Nostos: Uma viagem pelas palavras nômades de Clarice Lispector

Denise Bussoletti

Doutora em Psicologia
Professora da Universidade Federal de Pelotas
denisebussoletti@gmail.com


 

   
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Resumo: Este ensaio problematiza a escrita de pesquisa, compreendendo-a como um exercício de alteridade que se estabelece em campo com o “outro” do investigador-escritor. Um exercício que se pretende como de reflexividade pela finitude da palavra. Estabelece, com este propósito, um palimpsesto imaginado com a escrita literária de Clarice Lispector, abordando, pelos destinos da palavra, a nostalgia de um itinerário nômade, ou seja, o lugar do silêncio na palavra.
Palabras clave: Escrita de pesquisa; Finitude da palavra; Silêncio, Clarice Lispector

Resumen: Este ensayo problematiza la "escrita de investigación", comprendiendo esta como un ejercicio de alteridad que se establece en campo con el “otro” del investigador-escritor. Un ejercicio que se pretende como de reflexividad por la finitud de la palabra. Establece para tanto, un palimpsesto imaginado con la escrita literaria de Clarice Lispector. Por los destinos de la palabra la nostalgia de un itinerario nómade, es decir, el lugar del silencio en la palabra.
Palabras Clave: Escrita de investigación; Finitud de la palabra; Silencio, Clarice Lispector.

 

Pelas linhas e entrelinhas

Eis o desafio (quem dera fosse ousadia): uma escrita que problematiza o seu próprio método, um exercício de reflexividade e de alteridade, transitando pelas fronteiras do pesquisar que pelos contornos da ética e da estética assim se configura.

Bachelardiando, aprendi a acreditar “que no reino do pensamento a imprudência é um método” [2]. Sendo imprudente parece que me liberto das palavras gastas e ocas e (talvez ingenuamente) penso que assim fazendo desdigo do hábito que encarcera a escrita acadêmica, lugar de onde escrevo, e experimento esse prazer sincero de, rejeitando a norma, acatar toda palavra que se faça - instantânea.

No entanto, surge a primeira pergunta: a técnica da imprudência pode ser um suficiente re-curso? Técnicas são escudos, isso eu afirmo, ou, quem sabe, técnicas são poderes, ou “vontades de poder”, já isso afirmava Nietzche. Em que pesem também as teorias, meios mais ou menos ineficazes, pelos quais as ciências do humano disponibilizam aos que ingressam no desafio do pesquisar sobre a escrita suas promessas de (quem sabe) uma segurança possível; acredito que estes escudos não devem, ou não deveriam, ser barreiras que sufocassem mentes e corações “humanos demasiadamente humanos” (ainda NIETZCHE).

Talvez seja essa a imprudência maior deste trabalho, ser um ensaio sobre o método da escrita de pesquisa [3], um ensaio que exerce o direito de desconfiar das suas próprias bússolas e que reconhece que nos seus caminhos se cruzam outros tantos, afinal são inúmeros os vãos e os des-vãos nos destinos que as palavras inauguram.

A intenção é, pois, exercitar a imprudência e mergulhar através da força das palavras nos limites da linguagem. “Palavras múltiplas”, que pelo que dizem e pelo que não podem dizer assumem sua condição de vulnerabilidade [4], sua finitude, que neste ensaio é inspirada na “Filosofía de La Finitud” de Joan-Carles Mèlich [5] é, pois, entre suas pistas que engatinho e na presença inquietante [6] das ausências que em mim, depois de sua leitura, fizeram-se como um... agir.

Transito assim e para além, na tão trilhada tragédia do humano, pelo fracasso da linguagem e tudo o que consegui, nessa viagem desiludida, virá nesse texto, sob a forma de uma imagem de palimpsesto sobre a escrita de Clarice Lispector.

Um palimpsesto originalmente na história da escrita era um pergaminho cujas palavras primeiras eram raspadas e davam lugar a outras, em camadas sobrepostas e sucessivas. Seguindo os registros do humano, podemos dizer que toda a escrita se faz sobre uma outra escrita. Raspo a escrita de Clarice e sobre ela escrevo outra (a mesma? a minha?) em seu lugar.

Por que Clarice Lispector? Talvez pela desculpa rasgada de uma identidade cúmplice. Foi Clarice quem me trouxe para o sonho acordado de tentar ser inteligível quase no escuro. Foi através da leitura da poética inigualável de Clarice, que descobri um sentido para as palavras no mundo, palavras que mantêm o perfume, a cor, o gosto e a textura que em significado pode ser nomeado como nostalgia.

Palavras nostálgicas que aceitam a condição da viagem: fluir, ir, sempre ir... Nostalgia que empresta ao olhar a capacidade de espanto, como se cada visão fosse a primeira. Nostalgia que faz do presente e do futuro miragens na grandiosa aventura de buscar e não achar, nostalgia que enfrenta o destino e assume o fracasso - afinal todo esse esforço é indizível!

Se eu pudesse, eu gostaria de escrever baixinho, sem ruído, como eu ainda não consigo, faço do diálogo com Clarice um motivo, um tanto acadêmico, outra outro tanto de vida, de dialogando comigo mesma, dizer de um lugar onde habitam as palavras que desconfio que ainda não suficientemente sabem que nesse ali...habitam.

Uma escrita borrada? Talvez. Confusa? Por certo. Mas já que há de se escrever, que ao menos não esmaguem em palavras nas entrelinhas, dizia Clarice. Pelas linhas, suspiros refletidos de conhecimentos, indagações acerca de uma escrita que assim se reivindica. Polifonia de vozes que afinam e desafinam diante do complexo trabalho que é interpretar, o já tão interpretado mundo.

Um palimpsesto imaginado é claro, (ou escuro) mas é uma projeção através das palavras hoje digitalizadas, que buscam dialogar com o texto oculto, com o subtexto, um recurso técnico de apresentação, onde, pela citação, principalmente por se tratar de citação literária, tenta extrair a melhor expressão das palavras, retirá-las da clausura daquilo que se apresenta naquele “para além do sujeito que escreve”. Um exercício também de autoria, num mundo repetido de imitações requintadas.

Em cada linha, uma busca e uma dor implícita, que não aceita a rima fácil de teoria com monotonia. Linhas rápidas, ainda inseguras, clarões que escapam teimosamente entre os dedos. Linhas cuidadosas que temem perder o brilho da beleza que ainda parece possível. Linhas partidas por cicatrizes de atmosferas indizíveis. Linhas felizes e linhas tristes, pois por mais que se tentem como realidade sabem que não são e nunca serão toda a verdade, repetidamente assumida aqui, como indizível. Linhas desassossegadas, que, entre o sim e o não, escolhem o talvez. Linhas independentes, que sub-escrevem o prazer de não saber, de não dizer, e, mesmo assim, ser somente o que são... Linhas inconclusas que amanhecem e anoitecem, mas que tentam permanecer no “ainda”, naquilo que não é ponto... nem muito menos se escreve como final...

Buscando a compreensão da finitude da palavra pelos contornos da beleza e da estética da incompletude humana, Clari-sendo, eis em linhas e entre-linhas o desafio: quem dera fosse ousadia.

 

Destinos da palavra: a nostalgia de um itinerário nômade

Queria me re-inaugurar, deixar de lado os endeusamentos, abandonar os cacoetes de palavras que se organizam no raso.

É uma desilusão. Mas desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal deveria estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ela está muito feliz porque finalmente foi desiludida. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade (P.G.H. p:13).

Acatar o sagrado risco do acaso implica em reconhecer que o que aqui se ensaia é movido por uma busca permanente, diante das palavras sitiadas pelo “academicamente correto”, mas é movido, principalmente, pelo desassossego que assume a forma de um desabafo diante de qualquer certeza que fale, cale, ou aconteça inexistindo. Será? Suspiro, depois do ponto, pois percebo que a melhor forma de começar ou terminar algo tem que suportar a curva da pergunta .”Escrever é uma indagação. É assim? (S.V. p:16).

Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trêmula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água. Sou um palidíssimo reflexo de erudição. Minha receptividade se afina registrando sem parar as concepções dos outros, refletindo no meu espelho os matizes sutis das distinções entre as coisas da vida... (S.V. p: 47)

 

Sobre aquilo que não se pode dizer

A diferença entre, aquilo que pode ser dito e aquilo que só pode ser mostrado, é o lugar onde se ancora a linguagem e seus limites, na tentativa de dar visibilidade ao mundo. O fracasso da linguagem em dizer das coisas que existem.

Eu tenho à medida que designo - este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e pro destino volto com as mãos vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu (P.G.H. p:176).

Sobre aquilo que não se pode falar deve-se calar, diz a célebre formulação de Whittgnenstein. Compreender os limites daquilo que pode ou não poder ser dito não é da ordem da invenção, mas da ordem do reconhecimento, ou do descobrimento.

Eu adivinho coisas que não tem nome e que talvez nunca terão. É. Eu sinto o que me será sempre inacessível. É. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber não tem sinônimo no mundo da fala mas enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei falá-la. E saber-tudo-sem saber é um perpétuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avançam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida é expulsar-me de mim. Civilizar minha existência a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso, no entanto, não fala de meu possível significado (S.V.p: 67).

É este o convite que nos faz pela filosofia o Wittgnenstein (jovem), é um convite e ao mesmo tempo um paradoxo, pois na medida em que os limites são “descobertos”, o que fazer com a necessidade de discurso sobre eles.?

Tenho vontade de escrever e não consigo. Tenho vontade de escrever uma história chamada: “Um Pé”. E outra chamada: “Áspera que És”. O que escrevo está sem entrelinha? Se assim for, estou perdida (S.V. p: 96).

Aceitar os limites pode significar uma restrição a tudo que pretenda dizer além do possível e reconhecer que o lugar onde linguagem e pensamento convivem é no silêncio.

... faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras. “E qual é mesmo a palavra secreta? Não sei e por que a ouso? Só não sei por que não ouso dizê-la?” (S.V. p. 35).

O silêncio ergue-se diante dos limites do mundo, impondo uma nova forma de pensar, de viver, e de conceber a subjetividade.

Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim... (S.V. p: 18).

O sujeito ao contemplar os limites do mundo pode fazer disso um exercício sobre o inefável, reconhecer o limite, ficando do outro lado, num último esforço, talvez...

O que é a natureza senão o mistério que tudo engloba? Cada coisa tem o seu lugar. Que o digam as pirâmides do Egito. No alto de tanta incompreensão, no topo da pirâmide, quantos séculos, eu te contemplo, oh ignorância. E eu sei qual é o segredo da esfinge. Ela não me devorou porque respondi certo à sua pergunta. Mas eu sou um enigma para a esfinge e, no entanto, não a devorei. Decifra-me, disse eu à esfinge. E esta ficou muda. As pirâmides são eternas. Vão ser sempre restauradas. A alma humana é coisa? É eterna? Entre as marteladas eu ouço o silêncio (S.V. p: 103).

Um último esforço de uma mesma viagem. Destinos do sujeito e das palavras. Uma viagem repetida ao longo do tempo por tantos, que fica impossível separar o que é de todos e o que é de cada um, ou onde começa, e onde termina, pois o fim emenda-se num círculo ao começo. Eu, experimento uma certa sensação de permanência nisto tudo. Digo-me: estou indo! E acreditando nisso vou satisfazendo a minha vontade de método e o meu desejo nômade de mundo.

E “eu que ao lado da vontade de método, desejo o riso ou o choro como chuvas passageiras de verão” (S.V. p:108).

 

Uma viagem nostálgica

Somos todos nômades ! Nossas seguranças foram se perdendo ao longo do caminho e junto de nossas incertezas sobre nossa condição tão humanamente moderna seguimos em exílio, não, ou de vez em quando, pertencendo.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse pra me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho (D.M. p: 111).

Nem sequer o que é caminho assume um contorno preciso, por vezes é deserto, noutras é confusão.

Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho, com sombras refrescantes e reflexo de luz, entre as árvores, o atalho aonde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu ponto de chegada (D.M. p:119).

Palavras nômades, são as palavras que se permitem o deslocamento necessário para o ganho estético da criação por uma escrita que se pensa, ou não, mas que se faz e quer imprevisível. Palavras nômades gritam ou sussurram: “quero escrever movimento puro” (S.V.p:12). Palavras nômades são aquelas que se permitem viajar por mares nunca antes navegados. “Quando sinto uma inspiração, morro de medo porque sei que de novo vou viajar e sozinho num mundo que me repele...” (S.V.p:17).

Solidão e medo são companheiros da viagem. E se as palavras, as nômades, pudessem ser nomeadas o nome delas seria “nostalgia”. Nostalgia é o modo de ser nômade pela palavra.

Eu adivinho as coisas que não tem nome e que talvez nunca terão. É. Eu sinto o que me será sempre inacessível. É. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber não tem sinônimo no mundo da fala mas enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei falá-la. E saber tudo-sem-saber é um perpétuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avançam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida é expulsar-me de mim. Civilizar minha existência a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso no entanto não fala do meu possível significado (S.V.p:67).

A Nostalgia é palavra grega que diz da algia do nostos. Uma algia, uma dor, um sofrimento do nostos. Nostos, ainda, pelo grego, significa desejo de volta. A nostalgia seria, nesta perspectiva, a dor diante do intenso desejo e da concreta impossibilidade de voltar para casa.

De súbito a estranheza. Estranho-me como se uma câmera e cinema estivesse filmando meus passos e parasse de súbito, deixando-me imóvel no meio de um gesto: presa em flagrante. Eu? Eu sou aquela que sou eu? Mas isto é um doido faltar de sentido! Parte de mim é mecânica e automática - é neurovegetativa, é o equilíbrio entre o não querer e o querer, do não poder e de poder, tudo isso deslizando em plena rotina do mecanicismo. A câmera fotográfica singularizou o instante. E eis que automaticamente saí de mim para me captar tonta de meu enigma, diante de mim, que é insólito e estarrecedor por ser extremamente verdadeiro, profundamente vida nua amalgamada na minha identidade. E esse encontro da vida com a minha identidade forma um minúsculo diamante inquebrantável e radioso indivisível, um único átomo e eu toda sinto o corpo dormente como quando se fica muito tempo na mesma posição e a perna de repente fica “esquecida”.

Eu sou nostálgica demais, pareço ter perdido uma coisa não se sabe onde e quando (S.V.p: 70).

Pelos caminhos das palavras nômades, viajantes, gregas, quase em vertigem, chego a Ulisses, em mito e história que se repete, revelo-me: a Odisséia é o poema do nostos, do retorno desejado e permanentemente adiado. Ulisses é o marinheiro eterno, descobre as maravilhas do mar, resistindo aos deuses e deusas e pautado pelo encanto e pela beleza de suas convicções. Somos todos nômades e todos também Ulisses - eu sei!

É. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois cada vez quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue (S.V.p: 17).

Ulisses enfrentou monstros, cíclopes, deuses e sereias... Sereias sim, aquelas criaturas do mar, meio mulheres, meio pássaros, poderosas e sedutoras cantoras que conduziam os marinheiros à morte. Ulisses foi o único que ouviu o canto das sereias e sobreviveu. Qual será o segredo de Ulisses? Kafka [7], conta que Ulisses entupiu seus ouvidos com cera e acorrentou-se ao mastro do navio. Venceu as sereias, mas esqueceu-se, no entanto, que a arma mais terrível das sereias não é o seu canto mas sim o seu silêncio.

Nada conteve a arrogância de Ulisses e o sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, mas Kafkaneando podemos dizer que tão preocupado estava Ulisses em bloquear seus sentidos ao perigo sonoro iminente que não percebeu que as sereias, ao se depararem com o opositor e seus rudimentares meios, não cantaram, permaneceram em silêncio. Escapou Ulisses das sereias, graças ao seu olhar perdido na distância, e paradoxalmente escapou justo no momento em que mais estava perto delas. Salvou-se Ulisses, mas pouco ou nada soube sobre a existência silenciosa das belas.

Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feitas com a confiança com quem se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra (D.M. p: 470).

Buscar ouvir as sereias, e tentar aprender seu silêncio é estar diante novamente da ilusão de Ulisses, enfrentando o mito da onipotência do método pela intangibilidade do silêncio, é provocar as ciências humanas a trazer o silêncio do exílio produzido pelo discurso acadêmico, onde as linguagens e as contenções do silêncio numa progressão histórica desdobraram-se em desdenhosas e infinitas, palavras.

Que Ítaca seja aqui! E que o mito e seu lamento (nostos... nostos... nostos...) diga, que, mais importante do que a volta, é a viagem. Pelo mito, saiu Ulisses como um rei, um guerreiro e voltou como um sábio; pelo texto saio eu, em guerreira simulação de uma viagem... e é nesse mar que estou...

 

O silêncio das sereias

Caminhos do des-conhecimento, em cada palavra a doce-amarga nostalgia de se querer e saber longe de casa, talvez até com desejo de volta, na bagagem a convicção de que para viajar é necessário soltar as amarras e escutar também os sons que passam. E quanta música pode ter no limiar da palavra nova?

Estou ouvindo música. Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia, refluindo e fluindo. Bach é matemático. Mozart é o divino impessoal. Chopin conta a sua vida mais íntima. Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo mundo. Beethoven é a emulsão humana em tempestade procurando o divino e só alcançando na morte. Quanto a mim, que não peço música, só chego ao limiar da palavra nova. Sem coragem de expô-la. Meu vocabulário é triste e às vezes wagneriano-polifônico-paranóico. Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere. Sou uma paisagem cinzenta e azul. Elevo-me na fonte seca e na luz fria. Quanto ao mar. O mar é impossível de se acreditar. Só o imaginando é que se chega a ver sua realidade. Só como sonho possível o mar existe. Mas o sem fundo do mar desabrocha em mim como espanto de espantalho (S.V. p: 118).

Miragens de sereia que valsam ao volume das paixões, rasgando os véus do real de toda a sua força previsível e conduzindo ao mistério do silêncio indizível.

Estou me sentindo como uma sereia fora d’água. Na metade de mim as escamas são jóias que refulgem ao sol da vida. Pois saí do mar para a vida. E me retorço sobre um penedo penteando meus longos cabelos salgados. Escrevi isso não sei por que, acho que é para não deixar de anotar alguma coisa... (S.V. p: 96).

Sereia que através de seus olhos de água reflete o mundo e convida ao permanente mergulho no ser das coisas. Mergulho buscando o encontro com a perplexidade da escrita e do ato que se promete silenciosamente fluido e líquido. O silêncio em sua líquida forma, o mar, encontra na história das palavras a cumplicidade etimológica assumida... [8]

De silêncio em silêncio, um véu cobre as palavras. Abismos que escondem o mistério: o silêncio atua na passagem, no des-vão. [9]

Meu rosto é um objeto tão visível que tenho vergonha. Entendo as belas mulheres árabes que têm a sabedoria de esconder nariz e boca com um véu ou um crepe branco. Ou roxo. Assim ficam de fora apenas os olhos que refletem outros objetos. O olhar ganha então um tão terrível mistério que parece um vórtice de abismo... (S.V. p:109)

Um véu que ao mesmo tempo pousa e desvela: toda forma carrega um silêncio. E querer ouvir o silêncio é viajar por um lugar anterior à palavra que ainda não se converteu em significações exprimíveis - um aquém da linguagem, lugar onde o mundo das aparências implode, desabando os limites do “manipulável” e provocando novos sentidos capazes de habitar o intangível.

Buscar ouvir o silêncio é aceitar o inefável como prefiguração do sentido mais profundo do ato de compreender a linguagem e o mundo. Nesta perspectiva o silêncio não é representável, não é interpretável, mas é , sim, compreensível.

Não me interessa o silêncio como maquiagem da explicação, nem o silêncio como uma máscara descartável de um significado confortável e possível. Não me interessa tampouco o silenciado, pois silêncio não é clausura, não é confinamento. Não me basta só o silêncio que encontre um equivalente confortável na palavra. Quero buscar o eco da palavra que habita, suporta e permanece em sua densa in-sonoridade. Busco o inominável-reconhecível. Coloco-me na aventura de uma pesquisa que como condição abdica da objetividade sem sujeito, ou da mera disposição de intenção voluntária de uma protagonista. Aventura que se pretende desprendida, despudorada, desesperada, inclinada e afinada com a insegurança sobre o “improvável dia de amanhã”.

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se é morte como te alcançar. (O.E.N.p: 74).

Mas... é muito difícil ouvir o silêncio, quem tentou sabe, mas não diz...

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone, e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve. Que muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz (O.E.N. p: 74).

Na impaciente espera pelo silêncio, existe a possibilidade de confusão entre um primeiro e um outro, o verdadeiro silêncio...

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. (O.E.N. p: 74-75).

Um outro problema é reconhecer - ele - o silêncio se descobre...

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até à indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio (O.E.N.p: 75).

Existe quem queira enganar o silêncio, mas é também inútil...

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro caí dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio (O.E.N.p: 75).

Mas se existe coragem, não há sentido para a luta. Urge escutar o silêncio. Ignorando o navio, abandonando as ceras e as correntes o coração tem que se apresentar diante do nada sozinho...

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem de se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio (O.E.N.p: 75-76).

Quem ouviu o silêncio nunca mais esquece, e em qualquer parte pode reconhecê-lo, até mesmo depois de uma palavra dita, ou no próprio coração da palavra.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma (O.E.N.p:76).

O resto é...

A sedução se faz em relação ao que se quer. Deixar-se seduzir pelas palavras e pelo silêncio é aceitar o encanto da linguagem, seu e nosso limite.

Somos todos palimpsésticos, propensos ao pálin, novamente pelo grego, ao outra vez, ao novamente. Por isso talvez, essa sensação de que toda viagem é a outra vez, de uma outra vez ainda não suficientemente viajada.

A nostalgia nesse itinerário nômade é a repetição incessante do desejo em eco de silêncio.

A literatura é uma possibilidade inventada que nos encanta e nos distrai ou aproxima do jogo do tempo e de nossas feridas ontológicas.

Se a escrita é sempre uma escrita que se escreve sobre outra de tal forma que acaba sendo nossa escrita, a viagem pela vida só pode pulsar pelo coração da palavra silêncio. Ou não?

Outra vez, nostos...que contém... eu sei... a palavra “só”.

O resto é a implícita tragédia do homem - a minha e a sua?...(S.V. p:159)

 

Notas:

[1] Ilustración: Draper, Herbert James. Ulisses e as Sereias,1909.

[2] BACHELARD, G. Lê Surrationalisme, em L´Engagement Rationaliste: Presses Universitaries de France, Paris, 1972.

[3] Tomo como base a perspectiva de escrita de pesquisa como uma prática através da qual a escrita e o conhecimento acontecem no diálogo vivido em campo e na relação com o outro do pesquisador. Nesta dinâmica busca incorporar novas vozes e transformar os sentidos (AMORIM, 2001). AMORIM M. O Pesquisador e Seu Outro: Bakhtin nas Ciências Humanas. São Paulo: Editora Musa, 2001.

[4] “Es esta una fuerza inmensa de la palabra humana. Sin embargo, quizá deberíamos hablar en plural y escribir “palabras humanas” porque la palabra humana es una palabra “múltiple”, una palabra que incluye gestos, signos, símbolos, imágenes, conceptos, categorías, fórmulas, miradas...La palabra humana dice “lo que dice”, pero también siempre dice “más do que lo dice” dice “de otro modo, y al “decir de otro modo” incluye algo no dicho del todo. La palabra humana expresa aquello que queda por decir y, quizá también, aquello “imposible de decir”. (MÈLICH, 2003: 11).

[5] “... El ensayo, junto com la narración y la poesía, es um género de sombras, um género que no teme la falta de rigidez, la carencia de un argumento lógicamente bien articulado. El ensayo intenta mostrar el movimiento mismo de la vida, y la vida no está lógicamente bien articulada. El ensayo se encuentra más próximo a la intuición que a la demostración. El ensayo vive en la fragilidad, en el fragmento, en el aforismo, en la vulnerabilidad, en el instante, en la singularidad...(MÈLICH, 2003.p:12).

[6] Mèlich tenta mostrar que a finitude é uma presença inquietante na vida humana, que por sua vez, abre outras presenças inquietantes, escritas no plural, são portanto perversamente inconclusas. Convencido está que os problemas fundamentais da vida humana jamais podem ser resolvidos de um modo definitivo nem conceitual (MÈLICH, 2003).

[7] Franz Kafka. Beim Bau der chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlaß (in der Fassung der Handschrift), Frankfurt am Main, Fischer Taschenbuch Verlag (12446), November 1994, S. 168-170. Edições anteriores intitulavam-no "Das Schweigen der Sirenen" [O silêncio das sereias], título que, no entanto, lhe foi dado por Max Brod. Tradução inédita de Sérgio Tellaroli

[8] Embora na época clássica não haja sentido entre sileo e taceo (calar), primitivamente sileo não designava propriamente “silÊncio” mas “tranqüilidade”, ausência de movimento ou ruído. “Estar em silêncio” = “Estar quieto”. Empregava-se sileo para se falar de coisas, de pessoas e, especialmente, da noite, dos ventos e do mar. Silentium, mar profundo. E aí nos deparamos com o aspecto fluído e líquido do silêncio (ORLANDI, 2002:35).

[9] “..é mais um dos elementos que desvelam a ilusão referencial: o silÊncio não é transparente e ele atua na passagem (des-vão) entre pensamento-palavra-e-coisa. (ORLANDI, 2002:39).

 

Bibliografia Primária

LISPECTOR, Clarice. A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. - (C.S.).

______. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. - (P.G.H.).

______. Onde estivestes de noite ? Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1974. - (O. E.N.).

______. A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. - (D.M).

______. Um Sopro de Vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. - (S.V.).

 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Maria José Somerlate Barbosa. 2001. Clarice Lispector: des-fiando as teias da paixão. Porto Alegre: EDIPUCRS.

BACHELARD, Gaston. 1972. Lê Surrationalisme, em Léngagement rationaliste.

Paris: Presses Universitaries de France.

KOVADLOFF, Santiago. 2003. O Silêncio Primordial. Rio de Janeiro: José Olympio.

MÈLICH, Joan Carles. 2002. Filosofia da Finitude. Barcelona: Editorial Herder.

MENEGOLLA, Ione Marisa. 2003. A Linguagem do Silêncio. São Paulo: Hucitec.

NINA, Cláudia. 2003. A Palavra Usurpada: exílio e nomadismo na obra de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: EDIPUCRS.

ORLANDI, Eni Puccinelli. 2002. As Formas do silêncio: no movimento do sentido. Campinas: Editora da UNICAMP.

PONTIERI, Regina. Uma Poética do Olhar. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 1999.

SANTOS, Jeana Laura da Cunha. 2000. A Estética da Melancolia em Clarice Lispector. Florianópolis: Ed. Da UFSC.

TELLAROLI, Sérgio. http://www.ocaixote.com.br/caixote02/rev_contos_sergio.html. Acesso em 12/10/2005.

 

© Denise Bussoletti 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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