A utopia realista em questão:
uma discussão sobre a questão auto-reflexiva
no último romance de Machado de Assis

Profa. Dra. Adriana da Costa Teles

Universidade de São Paulo - USP - Brasil
driteles@ig.com.br


 

   
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Resumo: Desde o início de sua carreira, Machado de Assis foi marcado pela força do crítico. Além de se dedicar às suas colunas nos periódicos de seu tempo, Machado parece levar tal tendência crítica também para sua ficção, que, principalmente a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, parece entrelaçar o crítico e o ficcionista. Memorial de Aires, romance derradeiro do escritor e considerado muitas vezes o seu testamento estético, parece novamente integrar tais tendências e propor uma interessante discussão sobre aspectos relativos à construção do romance. O objetivo do presente artigo é discutir esse aspecto auto-reflexivo de Memorial de Aires.
Palabras clave: Machado de Assis, Memorial de Aires, romance.

Abstract: Machado de Assis was since de beginning of his career punctuated by criticism. Besides dedicating to his columns at papers of his time Machado takes this critical tendency also to his fiction that especially from Memórias póstumas de Brás Cubas on seems to interlace the critic and the writer. Memorial de Aires, the writer’s last novel and considered by many scholars as his aesthetic testament, seems once more to integrate both tendencies and propose an interesting discussion about aspects related to the construction of novel. The aim of this article is to discuss this aspect of Memorial de Aires.
Keywords: Machado de Assis, Memorial de Aires, novel.

 

Quem conhece a trajetória de Machado de Assis sabe que ele integrou, ao longo de uma carreira que teve início aos dezesseis anos incompletos, as funções de cronista literário, cronista jornalístico, teorista e crítico às de romancista, contista, poeta e dramaturgo, numa produção que impressiona pela abrangência e intensidade. Aos vinte anos de idade, Machado de Assis, ainda um iniciante na ficção, já era uma referência nos debates culturais de seu tempo, colaborando regularmente com jornais e periódicos cariocas. Percebe-se, assim, que o veio crítico do escritor integra suas reflexões já no início de sua carreira, configurando um aspecto importante do intelectual que despontava então.

Ao longo de seu percurso como escritor, no entanto, Machado parece ir gradativamente integrando em sua produção ficcional sua reflexão crítica, fundindo ambas as vertentes, o que se torna definitivamente intenso a partir das Memórias Póstumas de Brás Cubas. O autor, que se ocupava de obras alheias em suas colunas, parece, então, definitivamente entrelaçar as funções de crítico e ficcionista, tecendo textos que extrapolam sua condição de ficção para empreender uma densa e interessante discussão sobre seu próprio fazer.

Em Memorial de Aires, obra derradeira do autor e considerada por muitos como um testamento estético de Machado, ambas as funções surgem mais uma vez entrelaçadas, união que origina um interessante diálogo a envolver questões pertinentes ao fazer do romance, aspecto bastante em voga no final do século XIX. Tal debate estético apoia-se em determinadas opções composicionais empreendidas pelo escritor para compor Memorial, o que proporciona uma discussão que resvala em certas opções marcadas por convenções de escola, como o Realismo, por exemplo. O objetivo do presente artigo é discutir esse aspecto auto-reflexivo de Memorial de Aires, apontando para o diálogo que o escritor estabelece com preceitos realistas e para sua suposta utopia.

 

A ficção extratextual proposta por Machado

Para discutirmos esse aspecto auto-reflexivo de Memorial de Aires, faz-se necessário que nos voltemos, primeiramente, ao contexto apresentado pelo autor/editor em que suas duas últimas obras, que tem em comum, dentre outros aspectos, a presença da personagem Aires, teriam chegado ao público. Trata-se de uma ficção extratextual criada pelo autor que acaba por lançar elementos importantes para nossa discussão.

Na Advertência que antecede Esaú e Jacó, o “editor” da obra afirma que, quando o Conselheiro José da Costa Marcondes Aires morreu, foi encontrado em sua escrivaninha um Memorial que seria composto por seis volumes, cada um dos quais "tinha o seu número de ordem por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada" (MACHADO DE ASSIS, 2003, p. 9) junto a um outro volume, intitulado Último, e que recebeu o nome de Esaú e Jacó. Esses seis volumes, afirma o “editor”, tratavam de lembranças que o Conselheiro escrevia desde muitos anos. O “editor” afirma, na ocasião, que a opção era a de publicar apenas o Último, visto que os outros seis volumes, o Memorial, "apenas daria (e talvez dê) para matar o tempo da barca de Petrópolis" (MACHADO DE ASSIS, 2003, p. 9).

Na advertência que faz ao Memorial de Aires, M. de A. (Machado de Assis?) retoma as considerações que faz em Esaú e Jacó, lembrando o leitor do que havia dito então. O “editor” mostra-se, agora, na incumbência de publicar as anotações do diário que Aires escrevia, mas atesta que "achou-se" que "a parte relativa a uns dois anos (1888-1889), se for decotada de algumas circunstâncias, anedotas, descrições e reflexões, __ pode dar uma narração seguida, que talvez interesse, apesar da forma de diário que tem" (MACHADO DE ASSIS, 2003, p. 9).

Dessa forma, Memorial de Aires, narração pretensamente verdadeira, viria a público tendo passado por um processo de recorte e em formato não integral. Muito embora o conteúdo dos seis cadernos escritos pelo Conselheiro abarcasse muitos anos, há uma seleção de apenas dois. A opção é, como afirma M. de A., a de conservar para a publicação apenas "o que liga o mesmo assunto", estratégia interessante, pois Machado, ao mesmo tempo em que valendo-se desse curioso recurso afasta-se da posição de sujeito enunciador do discurso, legitimando a existência de um sujeito outro que responderia pela autoria da obra, afirma que houve uma intervenção externa que teve a intenção de trazer a público um conteúdo previamente selecionado. Tais dados parecem sugerir ainda que o Memorial não traria anotações feitas ao acaso por um velho aposentado que queria matar seu tempo pura e simplesmente. Era um hábito cultivado cuidadosamente por anos, aliás, um hábito cuja dimensão sequer podemos precisar, afinal nosso acesso a seus diários seria parcial e restrito.

Ao colocar-se no papel do editor de um memorial verdadeiro, Machado “desliteratiza” a obra, uma vez que a apresenta como um documento real. Em termos composicionais, a advertência, responsável pela aparência de “real” que o texto ostenta, apresenta a função de estabelecer um pacto de leitura do autor com o leitor. Quando o editor Machado nos diz que Aires é o sujeito enunciador daquele discurso que leremos, passamos a aceitar este fato como verdadeiro e a nos comportar como se estivéssemos lendo seu discurso.

Apesar de tudo não passar de uma grande encenação, em termos práticos é como se Machado assumisse o papel de um editor do texto e não de seu autor. A opção pela forma diário, cuja autoria engenhosamente atribui ao Conselheiro Aires, negando, com isso, seu papel criador da obra, parece ilustrar uma espécie de problematização ou olhar crítico sobre o alicerce em que repousa a arte narrativa, a representação do mundo objetivo.

Ao mostrar empenho em filiar da realidade ambos os textos, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, o autor parece mostrar preocupação com princípios técnicos e formais. A insistência de Machado em apartar sua figura da do narrador, assim como atestar a veracidade do relato que, como editor, estaria trazendo a público, reforça a sensação no leitor mais experiente de que a própria forma diário e o narrador supostamente inserido na realidade seriam índices a serem valorizados no percurso de leitura da obra.

 

A forma diário e o foco narrativo

Memorial de Aires remete o leitor a duas obras precedentes de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. As três se irmanam pelo foco narrativo em primeira pessoa e por certo traço memorialístico. Memorial, no entanto, difere das outras duas obras do autor em um ponto crucial. Apesar de apresentar um narrador em primeira pessoa, Memorial não é uma escrita autobiográfica, que visa a recompor acontecimentos específicos localizados num passado distante do momento da enunciação, mas, sim, trata-se de um diário íntimo, que teria no registro do cotidiano a sua razão de ser.

Discutindo autobiografias e diários, Marcelo Duarte Mathias pondera que: "se a autobiografia só existe verdadeiramente quando nela se fixa o olhar de outrem, isto é, o leitor, o diário, esse, edifica-se afastado do mundo dos outros" (MATHIAS, 1997, p. 46). O trabalho do narrador autobiográfico só ganha sentido e se concretiza quando interage com um interlocutor. Sua presença é, desse modo, não apenas esperada, mas parte do projeto inicial do enunciador. Por outro lado, o trabalho do diarista se concretiza no próprio ato de composição de seu texto, é sua escritura que lhe dá razão de existir, ou seja, parafraseando Mathias, é longe do público que o diário radica sua razão de ser (1997, p. 46). A escrita diarística caracteriza-se, desse modo, por um deliberado isolamento. Aires, diferente de Bentinho e Brás Cubas, não escreveria, a princípio, para ser lido.

A divulgação do diário íntimo do Conselheiro não teria partido, como o “editor” deixa claro na “Advertência”, do próprio Aires. O pacto selado entre o autor e o leitor do Memorial implica que este acate a idéia de que o texto foi divulgado após a morte de seu narrador por pessoas que teriam encontrado o diário em sua secretária. Tal dado parece criar a ilusão no leitor de que o texto não teria algum objetivo calculado em fornecer sentidos previamente determinados ou exercer algum tipo de manipulação por meio de seu discurso, atuando como elemento importante na estratégia adotada por Machado de simular uma situação de composição narrativa pautada na realidade. Afinal, tal manipulação do discurso poderia ocorrer caso a presença do leitor fosse esperada e/ou presumida. O relato pode, dentro desse contexto criado por Machado, ser tomado como uma experiência de cunho pessoal, que tem como objetivo primeiro o registro puro e simples do cotidiano, diferente do que ocorre com obras anteriores.

O tipo de discurso que resulta dessa experiência solitária e auto-centrada de escrita deve ser observado com cuidado, sobretudo se se considerar a matéria de que se compõe. Para Mathias, os temas que fundamentam e servem de matéria-prima à elaboração do diário íntimo são "os destroços e sinais que compõem nossa verdade: a revelação dos tempos mortos e o fulgor dos dias subtraídos ao tempo. E ainda a observação e o testemunho, os lugares e pessoas à nossa volta, a pontuação dos dias" (1997, p. 48). Como vemos, o discurso que compõe o diário tem, tanto pelos referentes do enunciado quanto pelo modo de enunciação, na subjetividade do olhar que o constrói uma marca predominante. O diário de Aires acompanha o evoluir dos eventos que o rodeiam e que se interligam à progressão cronológica de sua narração, registrando-os do modo como os capta sua ótica enquanto transcritor. Seu conteúdo é, assim, marcado por uma visão parcial, baseada em determinado ponto de onde surgem todos os comentários.

O caráter intimista do gênero escolhido por Machado para compor seu último romance parece servir ao propósito de denunciar um olhar que simula importar da realidade a matéria base para sua composição. O diário de Aires, ao simular uma experiência verdadeira de registro, traz, portanto, uma parcela do cotidiano "real" visto a partir de uma ótica determinada, a do enunciador. Tal simulação cria a ilusão, no leitor, de estar em contato com a realidade.

O papel do leitor em meio a esse suposto exercício de escrita íntima e de progressivo registro da realidade parece ser o de um voyeur. Violando a intimidade do enunciador, este entra em contato direto com seu cotidiano e, dessa forma, com os fatos que o diarista julgou importante registrar, as impressões que situações e pessoas lhe conferiram, suas reflexões, estados de espírito, enfim, com sua visão do universo vivenciado. O efeito da estratégia de simulação empregada por Machado leva o leitor a acreditar que pode, justamente pela natureza do relato, atingir a pureza mais profunda dos pensamentos do narrador e o apanhar nu, despojado de qualquer artifício.

Como se trata de um narrador homodiegético, se quisermos aproveitar a nomenclatura teórica de Genette a esse respeito, esse posicionamento implica, no entanto, uma experiência interessante. Embora Aires seja supostamente uma pessoa comum, em posição diferente do que ocorreria com um narrador onisciente, seu saber limitado ao alcance de seus olhos passa pelo crivo do diplomata aposentado (e astuto). Se o mais que Aires consegue além do que vê e das impressões que esta experiência lhe confere provém de relatos feitos por outras pessoas de sua convivência, tal limitação é "compensada" pela astúcia com que manipula esses limites. Os fatos são de alcance limitado, mas as sutilezas e os índices sugeridos incitam a curiosidade do leitor. O diário do Conselheiro tem, desse modo, na imprecisão e na subjetividade características que não podem ser ignoradas, já que os registros provêm de um olhar limitado e impreciso, porém tal parcialidade contrabalança a instigação provocada pelo implícito.

A subjetividade inerente ao gênero diário transparece no Memorial, dentre outros aspectos, por meio do uso recorrente de modalizadores no discurso, índices sintáticos e semânticos que geram interessantes efeitos na composição dos sentidos agenciados pelo texto. Ao se valer do recurso da modalização, Machado cria uma malha textual que ecoa imprecisão e, assim, apesar de o discurso se afirmar filiado ao meio a ser focalizado, a verdade aparece como fugidia dos domínios do narrador e, conseqüentemente, também do leitor do discurso. Modalizadores como "creio", "talvez", "acredito", "pareceu", trabalham na composição dessa imprecisão que permeia o discurso do Memorial, como comprovam as seguintes passagens: “Como se falasse da morte do barão de Santa-Pia e da situação da filha, D. Cesárea perguntou se ela realmente não casava. Parece que duvida da viuvez de Fidélia” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 53, grifo nosso); “Creio que Tristão anda namorado de Fidélia” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 94, grifo nosso); “Talvez seja engano meu, mas acho a viúva agora mais bonita. A causa disso pode ser a mudança próxima do estado” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 107, grifo nosso).

Os olhos do narrador não dão conta de ultrapassar a máscara que recobre situações e personagens. Dessa maneira, o relato carece de certezas e limita-se aos domínios das impressões e da opinião pessoal. A opção pelo diário e pelo foco narrativo em primeira pessoa faz com que partilhemos dúvidas e impressões. Ao narrador parece que Dona Cesárea não acredita na viuvez de Fidélia, não há nada, no entanto, que nos assegure que sua impressão seja verdadeira. Aires crê, ainda, que Tristão esteja gostando de Fidélia, mas não seria isso apenas o devaneio de um velho aposentado? O próprio Conselheiro assume este caráter subjetivo e incerto de suas impressões quando nos diz que talvez esteja enganado acerca de sua opinião.

Para Mathias, o diário íntimo é onde a "introversão constitui o elemento preponderante", os fatos e eventos exteriores "apenas existem em função da subjetividade do autor" (1997, p. 47). Tal aspecto da narrativa diário é ardilosamente trabalhado por Machado, que recupera toda a carga de ambigüidade por meio da qual a realidade se mostra ao observador. A observação e análise de tais dados, apesar de também subjetiva e incerta, é tudo o que o narrador tem para tentar decifrar o que o rodeia. O narrador, a exemplo do que ocorre com o leitor em sua vida diária, não tem pleno domínio sobre o que presencia. A subjetividade que um discurso dessa natureza pressupõe se constitui em um elemento preponderante para a análise do texto. Afinal, o narrador homodiegético e suas implicações não atenderiam a um objetivo específico e previamente calculado por Machado?

A discussão sobre o processo construtivo da narrativa não se dá apenas em aspectos formais. Ela se faz, também, por meio de comentários do próprio narrador, a questionar a eficácia de seu discurso na transposição do que presencia para o diário. Aparentemente consciente da imprecisão da palavra, do quão subjetivo seu discurso pode ser e, consequentemente, precária tal experiência de registro pode resultar, Aires volta-se constantemente à sua escrita, num ato de reavaliação das anotações para corrigi-las ou repensá-las: “Lá fui ontem às bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as minhas impressões da noite” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 19); “Relendo o que escrevi ontem, descubro que poderia ser ainda mais resumido, e principalmente não lhe por tantas lágrimas” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 28). Ciente dos exageros e deslizes que a pessoalidade pode acarretar para seu relato, Aires busca rasurar o excesso ou desculpar-se pelos equívocos. No que concerne a esse posicionamento crítico diante do próprio texto, Juracy Assmann Saraiva pontua que o narrador revela "os critérios estéticos pelos quais orienta a composição do Memorial" (1993, p. 171). Aires busca se apoiar nos critérios de concisão e objetividade para seu registro, o que implicaria não colocar informações além do necessário à compreensão de fatos e pessoas, porém as constantes auto-correções revelam, afinal, que o impulso para desdobramentos e sutilezas maliciosas é bem maior do que a contenção. Portanto: entre assumir uma posição equilibrada, isenta de paixões e radicalismos, e realizá-la pela narração há uma diferença. Aires acaba se traindo e se vê obrigado a voltar a ponta de seu compasso para aparar as arestas da escrita.

Dessa forma, o narrador tenta construir um discurso que se aproxime de certa neutralidade narrativa, garantida por um suposto comedimento de sua parte. No entanto, a cautela do narrador em confessar que registrará somente “o que valer a pena guardar" (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 23), já é um índice de que essa relação não é totalmente confiável:

Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petrópolis acerca do casal Aguiar. Não ponho os incidentes nem as anedotas soltas, e até excluo os adjetivos que tinham mais interesse na boca dele do que lhes poderia dar a minha pena; vão só os precisos à compreensão de coisas e pessoas (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 25).

Aires confessa retirar de sua narração qualquer elemento que possa comprometer o fato e revelar a impressão que este lhe confere, porém essa suposta propensão para a concisão coexiste com momentos recheados de índices de ambigüidade ou abertura para suposições. Os excessos são perigosos, pois podem mostrar o que há de pessoal nas considerações que faz: "Lá fui ontem às bodas de prata. Vejamos se posso resumir agora as minhas impressões da noite" (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 19), mas sua contenção também é simulada, pois o “se posso resumir” não garante sua eficácia, pelo contrário, denuncia seu caráter parcial.

Ao assumir a dificuldade em atingir o ponto exato da narração, o memorialista chama a atenção para a distância entre os referentes “reais” a comporem o enunciado e a forma capaz (justa?) de materializá-los pela enunciação:

A mana e eu estivemos ontem em casa da boa velha Aguiar. Saí de lá mais cedo do que quisera; se pudesse, ficaria mais tempo.

Achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um estado que se não descreve; eu ao menos, não posso (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 48).

A hesitação em definir o que identificou no rosto de Dona Carmo se complementa com a consciência quanto aos limites da linguagem, o que acentua o caráter subjetivo das impressões que Aires tem do exterior. Ao observar o que o rodeia e recriar os fatos por meio da escrita, o narrador evidencia dois aspectos de fundamental importância: primeiro, que esse universo escapa a seu domínio, por mais que a linguagem se empenhe em dar conta do que foi presenciado; segundo, é o registro mesmo dessa impossibilidade o que, afinal, interessa como testemunho. Na passagem acima, Aires afirma que não pode descrever o que viu no rosto de D. Carmo, e tal imprecisão funciona como hábil estratégia de uma composição atenta a seus próprios mecanismos.

As constantes discussões acerca dos problemas enfrentados pela escrita memorialística para a representação do observado colocam em relevo a performance escritural de um texto que reflete em espelho o seu próprio fazer narrativo.

 

Narrador e leitor: parceiros no exercício de decifrar

O papel de Aires enquanto leitor não se resume a essa prática metalingüística, ainda que esse trabalho de reflexão sobre o ato composicional seja essencial à ficção machadiana. Há um outro processo de leitura em jogo, que se origina ainda antes do ato da escrita, quando o Conselheiro volta seu "par de lunetas" ao universo que o rodeia. A escrita do Memorial configura-se, assim, como uma transposição de um universo a outro. Como ser supostamente inserido na realidade, Aires é aquele que transpõe a leitura do mundo exterior para a escrita de seu diário.

O leitor do Memorial, em contato com os pensamentos desnudos do narrador, uma vez que lê uma narrativa íntima, percebe que para o Conselheiro o mundo é uma espécie de livro a ser lido, com personagens e situações a serem interpretados e decifrados.

Essa tarefa de decifrar parece se configurar como um elemento-chave no processo de leitura da obra. Segundo Juracy Assmann Saraiva, "o exercício da arte do deciframento é o núcleo da realização do Memorial, pois não só reproduz a atividade do sujeito enunciador em sua tentativa hermenêutica, como sugere a via de acesso à elucidação do texto" (1993, p. 176). Aires, observador perspicaz do mundo, traz para seu texto detalhes de pessoas e situações e assume que gosta de apreciar "a maneira por que os caracteres se exprimem e se compõem". O leitor, tendo aceitado partilhar desse pacto ficcional com o narrador no relato de suas impressões, também tem sua parcela no exercício de decifrar, pois Aires não declara a interpretação que empreende do universo exterior, mas deixa pistas instigadoras.

A atividade de escrita do diário é o resultado de uma atividade prévia de leitura do mundo e de suas pessoas. Segundo Saraiva:

embora os significados façam parte da natureza dos livros e dos indivíduos, eles nem sempre expõem o sentido que resguardam, manifestando, por vezes, a incoerência no modo de ser e exigindo que o decodificador busque apreender, por detrás dos sinais visíveis, os significados ocultos (1993, p. 178).

Dessa maneira, as personagens se configurariam como estruturas sígnicas. Para Saraiva, a maneira como são caracterizadas as personagens Fidélia e Tristão, por exemplo, explicita o processo de decodificação posto em prática por Aires resultante da análise dos sinais visíveis, a que se acresce a interpretação (1993, p. 178).

Mostrando os critérios em que se baseia para elaborar o relato, Aires deixa subentendidos os princípios do processo de interação do leitor com o seu texto. Arma-se, assim, uma relação homológica entre leitor/texto e Aires/realidade, ambas correlações calcadas no exercício do decifrar. Segundo Saraiva, "na ação do narrador se espelha a ação do leitor, sendo a primeira orientadora dos procedimentos que devem nortear a segunda" (1993, p. 182).

No entanto, Saraiva mostra que, por outro lado, tal sugestão de leitura do texto, implícita pelo próprio ato do narrador em relação à realidade que o rodeia, evidencia o quão intangível podem ser os significados e verdades do mundo de Aires. Afinal, o diário nada mais é do que "o enunciado de uma interpretação", segundo a autora. Haveria no Memorial uma espécie de banalização dos significados implícita em um processo de valorização do exercício de leitura e interpretação:

a auto-referencialidade, ao centrar-se na problemática da leitura, conota uma questão essencial: a da intangibilidade dos significados, visto que eles configuram o enunciado de uma interpretação. Mas, ao evidenciar a circunstância do deslocamento de significados, o Memorial, de certa forma, banaliza a importância deles, sobrepondo-lhes a validade do exercício da interpretação (...) (SARAIVA, 1993, p. 182)

Em Esaú e Jacó, o narrador declara ao leitor daquele texto qual seria a postura acertada de leitura que mereceria ser recuperada. Segundo ele, "o leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por ele faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava ou parecia estar escondida" (Esaú e Jacó p, 75). Ora, a verdade, muitas vezes oculta nos labirintos do texto, requer um sujeito que desempenhe uma leitura ativa, capaz de permitir a dedução de supostas "verdades". No entanto, tal exercício de leitura e interpretação do mundo não garante que o leitor atinja a almejada realidade dos fatos e pessoas, pois a verdade que se esconde na ambigüidade que cerca o narrador parece se mostrar, no Memorial, apenas como passível de dedução, porém cercada de incertezas. Ao leitor é negada a possibilidade de conclusão, uma vez que renovadas interpretações podem transgredir uma leitura previamente realizada sobre a obra.

 

Conclusão

Um dos fios condutores de uma interpretação do Memorial passa, a nosso ver, por uma reflexão acerca da forma (diário) escolhida para acolher o conteúdo, assim como para as implicações que esta mesma forma tem na composição dos sentidos veiculados pelo material. A forma diário não parece ser apenas um elemento (importante) responsável pela verossimilhança no Memorial, como também componente primordial na configuração dos sentidos subjacentes ao texto.

Em Questões de literatura e de estética (2002), Bakhtin faz considerações a esse respeito que podem contribuir para nossa discussão. O crítico soviético pontua que a forma composicional se constitui como elemento-chave na composição da arquitetura dos sentidos do texto, e mais do que um aspecto técnico, ela é parte integrante e responsável pela construção dos sentidos. Por isso, a forma significa, não é neutra. Para Bakhtin conteúdo e forma estão intrinsecamente ligados, conjunção que não é direta nem superficialmente visível, devendo, portanto, ser lida em suas interações com os temas que mobiliza e/ou com os temas com as quais se articula ou é articulada. A forma se desmaterializa e ultrapassa os limites da obra enquanto material organizado, "quando se transforma numa expressão da atividade criativa, determinada axiologicamente, de um sujeito esteticamente ativo" (BAKHTIN, 2002, p.57). Digamos, então, e em conformidade à terminologia bakhtiniana, que a forma escolhida por Machado para acolher o material é um signo dentro da semântica do Memorial. Desse modo, um dado que é na aparência técnico resulta em um caminho por meio do qual o crítico pode transitar em busca de significados dentro da narrativa.

No caso de Memorial de Aires, a forma diário, ao mesmo tempo em que simula uma representação da realidade sócio-familiar, nega ao leitor que conheça o que de fato se esconde sob a aparência a que temos acesso via olhar do narrador. Ao criar um narrador com vida própria e apresentar seu relato como verdadeiro, Machado propõe um exercício. O narrador em primeira pessoa traz, nos acontecimentos que registra, fatos e pessoas de seu dia-a-dia. No entanto, apesar de os aspectos enfocados serem supostamente pautados na realidade, tudo o que o narrador tem e, consequentemente, também nós leitores, não passa de impressões, como ele próprio nos confessa na seguinte passagem: “não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e idéias” (MACHADO DE ASSIS, 1976, p. 63).

Tais elementos, cuidadosamente trabalhados pelo autor, não se limitariam a dar credibilidade ao discurso através de uma perfeita ilusão de realidade. A verossimilhança parece, antes, um recurso para o autor veicular sua concepção de representação da realidade, assunto bastante em pauta na época, haja vista as idéias realistas tão em voga no fim do século XIX.

O narrador que, para tal estética, e tendo como um dos defensores máximos a figura de Flaubert, deveria ter acesso irrestrito à mente das personagens, não se deixando notar, aparece em Memorial na figura de uma testemunha ocular. Contrariando a tendência geral, Machado opta por um foco narrativo limitado pelo olhar subjetivo da primeira pessoa, não possuindo, portanto, meios de desvendar totalmente a máscara que envolve personagens e situações. Assim, ao invés de desnudar as personagens e seus pensamentos para o leitor, o narrador de Memorial mostra-se, ao contrário, tão incapaz quanto ele próprio de compreender com clareza o que o rodeia.

Se a estética realista, pelo menos em seus limites programáticos, define como narrador mais propício aquele que não se mostra, criando a ilusão de que os próprios fatos se narram, para Machado, o narrador em primeira pessoa, portanto, marcado pela subjetividade e não pela objetividade, parece ser o que traduz melhor os impasses (contradições) do jogo ficcional. Afinal, apesar de simular uma representação que se aproximaria o mais possível do real, ironicamente, o acesso à “verdade” nos é negado. Tal experiência parece sugerir que a tarefa de representação nos moldes em que era veiculada é, não apenas difícil, mas quase intangível, visto que a “verdade” que subjaz aos fatos não se mostra nem a quem os presencia, quanto mais ao leitor, mesmo que este se mostre aberto para acolher o jogo instituído pela ficção.

A proposta da “Advertência” é a de uma narrativa que objetiva apresentar situações de fato vividas, no entanto, a dúvida é seu ponto mais marcante; em vez de oferecer um painel com nitidez, a escrita do Memorial levanta suspeitas e questões não apenas com relação à matéria narrada mas também quanto à própria forma de narrar. Mas, não é a realidade um objeto de fato indecifrável? Nosso quotidiano não é também pautado pela dúvida? Ao trapacear com os fatos e com o seu próprio posicionamento narrativo diante deles, não estaria Aires sendo fiel (verossímil) à natureza inapreensível do real e à sua impossibilidade de captura pela linguagem?

 

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética. A teoria do romance. 5.ed. São Paulo: Annablume, 2002.

CINTRA, I. Â. Retórica da narrativa em Machado de Assis (Esaú e Jacó). São José do Rio Preto: UNESP/Ibilce, 1985. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) _ Ibilce, São José do Rio Preto, 1985.

MACHADO DE ASSIS, J. M. Memorial de Aires. São Paulo: Ática, 1976.

—— Esaú e Jacó. São Paulo: Nova Cultural, 2003.

MATIAS, M. D. Autobiografias e diários. Colóquio n 143/144, pp 41-62, jan-jun de 1997.

SARAIVA, J. A. O circuito das memórias em Machado de Assis. São Paulo: EDUSP, 1993.

 

© Adriana da Costa Teles 2010

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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