A alternância lexical do Brasildeutsch

Clarice Nadir von Borstel

Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste - Brasil
cborstel@sigha.com.br


 

   
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Resumen: Estudios sobre el Brasildeutsch traen, aún, diversas discusiones y polémicas, cuanto al hablar de la lengua alemana en comunidades interétnicas. En nuestro país, principalmente en la región sur, en especial en la comunidad de Marechal Cândido Rondon, Paraná, aún ocurre en interacciones comunicativas de descendientes alemanes, el uso de neologismos léxico-fonémicos del hablar Brasildeutsch, en situaciones enunciativas de alternancia lexical, a través de yuxtaposición de ítems de la lengua alemana formal, de variables dialectales regionales del hablar materno vernáculo con el portugués brasileño. Objetivase, en este texto, discutir el término Brasildeutsch y su uso en items lexicales sobre instrumentos musicales, en situaciones enunciativas de descendientes de inmigrantes alemanes en esta comunidad de habla.
Palabras clave: Brasildeutsch; Items lexicales; Instrumentos musicales.

 

Introdução

A reflexão, aqui apresentada, é sobre a alternância de itens lexicais de instrumentos musicais do Brasildeutsch, em interações comunicativas bilíngues situacionais da língua alemã e portuguesa, por descendentes de imigrantes de origem alemã, que vieram para a comunidade de Marechal Cândido Rondon, Paraná, na década de cinquenta, do século XX. A originalidade e a inovação estão marcadas no léxico, configurando como um sistema que veicula manifestações de uma hibridização linguística de alternância de traços de dois códigos na interação comunicativa desse grupo de falantes.

As (i)migrações de grupos de falantes da língua alemã, no Brasil, de acordo com sua localização, além de interferirem no nível de desenvolvimento diferenciado em cada comunidade brasileira, dotaram-nas de marcas linguísticas e culturais particulares, que até os dias atuais se refletem na variedade linguística no país.

Antes de iniciar a discussão sobre o Brasildeutsch em comunicação verbal, é necessário apresentar estudos sobre o bilinguismo em situações sociolinguísticas. Utilizam-se os estudos sobre línguas em e de contato, quando se referencia estudos teóricos, conceituados por Heye (1986; 2003). Mesmo nas línguas mais estandardizadas existem variações linguísticas quando a diversidade dialetal pode manifestar-se na organização estrutural de uma dada língua, quanto às especificidades sociais, regionais, históricas, identitárias e culturais.

Heye (1986; 2003) trata os estudos sobre bilinguismo como um fenômeno relativo, levando em consideração alguns fatores que são responsáveis pela caracterização de situações bilíngues: a comunidade linguística; o status relativo aos falantes e às línguas; os papéis e as funções sociais; o tópico referente ao domínio linguístico e social, assim como as condições linguísticas formais ou informais culturais no qual o bilinguismo se desenvolve.

Quando se utiliza o termo hibridismo linguístico, reporta-se, sempre, ao conceito dado por Bakhtin. Na interlocução e interação comunicativa entre falantes que utilizam dois códigos linguísticos pode haver “uma hibridização involuntária e inconsciente, é uma das modalidades mais importantes da existência histórica e das transformações das linguagens” (Bakhtin 2002: 156). Ou ainda, segundo o autor, “pode-se realmente dizer que, no fundo, a linguagem e as línguas se transformam historicamente por meio da hibridização, da mistura das diversas linguagens que coexistem no meio de um mesmo dialeto, de mesma língua nacional [...]” (Bakhtin 2002: 156-157), em comunidades de fala de um dado grupo societal e plurilíngue, o que é demonstrado na enunciação, quando há a solidariedade linguística e cultural entre os mesmos.

Assim, apresentam-se, neste estudo, efetivamente, suas vivências e experiências culturais e profissionais, além de explorar os recursos disponíveis linguisticamente para a formação de novos itens lexicais do português e da língua alemã, criando e recriando novas palavras, unindo expressões linguísticas, semânticas e pragmáticas de seus sentimentos, de suas origens quanto ao falar interlinguístico no tempo, no espaço sócio-geográfico e familiar.

Portanto, analisam-se os itens lexicais sobre instrumentos musicais, identificados no recorte do corpus, na oportunidade de revisitar e interpretar dados antigos e novos para o presente estudo, ao lançar a alternância de itens lexicais do Brasildeutsch a esta reflexão, quanto à rotação que é própria à linguagem, ou seja, as leituras que possibilitam variados ângulos e trajetórias a respeito de fatores sociolinguísticos sob o viés da pragmática, quanto aos neologismos em situações enunciativas da alternância lexical de língua alóctone alemã e portuguesa nesta comunidade de fala.

 

O Brasildeutsch e situações pluriglóssicas de descendentes alemães

Defende-se que nesta comunidade de descendentes de alemães, ainda há uma variedade supra-regional, denominado de Brasildeutsch, considerando traços de contato linguístico da língua normativa alemã, mais os traços de seus diferentes dialetos regionais em contato com o português do Brasil.

Neste sentido, referencia-se o conceito dado por Heye sobre o Brasildeutsch,

Formou-se uma variedade “B” (Brasildeutsch), que tem como variedade superposta (“A”) o alemão padrão da Alemanha. O Brasildeutsch é uma variedade composta que compreende elementos do português, de um lado, e elementos dos dialetos alemães constituintes de outro (pomerano e outras formas de platt), e se formou através de vários processos de mistura e nivelamento desses dialetos, causados por interação social extensiva entre os membros dos diferentes grupos. O uso do Brasildeutsch é comum em conversas informais em família, entre amigos e colegas. O uso do alemão padrão se restringe a discursos formais (p. ex. em ofícios religiosos) e à escrita, de acordo com a diferenciação funcional [...]. (Heye 1986: 218).

Heye, desde a década de setenta, sob uma concepção sociolinguística teórica, discute com os estudiosos dessa área da linguística sob o enfoque da sociolinguística, as pesquisas empíricas in loco de línguas em e de contato, em Programa de Pós-Graduação Scricto Sensu e no GT de Sociolinguística da ANPOLL, os fatores de bilinguismo, bilingualidade, bidialetalismo e as situações diglóssicas do falar da língua alemã, de grupos de imigrantes e seus descendentes que se fixaram no Brasil.

Em uma comunidade de um determinado grupo linguístico, há uma condição particular e situacional de bilinguismo, quando os bilíngues adquirem espontaneamente dois códigos dentro de seu próprio grupo étnico. Estes usuários de códigos linguísticos manifestam sua bicompetência linguística, comunicativa étnica/cultural de forma dinâmica e criativa.

De acordo com o exposto, apresentam-se situações de diglossia, com base nos estudos de Kloss (1986). Em pesquisas posteriores ao conceito de Ferguson (1974), observou-se que a diglossia não existe apenas em línguas com parentesco próximo, mas, também, entre duas línguas sem parentesco próximo. Kloss, em seus estudos, de 1986, referiu-se a este aspecto com relação ao Guarani e ao Espanhol no Paraguai. Para que um novo conceito possa ser estudado (viabilizado) e, ao mesmo tempo, o conceito de Ferguson preservado, Kloss sugere que o conceito de Ferguson (1974), seja denominado de In-diglossia e, ao contrário, a relação correspondente entre línguas sem grau de parentesco próximo, de out-diglossia. No alemão, seria a Binnendiglossie ‘diglossia interna’ e Au bendiglossie ‘diglossia externa’ respectivamente. Ainda, na discussão de Kloss, a definição de diglossia deveria, pelo menos, de acordo com a intenção original de Ferguson (1974), e, depois de Fishman (1974), não só expressar uma divisão de trabalho, ou melhor, uma divisão de função entre duas línguas ou formas linguísticas, mas, ao mesmo tempo, expressar um alto grau de íntima interdependência simbiótica de ambas as línguas quanto ao uso que faz uma determinada classe social ou um grupo de origem étnica.

Para Kloss (1986), a diglossia, como uma sólida divisão de função entre os membros de um grupo, teoricamente, é apenas um caso especial de poliglossia, apesar da triglossia e a quadriglossia ocorrerem raramente. Um exemplo de triglossia seria, possivelmente, quanto à função de uso da língua materna Schwyzertütsch e o alemão padrão em muitas regiões pertencentes aos Rätoromanen. Outro caso seria a quadriglossia de funções, o uso de iídiche, hebraico, polonês e russo, no falar de muitos judeus na Polônia antes de 1914. Essas variações linguísticas foram observadas na região de Nordfriesland, na Alemanha, em que havia Nebeneinander e Miteinander em palavras de uso das línguas como um fenômeno de quadriglossia, logicamente, não tão estável como há anos atrás. O autor, também faz a diferenciação entre diglossia interna e externa e, neste caso, a diglossia pode ser estudada em várias comunidades bilíngues. Já, para a triglossia, é apenas um caso de exceção, pois, segundo a regra, para cada uma das três línguas envolvidas, há uma relação de diglossia interna e externa. Por exemplo, em Luxemburgo, existem a diglossia interna entre o luxemburguês e o alemão padrão, e a diglossia externa entre o luxemburguês e o francês. No entanto, existem exceções em que todas as línguas envolvidas estão relacionadas em diglossia interna, e outras, em que todas estão relacionadas numa diglossia externa.

Neste sentido, Kloss (1986: 148-149) diz que seria necessário ter cuidado com o uso de elementos que indicam o “bi” para referir-se ao bilinguismo e ao plurilinguismo. No uso de duas línguas, ocorre o bilinguismo, mais de duas línguas, o plurilinguismo e, a partir de três, com muitas variações, pode chegar a uma escala de classificação que se defronta com o monolinguismo.

A partir da discussão dada por Kloss (1986), pode-se dizer que na comunidade de fala investigada, a língua alemã não se restringe somente à diglossia, mas sim, a uma situação de pluriglossia, visto que os falantes teuto-brasileiros desta comunidade utilizam o alemão formal em discursos formais (em ofícios religiosos), o Brasildeutsch em situações informais (família, vizinhança, amigos e associações culturais) e o português brasileiro, tanto em discursos formais, como nos informais, com base em Heye (1978; 1986) e descrito por Borstel (1999).

A opção metodológica de investigação tem caráter emprírico, ou seja, fez-se um diagnóstico da vivência real de indivíduos organizados em grupos na comunidade. Desenvolveu-se uma pesquisa etnográfica social, na área da sociolinguística sob o viés da pragmática, em que duas técnicas são básicas para a coleta de dados: a observação participante que tem raízes nos estudos de Gumperz (1964; 1982) e num roteiro de entrevista com base em Labov (1986), para poder estudar a variação e a mudança linguística do falar alemão nesta comunidade de fala.

Ao se tratar de aspectos linguísticos do falar alemão, é necessário apresentar os fatores históricos, culturais e identitários deste grupo de base germânica. Estes vieram a partir de 1950, para esta região do Oeste paranaense, na qual se fixaram, e, são originários de várias regiões da Alemanha, Áustria e Suíça. Destes países, em funções de guerras, emigraram para outras regiões da Europa e da Rússia.

Os falantes do dialeto regional do Hunsrückisch (denominado, também, pelos descendentes de alemães de Hunsruechisch e, ou de Hunsbucklich) vieram, a partir da década de vinte do século XIX, para Estrela, Teutônia, Monte Negro, Santa Cruz, Lajeado e São Sebastião do Caí no Rio Grande do Sul e destas comunidades, a partir de 1950, para Marechal Cândido Rondon, Paraná. Descendentes esses do Hunsrück e, ou Hunsrueck, região que se situa no Oeste da Alemanha na Renânia-Palatinado (Borstel, 1992).

Segundo Barnert-Furst (1989), a literatura dialetológica alemã não menciona nenhum dialeto Hunsruekisch e, ou Hunsrückisch. Para a autora, há várias maneiras de subdividir o Bundesland Rheinland-Pfalz levando em conta os dialetos existentes na região. Fausel (1964) e Beckers (1980, apud Barnert-Furst, 1989) apresentam, em seus estudos, que a região de Bundesland Rheinland-Pfalz constitui-se dialetalmente por dois tipos do dialeto francônio: o Moselfraenkisch e o Rheinfraenkisch. O dialeto francônio diferencia-se pela quantidade de vogais utilizadas em uma palavra como em nee (nein: não - advérbio de negação), saan (sagen: dizer - verbo), no falar dos descendentes, há muitas vezes, a omissão do fonema /e/ e, ou do afixo [ge-] que caracteriza o particípio passado na maioria dos verbos da língua alemã como em kstorba (gestorben: morrer -verbo); o uso da vogal central pela posterior fechada como em (ja: sim - advérbio de afirmação), ocorre também a troca de consoantes oclusivas desvozeadas /p/,/t/,/k/ pelas vozeadas /b/, /d/,/g/, como em Putter (Butter: manteiga - substantivo), Taitsch (Deutsch: alemão - substantivo, grang (krank: doente - adjetivo).

Estes são alguns dos traços linguísticos de uma transcrição pseudo-ortográfica, observados em falantes do falar Hunsrückisch, moradores de Vila Iguiporã, Bom Jardim e na área urbana de Marechal Cândido Rondon. Exemplifica-se, também, com o enunciado de uma entrevistada em Borstel (1992: 158): “Non, mia hon in Pon Chardin gewon, yô, zehn yoa, won mia hia in Rondon” (Não, nós morávamos em Bom Jardim, sim, dez anos, moramos aqui em Rondon), podendo ser observado neste enunciado o ensurdecimento da consoante fricativa alveolar vozeada [ ] pela fricativa palatal desvozeada [ ] quando do uso do item lexical Jardim por Chardin, o uso deste traço fônico da língua portuguesa foi adaptado à estrutura fônica da língua alemã. Outra alternância fônica utilizada pelos falantes deste dialeto é o uso do não arredondamento de vogais /ü por i/ e /ö por e/. As vogais arrendondadas têm-se fundido com as vogais não arrendondas, como em Bricke (Brücke: ponte -substantivo) e schen (schön: bonito - adjetivo). Outra alternância fônica que ocorre no falar dos entrevistados, vem a ser uso da vibrante simples [ ] e, ou Tepes alveodental, em um item lexical em que deveria ocorrer a vibrante múltipla [r] e, ou a fricativa glotal [h], este falar observa-se em início de sílabas, final de sílabas e nas intervocálicas, ocorrendo o som vibrante alveolar vozeado, nesta comunidade de fala. Segundo estudos de Ruoff (1967, apud Russ 1990: 348), este fenômeno fônico é muito comum em cidades pequenas, na Suábia Central (Tübingen e Stuttgart), pois, conforme pesquisa desenvolvida, há falantes imigrantes, vindos de Stuttgart, Alemanha.

O termo Hunsrückisch tem esta denominação porque as comunidades de fala alemã, aqui no Brasil, assim se referem a essas características de traços de dialetos regionais do francônio e suas variantes linguísticas. Imigrantes que vieram da região do Hunsrück hibridizaram este falar desta região da Alemanha com outros traços linguísticos de dialetos regionais, como no caso com traços léxico-fônicos do falar alemão-suíço, quando algumas famílias que falavam esse dialeto vieram diretamente da região da Suíça para esta região do oeste do Paraná. Também hibridizaram o falar regional Hunsrückisch com o dialeto Suábio. O dialeto Suábio é falado pelos imigrantes alemães que vieram da região de Baden-Württemberg (Dettingen an der Erms, Tübingen e de pequenas cidades próximas a Stuttgart) para Panambi, RS. A primeira imigração deu-se, em 1905, e, uma nova imigração de alemães para Panambi, RS, ocorreu nos anos de 1921 a 1926. Os imigrantes Suábios e seus descendentes fixaram-se por vinte a trinta anos em Panambi. Na década de cinquenta, algumas famílias migraram para Marechal Cândido Rondon, PR, à procura de terras mais produtivas e novas oportunidades para os seus filhos (Borstel 1999).

Além destes traços dos dialetos regionais que caracterizam o falar Hunsrückisch, há, também, itens lexicais do Plattdeutsch (este termo é denominado pelos alemães por Platt ou Niederdeutsch - dialetos do baixo-alemão - segundo Lyons, 1987: 259; dialetos estigmatizados pelos alemães e seus descendentes). O termo Plattdeutsch ou Platt foi utilizado por entrevistados em Marechal Cândido Rondon que se denominavam de falantes do dialeto Pomerano, Vestfaliano e Deutschruss, dialetos que sofreram grandes transformações (fonêmicas, morfossintáticas, lexicais e semântico-pragmáticos) através de vários processos de emigrações, imigrações e migrações em várias regiões da Europa e em países tomados pela Ocupação Soviética. Depois, estes imigrantes de origem alemã vieram para várias regiões do Brasil, aqui, neste estudo, em específico, para esta comunidade de fala.

Os falantes do dialeto Pomerano, originários da Região Norte da Alemanha da antiga Pomerânia que vieram para Marechal Cândido Rondon, de religião evangélico-luterana (Igreja Missouri), nos anos de 1950 e 1960, migraram de São Luiz Gonzaga e Pelotas, RS para esta comunidade de fala alemã (Borstel 1992). Segundo Kolling (2000), os alemães fixaram-se em Três Vendas, um bairro de Pelotas, RS, em 1858, vindos da antiga região da Pomerânia. No final do século XIX, com a chegada de novos colonos, o grupo de alemães pomeranos foi se estendendo para Arroio do Padre, em 1887 e Morro Redondo, em 1892. Em pesquisa recente, Vandresen descreve que a população de Três Vendas

é predominantemente pomerana, formada por descendentes dos primeiros imigrantes e por famílias procedentes das comunidades do interior de Pelotas e municípios vizinhos. Por ser evangélico-luterano, o grupo pomerano de Três Vendas se mantém diferenciado dos demais moradores na organização religiosa e educacional. (Vandresen 2008: 39-40).

Ainda, de acordo com Vandresen (2008), acontece uma situação de bilinguismo: pomerano-português na região de Arroio do Padre, Pelotas, RS, havendo índices elevados de conservação deste falar, mostrando traços de homogeneidade linguística no falar destes falantes bilíngues. Estes possuem uma atitude linguística favorável ao uso do falar pomerano nas interações familiares.

Os falantes do dialeto Vestfaliano migraram de Estrela, RS, para esta comunidade, na década de sessenta, uma vez que os seus antepassados eram originários da região do Oeste da Renânia e do Norte-Vestfália, Alemanha (Borstel 1992).

Assim também, os descendentes de alemão-russos e alemão-poloneses vieram de Ijuí e outros lugares do Rio Grande do Sul e Santa Catarina para esta região do Oeste paranaense. Esses descendentes que têm origem alemã e são imigrantes poloneses e russos, denominam-se de Deutschruss, porque seus antepassados saíram da Alemanha, quando das guerras, para regiões de Ocupação Soviética e para a Polônia, e, depois vieram para o Brasil, conforme registros nas entrevistas de Borstel (1992; 1999).

De acordo com esta descrição, o Brasildeutsch evidencia-se na composição de uma hibridização de traços formais da língua alemã e de traços de dialetos regionais com o português brasileiro bidialetal. Inúmeros foram os fatores que levaram a esse fenômeno linguístico, mas um deles pode ter sido em função de casamentos que se realizaram, aqui no Brasil, com imigrantes de uma dada região com traços linguísticos de dialetos regionais diferentes que tiveram origem na língua alemã. Exemplifica-se o caso de um casal que veio de regiões diferentes da Alemanha. O Imigrante veio da Renânia do Norte-Vestfália, tinha quatro anos de escolaridade, denominava-se falante do Plattdaitsch, agricultor e nos dias de chuva fazia Holzschueh (Holzschuh: sapato de madeira) e, ou Holzschlape (Holzschlapen: chinelo de madeira), casou-se com uma imigrante que veio de uma pequena Vila chamada Loiba, próximo de Berlin, Alemanha. Depois da Primeira Guerra Mundial, esta região passou a pertencer à Polônia. A entrevistada denominava-se falante do “Gut Deutsch oder das richtiger Deutsch”, segundo ela, era falante do alemão padrão, tinha doze anos de escolaridade na Alemanha. Seu pai era militar, e, cotidianamente, a família tinha o hábito da leitura, lendo romances e jornais na língua alemã, de religião católica. O casal encontrou-se em Estrela, RS, ele veio, em 1923, ela em 1924, para o Brasil, casaram-se em Piratuba, SC. Filhas deste casal vieram na década de cinquenta para Marechal Cândido Rondon (MCR), e, em suas interlocuções no falar alemão, utilizam traços formais da língua alemã e traços do Plattdeutsch. Elas casaram-se na religião evangélico-protestante, com descendentes de imigrantes de segunda e terceira geração no Brasil, que vieram da região da Renânia-Palatinado, falantes do dialeto denominado de Hunsrückisch. (Observação Participante, em MCR, por Borstel, 1999).

A valorização do Brasildeutsch ocorre através das circunstâncias, de uma linguagem societal em interações comunicativas entre descendentes de alemães na família, nas interlocuções com amigos e vizinhos, nas atividades de Associações de Idosos, como no caso em festas religiosas e no culto na Igreja Evangélica Martin Luther (um domingo por mês há culto em língua alemã e o Coral Martin Luther apresenta os cantos na mesma língua). Através da observação participante, na comunidade, tem-se conhecimento que em outras Igrejas, os corais apresentam músicas na língua alemã. Damke (2009) fez uma pesquisa sobre o uso de letras musicais no tempo e no espaço sócio-histórico do falar da língua alemã na região, em que as músicas fazem parte da vivência e da identidade destes descendentes de origem alemã. As letras musicais na língua alemã estão muito presentes nos corais religiosos, municipais e de associações culturais de idosos na região.

Ainda, acontecem as interações comunicativas do Brasildeutsch no grupo. As expressões interlinguísticas são utilizadas pelos descendentes de alemães com uma formação de ritmos, tons tonais e entoacionais de uma inflexão de vozes familiares que se reconhecem nas interlocuções enunciativas destes na comunidade.

A partir da (i)migração destes alemães justifica-se o falar Brasildeutsch. Muitos destes descendentes falavam/falam a variável linguística de sua herança cultural (muitas vezes utilizando itens lexicais arcaicos, de base rural, do período em que vieram para o Brasil no final do século XIX e durante o século XX), utilizando os traços lexicais com informações fônicas, gramaticais de uma representação semântica e de uma (re)interpretação pragmática de seus dialetos regionais. Este processo ocorreu pela imigração externa da Alemanha, Áustria, Suíça, na década de sessenta, para esta região. Assim como também por migração interna do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina para o oeste paranaense (Marechal Cândido Rondon, Toledo, Nova Santa Rosa, Maripá, entre outras comunidades) que falavam o alemão formal, a língua alemã hibridizada com traços de dialetos regionais e o português bidialetal (Borstel 1992; 1999).

Em estudos recentes, Spinassé (2008) cita que “a denominação de ‘Brasildeutsch’ comete um nivelamento, despropositadamente, todas as variedades de base germânica em uma única categoria. Sendo Brasildeutsch’ uma língua de base germânica falada no Brasil, acaba-se por classificar o vestfaliano, o pomerano, o hunsrückisch entre os outros como uma coisa só” (2008: 121).

Quando se faz uma pesquisa empírica, sob o enfoque da observação participante, sob o viés da etnografia social, não se pode concordar com as colocações de Spinassé (2008).

Assim como também não, com as definições dadas por Damke, em 1997 e em 2008, que cita que o termo Brasildeutsch vem a ser uma mescla linguística partindo do falar Hunsrückisch, como pode ser verificada nos estudos do autor,

[...] O termo Hunsrückisch (para nós, BD) funciona, de tal forma, como sinônimo para o alemão no Brasil, de forma que esta variedade, à exceção de poucas colônias fechadas, pode ser designada como língua franca dos dialetos alemães falados no Brasil (Damke 1997: 46 - grifo do autor).

O autor retoma estudos sobre o termo Brasildeutsch, em 2008, quando diz que

O Brasildeutsch, a grosso modo, é uma variedade lingüística utilizada ainda com bastante intensidade pelos descendentes de imigrantes alemães no sul do Brasil (Damke, 1997). Basicamente é formada a partir da língua alemã, em especial partindo do Hunsrückisch que, por sua vez, é mesclado com elementos germanizados da língua portuguesa (Damke 2008: 116).

Damke, em seus estudos de 1997 e 2008, faz referência a Baranow, provavelmente, denomina o Brasildeutsch a partir do conceito dado pelo autor, quando o mesmo cita que os falantes transformaram os diversos dialetos alemães com o português ocorrendo o Brasildeutsch (Baranow 1973: 161). O autor denomina o Brasildeutsch como uma mescla de falares dialetais alemães com o português. A conceituação dada sobre o Brasildeutsch por Baranow (1973) é diferente da dada por Heye (1978; 1986). Portanto, Heye explica que há uma variedade supra-regional do falar de imigrantes e seus descendentes em algumas comunidades de fala alemã no Brasil, demonstrados e descritos sociolinguisticamente por Borstel (1999).

Como já foi referenciado, neste texto, o Hunsrückisch pode ser considerado um falar alemão, com fortes marcas dialetais da região da Renânia-Palatinado com traços de dialetos regionais da Alemanha e de outras regiões de países de língua alemã, no âmbito do léxico com informações fonológicas, morfossintáticas e semânticas de variáveis linguísticas. Este falar é utilizado por um grupo sociocultural, linguístico, e geográfico, relacionado diretamente à variação espacial (regionalismos do falar alemão) e à variação temporal (arcaísmos do falar alemão) com o português bidialetal, um falar alemão com uma forte hibridização linguística utilizado pelos imigrantes a partir da década de vinte do século XIX até o início do século XX, de uma herança linguística de aculturação e, ou de transculturação de geração a geração aos seus descendentes, um falar denominado de Hunsrückisch, Hunsruechisch e, ou Hunsbucklich, na região sul do país. Esta variação linguística, muitas vezes, é estigmatizada pelos imigrantes e seus descendentes, ocorrendo, às vezes, a desvalorização deste dialeto regional pelos próprios falantes.

Ao utilizar-se o termo Brasildeutsch, denominado por Heye (1978; 1986), não se está nivelando de uma forma fixa os traços formais da língua alemã e seus dialetos regionais de base germânica com o português bidialetal, e sim, mostrando a riqueza da hibridização linguística de uma representação semântica e de uma (re)interpretação pragmática que ocorreram/ocorrem em situações enunciativas pelos descendentes de imigrantes de origem alemã, como da descrição apresentada, podendo também ser denominado de pluriglossia, caracterizando os fatores sociais, geográficos, históricos, culturais e identitários deste grupo, nos enunciados com traços linguísticos formais da língua alemã com suas variáveis dialetais regionais e o português brasileiro bidialetal, apresentados e analisados no item a seguir, sobre a alternância de itens lexicais do Brasildeutsch na comunidade urbana de Marechal Cândido Rondon.

No momento, segundo estudos de Ammon, a língua alemã não é igual em todas as regiões dos países de língua alemã. O autor apresenta em seus estudos que “o alemão é uma língua pluricêntrica, até há pouco tempo acreditava-se que o ‘alemão certo’ teria o mesmo aspecto em todos os lugares, onde a língua fosse usada como oficial” (2009: 129). A partir de projeto de pesquisa realizado por um grupo de linguistas, coordenado por Ulrich Ammon e Hans Bickel, comprovaram a hipótese do alemão como língua pluricêntrica. Para Ammon,

A grande parte das diferenças em todos os níveis linguísticos e gramaticais provém dos respectivos dialetos, cujas formas evoluíram para o alemão padrão como empréstimos. Os limites dialetais não correspondem aos limites nacionais, o que ocasiona dificuldades na delimitação das variedades nacionais e dos dialetos. (Ammon 2009: 131).

Ainda, segundo o autor, a valorização das variantes do alemão mudaria drasticamente a questão do preconceito linguístico, as pessoas teriam uma liberdade maior em usar a sua variante regional vernácula, respeitando os aspectos sociais e culturais.

De acordo com a descrição do falar destes dois códigos linguísticos (alemão-português), apresentam-se os usos de itens lexicais de instrumentos musicais, utilizados por este grupo na comunidade de fala, os traços léxico-fônicos e prosódicos de uma discursividade enunciativa, sob uma abordagem semântica (a representação do significado) e pragmática (a representação interpretativa) destes itens lexicais, nesta comunidade de fala.

 

Os itens lexicais de instrumentos musicais do Brasildeutsch

O fenômeno de alternância lexical de dois sistemas de usos linguísticos é o que mais ocorre em comunidades bilíngues e, ou plurilíngues, isto é, quando os falantes, em suas interações comunicativas são solidários, e usam, voluntariamente, palavras emprestadas de uma para a outra língua, os neologismos. Este fenômeno de uso linguístico acontece pela comunicação oral do falante, quando este faz transferência linguística de itens lexicais da língua materna vernácula para a língua nacional, sob um processo lexical de informações fonológicas, sintáticas e semânticas de dois códigos do falar português-alemão, quando estes descendentes estão bem socializados em suas comunidades de fala.

O termo comunidade de fala, originalmente utilizado por Hymes (1967), como speech community, quando do uso de linguagem é conceituado como formas externas de regulamentação da comunicação verbal. Portanto, os eventos de fala, não são considerados o sistema e sim o uso linguístico na interação comunicativa entre os usuários de um determinado grupo sociolinguístico plurilíngue.

Em eventos de fala, em comunidades de falantes de língua alóctones, os neologismos, as unidades lexicais arcaizantes e informais da língua materna vernácula de origem étnica surgem de forma espontânea nas interlocuções dos falantes.

Ao tratar sobre neologismos, apresentam-se estudos de Alves, que diz que “as unidades lexicais de caráter neológicos estabelecem relações com os diferentes níveis da língua” (2007: 78). A autora ainda considera “neológicas as unidades lexicais (formalmente novas ou que recebem um novo significado) criadas em um determinado momento histórico-social, que, em função de diversas razões (necessidade de nomeação de objetos ou fatos novos, sobretudo) determina essa criação” (2007: 78).

Portanto, neste estudo, têm-se o léxico com informações fonológicas, morfossintáticas, semânticas e pragmáticas, de dois códigos linguísticos: a língua alemã formal com seus traços dialetais regionais e o português brasileiro do sul do país (Borstel 1992; 1999; 2003; 2006; 2009). Os itens lexicais, utilizados pelos falantes, foram criados em um determinado momento: social, geográfico e histórico, quando esses descendentes de alemães, nomeavam objetos e fatos quando de suas interações comunicativas como uma forma de solidariedade linguística com seu interlocutor.

Neste sentido, Frubel e Isquerdo (2004) mostram os aspectos lexicográficos e socioculturais regionais, isto é, ao “descrever um léxico regional implica levar em consideração a questão da variação as marcas dialetais no âmbito do vocabulário de um grupo sócio-lingüístico-cultural relacionam-se diretamente à variação espacial (regionalismos) e à variação temporal (arcaísmos)” (Isquerdo 2003, apud Frubel; Isquerdo 2004: 153-154).

Nesta comunidade de fala de português-alemão, entre os descendentes, as unidades lexicais dos dialetos regionais do falar da língua de origem étnica estão muito presentes, no tempo e no espaço societal e linguístico. Isso é o que mais acontece quando os falantes bilíngues, em suas interações comunicativas, usam de forma espontânea e solidariamente, palavras emprestadas de uma para outra língua.

Nas enunciações a seguir, pode-se constatar esta hibridização linguística social, geográfica, histórica e cultural pelos teuto-brasileiros, na comunidade de fala:

(01) Ja Violin... und Mundgaita, ja das kann ich auch spielen... dass man konnt mit Gaita, Ziehhormonika und Mundgaita auch und... und Piston auch gespielt... Jetzt sind da die große Conjunts, wie man sachen tut, meine alle vier Kinder spielen... ein spielt Ziehharmonika und Gaita-Piano,... und der... spielt Violon auch etwas,... der zweite spielt Flauta... Flöte... und die dritte, die spielt Piano, ja Klavier... und Flöte, und auch Violon ... (Sim, violino... gaita de boca, sim... isto eu também sei tocar..., pode-se tocar com a gaita, acordeão e gaita de boca e também... um pistom, também tocava... Agora tem os grandes conjuntos, como se diz..., Todos os meus quatro filhos tocam instrumentos... um toca acordeão e órgão,... também toca um pouco de violão,... o segundo toca flauta... e, a terceira, ela toca piano... e flauta...). (Entrevistado de MCR- SH, Borstel 1999).

(02) Ja, hat Violin gespielt und auch Piston... Immer gesungen, ja. Mein Vater war iberhaupt ein... für das Singen so gewesen ... der ist kein Tag nich frieh aufgestanden, wo’ra nich gesungen hat … (Sim, tocava violino e também pistão... Sim, sempre cantava. Meu pai sempre estava pronto para cantar... não tinha tempo feio para ele cantar...). (Entrevistado de MCR - EH, Borstel 1999).

(03) Heute Nachmitag der Chor hat gesungen in der Congregacional Kirche und eine Frau hat Tecladu gespielt… das wa sehr schön… aber so schön… (Hoje à tarde o Coral cantou na Igreja Congregacional e uma mulher tocou teclado... isto foi muito bonito... mas muito bonito...). (Observação participante em MCR - LDB, Borstel 2009).

(04) In unsere Marthin Luther Kirche, haben ein kleine Musical Conjunt, die Jungen spielen in unsere portugiesisch Gotesdienst mit Tecladu, Bateri und mit die Flöte … das ist sehr schön ... (Em nossa Igreja Martin Luther, tem uma pequena Banda Musical, os jovens tocam no culto em português com teclado, bateria e flauta... é muito bonito). (Observação Participante em MCR - RS, Borstel 2009).

Nestes enunciados, podem ser observados quando os usos de itens lexicais sofrem um processo de alternância linguística. Isso, também, é referenciado por Bußmann quando cita que o léxico linguístico sofre um “processo de modificação de itens lexicais no sistema lingüístico com o passar do tempo” (2002: 638-639), aqui, no caso nos dois códigos. Neste estudo, somente foi observado o fenômeno de usos linguísticos de unidades lexicais em situações enunciativas do falar sobre os instrumentos musicais, quando acontece um processo de hibridização linguística e cultural de traços da língua alemã e portuguesa, como pode ser verificado a seguir.

Bateri, este item lexical, no enunciado (04), ocorreu um processo de transformação vocálica da vogal central aberta final no ditongo [bateria] do português, para a simplificação de um ditongo em uma vogal [bat ’ri:] da língua aelmã, quando houve um processo de monotongação para um longo [ :]. Esta palavra Batterie faz parte do vocabulário da língua alemã formal. A sua representação semântica vem a ser bateria recarregável e, ou pilha. Para o entrevistado, o item lexical Baterie tem o significado de instrumento musical, ou seja, “um conjunto de instrumentos de percussão, utilizado em bandas ou orquestra, constituído de bumbo, caixa, tarol e pratos, tocado por um só executante” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 416).

Conjunts, este item lexical, no enunciado (01), sofreu a supressão do segmento vocálico da vogal posterior alta não arredondada, ocorrendo o processo linguístico de dissimilação eliminadora e a representação semântica de “Conjuntos Musicais” por Bandas Musicais. No enunciado (4), o falante também utilizou a expressão nominal Musical Conjunt por Banda Musical. Este termo ou expressão nominal, hoje, é considerado arcaico, pelos jovens.

Flöte, a unidade lexical utilizada pelo entrevistado, no enunciado (01), com o traço fônico da língua alemã [fl t ]. Flauta (transversal) vem a ser um instrumento de sopro em forma de tubo cilíndrico de madeira, metal ou plástico, fechado em uma de suas extremidades. No instrumento musical flauta tem-se o bocal ou porta lábios, o corpo ou articulação central, contendo o sistema de chaves e a última parte o pé, com as chaves para o dedo mínimo. O controle do som emitido pela flauta é feito pelos lábios. A flauta orquestral é afinada em dó. (Houaiss; Villar; Franco 2001; Cunha 1982).

Gaita-Piano, esta expressão nominal, no enunciado (01), tem a junção do item lexical gaita mais o item piano, que para o entrevistado vem a ser o teclado. Esta unidade implica em uma transformação e reinterpretação de itens semânticos do português, que tem origem do instrumento musical teclado. “Conjunto de teclas de um instrumento musical” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 2683). No enunciado (03) como no (04), os entrevistados utilizaram a unidade lexical Tecladu. Neste item, pode ser verificado que a vogal posterior final sofreu supressão do segmento vocálico da vogal posterior alta, não arredondada, ocorrendo, também, o processo linguístico de dissimilação eliminadora, na língua alemã, denominado de Eletrische Klavier ou Klaviatur (Hoepner; KOLLER; Weber, 2001: 480 e 904).

Klavier, este item lexical utilizado no enunciado (01), com o traço fônico da língua alemã [kla’viir] - (Hoepner; Koller; Weber 2001: 904). O verbete piano é um “instrumento de teclas com cordas percutidas por martelos revestidos de feltro. Etimologia do francês, em 1774” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 2205).

Mundgaita, este exemplo ilustra muito bem a alternância lexical do falar coloquial da língua alemã Mund com o traço fônico [munt], significando boca, em um processo de junção do item lexical gaita da língua portuguesa. Os traços fônicos da consoante oclusiva vozeada para desvozeada [t > d] impõem-se como uma das marcas regulares de certas distinções gramaticais, ocorrendo a alternância fônica de dialetos regionais da língua alemã para os falantes do português, descendentes que têm origem alemã. A alternância fonêmica é favorecida pela existência de traços de neutralização pela oposição da sonoridade de fonemas vozeados para desvozeados. Estas mudanças de casos de neutralizações de variedade dos falares da língua alemã são confirmadas pelos estudos de Engel (1954, 1961, 1984 apud Russ 1990: 345). No uso do dialeto Suábio, estes fenômenos linguísticos são muito comuns, ainda hoje, em cidades na Suábia Central (Tübingen e Stuttgart). Estes mesmos traços de variações linguísticas, também foram descritos e analisados nas investigações de Borstel (1999), sobre línguas em contato no falar do Brasildeutsch (a hibridização linguística do português brasileiro, com a língua culta alemã, seus vários dialetos regionais trazidos da Alemanha e de regiões dos países de língua alemã). O entrevistado, no enunciado (01), fez uma junção da expressão nominal do português: gaita de boca. Este termo, também, implica na transformação de um item lexical da língua materna vernácula com um item do português, ocorrendo uma (re)interpretação semântica da expressão nominal gaita de boca do português. Este item lexical é denominado de harmônica, isto é, “um instrumento musical de lâminas percutidas, sejam estas de aço, bronze, ferro, madeira, vidro, etc. O instrumento foi inventado na Alemanha por B. Franklin, em 1765” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 1506).

Piston, utilizado pelos entrevistados, nos enunciados (01) e (02), é instrumento musical, também denominado de trompete. Instrumento de sopro normalmente de metal, foi desenvolvido a partir de uma peça de madeira perfurada, dotado de um tubo cilíndrico estreito o qual se alonga até uma campana cônica em forma de sino. O som é produzido através de um bocal em forma de taça pela vibração dos lábios. O instrumento musical é composto por três válvulas que produzem as notas musicais (Houaiss; Villar; Franco 2001; Cunha 1982).

Violin, este item lexical na língua alemã tem o traço fônico [vio’lin ]; porém no falar do entrevistado, no enunciado (01), ocorreu o processo linguístico por apócope, ou seja, a supressão do segmento vocálico da vogal central meio fechada [ ]. Vem a ser um “instrumento musical cordófono, de madeira, com quatro cordas, executado com arco e desenvolvido no século XVI” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 2866).

Violon, este item lexical do enunciado (01), sofreu uma transformação do ditongo nasal [-ão] para [-on], o ditongo sofreu uma nasalização vocálica. Este processo de alternância fônica nasal do português para o falar alemão ou vice-versa, é muito utilizado nas interações comunicativas destes falantes na comunidade (Borstel 2006: 292). O violão é “um instrumento de cordas dedilháveis, com caixa de ressonância em formato semelhante a um oito, com seis cordas, de diferentes materiais” (Houaiss; Villar; Franco 2001: 2866).

Ziehharmonika, este item é também denominado de Akkordeon na língua alemã. Este último, “é um termo criado pelo inventor alemão Damian Akkordion, em 1829” (Cunha 1982: 11), conhecido no português como acordeão. Quando da entrevista, perguntou-se ao entrevistado se tinha conhecimento da palavra Akkordeon, da língua alemã, respondeu que sim, mas preferia usar a palavra Ziehharmonika, que representa uma sonorização musical perfeita em sua língua materna vernácula.

As unidades lexicais do português como da língua alemã e os seus traços de dialetos regionais são introduzidos nas falas destes entrevistados, estes itens lexicais ilustram muito bem o Brasildeutsch destes descendentes de alemães, em um bilinguismo relativo e, ou situacional, devido ao fato de referirem-se as coisas ou situações com as quais se confrontam no seu cotidiano familiar, profissional e pela alta frequência de uso destes termos nos dois códigos que fazem parte da experiência de vida em suas situações enunciativas no contexto familiar, social e cultural.

O primeiro e terceiro enunciados são de falantes em torno de setenta a oitenta anos de idade, de primeira e segunda geração de alemães, no Brasil, tiveram quatro anos de escolarização, o falante do enunciado (01) nasceu em Panambi, RS e, a falante do enunciado (03) nasceu em Piratuba, SC, vieram para a comunidade no início da década de cinquenta. Os pais eram agricultores. Os dois sempre foram participantes de corais de igreja e de associações culturais. A entrevistada do enunciado (02) tem quarenta e três anos de idade, nasceu em Marechal Cândido Rondon, os pais vieram de Panambi, RS. O falante do enunciado (04) tem sessenta anos de idade, nasceu em Estrela, RS, migrou para Marechal Cândido Rondon, no final dos anos cinquenta. Os entrevistados dos enunciados (02) e (04) são filhos de comerciantes, de terceira geração no país, com curso superior, aprenderam a língua materna vernácula de origem no contexto familiar.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para finalizar a descrição deste estudo sobre transferências de alternâncias de itens lexicais de dois códigos linguísticos (alemão-português), apresentados sob o ponto de vista léxico-fonológico, de uma representação semântica e de uma (re)interpretação pragmática, este falar da língua alemã na comunidade ainda se mantém de geração a geração, depois de quase dois séculos no Brasil.

Em estudos de Barnert-Furst (1989) e na descrição de pesquisas que foram desenvolvidas no país, sobre o falar alemão, Borstel (2006), apresentou que os traços lexicais com informações morfossintáticos foram os mais atingidos pela influência da língua portuguesa, sendo que estes itens lexicais requerem um maior domínio e uma base mais sistemática da língua alemã.

Do ponto de vista lexical, com informações semântico-pragmático, constatou-se uma grande transferência do meio-ambiente profissional, social e cultural no falar destes entrevistados. Portanto, a estrutura linguística não é mais o falar dialetal e os traços formais da língua alemã em sua forma original, mas sim, um falar hibridizado, de traços linguísticos de dialetos regionais, sociais, familiares e culturais de dois códigos. Os enunciados, na comunidade, ainda se apresentam como uma variante linguística supra-regional que caracteriza o Brasildeutsch, e, não uma nova língua e, ou um pidgin como é discutido por alguns estudiosos na área de contato linguístico da língua alemã e de seus dialetos regionais com o português brasileiro, como pode ser visto no corpus analisado, que ainda trazem os traços linguísticos com características pluricêntricas da língua alemã.

Em estudos mais recentes, há inúmeras pesquisas empíricas do falar alemão no país, em que os pesquisadores argumentam que o alemão falado em comunidades de fala de descendentes de alemães, vem a ser um regionalismo brasileiro e não simplesmente traços da língua estrangeira (alemã), podendo, sim, ser considerado um regionalismo do falar alemão no Brasil. Portanto, vale ressaltar que nesta comunidade de fala há muitos teuto-brasileiros que aprenderam a língua de origem no contexto familiar. São de várias regiões de (i)migrações, que têm sua origem em ambientes e, ou localidades rurais e moradores de áreas urbanas, com poucos anos de escolarização, como também falantes com curso superior, utilizando em suas interlocuções a alternância de itens lexicais do Brasildeutsch nas interações comunicativas entre grupos de famílias, amigos, vizinhança e associações culturais que é passado de geração a geração, nestes quase dois séculos que vivem no Brasil, em um processo de intimidade e solidariedade entre os falantes.

 

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© Clarice Nadir von Borstel 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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