As mulheres em primeiro plano:
considerações sobre as personagens femininas do romance
La mujer habitada, de Gioconda Belli

Ana Paula Cantarelli

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - Brasil
anapaula_cantarelli@yahoo.com.br


 

   
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Resumo: Este artigo apresenta uma análise do romance La mujer habitada, da escritora nicaraguense Gioconda Belli, enfatizando aspectos relacionados à constituição das personagens femininas. Devido ao comportamento diversificado que tais personagens assumem, criamos duas categorias para melhor compreende-las e relacioná-las: Mulheres Penélopes e Mulheres Atenas. Enquanto as primeiras adéquam-se às convenções sociais, configurando-as em verdadeiras Penélopes que tecem telas, aguardando o regresso de seus “maridos-Ulisses”, as segundas assumem um papel social de luta e de participação nas decisões sociais.
Palavras-chave: La mujer habitada; identidade; Mulheres Penélopes; Mulheres Atenas.

Resumen: Este artículo analiza la novela La mujer habitada, de la escritora nicaragüense Gioconda Belli, enfatizando aspectos relacionados a la constitución de los personajes femeninos. Por el comportamiento plural que tales personajes asumen, creamos dos categorías para mejor comprenderlos y relacionarlos: Mujeres Penélopes y Mujeres Ateneas. Mientras las primeras se adecuan a las convenciones sociales, configurándose en verdaderas Penélopes que hilan telas, esperando el retorno de sus “esposos - Ulises”, las segundas asumen un papel social de lucha y de participación en las decisiones sociales.
Palabras clave: La mujer habitada; identidad; Mujeres Penélopes; Mujeres Ateneas

 

¿Cómo decirte hombre que no te necesito? (BELLI, 2002, p.51)

 

Introdução

Gioconda Belli (1948) é uma das escritoras mais representativas da Nicarágua. Em sua trajetória pessoal, Belli recusou o papel destinado convencionalmente às mulheres nas sociedades patriarcais, adotando uma postura ativa, buscando romper com a ditadura que imperava em seu país. Sua literatura, como aponta Espinosa (2000), “pertenece a la generación de poetas que crearon un nuevo estilo de expresión en Nicaragua, un estilo revolucionario de rompimiento con estructuras míticas y creación de otras, gestadas a través de su realidad social”.

Descendente da classe alta, Belli, ao ingressar na Frente Sandinista de Liberación Nacional (FSLN), rompeu com estereótipos sociais, assumindo um papel que ultrapassava os limites do lar. Conforme Espinosa (2000):

Desde diversas trincheras, el papel de la mujer fue de suma trascendencia en la revolución sandinista. Gioconda luchó desde la suya, como lo sigue haciendo toda vez que el sueño de la revolución terminara. Pero no es su expresar un expresar para el cambio, sino un resolverse a través de la poesía; poesía que, una vez puesta a circular entre quienes hubieron y habrán de escucharla, lleva a cabo lo propio, incidiendo en las transformaciones de la sociedad. La literatura de Gioconda Belli, que es respuesta a una forma de representación colectiva, es también, sin lugar a dudas, creación de otras.

As representações criadas pela literatura de Belli salientam a necessidade e a importância da participação feminina nas decisões sociais. Em meio a uma sociedade patriarcal subdesenvolvida, a voz da autora somou-se à voz de muitas outras mulheres que se uniram às ideias libertárias da FSLN na tentativa de construir um futuro diferente para seus filhos e demais familiares. Essas mulheres que conseguiram romper com estigmas sociais estabelecidos e mantidos por séculos, que lhes determinavam a casa como limite de atuação, passaram a resgatar o lugar social que, por direito, pertencia a elas, buscando o reconhecimento de uma identidade feminina associada à consciência social.

La mujer habitada, nosso objeto de estudo neste artigo, é um livro que possui um valor especial, por ter sido a estreia de Belli como romancista. Publicado pela primeira vez em 1988, quase dez anos após a Revolução Nicaraguense, esse texto apresenta uma série de pontos em comum com as experiências vivenciadas pela autora, tais como: as similaridades da geografia, dos contrastes sociais e dos conflitos políticos entre a cidade ficcional de Faguas e a cidade de Manágua (capital da Nicarágua); a semelhança nas vivências da autora e das personagens por ela criadas. As invasões espanholas experienciadas por um dos narradores do texto - Itzá, indígena de origem asteca - também encontram ancoragem no real, pois Manágua, como a cidade ficcional de Faguas, foi palco dos conflitos entre os conquistadores e as tribos astecas que habitavam o local.

Através de dois narradores (um em primeira e outro em terceira pessoa), esse romance relaciona duas épocas distintas: o período asteca, durante as invasões espanholas e o presente, ambientado nos primeiros anos da década de 1970. A aproximação dessas duas épocas permite que passado e presente sejam entrelaçados, ofertando códigos para a apreensão das relações sociais assumidas pelas personagens. Assim, o objetivo deste artigo é compreender como a relação entre períodos históricos tão distintos, afastados por mais de quatro séculos, possibilita a percepção da constituição identitária das personagens femininas de La mujer habitada.

Devido aos distintos posicionamentos e atitudes adotados pelas personagens femininas, criamos duas classificações para melhor analisá-las: Mulheres Penélopes e Mulheres Atenas. Abertas e flexíveis essas classificações visam auxiliar na compreensão de dois grupos distintos de personagens que convivem ao longo de todo o romance.

 

1 Dois narradores, duas épocas e possíveis simetrias

O romance La mujer habitada está estruturado a partir de dois narradores: um em primeira pessoa - Itzá - e outro em terceira pessoa onisciente. Itzá, narradora em primeira pessoa, é uma índia asteca que viveu no período das invasões espanholas. Após morrer tentando defender o território ocupado por seu povo, seu espírito ressurgiu, mais de quatro séculos depois, em uma laranjeira localizada nos fundos da casa da protagonista, Lavinia. A distância temporal que separa o tempo no qual Itzá viveu do tempo em que seu espírito ressurgiu não foi capaz de apagar ou mesmo amenizar a memória dos embates travados contra os espanhóis para tentar impedir a invasão e a dominação.

Limitada pela laranjeira, ao início do romance, Itzá só é capaz de apreender o que acontecia na casa de Lavinia, sendo esses acontecimentos propulsores para a revelação das lembranças de suas vivências. Durantes as invasões, a indígena lutou ao lado dos homens para defender seu povo. Em uma organização social na qual a mulher estava destinada ao lar, ao trabalho doméstico, ela sentia a necessidade de fazer algo mais. Seu interesse, desde jovem, pelas atividades consideradas masculinas pelo grupo antecipava a postura firme e atuante que assumiria quando adulta.

Apesar dos pedidos da mãe e do desagrado dos homens por terem que lutar ao lado de uma mulher, Itzá não se intimidou e resistiu bravamente ao lado de Yarince, guerreiro indígena que ela amava. Sua bravura e a dos guerreiros do seu povo, que não se deixaram subjugar facilmente pelos conquistadores espanhóis, permaneceram na história de Faguas como uma lembrança da coragem e da força dos habitantes que primeiro viveram naquelas terras e que tiveram seu sangue, posteriormente, misturado ao dos espanhóis, resultando no povo que vive em Faguas no tempo presente do romance. Quando Itzá ingressa em Lavinia através do suco de laranja que a protagonista bebe, a índia tem suas percepções alargadas, tendo acesso inclusive aos pensamentos da protagonista, porém ainda limitadas pelos espaços nos quais Lavinia age. Essa narradora é um elemento importante no romance, pois é através dela que passado e presente podem ser relacionados e comparados.

O segundo narrador, em terceira pessoa onisciente, ocupa-se da protagonista e dos acontecimentos dos primeiros anos da década de 1970, em Faguas. Lavinia é descendente da mescla de espanhóis e indígenas e vive sobre o solo que Itzá, séculos antes, defendeu. Muito tempo decorreu desde a morte de Itzá, mas algumas condutas, embora de forma um pouco distinta, ainda são mantidas. Na condição de mulher e de descendente da classe alta, espera-se que Lavinia case, constitua uma família e assuma uma ocupação que lhe permita dedicar tempo para o cuidado da família e para o atendimento das necessidades do marido. Contudo, ao optar pela arquitetura, ela escolhe uma profissão comumente ocupada apenas por homens. Isso desagrada sua família, principalmente sua mãe que se julga responsável por conduzir a filha pelo mesmo caminho seguido por ela. Além da escolha profissional, Lavinia opta por sair da casa paterna sem estar casada, o que não é comum para as mulheres naquela sociedade. A protagonista ainda ingressa no Movimiento de Liberación Nacional (MLN) e, ao lado de Felipe, homem que ela amava, tenta reverter o quadro de dominação que a classe alta, da qual ela é descendente, impõe sobre a população pobre.

Embora mais de quatro séculos separem a história de Lavinia da história de Itzá, é possível identificar similaridades nas trajetórias percorridas por elas, sendo a postura social assumida por ambas merecedora de destaque. Tanto a indígena quanto a arquiteta transpuseram as “cinzas do fogão” e lutaram contra a dominação e a subjugação. Embora Itzá lute pela liberdade de seu povo e de seu território, e Lavinia lute contra sua própria classe social, ambas são acometidas de uma consciência que vai além dos interesses particulares de cada uma e estende-se para a coletividade.

Entre as similaridades das duas épocas estão, também, a subjugação dos mais fracos pelos mais fortes: “¿Y de todo eso, qué de bueno quedó?, me pregunto. Los hombres siguen huyendo. Hay gobernantes sanguinarios. Las carnes no dejan de ser desgarradas, se continúa guerreando” (BELLI, 1989, p. 87); e o lugar secundário que é concedido às mulheres na sociedade. Essa simetria, apesar do distanciamento temporal, faz com que seja necessário refletir sobre a importância do passado nessa obra e sobre a necessidade de relacioná-lo com o presente uma vez que ele não foi superado de forma significativa.

Quando Lavinia encontra-se com o General Vela, no final do romance, quem puxa o gatilho não é apenas ela, mas sim, ela e Itzá juntas, integrando dois tempos: presente e passado, duas lutas por liberdade:

Allí estaba aquel hombre, como los capitanes invasores; su cara esculpida de dios maligno, mirando a Lavinia, reconociéndola.

Y el grito del muchacho.

La sangre de ella se congeló. Sentí las imágenes apretujarse. Imágenes brillantes y opacas, recuerdos viejos y presentes.

Vi la cara de Felipe. Vi los grandes pájaros metálicos lanzando hombres desde su entraña, calabozos terribles y gritos.

Vi el niño de Sara sin nacer, el cuarto oscuro de Lucrecia, su olor a alcanfor; los zapatos en el hospital, el médico forense asesinado. (…)

Yo no dudé. Me abalancé en su sangre atropellando los corceles de un instante eterno. Grité desde todas sus esquinas, ululé como viento arrastrando el segundo de vacilación, apretando sus dedos, mis dedos contra aquel metal que vomitaba fuego. (BELLI, 1989, p. 340)

Tal ação liberou a arquiteta de suas dúvidas e concretizou o desejo de libertação que havia sido delineado também por Itzá nas batalhas de que participou. Apesar da morte de Lavinia e de Felipe, o MLN alcançou seus objetivos, sendo essas duas personagens partícipes importantes dessa realização. Esse ato atende não somente os anseios do Movimento, mas também os de Itzá que, junto com Yarince, morreu lutando sem conquistar os seus propósitos.

Assim, é possível perceber que Itzá e Lavinia conduzem dois fios que tecem uma trama narrativa através de seu entrecruzamento, propiciando, ao tecido narrativo, densidade e amplitude, sobrepondo o passado personificado na figura de Itzá e o presente na figura de Lavinia. Esses dois tempos, enlaçados pelos fios da trama, amarram-se de tal forma que se tornam um só: Lavinia habitada pelo espírito de Itzá, estabelecendo uma unicidade entre os tempos, as trajetórias, as memórias e as identidades dessas mulheres.

 

2 Mulheres Penélopes e Mulheres Atenas

De acordo com a mitologia grega, Ulisses, rei de Ítaca, participou da Guerra de Tróia, permanecendo muito tempo longe de seu lar e de Penélope, sua esposa. Penélope, filha do príncipe espartano Icário, saiu da casa paterna para a casa do marido, sendo um exemplo de dedicação e de bom comportamento. Entretanto, devido à longa viagem de Ulisses para Tróia, a jovem esposa ficou sozinha no palácio, passando a sofrer insistentes assédios de novos pretendentes ao matrimônio.

Para manter-se fiel ao distante esposo, a filha de Icário criou uma ardilosa artimanha, alegando que “estava empenhada em tecer uma tela para o dossel funerário de Laertes, pai de seu marido, comprometeu-se em fazer a sua escolha entre os pretendentes quando a obra estivesse pronta” (BULFINCH, 2000, p. 223). Assim, durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia a tela, mas, durante a noite, desfazia o trabalho. Todavia, uma de suas servas descobriu a mentira e a revelou a toda cidade, obrigando a esposa de Ulisses a encontrar um novo artifício para protelar sua escolha.

Então, Penélope propôs uma competição entre os seus pretendentes: “a prova consistia em verificar a habilidade no manejo do arco. Colocaram-se em fila doze argolas, e aquele cuja seta atravessasse todas as doze teria a mão da rainha como prêmio” (BULFINCH, 2000, p. 304). Ulisses, que havia retornado a Ítaca em sigilo, e estava disfarçado de mendigo, também participou da competição. Enquanto os demais pretendentes sequer conseguiam envergar o arco, ele o preparou e disparou a flecha que acertou o centro do alvo. Depois, o marido de Penélope assassinou todos os homens que disputavam a mão de sua bela esposa.

Por sua lealdade e fidelidade, Penélope tornou-se o símbolo das mulheres que restringem seus domínios ao lar. Sempre à espera de seu marido, a filha de Icário configura-se como um modelo de passividade feminina, pois aguardou, pacientemente, o retorno do esposo. Ulisses, ao contrário, assumiu um papel ativo, de guerreiro, ganhando poder de decisão e estendendo seus domínios para além do lar.

Em oposição à postura assumida por Penélope está Atena, a deusa da sabedoria, do ofício, da inteligência e da guerra justa. De acordo com a mitologia grega, Atena era filha de Zeus e de Métis. Zeus amava Métis, sua primeira esposa. Porém, Gaia lhe advertiu que sua mulher lhe daria um filho que o destronaria. Assim, Zeus, amedrontado, decidiu matar Metis. E, em uma brincadeira divina, ambos transformaram-se em animais. Métis, ao converter-se em uma mosca, foi engolida pelo marido. Contudo, ela já estava grávida de Atena, e continuou a gestação na cabeça do deus. Durante uma guerra, Zeus foi acometido por uma forte dor de cabeça, e Hefesto, deus ferreiro e do fogo, deu-lhe uma machadada na cabeça na tentativa de aliviá-lo. Da cabeça de Zeus saiu Atena já adulta com elmo, armadura e escudo. Ela tornou-se, então, a filha favorita do deus.

Na mitologia, Atena não se casou, pois pediu aos deuses para não se apaixonar, porque se viesse a ter filhos teria de abandonar as guerras e passar a ter uma vida doméstica. Segundo Gorzoni (2003), Atena:

Integra o grupo das deusas que não precisam de um homem para ocupar o seu lugar no mundo. Geralmente são mulheres que trafegam com desenvoltura no mundo masculino, desenvolvem carreiras de sucesso e não se preocupam com casamentos ou filhos. Mulheres-Atenas são racionais, estrategistas e ágeis no pensar, além de muito reflexivas, qualidades que as ajudam a resolver problemas aparentemente insolúveis.

Essa deusa configura-se, a partir da perspectiva de Gorzoni, como uma mulher que rompeu com os paradigmas sociais de comportamento a ela impostos, destacando-se pela assunção de papéis comumente pertencentes aos homens. Embora Atena não pudesse suceder Zeus no trono do Olímpo por ser mulher, sua atuação negou a passividade que dela era esperada em virtude de seu gênero, passando a realizar feitos equiparados, e até mesmo superiores, aos masculinos. Sua inteligência e presteza a faziam superior a muitos deuses olímpicos.

Atena e Penélope configuram, dessa forma, duas posturas opostas de comportamento: enquanto a primeira rompe com papéis sociais, ingressando na guerra, fazendo valer sua astúcia e inteligência, a segunda assume a conduta que era esperada dela socialmente, restringindo-se ao lar. Assim, devido à variedade de comportamentos assumidos pelas personagens femininas da La mujer habitada, foi necessário o estabelecimento desses dois polos opostos.

São dois os fatores que motivaram a construção dos termos, “Mulheres Penélopes” e “Mulheres Atenas”, empregados neste estudo: um com referências intrínsecas ao romance e outro com referências externas. Primeiramente, Lavinia, a protagonista, faz uso da figura de Penélope para estabelecer uma comparação com sua conduta passiva, enquanto aguarda o retorno de Felipe: “Últimamente lo veo poco. En las noches, no hago nada más que esperarlo, por si aparece. Me siento como Penélope” (BELLI, 1989, p. 96).

Ao longo da obra, a arquiteta modifica sua conduta, entretanto outras personagens assumem, cada vez mais, o papel de Penélopes, sendo essa postura recorrente. Assim, o termo Mulheres Penélopes passou a representar, neste estudo, o comportamento submisso, dócil e passivo das personagens que, em La mujer habitada, converteram-se em ribeiras de rios, ou seja, aquelas que aguardam, dentro dos limites do lar, o retorno dos maridos.

Em segundo lugar, como nem todas as mulheres do romance assumem as mesmas condutas, era necessário buscar algo que se opusesse ao conceito de Mulher Penélope, a fim de marcar tal distinção. Dessa forma, também na mitologia grega, encontrou-se Atena. Com posturas muito diferentes das da esposa de Ulisses, a deusa da sabedoria e da guerra justa representa as mulheres que optam por construir um caminho distinto daquele que lhes está reservado usualmente. Atuando fora de casa e assumindo papéis que são comumente ocupados por homens, as Mulheres Atenas transpõem os limites do lar e ocupam lugares sociais equiparados aos ocupados pelos homens.

2.1 Mulheres Penélopes: As ribeiras do rio

Em sociedades patriarcais, às mulheres cabe um papel secundário na vida pública. Restritas ao lar, elas são responsáveis pela criação e educação dos filhos e pela limpeza e organização da casa, enquanto ao marido, no papel de chefe do lar, cabe a função de prover o sustento e de estabelecer as regras de convívio social. Relegadas a um papel de menor importância na vida pública, as mulheres acabam por acomodarem-se e acatarem todos os desígnios que lhes são impostos, primeiro pelo pai e depois pelo marido, em uma atitude submissa.

Assim são preparadas para a vida pública, com o objetivo de tornarem-se boas donas-de-casa e boas mães. Por restringirem suas atuações ao interior de suas residências, tornam-se pontos imóveis, ribeiras de rios, para onde maridos e filhos retornam ao final do dia. Estas mulheres, de tão imersas que estão nas atribuições sociais que lhes foram conferidas não conseguem romper com as amarras que as prendem a tradições seculares. No romance analisado, muitas são as Mulheres Penélopes que acreditam que sua função social é “tecer telas” enquanto os “bravos e trabalhadores” maridos não regressam de “Ítaca”. Todavia, apenas algumas, as mais características, serão aqui analisadas.

A primeira Mulher Penélope que merece destaque é a mãe de Itzá. Conforme as tradições da tribo, quando uma menina nascia seu umbigo era enterrado dentro de casa, marcando que o espaço desta restringia-se ao lar. Arraigada às tradições de sua tribo, a mãe de Itzá tem dificuldade para aceitar a partida da filha, pois tal ato romperia com as tradições que definiam o papel social das mulheres.

Apesar disso, ela abençoa a filha e a deixa partir, aceitando que esta trace outro destino diferente daquele que lhe era socialmente imposto:

Recuerdo que extendió las manos, las palmas blancas de batir la masa del maíz y redondear las tortillas. Las alzó y volvió a bajar. Inclinó la cabeza desistiendo de hablar más. Me hizo arrodillarme e invocó a Tamagastad y Cipaltomal, nuestros creadores; a Quiote-Tláloc, dios de la lluvia, a quien yo había sido dedicada. (BELLI, 1989, p. 106)

Da mesma forma que a mãe de Itzá, a mãe de Lavinia também zela pela manutenção dos valores sociais. Embora separadas por quase cinco séculos, os ritos sociais pouco mudaram. Não há a entoação de orações [1] que ressaltam a diferença nos papéis que competem aos homens e às mulheres, entretanto há convenções que determinam os espaços de atuação de cada um.

Para a mãe de Lavinia foi difícil aceitar que a filha tivesse escolhido uma profissão ocupada comumente por homens, e mais difícil ainda foi compreender que a arquiteta quisesse sair de casa sem estar casada. Por tudo isso, praticamente rompeu relações com a protagonista, pois acreditava que o afastamento era uma espécie de punição para os maus atos da filha:

Cambiaron la persuasión por la amenaza y finalmente la obligaron a empacar todas sus cosas "para que se fuera inmediatamente si tan convencida estaba". Mientras su padre buscaba evadir el conflicto, refugiado en su habitación, la madre de pie al lado de la puerta, empuñaba la espada del ángel exterminador y la expulsaba con ojos furiosos del paraíso terrenal. (BELLI, 1989, p.41)

Além das mães de Lavinia e de Itzá, há Sara, amiga de infância da protagonista. Embora as duas tenham convivido desde pequenas, acabaram por assumir posturas muito distintas socialmente. Enquanto Lavinia optou pela carreira profissional, Sara casou-se cedo e assumiu o gerenciamento de seu lar. A amiga da arquiteta passou do controle paterno para a autoridade do esposo, permitindo que sua vida sempre fosse regrada por outras pessoas, por homens.

Sara está tão envolta nas tradições sociais mantidas por sua família que não compreende posturas distintas: “Sara no entendería que ella se sintiera tan contenta, pensó. Ella no entendía el placer de ser uno mismo, tomar decisiones, tener la vida bajo control” (BELLI, 1989, p. 18). Na condição de boa esposa e de boa dona de casa, a amiga de Lavinia não ultrapassa os limites de sua residência. Mesmo sem ter passado por um ritual, não estando seu umbigo enterrado sobre as cinzas do fogão, Sara não consegue estender seu olhar e sua atuação para além dos limites de sua casa.

Em uma passagem do livro, Sara e Lavinia discutem sobre a relação doméstica. A primeira, então, afirma que sente como se seu marido, Adrián, fosse um intruso na domesticidade de seu lar:

"Soy una buena esposa -dijo-. Y me gusta serlo. Es una felicidad como cualquier otra: arreglar la casa, recibir al marido." Lo curioso, decía, era sentirse encerrada en una especie de modorra, en el espacio de un tiempo propio en el que Adrián apenas intervenía. Cuando él llegaba por las noches, con sus noticias del trabajo y los acontecimientos mundiales, a ella le costaba cambiar el rol; tener una conversación "interesante". Le costaba más aún, siguió diciendo, irse a la cama y jugar los juegos seductores que a él le gustaban; romper todas los noches la crisálida, el refugio manso de los quehaceres domésticos y volar como mariposa: ser una mujer sensual. "Casi siento que debo fingir. Tengo que esforzarme por romper la modorra, acelerar el ritmo, escuchar lo que dice con cara de interés." Era más fácil, decía, cuando él se marchaba y ella quedaba guardada en su mundo callado, en el jardín, los quehaceres domésticos. (…)

Lo que más le llamaba la atención, agregaba, era que la sensación parecía ser común a las mujeres en su misma situación: pasaban el día dedicadas aparentemente a la felicidad del marido, pero aquellos hombres apareciendo de noche y saliendo por la mañana, eran extraños en el entorno. (BELLI, 1989, p. 151)

Essa passagem é uma das mais significativas dentro do romance, pois caracteriza o comportamento e as percepções das Mulheres Penélopes. Além de cuidar da casa, cozinhar, cuidar das roupas e dos demais objetos do esposo, às Mulheres Penélopes ainda cabe o papel de “amantes”, realizando “jogos sedutores”, durante a noite, para satisfazer o marido. O homem é percebido como um intruso dentro do lar (“extraños en el entorno”), porque, ao não colaborar com as tarefas domésticas, este acaba distanciando-se da esposa que tem a casa como espaço de atuação. Sara comenta que as demais donas de casa com quem ela tem conversado compartilham da mesma opinião, mostrando, assim, a extensão das tradições sociais sobre as mulheres.

—No sé si me explico -decía Sara- para la gente como vos, la vida doméstica es un desierto. Así también la ven los hombres. El asunto es que uno se inventa el oasis. Uno se divierte con lo que hace. A mí me gusta hablar con el carnicero, me divierte discutir precios en el mercado, arreglar el jardín, ver crecer las begonias. Disfruto la cotidianidad. Lo que uno empieza a sentir extraño es el compartir la cama, el baño, la ducha, con un ser que viene de noche y se va en la mañana; que lleva una vida tan distinta...

—Bueno -dijo Lavinia- de eso se trata precisamente. A las mujeres se les asigna la cotidianidad, mientras los hombres se reservan para ellos el ámbito de los grandes acontecimientos...

—Lo que estoy tratando de decirte, Lavinia, es que, aunque no lo parezca, las esposas también, a su manera, relegan al marido. Los maridos se convierten en intrusos del mundo doméstico...

—No te engañes, Sara -dijo Lavinia-, si el marido no estuviese de por medio, las amas de casa no existirían, ese mundo del que hablas, sería diferente...

—No estoy hablando de que dejen de existir los maridos. Compréndeme. El hecho es que existen. Lo que estoy diciendo es que, así como el hombre tiene una vida satisfactoria en su trabajo, las "amas de casa" tenemos nuestras propias maneras de funcionar...

—No lo dudo -dijo Lavinia-, sin salario, ni reconocimiento social...

—A mí todos en el barrio me quieren -dijo Sara-, me conocen y me respetan. Tengo reconocimiento social entre mis amistades... (BELLI, 1989, p. 152)

As crenças da mãe de Itzá, também, encontram-se refletidas nas condutas e no discurso de Sara, mostrando que o “umbigo” desta geração continua prendendo as mulheres ao lar. A amiga de Lavinia está tão envolvida nas tradições sociais que foram transmitidas a ela que percebe como natural o fato de ter de encarregar-se do lar, enquanto ao marido compete a atuação fora do ambiente doméstico. Durante a conversa com sua amiga, a protagonista alerta para o fato das donas de casa não receberem nem salário, nem reconhecimento, ao que Sara contesta, afirmando que possui, sim, reconhecimento social. Para a esposa de Adrián, são as posturas diferentes daquelas que foram assumidas por ela que geram a negação social e o isolamento pelo não cumprimento das tradições.

A última Mulher Penélope que será aqui analisada é Lucrecia Flores, empregada de Lavinia. Como outras mulheres da obra (Dona Nico, encarregada dos refrescos e da limpeza do escritório onde a protagonista trabalha, e Mercedes, secretaria do mesmo estabelecimento), Lucrecia trabalha fora de casa, mas o trabalho desenvolvido por ela e pelas outras está relacionado às ocupações que uma mulher realiza em sua casa. Lucrecia é a responsável por limpar e organizar a casa da protagonista.

No decorrer do romance, Lavinia sente a ausência de sua empregada e vai até a residência desta para descobrir a justificativa pelos dias faltosos. Em um bairro pobre de Faguas, encontra Lucrecia acamada por ter cometido um aborto ilegal:

Por fin, Lucrecia, interrumpiéndose de rato en rato para llorar, le contó con detalles a Lavinia, lo del aborto. No quería tener el niño - dijo -, el hombre había dicho que no contara con él y ella no podía pensar en dejar de trabajar. No tendría quién lo cuidara. Además quería estudiar. No podía mantener un hijo. No quería un hijo para tener que dejarlo solo, mal cuidado, mal comido. Lo había pensado bien. No había sido fácil decidir. Pero por fin, una amiga le recomendó una enfermera que cobraba barato. Se lo hizo. El problema era que la hemorragia no se le contenía. Ya toda ella olía mal, a podrido, dijo, y estaba con esas fiebres... Era un castigo de Dios, decía Lucrecia. Ahora tendría que morirse. No quería que la viera nadie. Si la veía un médico, le preguntaría quién se lo había practicado y la mujer la amenazó si la denunciaba. Los médicos sabían que era prohibido. Se darían cuenta. Hasta presa podía caer si iba a un hospital, dijo. (BELLI, 1989, p.146-147)

A alternativa encontrada por Lucrecia para resolver o problema da gravidez indesejada foi o aborto clandestino. Sem o apoio do ex-namorado, levar a gestação até o fim seria quebrar com as tradições sociais que determinam que uma mulher só deve ser mãe quando estiver casada. Além disso, sua pobreza impedia-lhe de manter sozinha a criança. Dessa forma, ela recorre ao aborto. Tal ato confirma que, socialmente, as mulheres não são donas sequer de seu próprio corpo, pois a necessidade de atender às normas lhes induz a atos impensados e clandestinos. Além disso, o fato de Lucrecia assumir uma profissão com uma remuneração baixa, como a maioria das mulheres, também lhe impede de adotar uma postura diferente, porque a falta de recursos financeiros (normalmente provenientes do marido) não permite que ela seja capaz de arcar som as despesas necessárias para o sustento do filho.

Essas quatro mulheres, apesar de separadas pelo tempo e por diferentes classes econômicas, compartilham de códigos impostos socialmente, responsáveis pelo ordenamento de suas condutas e posturas. A dificuldade de romper com esses códigos é o que as torna guardiãs e perpetuadoras das tradições, rejeitando qualquer mudança, porque temem ser excluídas e condenadas socialmente.

2.2 Mulheres Atenas: “yo no quiero ser solamente la ribera de su río” (BELLI, 1989, p. 98)

As Mulheres Atenas destacam-se, principalmente, por estabelecerem condutas que julgam pertinentes para o seu desenvolvimento pessoal, profissional e para sua atuação social. Para as Atenas, não há separação de gêneros, há apenas diferenças físicas, pois as capacidades intelectuais são as mesmas. Em La mujer habitada, algumas personagens femininas assumem facilmente o papel de Atenas, enquanto outras, com mais dificuldade, rompem gradualmente os laços tradicionais que as amarram ao lar.

A primeira Mulher Atena da obra é Itzá. Embora em seu nascimento os rituais que a prenderiam ao lar tenham sido cumpridos, ela não encontra nos afazeres domésticos a realização que buscava. Itzá aprende a manejar o arco, e interessa-se mais pelas brincadeiras dos meninos do que pelas das meninas. Assim, seu ingresso na luta contra os espanhóis marca a não aceitação das convenções às quais ela estava submetida e a tentativa de atuação social, transpondo as “cinzas do fogão”.

Itzá não compreende como, frente à situação da guerra, as mulheres indígenas optem por não lutar: “Tantas que conocí. Temerosas. Creyendo que así guardaban la vida” (BELLI, 1989, p. 61). A postura das demais mulheres da tribo não interfere na assumida por Itzá, entretanto essa personagem lamenta que, diferentemente dela, as demais tenham se ausentado da guerra e tenham, por isso, sofrido mais. O ódio que motiva Itzá é contra os espanhóis, que, na condição de conquistadores, além de destruírem a cultura do povo indígena, utilizavam as mulheres como escravas.

Apesar de Itzá lutar ao lado dos homens, há lugares aos quais ela não tem acesso:

Yo miraba, ocultada, desde unos matorrales porque a las mujeres no se nos permitía estar en los oficios de los sacerdotes. Debía haberme quedado en la tienda, pero de todas formas, había desafiado lo que es propio para las mujeres, yéndome a combatir con Yarince. (BELLI, 1989, p. 62)

Essa conduta destaca a existência de lugares resguardados para Itzá, pois, apesar dos guerreiros aceitarem que ela lutasse ao lado deles, abrir mão desse tipo de restrição promoveria uma equiparação de gêneros no campo de batalha, possibilitando que a indígena se igualasse a eles. Essa restrição salienta o fato de Itzá ser uma mulher e, como tal, necessitar submeter-se aos desígnios sociais.

A segunda Mulher Atena é Inés, tia de Lavinia. Apresentada na narrativa apenas pelas memórias da protagonista, pois o romance inicia com a arquiteta vivendo na casa que lhe foi deixada de herança pela tia já falecida. Viúva, Inés optou por não se casar novamente, encarregando-se dos cuidados maternais que a sobrinha necessitava e prestando ajuda a artistas e a escritores: “Viuda desde joven, nunca pudo sobreponerse al espanto de la soledad. De poco le sirvió dedicarse a ser madrina de poetas y artistas, inquieta mecenas de su tiempo de miriñaques y recato” (BELLI, 1989, p.11).

Ao assumir as responsabilidades maternas sobre Lavinia, Inés torna-se um referente para ela, principalmente no momento em que apoia a protagonista na escolha de uma profissão que comumente era empregada por homens. A influência da tia sobre Lavinia foi tão grande que a arquiteta escolheu, ao integrar o MLN, o nome Inés como seu pseudônimo, em uma homenagem ao exemplo de dedicação e força que recebeu.

Outra personagem que merece a classificação de Mulher Atena é Flor. Apesar do nome delicado, a integrante do MLN mostra-se uma personalidade forte e determinada. Embora tenha sofrido traumas na infância com os abusos sexuais cometidos por seu tio, Flor não assumiu uma postura de conformismo. Ao integrar o MLN, essa personagem mostrou ser tão capaz quanto os homens que ali estavam. Tal postura lhe rendeu créditos junto ao Movimento, pois passou a participar ativamente das decisões e planejamentos. Flor é uma das doze pessoas que invade a casa do General Vela ao final da obra:

Flor le recordaba a la tía Inés. Eran tan diferentes y, sin embargo, había momentos en que Lavinia no podía dejar de sentir que algo tenían en común las dos; una cierta manera grave de hablar de la vida, de percibir pliegues íntimos de las cosas.

-Te preocupas demasiado por eso de la aceptación -decía Flor-. O por la identidad... Cada uno de nosotros carga con lo propio hasta el fin de los días. Pero también construye. Como arquitecta debías saberlo. El terreno es lo que te dan de nacimiento, pero la construcción es tu responsabilidad. (BELLI, 1989, p. 197)

Lavinia, a protagonista, ao iniciar a obra, estava entre os dois extremos: não era mais uma Mulher Penélope, mas ainda não havia se tornado uma Atena. Criada, principalmente, pela tia, a arquiteta havia recebido um estímulo positivo para desenvolver seu comportamento e posturas. A saída da casa paterna em busca de independência, o fato de morar sozinha e de exercer uma profissão tipicamente masculina para as convenções sociais a deslocaram da margem do rio e permitiram que ela transpusesse as “cinzas do fogão”. Entretanto, ela ainda não atuava socialmente, ou seja, suas decisões e comportamentos estavam restritos aos seus interesses particulares.

Após Lavinia ser “habitada” por Itzá, o comportamento da protagonista sofre a modificação mais importante. Com seu medo controlado pela indígena, a arquiteta passa a sentir que necessita fazer algo a mais pelo entorno social no qual está inserida. Dessa forma, com o apoio de Flor, Lavinia integra o MLN, sendo de grande valia para o Movimento. Felipe encontra dificuldades para aceitar que perdeu a “ribeira de seu rio”, pois a protagonista deixou de aguardá-lo dentro de casa, passando a lutar ao seu lado, como, mais de quatrocentos anos atrás, Itzá havia lutado ao lado de Yarince.

Lavinia, ao longo do romance, assume um importante papel junto ao MLN, configurando-se de vez em uma Mulher Atena. Apesar da morte de Felipe, a arquiteta não deixa de lutar contra a ditadura e os maus tratos sofridos pela população de Faguas, mostrando que sua participação no Movimento não estava vinculada a Felipe, mas sim a sua própria vontade.

Outras personagens femininas figuram no romance de Belli, entretanto com menor destaque. Todavia, há de se considerar que elas também apresentam vozes que se somam às das personagens apresentadas, configurando suas identidades entre Mulheres Penélopes e Mulheres Atenas. As mulheres que conseguiram romper as invisíveis, mas sólidas, amarras que restringiam seus espaços de atuação, estenderam seu trajeto para além dos limites do lar e provaram que sua atuação é tão valiosa quanto a masculina e que a separação de gêneros é apenas uma imposição social.

 

Considerações finais

La mujer habitada, ao traçar um caminho que percorre mais de quatro séculos, permite que as vozes de muitas mulheres distintas sejam ouvidas, ofertando ao leitor uma visão panorâmica das lutas femininas contra a subjugação do conquistador e por uma posição social. Essas lutas, quando narradas no texto, enfatizam a atuação feminina e permitem que questões de gênero sejam revistas.

A índia asteca, ao ter seu umbigo enterrado sob as cinzas do fogão em um ritual que a determinava a fazer parte da casa, tinha seu lar como a representação das fronteiras intransponíveis que lhe relegavam um papel de passividade e de submissão. Com o passar do tempo, o umbigo confundia-se com o solo da residência, assim como a mulher se mimetizava com os objetos que compunham seu lar. Presas pelos invisíveis fios da tradição, essas mulheres aceitavam pacatamente a exclusão da vida social e silenciavam suas vozes, em atitudes de cordialidade.

Mais de quatro séculos depois, muitas alterações ocorreram no cenário: cidades foram construídas, ruas foram abertas, objetos foram industrializados. Entretanto, as tradições continuam como antes. As mulheres passam da autoridade paterna à autoridade do marido, em uma eterna atitude de subserviência. Raras são as que conseguem adotar uma postura diferente, pois, de tão imersas que estão nesses ambientes, torna-se difícil transpor as fronteiras do lar e ingressar em um mundo que é regido pelos homens.

Pela diversidade de vozes, no romance, é difícil dar a mesma ênfase a todas as figuras femininas, o que ocasionou uma divisão das personagens segundo seus comportamentos. As personagens como Itzá, Inés, Flor e Lavinia, foram denominadas de Mulheres Atenas. Essa nomenclatura aplicou-se devido ao posicionamento forte e atuante dessas mulheres que tiveram a coragem de romper as amarras que as atrelavam ao lar. Outras tantas receberam a denominação de Mulheres Penélopes, por não conseguirem libertar-se das algemas invisíveis que as faziam pertencer a casa.

Esses dois tipos de mulheres, as Penélopes e as Atenas, constituem, não uma batalha pela defesa ou extinção das tradições, mas sim um grande retrato de como a identidade feminina é percebida e constituída no romance. Segundo Navarro (1995, p. 43), “esse romance pode ser considerado uma síntese literária sobre a questão da mulher, uma síntese representativa da importância do papel da mulher na história desde as culturas pré-colombianas até os dias atuais”.

 

Notas

[1] Durante o ritual de nascimento de uma criança asteca - povo do qual descende Itzá no romance-, já se podia perceber a antecipação do papel que seria destinado à mulher naquele grupo, pois a parteira, ao enterrar o umbigo das meninas dentro de casa, proferia uma oração distinta da que era proferida quando um menino nascia e o umbigo deste era enterrado longe do lar. Se a criança era uma menina, entoava-se a seguinte prece: “Hija mía, ya hábeis venido a ese mundo, al lugar de cansacios y de trabajos y congojas, donde hace frío y viento. Habéis de estar dentro de casa como el corazón dentro del cuerpo, no habéis de estar fuera de casa, no habéis de tener costumbre de ir a ninguna parte; habéis de ser la ceniza con que se cubre el fuego en el hogar; habéis de ser las trébedes, donde se pone la ola; en ese lugar os enterra nuestro señor, aquí habéis de trabajar; vuestro oficio ha de ser traer agua y moler el maíz en el metate, allí habéis de sudar, cabe la ceniza y cabe el hogar”.

      Quando um menino nascia, a oração era distinta: “Hijo mío amado, y muy tierno, sábete y entiende, que no es aquí tu casa donde has nacido, porque eres soldado, eres ave quechol. Esa casa donde has nacido no es sino un nido, tu propia tierra es el campo donde se hacen las guerras. Tu oficio es dar de beber al sol con la sangre de sus enemigos. Y esto que te corto de tu cuerpo enterrarlo han en medio del campo donde se dan las batallas”. (Ver RODRÍGUEZ-SHADOW, 1991)

      Essas duas orações somadas ao ritual de enterrar o umbigo marcavam, desde o nascimento, o lugar que competia às mulheres e aos homens na sociedade asteca: elas deveriam cuidar dos afazeres domésticos e restringirem-se ao lar, enquanto eles deveriam administrar a vida pública e social. Esses atos (enterrar o umbigo dentro de casa e enfatizar, por meio da oração, que a mulher está associada ao lar) reforçam que a atuação feminina está restrita ao interior da casa, aos afazeres domésticos. A mulher torna-se responsável pelo lar, ao mesmo tempo em que se configura como parte deste (o umbigo enterrado torna-se parte do chão da casa). Dessa forma, desde cedo, esses rituais marcam a separação dos gêneros e a distinção nas tarefas que serão atribuídas a um e a outro.

 

Referências

BELLI, Gioconda. Poemas y Otros escritos. Córdoba: Ediciones P/L@, 2002.

______. La mujer habitada. México: Editorial Diana, 1989.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Tradução de David Jardim Júnior. 12. ed. Rio de janeiro: Ediouro, 2000.

ESPINOSA, Lourdes. Semblanza de Gioconda Belli: uma sola voz, uma sola identidad. Sololiteratura.com, Barcelona, 2000. Disponível em: http//sololiteratura.com/php/index.php. Acesso em: 20 abr. 2009.

GORZONI, Priscila. As deusas Gregas e as mulheres modernas. Sociedade Digital. Santo André-SP, 20 de fev. 2003. Disponível em: http://www.sociedadedigital.com.br/artigo.php. Acesso em: 15 abr. 2009.

NAVARRO, Márcia Hoppe. Por uma voz autônoma: o papel da mulher na história e na ficção latino-americana contemporânea. In: NAVARRO, Márcia Hoppe (Org.). Rompendo o silêncio: Gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1995.

RODRÍGUEZ-SHADOW, María Jesus. La mujer azteca. Toluca, México: Universidad Autónoma del Estado de México, 1991.

 

© Ana Paula Cantarelli 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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