A presença do jornalismo na literatura:
Cidade de Deus, um estudo de caso [1]

Adriana Seibert de Oliveira

Jornalista pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí)
Mestre em Letras - Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
adri.seibert@hotmail.com


 

   
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Resumo:A presença de elementos literários no discurso jornalístico e a influência do jornalismo na literatura podem ser percebidas em muitos textos. O fato de as duas narrarem a vida em seus discursos permite essa “contaminação”. Na história do jornalismo essa influência é evidente desde o início da imprensa. Na literatura, a utilização de recursos jornalísticos também pode ser percebida em muitos romances. Este trabalho tem como objetivo apontar os elementos do jornalismo no romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, considerado o primeiro romance contemporâneo a narrar a vida dos moradores da favela de seu próprio ponto de vista.
Palavras-chave: Jornalismo, Literatura, Jornalismo Literário, narração

Resumen: La presencia de elementos de la literatura en el discurso periodístico y la influencia del periodismo en la literatura puede ser notada en muchos textos. En el periodismo y en la literatura se escribe sobre la vida en sus discursos y así es posible la contaminación. Em la historia del periodismo esta contaminación es visible desde el principio de la prensa. En la literatura, el periodismo y su lenguaje puede ser notada en muchos libros. Este artículo tiene el objetivo de mostrar los elementos del periodismo en el libro Cidade de Deus, de Paulo Lins, el primero libro actual a traer la vida de los moradores de la favela de su propria manera.
Palabras clave: Periodismo, Literatura, Periodismo literário, narración

 

Quando se fala na aproximação entre jornalismo e literatura e a influência que cada área exerce sobre a outra, deve-se levar em consideração que nenhuma é totalmente isolada, sem receber influências ou contaminações de outras. É possível se apropriar de algo já existente para construir o novo, ou seja, todas recebem influências externas. E, nas duas áreas em específico, essa realidade também é percebida, seja na influência que a literatura exerce no jornalismo e vice-versa.

Manuel Ángel Vázquez Medel (2002) descreve a influência na seguinte citação:

No processo de desenvolvimento histórico e de institucionalização de ambas séries discursivas encontram-se coincidências muito interessantes e interações mútuas. Resulta inegável a influência de pautas de escritura e modelos literários para a construção de determinados discursos jornalísticos, não é de menor importância a presença do jornalismo (com seus temas, recursos, procedimentos e técnicas) na criação literária (especialmente no século XX), sem esquecer o fato de que as figuras do escritor e do jornalista (sobretudo de opinião) às vezes coincidem com a mesma pessoa (pág. 15).

Em comum, as duas áreas utilizam para a construção de seu discurso, a palavra. A matéria-prima de ambos, de acordo com o modo que for articulada, pode fazer com que o texto adquira características mais informativas ou artísticas. Ao ler um editorial e um poema, de forma comparada, percebe-se a diferença de discursos; porém também é possível perceber as semelhanças das áreas, como ao ler, também de forma comparada, uma reportagem e um conto.

Como já afirmado anteriormente, as duas áreas sofrem influências externas, podendo uma incorporar recursos da outra. No jornalismo, muitos profissionais utilizam elementos literários para informar o seu público, bem como na literatura, escritores incorporam elementos jornalísticos para a construção e também no conteúdo de sua obra. É nesse momento que os discursos se aproximam e os gêneros “dialogam”. Rildo Cosson (2008) afirma que esse embaralhamento só é possível porque se trata de discursos de convenções. “Isso não quer dizer que essas fronteiras são fáceis de serem transferidas e rompidas. Um gênero só termina depois que o outro começa e há uma zona entre os dois discursos. Emergir entre a zona comum, criando uma nova existência, demanda uma forma diferenciada de ler esses textos, já que é um novo gênero” (COSSON, 2008).

De um modo geral, os dois gêneros narram a vida em seu discurso. Os textos contaminados na fronteira de jornalismo e literatura, conforme Cosson (2008) destaca, se valem de empréstimos de outra área para dizer alguma coisa a seu leitor. O jornalismo, por exemplo, para repassar as informações utiliza a narração, e elementos literários como personagem, espaço, artifícios de linguagem, suspense e focalização. Os jornalistas buscam se aproximar de uma forma de “literalizar”, contaminando o discurso de realidade com ficcional. A literatura, por sua vez, também toma empréstimos do jornalismo, se apoderando dos índices de factualidade, como nomes, momentos históricos e acontecimentos reais, assim como atribuições de palavras (declarações e testemunhos), por exemplo.

No caso do jornalismo, a literatura sempre esteve presente. Desde o princípio, quando a imprensa não estava organizada nos moldes atuais, eram os escritores os responsáveis pela organização e produção de materiais informativos. Quando surgiram os primeiros jornais, também eram eles os profissionais que produziam o conteúdo dos periódicos, já que eles possuíam mais contato com a escrita, além da não existência de forma institucionalizada do profissional jornalista. “Estamos falando justamente dos séculos XVIII e XIX, quando os escritores de prestígio tomaram conta dos jornais e descobriram a força do novo espaço público. Não apenas comandando as redações, mas, principalmente, determinando a linguagem e o conteúdo dos jornais” (PENA, 2006, pág. 28).

Dentre os escritores que escreviam em jornal, Daniel Defoe é considerado, por alguns historiadores, como o primeiro jornalista literário moderno, quando em 1725 escreveu uma série de reportagens policiais, onde utilizou técnicas narrativas que já utilizava em seus romances.

Essa influência pode ser vista com bastante clareza nos folhetins (narrativas literárias em jornais publicadas de forma sequencial e parcial). Esse recurso começou a ser utilizado para incrementar as vendas, aumentar os investidores de publicidade, além de oportunizar a autores a visibilidade de sua obra, já que os folhetins traziam histórias divididas nas edições. Quando a narrativa conquistava o público, ele certamente compraria o jornal do dia seguinte para saber o desenrolar dos fatos. Com uma linguagem acessível, o folhetim atingia todas as camadas sociais e utilizava recursos de fidelização dos leitores, como o uso de clichês, estereótipos e personagens com os quais os leitores pudessem ou se identificar, ou identificar alguém próximo. O romance-folhetim surgiu nos jornais, na maioria dos casos, no rodapé das páginas, com um pontilhado indicando a linha para ser recortada. Dessa forma, quem acompanhava o enredo, no final do ciclo, poderia encadernar e ter em casa um exemplar de livro, com as suas histórias preferidas.

Da mesma forma, no folhetim também era utilizado o artifício com que se garantia a leitura do próximo número: sempre um acontecimento seria resolvido na edição seguinte, esse recurso é chamado de plot. A repetição também era utilizada, ou seja, o leitor sempre era lembrado de fatos passados como forma de linearizar a narrativa, uma vez que poderia ocorrer de alguém ter perdido um fascículo. Esses artifícios são semelhantes aos utilizados pelas telenovelas, como por exemplo, a narrativa que conta a história de um casal apaixonado, mas que é quase impossível que fiquem juntos.

No Brasil, grandes nomes da literatura tiveram suas obras publicadas nos folhetins. Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, em 1852, por exemplo, foi publicada em forma de folhetim no Correio Mercantil, sendo posteriormente editado em formato de livro. Da mesma forma, como tantos outros, Machado de Assis, José de Alencar, Manoel de Macedo e Euclides da Cunha também tiveram suas obras publicadas nas páginas de jornais, assim como trabalhavam na edição do periódico.

A obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, por exemplo, foi publicada em uma série de relatos no jornal O Estado de São Paulo e logo após, em 1902, foi editada em livro. Os Sertões é considerado o primeiro livro-reportagem brasileiro por trazer informações jornalísticas (dados reais) em seu contexto, relatando a vida do sertanejo, durante a Guerra de Canudos, em 1896 e 1897, com elementos literários. Cunha havia sido enviado pelo jornal para fazer a cobertura da insurreição liderada por Antônio Conselheiro, no agreste da Bahia. A obra traz em seu contexto informações sobre a sociologia, geografia e história, em suas três partes: a terra, o homem e a luta.

Considerada uma das obras-primas da literatura brasileira, traz de maneira descritiva o cenário em que se desenrolavam as lutas, o estudo do relevo, o solo, a fauna, a flora, o clima e a cultura nordestina. Também é feita uma análise da psicologia do sertanejo, assim como a descrição, com riqueza de detalhes dos confrontos entre os jagunços de Antônio Conselheiro e as expedições militares.

Na década de 40, o escritor brasileiro Nelson Rodrigues escreveu alguns romances em formato de folhetim para os jornais de Assis Chateaubriand, sob o pseudônimo feminino de Suzana Flag. Já no primeiro folhetim Meu destino é pecar, “a escritora” teve um retorno muito bom dos leitores, que acreditaram que Suzana Flag existia. Utilizando o sucesso de “Suzana”, Nelson continuou a escrever sob pseudônimo, publicando ainda Escravas do amor, Minha vida, Núpcias de fogo, O homem proibido e A mentira.

Inspirado no sucesso das publicações em folhetins, o rádio também utilizou essas narrativas e deu origem às radionovelas. Da mesma forma, a televisão também usou da mesma estratégia e hoje as telenovelas fazem sucesso entre os telespectadores. As telenovelas utilizam a técnica de ganchos ao final dos capítulos e a abordagem de temas populares e polêmicos, como já citado.

Na metade do século 20, a imprensa já está consolidada e havia profissionais de jornalismo. O período é marcado pelas grandes tiragens, existência de fortes grupos editoriais, modificações gráficas e estilísticas. É nesse período que a literatura e seus escritores deixam de ter uma participação direta no jornalismo, pois os jornais adquiriram as características de informar, consolidando o texto jornalístico, com precisão, clareza e objetividade e levando aos leitores matérias diversas. Desta forma o conteúdo literário foi colocado como um suplemento.

Surgem então os cadernos literários, que podem ser enquadrados no gênero diversional, com críticas e matérias sobre lançamento de obras.

 

O jornalismo na literatura

Assim como o jornalismo sofreu grande influência da literatura, a literatura também incorporou elementos jornalísticos. A utilização de técnicas do jornalismo, como o uso de informações reais, que podem posteriormente ser conferidas, é um dos exemplos. Em muitos casos, toda a descrição do espaço é verdadeira, bem como os aspectos históricos, sociológicos e de comportamento, porém o enredo e as personagens são fruto da criação de um escritor.

Os dados reais foram introduzidos na literatura motivados pelas teorias científicas e filosóficas. A realidade é retratada no homem e na sociedade em sua totalidade: o cotidiano, o amor adúltero, e a situação do homem comum diante dos poderosos. A literatura utilizou elementos do jornalismo como a visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Compagnon em sua obra Demônio da Teoria (1999) teoriza sobre a ficção e a realidade:

Os textos de ficção utilizam, pois, os mesmos mecanismos referenciais da linguagem não ficcional para referir-se a mundos ficcionais considerados como mundos possíveis. Os leitores são colocados dentro do mundo da ficção e, enquanto dura o jogo, consideram esse mundo verdadeiro, até o momento em que o herói começa a desenhar círculos quadrados, o que rompe o contrato de leitura, a famosa “suspensão voluntária de incredulidade” (pág. 136-137).

As narrativas marítimas, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, traziam narrativas jornalísticas e podem ser consideradas basicamente como uma grande reportagem. Rildo Cosson (2001) afirma que a Carta de Pero Vaz de Caminha foi a primeira contaminação entre os discursos do jornalismo e literatura no Brasil:

Ao escrever a famosa carta dando conta do descobrimento do Brasil, Pero Vaz de Caminha afirmou ao rei D. Manuel que não iria aformosear nem afear, mas apenas descrever o que viu e o que lhe pareceu. Ainda assim, a carta traz, no trecho que descreve a natureza e o comportamento dos indígenas, uma série de estereótipos próprios da visão exótica da América na época. Documento, crônica, notícia, relato entre o que viu e o que queria ver, a Carta de Caminha é o primeiro texto de uma longa série narrativa que vai misturar imaginação e realidade, e vai apagar a nitidez das fronteiras dos gêneros e dos discursos que separam jornalismo e literatura no Brasil (p. 11).

Na narrativa de ficção jornalística o autor, conforme afirma Felipe Pena (2006), inventa deliberadamente, e ela “não tem compromisso com a realidade, apenas a explora como suporte para a sua narrativa” (pág. 114). O autor destaca ainda que, na obra, acaba prevalecendo uma nova realidade socialmente construída por diversos fatores que podem ser pela linguagem, pela cultura, ou pelas forças políticas.

Podem também ser citados como exemplos da influência do jornalismo do meio literário, na literatura inglesa, a Newgate Novel. São novelas publicadas na Inglaterra entre as décadas de 1820 e 1840 que narravam a vida dos criminosos que tinham sido condenados à morte e esperavam a execução. Esse tipo de literatura foi amplamente questionado, sendo considerado um subgênero da literatura.

Também na literatura alemã o jornalismo esteve presente, para nos limitarmos a poucos exemplos. O movimento Nova Objetividade surgiu em 1925, com a intenção de voltar às imagens da realidade, que tinham sido deformadas pelo Expressionismo e pelo Futurismo. As obras adquiriam um estilo de reportagem, que voltava a atenção dos escritores para a atualidade, aos temas biográficos e históricos, remetendo os leitores para essa realidade.

Um autor que pode ser citado como exemplo é Gabriel García Márquez, que ainda atua como jornalista. Em obras como Cem Anos de Solidão, é trabalhado o ficcional sobre a realidade política, na cidade ficcional de Macondo, acompanhando a opressão do povo na história da família Buendía. A obra é um marco dentro do que se convencionou chamar de Realismo Fantástico, que procura mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum. Logo no primeiro parágrafo da obra, percebe-se essa questão:

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. (p. 7-8)

A opressão e as revoluções dão suporte à narrativa e fazem, em seu enredo, parte do fluxo de consciência das próprias personagens, como também pode ser percebido neste trecho:

Naquela noite interminável, enquanto o Coronel Gerineldo Márquez evocava as suas tardes mortas no quarto de costura de Amaranta, o Coronel Aureliano Buendia arranhou durante muitas horas, tentando rompê-la, a dura casca da sua solidão. Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade (p. 166).

A obra Cidade de Deus, de Paulo Lins, também é um romance que faz uso dos índices jornalísticos, como dados numéricos, históricos e discursos de realidade. Cidade de Deus foi considerado um marco, o primeiro romance contemporâneo a narrar a vida dos moradores da favela de seu próprio ponto de vista, traçando um painel humano do processo de marginalização econômica e social que resultou na realidade do tráfico de drogas no Brasil. A obra faz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90.

Entre os recursos jornalísticos presentes na obra, encontra-se a utilização de declarações, assim como se encontra em notícias e reportagens:

“Sim, é errado uma criança na delinquencia, mas muito mais errado é não ter ninguém para dar um dinheirinho para saciar os seus desejos infantis”, disse o delegado na Gávea quando proibiu os detetives de espancá-lo na primeira vez em que fora surpreendido com uma garrucha numa sacola de papel. (p. 155)

Nesta passagem, quando uma das crianças que trabalhava no tráfego é interceptada pela polícia, o autor insere uma declaração do delegado, da mesma forma que é feita pelo jornalismo, o que permite dar mais veracidade à história. Do mesmo modo, a inserção de explicações ao que é narrado, como é feito no jornalismo especializado, aparece em determinados trechos:

Agora lembrava de Geléia, gerente do jogo do bicho do São Carlos, falando que o tráfico era o que estava segurando a onda dos bicheiros, pois a coisa havia ficado ruim para o lado deles desde que a Polícia Militar fora para o policiamento ostensivo - atividade delegada anteriormente à Polícia Civil -, porque a maioria dos PMs queria propina dos bicheiros, que, mesmo mandando dinheiro forte para os coronéis de polícia, não tinha mais sossego (p. 208).

A explicação “atividade delegada anteriormente à Policia Civil” também é uma forma de ancorar o romance com o real e de situar o leitor com as modificações na sociedade, o que também é papel do jornalismo.

A explicação por parte do leitor, de uma forma didática, como se faz nas reportagens de jornalismo especializado, como já referido anteriormente, também podem ser percebidas quando Paulo Lins, ao falar sobre o trabalhador que ao receber seu salário do mês dirige-se à birosca para “acertar” suas dívidas. Para introduzir essa gíria na narração ele faz a seguinte descrição:

Ao artefato de papel fino, colado de maneira que ganhe formas variadas - em geral de fabricação caseira -, que se lança ao ar durante as festas juninas e que sobe por força do ar quente produzido em seu interior através de buchas amarradas a uma, ou mais, boca de arame, dá-se o nome de balão.

Existe o balão japonês, que é o menor de todos, tanto sua subida, como sua descida são instantâneas; o balão-caixote, cujo nome condiz com sua forma, o balão-beijo, pura balela para abreviar o tempo das investidas amorosas; o balão-tangerina, martelo... O balão só se mantém n ar enquanto sua bucha está acesa.

Dá-se também o nome de balão ao trabalhador que ega a semana toda no batente e, antes de chegar em casa, no dia do pagamento, vai acertar a conta do mês na birosca, aproveitando para encher a cara além do habitual, por que a quantia no seu bolso, na maioria das vezes, o infeliz acha que é muito (p.238-239).

Com a utilização desses recursos o leitor é inserido ao mundo em questão. Aquele receptor que não conhece o artefato e que não é conhecedor das expressões utilizadas na favela acaba entendendo o que o autor diz. Explicações como esta são (guardadas as devidas diferenças no texto jornalístico no que diz respeito a julgamentos e vocabulário), muitas vezes, encontradas em matérias jornalísticas de mais fôlego, geralmente em reportagens especiais, em que cabe a utilização de Box (recurso em que informações adicionais e explicativas são colocadas em uma área cercada), fazendo com que seja facilitado o entendimento do leitor.

A informação apresentada como se fosse parte de uma notícia é outro ponto em que se percebe a utilização e a influência do jornalismo na literatura. Os dados são apresentados de forma objetiva e sucinta: “O combate durou dois dias. Nesse combate, morreram oito caixas-baixas, dois bandidos da Treze, um policial militar, e vários foram baleados” (p. 397).

Este excerto caberia em um jornal, em uma reportagem policial, pois informa da mesma forma que o jornalismo.

Assim como estes exemplo, é percebida a influência do estilo e texto jornalístico em outras passagens, comprovando que as duas áreas sofrem influências. O autor, em nota de agradecimento, coloca que utilizou entrevistas e artigos de jornais para escrever a obra, mais uma evidência da contaminação entre as áreas.

 

Considerações finais

A busca de pontos que mostrem a influência do jornalismo na literatura foi o objetivo principal deste trabalho. Percebeu-se que a influência é mútua, ou seja, há contaminação entre as duas áreas, uma podendo incorporar elementos da outra. Buscou-se conceitos que auxiliassem na melhor compreensão do significado do gênero, assim como exemplos da influência do jornalismo na literatura, uma vez que as duas áreas andaram lado a lado. Percebeu-se que por essa aproximação, romancistas incorporaram em suas obras elementos textuais do discurso jornalístico, como uso de declarações, textos concisos e a inserção de dados da realidade, bem como utilizaram da técnica de construção de um produto jornalístico.

A análise de Cidade de Deus serviu como referência para apontar tais elementos. O autor Paulo Lins escreveu um romance baseado em fatos reais, utilizando também referenciais de realidade, bem como escreveu, em certos pontos, como se estivesse redigindo uma notícia.

Pode-se concluir que essa “contaminação” entre as áreas, como se refere Cosson à influência das áreas devido à proximidade, é positiva para ambos lados. Para o jornalismo, por exemplo, o jornalismo literário permite uma leitura como a de um romance, com mais fluência, possibilidade de assimilar fatos com a presença de personagens e dados complementares, além de poder remeter-se ao local do acontecimento, da mesma forma como acontece com a literatura. O diferencial está na veracidade dos fatos. Para a literatura, romances contaminados pelo jornalismo permitem ao leitor adquirir conhecimentos históricos, geográficos e humanos de determinado local, uma vez que, como no caso de Cidade de Deus, o autor estava inserido na favela, buscando informações com a técnica jornalística da entrevista.

 

Notas:

[1] Artigo resultante da pesquisa para a Dissertação “Abusado e Cidade de Deus: o limite textual entre o jornalismo e a literatura”

 

Referências Bibliográficas

COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria. Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

COSSON, Rildo. Romance-reportagem: o gênero. Brasília: Ed. UnB, 2001.

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Cem Anos de Solidão. Trad. Eliane Zagury. 65 edição. Rio de Janeiro: Record, 1967.

LINS, Paulo. Cidade de Deus. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.

PENA, Felipe. Jornalismo Literário. São Paulo: Contexto, 2006.

VÁZQUEZ MEDEL, Manuel Ángel. Discurso literário e discurso jornalístico: convergências e divergências. In.: CASTRO, Gustavo, GALENO, Alex. Jornalismo e Literatura, a sedução da palavra. São Paulo: Escrituras, 2002.

Palestras

COSSON, Rildo. Narrar a vida/dizer o mundo. 15 de dezembro de 2008, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), durante VI Jornada de Literatura e Autoritarismo e II Simpósio Memórias da Repressão, Santa Maria

 

© Adriana Seibert de Oliveira 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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