cidadã é uma escola de comunidade. É uma escola de companheirismo, é uma escola de produção comum do saber e da liberdade. (6b) Mas é uma escola que não pode ser jamais licenciosa, nem jamais autoritária. (6c) Quer dizer, é uma escola que vive a experiência tensa da democracia que, em outras palavras, implica a experiência tensa, contraditória, permanente entre autoridade e liberdade.

Paulo Freire, ao definir a escola cidadã, um dos temas-chave da entrevista, vai construindo o seu conceito em torno das noções de comunidade, de cooperação, de produção conjunta, conforme o que está expressa em (6a). No enunciado seguinte, (6b), o ‘mas’ introduz uma ressalva, que parece ter, aqui, a função de romper com uma expectativa que possa delinear-se no interlocutor: uma escola em que haja essa “comunhão” pressupõe relações não-hierárquicas, o que poderia resultar em relações “licenciosas”. Dessa forma, a ressalva apresentada em (6b) já acena para um novo subtema (6c), em que se vai desenvolver a contradição apresentada em (6b).

Os recortes aqui tomados para ilustração revelam provavelmente uma forma de construção do discurso oral-dialogado. Percebe-se o cuidado que se toma diante de asserções postas como se tivessem sentido absoluto. O exercício demonstrado pelos entrevistados demonstra que o monitoramento da fala inclui estratégias que servem para assegurar a face tanto do próprio entrevistado quanto dos interlocutores direta ou mesmo indiretamente envolvidos. Sendo assim, a noção de ato ilocutório toma uma dimensão textual mais ampla, advinda dos interesses dos interlocutores envolvidos no processo.

 

4. Considerações finais

Diante das amostras acima comentadas, pôde-se avaliar que os sentidos orientados pelo ‘mas’ estão atrelados não somente à relação in loco, ou sentencial. Trata-se de uma construção que se projeta para a porção anterior e que também tece o prolongamento textual. Em se tratando de entrevista adaptada a veículos de língua escrita, tem-se que o tom de atividade interpessoal, desenvolvida entre pelo menos dois indivíduos em situação face a face, permeia a espinha dorsal do texto. O monitoramente diante da relação pergunta-resposta configura visivelmente as preocupações dos participantes, de tal forma que o cotextual se entrelaça com o contextual. Dessa maneira, os entornos espaço-temporal e sócio-histórico que unem os participantes ficam pinçados na tessitura criada.

Quer-se ressaltar, na verdade, que a comunicação interpessoal é uma relação dialógica em que ambos os interlocutores adaptam continuamente o diálogo às necessidades do outro e às contingências dos entornos mencionados acima. Em entrevistas, entrevistador e entrevistado alternam-se nos turnos, manifestando uma relação que pode se apresentar como mais ou como menos assimétrica. Explica-se: há diferenças de grau de manifestação da coprodução discursiva, de acordo com o caráter mais dialógico ou menos dialógico do texto. No caso das entrevistas, essa dialogicidade geralmente se apresenta em grau menor em comparação com as conversações espontâneas entre amigos, e em grau maior em comparação com uma palestra, por exemplo, quando apenas um dos interlocutores mantém o turno.

O tipo de texto analisado rendeu uma avaliação tanto da função de introdutor de ressalva que o ‘mas’ comporta como a de orientador de subtema. Nesse sentido, pode ser que se esteja diante de atos ilocucionários mais complexos, nos quais os interesses diversos dos interlocutores acabam por direcionar a extensão de tais atos. A carga informacional também segue regras, advindas de estratégias que servem para orientação das ideias a serem repassadas nas entrevistas.

A noção de sequência proposta por Van Dijk serve para se ter uma visão mais ampla do alcance das funções assumidas por um conector do tipo do ‘mas’. Basicamente, o movimento que se estabelece representa uma reordenação de asserções tomadas com cuidado pelo entrevistado. Esse monitoramento, comum a um discurso oral-dialogado, reforça a proposta de que o ‘mas’ confere predominância à porção textual a que dá início.

O recorte (5), por exemplo, é ilustrativo com relação às relações interpostas pelo ‘mas’ no desenvolvimento que se processa: a ressalva, além de imprimir saliência, ênfase, parece exigir do produtor do texto uma forma de explicitação, de uma confirmação. Diante o ato de ressalvar, pode-se esperar, de certa forma, um compromisso com futuros pressupostos, subentendidos ou mesmo inferências. Talvez, por isso, sequências como (6c), “Quer dizer, é uma escola que vive a experiência tensa da democracia que, em outras palavras, implica a experiência tensa, contraditória, permanente entre autoridade e liberdade”, podem ser comuns no escopo de atuação do ‘mas’.

Esta reflexão pode ser entendida como uma forma de o produtor do texto revelar suas preocupações com as possíveis interpretações geradas a partir de suas asserções postas no plano do absoluto, por exemplo. Acontece que, diferentemente do texto escrito, que conta com um lastro de tempo razoável para planejamento e refacção, no plano da entrevista, o discurso vai sendo tecido de tal que forma que a revisão de asserções, por exemplo, fica atrelada a um processo quase que de “remendo”.

Sendo assim, os enunciados que compõem a rede em que se insere a ressalva, conforme analisado no interior desta pesquisa, são formulados mediante, provavelmente, o índice de impacto que se pode causar (na visão do produtor do texto, assim entendemos), ou seja, o índice do tipo interpretações que possam causar danos à face positiva do entrevistado.

São movimentos que se inserem no conjunto de ações relativas à instância discursiva, e, que, portanto, revelam procedimentos que podem ser entendidos mesmo como verdadeiros atos de fala, tal qual já propunha Marcuschi (1986) quando explicava de forma didática a rede ilocutória que se forma diante de situações de interação face a face.

Falantes que se comportam como responsáveis pelos atos de asserção tendem, então, a esmaecer o impacto absoluto, quase que decisivo. Isso requer um exercício linguístico de dimensões que se revelam no conjunto discursivo instaurado no texto. O esforço para a manutenção da face pode ser, talvez, um dos objetivos desses rodeios discursivos, os quais servem, então, em primeira instância, para evitar ou dirimir possíveis conflitos gerados por interpretações indesejadas.

Essas observações finais revelam que mais análises são necessárias, haja vista o tipo de recorte textual tomado para verificação. Os próximos passos da pesquisa estabelecem-se no sentido de avaliar mais entrevistas adaptadas para revistas, na tentativa de conferir se esse esquema é recorrente e se realmente revela de forma mais incisiva o próprio monitoramente da preservação da face diante de uma asserção que possa ser tomada como uma verdade absoluta, expressa com alto grau de engajamento pelo produtor do texto.

 

Bibliografía

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© Aparecida Feola Sella y Clarice Cristina Corbari 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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