Espéculo

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Neusa Salim MIRANDA

Construções do Português do Brasil:
da gramática ao discurso

  

 

Silvia Raquel Rocha* (UNISC)

O livro Construções do Português do Brasil: da gramática ao discurso, organizado pelas Professoras Neusa Salim Miranda e Maria Margarida Martins Salomão, ambas docentes do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, foi publicado pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, neste ano de 2009, e representa uma mostra do trabalho investigativo realizado na última década por um amplo projeto do Grupo de Pesquisa Gramática e Cognição do Programa de Pós-Graduação a que as professoras organizadoras estão vinculadas.

A obra apresenta o trabalho de docentes e alunos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFJF, que está articulado com o paradigma da Linguística Cognitiva, desenvolvido na Califórnia. O Programa tem uma perspectiva não apenas social como também cultural e interacional sobre a cognição e a linguagem, ou seja, prioriza uma abordagem sociocognitivista. O livro está organizado em quatro partes que englobam quatorze capítulos, assim distribuídos:

Parte 1 - O Estado da Arte - está subdividido em dois capítulos, quais sejam: a) Capítulo 1 - Teorias da linguagem - a perspectiva sociocognitiva; b) Tudo certo como dois e dois são cinco - todas as construções de uma língua - ambos de autoria da Profa. Maria Margarida Martins Salomão. No primeiro capítulo, ela apresenta os fundamentos do programa sociocognitivista, demarcando as dissidências desse modelo em relação ao projeto cognitivista chomskiano. No segundo capítulo, a autora reivindica para a Gramática das Construções o estatuto de uma teoria capaz de encarar o desafio de descrever todas as construções de uma língua, incluindo as periféricas e excluídas.

Os demais capítulos são de natureza analítica e resultam de dissertações orientadas pelas organizadoras do livro, distribuídas da seguinte forma:

Parte 2 - Construções Sintáticas - subdividida em quatro capítulos, quais sejam: a) Capítulo 3 - O enquadre gramatical da interdição ou "para bom entendedor meia palavra basta", de Lucilene Hotz Bronzato, artigo em que, a partir de evidências empíricas sobre um caso de alteração da valência verbal, a autora argumenta em favor da existência de uma construção gramatical do PB, chamada de Construção Gramatical de Interdição; b) Capítulo 4 - A Construção da Ação Rotineira no Português do Brasil, de Maristela Ferreira. Este capítulo apresenta um reexame do fenômeno da incorporação nominal do verbo em construções do tipo "buscar menino no colégio, pular carnaval na Bahia e jogar lenha na fogueira", confrontando duas análise e soluções distintas para a mesma questão teórica; c) Capítulo 5 - A construção de dativo com infinitivo - O homem vai botar uma casa pra mim morar... eu nunca pensei nisso, de Tiago Timponi Torrent. Este capítulo propõe uma análise contrastiva entre a abordagem formalista e a cognitivista centrada no uso para construções do tipo "pra mim fazer"; d) Capítulo 6 - Um estudo sobre construções condicionais no Português do Brasil", de Walkyria Scio Bezerra e Fernanda Aparecida Raposo Meireles. O artigo apresenta uma análise das condicionais no Português do Brasil (irradiação semântica das construções temporais como construções condicionais e processos de mesclagem e de posicionamento epistêmico nas condicionais contrafactuais).

Parte 3 - Construções Lexicais - subdivide-se em três capítulos situados no campo da morfologia semiprodutiva: a) Capítulo 7 - Uma abordagem sociocognitiva das construções agentivas X-eiro - jardineiro, micreiro, torradeira, laranjeira, nevoeiro, bobeira, de Laura Silveira Botelho, nega o caráter polissêmico da rede construcional lexical X-eiro, motivada figurativamente, por elos metafóricos e metonímicos; b) Capítulo 8 - A configuração da rede de construções agentivas denominais X-ista, de Crysna Bonjardim da Silva Carmo, descreve as condições de armazenamento e recorrência das formações agentivas X-ista, explicando os elos de motivação e herança que configuram essa rede lexical; c) Capítulo 9 - A rede de construções agentivas deverbais X-nte - estudante, governante, hidratante, absorvente, de Ana Maria Tavares dos Santos, descreve e explica a configuração dessa rede.

Parte 4 - Construções Discursivas - subdividida em cinco capítulos: a) Capítulo 10 - As construções condicionais universais proverbiais no Português do Brasil - quem desdenha quer comprar, quem semeia vento colhe tempestade, de Izabel Teodolina de Jesus, avalia, em termos discursivos, os provérbios como macroatos de linguagem e considera os traços peculiares da cultura que os mantêm vivos e produtivos em nossos repertórios de construções; b) Capítulo 11 - Uma abordagem construcional dos gêneros textuais: o caso do gênero piada, de Glauce Soares Fernandes. A autora estende o escopo da Gramática das Construções à análise do discurso, examinando o conceito de construção para o entendimento dos processos de integração formal, conceptual e pragmática no domínio dos gêneros discursivos; c) Capítulo 12 - A cognição e o disse-me-disse jornalístico, de Luiz Fernando Matos Rocha, discute usos jornalísticos do discurso direto, sob o enfoque da teoria da mesclagem; d) Capítulo 13 - Os dêiticos espaciais como instrumento de orientação e atenção, de Carmen Rita Guimarães Marques de Lima. O trabalho contribui para a confirmação da inviabilidade de estudos pautados numa visão estática do contexto interativo, discutindo estratégias linguísticas mobilizadas pelos interactantes para negociar o foco atencional; e) Capítulo 14 - O processo de referenciação em contexto de aprendizagem de Língua Estrangeira, de Regina Célia Martins Salomão Brodbeck, analisa as operações sociocognitivas mais eficientes no processo de aquisição de L2, com base na teoria dos espaços mentais.

As trezentas e oitenta e nove páginas desta obra nos remetem a construções do Português do Brasil menosprezadas por outros estudos formais da gramática. Conciliar a face pragmática, semântica e formal das unidades que instituem o nosso sistema linguístico, na perspectiva construcional da gramática, do léxico e do discurso é o objetivo do trabalho apresentado.

 

© Silvia Raquel Rocha 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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Espéculo. Revista de estudios literarios
(Universidad Complutense de Madrid) 2010