O individuo na biografia e na autobiografia:
uma perspectiva sociológica

José Carlos da Costa

Universidade Estadual do Oeste do Paraná- UNIOESTE
costajcc@hotmail.com


 

   
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Resumen: Resumo: Neste estudo desenvolve-se uma reflexão sobre a biografia e a autobiografia como manifestações sociais e culturais, demarcando suas relações com o individualismo como expressão singular do indivíduo moderno, inserido num contexto social determinado. O trabalho é amparando em estudos de teóricos da sociologia, da antropologia cultural e social e de autores referenciais da história, sob a ótica da “nova história” e da literatura. O objetivo do estudo é delimitar o espaço de desenvolvimento das narrativas fundadas na “escrita do eu” e compreendê-las enquanto produto de relações sociais e culturais típicas que postulam uma verdade particular, mas que carregam um alto grau de ficcionalidade.
Palavras-chave: biografia, autobiografia e ficção, individualismo.

Abstract: The Individual in Biography and Autobiography: A Sociological Perspective. In this study it is developed a reflection about the biography and the autobiography as social and cultural manifestations, defining their relations with the individualism as a singular expression of the modern individual, inserted in the specific social context. The work is based on studies from Sociology scholars, of the social and cultural Anthropology and the reference authors in the history, from the perspective of the "new history" and literature. The aiming of this study is delimitate the area of the narratives development based on the “writing about myself” and understand them while product of social and cultural typical relations that postulate a particular true, but that carry a high degree of fictionality.
Key words: Biography, Autobiography and fiction, Individualism.

 

Introdução

Cogito, ergo sum.
Descartes

 

Este estudo propõe uma reflexão sobre a biografia e a autobiografia como locos de manifestação do indivíduo, enquanto ser social, mas que ao mesmo tempo demarca sua percepção de si e define sua postura. A pesquisa busca a compreensão da concepção de indivíduo em estudos da antropologia histórica, cultural e social, mas também de outros trabalhos que dão suporte ao estudo das manifestações da “memória” individual e social, em suas diversas modalidades, particularmente das biografias e as autobiografias.

O tema apresentado tem despertado bastante interesse, como matéria de pesquisa, associando-se a uma ampla gama de objetivos e a diversos campos da ciência e do conhecimento humano: da história à literatura e da psicologia à sociologia. Neste sentido, foi estabelecido como objetivo desenvolver uma reflexão capaz de ir de encontro aos elementos motivadores da produção biográfica ou autobiográfica, reconhecendo a razão definida para esse interesse na necessidade de compreensão do indivíduo, de suas relações com o meio e de suas ações no interior de seu grupo social.

O grande volume de produções contemporâneas fundadas na escrita do eu são percebidas pelo historiador Jaques Le Goff, no contexto da história nova, como uma busca do homem contemporâneo para “escapar da angústia de tornar-se órfão do passado”. (LE GOFF, 2001, p. 51), É nesse movimento de retomada e preservação de suas raízes que o homem, focando-se num ponto do tempo e do espaço, rememora. A narrativa autobiográfica é a voz de sua rememoração que, ao trazer para o presente os fatos de seu passado, recompõe sua experiência como indivíduo e manifesta a imagem que tem e quer fixar de si.

 

A noção de pessoa e a formação da ideia de indivíduo

A autoafirmação do indivíduo e as suas relações com o meio constituem temas fundamentais do conjunto das ciências sociais contemporâneas. É buscando compreender alguns aspectos dessa postura do homem contemporâneo e de suas relações com o meio que este trabalho pontua, como primeira reflexão, a noção de pessoa, tal como desenvolvida por Marcel Mauss em seu trabalho Sociologia e antropologia (1950). Procurando acompanhar o desenvolvimento da idéia do “eu”, Mauss estuda esse conceito a partir da “história social das categorias do espírito humano” e pretende que se reconheça a sua trajetória até o momento em que se torna claro nas civilizações, embora não em todas.

Como tema da história social, o autor discute “a série de formas que esse conceito se revestiu na vida dos homens em sociedade, segundo seus direitos, suas religiões, seus costumes, suas estruturas sociais e suas mentalidades”. (MAUSS, 1974, p. 211).

Este trabalho do antropólogo e sociólogo Marcel Mauss inicia por um estudo da noção de personagem, que precedeu a noção de pessoa, a partir dos índios Pueblo (Sudoeste americano), entre os quais encontra já uma primeira definição para esse conceito, identificando as pessoas com seus papéis sociais no interior do clã. Entre os Pueblo, “de um lado, o clã se considera constituído por um certo número de pessoas, na realidade de personagens e, de outro lado, o papel de todos esses personagens é realmente o de figurar, cada um na sua parte, a totalidade prefigurada do clã”. (MAUSS, 1974, p. 215).

Nesse grupo, Marcel Mauss não reconhece um destaque do indivíduo em relação ao outro ou ao clã e observa que

[...] as vidas dos indivíduos motrizes dos clãs e das sociedades superpostas aos clãs, asseguravam não só a vida das coisas e dos deuses, como a ‘propriedade’ das coisas e que asseguram não só a vida dos homens, na terra e no além, como ainda o renascimento dos indivíduos herdeiros únicos dos portadores de seus prenomes. (MAUSS, 1974, p. 215).

Nesse sentido, a percepção da pessoa é delimitada pelo papel social do indivíduo no interior do clã e também por um nome (prenome) que os distingue, pois

[...] entre os pueblo já se divisa uma noção de pessoa, do indivíduo confundido no seu clã, mas já destacado dele no cerimonial, pela máscara, pelo título, por sua posição, seu papel, sua propriedade, sua sobrevivência e seu reaparecimento na terra em um de seus descendentes dotado da mesma situação dos mesmos prenomes, títulos, direitos e funções. (MAUSS, 1974, p. 216).

Do conjunto estudado, a partir dos índios Pueblo, de grupos indígenas americanos e de nativos australianos, Mauss conclui que: “Um vasto conjunto de sociedades alcançou a noção de personagem, de papel que o indivíduo preenche em dramas sagrados como desempenha um papel na vida familiar”. (MAUSS, 1974, p. 223).

A Índia, segundo Mauss, “foi a mais antiga civilização a ter noção de indivíduo, de sua consciência, do ‘eu’” (MAUSS, 1974, p. 225). Quanto à China, afirma que “Ainda hoje, em nenhuma outra parte se tem mais em conta o indivíduo, particularmente o seu ser social e em nenhuma outra parte ele é mais firmemente classificado”. (MAUSS, 1974, p. 226). Para a civilização latina, embora o sentido original de persona fosse exclusivamente máscara, tornou-se um fato fundamental do direito romano que, como tal, levou à persona civil e ao pleno direito de cidadania que obtiveram todos os homens livres. (MAUSS, 1974).

O desenvolvimento da noção de pessoa acompanha a evolução da

[...] palavra persona, personagem artificial, máscara e papel de comédia e de tragédia, da trapaça e da hipocrisia - estranha ao ‘eu’ - prosseguiu sua marcha. Mas o caráter pessoal do direito estava estabelecido e persona tornou-se também sinônimo da verdadeira natureza do indivíduo. (MAUSS, 1974, p. 231).

Pela influência grega, a palavra é acrescida, de uma “consciência moral (que) introduz a consciência na concepção jurídica do direito”. (MAUSS, 1974, p. 234).

Mauss encontra ainda uma base metafísica na noção de pessoa, produto do cristianismo. Para o autor, “Foram os cristãos que fizeram da pessoa moral uma entidade metafísica, após sentir-lhe a força religiosa”. (MAUSS, 1974, p. 235). No debate sobre a unidade de Deus figurado na santíssima trindade e da unidade nas duas naturezas de Cristo, desenvolveu-se a noção de um a partir da qual a noção de pessoa foi criada, “penso que a propósito das pessoas divinas, mas, ao mesmo tempo a propósito da pessoa humana, substância e forma, corpo e alma, consciência e ação”. (MAUSS, 1974, p. 236).

Entretanto, a noção de pessoa “deveria sofrer ainda mais outra transformação para tornar-se o que é desde um século e meio, mais ou menos: a categoria do ‘eu’”. (MAUSS, 1974, p. 237). Ultrapassando o pensamento cartesiano, Marcel Mauss afirma que só em Kant se tem a “forma nítida” da noção de pessoa, porém:

Quem responde finalmente que todo fato de consciência é um fato do ‘eu’, quem fundamenta toda a ciência e toda a ação a respeito do ‘eu’ é Fichte. Kant já havia feito da consciência individual, do caráter sagrado da pessoa humana, a condição da razão prática. Fichte faz, a mais, da categoria do ‘eu’, a condição da consciência e da ciência, da razão pura. (MAUSS, 1974, p. 239).

Nesse percurso (de exposição breve), Marcel Mauss chega à percepção fundamental do “eu” como unidade de “pensamento e ação” que norteia a compreensão da idéia contemporânea de indivíduo.

Discípulo de Mauss, o antropólogo francês Louis Dumont amplia o debate da noção de indivíduo e apresenta, em O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna, um estudo amplo acerca do desenvolvimento da ideologia individualista moderna, que envolve a percepção contemporânea do indivíduo.

Para Dumont (1985, p. 29), “O individualismo é o valor fundamental das sociedades modernas”, porém suas raízes já estão presentes em períodos muito antigos da história humana, caracterizando “um fenômeno excepcional na história das civilizações” (DUMONT, 1985, p. 35).

A tese desenvolvida considera inicialmente que: “algo do individualismo moderno está presente nos primeiros cristãos e no mundo que os cerca, mas não se trata exatamente do individualismo que nos é familiar” (DUMONT, 1985, p. 36), pois, o primeiro cristianismo é marcado sobremaneira por uma visão holística que em Calvino (e na reforma protestante) é substituída por um individualismo que situa o indivíduo-no-mundo.

Desenvolvendo o conceito de indivíduo, Louis Dumont formula a seguinte hipótese:

[...] se o individualismo deve aparecer numa sociedade do tipo tradicional, holista, será em oposição à sociedade e como uma espécie de suplemento em relação a ela, ou seja, sob a forma de indivíduo-fora-do-mundo. Será possível pensar que o individualismo começou desse modo no ocidente? É precisamente isso o que vou tentar mostrar; quaisquer que sejam as diferenças no conteúdo das representações, o mesmo tipo sociológico que encontramos na Índia - o indivíduo-fora-do-mundo - está inegavelmente presente no cristianismo e em torno dele no começo da nossa era. (DUMONT, 1985, p.38-39).

Porém, o homem moderno abdica de todo sistema de crenças e valores, e vive em função de suas necessidades individuais, de maneira que o outro só tem valor quando o beneficia diretamente.

Observando a particularização do espaço pessoal que se estabelece na concepção de indivíduo, Dumont distingue dois sentidos da palavra:

(1) O sujeito empírico da palavra, do pensamento, da vontade, amostra indivisível da espécie humana, tal como o observador encontra em todas as sociedades; (2) O ser moral, independente, autônomo e, assim (essencialmente), não social, tal como se encontra, sobretudo, em nossa ideologia moderna do homem e da sociedade. (DUMONT, 1985, p. 75).

Segundo Verena Alberti, a obra de Dumont contribui para um olhar sobre o indivíduo, enquanto entidade autônoma e:

Foi principalmente a partir da obra de Louis Dumont, fortemente inspirada no trabalho pioneiro de Marcel Mauss, que a antropologia social e outras disciplinas das ciências humanas atentaram para a especificidade da identidade da pessoa na cultura ocidental moderna, marcada pela idéia de um indivíduo independente e autônomo. (ALBERTI, 1991, p. 6).

Dessa visão sobre o indivíduo na modernidade ocidental,

Surgia então a necessidade de distinguir entre duas noções de indivíduo: o ser empírico, membro da espécie humana, encontrado em todas as sociedades, e o indivíduo como ‘valor’, sustentado pelos ideais de liberdade e igualdade próprios à modernidade. Este último distinguia-se, então, da ‘pessoa’ como categoria de identidade própria a culturas holistas, nas quais predominavam a hierarquia e a diferença. (ALBERTI, 1991, p. 6).

A posição do indivíduo em relação ao tempo e ao grupo, tal como expressa em sua autobiografia, pode ser mais bem compreendida quando se considera também a obra do sociólogo alemão Norbert Elias: A sociedade dos indivíduos. Destacam-se desse trabalho as concepções de sociedade e indivíduo que se coadunam com essa perspectiva dos estudos da biografia e da autobiografia.

Para este sociólogo, a sociedade define-se a partir das relações que os indivíduos mantêm entre si e do exercício de suas funções, integradas num conjunto de práticas, como uma rede social, na qual:

[...] cada pessoa singular está realmente presa; está presa por viver em permanente dependência funcional de outras; ela é um elo nas cadeias que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente, são elos nas cadeias que a prendem. [...]. E é essa rede funções que as pessoas desempenham umas em relação às outras, a ela e nada mais, que chamamos de ‘sociedade’. (ELIAS, 1994, p. 23).

O indivíduo definido nesse contexto é delimitado por sua função social, ao mesmo tempo em que preserva sua singularidade. Mantém-se, como tal, pela integridade das relações que mantém com o grupo, embora, contemporaneamente, o indivíduo esteja se encaminhado para uma afirmação de sua identidade pessoal, portanto, de seu destaque do grupo. De acordo com Norbert Elias,

É característico da estrutura das sociedades mais desenvolvidas de nossa época que as diferenças entre as pessoas, sua identidade-eu, sejam mais altamente valorizadas do que aquilo que elas têm em comum, sua identidade-nós. (ELIAS, 1994, p. 130).

A ascensão do indivíduo é identificada a partir do início da idade moderna. A singularidade expressa na concepção de indivíduo

[...] aconteceu, claramente, durante a elevação do desenvolvimento social a um nível em que as pessoas, talvez em grupos específicos, a princípio, sentiram uma necessidade mais intensa de se comunicar uma com as outras a respeito da singularidade - e, em termos mais gerais, a respeito da singularidade de cada pessoa, da qualidade especial de sua existência, comparada à de todas as demais. (ELIAS, 1994, p. 134).

Elias, como Mauss e Bourdieu, refere o nome com o qual se é registrado ao nascer como elemento distintivo do indivíduo e como resposta à questão da identidade-eu:

Mas esse tipo de nome, com seus dois componentes de prenome e sobrenome, indica a pessoa tanto como indivíduo singular quanto como membro de determinado grupo, sua família. E enquanto, de um lado, o nome dá a cada pessoa um símbolo de sua singularidade e uma resposta à pergunta sobre quem ela é a seus próprios olhos, ele também serve de cartão de visita. Indica quem se é aos olhos dos outros. (ELIAS, 1994, p. 151).

O conceito de indivíduo que emerge na modernidade refere-se a pessoas interdependentes, ao indivíduo como ser social, pois “não há identidade-eu sem identidade-nós”. (ELIAS, 1994, p. 152). Assim:

O problema da identidade individual durante a vida inteira não pode ser intelectualmente apreendido, como agora podemos ver com mais clareza, enquanto não se levar em conta a natureza processual do ser humano e não se dispuser de instrumentos conceituais adequados, de símbolos lingüísticos para identificar os processos de desenvolvimento. (ELIAS, 1994, p. 154).

 

A noção de indivíduo e a produção fundada no eu

Pierre Bourdieu, em seu artigo A ilusão biográfica, reflete sobre a história de vida, tal como expressa nos textos biográficos e autobiográficos. Para este autor, falar de história de vida:

É aceitar tacitamente a filosofia da história com o sentido de sucessão de eventos históricos, implica em uma filosofia da história com o sentido de narrativa histórica, em resumo, uma teoria da narrativa, narrativa do historiador ou do romancista, dessa perspectiva indistinguíveis, especialmente a biografia ou autobiografia. (BOURDIEU, 1996, p. 74).

A narrativa autobiográfica como expressão do indivíduo, conforme Bourdieu

[...] inspira-se sempre, ao menos em parte, na preocupação de atribuir sentido, de encontrar a razão, de descobrir uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consistência e uma constância, de estabelecer relações inteligíveis, como a do efeito com a causa eficiente, entre estados sucessivos, constituídos como etapas de um desenvolvimento necessário. (BOURDIEU, 1996, p. 75).

No espaço da reflexão sociológica, Bourdieu encontra o princípio que dá sentido à ilusão biográfica: o habitus. “[...] princípio ativo, irredutível às percepções passivas, de unificação das práticas e das representações”. (BOURDIEU, 1996, p. 77).

É significativa, nessa reflexão, a identificação da noção de indivíduo a partir da singularização oriunda do estabelecimento de um nome próprio, pessoal e privado como elemento de distinção do sujeito social. Nessa prática social do registro civil do indivíduo, Bourdieu observa que “no nome próprio, institui-se uma identidade social constituinte e duradoura que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis nos quais ele intervém como agente, isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis”. (BOURDIEU, 1996, p. 78).

Porém, como

Designador rígido, o nome próprio é a forma por excelência da imposição arbitrária feita pelos ritos institucionais: a nominação e a classificação introduzem divisões nítidas, absolutas, indiferenciadas nas particularidades circunstanciais e nos acidentes individuais, no fluxo e na fluidez das realidades biológicas e sociais. (BOURDIEU, 1996, p. 79).

Nesse sentido, o nome próprio, que constitui o suporte do estado civil, já desde o batismo, é “Produto do rito de instituição inaugural que marca o acesso à existência social, ele é o verdadeiro objeto de todos os ritos de instituição ou de nominação sucessivos pelos quais se constrói a identidade social”. (BOURDIEU, 1996, p. 79).

O relato da história de vida como “objeto próprio desses discursos, isto é, a apresentação pública, logo, a oficialização, de uma representação privada de sua própria vida, implica um acréscimo de limitações e de censuras específicas. (BOURDIEU, 1996, p. 81). (Grifos do autor).

Na autobiografia a presença do nome é também um dos fatores fundamentais do seu status de verdade. Configura uma postura do narrador autodiegético que se institui como autor e personagem, indistintamente. Conforme Phillipe Lejeune, um dos grandes estudiosos contemporâneos dessa modalidade textual:

O autor, é por conseguinte um nome de pessoa, idêntico, que assume um conjunto de diferentes textos publicados. Tira a sua realidade da lista das suas outras obras, em que figura frequentemente na frente do livro: ‘Do mesmo autor’. (LEJEUNE, 1983, p. 23).

A obra de Mikhail Bakhtin possibilita fortalecer os fundamentos desta abordagem com uma reflexão sobre a biografia e a autobiografia antigas e, de modo geral, as produções cujo suporte narrativo é o indivíduo e sua memória, consideradas no âmbito dos estudos da linguagem. Nesse sentido, a memória enquanto evocação do passado se desenvolve como fenômeno narrativo em que a palavra “fenômeno ideológico por excelência [...] (é) modo mais puro e sensível de relação social” (BAKHTIN, 1981, p. 36), conduz as lembranças, os desejos e as lições apreendidas pelo homem que lembra.

De acordo com Bakhtin na antiguidade “[...] desenvolveu-se uma série de formas biográficas e autobiográficas notáveis que exerceram enorme influência não só para o desenvolvimento da biografia e da autobiografia européias”. (BAKHTIN, 1988, p. 250). Nessa formulação Bakhtin (1988) identifica no classicismo grego dois tipos de autobiografia: a autobiografia platônica e a autobiografia e biografia retóricas.

Na primeira modalidade está “o caminho de vida do indivíduo que busca o verdadeiro conhecimento [...] que passa pela ignorância presunçosa, pelo ceticismo autocrítico e pelo conhecimento de si mesmo para o verdadeiro conhecimento”. (BAKHTIN, 1988, p. 250).

A segunda modalidade, da autobiografia e da biografia retóricas, tem em sua base o enkomion e estão essencialmente ligadas ao acontecimento político-social, “elas eram inteiramente definidas por esse acontecimento, eram atos verbais cívico-políticos, de glorificação ou de autojustificação públicas”. (BAKHTIN, 1988, p. 251). Nesse espaço-tempo, não há lugar para manifestações que não estejam ligadas ao contexto público, pois “O cronotopo real é a praça pública (a ágora)”, (BAKHTIN, 1988, p. 251).

Mikhail Bakhtin considera que, não havendo lugar para uma distinção entre o que é de âmbito do indivíduo e do grupo social, também não há nada que não esteja sujeito ao controle e à avaliação público-estatal, por isso, não distingue entre autobiografia e biografia retóricas. A abordagem de si (autobiografia) ou do outro (biografia) deveria ser feita da mesma forma, pois, nesse meio, não há espaço para a autoglorificação. (BAKHTIN, 1988). Essa imagem e essa postura do homem grego serão modificadas em épocas posteriores, por que:

O homem privado e isolado, o ‘o homem para si’, perdeu a unidade e a integridade que eram determinadas pelo princípio da sua vida pública. A consciência que ele tem de si mesmo, tendo perdido o cronotopo popular da praça pública, não pode encontrar outro cronotopo tão real, único e inteiro: assim ele desintegrou-se e desuniu-se, tornou-se abstrato e ideal. (BAKHTIN, 1988, p. 254).

A autobiografia grega tem um caráter de expressão pessoal, mas é fundada somente em aspectos do indivíduo que se relacionam ou que interessam ao grupo social, neste caso:

A conscientização do homem apóia-se, aqui, somente sobre os aspectos de sua personalidade e de sua vida que são voltados para o exterior, concernentes tanto aos outros como a si próprio, sendo que apenas neles a consciência procura seu apoio e sua unidade, ela não conhece absolutamente outros aspectos intimamente pessoais, ‘por si só’, individuais e irrepetíveis. (BAKHTIN, 1988, p. 255).

O autor faz uma distinção em relação às autobiografias romanas e afirma que, para os romanos, a autobiografia “é um documento da consciência familiar e ancestral. Porém, nesse ambiente, a conscientização não se torna privada, íntima ou pessoal. Ela mantém um caráter profundamente público”. (BAKHTIN, 1988, p. 256).

No contexto clássico, de modo geral, “a autobiografia é escrita com o objetivo de transmitir as tradições familiares-patriarcais de descendente a descendente e é colocada em arquivos. Isso faz da consciência autobiográfica um fato público-histórico e nacional”. (grifo do autor). (BAKHTIN, 1988, p. 256).

Nesse sentido, a consciência autobiográfica romana distingue-se da grega. Enquanto no grego ela se “orientava para os contemporâneos vivos, presentes na praça pública” a romana se estabelecia como “o elo entre os antepassados mortos e os descendentes que ainda não participam da vida política”. (BAKHTIN, 1988, p. 256).

Bakhtin (1988) define duas estruturas comuns à autobiografia e à biografia antigas: À primeira denomina de energético, nela “a existência e a essência total do homem não constituem um estado, mas uma ação, uma força ativa” que se constituem em manifestações “do caráter nos atos e nas expressões”. A segunda, denominada de analítica, “baseia num esquema de rubricas, pelas quais se distribui todo o material biográfico: a vida social, a vida familiar, comportamento na guerra, relações com os amigos, aforismos dignos de lembrança, virtudes, vícios, aparência exterior, habitus, etc.”. (BAKHTIN, 1988, p. 259).

Nesse contexto, o indivíduo com tal não é relevante, mas somente enquanto ser social que vive para o meio. Não há vida privada. Bakhtin (1988) aponta três mudanças que revelam a desagregação do aspecto exterior público do homem e expõem as esferas privadas de sua vida.

Na primeira está a “representação satírico-cômica ou humorística, de si [...]. O particular, o privado assume forma de ironia e humor (não encontrando formas positivas para sua expressão)”. (BAKHTIN, 1988, p. 260). Na segunda, representada pelas cartas íntimas, “começa a se revelar a consciência do homem, privada, de alcova. Toda uma série de categorias de autoconscientização e de elaboração de uma vida biográfica - êxito, felicidade, mérito - começam a perder seu significado público e nacional e passam para um plano privado e pessoal”. (BAKHTIN, 1988, p. 260); A terceira, definida como um tipo estóico de biografia, relaciona-se com as consolações, “construídas sob forma de diálogo com a filosofia consoladora” (BAKHTIN, 1988, p. 261), cujo exemplo maior é, sem dúvida, a obra Confissões de Santo Agostinho. Neste caso, é relevante a importância atribuída aos fatos da vida pessoal e íntima, embora não tenham um sentido político-social que possa ser destacado.

Peter Burke, em seu artigo: A invenção da autobiografia e o individualismo Renascentista, aponta para uma desconformidade do conceito de biografia com as obras produzidas sob esse rótulo no período do renascimento. A reflexão posta no artigo é construída sobre esse seu “estranhamento”. Inicialmente, o historiador considera que:

O problema é que essas biografias não são (ou não são inteiramente) biografias no sentido que damos ao termo. Elas não discutem o desenvolvimento da personalidade, freqüentemente ignoram a cronologia e em geral introduzem materiais aparentemente irrelevantes, dando uma impressão de ausência de forma. A vida de Dante por Boccaccio, por exemplo, foi criticada por um estudioso por estar ‘sobrecarregada de anedotas’. (BURKE, 1997, p. 1).

O autor assinala o hábito dos biógrafos renascentistas de utilizar na produção biográfica topoi, isto é, atribuir ao biografado características de outros, parafraseando motivos e inclusive anedotas da vida de outras personagens (figuras históricas). Pontua, neste caso, a inobservância dos biógrafos para uma circunstância fundamental do renascimento: o desenvolvimento e a valorização da noção de indivíduo:

Mas como puderam os escritores do Renascimento ignorar a individualidade dessa maneira? O problema se assemelha ao do uso da mesma matriz de madeira para imprimir retratos de indivíduos diferentes nos livros impressos dos séculos XV e XVI. (BURKE, 1997, p. 2).

Historiando as principais obras do período renascentista e suas características, Peter Burke afirma que: “De toda forma, esse período histórico testemunhou um perceptível aumento do interesse tanto pela escrita quanto pela leitura de biografias, primeiro na Itália e depois em outros lugares”. (BURKE, 1997, p. 2). O que é também sintoma de um interesse acentuado pelo indivíduo, embora o interesse dos biógrafos recaia principalmente sobre personagens de destaque na sociedade de então, como governantes, generais, literatos, entre outros.

Burke (1997) identifica o interesse pela produção biográfica no hábito da produção da “oração fúnebre” produzida no momento da morte de pessoas célebres. Porém, identifica e destaca uma frequência: a da biografia de escritores, inclusas como prefácio de suas obras. A relevância dessa inserção está em que:

Ela ilustra a ascensão do conceito da individualidade da autoria, o pressuposto de que as informações sobre um escritor nos ajudam a entender suas obras. Quase no mesmo momento, como que para sublinhar este ponto, tornou-se comum incluir o retrato dos autores nas suas obras, geralmente como frontispício [...]. (BURKE, 1997, p. 5).

Reconhecendo uma diversidade de formas, o autor afirma que mesmo o conceito é produto dessa diversidade, porém identifica duas constantes que podem ser demarcadas nos diversos tipos de textos de natureza biográfica do renascimento: exemplaridade e constância.

1. Exemplaridade da vida do biografado:

Evidentemente existe uma tensão, para dizer o mínimo, entre a idéia do indivíduo como exemplar e a idéia do indivíduo como único. A prática renascentista corriqueira de se referir aos príncipes em particular como um ‘novo Augusto’, um ‘segundo Carlos Magno’, e assim por diante, mostra claramente essa tensão. (BURKE, 1997, p. 11).

2. Constância de atitudes e comportamentos:

[...] o pressuposto de que a personalidade é estática, o produto fixo de um equilíbrio de humores e, para alguns escritores, o resultado inevitável de uma constelação de fatores ligados ao nascimento. Daí a possibilidade de prever o futuro do herói. Este aspecto não é anulado pelo esquema cronológico encontrado em algumas poucas biografias do período. As circunstâncias externas mudam [...]. Mas o herói não deve se perturbar com isso. Ele ou ela devem exibir ‘constância’, como uma rocha ou uma poderosa árvore em meio a uma tempestade. (BURKE, 1997, p. 11).

Esse panorama da produção baseada na história da vida de personagens só mudará no século XVIII, com o desenvolvimento da noção de personalidade e o reconhecimento de sua complexidade.

Walter Benjamim (1985) já encontrara como fundamento da autoridade do narrador clássico essa mesma noção de exemplaridade. O narrador evolui paralelamente ao desenvolvimento da sociedade e das experiências do indivíduo e, na medida em que as experiências do indivíduo moderno atingem uma dimensão traumática, posto que suas experiências fundamentais sejam, principalmente, aquelas oriundas da guerra, cuja experiência particular não é “contável”, ele se isola e se cala. A solidão do indivíduo dá forma ao romance moderno.

O estudo da historiadora Verena Alberti investiga a presença do sujeito na autobiografia, tomada como:

Narrativa centrada no sujeito que a cria, simultaneamente ponto de partida e objeto do texto, a autobiografia parece ser a atualização do ‘indivíduo moderno’ no espaço da literatura. É como se, ao lado da poesia, do romance, da peça teatral, da crônica, enfim, se reservasse àquele indivíduo, a suas reflexões e experiências particulares, um ‘gênero’ literário específico, que permitisse a expressão de sua unidade e autonomia. (ALBERTI, 1991, p.8).

A historiadora identifica a origem do “modelo autobiográfico” moderno, na obra do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau:

Historicamente, inclusive, a sintonia entre autobiografia e ‘sujeito moderno’ é confirmada pelo marco inicial a que se costuma atribuir o ‘nascimento’ da autobiografia: as Confissões de Rousseau, texto no qual, pela primeira vez, o eu se fala na intimidade e se põe a nu, à disposição do julgamento dos leitores. (ALBERTI, 1991, p.8).

Maria Helena Palma de Oliveira, estudando a formação da autobiografia, afirma que:

O artista da autobiografia é aquele que busca compreender a própria interioridade baseado em seu exterior. A autobiografia adquire assim características de romance, de literatura, quando a narrativa dos fatos da própria vida é orientada pela visão exotópica. (OLIVEIRA, 2001, p. 65).

Para a crítica Bella Jozef, a emergência e a relevância da autobiografia também está ligada à modernidade. A autora considera que:

A crescente importância da autobiografia é parte da revolução intelectual caracterizada pelo surgimento de uma forma moderna de consciência histórica. Engloba uma série de escritos ligados à emergência do eu no espaço da modernidade, pois é o lugar onde se problematiza a construção do eu. A emergência desse espaço é o signo maior da constituição moderna da literatura. (JOZEF, 1997, p. 217).

De acordo com Arnold Hauser, em sua obra História social da literatura e da arte, nas manifestações do indivíduo, encontra-se uma preocupação essencial com o tempo tomado como “antítese de matéria morta e de mecânica rígida. O que somos passamos a sê-lo não só em tempo, mas através do tempo” (HAUSER, 1982, p. 1112).

É nesse sentido que as memórias atuam: na recuperação e preservação do passado, ilusão de permanência do vivido e do tempo, pois: “Não há outra felicidade senão a da recordação e do reviver, da ressurreição e conquista do tempo que passou e se perdeu, porque, como diz Proust, os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos” (HAUSER, 1982. p. 1112).

Ainda, neste sentido, Oliveira observa que:

Na verdade, o que se quer ao textualizar o tempo por meio da autobiografia é dar-lhe a materialidade que parece ameaçada diante do próprio poder do tempo sobre o indivíduo. Nesse sentido, ‘a autobiografia expressa a necessidade que o indivíduo tem de situar-se novamente no espaço e também no tempo’. (OLIVEIRA, 2001, p. 87).

Em Mitos do individualismo moderno (1997), Ian Watt também identifica o renascimento como momento da “primazia do indivíduo sobre o coletivo (que) tornou-se a característica definidora da moderna sociedade ocidental em seu conjunto”. (WATT, 1997, p. 236). A evolução do conceito de indivíduo vai superando suas características negativas, e ampliando sua aceitação pública, porém mantém “de um lado, a contradição social e ideológica do individualismo, e de outro a sua concepção ética e psicológica”. (WATT, 1997, p. 234).

O crítico canadense Northrop Frye inclui a autobiografia entre as formas de ficção e considera que há sempre um alto grau de ficcionalidade nos escritos autobiográficos, pois

A maior parte das autobiografias é inspirada por um impulso criador, e, portanto, ficcional, a selecionar apenas aqueles acontecimentos e experiências da vida do escritor que vão constituir uma forma integrada. Essa forma pode ser um tanto mais ampla do que a figura com a qual ele veio a identificar-se, ou simplesmente a coerência de sua personalidade e atitudes (FRYE, 1973. p. 301-302).

Nesse sentido, cada vez que se toma um objeto da memória é preciso saber entre outras coisas, como ele foi constituído e o que ele representa enquanto tal. É o que aponta Oliveira, ao observar que:

A configuração do individualismo moderno, já apontada no estudo socioevolutivo de Bakhtin (1992), permitiu que o mundo ocidental encontrasse na autobiografia uma forma de expressão privilegiada. A ascensão da burguesia, como classe dominante, abre espaço para uma literatura autobiográfica que manifesta a concepção de pessoa própria dessa classe social, marcada, principalmente pelo individualismo, fundamento da razão iluminista. (OLIVEIRA, 2001, p. 69).

Entre as narrativas fundadas na “escrita do eu”, a contribuição do estudo da história de vida - relato que pode ser situado entre a biografia e a autobiografia - para o estudo sociológico se dá no sentido da compreensão das representações presentes nesses relatos. Segundo Harres:

A sociologia, num contexto de insatisfação com os métodos quantitativos, descobriu no uso da história de vida uma forma de ampliar o conhecimento sobre as relações sociais, as relações do narrador com seus diferentes grupos de convívio. (HARRES, 2004, p. 145).

Essa perspectiva do relato da história de vida se completa nas palavras de Maria Isaura Pereira de Queiroz, estudada por Harres:

[...] através do relato de um narrador sobre sua existência [...] se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar. Desta forma, o interesse deste último está em captar algo que ultrapassa o caráter individual do que é transmitido e que se insere nas coletividades a que o narrador pertence. (QUEIROZ, 1991, p. 6 apud HARRES, 2004, p. 145).

Observando que a experiência do indivíduo e a memória de sua vivência contribuem e definem a formação das identidades pessoais e sociais, Harres retoma os estudos sobre a memória coletiva de Maurice Halbwachs, especialmente, por sua caracterização da memória com fenômeno social, isto é, enquanto construída no contexto mesmo das “relações sociais e dos grupos de convívio”. (HARRES, 2004, p. 145).

A historiadora destaca do estudo de Halbwachs o tratamento dado à memória individual em sua dimensão social e, especialmente, a consideração de que “os indivíduos recordam como membros de grupos” (HARRES, 2004, p. 147). Esse fundamento considera o indivíduo não como um ser isolado numa vida de si para si, mas num contexto em que o grupo é não só suporte do indivíduo, mas também para o qual ele deve se voltar e em prol de quem deve agir. Nesse sentido, ainda apoiada no trabalho de Maurice Halbwachs, destaca que: “a memória individual é um ponto de vista da memória coletiva; e este ponto de vista é mutável, dependendo das relações com outros meios sociais”. (HARRES, 2004, p. 147).

Estudando as “aproximações” entre as histórias de vida a biografia e a autobiografia, Harres afirma que “A história de vida é uma autobiografia provocada”, isto é, nas histórias de vida enquanto estratégia de pesquisa, “o depoente é convidado a rememorar e narrar sua vida, tecendo trajetórias que devem revelar seu mundo, suas relações, impressões e marcas”. (HARRES, 2004, p. 153).

Nessa configuração do relato:

A passagem do registro oral para a escrita e a utilização e/ou preparação dos depoimentos para publicação aproximam a história de vida do trabalho do biógrafo. O pesquisador torna-se efetivamente um mediador e, embora escrevendo dentro de certos limites, pois deve respeitar a lógica revelada no depoimento, interfere na montagem da narrativa. (HARRES, 2004, p. 154).

A emergência dessa estratégia altera a relação do indivíduo com o seu passado, no sentido de que não é mais ele que seleciona o que vai ser relatado, quem o faz é o biógrafo ou o cientista social. Embora o resultado buscado, configure-se de modo semelhante: a inserção do indivíduo num certo contexto social e um valor das relações que esse indivíduo mantém nesse contexto.

Elizeu Clementino de Souza também pontua o trabalho de pesquisadores que utilizam as histórias de vida tanto como estratégia de pesquisa quanto um modo de compreender os sujeitos, pela dimensão que comportam do indivíduo, enquanto sujeito de uma trajetória específica, pessoal. Na variedade objetiva desse tipo de documentos, o educador define duas dimensões em que podem ser tomados:

As histórias de vida adotam e comportam uma variedade de fontes e procedimentos de recolha, podendo ser agrupadas em duas dimensões, ou seja, os diversos documentos pessoais (autobiografias, diários, cartas, fotografias e objetos pessoais) e as entrevistas biográficas, que podem ser orais ou escritas. (SOUZA, 2006, p. 24).

O estudo do antropólogo Lewis Leroy Langness: A história de vida na ciência antropológica, publicado no Brasil em 1973, também aponta para a “compreensão dos dados biográficos na pesquisa antropológica” e discute “o contexto teórico no qual se inserem as histórias de vida”. Para Langness,

Tanto a biografia como as histórias de vida pessoais são utilizadas nas ciências humanas, psicológicas, sociais e médicas, embora com diferentes propósitos e graus variados de sucesso [...] As técnicas biográficas têm sido bastante utilizadas em sociologia, particularmente desde o impacto causado por The Polish Peasant in Europe and America, 1918, de Thomas e Znanieck. (LANGNESS, 1973, p. 16).

O antropólogo relata também a crescente utilização, a partir da década de 1930, das histórias de vida e biografias por antropólogos, sociólogos, historiadores e em diversos campos do estudo humano e social. Conforme Langness: “As histórias de vida são utilizadas frequentemente para relatar aspectos, quer culturais, quer antropológicos, ou outros, os quais, de outra forma, seriam negligenciados”. (LANGNESS, 1973, p. 31).

 

Considerações finais

No contexto estudado, a biografia e autobiografia constituem um “documento cultural”, que revela o indivíduo e sua formação cultural e, ao mesmo tempo, é uma “estratégia de pesquisa” de campo na área das ciências humanas.

Como documento cultural é, primeiramente, a expressão da imagem que o indivíduo tem de si e quer fixar para os outros. Fator de singularização e autoafirmação que nasce com a idade moderna, por meio do qual o individuo resgatando na memória as imagens que simbolizam sua vida, recupera e atribui sentido ao vivido. É a pessoa que emana da biografia tanto quanto da autobiografia, embora ambas constituam um viés instituído pelo interesse do narrador.

O interesse sociológico nesse tipo de relato se estrutura como uma estratégia de pesquisa que amplia e fortalece o seu campo de estudos, posto que pode ser a fonte mais direta, embora com alto grau de subjetividade, sobre o indivíduo e suas relações com o meio social. A presença da subjetividade não invalida o caráter científico dessa abordagem, porquanto é esse o fundamento mesmo da escrita de si: as visões do sujeito e suas relações sociais, que serão objetivadas no tratamento dado pelo pesquisador.

Pode-se concluir que a autobiografia é um “espaço” significativo de expressão do indivíduo; do mesmo modo, a biografia, ainda que interposta por outrem, também apresenta essa percepção do indivíduo enquanto sujeito, ao mesmo tempo em que demarca sua percepção de si e define sua postura diante da sociedade.

 

Referências

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José Carlos da Costa. Possui graduação em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1980) e especialização em Literatura Brasileira e Lingüística pela Universidade Federal do Paraná (1987). Mestrado em Letras: linguagem e sociedade pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Docente do Curso de Letras Português/Inglês/Espanhol/Italiano da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, cultura brasileira, discurso ficcional, crítica literária, literatura memória, literatura e história, ensino de literatura e formação docente. Membro do Grupo de Pesquisa Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura; Linha de Pesquisa: Literatura, História e Memória.

 

© José Carlos da Costa 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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