Álvaro de Campos: o poeta da angústia

Angela Guida [1]

Instituto de Ensino Superior de Santos Dumont-MG


 

   
Localice en este documento

 

Abstract: The present article aims to discuss the concept of anguish postulated by Heidegger, in a dialogue with the poetic of Álvaro de Campos.
Palabras clave: F. Pessoa, Alvaro de Campos, Martin Heidegger

 

Angústia pode ser o desemparo de estar vivo.
Clarice Lispector

O motivo da angústia é sempre um nada.
Kierkegaard

 

No ensaio - Que é metafísica? - o filósofo alemão Martin Heidegger tece uma poética reflexão acerca da angústia. Para o diálogo com essa tonalidade afetiva, o filósofo inicia suas reflexões em torno de um objeto que, diante da linguagem cotidiana e dos olhos da ciência, parece não revelar muita coisa, ou, quando muito, apenas uma visão vulgar niilista. Trata-se do nada. O nada, diz Heidegger: “É a possibilidade da revelação do ente enquanto tal para o ser-aí humano. O nada não é um conceito oposto ao ente, mas pertence originariamente à essência mesma do ser (1979, p. 41).”

Mas se o nada é renegado, questiona Heidegger, isso já não seria um indício de que ele significaria algo? Afinal, só abandonamos e/ou renegamos aquilo que nós, em algum momento, admitimos existir. Dessa forma, o nada não se dá apenas como uma simples negativa, pois, ao rejeitá-lo como algo que não existe, já confirmamos sua existência.

A ciência, na sua sobranceira indiferença com relação a ele [nada], rejeita-o como aquilo que “não existe.”

Nós, contudo procuramos perguntar pelo nada. Que é o nada? Já a primeira abordagem desta questão mostra algo insólito. No nosso interrogar já supomos antecipadamente o nada como algo que “é” assim e assim - como um ente (HEIDEGGER, 1979, pp. 36,37).

A longa reflexão que Heidegger engendra acerca do nada, na verdade, é um preparar o terreno para se chegar à questão da angústia. O filósofo, antes, propõe uma distinção para temor e angústia e, a partir de tal distinção, ele nos apresenta a angústia como uma manifestação do nada. O temor se caracteriza por sua determinação. Somos capazes de apontar aquilo que é o objeto de nosso temor. “Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça. O temor de... sempre teme por algo determinado (HEIDEGGER, 1979, p. 39).” Já a tonalidade afetiva denominada angústia é marcada pela indeterminação. Não conseguimos apontar o que nos deixa angustiados, porque a angústia nos corta a palavra. “A angústia diante de... é sempre angústia por..., mas não por isto ou aquilo. O caráter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de determinação (HEIDEGGER, 1979, p. 39).” Heidegger argumenta que ao sermos tomados pela angústia, também somos tomados por um estranhamento. Porque se dá tal estranhamento? Ele se dá porque não conseguimos enunciar aquilo que nos angustia e, quando indagados, só nos é possível dizer que nesse sentir-se estranho, nesse “mal-estar que faz pregas na alma”, não temos nada. Não seria esse nada pleno de algo? No entanto, não conseguimos identificar o que vem a ser esse algo, daí, Heidegger concluir que o nada se torna manifesto na angústia e pela angústia. Quando muito, na tentativa de romper o vazio do silêncio, só conseguimos enunciar, diz Heidegger, palavras desconexas e desesperadas que só fazem constatar a presença do nada.

Dos três heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, sabemos que Ricardo Reis é o poeta clássico, contido em suas emoções; Alberto Caeiro, o poeta da simplicidade e serenidade contemplativa e Álvaro de Campos, o poeta do transbordamento, o poeta do nada e, porque não dizer, o poeta da angústia.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? Não sei...
Um nada que dói... (CAMPOS, 2002, p. 452)

Se fizéssemos um inventário estilístico [2] dos poemas de Campos, seria fácil constatar a alta incidência de expressões negativas, expressões essas que poderiam ser um forte indicativo de que sua poética encontra-se assinalada pelo signo da impossibilidade e da ausência. No entanto, a presença marcada do nada, parece nos revelar mais que uma simples expressão de cunho negativo. O nada enunciado pelo poeta vai além de uma negatividade. O “nada que dói” revela o estranhamento diante do nada, sobre o qual fala Heidegger e, por conseguinte, revela a angústia que perpassa a essência do poeta engenheiro. O ensaísta português Eduardo Lourenço argumenta que os versos de Álvaro de Campos revelam múltiplas sensações, porque eles se encontram marcados por uma temporalidade múltipla. O nada de Campos e, por conseguinte, sua angústia estariam relacionados à sua experiência com o tempo. Assim, as observações de Eduardo Lourenço parecem apontar uma determinação para a angústia do poeta engenheiro - o tempo, “o nada vivo em que estamos (Campos, 2002, p. 428).” A temporalidade em Campos, argumenta Eduardo Lourenço, é vivida como angústia (1999). A questão do tempo, de fato, perpassa boa parte dos escritos de Álvaro de Campos, um tempo associado ao tédio existencial. “Estou cheio de tédio, de nada” (CAMPOS, 2002: 536). De início, o nada justaposto ao tédio poderia até sugerir uma espécie de alento para essa tonalidade afetiva. O poeta está cheio de tédio e o tédio é nada. Será? Não. É justamente o contrário. O nada ao lado do tédio confere a ele toda a inquietude. Estar cheio de tédio, estar cheio de nada é tudo, porque o nada não é nada, pelo menos, dentro da caracterização vulgar que se dá a ele, conforme já expusemos. Assim, estar cheio de tédio e cheio de nada implica muito mais do que inicialmente se poderia imaginar. Uma das formas de tédio, diz-nos Heidegger, pode ser o vazio ocasionado pelo “não sei o quê”. Se o tédio estabelece relação com o tempo, por extensão, a angústia, também caracterizada pelo “não sei o quê”, poderia encontrar seu eco no tempo. Mas seria apenas o tempo a origem da angústia do poeta? A nós, parece que, como diz Heidegger, esta angústia não apresenta motivo aparente. É um nada. É um nada que dói exatamente pela impossibilidade de determiná-lo. Heidegger argumenta que a angústia é originária. Ela está no ser-aí do homem e renunciá-la seria renunciar a ek-sistência, renunciar ao viver. Podemos vislumbrar um bom exemplo dessa angústia como resistência à vida no poema Bicarbonato de soda, em que o poeta engenheiro revela uma dor tamanha diante da angústia indeterminada, a ponto de questionar se não deveria pôr fim à vida para findar com tão grande dor. No entanto, logo em seguida afirma que vai existir, mesmo na angústia. A angústia é súbita, isto é, vem do nada. Vem do nada porque ela está no ser-aí do homem.

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
(...)

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
(...)
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir..
E--xis--tir... (CAMPOS , 2002, p. 366)

Nos versos de Esta velha angústia também nos é possível vislumbrar a angústia que vem da origem. A angústia que se encontra no ser-aí do homem. E, uma vez mais, a presença da palavra “súbita” indica que ela veio do nada. Do nada? Sabemos que não. Ela já estava no ser-aí do homem.

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
(...) (CAMPOS, 2002, p. 449)

Conforme já expusemos, na leitura de Heidegger, a angústia se dá como aquilo que nos corta a palavra. É também Heidegger quem nos diz que “a linguagem é a morada do ser” (2008, p. 326). Mas se a angústia nos corta a palavra, estar na angústia não seria um estar sem casa? Mas como podemos estar sem morada se a angústia reside no ser-aí do homem? Então não é um estar sem casa. É um estar com uma “tampa” em nossa morada. A palavra cortada pela angústia é uma tampa que sufoca nossa necessidade de discurso, nossa necessidade de estar em casa pelas vias da linguagem. Em Puseram-me uma tampa, Álvaro de Campos nos revela o quão de angústia tem esse cortar a palavra. Um grito interrompido. Um grito entrecortado de angústia.

Puseram-me uma tampa -
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.

Que grandes aspirações!
Que magnas plenitudes!
E algumas delas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me uma tampa.
Como a um daqueles penicos antigos -
Lá nos longes tradicionais da província -
Uma tampa (CAMPOS, 2002, p. 447).

Kierkegaard argumenta que a angústia pode ser vista como dirigida para a liberdade. Se a angústia coloca sobre nós uma tampa que nos corta a palavra, de que maneira ela nos conduziria à liberdade? Talvez seja exatamente por essa razão, uma vez que somos impelidos a tirar essa tampa, cada um dentro do seu kairós, do seu tempo próprio e oportuno. Decerto, haverá uma possibilidade de mudança, de renovação, ainda que seja sob os domínios da dor, sob os domínios de um nada que dói, afinal, não há libertação e renovação sem dor. Assim, não poderíamos também pensar que a angústia, de alguma forma, conduz-nos a ação? Estaria aí a origem de todo cansaço de Álvaro de Campos? Se a angustia revolve todo nosso ser-aí, o cansaço em Campos é natural, afinal, ele é o poeta angustiado por excelência. Esse cansaço se manifesta em muitos de seus versos.

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto ou daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
(...)

Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço... (CAMPOS, 2002, pp. 475, 476).

Iniciamos esta escrita recuperando as reflexões que Heidegger faz em torno do nada, a fim de chegar à questão maior - a angústia. E, ao final de nossa pequena reflexão, somos levados a compartilhar com o filósofo que o nada não se dá como uma mera expressão negativa, uma vez que ele é a mais completa manifestação da angústia e, decerto, quem passa pela experiência dessa tonalidade afetiva sabe que o nada que perpassa a angústia é um nada que é tudo. Um nada que dói, mas que pode nos salvar ou nos lançar num abismo sem fim se não conseguirmos tirar a tampa que nos corta a palavra, a tampa que sufoca o ser-aí do homem, como parece ser aquela que envolve a poética de Álvaro de Campos e o deixa imerso no “desamparo de estar vivo”, como bem coloca Clarice Lispector.

Afinal
Que fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada... (CAMPOS, 2002, p. 500).

 

Notas

[1] Doutora em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e docente de Literatura e Língua Portuguesa do Instituto de Ensino Superior de Santos Dumont-MG.

[2] A professora Cleonice Berardinelli, conceituada estudiosa da poética de Fernando Pessoa e uma das organizadoras da obra de Álvaro de Campos, faz um inventário das expressões negativas presentes na obra de Fernando Pessoa. Esse estudo também pode ser conferido em Fernando Pessoa: outra vez te revejo... Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004.

Referências bibliográficas

BERARDINELLI, Cleonice. Fernando Pessoa: outra vez te revejo. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004.

CAMPOS, Álvaro de. Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. In. Marcas do caminho. Trad. Ernildo Stein. Petrópolis: Editora Vozes, 2008.

——. Os conceitos fundamentais da metafísica. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2006.

——. Que é metafísica? In. Os pensadores. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

LORENÇO, Eduardo. Mitologia da saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

KIERKEGAARD, Soren. O conceito de angústia. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Hemus, 1968.

 

© Angela Guida 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero47/alcampos.html