O lugar do leitor infantil em A música dos bichos

Izaura da Silva Cabral

Professora do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves
Mestre em Letras - Leitura e Cognição (UNISC)


 

   
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Resumo: Este trabalho é um estudo de como a ilustração e o texto podem dialogar e ao mesmo contribuir para a identificação da criança com livro, reconhecendo-se nele através de elementos peculiares da literatura infantil. Para tanto analisamos o livro A música dos bichos de James Misse e Marcelo Garcia, baseados em teóricos da área da Literatura infantil.
Palavras-chave: literatura infantil; ilustração; identificação do leitor com o texto.

Abstract:
This work is a study of as the illustration and the text can dialogue and the same to contribute for the identification of the child with book, recognizing itself in it through peculiar elements of infantile literature. For in such a way we analyze the book the music of the animals of James Misse and Marcelo Garcias, based on theoreticians of airs of infantile Literature.
Word-key: infantile literature; illustration; identification of the reader with the text.

 

Por ser um gênero recente, a literatura infantil é acompanhada de muitos questionamentos e contínuo objeto de pesquisas. De acordo com Zilberman (2003, p. 70), para que haja originalidade na literatura infantil ela deve advir do fato de que é a espécie de leitor que se pretende atingir o que determina sua inclusão no gênero designado como literatura infantil. Dessa forma, o gênero teve origem com o aparecimento deste público, vinculando sua história e transformações às mudanças por que passaram o tratamento e a compreensão da infância.

Outro aspecto que contribuiu para o surgimento do gênero foi a necessidade de preparar a criança para o mundo e sua função era especificamente educativa. Porém, com o passar do temo o conceito de criança e infância foi se modificando e os livros destinados a ela também acompanharam as transformações.

Com isso, em meio à diversidade de soluções gráficas, o livro conquista uma função lúdico-interativa. Dessa forma, vamos analisar a obra A música dos bichos e refletir sobre a tentativa de aproximar a criança cada vez mais dos livros, trazer prazer e diversão para a leitura.

O próprio título da obra já pode mobilizar o leitor “A música dos bichos”, uma vez que segundo Goldstein (2002, p. 7), a nossa vida já é um compasso, pois toda atividade humana se desenvolve dentro de certo ritmo. Nosso coração pulsa alternando batidas e pausas; nossa respiração, nossos gestos, nossos movimentos são ritmados. Como o ritmo está presente na vida de qualquer pessoa, sua presença nos textos, pode atrair os leitores, especialmente os infantis. Esse ritmo com caráter de oralidade, trazido pelo texto poético, que feito para ser falado, recitado, mesmo que lido em silêncio, o leitor percebe sua ritimação.

Logo que a criança entra em contato com obra, a primeira leitura que faz é a do título e da ilustração da capa. A partir do título, o leitor pode realizar inferências sobre qual será o assunto da leitura. Logo percebe que terá dois elementos muito agradáveis aos pequenos: de um lado a música e de outro os bichos.

Além disso, quando atentamos para a ilustração percebemos que ela traz bichos (que não passam de brinquedos), na realidade todo o enredo poético é protagonizado pelos animais, que são uma brincadeira de manipulação realizada por uma criança, tudo é parte do faz-de-conta.

A ilustração é uma linguagem que deve se apresentar muito atraente para os pequenos, especialmente quando ele se depara com a capa do livro. A princípio, encontramos na ilustração uma criança regendo uma banda, e se abrirmos a capa em frente e verso, vemos que o menino é o maestro de uma orquestra de brinquedos - bichos, que trazem consigo instrumentos musicais. Essa ilustração já deve ser muito atraente, pois ela pode mobilizar o leitor para o encontro com a leitura do texto.

Dessa forma, o papel lúdico da ilustração fica evidente quando a todo o momento o leitor pode se identificar com o menino das ilustrações e que se diverte brincando com a “música dos bichos”, inclusive uma informação relevante é que o menino aparece somente nas ilustrações, uma vez que o texto escrito não faz nenhuma referência à figura humana, evidenciando assim a importância, nesse caso, da presença da ilustração para uma maior identificação do leitor com a obra.

A cada página, a ilustração é uma atração. O menino se diverte com brinquedos, naquela brincadeira em que os bichos têm o dom de tocar e produzir sons, que no texto escrito são representados pelas onomatopéias, figura de linguagem capaz de reproduzir sons, que são responsáveis pelas rimas do texto poético e são também uma grande atração para os leitores infantis (O gato Raimundo/toca pra todo mundo/ ele toca violão/blim blim blão/ blim blim blão).

Outro aspecto importante, no texto poético, é que cada bicho possui um nome, essa característica de nomear os seres, também provoca uma identificação com o texto, pois os nomes fazem parte do universo das crianças, elas têm nomes, nomeia seus brinquedos, reconhece que os pais têm nomes (O gato Raimundo, o macaco Nicolau, a girafa Carola, o jabuti Neco, a onça Consuelo e o burro Adamastor). Inclusive os bichos - brinquedos são todos próximos do universo infantil: são marionetes, fantoches, bichos de pelúcia, bonecos de dar corda, carrinho jabuti. Fazem, pois, parte do seu cotidiano.

Há situações que trazem humor para o texto, característica também muito apreciada pelo espírito infantil, como por exemplo, quando a girafa Carola toca castanhola vestida de camisola.

No decorrer do texto sempre há o diálogo entre o texto escrito e a ilustração, uma vez que um, muitas vezes, complementa o sentido do outro. Como nas situações em que o texto conta que o bicho “tal” toca “tal” instrumento, quando na realidade quem está tocando na ilustração é o menino, como já dissemos quando estas duas linguagens andam juntas, tudo não passa de uma grande brincadeira. Também no final do texto escrito o papel da música de emocionar, de fazer rir é relembrado, reavivado no espírito do leitor (A música é mesmo maravilhosa/ nos faz cantar e emocionar/ com bicho ou sem bicho / às vezes faz rir e até chorar).

E, assim, quando a literatura assume o estatus de brincadeira, divertimento, é que o livro infantil cumpriu seu papel, e criança conseguiu assim satisfazer seu horizonte de expectativas, e tornou-se uma pessoa mais próxima do mundo da leitura, e que com certeza se continuar lendo e se identificando com os livros, vendo-se neles, será um futuro leitor adulto.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2002.

MISSE, James. A música dos bichos. São Paulo: Pé da letra, 2003.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.

 

[*] Izaura da Silva Cabral. Graduada em Letras-Português/Espanhol pela UNISC, Mestre em Letras - leitura e cognição pela UNISC, Professora de Língua Portuguesa, Língua Espanhola e Literatura do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves. Endereço: Getúlio Vargas, 44, Rio Pardo - RS, E-mail: iza-cabral@hotmail.com e icabral@mx2.unisc.br.

 

© Izaura da Silva Cabral 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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