A vez e a voz de Raquel: construção da criança pela literatura

Prof. Dr. Flávia Brocchetto Ramos

Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC/UCS)
ramos.fb@gmail.com


 

   
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Resumo: O PPGL/UNISC, através da linha de pesquisa “Texto, subjetividade e memória”, privilegia estudos de textos literários, a fim de analisar propostas de conhecimento presentes em obras literárias. Para este artigo, destaca-se um estudo pertencente ao projeto “Leitura e infância”. Essa investigação surge com o propósito de estudar textos efetivamente lidos por crianças matriculadas na 4ª série de escolas públicas e privadas. A investigação tem como principal objetivo analisar essas obras tendo em vista a proposta artística do texto e o lugar do leitor implícito no texto. Destaca-se que com a implementação de Lei 7692/71, intensificou-se a produção literária para a infância. Entre as obras publicadas nessa década, será analisada A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes, um dos textos mais representativos do período. A definição desse texto para estudo surge em virtude de ser um dos poucos livros literários indicados por estudantes participantes da pesquisa. Este artigo discute aspectos acerca do papel da protagonista e dos elementos simbólicos presentes na narrativa como referências que podem acolher o leitor mirim. Aponta-se ainda que a pesquisa identificou a preferência dos alunos por livros que são objeto de campanhas publicitárias e por textos não literários.
Palavras-chave: leitura literária, infância, leitor.

Abstract:The turn and the voice of Raquel: the building of children by literature. The PPGL / UNISC, through the search line "Text, subjectivity and memory," focuses on studies of literary texts, in order to analyze proposals of knowledge, which are in literary books. For this article, we highlight a study that belongs to the project "Reading and childhood." This research appears in order to study texts that children have read effectively and which are enrolled in 4th grade in public and private schools of the Elementary School. The mainly goal of the research is to analyze these texts considering the artistic proposal of the text and the place of the implicit reader in the text. It is important to know that with the implementation of Law 7692/71, the literary production for children has been intensified. Among the books published in this decade, it will be considered the “A bolsa Amarela” (“The Yellow Bag”), of Lygia Bojunga Nunes, one of the most representative texts of this time. The definition of this text for the study derives from one of the few literary books nominated by students participating in the research. This article offers a discussion related to aspects of the role of the protagonist and the symbolic elements that are present in the narrative as references that can involve the beginning reader. The research identified the preference of students for books that are objects of advertising campaigns and non-literary texts.
Keywords: literary reading, childhood, reader

 

Por muito tempo ler literatura foi sinônimo de perda de tempo, de estar ou ser alienado, de estar fora do seu entorno. Contudo, atualmente, tem-se discutido que o ser humano tem o direito a interagir com as artes de um modo geral e com a literatura de modo especial. Por acreditar no papel humanizador da arte, tem-se desenvolvido pesquisas acerca da leitura da literatura, como também se tem investido mais na promoção do livro literário e na formação do leitor desse texto.

Por acreditamos que a literatura contribui para a formação do humano, desenvolvemos no PPGL/UNISC uma investigação que se ocupa de estudar propostas de conhecimento inerente a algumas obras literárias. Tais questões estão abrigadas na linha de pesquisa “Texto, subjetividade e memória”, cujo foco é, de modo especial, a “articulação da leitura a processos cognitivos e suas relações com a subjetividade e a memória, através dos vínculos com o autoconhecimento, o imaginário e a emoção”. Entre os projetos que compõem essa linha está “Leitura e infância”, que tem como objetivo, entre outros, analisar narrativas literárias destinadas à infância, a partir do lugar do leitor implícito nesses textos. O projeto, através da técnica de grupos focais, identifica obras lidas pelos estudantes de 4ª série de escolas públicas e particulares. A coleta de dados mostra que as escolhas dos estudantes recaem predominantemente sobre livros que são divulgados por campanhas publicitárias, como também a quase ausência do texto literário na voz das crianças.

Uma das poucas obras literárias citadas pelos sujeitos foi A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes, publicada em 1976. O texto foi editado numa década em que a literatura para crianças era muito valorizada, pois a educação brasileira experienciava, nos anos 70, os reflexos da Lei 5692/71, a qual, além de promover um ensino mais tecnicista, apontava a comunicação e a expressão como metas da formação do estudante. Um dos aspectos destacados pela Lei é o incentivo à leitura. Com isso, o mercado editorial em expansão investe mais na produção literária, e grande número de obras, de diversas temáticas, são publicadas para as crianças, leia-se, estudantes, já que a leitura esta intrinsecamente associada à escola.

As crianças, prováveis leitoras, também são as personagens que constituem a narrativa de A bolsa amarela. A menina Raquel, caçula de uma família de classe média baixa, formada pelos pais e três filhos, sente-se incompreendida pelos familiares: o pai e a mãe com voz inexpressiva, o irmão e a irmã. Recorre, então, a um mundo imaginário, a fim de amenizar a solidão. A personagem tem a peculiaridade de possuir três grandes vontades que a angustiam muito:

Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever. (p. 11)

Suas vontades não podem ser reveladas às pessoas com quem convive e ela passa a comunicar-se com personagens imaginárias. Quando recebe uma bolsa amarela, que pertenceu a sua tia, coloca ali as suas vontades e também seus amigos imaginários: um galo, cujo nome - Rei - é trocado por Afonso; uma série de nomes masculinos, um Alfinete de Fralda; mais tarde uma Guarda-Chuva e o galo Terrível. Esses amigos passam a interagir com a protagonista, representando os anseios da menina.

Os adultos, durante um almoço, percebem que Raquel não se afasta da bolsa e, curiosos, desejam saber o que há no seu interior, pois não compreendem a atitude da menina. De fato, a bolsa é um esconderijo para guardar os desejos e sonhos infantis que provocariam riso nos adultos, sendo, nesse aspecto, percebida como uma metáfora do inconsciente infantil: “Se o pessoal vê as minhas três vontades engordando desse jeito e crescendo que nem balão, eles vão rir, aposto. Eles não entendem essas coisas, acham que é infantil, não levam a sério” (p. 21).

Após a criação de algumas histórias, Raquel vai mudando a percepção sobre as relações entre os seres que a cercam. Suas vontades já não a sufocam tanto. O castigo que, em determinada situação, recebe dos pais não lhe parece ruim. Afonso, por conseguir ter suas próprias ideias para lutar, e a Guarda-Chuva, que deseja ser mulher e criança ao mesmo tempo, projeção dos desejos não admitidos inicialmente por Raquel, abandonam a menina. Apenas o Alfinete de Fralda permanece na bolsa porque deseja espetar alguma vontade que, por ventura, nasça e cresça muito.

O Alfinete de Fralda representaria a criança que ainda vive em Raquel. Apesar de novo - nunca foi usado - está abandonado na rua, extraviado, perdido, porém, mesmo enferrujado, sua ponta permanece afiada. O narrador abre o capítulo afirmando que ninguém o conhece, assim como muitas crianças não são vistas. Esse elemento, abandonado e ignorado por todos, pede a Raquel que o guarde, porque ele tem utilidade, apesar de ter uma "história curtinha". Assim, a criança, inicialmente vista como inútil, adquire uma função importantíssima: fiscalizar e controlar as suas próprias vontades.

A protagonista representa a criança do sexo feminino. A narrativa não explora a caracterização física da personagem infantil, de modo que nem mesmo sua idade é apresentada. Em relação ao seu nome, reconhece-se a não arbitrariedade na escolha. A menina Raquel assemelha-se à Raquel bíblica: esta é a mais jovem das filhas de Labão, assim como aquela também é a mais nova dos irmãos e, portanto, última a ser atendida, visto que antes há que se satisfazer as necessidades dos maiores (ou da primogênita, no caso bíblico). Labão, após ter permitido que sua filha casasse com Jacó, impõe a ambos um período de espera de 7 anos; para a criança Raquel, o período de amadurecimento é marcado pela relação que estabelece com elementos que passam a morar na bolsa amarela. Salienta-se, ainda, que tanto a Raquel bíblica quanto a protagonista infantil atuam como guardiãs de animais: aquela cuidando das ovelhas e esta protegendo os galos de possíveis confusões.

A filha de Labão, além de formosa, é inteligente e persistente, já que, se sentindo humilhada por não ter filhos de seu esposo, determina que sua criada os tenha, mas não satisfeita com isso, mais tarde, dá a luz a um menino, quando morre no parto. Raquel criança, a exemplo da personagem bíblica, com sua criatividade, perspicácia e determinação, consegue resolver seus conflitos interiores.

A menina, além de personagem principal, é a narradora do texto. Como senhora do discurso, mostra maior preocupação com o aspecto psicológico, enfocando a interioridade, sem informar sobre dados externos, como sua aparência física, hábitos, higiene e saúde entre outros. Há alusões superficiais à vestimenta, entendida como um ritual desagradável. Sabe-se apenas que as roupas da menina são sobras dos adultos, uma vez que Raquel é duplamente marginalizada, pois é criança e menina. Isso lhe dá uma posição secundária na estrutura familiar, aspecto reforçado pela sua vestimenta: “Calça comprida eu só tenho duas; uma boa, outra ruim; enquanto uma lava, uso a outra” (p. 62). Durante o almoço, na casa de tia Brunilda, uma senhora abastada que presenteia a família de Raquel, a protagonista vestiria a calça ruim, pois a boa estava sendo lavada. Para melhorar o aspecto da calça, faz algumas mudanças: “(...) Tinha baixado a bainha da calça, passei ela a ferro, peguei uma tinta que a minha irmã pinta o olho e pintei uma flor na minha blusa para ver se tapava uma mancha antiga...” (p. 62-63). O fato revela a iniciativa da criança.

Porém, derrama mercurocromo na blusa e acaba saindo com um vestido xadrez de cores indefinidas, que não lhe agrada e não possui aspectos que reforcem sua individualidade. Usando trajes que não deseja, sem qualquer referência à cor ou ao estilo dos mesmos, apodera-se da bolsa amarela, como marca da sua identidade, e não a larga mais. Em todos os lugares aonde vai, carrega-a consigo, ocultando ali sua interioridade, suas singularidades.

A bolsa não é amarela por acaso. As cores têm uma simbologia cultural quee está arraigada no inconsciente da coletividade. Amarelys deriva do latim, simbolizando "a cor da luz irradiante em todas as direções" (FARINA, 1986, p. 114). Relacionando as cores à medicina, o amarelo é considerado o restaurador dos nervos (FARINA, 1986, p. 121), o que pode ser observado, na obra, através da reorganização emocional da menina que, após deixar suas vontades aprisionadas na bolsa e vivenciar algumas situações, consegue viver harmonicamente com elas, não se angustiando tanto. O amarelo ainda indica o desejo de libertação: trata-se de uma cor que alivia, provoca mudanças e possui efeito leve e alegre, sugestivo e relaxante (FARINA, 1986, p. 134).

Sempre que as vontades da protagonista sentem-se oprimidas, começam a engordar e a bolsa torna-se mais pesada. Ao deixar a escola, a bolsa amarela pesa muito, pois, além das vontades sufocadas, guarda também livros e cadernos. E o desejo de ser escritora resolve "engordar", porque a professora mandou fazer uma redação sobre "o presente que eu queria ganhar". No meio da história, porém, toca a campainha e acaba a aula. A professora recolhe o caderno, e a história fica sem fim.

A escola, nesse aspecto, é vista como um espaço que não dá vazão à imaginação infantil, pelo contrário, limita-a, como também reforça a inexistência de vínculos entre a vida da criança no colégio e fora dele. À menina não é permitido terminar a sua história na sala de aula, mas na rua. A narrativa sugere que o aluno deixe sua imaginação fluir, mas o horário atua como barreira, impedindo a exploração do tema da redação.

O presente desejado por Raquel é um guarda-chuva. A menina tem o desejo satisfeito por Afonso, projeção de seu lado masculino. O galo abandona a bolsa e traz para a protagonista uma guarda-chuva que escolheu nascer "mulher" e pode crescer ou manter-se pequena, conforme quiser. Nesse momento, a vontade de ser mulher diminui, mesmo ela não consegue se comunicar com a Guarda-Chuva, por não compreender sua língua, necessitando de Afonso como intérprete. A narrativa sugere, dessa forma, a necessidade de que todas as facetas do indivíduo devem conviver harmonicamente.

Além disso, a Guarda-Chuva defende a possibilidade de o indivíduo permanecer pequeno, porque "(...) ela adorava brincar, e gente grande tem mania de achar que porque é grande não pode mais brincar" (p. 50). Ela descobre, porém, que é possível crescer e continuar brincando; aprecia, então, essas duas fases da vida. Salienta-se, no entnato, que, brincando de passar de pequena a grande e vice-versa, ela quebra no tamanho pequeno.

O temperamento e os interesses da criança são amplamente explorados, pois a narrativa se constrói a partir desses elementos. A interioridade da criança está em jogo. Os seus desejos a sufocam, devendo aprender a conviver com eles: “Já fiz de tudo pra me livrar delas [vontades]. Adiantou? Hmm! É só me distrair um pouco e uma aparece logo”. (p. 11)

A menina tenta estabelecer interlocuções com seus amigos imaginários, mas a correspondência com André e Lorelai é descoberta pelo irmão mais velho, causando-lhe problemas. Ele, irritado, diz que não adianta conversar com Raquel, porque ela "nunca diz a verdade". Nesse caso, a verdade da criança é vista como mentira pelo adulto:

— Puxa vida, quando é que vocês vão acreditar em mim, hem? Se eu tô dizendo que eu quero ser escritora é porque eu quero mesmo.

— Guarda essas idéias pra mais tarde, tá bem? E em vez de gastar tempo com tanta bobagem, aproveita pra estudar melhor. Ah! e olha: não quero pegar outra carta do André, viu?

O que eu vi é que a gente não tinha mais papo. Nem respondi. (p. 17)

Percebe-se, além da ausência de diálogo entre os familiares, a imposição dos mais velhos sobre os pequenos. Em outra carta a Lorelai, Raquel conta que, quando morava na roça, havia mais diálogo entre os familiares:

(...) Meu pai e minha mãe viviam rindo, andavam de mão dada, era uma coisa muito legal da gente ver. Agora tá tudo diferente: eles vivem de cara fechada, brigam à toa, discutem por qualquer coisa. E depois, toca todo o mundo a ficar emburrado. Outro dia eu perguntei: O que é que tá acontecendo que toda hora tem briga? Sabe o que é que eles falaram? Que não era assunto para criança. (p. 18)

A comunicação estabelecida por Raquel com os amigos imaginários surge como alternativa para atenuar a sua solidão. Amigos como André, no entanto, não correspondem às expectativas da menina, pois, após receber longas cartas da protagonista, limita-se a responder com palavras como "Dá" ou "Acho", acrescida de seu nome. No entanto, quando André escreve uma carta mais longa, fazendo algumas reflexões, esta se transforma em motivo para desentendimentos familiares, pois a irmã, quando faz arrumação no armário da caçula, encontra a carta em que consta uma combinação de fugir. A irmã, irritada, afirma que Raquel não tem jeito, dando-lhe um puxão de orelha. A pequena, porém, queixa-se aos pais e depois conclui: “(...) o pessoal ficou de novo contra mim, e eu comecei a desconfiar que a gente ser escritora quando é criança não dá pé. Desisti de escrever carta.” (p. 19). A oposição entre adulto e criança é constantemente levantada nas reflexões de Raquel: “Fiquei uma porção de dias pensando no meu pessoal pra ver se entendia porque é que eles zangavam tanto comigo. Acabei desistindo também: gente grande é uma turma muito difícil de entender” (p. 19-20).

Tomando o galo Rei, depois Afonso, amigo de Raquel, como uma projeção da personagem infantil, constata-se que a menina se rebela com sua família, rasgando "o galo Rei e a família esquisita que ele tinha", pois só lhe trouxera problemas. Na verdade, a família da menina é "esquisita", e a relação entre os membros precisa ser alterada. A obra apresenta, inclusive, outro modelo de família, interagindo harmonicamente: são os moradores da Casa dos Consertos.

A convivência entre os moradores da Casa dos Consertos é apresentada como ideal: todos desempenham as diversas atividades ali realizadas, revezando-se. Outro fator a destacar é a satisfação com que as pessoas executam as tarefas. Raquel leva a Guarda-Chuva - projeção do feminino - para ser consertada, pois estragou no tamanho pequeno, não possibilitando, simbolicamente para a criança, crescimento físico ou mental. Nessa casa, a menina encontra Lorelai, amiga imaginária, que conserta a Guarda-Chuva e lhe explica que as decisões, na sua família, são tomadas em conjunto, havendo horário para brincar, como também para resolver problemas, num exercício de democracia.

Na narrativa, a protagonista sofre gradações de humor. Raquel passa de "contentíssima" para "contente", porque descobre que nunca poderia entender a língua da Guarda-Chuva, e a decepção com a nova companheira intensifica-se, fica "superchateada" quando constata que a mesma enguiçou, não abrindo mais. Manifestações de raiva da menina também são contempladas pelo discurso da narradora. Além disso, percebem-se algumas características da personalidade de Raquel, a partir de suas palavras e atitudes frente a diversas situações, seja com relação ao seu universo imaginário, seja referindo-se a pessoas externas.

O vínculo da personagem infantil com outras famílias, como a de tia Brunilda, também é conflituado. Durante um almoço oferecido pela tia para a família de Raquel, a menina manifesta seu descontentamento pelo desvelo com que tratam a tia abastada. Ela chega a ficar muito irritada, porque todos ignoram a insistência do primo Alberto vasculhar a bolsa amarela:

— Tia Brunilda, diz pro Alberto parar com isso, sim?

Ela ria.

— Por favor, tia Brunilda.

...

— A senhora acha engraçado tudo o que o Alberto faz, não é? Ele pode fazer a maior besteira do mundo que a senhora acha graça.

Minha irmã fechou a cara:

— Não fala assim com a tia Brunilda.

— Ela não tá ligando a mínima o que o Alberto faz comigo, por que é que eu vou ligar pra ela?

— Raquel!

...

— Porque vocês tão sempre paparicando ela, é?

— Raquel, eu disse chega.

...

— Porque ela é rica, é?

— Eu disse che-ga! (p. 67-68)

A caçula não é ouvida na sua casa. O irmão e a irmã controlam-na ao ponto de Raquel não ter possibilidade de escolha. Quando a tia Brunilda manda "pacotes" para a casa da menina, ela não fica com nada. Se pede qualquer coisa, todos contestam:

—Ora, Raquel, a tia Brunilda só manda roupa de gente grande, não serve pra você.

— É só cortar, diminuir.

— Não adianta: mesmo diminuindo tudo continua com cara de roupa de gente grande.

— Roupa não tem cara.

— Tem, sim senhora.

(...) Aí, no dia em que a roupa pifava, a gente ajeitava daqui e dali, e a roupa ficava pra mim. Eu não dizia nada. Até que uma vez não resisti e perguntei:

— Quer dizer que quando a roupa pifa, pifa também a tal cara de roupa de gente grande? (p. 26).

Em relação aos brinquedos específicos da protagonista, não há referências claras, pois a menina refugia-se num mundo imaginário e ali alimenta suas fantasias. Seus companheiros não são crianças como ela, mas seres inventados, ou seja, objetos que adquirem vida. Bettelheim (1985), referindo-se a contos de fadas, mas podendo-se aplicar a outras obras infantis, afirma que para:

(...) a criança não existe uma linha clara separando os objetos das coisas vivas; e o que quer que tenha vida tem vida muito parecida com a nossa... Para a criança que tenta entender o mundo parece razoável esperar respostas daqueles objetos que despertam sua curiosidade. (p. 60)

Nesse aspecto, torna-se compreensível a relação de afinidade que Raquel estabelece com Afonso, Terrível, Alfinete de Fralda, Guarda-chuva, os moradores da Casa dos Consertos, Linha Forte e, principalmente, a bolsa amarela. Para a protagonista compreender o real, vale-se de personagens fantásticas (seres que lhe despertam a curiosidade) e, através de várias situações descritas, integra-se à realidade. Enquanto a criança não assimila conceitos abstratos, utiliza-se da vivência fantástica do seu mundo subjetivo, neste caso, o universo da bolsa amarela.

Assim, as relações da pequena com os demais membros da família são tensas. A oposição do adulto X criança se evidencia constantemente. Não há diálogo entre os pais, nem entre os filhos ou mesmo entre pais e filhos. A voz mais ouvida nessa estrutura familiar é a dos irmãos mais velhos, a do pai é inexistente. A dominação da irmã mais velha sobre Raquel é intensa, chegando à agressão física. Sabe-se que essa é uma forma de os mais velhos imporem sua autoridade sobre os pequenos, quando não possuem argumentos.

Raquel, porém, não aceita o autoritarismo exercido pela família e pela escola, questionando frequentemente as pessoas. Também observa as ligações com outros grupos, como o dos moradores da Casa dos Consertos, entre os familiares de tia Brunilda e as determinações dos proprietários dos galos Afonso e Terrível.

Quanto ao galo, observa-se que, conforme Chevalier & Gheerbrant (1993, p. 457-459), essa ave é o símbolo da altivez e também é considerada universalmente como um símbolo solar, porque seu canto anuncia o nascimento do sol. Assim, Afonso desperta em Raquel a possibilidade de liberar-se das normas pré-estabelecidas, uma vez que ele foge do galinheiro onde deveria ser o galo "tomador de conta de galinhas". Além disso, a relação do galo Afonso com outro grupo, que não é mais a sua família, possibilita a descoberta de sua identidade, bem como o alargamento de horizontes, permitindo uma convivência mais madura com a família original. Terrível, o galo briguento, cujo pensamento está costurado com Linha Forte, consegue, no final da narrativa, libertar-se de seu destino e torna-se livre. A coragem, característica atribuída aos galos pelos japoneses (1993, p. 457-459), é responsável pela vitória deles sobre as imposições determinadas pelo meio onde estão inseridos. Assim, evidencia-se uma necessidade de o indivíduo alargar seus horizontes para além da família, sendo que isso contribui, de forma decisiva, para a melhoria das relações familiares.

A coragem da narradora também contribui para as soluções dadas aos conflitos vividos pelos galos. Raquel é responsável pelo final da história do galo Terrível que, liberto da Linha Forte, pode, finalmente, ser livre e escolher seu caminho. Com o apoio das personagens imaginárias, a protagonista evidencia, com frequência, descontentamento com relação ao modelo social a que pertence e luta muito, a fim de reverter o quadro. Tais personagens mágicas projetadas por Raquel são solidárias entre si; já Alberto, filho de tia Brunilda, e os demais humanos que não pertencem ao universo mágico criado pela protagonista estão em constante competição.

A criança testemunha e participa da ação, registrando fatos que se sucedem. Isso se deve à coincidência existente entre a protagonista e a narradora da obra, que se caracteriza como autodiegética. Raquel, já no primeiro parágrafo da obra, inicia o relato de suas experiências, atuando como personagem central da história. Ela é a autora de sua história, sugerindo ao leitor que também pode construir sua história.

Quanto ao registro em primeira pessoa gramatical é apenas "uma consequência natural dessa coincidência narrador/protagonista" (Reis & Lopes, 1990, 252). Inicialmente, pode parecer que apenas uma voz será ouvida, mas isso não ocorre, pois o texto vai tomando caminhos diversos, permitindo a manifestação de outros pensamentos no discurso.

Essa postura democrática vai sendo construída, através de vários artifícios. Ora a narradora tem conhecimento superior às demais personagens da situação narrada, ora seu conhecimento é igual, ora é inferior, cedendo a palavra a uma personagem que assume seu papel, como ocorre quando Afonso reconhece Terrível:

Mal eu tinha andado um pouco, o Afonso berrou:

— Olha lá o Terrível! Vamos falar com ele, Raquel. - Ficou na maior agitação. - Você lembra de uma galinha gorda, toda branca, que morava lá no galinheiro?

— Sei.

— O Terrível é filho dela.

— Ele se chama mesmo Terrível?

— Chama (p. 52-53).

O jogo interno existente na construção da narrativa permite diferentes focalizações acerca de um mesmo acontecimento, que se traduz na presença de várias vozes, demonstrando divergências entre os pontos de vista que se cruzam na obra. Esse recurso se evidencia em vários momentos, mas principalmente pela comunicação estabelecida por bilhetes, possibilitando a alternância de voz entre Raquel, André e Lorelai.

Percebe-se, também, que a narradora abre espaços a outras narrativas dentro da primeira. É o que ocorre quando o Alfinete de Fralda é apresentado ao leitor. O capítulo em que Terrível vai embora também é interrompido para contar, no seguinte, como é que ele se torna galo de briga, relatando, paralelamente, a história de um Carretel de Linha Forte, que costura o pensamento do galo.

Apesar da diversidade de artifícios utilizados na construção do discurso e da não linearidade da história, o narrador mantém o controle da narrativa. Ele organiza as diferentes vozes que surgem, transitando livremente em várias instâncias temporais, pois relata fatos ocorridos na história, em tempo diverso ao da narrativa. Possui, também, autonomia para encaixar outros relatos ao primeiro, buscando enriquecê-lo. Assim, a figura do narrador é democrática, pois estabelece espaços para o leitor e propõe diálogo, uma vez que a criança, explicitamente, faz parte do enredo como personagem e da narração como narradora.

Raquel participa da trama através de seus conflitos. A ação está basicamente na introspecção que realiza para integrar-se ao meio social onde vive. Suas grandes vontades opõem-se a sua realidade, pois é menina, criança e não é escritora. Entretanto, é pelas alternativas criadas por ela mesma, como a correspondência fictícia e o diálogo estabelecido com amigos imaginários, que consegue aceitar-se como menina e criança e, desde já, escreve histórias. Aceitando-se como é e escrevendo, a personagem busca o autoconhecimento.

A narrativa parece ser simples, pois se trata de um texto claro, construído a partir de uma linguagem coloquial. Porém, a análise aqui realizada salienta que o texto possui muitos elementos simbólicos. A narrativa, além dos elementos mágicos que constroem a verossimilhança e que asseguram a organicidade dos nove capítulos, também contém inúmeras lacunas que devem ser preenchidas pela criança leitora. Exemplo disso é a cena em que o galo Rei foge da história que Raquel está criando e aparece, depois, na bolsa amarela. Assim, o leitor é chamado a participar da narrativa, tornando-se cúmplice da narradora: “A bolsa amarela não tinha fecho. Já pensou? Resolvi que naquele dia mesmo eu ia arranjar um fecho pra ela.” (p. 28) (Grifo nosso.)

Além da atuação da personagem infantil ser fundamental para a construção do enredo, a criança merece atenção especial enquanto leitora, uma vez que lacunas são preenchidas por ela, no momento da leitura. Essas lacunas possibilitam uma atuação mais significativa dos pequenos na narrativa, respeitando-os seja enquanto personagens, seja enquanto leitores. A criança, dessa forma, é apresentada como um elemento pensante, capaz de interferir na criação da sua história de vida. Trata-se da vez e da voz da criança na literatura infantil, desde que a leitura da literatura seja uma prática vivida nas práticas escolares.

 

Referências

CHEVALLIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 7.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

FARINA, Modesto. Psicodinâmica das cores em comunicação. 2.ed. São Paulo: Edgal Blücher, 1986.

NUNES, Lygia Bojunga. A bolsa amarela. 22.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1993.

REIS, Carlos, LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de narratologia. 2.ed. Coimbra: Almedina, 1990.

 

© Flávia Brocchetto Ramos 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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