Entre limites e giros da memória

Profa. Dra. Lucília Maria Sousa Romão

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto FFCLRP
Universidad de Sao Paulo USP


 

   
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Resumo: O presente trabalho objetiva promover um diálogo entre três textos escritos por Sigmund Freud, quais sejam, “O mecanismo psíquico do esquecimento” (1898), “Lembranças encobridoras” (1899) e “Recordar, repetir e elaborar” (1914), colocando-os em articulação entre si a partir do modo como a temporalidade e os efeitos dela são pensados e teorizados, fazendo falar continuidades e acomodando deslocamentos. Em torno desse cruzamento de eixos conceituais, giram análises de um corpus constituído por recortes da narrativa “Leite Derramado” (2009) de Chico Buarque, em cuja trama a voz de um personagem centenário tenta prender os fios de sua verdade, de seu dizer oscilando entre a repetição e o deslocamento, entre o discurso da permanência e o da ruptura, entre a lembrança e o impossível recordar, enfim, entre o limite e o giro.
Palavras-chave: memória, tempo(s), lembranças, discurso, sentidos.

 

Para Vanise Medeiros, amiga tão querida e presente em minhas lembranças felizes.

 

A título de inícios: (meu) tempo singular

Meu tempo é quando.”
Vinícius de Moraes

 

Desde os povos mais primitivos até a contemporaneidade, o tempo recebeu grande investimento dos homens, seja na criação de mitos, de celebrações ritualísticas e litúrgicas, de modos de nomeá-lo e precisá-lo com equipamentos e máquinas denominadas precisas, de expressá-lo em obras de arte diversas e também de torná-lo tema de estatuto científico. Em torno do tempo, o homem bordou ideais de eternidade em construções preservadas até hoje e experimentou a finitude e a destruição nas guerras que, em instantes, (quase) tudo levaram. Assim, é o tempo o grande enigma e o artífice maior dos movimentos do sujeito discursivo (esse atravessado pela ideologia e pelo inconsciente dos qual falarei mais adiante), seu sustento no “quando” de seus dizeres e atos. Pelo tempo e, sobretudo, pela falta que ele encerra (e ainda pela falta de ele ser do tamanho da necessidade de dizer), o sujeito enuncia tanto, repete muitas vezes, desloca o que estava acomodado, produz rupturas no óbvio, faz giros na língua e experimenta o vazio de ter dito pouco, mais uma vez tornando a dizer. Nesse movimento, coloca-se esse trabalho de (des)dizer sobre alguns textos de Freud que teorizam a questão da memória, vislumbrando o singular nos movimentos do sujeito em relação ao seu próprio tempo (e também ao meu em relação aos escritos desses autores). Por fim, proponho a análise de alguns recortes do livro “Leite Derramado” de Chico Buarque nos quais a questão de lembrar e esquecer aparecem como veio central de irrigação da trama

 

Freud em três tempos: estudos provocadores de deslocamentos

“Repetir lhe parecia essencial. Cada vez que se repetia, algo se acrescentava.”
Clarice Lispector

Com o trabalho “O mecanismo psíquico do esquecimento” (1898), Freud inscreve o primeiro ponto de uma série de estudos sobre o binômio esquecer/ lembrar, partindo da manifestação de algo corriqueiro e dito nos seguintes termos: o nome de alguém na ponta da língua e o impossível lembrar dele. No avesso, isso pode ser dito também da seguinte forma: o nome de alguém fica permanentemente soterrado pelo esquecimento e a lembrança de outros nomes emerge como substitutos deslocados. Para dar veracidade ao seu pensamento, o autor cita o que lhe aconteceu durante uma viagem de Ragusa a uma localidade próxima na Herzegovina, quando se refere a um pintor italiano.

“Vi diante de meus olhos com nitidez especial o auto-retrato do artista - com face séria e as mãos dobradas - que ele pusera no canto de um dos quadros, próximo ao retrato de seu predecessor, Fra Angelico da Fiesole; mas o nome do artista, geralmente tão familiar para mim, permanecia obstinadamente escondido, sem que meu companheiro de viagem pudesse auxiliar-me.” (FREUD, 1898, p. 319)

Signorelli é o nome apagado e, em lugar dele, repetem-se Botticelli e Boltraffio numa cantilena que intriga: como se processa esse movimento de não-saber sabendo? De que modo explicar o nome conhecido que não se dá a ver como tal e fica em uma zona nebulosa e subterrânea de onde não quer sair? Tais questões são ditas como inquietantes.

“(...) tive que tolerar por vários dias esse lapso de memória e o tormento interno a ele associado, que recorria diariamente, com intervalos frequentes, até que encontrei um italiano culto que me libertou desse sofrimento ao dizer-me o nome: Signorelli. Eu próprio pude acrescentar o primeiro nome do artista, Luca. Logo minha lembrança ultraclara dos traços do mestre, como representados no retrato, esmaeceu-se.” (FREUD, 1898, p. 319- 320)

Ultrapassada a necessidade de suportar esse momento de ausência da palavra e persistência da falta, com o nome do pintor já às claras, Freud deixa o trabalho da associação livre fazer falar frutos e os interpreta. Relaciona, então, o esquecimento à repressão.

“A função da memória, que consideramos como um arquivo aberto a qualquer um que seja curioso, é desse modo sujeita à restrição por uma tendência da vontade, exatamente como qualquer parte de nossa atividade dirigida para o mundo externo. Metade da amnésia histérica fica definida quando dizemos que as pessoas histéricas não sabem o que elas não querem saber; e o tratamento psicanalítico que se esforça por preencher tais lacunas de memória, no curso de seu trabalho, leva-nos à descoberta de que a tarefa de recuperar essas lembranças perdidas enfrenta certa resistência, que tem de ser contrabalançada por trabalho proporcional à sua magnitude.” (FREUD, 1898, p. 324)

Decorre disso duas assertivas. Primeira, a de que a memória é condição lacunar, ou seja, mecanismo pontilhado pelo não-preenchimento e marcado pelo não-todo. Segunda, a de que os processos de esquecer e lembrar operam à revelia do controle racional do sujeito, submetendo-o a forças que lhe são estranhas, inomináveis e promotoras de algo que desorganiza o presente e, justamente por isso, atormenta.

“No caso do esquecimento de nomes próprios, como no exemplo acima, o que é notável é o fato de que, apesar de sermos incapazes de reproduzir o nome, sabemos perfeitamente que os outros nomes que se oferecem à memória ou que nos são sugeridos por outra pessoa não correspondem ao nome esquecido (...) da mesma forma, a lacuna produzida pelo esquecimento não está vazia, ela está ocupada por um nome que não está presente no momento e que impede que um outro ocupe o seu lugar.” (GARCIA-ROZA, 2005, p. 172)

Um adendo ao texto freudiano seria propor a validade do contrário de esquecer e não lembrar, destacando que uma lembrança esquecida por muito tempo no escaninho da memória, no seu retorno imprevisto, pode produzir este mesmo efeito de abalo, tormenta, instabilidade de sentidos aquietados.

“As reminiscências involuntárias permitem que as impressões de alguns acontecimentos passados nos acometem de surpresa, a ponto de produzir uma espécie de ‘identidade de percepção’, tanto prazerosa quanto angustiante, no sentido de um retorno do vivido - ou do recalcado. O tempo da reminiscência tem parentesco com o sentimento do Unheimliche, o ‘estranhamente familiar’ freudiano que ocorre quando um fragmento do passado efetivamente se atualiza. Esta irrupção do insconsciente atemporal desorganiza por alguns instantes a percepção do presente.” (KEHL, 2008, p. 261)

Prova disso é o que o autor enuncia no fechamento desse mesmo texto ao relatar o cuidado de anotar o número da casa na qual faria um atendimento; o cuidado foi tanto, que ficaram apagados o nome da rua e da pension. Assim, parece inevitável inferir que a lembrança implica também o esquecimento, que recordar-se de algo é nomear um dado que pôde ser trazido à tona enquanto outras cenas ficam na dormência sonâmbula do impedimento.

“Eu esquecera todos os dados do endereço que pudessem servir como ponto de partida para descobrir a pension, e, muito contra meu hábito, retivera o número da casa, inútil para aquele propósito. Em conseqüência, não pude fazer a visita. Consolei-me com notável rapidez e dediquei-me inteiramente a meu amigo. Quando de volta a Viena e defronte à minha escrivaninha, soube sem um momento de hesitação o lugar no qual, em minha ‘distração’, eu pusera o cartão com o endereço.” (FREUD, 1898, p.326)

Todo o cuidado e as tentativas de controle desse processo sinalizam insuficiência e marcam a impossibilidade de tamponar os furos do lembrar/esquecer, abrindo para caminho para o reconhecimento de algo que corre à revelia da racionalidade e sopra ao sabor do(s) desejo(s) do sujeito. É justamente esse algo que aparece novamente em outro texto de Freud (1899), denominado “Lembranças encobridoras”, quando ele afirma “Surpreendo-me ao esquecer alguma coisa importante, e fico mesmo mais surpreso talvez ao lembrar alguma coisa aparentemente indiferente” (FREUD, 1899, p. 333). Neste estudo, o caminho construído pelo autor traça conexões entre a falta (ou o excesso) de lembranças e os conteúdos reprimidos na infância. Por que a retenção de algo aparentemente tolo? E como se explica o apagamento de dados tidos como fundamentais ou importantes? De que modo a dobradiça dessa imensa engrenagem chamada ‘aparelho psíquico’ faz mover certas imagens e não outras? Buscando respostas, Freud funda as noções de deslocamento e substituição como processos que sustentam os movimentos inconscientes na teia da memória.

“Há inúmeros tipos possíveis de casos nos quais um conteúdo psíquico é substituído por outro, manifestando-se em uma variedade de constelações psicológicas. Um dos casos mais simples é obviamente aquele que ocorre nas lembranças infantis pelas quais estamos aqui interessados - isto é, o caso onde os elementos essenciais de uma experiência são representados na memória pelos elementos não essenciais da mesma experiência. Trata-se do caso de deslocamento para alguma coisa associada por continuidade; ou, considerando o processo como um todo, no caso da repressão acompanhado pela substituição de alguma coisa na proximidade (temporal ou espacial).” (FREUD, 1899, p. 338)

Ao discutir como riqueza detalhes um incidente autobiográfico, Freud coloca em xeque a verdade das lembranças (ou o que foi possível recuperar dos seus escombros), introduz a noção de algo que retorna sob o signo da ficção e, uma vez mais, sinaliza o quanto as tessituras e o (des)fiar da memória são lacunares. “Posso assegurar-lhe que as pessoas, com frequência, constroem tais coisas inconscientemente - quase como trabalhos de ficção (...) Em geral, não há nenhuma garantia quanto aos dados produzidos por nossa memória.” (FREUD, 1899, p. 346). O autor começa a bordar ao conceito de uma região onde as combinações de lembranças e esquecimentos dão-se a conhecer de modo indireto, atravessadas por atalhos, bloqueios e entrecortes; inicia-se o longo trajeto para a elaboração do conceito de inconsciente tal como registra Garcia-Rosa (2005, p. 173): “Os fenômenos lacunares são, portanto, indicadores de uma outra ordem, irredutível à ordem consciente e que se insinua nas lacunas, nos silêncios desta última. Essa outra ordem é a do inconsciente (...). ”. Gostaria de ressaltar que, nos dois trabalhos trazidos até aqui, há algo de incompleto, opaco e escapante nos mecanismos que capturam o sujeito a escolher (e ser escolhido por) uma lembrança e não por outra, a tomar o retorno de uma reminiscência e não tantas outras que poderiam estar ali. Perguntas que ressoam com força enigmática: por que lembrar-se de algo de repente? e por que não se recordar de algo? O jogo processado aqui entre a nitidez de uma recordação e o silenciamento de outra(s) conduz Freud a supor a existência de falseamentos da memória, de uma rede de contrabandos e de um verdadeiro tráfico entre imagens que (não) pode(ria)m circular e que, assim, aparecem em lugar de outras em um remetimento permanente a outra cena em uma espiral à qual não teremos nunca chegado ao fim. Funda aqui a noção de lembrança encobridora.

“(...) a lembrança encobridora resulta de um compromisso entre duas forças psíquicas, uma guardando a lembrança banal na memória e a outra pondo em prática uma resistência que oculta o significado patogênico inconsciente: as duas forças opostas não se anulam, mas produzem um compromisso que compensa as duas lembranças, condensação que se exprime jogando com a polissemia das palavras.” (QUINODOZ, 2007, p. 45)

Assim, o que se lembra é sempre fragmento, recorte, trecho de um pontilhado no qual a continuidade inexiste; é pedaço intervalar de um fio cujo início e o fim, dada a incompletude da própria língua e entendido o sabotamento da memória, são-nos absolutamente impossíveis de dizer. Nesse momento,

“Freud se pergunta sobre por que algumas lembranças, aparentemente tão banais, permanecem registradas de forma tão intensa em nossa memória. Essa, aliás, é uma forma de indagação reincidente em seu trabalho. Nesse artigo ele vai se propor a pensar especialmente sobre uma categoria de lembranças. São aquelas memórias em que nos vemos, ainda crianças, em determinada cena. O peculiar dessas recordações é o lugar desde o qual nos enxergamos. Nos assistimos tal qual um espectador externo à cena.” (RICKES, 2005, p. 42)

Assim, o jogo da memória aqui indica a sobreposição de no mínimo duas lembranças, uma tola e insignificante que retorna para escamotear outra, produzindo um movimento no qual o sujeito lembra-se de algo realmente importante e fundamental. Ambas engolfando o sujeito que se vê no dentro/fora da cena e que con-funde o fundamental e o adereço, perdendo o efeito da realidade objetiva para ganhá-la de outra forma, qual seja, atravessada pela névoa da ausência. Temos a definição desse processo no recorte abaixo sobre lembrança encobridora: “expressão composta e empregada por Sigmund Freud num artigo autobiográfico de 1899 e, posteriormente, em A psicopatologia da vida cotidiana, para designar uma lembrança infantil insignificante que, por deslocamento, passa a marcarar uma outra lembrança recalcada ou não guardada.” (RODINESCO; PLOM, 1998, p.467). Ligamos a noção de lembrança encobridora com a de uma construção em que pese a sabotagem, visto que os fragmentos aparecem diluídos sem precisão. Sobre esse lusco-fusco do lembrar é dito por Flanzer (2008, p. 258) nos seguintes termos,

“A lembrança encobridora é sempre uma construção. Sua essência carrega a marca do recalque e do deslocamento. Ela apóia, desta forma, a idéia de um gap presente entre o primeiro momento e o seguinte, que o evoca e atualiza. Este gap pode ser entendido como um espaço entre dois tempos, a marca, portanto, de uma ausência. O que garante o discurso do sujeito é a ausência do outro.”

No terceiro texto freudiano selecionado para este estudo, “Recordar, repetir e elaborar” (1914), encontramos as três fases da técnica psicanalítica em que a questão da lembrança e do esquecimento estão postas. Na primeira, ainda na companhia de Breuer e dimensionado pela hipnose, o foco principal recaía sobre o momento da formação do sintoma; desse modo, a técnica priorizava o recordar para re-velar o que estava envolvido na situação original do sintoma, descarregando assim o afeto pela via consciente. A lembrança sinalizava um meio para a descoberta da causa e, posteriormente, para as sugestões do médico. No segundo momento, já tendo abandonado a hipnose, Freud percebe a necessidade de deixar as histéricas falarem o que lhes viesse à cabeça para escutar as associações livres que eram construídas durante o relato. Assim, apareciam lembranças que combinavam cenas difusas com fatos nítidos em um torvelinho que unia presente e passado. O foco agora se centrava em colocar em discurso o que havia ficado recalcado e não podia ser lembrado ou dito em outro lugar; falar e repetir o mesmo poderiam ser os passos do sujeito em análise. Na última fase, Freud (1914, p. 193) destaca

“Finalmente, desenvolveu-se a técnica sistemática hoje utilizada, na qual o analista abandona a tentativa de colocar em foco um momento ou problema específicos. Contenta-se em estudar tudo o que se ache presente, de momento, na superfície da mente do paciente, e emprega a arte da interpretação principalmente para identificar as resistências que lá aparecem, e torná-las conscientes ao paciente. Disto resulta um novo tipo de divisão de trabalho: o médico revela as resistências que são desconhecidas ao paciente; quando estas tiverem sido vencidas, o paciente amiúde relaciona as situações e vinculações esquecidas sem qualquer dificuldade.”

Freud relaciona o ato de repetir, ou melhor, o que ele chama de “compulsão à repetição”, com uma “maneira de recordar”, ainda que o seja pela via de dizer o mesmo, o repetível, o parafrástico. Assim, ao tornar a dizer o mesmo, o sujeito elabora o que não pode ser dito de outra forma, desveste um pouco as resistências fomentadas pelo recalcamento, torna a movimentar-se dentro da mesma cena (ou lembrança), promovendo movimentos de tornar a enunciar o retorno do mesmo e, no avesso, abrindo espaço para que outros sentidos possam entram em erupção, possam deslocar vestígios de desejo e possam quebrar a ordem cristalizada. As resistências, marcadas pelo não-recordar, pelo não-saber o que dizer, pelo não-sonhar e também pelo repetir fazem parte do trabalho do sujeito em análise e reclamam “paciência” do analista. Isso porque as lembranças encobridoras derivam de impulsos severamente reprimidos que só aparecem nas descontinuidades intervalares aos pedaços e aos cacos. Ou seja, a ausência faz falar a repetição que, por sua vez, faz retornar o ausente. Desse modo,

“a repetição pode ser entendida como produtora de um efeito muito maior do que o acontecimento em si, a repetição vem no lugar daquilo que não pode ser recordado (...) Objeto perdido é objeto esquecido. E o esquecimento garante a repetição, que tenta fazer retornar um tempo já ido (...) Só há recordação do que pode ser esquecido; a lembrança só pode ser encoberta ou encobridora de algo que esteja faltando (...) Desta forma, a repetição é diferencial na medida em que aponta para uma falta, em um movimento circular, num tempo lógico em que, a cada retorno, produz novidade.” (FLANZER, 2008, p. 260)

O modo apontado pelo autor para romper com este gozo repetitório e produzir algum efeito inesperado está nas mãos do manejo do analista, visto que só ele tem condições de escutar o mesmo e o diferente, provocando o sujeito a recordar e, assim, a girar no discurso; estamos na esfera do que Freud chamou de “o manejo da transferência” nos seguintes termos: “Todavia, o instrumento principal para reprimir a compulsão do paciente à repetição e transformá-la num motivo para recordar reside no manejo da transferência.” (FREUD, 1914, p. 201). O lugar do analista e a transferência conduzem o sujeito em análise a deslocamentos na pura repetição, a recordações outras advindas do jogo de dizer o mesmo, a outras repetições nas quais brota a chance do novo; enfim, a elaborações processadas pela linguagem a produzir um efeito ordenativo.

A gangorra entre repetir e recordar joga com a noção de que a memória assemelha-se a combinações de um calidoscópio em que cores e formas ordenam-se de modo sempre imprevisível a cada vez que o sujeito em análise enuncia. Sendo assim, os movimentos de lembrar e esquecer contam com aquilo que submerso e pulsante consiste no dizer e no repetir; o terreno da linguagem, no qual se tece a ficção de si, turva-se com as nebulosas sombras da fantasia e pelos adereços imaginários que o sujeito atribui a si e aos seus objetos na posição em que se encontra. Tatear tudo isso é tarefa difícil, sobretudo porque os tempos de recordar, repetir e elaborar são singulares, funcionando de modo diferente e vário para cada sujeito. Nesse primeiro momento, traçamos o fio de interligação entre três textos freudianos: o primeiro destaca o efeito lacunar da memória, tomando-a em suas descontinuidades e faltas e também desenhando a con-fusão de nomes justapostos na busca de um nome próprio que, esquecido por dias, coloca o autor em contato com a área pantanosa e movediça, na qual impedimentos fazem-se notar. No segundo texto, Freud dá mais corpo a esse processo, designando como encobridoras as lembranças aparentemente tolas que tamponam outras, as fundamentais, reprimidas em outro tempo. Nesse trabalho, ele continua a bordar teoricamente em torno do ponto que, na análise, não se mostra de todo, mas apenas aos bocados. Ora deslocado para outra cena, ora condensado em uma única imagem, o fato é que o esquecido torna a promover a força do lembrar e, de novo, esquecer. No último texto, as recordações e os esquecimentos são entendidos como a matéria-prima do trabalho analítico de recordar, repetir e elaborar, ou seja, laborar pela linguagem o que re-torna. Assim, o jogo entre o que é lembrado e o que não pode retornar (porque recalcado) inscreve tanto a resistência e o impossível dizer, quanto a possibilidade do giro e a emergência de deslocamentos a partir do momento em que há transferência.

Nos três textos, lembrar e esquecer promovem uma báscula de ciframentos, de velaturas e de sobreposições para os quais a linguagem é a teia, a tela, a trama onde sentidos do sujeito podem ser enredados tanto para garantir o repetível quanto para possibilitar o deslocamento.

 

Leite Derramado: derrame de um tempo que não se recolhe (mais)

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está , mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta.” - Machado de Assis, Dom Casmurro.

A partir de agora, analisamos recortes do livro “Leite derramado” de Chico Buarque, flagrando como o sujeito faz emergir seus recordares e esqueceres no seu relato, em cujo corpo a ordem da temporalidade aparece difusa e confusa. A relação entre memória e inconsciente, sinalizada por Freud nos textos fundadores anteriormente tratados, será o nosso horizonte. O título abre espaço para múltiplos sentidos, em primeiro lugar porque retoma uma expressão que circula socialmente como um ditado popular, marcando o efeito de algo que já aconteceu e está acabado, não podendo o sujeito fazer movimentos de mudança ou de retorno para reparação. Dizer sobre algo que ele é leite derramado implica marcar uma espécie de impotência, ou seja, o reconhecimento de perda ou passagem de algo que se torna finito no presente. Esse sentido aparente é comumente escutado no cotidiano ao modo de uma verdade, visto que todo líquido não permite recolhimento, espalha-se sem bordas na superfície. No entanto, sustentamos que, nesse caso, o sentido metafórico implica promover um giro nessa memória discursiva estabilizada, pois não é o leite alimento que se derramou, mas derramam-se memórias, recordações, apagamentos, leves filetes de certezas, dúvidas, enfim, a vida e o dizer do personagem espalham-se sem bordeamento, sem contorno preciso, espatifados e nuançados pelo impossível.

O núcleo da narrativa contempla um homem idoso em um lugar que parece ser um hospital, falando a um interlocutor anônimo e sem rosto (filha, médico, enfermeira, companheiro de quarto ou até mesmo o próprio leitor) sobre o passado e o presente, sobre imagens que vêm e que vão. Nas palavras de Perrone-Moisés (2009), o livro apresenta o seguinte núcleo:

“Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. A fala desarticulada do ancião, ao mesmo tempo que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Em suas leves variantes, as lembranças obsessivas revelam sutilezas ideológicas e psíquicas. E, como essas lembranças têm forte componente plástico, criam imagens fascinantes.”

O derrame do leite implica o fascínio do que pode ser lembrado a respeito do que teria acontecido e também coloca o sujeito-narrador (doravante apenas sujeito) diante de um derrame, de algo impossível de ser contornado, ou seja, diante do espaço de movências do “isso” ou da “coisa”, condição do não-sabido que permite não lembrar. Essa é a dimensão do além-da-consciência que atravessa o sujeito, não permitindo que ele tenha o pretenso controle da racionalidade, como queriam e querem os positivistas de plantão, o que garantiria o controle de palavras, lembranças, atos e comportamentos como propôs Freud nos trabalhos citados. No relato acima, o sujeito é desejante de dizer sobre o seu estado no presente (doença, abandono, tagarelice) e sobre o passado (saudade e lembranças); e como sujeito de desejos nessas duas, ele é afetado pelo inconsciente. Deriva daí a condição de perda que atravessa a voz do próprio sujeito, garantindo-lhe uma moldura para a tecelagem do dizer e para arrematar, com fluidez e deformação, o jogo basculante entre o que fica retido e o que se perde: o mantido e o dissolvido, a lembrança e o esquecimento.

“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto. Em tempos encontrei certo coronel num corredor sombrio do hospital do Exército. Ele afirmou que estivera comigo quando ainda era terceiro-sargento, mas seu rosto na penumbra não me dizia grande coisa. Nem decerto o meu a ele, que me reconheceu pelo nome. Mas aí minha lembrança não era recíproca, e nesses casos, para não magoar o próximo, a gente costuma dizer, ah, sim, claro, como vai, e fica por isso mesmo. Porque dá preguiça vasculhar a memória o tempo inteiro, mas ele acreditou que me empenhava em recordá-lo, e quis colaborar. E só me atrapalhou mais ainda ao dizer, em francês, que quarenta anos passam voando, não entendi se citava algum poeta. Ia me despedir quando ele mencionou as provas de artilharia na Marambaia, e não sei por que não o fez desde o início, num instante tudo se iluminou. Seria mesmo inútil revirar arquivos de nomes e rostos, porque minha memória tinha guardado o sargento na paisagem.”> (BUARQUE, 2009, p. 41 e 42)

O dilema sobre um nome próprio, tal como Freud em relação ao pintor Signorelli, causa estranheza e desconforto no sujeito. O que ele tinha retido não retorna de imediato, pois parece guardado em local inacessível, deixando em suspenso dados precisos. O outro, que tenta dar contorno ao dizer do sujeito, atrapalha de início e, quanto mais diz, mais perturba. Em um dado momento, fala das “provas de artilharia na Marambaia” e, diante dessa formulação, o outro dá o mote para a lembrança. Assim, são as palavras que possibilitam os retornos e apagamentos, rupturas e presenças e também ausências materializadas na (falta de) memória, o que nos permite inferir que algo se move à revelia do sujeito. Isso porque, “O tempo da reminiscência tem parentesco com o sentido do Unheimliche, o ‘estranhamente familiar’ freudiano que ocorre quando um fragmento do passado efetivamente se atualiza. Esta irrupção do inconsciente atemporal desorganiza por alguns instantes a percepção do presente.” (KEHL, 2008, p. 261). Esse efeito de não-sabido do que está longe e esteve tão perto em outro momento (e vice-versa) é também percebido nas sequências abaixo:

“Estou neste hospital infecto, e aí não vai intenção de ofender os presentes. Não sei quem são vocês, não conheço seus nomes, mal posso virar o pescoço para ver que cara têm (...) Aqui não gozo privilégios, grito de dor e não me dão meus opiáceos, dormimos todos em camas rangedoras. Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldas, dizer a vocês que tive berço (...) De meu último passeio, só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça. Ele não queria esperar meia horinha em frente do cemitério São João Batista, e como se dirigisse a mim de forma rude, perdi a cabeça e alcei a voz, escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos.” (BUARQUE, 2009, p.50).

A lembrança de algo aparentemente tolo - o motorista não ter concordado em esperar meia hora - é materializada com força e nitidez, ao passo em que o em-torno da cena, ou seja, visitar o cemitério, o possível sentir saudade, lidar com os feitos da lembrança e da morte de alguém são apagados. Esse caráter lacunar da memória é justamente dado pela dobradiça que permite que algo fique apagado para que outra cena possa ser dita em lugar; isso nos coloca diante de que a recordação retém uma parte deixando escapar tantas outras. O que se esvai e se perde adormecido está; o que retorna guarda um pretenso inteiro, mas fissurado pela porosidade de frestas que fazem falar outra cena, nesse caso, a nobreza de ser bisneto do barão.

“Aquela que veio me ver, ninguém acredita, é minha filha. Ficou torta assim e destrambelhada por causa do filho. Ou neto, agora não sei direito se o rapaz era meu neto ou tataraneto ou o quê. Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas de faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até o tempo de Napoleão.” (BUARQUE, 2009, p. 14)

O não saber sobre o filho ou o neto tem, no avesso, o saber do sujeito sobre a interlocutora que ele antecipa ser a filha e sobre o que (d)enuncia como a topologia de sua memória, salão espaçoso e também como canto da cabeça, nos quais ele nomeia habitantes. O passado espreita, em esconderijos e aparições, os movimentos do sujeito também em outras cenas; vejamos:

“(...) eu adoro ver seus olhos de rapariga rondando a enfermaria: eu, o relógio, a televisão, o celular, eu, a cama do tetraplégico, o soro, a sonda, o velho do Alzheimer, o celular, a televisão, eu, o relógio de novo, e não deu nem um minuto. Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus, para pensar no galã da novela, nas mensagens do celular, na menstruação atrasada. Você me olha assim como eu na fazenda olhava um sapo, horas e horas estático, fito a fito no sapo velho, para poder variar com os pensamentos.” (BUARQUE, 2009, p.19)

Aqui, há uma sequência de associações livres a partir do espaço da enfermaria, que enreda elementos tais como relógio, televisão, celular etc, na mesma medida em que os desloca. Vistos sob o efeito da metáfora, eles apontam na direção de situações em que os fragmentos do tempo estão ligados a processos vitais, por exemplo, a doença degenerativa, a paralisia, a passagem do soro na sonda, o medidor do próprio tempo, o minuto, o eu. Nas várias medidas de tempo, o sujeito olha o tempo, discursiviza uma relação com a passagem dele, dimensiona-se sendo olhado e isso o faz lembrar e o assalta em situação anterior, em outro lugar. O fato de ser visto pela enfermeira encaminha o sujeito a se ver olhando o sapo, estático e marcado por uma outra dimensão temporal, no caso, pelas horas.

Em tantos outros momentos, a báscula da anterioridade e da atualização faz-se presente. Aparece, no horizonte do sujeito, a névoa de movimentos antigos que se deslocam ao sabor de algo que não se pode controlar, que não é de todo sabido, que não obedece à ordem da intenção e tampouco que apresenta linearidade. Recortes tantos que serão analisados em outro trabalho.

 

Concluir: um tempo que há (de vir)

2“Vê esta porteira... Ela tem duas faces. Dois caminhos se juntam aqui: ainda ninguém os seguiu até o fim. Este longo corredor para trás: ele dura uma eternidade. E aquele longo caminho para frente - é uma outra eternidade. Estes caminhos se contradizem: eles se chocam frontalmente e é aqui nesta porteira que eles se juntam. O nome da porteira está escrito ali em cima: Instante."
- Friederich Nietzsche, Obras completas

O percurso empreendido até aqui indicia o modo (e quanto) os trabalhos de Freud indiciam uma investigação refinada sobre a memória, a lembrança e o esquecimento, entrelaçando-os a partir da problemática de que o terreno dessas articulações é pantanoso visto que faz desaparecer e retornar efeitos de modo imprevisível. Propondo um deslocamento de qualquer linearidade e de uma cronologia estabelecida pela razão, ele desloca noções estabilizadas e põe a nu a certeza de que algo escapa à compreensão, causando os movimentos do sujeito, implicando-o em repetições e apagamentos e comparecendo nas brechas do lembrado e do esquecido. O personagem central do livro de Chico Buarque também sinaliza esse derrame da memória por caminhos opacos que fazem vir e ir o sabido, o lembrado, o amado... Na tessitura desse movimento fica o instante... O instante do ato de dizer tanto como retorno, quanto como inauguração e, nessa esfera, o meu instante de escrever sobre memória

 

Referências bibliográficas

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© Lucília Maria Sousa Romão 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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